sexta-feira, 11 de maio de 2012

(10-12) # PUTNAM E TERMOS GERAIS - "COMO EXPRESSÕES REFERENCIAIS REFEREM?" (Caps. 10, 11 e 12)

Esse texto é um draft ainda bastante deficiente dos capítulos 10, 11 e 12 do livro Como expressões referenciais referem? Mas a crítica ao brilhante argumento externalista de Putnam me parece realmente conclusiva. A postagem no blog fez desaparecerem as notas de rodapé.


PARTE III: TERMOS GERAIS



10.

INTRODUÇÃO: DESCRITIVISMO VERSUS CAUSALISMO


Quero nesse capítulo introduzir a problemática da referência dos termos gerais. Se nos limitarmos a palavras-conceitos, os termos gerais incluem os assim chamados nomes contáveis como ‘tigre’ e ‘cadeira’, nomes de massa, como ‘água’ e ‘ouro’, nomes de espécies naturais como ‘átomo’, ‘tigre’, ‘água’ e ‘ouro’, nomes de espécies sociais como ‘ditador’ e ‘filósofo’, nomes de artefatos, como ‘cadeira’ e ‘computador’, e ainda outros. Também aqui há uma disputa entre a concepção descritivista e a causal-histórica. Do mesmo modo que fiz no caso dos termos singulares, quero aqui argumentar a favor de uma concepção dos termos gerais que apesar de admitir um elemento causal é predominantemente descritivista.
Descritivismo
A teoria descritivista dos termos gerais é em grande medida análoga à teoria descritivista dos nomes próprios. Por isso ela está em consonância com a semântica fregeana, tendo sido tradicionalmente defendida por filósofos como John Locke, J.S, Mill, C.I. Lewis, Rudolph Carnap e Carl Hempel, sendo ainda hoje por vezes revisitada em novas versões .
     Podemos sem esforço sugerir uma versão da teoria descritivista dos termos gerais em grande medida análoga à teoria do feixe sugerida por John Searle para os nomes próprios. Segundo ela o termo geral está no lugar de uma descrição ou de um feixe de descrições exprimindo o seu sentido, conotação, conceito ou regra de aplicação. Esse feixe de descrições acaba por definir aquilo que se pode querer dizer em termos representativos ao se aplicar o termo geral. Basta que um número suficiente de descrições constitutivas do sentido do termo geral seja satisfeito por ao menos um objeto para que o termo encontre aplicação. Assim, um termo geral como ‘pessoa’ poderia ser caracterizado por meio de uma lista de descrições indefinidas como:

1. Um grande felino asiático.
2. Um animal carnívoro e feroz.
3. Um quadrúpede com pelo amarelo, listas escuras transversais e focinho branco.

O que for encontrado que satisfaça  suficientemente as propriedades expressas pelas descrições, nós o identificaremos como sendo um tigre.
     Tal como acontece com a teoria fregeana dos nomes, a teoria descritivista dos termos gerais é capaz de explicar como é possível que dois termos gerais com a mesma extensão possuam sentidos diferentes. Considere as frases:

a. Todo animal que tem coração tem coração.
b. Todo animal que tem coração tem rins.

     Suponhamos que o sentido do termo geral fosse determinado por sua extensão. Como a extensão do termo geral predicativo ‘animais que têm coração’ é a mesma do termo ‘animais que têm rins’, as sentenças (a) e (b) deveriam ter o mesmo sentido. Mas não é isso o que acontece: enquanto (a) é uma frase tautológica, (b) é uma frase informativa, capaz de nos dizer alguma coisa sobre o mundo. Além disso (a) e (b) têm sentidos claramente diversos, exprimindo pensamentos diversos. A teoria descritivista dos termos gerais explica de modo contundente a razão dessas diferenças de modo análogo aquele pelo qual a teoria descritivista fregeana dos termos singulares explicava o enigma da identidade: é que o termo ‘coração’ abrevia a descrição ‘órgão que bombeia o sangue’, enquanto o termo ‘rim’ abrevia a descrição ‘órgão que depura o sangue’. Essas descrições exprimem diferentes sentidos ou modos de apresentação ou regras de aplicação constitutivas de conteúdos conceituais, as quais possuem diferentes critérios de aplicação, ainda que a mesma classe extensional de objetos a satisfaça. Esses critérios são em um caso o órgão que bombeia o sangue e no outro o órgão que depura o sangue, ambos se encontrando presentes em cada um dos seres vivos que formam a extensão dos respectivos conceitos, daí resultando que as duas regras de aplicação são satisfeitas por órgãos diferentes, ainda que ambos presentes em cada objeto, em cada ser vivo pertencente a uma mesma classe.
     Um ponto a ser considerado é que essa forma de descritivismo análoga à teoria dos nomes próprios de Searle não pode se aplicar a todos os termos gerais. Para se perceber isso, basta considerar que as descrições que definem um termo geral também contém outros termos gerais, que por sua vez demandarão novas definições. Essas novas definições, por sua vez, não poderão recorrer totalmente ao que já foi definido, sob pena de circularidade. Por isso, se todos os termos gerais fossem definidos através de descrições, nós cairíamos em um regresso ao infinito, daí resultando que nada poderia ser completamente definido. A solução geralmente aceita pelos descritivistas é a de que pelo menos alguns termos gerais devem ser primitivos, não sendo analisáveis em termos de descrições.  Palavras como ‘vermelho’ e ‘redondo’ são fortes candidatos a esse papel.

Objeções ao descritivismo
Tal como aconteceu com a teoria descritivista dos nomes próprios, a teoria descritivista dos termos gerais foi atacada por Kripke e Putnam, embora com menor sucesso. As objeções costumam ser análogas às que foram feitas às teorias descritivistas dos nomes próprios. Quero considerar apenas duas delas: a objeção epistêmica da necessidade indesejada e a objeção semântica da ignorância e do erro, mostrando que há respostas descritivistas para ambas.
     Comecemos com a objeção de necessidade indesejada. Considerando o exemplo mais citado, parece que as pessoas entendem geralmente por ‘tigre’ algo que satisfaz à seguinte descrição:

Dt = grande e feroz animal asiático carnívoro e quadrúpede com pelo amarelo, listas escuras transversais e focinho branco.

     Segundo a objeção da necessidade indesejável, se a teoria descritivista é correta, então a proposição “Tigre = Dt” deve ser necessária; tigres devem satisfazer Dt necessariamente. Mas não é isso o que acontece. Afinal, em um mundo possível poderíamos encontrar animais que satisfazem todas as propriedades descritas em Dt, mas que não se cruzem com os tigres já conhecidos possuindo um layout genético que os torne mais próximos dos répteis do que dos felinos. Além disso, nenhuma propriedade descrita por Dt é necessária: devido a falhas genéticas há tigres que nascem com cinco patas, há tigres albinos etc. Pode até mesmo ser que nenhuma das propriedades descritas por Dt se aplique. Podemos imaginar um mundo possível no qual a evolução acabe por produzir o vexame da espécie: tigres albinos e sem listas, herbívoros, que andam sobre as patas traseiras e são mansos como coelhos. Mesmo assim eles poderiam ser tigres, digamos, por descenderem dos tigres e por ainda serem capazes de se entrecruzar com os nossos tigres. Em princípio, ao menos, é possível encontramos animais que não satisfazem a descrição, mas que são tigres, e animais que a satisfazem, mas que não são tigres. Assim, diversamente do que o descritivismo prevê, o termo geral ‘tigre’ não é sinônimo de Dt, e “Tigre = Dt” não é uma proposição analítica nem necessária.
     Para respondermos à objeção da necessidade indesejável, basta adotarmos uma forma menos ingênua de descritivismo, exigindo apenas a satisfação de um número suficiente, mas indefinido de descrições indefinidas e, além, não limitando preconceituosamente o conceito de descrição a características de superfície. Por exemplo, no caso do termo geral ‘tigre’, não há razão alguma para nos limitarmos às descrições de superfície expressas em Dt. As descrições podem estender-se a  fatos científicos, históricos, e mesmo a eventuais estruturas subjacentes. Afinal, nem por isso elas deixam de ser descrições. Assim, quando tigres não têm as características descritas por Dt, basta adicionarmos a regra-descrição mais usual para a definição de uma espécie, que nada mais é do que a exigência de que os seus membros sejam entrecruzáveis sem com isso produzirem descendentes estéreis. Assim, tomando-se como referência exemplares que satisfazem a descrição de superfície Dt, a condição proposta para qualquer exemplar pertencer à espécie tigre passa então a ser a de que ele satisfaça à descrição zoológica Dte, de ser um animal entrecruzável com exemplares que pertencem ou ao menos descendem das populações de animais que historicamente foram chamados de tigres por satisfazerem a descrição de superfície Dt, sem disso resultarem descendentes estéreis.  Com isso podemos já explicar a possibilidade da existência de um exemplar que apresente todas as propriedades descritas por Dt, mas que não é um tigre, pois ele não se cruza com os demais. E também podemos explicar a existência de exemplares da espécie tigre que não satisfazem nenhuma das propriedades de Dt. Basta que esses exemplares sejam entrecruzáveis com animais que ao menos descendam dos que historicamente possuíam as propriedades descritas por Dt.
    Passemos agora à objeção da ignorância e do erro. Muitas vezes nada sabemos acerca das descrições relevantes, ou então associamos ao termo descrições errôneas. A maioria de nós, por exemplo, sabe que Olmos são ‘alguma espécie de árvore’, sem ter qualquer idéia de como essas árvores são. Apesar disso somos capazes de fazer uso correto do termo. Exemplo usual de associação com uma descrição errônea pode se dar com o termo geral ‘baleia’, ao qual alguns associam a descrição ‘grande peixe do mar’, o que é, estritamente falando, incorreto. No entanto, mesmo tendo em mente uma descrição como ‘grande peixe do mar’, essas pessoas conseguem usar a palavra de modo a se referir a baleias.
     Essas objeções de ignorância ou erro também podem ser respondidas, tal como no caso dos nomes próprios, pela sugestão de que as descrições associadas precisam ser ao menos convergentes. A maioria das pessoas só podem usar corretamente a palavra ‘olmo’ em contextos comunicacionais pouco exigentes, posto que tudo que elas sabem a respeito é que se trata de uma espécie de árvore. Mas se a pessoa pensa que olmo é o nome de um duende que só aparece após a meia-noite, a sua tentativa de inserir a palavra no discurso poderá ficar seriamente prejudicada. Da mesma forma, por saber que a baleia é um animal grande que vive no mar, uma pessoa já pode usar o termo em contextos adequados, mesmo supondo erroneamente que ele seja um peixe. Podemos mesmo admitir que essa pessoa é capaz de usar referencialmente a palavra ‘baleia’, entendendo por isso que ela é capaz de inserir essa palavra corretamente no discurso e ser corretamente entendida por outros que disponham de conhecimento idêntico ou mais aperfeiçoado do conteúdo descritivo da palavra. Contudo, isso não seria o caso se ela pensasse que a baleia é o nome de uma montanha que lhe foi apontada quando viajou à Serra das Cajazeiras. Parece óbvio que ao confundir um termo geral com um nome próprio a pessoa não consegue mais dar sentido ou uso referencial ao termo geral.
     Como nos casos dos nomes próprios, porém, as razões putativas contra o descritivismo também aqui são reforçadas por uma versão da teoria causal capaz de explicar a referência de termos gerais.

A teoria causal dos termos gerais
A teoria causal dos termos gerais sugerida por Kripke, Putnam e outros, é uma extensão da teoria causal-histórica dos nomes próprios.  Muitos termos gerais, especialmente os de espécie natural, são para esses autores designadores rígidos, referindo-se a uma mesma espécie de coisas em quaisquer mundos possíveis nos quais ela exista.  Por isso as descrições associadas aos termos gerais podem variar e uma descrição como Dt não precisa se aplicar a qualquer caso.
     Mas então como os termos gerais se aplicam? A resposta é que ao menos no caso dos termos de espécies naturais, eles se aplicam por se referirem a uma propriedade microestrutural subjacente – a uma essência que a ciência empírica acaba por descobrir. Assim, o termo ‘tigre’ poderia se referir a uma certa estrutura genética, o termo ‘ouro’ ao elemento de número atômico 79, o termo água ao composto químico H2O. Com isso as propriedades usualmente designadas pelas descrições de superfície associadas aos termos gerais passam à categoria secundária daquilo que Putnam chamou de estereótipos.
     E como chegamos a usar corretamente os termos gerais? Aqui também a resposta costuma apelar para atos de batismo. Por causa do contato com tigres reais as pessoas inventaram a palavra ‘tigre’. Essa palavra passa então de falante para falante em uma cadeia causal, acabando por chegar até nós. Isso sugere que em princípio, ao menos, não precisaríamos conhecer as descrições dos estereótipos associados ao termo geral, nem tomar consciência da constituição essencial de seu referente, para que o termo seja referencialmente usado.

Problemas com a teoria causal
Hoje é geralmente reconhecido que a teoria causal dos termos gerais encontra dificuldades ao menos tão sérias quanto as do descritivismo.  Uma primeira é que há um grande número de exceções. Considere o caso dos artefatos. Não os explicamos por apelo a uma essência microestrutural subjacente, mas por descrições de superfície.  Assim, uma cadeira pode ser descrita como um banco (um objeto feito para sentar) provido de encosto. E um lápis costuma ser descrito como um instrumento manuseável usado para escrever através de uma ponta de material sólido, não devendo se diferenciar em demasia de certos exemplares prototípicos bem conhecidos (pequenos tubos alongados de madeira contendo uma vareta de grafite em seu centro).
     Mesmo no caso mais típico, que é o das espécies naturais, há exceções. Embora seja aceitável que a água seja essencialmente constituída por moléculas de H2O , o conceito de espécies animais como a dos tigres não parece incluir essencialmente o layout genético, como supõe Kripke. Como já vimos, uma espécie pode ser razoavelmente definida pela capacidade de entrecruzamento de seus exemplares segundo fórmulas exprimíveis por descrições funcionais de superfície. O compartilhamento de certo layout genético é um achado empírico posterior à definição. Ainda que fosse muito estranho, mesmo que o layout genético fosse o mesmo, se não houvesse entrecruzamento os animais seriam considerados pertencentes a espécies distintas. Assim, embora provido de valor explicativo, o layout genético é aqui um elemento explicativo derivado e não há qualquer garantia de que ele seja possa deixar de sê-lo.
     Outra complicação é que o batismo precisa vir acompanhado de algum elemento descritivo que nos diga de que tipo de coisa se trata (o chamado qua-problema), uma vez que cada coisa pertence simultaneamente a muitos tipos.  Assim, se nomearmos um objeto como um exemplar de ‘tigre’ estamos apontando também para um felino, um mamífero, um animal, um ser vivo, um objeto físico. Mesmo admitindo que a aplicação do termo geral precise ter uma ascendência causal, não parece possível que possamos explicar a referência dos termos gerais prescindindo por completo de descrições de superfície. 
     Teorias causais-históricas que introduzem um elemento descritivo inevitável são chamadas de teorias mistas. Se as aceitarmos, porém, parece que estamos expondo a nova maneira de ver aos mesmos problemas a que ela foi chamada a resolver.




11.

PUTNAM, A TERRA -GÊMEA E A FALÁCIA EXTERNALISTA


A teoria causal dos termos de espécie natural está intimamante associada ao externalismo semântico defendido por Hilary Putnam e outros. No que se segue quero expor e criticar os argumentos externalistas desse autor ao mesmo tempo que, por oposição, desenvolver uma explicação descritivista neo-fregeana e internalista do significado do conceito de água, capaz de melhor responder aos problemas por ele levantados. Para reforçar meu ponto de vista terminarei fazendo uma rápida crítica à idéia a meu ver incorreta de que o enunciado “Água é H2O” é necessário e a posteriori e ao externalismo de Tyler Burge.

O externalismo semântico de Putnam
Putnam usa como instrumento para demonstra o seu externalismo semântico a sua famosa fantasia da Terra-Gêmea.  Considero essa fantasia extraordinariamente original, engenhosa, estimulante e indubitavelmente falsa. Acho mesmo difícil compreender como ela possa ter se afigurado convincente a várias gerações de filósofos. A meu ver o argumento de Putnam não deve ser tomado em sua face de valor. Vejo-o como um exemplo de metafísica revisionária, como os que encontramos de Berkeley a Bradley e MacTaggart. Ele pode ser negativamente avaliado, como uma falácia resultante de um entendimento sistematicamente inadequado e no final das contas perverso dos significados que os termos ganham em seus usos ordinários, reclamando uma terapia à lá Wittgenstein. Mas ele também pode ser positivamente avaliado, como um desafio dialeticamente importante, posto que (como Wittgenstein também diria) é pela dissolução das tensões causadas por ilusões profundas que costuma advir um avanço em nossa compreensão das questões filosóficas.
     Vale lembrar que esse suposto entendimento perverso de nuances nos sentidos ordinários das palavras seria aqui originado pelo que podemos chamar (seguindo Searle e Strawson) de cientismo. No caso ele aparece como uma tentativa de imitar em filosofia da linguagem o que acontece em ciências como a física ou a matemática, nas quais têm sido feitas descobertas desconcertantes, que parecem contradizer frontalmente nossas intuições de senso comum . A diferença é que essas ciências produzem descobertas contra-intuitivas em domínios muito distantes de nossa experiência cotidiana, enquanto a filosofia da linguagem pretende analisar conceitos que todos nós conhecemos muito bem, como os de referência, significado, verdade... sendo nesse terreno muito difícil ser espetacular sem ser falacioso.

Desconstruindo o argumento da Terra-Gêmea
No que se segue pretendo começar fazendo uma crítica sistemática ao argumento de Putnam. Essa crítica mostrará que uma abordagem cognitivista-descritivista neo-fregeana é capaz de resolver com vantagens os problemas por ele colocados. Depois disso pretendo fazer uma análise neodescritivista aprofundada do conceito de ‘água’ envolvido na fantasia de Putnam, explicando em algum detalhe como as coisas realmente acontecem. Essa explicação mostrará que se tomado em sua face de valor, o externalismo semântico por ele proposto é indefensável, ainda que contenha insights importantes.

Exposição: Putnam começa considerando duas teses: (I) o significado (intenção, sentido) determina a extensão, (II) os estados psicológicos (de entendimento) fixam o significado. As duas teses devem ser aceitas pelo descritivismo tradicional. Mesmo que se acredite, como Frege, que o significado seja uma entidade abstrata, é preciso admitir que nós apreendemos psicologicamente o significado, devendo uma diferença no significado corresponder a uma diferença no estado psicológico de quem o apreende. A consequência da aceitação de (I) e (II) é que devemos assumir que estados psicológicos fixam significados, os quais por sua vez determinam as suas referências.
      Para Putnam, o que a fantasia da Terra-Gêmea demonstra é que um mesmo termo pode ter extensões diferentes, mesmo quando os estados psicológicos são exatamente os mesmos. Assim, uma das duas teses deve estar errada. A solução de Putnam é rejeitar a tese (II): estados psicológicos não fixam o significado. E isso acontece porque o significado não está, no essencial, em nossas cabeças, mas no próprio mundo externo, no domínio da própria referência. Quanto à tese (I), ela pode ser mantida: o significado determina a extensão, mesmo que de modo não-fregeano, como veremos, pela seleção demonstrativa de exemplares que tipicamente satisfazem as propriedades de superfície constitutivas do estereótipo.
     Para chegar a essa conclusão Putnam imagina um planeta que ele chama de Terra-Gêmea, no qual tudo existe e acontece tal como na Terra, exceto pelo fato de que os seus rios, lagos e mares, estão cheios de um líquido que em condições normais de temperatura e pressão é indistinguível da água, saciando a sede quando bebido, caindo sob a forma de chuva etc., diferindo da água apenas pelo fato de que a sua composição química não é H2O, mas algo muito diverso, que pode ser abreviado como XYZ.  Imagine então que uma nave espacial da Terra visite a Terra-Gêmea. A princípio os astronautas pensarão que ‘água’ tem o mesmo significado (meaning) na Terra e na Terra-Gêmea. Mas, observa Putnam
Se uma espaçonave da Terra visita a Terra gêmea, então a suposição inicial será de que ‘água’ tem o mesmo sentido (meaning). Essa suposição será corrigida quando for descoberto que ‘água’ na Terra -Gêmea é XYZ e que a espaçonave da Terra irá reportar algo como “Na Terra -Gêmea a palavra ‘água’ quer dizer (means) XYZ”. (...) Simetricamente (...) a espaçonave da Terra -Gêmea irá reportar: “Na Terra a palavra ‘água’ quer dizer (means) H2O”.
     O que Putnam está querendo introduzir é a sugestão de que em tal caso a palavra ‘água’ quer dizer ou significa duas coisas. Na Terra ela significa (means) água-t, uma vez que diz respeito à extensão do composto H2O, enquanto na Terra-Gêmea ela significa (means) água-g posto que diz respeito à extensão do composto XYZ. Putnam interpreta a sua fantasia como tendo demonstrado que a palavra ‘água’ tem e de fato sempre teve esses dois significados, independentemente do que possa passar ou ter passado pela cabeça dos habitantes da Terra ou da Terra -Gêmea, devendo-se essa diferença de significado à constituição essencial do líquido apontado com o nome de ‘água’ em cada planeta. O que a palavra quer dizer (means) independe do que passa pelas cabeças das pessoas que usam o termo, sendo externamente determinado por sua referência.

Comentário: Já agora, ante essas considerações iniciais de Putnam, quero introduzir minha objeção central, baseada em uma análise de nossos usos ordinários das palavras. Penso que na base do que Putnam procura fazer há uma sutil confusão entre o nível do sentido/significado-intensão e o nível da referência-extensão.  A palavra ‘mean’ usada por Putnam em inglês, assim como seus correspondentes “Bedeutung’, ‘significado’ e ‘querer dizer’, possuem uma espécie enganadora de ambigüidade, já referida em nossa discussão da origem da distinção fregeana entre Sinn e Bedeutung no capítulo 3. Como havíamos notado, normalmente e em seu sentido próprio e relevante, a palavra ‘significado’ tem um uso semântico intralingüístico, que é o de indicar o “conteúdo semântico de um signo lingüístico, acepção, sentido, significação, conceito, noção” (Houaiss), a saber, o sentido convencionalmente fundado da expressão a que se reporta. Esse sentido intralingüístico, que inclui o sentido (Sinn) fregeano, é o único sentido importante da palavra ‘significado’ na linguagem, o sentido próprio da palavra. Ele é exemplificado em proferimentos como

     (a-i)    A palavra ‘cadeira’ significa banco com encosto.
     (a-ii)  A frase “O gato pegou o rato” significa o mesmo que a frase
                “O rato foi pego pelo gato”.

     Contudo, a palavra ‘significa’ (assim como ‘means’ e ‘bedeutet’) também pode ser usada como uma maneira lingüística de apontar para a referência (a entidade referida), no que chamei de seu uso referencial intralingüístico. Como já vimos, etimologicamente a palavra ‘significado’ vem do latim ‘significare’, que quer dizer “dar a entender por sinais, indicar, mostrar, dar a conhecer, fazer compreender” (no inglês ‘mean’ também significa ‘to convey, show or indicate’ e no alemão ‘bedeutet’ também significa ‘heisst, bezeichnet’). Nesse uso estendido da palavra, ‘significar’ ou ‘querer dizer’ são sinônimos de ‘indicar’, ‘designar’ e ‘referir’, podendo ser facilmente, ainda que inapropriadamente, extrapolados de modo a designar aquilo mesmo que é indicado, o designatum, a referência. É no uso referencial intralinguístico que a palavra ‘significa’ e a expressão ‘quer dizer’ aparecem em proferimentos demonstrativos como

(b-i)   A palavra ’cadeira’ significa (means) coisas como aquilo ali.
(b-ii)  A frase “o gato foi pro mato” quer dizer (means) que o gato
          foi pro mato.

     As frases (b-i) e (b-ii) são aceitáveis. A primeiras é aceitável quando usada por um adulto para explicar a uma criança o significado de palavras como ‘cadeira’, enquanto a segunda é aceitável por expor a relação entre uma frase e um fato correspondente.
      Como já vimos nos capítulos iniciais, a proximidade semântica do verbo ‘significar’ em seu uso referencial intralinguístico com a palavra ‘referência’ está ligada à concepção referencialista do significado. O erro dessa concepção consiste em transformar proximidade semântica em promiscuidade semântica, confundindo significado com referência ou extensão. Como sugeri no capítulo 3, há ecos dessa teoria no próprio Frege, quando ele decidiu usar a palavra ‘Bedeutung’ no sentido técnico de ‘referência’ ao substantivar o verbo ‘bedeuten’, usado no sentido de ‘referir’, como ‘Bedeutung’, entendido como a referência. Trata-se aqui da invenção de um uso referencial extralinguistico, que extrapola as extensões permissíveis do significado da palavra significado.
     Também notamos que a palavra ‘sentido’ (assim como o equivalente inglês ‘sense’ e o equivalente alemão ‘Sinn’) resiste às ambigüidades apontadas: a palavra ‘sentido’ não possui usos referenciais. Ela possui apenas um uso semântico intralingüístico, que é o de indicar os sentidos convencionalmente fundados das expressões a que se reporta. Assim, no dicionário Houaiss ‘sentido’ significa simplesmente ‘cada um dos significados de uma palavra ou locução’. Por isso, ao usarmos as palavras ‘significado’ e ‘querer dizer’ de modo intralingüístico podemos facilmente substituí-las pela palavra ‘sentido’, enquanto o mesmo não é possível quando essas palavras ganham usos referenciais. Posso dizer, por exemplo:

     (a-i’)   O sentido (significado) da palavra ‘cadeira’ é o de
               ‘banco com encosto’
     (a-ii’)  O sentido (significado) da frase ‘O gato pegou o rato’
                é o mesmo que o da frase ‘O rato foi pego pelo gato’.

Isso é correto, afinal, pois a palavra ‘significado’ em (a-i) e (a-ii) tem um uso semântico intralingüístico. Mas soa muito estranho dizer

     (b-i’)   A palavra ‘cadeira’ tem o sentido de (significa) coisas
                como aquilo ali.
     (b-ii’)  O sentido (significado) da frase “O gato foi pro mato” é
                que o gato foi pro mato.

A razão da estranheza é que em (b-i’) e (b-ii’) a palavra ‘sentido’ demonstra a sua incapacidade de adquirir um uso referencial extralingüístico. A estranheza na substituição se repete com os equivalentes da palavra ‘sentido’ em outras línguas, como ‘sense’ no inglês, ‘Sinn’ no alemão e ‘sens’ no francês. Podemos resumir nossos resultados no seguinte quadro:

                           Uso semântico                 Usos referenciais
                           intralinguístico     intralinguístico    extralinguístico                   
   Sentido                    SIM                       NÃO                    NÃO                 
   (Sinn, sense)
   Significado              SIM                        SIM                     SIM
   (Bedeutung,
    meaning)

Minha sugestão é a de que Putnam joga com essa ambigüidade da palavra ‘significa’ (means), entendendo o uso referencial intralinguístico secundário da palavra, no qual ela é mero sinônimo de ‘se refere a’ ou ‘denota’, como se fosse uma continuação apropriada do seu próprio uso intralingüístico. Quando o astronauta diz

(c) Na Terra -Gêmea a palavra ‘água’ significa (means) e sempre significou (meant) XYZ,

ele está usando a palavra ‘significa’ no sentido inócuo de ‘se refere a’, e o que ele quer dizer é simplesmente que na Terra-Gêmea a palavra ‘água’ denota e sempre denotou XYZ. Mas isso não é nenhuma descoberta espetacular! A palavra ‘água’ obviamente se refere a XYZ na Terra-Gêmea, posto que nesse planeta o objeto da referência é e sempre foi esse mesmo stoff extralingüístico. E não há nada de especial nisso, posto que por definição a referência ou denotação é alguma coisa extra-lingüística, em nada dependendo de estados psicológicos ou cerebrais. Assim, ao desconsiderar a ambigüidade da palavra ‘significa’ ou ‘quer dizer’ (mean) Putnam produz um equívoco sutil, que é o de deixar a significação ser contaminada pela referência. Ele quer nos fazer crer que existe algum sentido referencial ou extensional da palavra ‘significado’ (meaning) a ser resgatado; mas esse sentido é uma persistente quimera filosófica, a mesma que motivou o referencialismo semântico já há muito tempo criticado por Gilbert Ryle e por outros. Essa impossibilidade demonstra-se quando substituímos em (c) a palavra ‘significa’ pela expressão ‘tem o sentido de’. Nesse caso temos:

     (c’) Na Terra -Gêmea a palavra ‘água’ tem e sempre teve o sentido (sense)
           de  XYZ,

o que soa claramente insatisfatório, posto que antes da descoberta da fórmula química a palavra não tinha esse sentido (sense). Com efeito, a substituição de (c) por (c’) é um caso similar ao da substituição das expressões do grupo (b) pelas do grupo (b’), as quais sugerem a inexistência de um uso referencial da palavra ‘significado’ capaz de preservar qualquer coisa do sentido próprio e peculiar da palavra, o sentido no qual ela é sinônima da palavra ‘sentido’.

Exposição: Na continuação do seu texto Putnam repete o argumento de um modo mais elaborado e eficaz ao situar a aplicação do termo ‘água’ em 1750, quando a sua estrutura atômica ainda era desconhecida. Imagine que por essa época o Oscar-1 da Terra diga algo como “Isso é água”, referindo-se ao líquido inodoro, insípido e transparente que vê num copo, o qual realmente contém H2O. Ao mesmo tempo que isso acontece, o seu Doppelgänger na Terra-Gêmea, Oscar-2, também diz “Isso é água” apontando para um copo contendo XYZ. Os estados psicológicos (e cerebrais) de Oscar-1 e de Oscar-2 são absolutamente idênticos. Ambos têm as mesmas cognições. Mesmo assim, pensa Putnam, Oscar-1 está se referindo a H2O, enquanto Oscar-2 está se referindo a XYZ (afinal, o que causa a experiência perceptual de Oscar-1 na Terra é H2O, enquanto o que causa a experiência perceptual de Oscar-2 na Terra-Gêmea é XYZ). Até aqui tudo é perfeitamente plausível. Mas a conclusão que Putnam tira dessas constatações é um surpreendente murro em nossas intuições semânticas:

Oscar-1 e Oscar-2 entenderam (understood) o termo ‘água’ diferentemente em 1750, embora eles estivessem no mesmo estado psicológico, e embora, dado o estado de desenvolvimento da ciência da época, a comunidade científica devesse levar ainda cerca de 50 anos para descobrir que eles entenderam (understood) o termo ‘água’ diferentemente. Assim, a extensão (extension) do termo ‘água’ (e, de fato, o seu ‘significado’ (meaning) no uso pré-analítico intuitivo do termo) não é função do estado psicológico do falante. (grifos meus)

     Em outras palavras: primeiro Putnam constata que a referência e a extensão da palavra ‘água’ usada por Oscar-1 e Oscar-2 em 1750 eram diferentes, pois um se referia ao líquido H2O encontrado na Terra, enquanto o outro se referia ao líquido XYZ da Terra-Gêmea. Ora, se as referências e extensões eram diferentes, pensa ele, então os significados, determinadores dessas referências e extensões – também eram diferentes. Ora, como os estados psicológicos de Oscar-1 e Oscar-2 eram idênticos, então os significados, sendo diferentes, não poderiam se encontrar em suas cabeças!
     Posteriormente, sob as influências de Tyler Burge e de John McDowell, Putnam ampliou as conclusões de sua surpreendente descoberta: não só significados e entendimentos, mas também estados mentais (pensamentos, crenças, intenções) e mesmo as próprias mentes, em um sentido amplo, encontram-se fora de nossas cabeças.  Considero essas ampliações um reductio ad absurdum da tese original.

Comentário: Podemos reagir mostrando que há uma interpretação descritivista ou neofregeana mais satisfatória para o que acontece na fantasia putnamiana. Para tornar isso claro, considere a pergunta: qual a referência e a extensão da palavra ‘água’, quando usada por Oscar-1 e Oscar-2 em 1750? Duas respostas conflitantes parecem intuitivamente aceitáveis, produzindo um dilema amplamente discutido na literatura:
    (a) A primeira resposta intuitivamente aceitável (que costuma ser a escolhida por críticos descritivistas de Putnam) é a de que a referência e a extensão eram as mesmas. Como os Oscares tinham em mente o mesmo líquido transparente e inodoro... a palavra ‘água’ no caso cobriria tanto a água da Terra quanto a da Terra-Gêmea. Afinal, se os dois Oscares pudessem na época se encontrar sem ter ganho nenhum conhecimento da estrutura molecular dos compostos apontados, eles certamente concordariam que estavam se referindo a mesma coisa, e que a extensão do conceito de água abrange tanto a água da Terra quanto a da Terra-Gêmea. Mesmo após se ter descoberto a diferença na estrutura química da água da Terra e da água da Terra-Gêmea, é possível dizer que a referência e a extensão eram as mesmas, pois se trata de uma mesma coisa perceptível que, dependendo do lugar onde é encontrada, é diferentemente constituida. Essa mesma coisa perceptível possui inclusive as mesmas virtualidades causais ao produzir os mesmos estados mentais nos Oscares etc.
     (b) A segunda resposta intuitivamente aceitável (a defendida por Putnam e seus adeptos) é a de que os Oscares estavam se referindo a coisas diferentes com extensões diferentes. Oscar-1 estava se referindo a um composto cuja estrutura é H2O e cuja extensão não inclui a água da Terra-Gêmea. Já Oscar-2 estava apontando para um composto cuja estrutura é XYZ e cuja extensão se limita ao líquido transparente e inodoro da Terra-Gêmea. Idênticos estados mentais são causados por líquidos de estrutura química muito diferente. Com efeito, se os dois Oscares pudessem ser trazidos pela máquina do tempo até nossa época e aprendessem um pouco de química, eles certamente concordariam com a nossa afirmação de que tinham se referido a substâncias diferentes com extensões diferentes...
     A interpretação de Putnam dá conta da intuição que conduz à segunda resposta, rejeitando a primeira. Já a interpretação descritivista tradicional (que reduz o sentido da palavra água à descrição ‘líquido transparente inodoro etc.’) dá conta da primeira intuição, mas não da segunda. Contudo, quero a seguir mostrar como uma interpretação neodescritivista ou neofregeana um pouco mais sofisticada é capaz de dar conta das duas intuições conflitantes, ao fazê-las resultar de dois parâmetros diferentes de avaliação do elemento referencial. Isso será possível porque, sendo a referência e a extensão pertencentes à realidade extra-lingüística, elas podem ser determinadas sob diferentes perspectivas, que são variantes que dependem do sujeito epistêmico que as considera e do sentido epistêmico através do qual esse sujeito tem acesso a ela.
     Vejamos como uma interpretação neodescritivista minimamente sofisticada explica a resposta (a). Ela segue a intuição de que as referências e extensões consideradas pelos Oscares em 1750 eram as mesmas. Essa primeira intuição se explica quando tomamos como parâmetro de avaliação do elemento referencial a sua determinação pelos sentidos dados pelos Oscares à palavra ‘água’ em 1750. Com efeito, se considerarmos que eles tinham em suas cabeças os mesmos estados psicológicos e que por conseguinte os sentidos que eles davam à palavra ‘água’ eram os mesmos, a saber, algo como ‘líquido transparente, inodoro e insípido... de substrato químico desconhecido’, como o sentido determina a referência, as referências só poderiam ser de um mesmo tipo, sendo a extensão da palavra ‘água’ a mesma, cobrindo tanto o líquido transparente e inodoro da Terra quanto o da Terra-Gêmea. Obviamente, tudo isso é compatível com a idéia de que os significados estão em nossas cabeças: os estados psicológico-neuronais de Oscar-1 e Oscar-2 são iguais e por isso os sentidos que eles dão à palavra ‘água’ são iguais e por consequência o tipo de referência é o mesmo e a extensão uma única, abrangendo tanto a água da Terra quanto a da Terra-Gêmea.
     Mesmo para nós hoje, se preferirmos considerar o significado da palavra ‘água’ em termos de uma mera descrição de propriedades superficiais, tal sugestão não é contra-intuitiva : nós diremos que os Oscares estavam se referindo a mesma coisa com a mesma extensão, e nós também, e o que eles tinham e nós temos na cabeça era a mesma coisa, o mesmo líquido inodoro  etc. Tudo aqui é bem fregeano: o sentido pensado determina referência e extensão.
     Contudo, como interpretar descritivamente a intuição que conduz à resposta (b), segundo a qual em 1750 os Óscares, mesmo tendo os mesmos estados psicológivcos e cerebrais, estavam se referindo a coisas diferentes com extensões diferentes? Para Putnam isso é impossível. Para mim, ao contrário, a resposta está a mão e é perfeitamente natural, embora pareça ter passado desapercebida aos críticos de Putnam. Para chegar a ela devemos primeiro notar que não há nada que nos impeça de entender fórmulas como H2O e XYZ em termos de descrições, sentidos, modos de apresentação fregeanos. Melhor dizendo, podemos sugerir que o termo ‘água’ entendido como ‘água-t’ inclui em seu sentido a descrição ‘volume líquido de estrutura molecular H2O’, enquanto o mesmo termo entendido como ‘água-g’ inclui em seu sentido a descrição ‘volume líquido de estrutura molecular XYZ’. Afinal, não há razão alguma para, enquanto descritivistas, restringirmos os sentidos dos termos gerais a descrições de superfície, a estereótipos. Uma vez estabelecido isso, devemos chamar atenção para o fato de que, como os elementos de referência e extensão se encontram no mundo externo, não tendo nada a ver com o que possa ter passado pelas mentes dos Oscares, nós inadvertidamente e de maneira perfeitamente natural tomamos como parâmetros de avaliação desses elementos referenciais, não o que possa ter sido intencionado pelos Oscares em 1750, mas o que nós mesmos hoje temos em mente com a palavra ‘água’. Ou seja: nós consideramos a questão da referência e extensão sob nossos próprios critérios de sentido, isto é, sob a perspectiva de sujeitos epistêmicos que (na estória imaginada) sabem que a água da Terra é descrita como possuindo a estrutura química H2O, enquanto que a água da Terra-Gêmea é descrita como possuindo a estrutura química XYZ. Claro que nesse caso nós diremos que o tipo de referência e extensão da palavra ‘água’ usada por Oscar-1 e Oscar-2 em 1750 eram diferentes; afinal, Oscar-1 estava apontando para H2O, cuja extensão exclui a XYZ da Terra-Gêmea, o que vale mutatis mutandis para Oscar-2. Para chegarmos a isso, contudo, precisamos projetar os nossos próprios modos de apresentação descritivos da natureza da água nas circunstâncias indexicais dos proferimentos dos Oscares em 1750. Melhor dizendo, o que fazemos é usar os proferimentos dos Oscares como instrumentos indexicais para uma determinação da referência, a qual é feita através de nossos próprios sentidos descritivos instanciados em nossos própios estados psicológico-cerebrais, os quais são, como seria de se esperar, diferentes para cada caso, disso resultando a determinação de referências e extensões diferentes. Como, quando consideramos “Isso é água” ditos por Oscar-1 e por Oscar-2, associamos a palavra ‘água’ a sentidos diferentes na determinação de referências e extensões diferentes, e como esses sentidos ou significados diferentes estão em nossas próprias cabeças e não nas cabeças dos Óscares, eles são perfeitamente compatíveis com os diferentes estados psicológicos que realmente temos, posto que eles nada mais têm a ver com os estados psicológicos idênticos dos Oscares de 1750. Nada nos força, pois, à idéia de que os significados estão fora das cabeças.
     A dupla resposta neofregeana que acabo de sugerir continua sendo baseada na idéia de que estados mentais fixam o sentido ou significado, o qual determina a referência. Essa maneira algo mais refinada de entender o descritivismo resolve o dilema explicando a duplicidade de nossas próprias intuições sobre a referência e a extensão da palavra ‘água’ dita pelos Óscares, o que nem a explicação descritivista tradicional nem a explicação de Putnam é capaz de fazer.
     E quanto ao significado (meaning)? Como é possível que em 1750 Oscar-1 e Oscar-2 possam ter querido dizer e mesmo entendido coisas diferentes com a palavra ‘água’, como sugere Putnam? A resposta é que aqui outra vez adentramos o terreno da pura confusão lingüística. Em um uso semântico intralinguístico da palavra ‘significado’ devemos concordar que Oscar-1 e Oscar-2 atribuíam exatamente os mesmos significados – os mesmos sentidos – à palavra ‘água’ em 1750 e que por isso mesmo eles tinham exatamente os mesmos estados psicológicos e neurofisiológicos correspondentes. Mas quando fazemos um uso referencial da palavra ‘significado’, ela não indica outra coisa senão o ato de referir, de apontar (uso referencial intralinguístico), ou mesmo aquilo que é referido, apontado, nomeadamente, a própria referência (uso referencial extralinguístico). É com base nisso que Putnam tem sucesso em sugerir que Oscar-1 significou (meant) algo diferente de Oscar-2 com a palavra ‘água’. Mas tudo o que ele pode querer dizer significativamente com isso é que a referência e a extensão do que eles estavam apontando será diferente se considerada sob a perspectiva de outros sujeitos epistêmicos – nós mesmos – os quais conhecem a diferença de estrutura química entre a água da Terra e da Terra -Gêmea, dando por isso sentidos-significados diferentes a mesma palavra num e noutro caso de sua aplicação. Tudo aqui é (neo)fregeano: temos em mente sentidos diversos para o que Oscar-1 e Oscar-2 apontam e só através disso é que determinamos referências e extensões diferentes para aquilo que eles disseram.
 Exposição: No último passo de seu argumento Putnam começa considerando a objeção de que o termo ‘água’ teria tido em 1750 uma extensão diversa da extensão que ele passou a ter em 1950 (em ambas as Terras). Essa objeção ele considera errônea: se apontamos para um copo D’água e dizemos “Isso é água”, escreve ele, estamos apontando para uma identidade-l (sameness-l) do líquido em questão com a maior parte do stuff que nós e nossa comunidade lingüística em outras ocasiões chamamos de água, devendo ser a natureza desse stuff determinada por testes de senso comum ou pela ciência. Assim, se apontamos para um copo de gim pensando que é água, alguns poucos testes mostrarão que ele não tem a identidade-l com o restante do stuff que chamamos de água. Além disso, nota ele, a identidade-l é uma relação teorética que pode ser sempre derrotada (defeated) por uma nova concepção do que ela seja, resultante da investigação científica.
     Putnam prossegue notando que a palavra ‘água’ não mudou o seu significado de 1750 para cá, posto que a relação de identidade-l sempre foi a mesma. Ou seja: o significado da palavra deve ser atreladoa uma relação de identidade-l com a essência do que é apontado, mesmo que esta ainda não tenha sido descoberta. Por isso, não só a extensão e a referência, mas também aquilo que chamamos de significado, o que se quer dizer, e mesmo o entendimento da palavra ‘água’ nos proferimentos de Oscar-1 e de Oscar-2, se tornam para Putnam diferentes, mesmo que eles tenham ocorrido em 1750, quando não era possível ter acesso experiencial às propriedades microestruturais da água. Ora, como os estados psicológicos (e cerebrais) de Oscar-1 e de Oscar-2 eram exatamente os mesmos, o conteúdo semântico precisa ir além desses estados, sendo mais uma vez forçoso reconhecer que os significados, os entendimentos etc. de Oscar-1 e de Oscar-2, naquilo que é relevante para a determinação da referência e extensão, não se encontram em suas cabeças, mas no mundo, pois deixam-se determinar pelos fatores causais diversos que produziram a mesma experiência cognitivo-perceptual. É a própria presença causal externa de substratos diferentes – H2O na Terra e XYZ na Terra-Gêmea – que produz a diferença nos conteúdos semânticos. Ou ainda, na conclusão triunfante de Putnam: “divida-se o bolo como quiser, os significados simplesmente não estão na cabeça”.

Comentário: Contra essa resposta podemos objetar que a noção de identidade-l, tal como é usada por Putnam, nada tem a ver com o significado no sentido próprio do uso semântico intralingüístico – o sentido de sentido (Sinn) – o único relevante, e que introduzir essa identidade para esclarecer o significado é cair na mesma confusão de pensar que o uso referencial extralinguístico de palavras como ‘significar’ e ‘querer dizer’ tem a ver com o significado em qualquer sentido relevante do termo.
     É verdade que, como Putnam observou, embora em 1750 os Oscares não pudessem conhecer a essência microestrutural subjacente ao que estavam chamando de ‘água’, eles já dispunham (caso não fossem totalmente ignorantes) da idéia de uma essência subjacente e de uma identidade-l microestrutural ainda desconhecida. Mas teria essa idéia alguma relevância semântica? O que dizer dos Oscares das cavernas, há 20.000 anos atrás? Será que ao dizerem “Vamos procurar água” eles estariam querendo se referir a alguma essência microestrutural subjacente desconhecida? Creio (muito firmemente) que não. Contudo, é perfeitamente correto dizer que mesmo nos casos dos Oscares das cavernas, as referências e extensões sempre foram diversas, uma vez que se trata de coisas extralingüísticas: uma era a referência e extensão de H2O, outra a de XYZ. Outra vez, a explicação é que essas variações são determinadas através de diferentes estados psicológicos nossos, os quais instanciam sentidos descritivos diferentes, os quais determinam, ao modo fregeano, referências e extensões diferentes. Repetindo o que disse antes, parece evidente que nada mais fazemos do que projetar nos proferimentos dos Oscares nossas próprias instanciações cognitivas de sentidos diversos, usando esses proferimentos como instrumentos indexicais para a determinação das referências diversas através dos nossos próprios sentidos diversos. De outra forma teremos de sustentar aberrações semânticas, como a de que os Oscares das cavernas teriam de dar diferentes sentidos à palavra água e até mesmo entendê-la de modo diverso, o que só não é implausível para quem acredita em aberrações suplementares, como a de que os pensamentos e as próprias mentes dos Oscares não estavam em suas cabeças quando eles realizaram esses proferimentos...

Exposição: No final de seu artigo Putnam resume e qualifica mais claramente a sua posição. Ele admite que descrições de superfície desempenhem algum papel na constituição do significado de termos como os de espécies naturais. O significado passa a ser constituído por quatro componentes: (i) marcadores sintáticos e (ii) marcadores semânticos, que no caso da palavra ‘água’ são respectivamente o seu uso como um nome de massa concreto e como nome de uma espécie natural (líquido). Depois há (iii) o que ele chama de estereótipos, que já vimos serem as descrições de superfície, no caso da água, o líquido transparente, insípido, inodoro etc. Ele admite que tanto marcadores quanto estereótipos fazem parte da competência do falante e têm instanciação interna, psicológica. Contudo, o componente mais importante do significado, aquele que determina a referência e a extensão, não é psicológico, mas externo. Ele é o sentido extensional, a própria extensão, que no caso da água é determinada pelos volumes líquidos que compartilham da mesma constituição essencial de H2O. Embora possamos descrever esse componente através da linguagem, ele deve ser entendido como “a extensão em si mesma (conjunto), e não como uma descrição da extensão”.  O significado como extensão torna-se de algum modo aquilo que determina a referência.
     Essa conclusão externalista é mais cautelosamente achegada por Putnam mais tarde em seu livro Representation and Meaning, onde ele escreve apenas que a extensão determina o significado.  Contudo, que espécie de determinação é essa? Não é pela segregação de um plasma que chamamos de significado. A explicação razoável, se não quisermos recair no internalismo, é a de que essa determinação se constitui na cadeia causal que deve se formar a partir da identificação do stoff com a microestrutura H2O, terminando por produzir o proferimento da palavra ‘água’ (Searle exprimiu isso dizendo que para Putnam o significado está na causação externa de nosso proferimento).
Comentário: Nada disso altera significativamente nem a posição de Putnam nem a nossa crítica ao seu argumento. Contra nossa análise, é possível que um defensor de Putnam venha a argumentar que o uso referencial extralingüístico da palavra ‘significado’ tem uma razão de ser, que é exatamente a de apontar para a grande descoberta de Putnam, que foi a do “significado referencial”, do significado extensional ou causal que está fora da cabeça.
     Contudo, as lacunas explicativas na teoria de Putnam tornam mais plausível a admissão de que ele procede uma enganosamente sutil inversão dos valores semânticos. Ele quer nos convencer que um suposto uso referencial extra-linguístico da palavra ‘significado’ é que é fundamental, enquanto o uso semântico intralinguístico lhe é parasitário, dizendo respeito somente aos estereótipos etc. Não obstante, pelas razões já aduzidas, parece claro que o sentido relevante da palavra ‘significado’ é dado por sua função semântica de reportar um conteúdo convencionalmente fundado, enquanto o uso referencial extralingüístico da palavra é apenas uma extensão indébita, posto que na verdade não tem mais nada a ver com o significado, mas só com a referência. Nesse sentido dizer que o significado está fora da cabeça torna-se inofensivo, pois redunda na trivialidade de dizer que referência e extensão estão fora da cabeça.
Análise neodescritivista do significado da palavra ‘água’
Quero agora explicar a maneira como um filósofo descritivista refinado, disposto a ignorar todo o maquinário de argumentos externalistas, analisaria a estrutura e o funcionamento do conceito de água. Depois disso irei opor esses resultados ao argumento de Putnam, o que espero servir como golpe de misericórdia.
     O que o nosso descritivista refinado diria? Primeiro, ele não consideraria marcadores sintáticos e semânticos como fazendo parte significativa do significado. Que ‘água’, por exemplo, seja um nome de massa, e que esse nome designe uma espécie natural, isso já lhe outorga uma função classificatória. Essa regra classificatória, contudo, não é capaz de individuar o uso da palavra. Afinal, ‘ouro’ e ‘oxigênio’ também são termos de massa que designam espécies naturais. E uma determinação semântica incapaz de diferenciar água de ouro ou de oxigênio deve ser bem pouco útil como componente constitutivo do significado da palavra ‘água’. A regra semântica que realmente interessa precisa ser sempre aquela capaz de individuar o uso da palavra, distinguindo-o dos usos de outras palavras da mesma espécie.
     Mas o que nosso filósofo diria das descrições que formam o estereótipo? Penso que ele poderia razoavelmente admitir que o significado do termo geral ‘água’ é pelo menos em parte dado por um feixe cumulativo de regras-descrições. Mas também aqui esse feixe não é desorganizado. Ele se constitui de aglomerados descritivos de valores diversos. Além disso ele não é estático. Tal como aconteceu com muitos outros, o conceito de água sofreu uma evolução histórica expressa por um gradual acúmulo de descrições que o exprimem. Há primeiro um significado originário, expresso pela seguinte descrição de características de superfície geralmente fenomenais:
Ds: Líquido transparente, insípido, inodoro, que serve para matar a sede, apagar o fogo, lavar, que enche os rios, lagos e mares, que cai sob forma de chuva, que entra em ebulição quando fervido e que se congela quando faz frio...
     Ds é o núcleo descritivo do senso comum, certamente conhecido desde o tempo do homem das cavernas, o qual não poderia sequer suspeitar da existência de uma microestrutura subjacente essencial. Por esses tempos a palavra ‘água’ não significava mais do que Ds, que servia de base para se determinar a referência e a extensão. A própria causa de nossa percepção da presença de água, dentro do sistema de linguagem disponível, só poderia ser o próprio líquido que em estado puro é transparente, insípido e inodoro.
     Com o passar dos milênios, porém, novas descrições foram sendo adicionadas. Aprendeu-se mais sobre a água. Aprendeu-se que ela é um bom solvente, que ela não se mistura com óleos, que ela é um mau condutor de eletricidade quando em estado puro... Podemos chamar essas e outras descrições adicionais de descrições disposicionais, funcionais ou dinâmicas, formadoras de um sub-núcleo adicional de descrições. Eis algumas delas, já conhecidas cerca de três séculos atrás:
Dsd: um líquido que é bom solvente, não se mistura com óleos, em estado puro é mau condutor de eletricidade, produz ferrugem (oxidação) quando em contato com ferro...
     Adicionando-se agora Dsd ao núcleo original, temos um núcleo mais amplo de descrições de superfície. Podemos simbolizar as descrições que exprimem esse primeiro núcleo semântico – o núcleo do senso comum informado – como:

                                                                <Ds + Dsd>

     Esse já seria, digamos, o sentido da palavra ‘água’ reconhecido por pessoas bem informadas por volta de 1750. Podemos chamá-lo de sentido popular da palavra.
     Contudo, algo extraordinário aconteceu no curso da evolução do sentido da palavra ‘água’. Em 1768 Lavoisieur colocou hidrogênio e oxigênio em um balão de vidro e aqueceu a mistura. O resultado foi uma explosão que liberou gás e água. Através dessa e de outras experiências ele acabou por concluir que a água é composta de duas porções de hidrogênio e uma de oxigênio. Em 1781 Cavendish realizou na Inglaterra experiências semelhantes usando faíscas elétricas. Em 1783 Lavoisier realizou o procedimento reverso, decompondo água em oxigênio e hidrogênio. Em 1800 Nicholson and Carlisle conseguiram os mesmos resultados usando a eletricidade de uma “pilha voltaica”, em um processo chamado de eletrólise. Em 1811, baseado em sua lei dos gazes e na eletrólise, Avogadro estabeleceu a composição atômica da água como sendo HO1/2 , um resultado que foi corrigido em 1821 por Berzelius, que finalmente estabeleceu a fórmula H2O...  Chegou-se assim ao estabelecimento de uma nova descrição, a descrição de profundidade da água como ‘líquido constituido por moléculas de hidróxido de hidrogênio ou H2O’, que não é em nada menos descritiva do que ‘líquido transparente insípido e inodoro’.
     É importante perceber, porém, que as descrições de superfície das próprias experiências referidas por Lavoisieur, Cavendish, Avogadro, Berzelius e ainda outros formam um grupo a parte de descrições, que por vários caminhos permitem inferir a estrutura essencial subjacente das massas D’água. Mais além, o conhecimento da estrutura molecular da água, em adição ao sistema teórico-conceitual da química, leva-nos a fazer inferências teóricas ao nível microestrutural, como a de que 2H2O + O2 = 2H2O2. Finalmente, tal conhecimento da estrutura subjacente nos permite ainda fazer inferências de novas descrições de superfície, como as que exprimem propriedades como a da alta tensão superficial, da ação capilar e da boa solvência de açúcares e sais, que se deixam explicar pela coesão entre os dipolos positivo e negativo das moléculas de H2O.
     O que tudo isso acabou por produzir foi um novo núcleo de significado para a palavra ‘água’. Esse novo núcleo semântico é expresso primariamente pela descrição da microestrutura profunda das massas D’água, a qual podem ser adicionadas ainda propriedades e relações químicas:
Dp: Volume constituído por moléculas formadas por dois átomos de hidrogênio e por um átomo de oxigênio (e também um composto dipolar que tende a formar cadeias isoméricas etc.)
     Talvez isso seja tudo, mas não creio que seja assim tão simples. Como vimos acima, Dp se encontra ladeada por dois grupos de descrições de superfície a ela inferencialmente ligadas e que também são expressivas do novo núcleo semântico. De um lado elas constituem o que chamo de Dsp, o conjunto das descrições de superfície, de tudo aquilo de observável, que permitem ao químico inferir a estrutura química da água, entre elas as descrições das experiências de Lavoisieur, Cavendish e Avogadro. De outro lado, as descrições constituem o que chamo de Dps, a saber, o conjunto das descrições das propriedades superficiais que se deixam inferir de nosso conhecimento da estrutura subjacente das massas D’água, como, por exemplo, a propriedade de, diversamente de outras moléculas semelhantes, se manter em estado líquido a temperaturas ambientes (o que também se deixa explicar a partir da forte coesão das moléculas dipolares de H2O).
     Chegamos com isso a um núcleo semântico constituído por três subnúcleos semânticos inferencialmente interligados, um formado por descrições da microestrutura subjacente e dois formados por descrições de superfície. Eis como podemos simbolizar esse novo conjunto de descrições:

                                                     <Dsp + /Dp/ + Dps>

     Quero sugerir que esse último núcleo de significação constitui o sentido científico da palavra ‘água’, um sentido que só é muito esquematicamente conhecido pela maioria de nós. Esse sentido descritivo foi negligenciado pelas teorias descritivistas tradicionais dos termos gerais, como a de Locke. Mas ele parece ser perfeitamente legítimo no interior de um descritivismo mais sofisticado, que não tem por que se restringir a descrições de superfície.
     Há aqui a seguinte objeção a ser considerada: o número de inferências relacionadas à estrutura química H2O é indeterminado, o que torna os limites do significado indefiníveis. Uma primeira reação seria delimitar-se à descrição “Líquido com estrutura química H2O”, como a única capaz de delimitar precisamente o núcleo semântico científico. Embora reconhecendo a centralidade desse núcleo semântico, não creio que essa seja a resposta mais adequada.
     Minha resposta é a de que as fronteiras de significado entre um termo e outro são de fato graduais e que as inferências mais e menos relacionadas à estrutura química da água proporcionam um bom exemplo de como isso funciona. Considere, por exemplo: “2H2O → 2H2 + O2”. Essa é uma inferência interna, no sentido de que os conceitos que a compõem são constitutivos da própria fórmula química. Compreendê-la faz parte da compreensão do conteúdo semântico de ‘H2O’. Considere em contraposição as seguintes fórmulas:

          1)  2Na +  2H2O → 2NaOH + H2
          2)  2H2O + 2O2 → 2H2O2
          3)  2Fe + O2 + 2H2O → 2Fe(OH)2

A equação (1) diz respeito à formação de soda cáustica (2NaOH), sendo a sua contribuição semântica menos para o conteúdo informativo do que o químico sabe sobre a água e mais sobre o conteúdo informativo do que ele sabe sobre a soda cáustica embora, ao que parece, esteja quase que a meia distância de uma contribuição para o esclarecimento semântico de ambos os conceitos. A equação (2) concerne à formação de água oxigenada (H2O2) e a equação (3) à formação de ferrugem (Fe(OH)2). Por isso, essas últimas fórmulas contribuem menos para o esclarecimento do significado de ‘água’ (hidróxido de hidrogênio). Afinal, elas são respectivamente constitutivas dos significados de água oxigenada e ferrugem, da mesma forma que “2H2O → 2H2 + O2” é constitutiva do significado de ‘água’. A contribuição dessas inferências para o conteúdo informativo do que o químico entende com o conceito de água como hidróxido de oxigênio fica, pois, dividida, o que impede a suposta ampliação indefinida das contribuições inferenciais para o significado da palavra ‘água’ no domínio das equações químicas. Isso nos permite responder à questão inicial: embora o número de inferências seja indeterminado, os limites de sua contribuição para o significado da palavra-conceito em questão é determinado pela contribuição que as relações inferenciais passam a dar para o significado de outras palavras-conceito. As contribuições que as relações inferenciais dão para o significado de uma palavra-conceito podem ser aqui internas ou externas, diminuindo essas últimas gradualmente na medida em que aumenta a suas contribuição para o significado de outros conceitos. Com isso é evitado um completo holismo semântico, do qual resultaria que, por qualquer coisa significar tudo, tudo significaria qualquer coisa.
     Uma alternativa curiosa, mas a meu ver falsa, estaria na adoção de uma posição estritamente fenomenalista: considerar Dp como uma construção, se não supérflua, meramente convencional, ou seja, defender que podemos passar apenas com Dsp e Dps. Não creio. Pois é preciso notar que a estrutura química H2O, essencialmente presente em Dp, é essencial por duas razões: primeiro, ela pode ser acessada e referida através de uma multiplicidade de descrições de inferências constituitivas de Dsp, que se constitui em um conjunto aberto de descrições. Essa mesma estruturam, por sua vez, permite a inferência de uma diversidade também indeterminada de descrições constitutivas de Dps, as quais também formam um conjunto aberto. A estrutura química é, pois, como um ponto de cruzamento inevitável entre uma multiplicidade de caminhos inferenciais, não decorrendo necessariamente de nenhum deles, embora todos decorram necessariamente dela. É essa centralidade que faz da descrição da estrutura química uma espécie de “essência nominal”.
     Os dois núcleos semânticos, o núcleo expresso pelas descrições que nos dão o componente ordinário ou popular do sentido da palavra ‘água’ e o núcleo expresso pelas descrições associadas a sua essência subjacente, as quais nos dão o componente científico do sentido da palavra, podem ser simbolizados em conjunto como:

                              ____Np___             ______Nc______
                              <Ds + Dsd>    +    <Dsp + /Dp/ + Dps>

     De algum modo temos aqui, sinopticamente apresentado, o completo conjunto de descrições que exprimem as regras semânticas capazes de contribuir para o sentido cognitivo da palavra ‘água’. Trata-se do conjunto de descrições inter-relacionadas capaz de exprimir o sentido ou significado mais completo da palavra ‘água’, tal como ela é capaz de ser entendida hoje. Vemos, pois, que um autor como Avrum Stroll estava certo ao notar que  Putnam e Kripke produziram uma falsa dicotomia entre propriedades fenomenais e a microestrutura, como se fossem alternativas competidoras: “Uma explicação correta do que é a água”, escreve ele, “não irá mencionar apenas as suas propriedades fenomenais, mas também aquelas que não são imediatamente acessíveis.” 
     Ainda uma objeção poderia ser a de que o sentido completo acima apontado não é  em seus detalhes conhecido da maioria dos falantes.  Mas isso pouco importa. Em geral conhecemos pouco do significado de termos com conotação científica e esse pouco nós conhecemos apenas genericamente. Contudo, esse conhecimento parcial e genérico já é suficientemente compartilhado para permitir a comunicação do conceito.
     Finalmente, o elemento causal precisa ser considerado. Nosso conhecimento da existência de exemplares de massas D’água depende delas próprias o terem causado ou pelo menos de elas potencialmente o causarem. Contudo, o significado da palavra tem a ver aqui muito indiretamente com uma cadeia causal originada de um batismo e muito mais com uma regra conceitual capaz de pressupô-la, daí porque o significado da palavra ‘água’ pode em princípio ser independente da existência efetiva de massas d’água, a saber, da efetiva aplicabilidade da regra conceitual. Só o conhecimento da referência depende da existência da essência exemplificada pelas massas d’água.
A regra de aplicação para o termo geral ‘água’ em seu sentido genérico
Estamos agora preparados para construir uma regra de aplicação que estabeleça um limite mínimo de satisfação das regras-descrições superficiais e profundas até aqui consideradas para que a palavra ‘água’ se torne aplicável. Eis como a regra de aplicação para o termo geral ‘água’ ou RA-’água’ poderia ser exposta:

RA-’água’:
O termo geral ‘água’ refere-se à propriedade singularizada em uma instanciação de uma substância química em um objeto x
see
(i) x satisfaz as regras de caracterização expressas pelo núcleo semântico popular <Ds + Dsp> e/ou pelo núcleo semântico científico <Dps + /Dp/ + Dsp> associado à palavra
(ii) em medida no todo suficiente e
(iii) sem competição com regras conceituais para outras substâncias químicas.

     Sugiro que essa regra de aplicação constitua o que mais propriamente podemos chamar de o conceito de água, que inclui o significado da palavra, embora não se identifique com ele. Essa regra conceitual requer clarificações. Primeiro há a assunção de que a água é uma substância química, limitando o domínio da definição (estabelecendo o equivalente a um genus proximum). Um segundo ponto diz respeito ao elemento causal mencionado depois do condicional. Um termo geral funciona de modo muito diferente de um nome próprio. No caso do nome próprio há somente um portador do nome, o que explica a importância da função causal do portador em atos de batismo. Mas o termo geral não é vinculado a nenhum portador originário, mas sim a qualquer portador que compartilhe da propriedade que ele é capaz de designar. Essa é a razão pela qual a importância da relação causal entre objetos e termos gerais tem sido questionada.  Ainda outro ponto é que , como vimos, no caso da frase singular o portador precisa ser antes identificado pela regra de identificação do termo singular, para só depois disso ser classificado pela regra de aplicação do termo geral, o que faz com que a regra de aplicação do termo geral basicamente se aplique em combinação com a regra de identificação do termo singular. Essa é a razão pela qual é razoável se fazer menção a um objeto x, que no caso costuma ser um volume de água ocupando um local espaço-temporal.

     Consideremos agora em separado cada uma das três condições que se seguem.
     A condição (i) pode ser chamada de condição de significação, pois envolve o conteúdo informativo mais próprio da palavra ‘água’, aquele que encontramos em dicionários; saber o significado da palavra ‘água’ é conhecer essa regra parcial, que conecta os dois componentes de significado – popular e científico – por meio de uma disjunção inclusiva (que nada tem a ver, aliás, com a disjunção encontrada na regra de identificação de nomes próprios). De acordo com essa condição, podemos chamar um líquido de ‘água’ quando ele tem as propriedades fenomenais da água, mesmo se ele não possua a correspondente estrutura subjacente e vice-versa. A primeira vista essa pode parecer uma maneira excessivamente liberal de se entender o significado da palavra ‘água’. Mas a uma consideração mais detida percebemos que temos apenas a impressão de ser assim, uma vez que a palavra ‘água’ é geralmente usada em contextos que restringem o seu significado em uma ou em outra direção. Com efeito, a condição (i) é adequada, pois, como veremos, ela nos permite justificar a aplicabilidade do conceito nos mais variados contextos, exprimindo o único significado que faz juz a toda a flexibilidade dos modos como somos capazes de usar a palavra. Finalmente, se o conceito de água é a regra RA-’água’ fica claro que o significado da palavra, sendo restrito à condição (i), se torna mais precisamente delimitado como parte do conceito e não como o seu todo. Isso explica porque é permitido falar de um sentido ou significado ou conteúdo do conceito, ao invés de identificá-los diretamente com o conceito, não nos sendo permitido falar, inversamente, do conceito do significado.
     A condição (ii) é o que chamamos de condição de suficiência, de acordo com a qual descrições de (i) não precisam ser completamente satisfeitas, mas – se tomadas como um todo (ou seja, na soma de seus valores) – apenas suficientemente satisfeitas. O quanto da satisfação das condições é necessário para preencher o requerimento de suficiência fica aqui também, aliás, inespecificado, como parte da vaguidade do conceito (um líquido composto apenas em sua maior parte por H2O, que não é transparente nem sem gosto, pode facilmente ser chamado de água).
     Finalmente (iii) é o que chamamos de condição de predominância, dizendo-nos que um exemplar de um líquido deve satisfazer a condição (i) mais do que qualquer outro conceito do mesmo gênero. Isso indica que a condição de significação, ou seja, a regra-significado para o líquido água deve ser mais completamente satisfeita do que qualquer outra regra-significado para outras substâncias químicas (suponha que precisemos distinguir entre água e peróxido de hidrogênio: o que predomina em quantidade ou efeito é o que decide). Mais além, vale notar que as condições (ii) e (iii) não podem ser partes relevantes do significado da palavra ‘água’ porque, como elas se aplicam certamente a muitos outros conceitos, elas não são capazes de diferenciar o significado de um termo geral naquilo que o distingue de qualquer outro.
     A mais interessante diferença com relação à regra de identificação de nomes próprios aparece quando refletimos sobre a condição (iii). Como estamos lembrados, no caso dos nomes próprios a terceira condição seria individuadora. Daí ser possível que um mesmo objeto seja capaz de satisfazer diferentes regras de identificação, amalgamando várias coisas em uma só (ex: Bacon poderia ser também Shakespeare), conquanto as regras se apliquem mais a ele do que a qualquer outro objeto, o que o individualiza. Mas no caso da regra de aplicação de um termo geral, não faz sentido termos uma regra individuadora, pois fica sempre indeterminado o número de objetos capazes de satisfazê-la. Por conseguinte, a exigência (iii) não precisa mais ter a função de singularizar um objeto, mas apenas a de classificar objetos que caiam sob o termo geral. E isso é alcançado pela exigência de que os elementos da classe em questão não satisfaçam uma outra regra de aplicação de algum outro termo geral do mesmo gênero tanto quanto aquela cujo emprego está sendo considerado.

Exemplos de emprego da regra de aplicação do termo ‘água’
Quero considerar agora alguns exemplos elucidativos do funcionamento da regra de aplicação do termo geral ‘água’. Se colhermos uma amostra da água de um pântano ela pode não ser transparente, nem insípida, nem inodora, não servindo para beber nem para lavar... A amostra será de água com impurezas. Mesmo assim ela será água, uma vez que é um líquido com estrutura química H2O, satisfazendo com isso as condições (i) e (ii). Além disso, a regra parcial (iii), a condição de predominância, também está sendo satisfeita, pois não podemos dizer que outras regras de identificação de termos gerais caracterizadores de outros compostos químicos se aplicam na mesma medida (a água pode conter óxido de ferro, mas a regra de aplicação do óxido de ferro não se aplica na mesma medida às amostras). Assim, podemos estar certos de que se trata de água. Em contraste, suponha que temos diante de nós um líquido viscoso e de gosto amargo. Esse líquido é capaz de reagir com cobre entrando em combustão, daí resultando água e oxigênio. E a sua constituição química não é H2O, mas H2O2. Embora esse composto tenha similaridades com a água, ele não pode ser água porque a regra de identificação de outro termo geral do mesmo gênero – que classifica compostos químicos – de preferência se aplica. Trata-se, pois, devido à condição de predominância, de peróxido de oxigênio e não de água.
     Eis um outro exemplo: suponha que você faz uma sobremesa de gelatina. Embora a gelatina não satisfaça as descrições de superfície para a identificação da água (não é líquida, não é transparente, não mata a sede, não apaga o fogo), ela ainda assim satisfaz descrições de estrutura subjacente, pois sabemos que ela é em sua maior parte constituída de H2O. Com isso ela satisfaz a disjunção exigida por (i). Todavia, mesmo assim ela não será confundida com água. Por quê? Ora, porque ela não satisfaz a condição de predominância, posto que uma regra competitiva, a regra de aplicação para o que convencionamos chamar de gelatina – uma substância sólida gelatinosa constituída por uma mistura de água com celulose – é preferivelmente aplicável. O máximo que podemos dizer é que a gelatina é essencialmente constituida de água em sua composição. Para saber se uma regra de aplicação é aplicável é preciso saber se outras regras do mesmo tipo não se aplicam preferencialmente, é preciso saber o lugar da regra na gramática, por assim dizer.
     Um último contra-exemplo introduzido por Avrum Stroll: se Putnam está certo e ‘Água = H2O’, escreveu ele, então certamente ‘gelo = H2O”, e “vapor D’água = H2O”. Mas se é assim, pela transitividade da identidade, então  “água = gelo”, e “vapor d’água = gelo”. Mas essa é uma conclusão insólita, que se fosse verdadeira me permitiria pedir dois cubos de água no lugar do gelo e dizer que a água (o gelo) flutua na água e que o vapor d’água é sólido. Gelo não é o mesmo que água e menos ainda que vapor d’água, o que leva Stroll a concluir que o ‘é’ de “Água é H2O” é um é de composição e não da identidade.  Com efeito, podemos dizer que o gelo é feito de água. Contudo, o próprio Stroll introduz uma contra-objeção que parece de algum modo limitar o que ele está dizendo: é possível dizer que o gelo é a mesma coisa que “água sob forma sólida” e que vapor d’agua é a mesma coisa que “água sob a forma de vapor”. Assim, gelo e vapor d’água são variantes de uma mesma coisa, qual seja, água.
     Penso que uma comparação entre as regras de aplicação desses termos gerais explica essas variações no dizer. Os núcleos populares fenomenais dos sentidos das palavras ‘água’, ‘gelo’ e ‘vapor d’água’ são bastante diversos: a água é líquida e transparente, o gelo é sólido e opaco, o vapor d’água se dissipa no ar... As coisas denotadas por esses termos só são semanticamente similares no que concerne ao núcleo científico de sentido, especialmente Dp (ignorando diferenças na organização das moléculas que compõem as amostras). Temos, pois, regras de aplicação algo diversas, que são RA-‘água’, RA-‘gelo’ e RA-‘vapor d’água’, que diferem apenas no que concerne a aspectos do sentido popular. Assim, a razão pela qual chamamos um objeto x de “gelo” e não “água” é que x é sólido, opaco, frio, satisfazendo mais as descrições de RA-‘gelo’ do que RA-‘água’, satisfazendo por isso a condição de predominância para a RA-‘gelo’, algo semelhante acontecendo quando chamamos um y de vapor d’água. Com efeito, como RA-‘gelo’ é um pouco diferente de RA-’água’, os sentidos das palavras ‘gelo’ e ‘água’ são algo diferentes. Mesmo assim, esses sentidos são semelhantes, pois a Dp do núcleo de significação científico continua sendo essencialmente a mesma. Essa é a razão pela qual podemos dizer que o gelo e o vapor d’água são constituidos de água, que o gelo é água solidificada e que o vapor d’água é água evaporada: pelo fato de que a condição essencial de RI-‘água’, que é a disjunção (i), estar sendo em cada caso suficientemente satisfeita, permitindo o emprego da regra de aplicação para a palavra ‘água’ no sentido de ser um constituinte do objeto de referência.
     Stroll não deixa de ter razão ao sugerir que o ‘é’ de “Água é H2O” é um é de composição. Trata-se de um ‘é’ de composição ou constituição porque a RA-’água’ contém a regra de aplicação para o hidróxido de hidrogênio ou RA-‘H2O’ (se a segunda regra é empregada, a primeira também é). E também compreendemos porque ao falarmos de água não estamos querendo dizer propriamente nem gelo nem vapor d’água: porque RA-‘água’, RA-‘gelo’ e RA-‘vapor d’água’ competem entre si pela satisfação da condição (iii).
     Stroll também pensa que uma coisa é falar do significado da palavra ‘água’ e que outra coisa é falar daquilo que a água é. Contudo, essas parecem ser duas faces da mesma moeda. Pois aquilo que consideramos em termos de sentido pode ser materialmente parafraseado em termos daquilo que as coisas são. Isso se demonstra no fato de que ao invés de falarmos das regras de aplicação em sua efetiva aplicabilidade, descrevendo assim o sentido, podemos falar das propriedades que a satisfazem, descrevendo assim as próprias coisas ou aspectos delas. Assim, dizer que a água é composta de H2O é o mesmo que certas que as propriedades descritas por RA-’água’, enquanto essa regra for efetivamente aplicável compõem-se das propriedades microestruturais também descritas por RA-H2O enquanto regra efetivamente aplicável.
     Cumpre finalmente notar que o modo de ver que acabamos de expor faz jus a algumas idéias familiares aos semanticistas. Primeiro, o sentido de um termo geral como água é vago. Depois, ele tem se alterado. Como acontece com a maioria dos conceitos, ele cresceu e se ramificou com o tempo. A maioria de nós fica conhecendo apenas uma parte mais ou menos genérica dele, fundamental ou não, mas suficiente para a comunicação. Muitas vezes só os especialistas, os usuários privilegiados da palavra, conhecem o significado completo de um termo geral. Há casos em que o especialista só conhece o núcleo científico especializado do significado, ignorando outras coisas por vezes mais importantes. Há casos em que cada especialista conhece completamente apenas parte do significado do termo. E deve haver casos em que somente a memória de computadores ou documentos contém todas as informações relevantes. Contudo, essas informações por si mesmas nada significam. Elas demandam intérpretes capazes de inseri-las em uma forma de vida. Elas só ganham realidade enquanto e na medida em que são interpretadas, ao menos esquematicamente, por seres humanos capazes de participar da forma de vida. Há na explicação de como os termos gerais referem, um elemento cognitivista irredutível.
 
Comparando as duas análises
No que se segue quero demonstrar que a recém-sugerida análise neodescritivista do conceito de água explica as nossas intuições relativas à fantasia da Terra gêmea de forma mais convincente do que a artificiosa teoria de Putnam.  
     Como já vimos é muito difícil duvidar que o significado de nossas expressões lingüísticas seja convencionalmente fundado: ele deve constituir-se de regras ou combinações de regras semanticamente relevantes, por nós mesmos estabelecidas. Quando elas constituem os significados dos termos gerais, elas costumam poder ser expressas por descrições. Até mesmo a essência subjacente da água pode ser apresentada por regras de aplicação expressas por descrições, as quais são simbolicamente resumidas por Dp. Além disso, não há como se livrar das descrições de superfície, uma vez que Dp só faz sentido por ter sido inferido de Dsp e por conduzir inferencialmente a Dps. Ou seja: mesmo que estejamos dispostos a conceder que a descrição fundamental seja a da essência subjacente, ela acaba por depender de descrições de propriedades de superfície, nem mais nem menos fenomenais do que as descrições dadas à água pelo homem das cavernas, embora mais complexas e exigentes em seu recurso a elementos funcionais.
     A questão agora fica sendo: como a recém-exposta explicação do sentido ou significado intralingüístico da palavra ‘água’ explica nossas intuições relativas a Oscar-1 e Oscar-2 ao dizerem “Isso é água” em 1750? A resposta é pouco mais do que uma cansativa repetição do que já dissemos em nossa resposta neodescritivista a Putnam.
     Consideremos primeiro o significado, o sentido. Em 1750 ele era para ambos os Oscares o de um líquido transparente etc., ou seja: <Ds + Dsd>. A isso eles podem ter acrescentado no máximo a hipótese da existência de alguma microestrutura fundamental desconhecida x. Mas como não haviam sentidos expressos pelas descrições ‘líquido de estrutura molecular H2O’ ou ‘líquido de estrutura molecular XYZ’, não era esse x que eles podiam ter em mente. Assim, se os estados psicológicos e cerebrais de Oscar-1 e Oscar-2 eram os mesmos isso não importa, pois os sentidos também eram os mesmos. Instanciados nas cognições ou disposições cognitivas, em estados psicológicos e cerebrais, os sentidos estavam nas cabeças dos Oscares.
     Consideremos agora a referência e a extensão. Aqui, como já vimos, a resposta pode variar! Ela depende de quem estamos considerando como o sujeito que através do sentido identifica a referência e calcula a extensão. Esses sujeitos podem ser os próprios Oscares em 1750. Mas eles também podem ser sujeitos esclarecidos de uma época posterior, reportando-nos aos proferimentos dos Oscares, mas na consciência da estrutura química dos líquidos apontados por eles em 1750.
     Vejamos o primeiro caso. Para Oscar-1 e Oscar-2 em 1750 fica muito claro que a referência da palavra ‘água’ é apenas o líquido <Ds + Dsd> e no máximo algum x desconhecido. Também fica claro que essas referências são do mesmo tipo. Afinal, a referência é determinada pelo sentido, que é o mesmo (não há razão para pensar que o x possa ser igual ou diferente na Terra e na Terra -Gêmea ou para se especular sobre isso). E a extensão também é a mesma; ela é em 1750 a mesma do líquido transparente, insípido etc. que inclui tanto a água da Terra quanto a da Terra gêmea. Assim, se em 1750 Oscar-1 e Oscar-2 pudessem trocar informações sobre o preenchimento de seus critérios de aplicação do termo geral ‘água’ em ambos os planetas, sem dúvida eles concluiriam que, sendo ambos igualmente satisfeitos, a extensão da palavra ‘água’ é a mesma, pois ela era estabelecida pelas propriedades de superfície. Eles concordariam inclusive que a própria causa de suas percepções do líquido que ambos chamam ‘água’ é a mesma, pois ela é o mesmo líquido transparente, inodoro e insípido. Afinal, isso é tudo o que eles em 1750 podiam identificar como sendo a causa eficiente dos seus proferimentos. No máximo eles poderiam identificar a causa com uma estrutura subjacente x, mas pelo princípio de que ao mesmo efeito subjaz a mesma causa, eles teriam boas razões para supor que também a estrutura subjacente da água é a mesma na Terra e na Terra -Gêmea.  
     Consideremos agora como sujeitos cognitivos as pessoas que sabem que a água da Terra tem a estrutura química H2O, enquanto que a água da Terra -Gêmea tem a estrutura química XYZ. Digamos que nós em 2050 (após viagens espaciais até a Terra -Gêmea etc.) saibamos disso. Nesse caso, ao considerarmos as afirmações de Oscar-1 e Oscar-2 em 1750, nós poderemos dizer que em seus proferimentos eles estavam se referindo a coisas diferentes: Oscar-1 se referia a H2O e Oscar-2 a XYZ. Mas ao dizermos isso, o que estamos fazendo é identificar as referências apontadas por Oscar-1 e Oscar-2 por meio de nossas próprias cognições, a saber, por meio dos sentidos diversos que agora damos a palavra ‘água’, como intérpretes do proferimento “Isso é água” aplicado ao líquido da nossa Terra e ao da Terra -Gêmea. Afinal, nosso sentido completo para a água da Terra será alguma coisa como (<Ds + Dsd> + <Dsp-H2O + /Dp-H2O/ + Dps-H2O>) enquanto o nosso sentido completo para a água da Terra -Gêmea será, digamos (<Ds + Dsd> + <Dsp-XYZ + /Dp-XYZ/ + Dps-XYZ>). Nesse caso, as referências serão diversas porque os significados do termo geral – entendidos como sentidos fregeanos determinadores da referência – são diversos, constituindo pensamentos diversos verificados através de diferentes condições de verdade. Esses pensamentos, por sua vez, são instanciados em estados psicológicos e correspondentemente também cerebrais de estrutura inevitavelmente diversa. Quando as referências são diversas é, como já vimos, porque elas resultam de uma espécie de projeção de nossos sentidos fregeanos diversos na situação indexical em que os Oscares fizeram as suas referências, de modo que os proferimentos dos Oscares são interpretados como instrumentos indexicais para a referência de nossos próprios pensamentos. Uma conseqüência disso é que o cálculo da extensão também se torna diferente. Para nós a extensão da água apontada por Oscar-1 em 1750 é apenas a do líquido de estrutura H2O, restringindo-se à Terra , enquanto a extensão da palavra água apontada por Oscar-2 se restringe ao líquido da Terra -Gêmea.
     O que torna possível a variação do que é apontado como a referência e a extensão? Como também já notamos, é o fato de que ambas são extramentais e extralingüísticas. Pois como tal elas dependem, para serem identificadas, dos sujeitos cognitivos e dos sentidos fregeanos que esses sujeitos dão à palavra, variando com a pessoa que o instancia. A mesma palavra ‘água’ identificada por Oscar-1 e Oscar-2 como tendo uma mesma referência pode ser identificada por nós como tendo uma referência diferente, posto que a ela integramos núcleos semânticos diversos. Assim, se astronautas visitam a Terra -Gêmea e descobrem que o líquido que lá é denominado ‘água’ tem a estrutura XYZ, podemos concluir que os habitantes da Terra -Gêmea sempre se referiram a XYZ e que a extensão da palavra ‘água’ é diversa. Mas não podemos esquecer que somos nós mesmos que estamos fazendo isso, com base em nosso conhecimento da essência subjacente diversa, ou seja, com base em sentidos diversos – um relativo a água-H2O e outro relativo a água-XYZ – instanciados em nossos próprios estados psicológicos e cerebrais correspondentes.
     Podemos imaginar que Oscar-1 e Oscar-2 sejam trazidos pela máquina do tempo até nós e que façam um curso intensivo de química, aprendendo que a estrutura molecular da água é H2O na Terra e XYZ na Terra -Gêmea. Por conta desses diferentes núcleos científicos de significação da palavra, eles concordam que em 1750 eles estavam “querendo dizer” (meaning) coisas diferentes. Oscar-1 estava se referindo à água-t e Oscar-2 estava se referindo à água-g, envolvendo estados psicológico-cerebrais diversos na determinação projetiva de referências e extensões diversas apontadas por eles mesmos como seus próprios instrumentos indexicais em 1750. Note-se que isso só é possível porque referência e extensão são entidades extralingüísticas e extramentais, sendo apenas em sua apreensão determinadas pelo sentido (psicologicamente instanciado) expresso pela palavra, o qual pode variar com a informação acessível ao sujeito epistêmico. Nesse caso, porém, os Oscares estão apenas admitindo que aquilo que eles significavam (meant) em 1750, a saber, as referências extralingüísticas, era diferente, e não que os significados (sentidos) que eles haviam dado às palavras era diferente. E nesse caso eles se fiam em seus estados psicológicos e cerebrais atuais, que não são menos diversos do que os sentidos. A conclusão é, em qualquer dos casos, anti-putnamiana: significados são sentidos; sentidos sempre determinam referências; sentidos nunca estão fora das cabeças.
     É possível conceber muitos casos semelhantes aos dos Oscares, que são facilmente explicáveis por uma adequada aplicação da concepção neodescritivista do significado da palavra ‘água’ recém-exposta, tal como foi feito acima, mas cujas intuições permanecem insuficientemente esclarecidas quando lhes aplicamos a teoria de Putnam.
     Suponhamos, em um exemplo muito fantasioso, que Lúcia tem dois gatos. Um deles é um felino normal, enquanto o outro é um ser extra-terrestre que descobriu uma maneira de viver bem adotando a forma de um gato doméstico. Mas Lúcia não sabe disso. Contudo, se isso é um fato e no futuro ela vier a descobrir que isso é verdade, então ela não concluirá que no passado, ao falar de um de seus gatos, ela estava entendendo ou querendo dizer (mean) com isso a referência a um ser extra-terrestre, nem que ela sempre colocou em consideração uma futura relação de identidade-l com as propriedades de um ser extraterrestre, como a teoria de Putnam pretende. Lúcia dirá que aquilo a que se referia como o seu gato doméstico pode ser agora concebido por ela como tendo sido sempre uma referência a um ser extraterrestre, ou até mesmo que ela sempre teria em princípio tido por aceitável colocar em consideração alguma futura relação de identidade-l, que ela não sabia qual poderia ser, mas que se revelou ser uma identidade com as propriedades essenciais de um ser extra-terrestre. Ou seja: como no caso com os gatos domésticos, os dois Oscares em 1750 se referiam à estrutura molecular do composto químico que tinham diante de si tão pouco quanto, digamos, Chapeuzinho Vermelho se referia ao lobo travestido de avó quando ele lhe fez as conhecidas perguntas.
     O mesmo ponto pode ser também demonstrado com o auxílio de um exemplo mais realista, o do ouro branco, que é uma mistura de 75% ouro de 24 quilates com 25% de níquel e paládio, o que lhe dá a cor branca. Suponhamos que uma pessoa que não sabe identificar ouro branco apontar para um anel de ouro branco e dizer de brincadeira “Isso é de ouro”. Para Putnam, essa pessoa deveria estar realmente querendo dizer (meaning) que o anel é de ouro, mesmo que não tenha a menor consciência disso. Afinal, a relação de identidade-l é a das propriedades superficiais experienciadas com a propriedade de conter 75% do elemento químico de número 79. Na verdade, tudo o que podemos dizer é que uma pessoa que desconhece o ouro branco ao apontar para ele estava se referindo a algo cuja estrutura subjacente é sistematicamente referida por nós como contendo o elemento de número atômico 79 em maior proporção. Aliás, nós podemos corretamente dizer que a pessoa potencialmente se referiam ao elemento 79 e usar o proferimento da pessoa como um instrumento indexical para o que temos em mente. Nós podemos até mesmo inventar um conceito de referência potencial, sugerindo então que a pessoa fez uma referência potencial ao elemento 79, a qual será resgatada por qualquer um que saiba identificar o ouro branco através dessa extensão do sentido da palavra. Mas nada disso vem a dar no mesmo que dizer que a pessoa enquanto falante de fato se referia à estrutura ou essência subjacente, muito menos que ele a significava, queria dizer, entendia, pensava ou intencionava tal referência.
     Como se deixa entrever, a teoria de Putnam demanda que já sejamos capazes de entender, no sentido amplo, o significado de certas palavras nos sentidos que elas têm para outros, ou até mesmo nos sentidos que elas terão um dia, muito depois de termos desaparecido, o que é uma consequência muito implausível. Além disso, já foi notado que a teoria de Putnam torna o nosso conhecimento do significado meramente especulativo. Ela nos faz suspeitar que só daqui a muitos anos, ou talvez mesmo nunca, chegaremos a conhecer os significados que damos a termos que usamos diariamente! Pois nunca poderemos saber que realmente chegamos a conhecer o significado. Afinal, como podemos saber de modo indubitável que a essência subjacente foi realmente descoberta? A dúvida paira porque nenhum conhecimento científico é tão certo quanto um saber derivado de convenções.
     Repetindo o que já antes dissemos: o principal equívoco inerente ao argumento de Putnam é que ele passa sub-repticiamente do extensional para o intensional, da conclusão de que a referência e a extensão eram diferentes daquilo que os Oscares pensavam (o que é um lugar comum, posto que a natureza da referência é extra-lingüística e extra-mental) para a conclusão de que o significado e o entendimento sempre foram diferentes. Mas isso não pode ser verdadeiro, pois a natureza do significado, assim como a natureza do que entendemos com a palavra ‘água’, depende de convenções intralingüísticas de instanciação intramental, que em 1750 eram iguais para ambos os Oscares. Os nossos sentidos são dependentes de convenções lingüísticas. Já nossas referências e extensões dizem respeito ao modo como o mundo é ou foi ou será, podendo ser diversamente acessadas por linguagens ou sistemas de convenções diferentes. Tudo o que Putnam realmente poderia concluir de sua experiência em pensamento é que referência e extensão se encontram fora de nossas cabeças. Mas com essa trivialidade todos concordam.

Revendo o conceito de identidade-l   
Não obstante, o que dizer da explicação do significado extensional do termo por meio da relação teorética a ser descoberta pela ciência de uma identidade-l entre a estrutura essencial do exemplar apontado e a da maioria dos outros exemplares encontrados? O problema é que uma identidade-l que seja resultado final da pesquisa científica parece ser em última análise incoerente, posto que nunca poderemos ter absoluta certeza de que qualquer identidade que venhamos a alcançar seja realmente o resultado final da pesquisa científica. A alternativa que sugiro é que a noção de identidade-l seja entendida em um sentido puramente extensional, extralingüístico e extramental: trata-se simplesmente da identidade de essência que os exemplares da extensão de um termo devem em geral manter entre si para constituirem a sua extensão. A identidade-l dos exemplares de quantidades de água hoje, por exemplo, é estabelecida pelo compartilhamento da estrutura química H2O. Com base nisso, quando consideramos os exemplares de água apontados por Oscar-1 e Oscar-2 em 1750, diremos que a identidade-l apontada por Oscar-1 era a existente entre volumes de H2O, enquanto a identidade-l apontada por Oscar-2 era a existente entre volumes de XYZ, disso resultando extensões diversas. Mas é preciso lembrar que usamos nossas próprias cabeças para estabelecer essas extensões e não as cabeças de Oscar-1 e Oscar-2, que no caso não contam. Pois o que estamos fazendo é, outra vez, usar os Oscares como instrumentos indexicais, de modo a projetar o nosso sentido da expressão ‘a extensão da aplicação da palavra ‘água’’ na determinação da substância subjacente que cada um dos Oscares aponta e, usando-os como modelos, estabelecer extensões. Se eles pudessem se comunicar, mantendo o insuficiente conhecimento de química de sua época, eles poderiam concluir que a estrutura subjacente é alegadamente a mesma, que os substratos X de porções de água da Terra e da Terra -Gêmea, com base no conhecimento tido na época, devem manter identidade-l entre si, devendo a extensão ser a mesma. E quanto à identidade-l a ser suposta pelos Oscares da idade da pedra lascada há 30.000 anos a.C.? A resposta é que para os homens do período paleolítico não havia identidade-l a vista. A palavra ‘água’ não poderia naquela época apontar mais para uma essência microestrutural comum do que as palavras ‘ar’, ‘pó’, ‘óleo’ e ‘urina’, que podem denotar estruturas subjacentes mistas e muito variadas.
     Podemos agora comparar a concepção da relação de identidade-l de Putnam com a nossa. Eis como seria o esquema proposto por Putnam da evolução do significado da palavra ‘água’, limitando-o a estereótipos e à relação de identidade-l:

                                                Significado:
1. 30.000 a.C.: água = (<Ds>...) + identidade-l com referências de Dp.
2. 1750:           água = (<Ds+ Dsd...>) + identidade-l com referências de Dp.
3. 1850:           água = (<Ds+ Dsd...>) + identidade-l com referências de Dp.

     Enquanto o nosso esquema é:

                                                 Significado:
1. 30.000 a.C.: água = <Ds>.
2. 1750:           água = <Ds + Dsd> + X>.
3. 1850:           água = <Ds + Dsd> + <Dsp + Dps + /Dp/>.

     Temos aqui o contraste entre um primeiro esquema altamente implausível e um segundo esquema naturalmente convincente e razoavelmente aceitável. Só o segundo esquema permite explicar satisfatoriamente a duplicidade de nossas intuições semânticas sobre a referência e a extensão daquilo que é apontado pelos Oscares em 1750. Só ele que explica nossa intuição de que sempre tivemos conhecimento do que queremos dizer com a palavra ‘água’ e que esse significado se desenvolveu com o tempo, que ele foi e é real, que ele não é uma mera hipótese que acreditamos que a ciência já tenha resgatado, mas que talvez não, e que talvez permaneça para todo o sempre desconhecido...
     O resultado para o qual nossas considerações apontam é, por conseguinte, o de que o esclarecimento do significado dos termos de espécie natural de nosso descritivista refinado se ajusta muito melhor aos fatos lingüísticos do que aquele que Putnam tem a oferecer, devendo por isso ser preferido.

Descritivismo e o dilema de aplicação do conceito de água
A explicação basicamente neodescritivista do significado de termos de espécie natural recém-sugerida também nos permite resolver um conhecido dilema concernente à aplicação do conceito de água – um conflito conceitual que nem a teoria descritivista tradicional nem a teoria causal-essencialista de Putnam/Kripke têm condições de resolver.
     A questão que gera o dilema nasce de uma separação entre propriedades superficiais e estrutura subjacente, envolvendo duas suposições:
(a) Imagine que em algum lugar do mundo se descubra um líquido inodoro, transparente etc. que possui todas as propriedades superficiais da água (serve para beber, apaga o fogo etc.), mas cuja estrutura subjacente é completamente diferente, digamos XYZ. Podemos ou não dizer que esse líquido é água?
(b) Imagine agora que em algum outro lugar do mundo sejam encontradas rochas sólidas, escuras como carvão, que não possuem nenhuma propriedade superficial da água (não servem para beber, não apagam o fogo...), mas que, acreditem ou não, são constituídos de H2O. Podemos dizer que essas rochas são feitas de água?
      Descritivistas e causalistas responderão opostamente a essas questões.
      Vejamos primeiro a resposta de filósofos defensores da concepção causal da referência de termos de espécie natural, como Kripke e Putnam.  Para esses filósofos, a microestrutura essencial da água descrita por Dp tem predominância sobre todo o resto. Por isso eles responderam negativamente à questão (a): se encontrarmos um líquido com todas as propriedades superficiais da água, mas que não tem a estrutura molecular H2O, esse líquido não pode ser água. E quanto à questão (b), a resposta precisa ser afirmativa: mesmo que a substância não apresente nenhuma das propriedades superficiais da água, como essa substância é feita de H2O, ela precisa ser feita de água.
     Filósofos descritivistas, como A.J. Ayer e outros críticos de Putnam, privilegiaram as estruturas de superfície e se apegaram às intuições opostas: o que vale são as propriedades fenomenais e não a estrutura química subjacente.  Por isso eles responderam afirmativamente à questão (a): se em algum lugar da Terra encontrarmos um líquido com a estrutura superficial da água, mas com estrutura química XYZ, nós não deixaremos de classificá-lo como sendo água; nós diremos apenas que é água de um outro tipo. Quanto à questão (b), eles a responderam negativamente, dizendo que mesmo que as rochas tenham a estrutura molecular H2O, elas não podem ser água, pois em nada se aparentam com o líquido transparente, insípido e inodoro com o qual estamos acostumados.
     Quem estará certo? O causalista ou o descritivista? Há aqui um choque de intuições. Se pensarmos como o descritivista, as respostas parecem umas; se não, as respostas parecem outras. Ora, a versão mais complexa de descritivismo que propomos permite predizer e explicar o choque de intuições. Esse choque resulta tão somente do fato de a palavra ‘água’ ter dois núcleos diferentes de significado, parcialmente distinguíveis entre si, que são <Ds + Dsd>, o núcleo popular, e <Dsp + /Dp/ + Dps>, o núcleo científico. As situações imaginadas são aquelas nas quais são encontradas entidades que satisfazem apenas um dos núcleos semânticos, sendo o outro satisfeito por núcleos semânticos de outros termos (por exemplo ‘carvão’ ou ‘XYZ’). Assumindo que cada núcleo semântico tem um mesmo peso, ficamos divididos e sem critérios para saber que termo devemos aplicar.
     Essa é uma possibilidade. Mas na prática não precisa ser assim. Parece-me claro que o peso de cada núcleo semântico é capaz de sofrer variações de acordo com o que poderíamos chamar de contexto de interesses associado ao proferimento. Chamo de contexto de interesse de um termo o contexto que eleva o valor de aspectos do significado que são de  importância pragmática para as pessoas estão a usá-lo. Imagine que se trate de um contexto de interesses científico, envolvendo falantes versados em química, que se encontram em um laboratório e objetivam fazer experimentos separando os gases que compõem amostras de água. Nesse caso, o núcleo semântico científico é privilegiado. A palavra ‘água’ está sendo usada no lugar de expressões como ‘hidróxido de hidrogênio’ ou ‘monóxido de di-hidrogênio’, termos científicos que têm como função semântica exclusiva exprimir o núcleo semântico <Dsp-H2O + /Dp-H2O/ + Dps-H2O> na referência a amostras de líquidos com estrutura química H2O. Nesse caso se preferirá dizer que o líquido transparente etc. de estrutura química XYZ decididamente não é água e, no esforço de tirar água (H2O) das pedras, os químicos dirão que as rochas com aparência de carvão são rochas d’água.
     Considere agora, para contrastar, um contexto de interesses da vida ordinária. Digamos que o falante pertença a uma comunidade de pescadores que tem como objetivo cavar um poço para obter água para beber, lavar, tomar banho. Para ele tanto faz se a estrutura química efetiva do composto é H2O ou XYZ, conquanto ela sirva aos devidos fins. Nesse caso, o velho núcleo semântico da linguagem popular pode ser considerado o mais importante, pois mesmo que informados de que a estrutura química do que eles estão usando não é H2O, eles não encontrarão nenhum razão para deixar de aplicar o termo no sentido considerado.  Já se as propriedades fenomenais se alterassem, deixando a substância de cumprir com as suas funções usuais, como no caso das pedras com estrutura química H2O, a tendência será concluir que elas não tem nada a ver com água por não ter nada a ver com o que eles esperam do conceito.
     O mesmo se daria com uma ‘água’ como a encontrada na Terra -Gêmea. Se o contexto de interesses for o de uma discussão entre cientistas, pode ser vantajoso que se privilegie <Dsp-H2O + /Dp-H2O/ + Dps-H2O>, entendendo-se por ‘água’ o mesmo que ‘hidróxido de hidrogênio’ e concluindo-se que XYZ não é água, tal como Putnam sugeriu. Já no contexto de interesses ordinários pode valer mais a pena privilegiar <Ds + Dsd>, concluindo daí que se trata apenas de uma outra espécie de água, tal como sugeriram os críticos de Putnam. A melhor resposta para o dilema, pois, é que a semântica da palavra ‘água’ é suficientemente flexível para nos permitir escolher o corno do dilema que preferirmos segurar. E o corno preferido é sempre a descrição, o sentido fregeano que o contexto de situação nos leva a pragmaticamente valorizar.
     Podemos terminar observando que o equívoco semântico produzido pela fantasia da Terra -Gêmea envolve uma falácia genética. É claro que se o mundo não possuísse elementos que nos permitissem chegar ao conceito de água, não teríamos acesso ao sentido do termo. Nesse sentido trivial, o significado está na dependência da constituição externa das coisas, sendo causalmente determinado por elas. Mas nesse caso o mundo é apenas um elemento causal externo, que mais ou menos indiretamente determina a formação de nossas convenções semânticas e suas instanciações mentais. Mas o mundo não é determinador do significado, nem de nosso pensamento e entendimento das coisas como constituintes dele mesmo. O externalismo semântico se alimenta dessa falácia genética, que consiste em confundir as causas últimas de nossas intuições semânticas, quando essas são externas, com os seus efeitos, que são estados mentais representacionais internos, instanciadores de um conteúdo semântico psicológico diversamente distribuído entre os falantes. Se o efeito é uma representação, essa representação não depende necessariamente, para a sua existência, da existência daquilo que representa. Pois a representação pode resultar de uma combinação de elementos causais os mais diversos, como demonstram os produtos de nossa imaginação. Devido à imensa flexibilidade dos mecanismos representacionais refletidos pela linguagem, nossas representações freqüentemente apresentam uma relação muito remota com as suas causas.

Como o termo geral ‘água’ pode se tornar um designador rígido
Devemos notar que também aqui podemos utilizar instrumentos lógicos derivados da teoria das descrições para formalizar a regra de aplicação do termo geral. Uma maneira de fazermos isso é introduzindo os seguintes predicados: F = ‘...satisfaz suficientemente as regras de caracterização expressas pelas <Ds + Dsd> para o conceito de água’, G = ‘...satisfaz suficientemente as regras de caracterização expressas pelas <Dps + /Dp/ + Dsp> para o conceito de água’, P = ‘...satisfaz suficientemente a regras de caracterização F e/ou G e satisfaz isso mais do que qualquer outra regra classificadora de outra substância química’, e A = ‘...é água’. A regra de aplicação para a palavra água pode ser então formulada como:
Ex(Ax) ↔ Ex ((Fx v Gx) & Px)

Considerando essa equivalência podemos também explicar como o termo geral ‘água’ pode ser entendido como um designador rígido. Entendendo que o designatum próprio do termo geral seja uma propriedade singularizada (um tropo ou sistema de tropos) podemos dizer que o termo geral ‘água’ é um designador rígido secundariamente a rigidez de termos singulares a ele associados. Ele é rígido no sentido de que em qualquer mundo possível no qual um mesmo objeto referido por um certo termo singular existe, se podemos usar o termo geral ‘água’ predicando-o desse objeto, então RI-‘água’ se aplica a esse mesmo objeto, permitindo-nos dizer que Ex ((Fx v Gx) & Px). Ou seja, o termo geral ‘água’ é um designador rígido porque ele se aplica a amostras D’água em todos os mundos possíveis nos quais essas amostras podem ser identificadas como sendo as mesmas.
     Isso se verifica também na observação de que RC-‘água’ nos permite formar uma sentença analítico-conceitual necessária, posto que verdadeira em todos os mundos possíveis, qual seja:

O termo geral ‘água’ se refere ao líquido que estiver na origem (causal ou inferencial) de nossa consciência de que ele satisfaz de um modo em seu todo suficientemente as condições <Ds + Dsp> e/ou <Dps + /Dp/ + Dsp> para água, sem competição com regras conceituais para outras substâncias químicas.

     Como no caso dos nomes próprios, o termo geral é rígido em contraste com termos gerais descritivos ou entendidos como tais. Considere, por exemplo, o termo geral ‘água’ no sentido genérico associado a RI-‘água’ e a descrição indefinida ‘um líquido transparente, inodoro e insípido que serve para aplacar a sede’, usada para designar água. A descrição não se aplica em todos os mundos possíveis nos quais predicamos o termo geral ‘água’ no sentido genérico de um mesmo objeto, sendo por comparação não-rígida, o mesmo acontecendo com o uso do termo ‘água’ no sentido popular.

Identidade de espécies naturais
Uma questão que pode agora ser colocada é como se comportam identidades de espécies naturais como “Água é H2O” e “Ouro é o elemento de peso atômico 76”. Consideremos o primeiro enunciado. Para os descritivistas tradicionais ele exprimiria uma proposição a posteriori (posto que sua verdade é derivada da experiência) e também contingente (posto que a água, descrita como ‘líquido transparente, inodoro etc. poderia não ter a composição química H2O, mas alguma outra. Já para causalistas-essencialistas como Kripke e Putnam os termos ‘água’ e ‘H2O” são designadores rígidos. Eles se referem ao mesmo tipo de coisa em qualquer mundo possível, daí resultando que embora o enunciado “Água é (= a) H2O” seja a posteriori (posto que a sua verdade é derivada da experiência), ele é necessário (pois designa a mesma essência microestrutural em qualquer mundo possível). Além disso, como vimos, Avrum Stroll sugere que “Água é H2O” não é realmente uma sentença de identidade, pois o ‘é’ não é o da identidade, mas o de constituição, querendo dizer  “A água é feita de H2O”. Esse resultado é suportado pelas nossas análises da regra de aplicação da palavra ‘água’ e ‘H2O’. Mas ainda que Stroll esteja certo, a diferença persiste, pois enquanto descritivistas dirão que “A água é constituida de H2O”  é uma descoberta contingente e a posteriori, mas contingente, causalistas-essencialistas dirão que essa proposição é a posteriori mas necessário, pois H2O é a essência constitutiva da água em qualquer mundo possível. Quem estaria certo? Embora a posição causal-histórica tenha suas razões, contra ela pesa a objeção básica contra o conceito de necessário a posteriori: como é possível que uma proposição seja verdadeira em todos os mundos possíveis sem ser a priori?
     Ao menos no caso da sentença “Água é H2O” (e receio que também em outros) a resposta neodescritivista me parece mais adequada. O neodescritivista dirá que a sugestão de que o enunciado “Água é H2O” é metafisicamente necessário por ser necessário a posteriori é uma confusão resultante de uma ambiguidade que tem sido constatada pelas semânticas bidimensionalistas. O que podemos querer dizer com a palavra ‘água’ varia de acordo com o contexto, havendo ao menos três possibilidades a disposição:
(i) Em um contexto amplo inclinamo-nos a considerar o significado mais genérico da palavra ‘água’. Nesse contexto amplo o ‘é’ é o de constituição e a proposição é contingente e a posteriori. Para evidenciá-lo basta comparar as regras de classificação dos conceitos de água e H2O. A regra de aplicação para ‘água’, RA-’água’, pode ser explicitada pela seguinte frase analítica:
Usamos o termo geral ‘água’ – para nos referirmos a exemplares de uma substância química contida em x see ela pode nos fazer conscientes de que (i) ela satisfaz as regras de caracterização expressas pelo núcleo semântico popular <Ds + Dsp> e/ou pelo núcleo semântico científico <Dps + /Dp/ + Dsp> associado à palavra (ii) em medida no todo suficiente e (iii) sem competição com regras conceituais de outros termos de substâncias químicas.
    Enquanto a regra de aplicação para o termo geral ‘H2O’ (dihidróxido de oxigênio), RA-H2O, é mais restrita:

Usamos o termo geral ‘H2O’ para nos referirmos a exemplares de uma substância química contida em x see pode nos fazer conscientes de que (i) x satisfaz as regras de caracterização expressas pelo núcleo semântico científico <Dps + /Dp/ + Dsp> associado à palavra (ii) em medida no todo suficiente e (iii) sem competição com regras conceituais de outros termos de substâncias químicas.

     A frase “Água é H2O” quer dizer que se acredita que a tudo o que aplicamos a segunda regra aplicamos também a primeira. A experiência nos mostra que de fato tem sido assim... Mas não é necessário que seja assim, pois RA-‘água’ contém uma disjunção inclusiva cujo primeiro termo permite que a água seja identificada apenas pelas suas características de superfície, não demandando que a microestrutura seja H2O. Por isso o que temos aqui é uma verdade contingente, baseada na experiência e em princípio falseável através dela.
     As outras duas alternativas são aquelas em que o entendimento do termo ‘água’ sofre modificações devidas ao contexto de interesse. Ei-las:

(ii) Se o contexto de interesse for restrito às necessidades cotidianas, o que se sobressai é o sentido mais popular da palavra ‘água’. Nesse caso trata-se de um líquido transparente, insípido e inodoro, que aplaca a sede e apaga o fogo. Nesse caso a frase “Água é (constituida de) H2O” será verdadeira mas contingente e a posteriori.

(iii) A terceira possibilidade é a de que o contexto seja o do interesse científico estabelecido a partir da primeira metade do século XIX. Nesse caso teremos o que foi pensado por por Kripke e Putnam, exemplos em que o termo ‘água’ passa a significar o mesmo que H2O. ‘Água’ significa aqui o mesmo que as expressões ‘hidróxido de hidrogênio’, ‘óxido de hidrogênio’ ou ‘monóxido de dihidrogênio’. Nesse caso a regra RA-‘água’ será a mesma que RA-‘H2O’, donde resulta que “H2O é (= a) água” se torna uma frase necessária obviamente a priori, posto que a sua verdade pode ser sabida independentemente da experiência. Essa conclusão torna-se mais clara quando substituimos a palavra ‘água’ por hidróxido de hidrogênio, que é o que essa palavra significa aqui, daí resultando a frase “hidróxido de hidrogênio é (= a) H2O”, que é necessária e a priori, pois a regra de aplicação de ambas é a mesma. É com pesar, pois, que sou levado a informar que nenhum traço do necessário a posteriori foi encontrado por essas paragens.

     Podemos agora expor a razão da mescla de insight e erro contida na sugestão de Kripke ao sugerir que “Água é H2O” é uma proposição necessária a posteriori. Ele parece-e ter confundido os dois últimos sentidos da palavra ‘água’ ao analisar a frase “Água é H2O”, usando o entendimento popular da palavra ‘água’ para dizer que essa é uma verdade a posteriori e usando o entendimento científico da mesma palavra para dizer que essa é uma verdade necessária. Mas “Água é H2O” é uma frase ambígua. Ela pode ser entendida como contingente e a posteriori ou como necessária a priori. O que não é possível é que ela seja entendida como sendo metafisicamente necessária e a posteriori, tornando-se suspeita a existência de necessidades metafísicas fora das cabeças dos filósofos.
O elemento social do externalismo de Putnam
Antes de terminarmos, precisamos ainda considerar rapidamente os dois outros exemplos de Putnam.
     No primeiro ele supõe que alumínio e molibdênio só sejam distinguíveis entre si por metalúrgicos e que a Terra -Gêmea esteja cheia de molibdênio, metal raro na Terra . Além disso, ele imagina que os habitantes da Terra -Gêmea chamem o molibdênio de alumínio e vice-versa. Nesse caso, certamente, a palavra ‘alumínio’ dita por Oscar-1 terá uma extensão diferente da palavra ‘alumínio’ dita por Oscar-2, de modo que eles querem dizer (mean) coisas diferentes com a palavra. Mas como eles não são metalúrgicos, eles têm os mesmos estados psicológicos. Logo, o significado é externo ao que acontece em suas cabeças.
     No segundo exemplo Putnam considera a diferença entre olmos e faias. A maioria de nós não sabe distinguir olmos de faias em uma floresta. Contudo, mesmo assim somos capazes de usar essas palavras sem que as suas extensões deixem de ser diferentes: olmos são olmos e faias são faias. Assim, o que queremos dizer com essas palavras, os significados que a elas atribuímos, são diferentes, mesmo que essa diferença não esteja em nossas mentes.
     Putnam tira uma conclusão surpreendente desses casos imaginários: assim como no caso da água da Terra -Gêmea, o significado está no mundo físico externo, nos casos recém-expostos ele está também na sociedade. Para esclarecer essa tese ele introduz a importante idéia da divisão de trabalho da linguagem. As palavras requerem a atividade cooperativa de um número de pessoas para poderem ser efetivamente usadas. Não sabemos distinguir alumínio de molibdênio, nem olmos de faias. Mas isso não importa, pois o meio social é capaz de distingui-los por nós. Há em nossa comunidade lingüística especialistas e outros falantes com a habilidade de reconhecer por nós as espécies naturais pelas suas características essenciais. Pelo simples fato de pertencermos a essa comunidade, mesmo não sabendo quais são as propriedades distintivas da maioria das espécies naturais, somos capazes de usar palavras como ‘alumínio’ e ‘molibdênio’, ‘olmo’ e ‘faia’ no sentido que elas têm e referir-nos às suas extensões, mesmo que não saibamos reconhecer as suas essências causais. Como Putnam corretamente conclui:

O estado psicológico do indivíduo não fixa a extensão; somente o estado sociolingüístico do corpo lingüístico coletivo ao qual o falante pertence é que fixa a extensão.

     Essa sugestão de Putnam é importante. Errônea é apenas a interpretação externalista que ele lhe sugere. Como já consideramos ao discutirmos a divisão de trabalho da linguagem com respeito ao nosso conhecimento do conteúdo de nomes próprios, Putnam não foi o primeiro a apontar para a existência de uma divisão de trabalho da linguagem; isso já foi feito por C.S. Peirce e antes dele pelo próprio Locke, dentro do contexto de sua teoria descritivista e internalista do significado como idéia mental. E a razão disso é que, como já notamos, a hipótese da divisão do trabalho linguístico é perfeitamente compatível com uma perspectiva cognitivista-descritivista ou neofregeana.  É verdade que podemos usar palavras como ‘molibdênio, ‘olmo’ e ‘faia’, sem saber o que elas significam, sem a habilidade de reconhecer as suas referências. E também é verdade que nos fiamos nos especialistas (metalúrgicos, botânicos...), a saber, nos usuários privilegiados dessas palavras na comunidade lingüística para uma identificação suficiente. Mas o fato é que sempre sabemos alguma coisa mais ou menos genérica sobre os significados dessas palavras, por exemplo, quando conhecemos somente os seus marcadores sintáticos ou semânticos. Por isso precisamos distinguir entre o conhecimento suficiente e o conhecimento insuficiente do significado de um termo, mesmo não havendo uma separação rigorosa entre as duas coisas. Assim, o conhecimento suficiente é o que faz possível a referência identificadora no seu sentido próprio, podendo ser expresso por descrições das regras que exprimem a condição de aplicação no caso do termo geral. Já o conhecimento insuficiente é o que apenas possibilita uma inserção adequada da palavra em um dado contexto discursivo, como é o caso do conhecimento do gênero ao qual pertence o termo ou do que Putnam chamou de marcadores sintáticos e semânticos. Com exceção de palavras muito usuais, nosso conhecimento do significado costuma ser insuficiente. Há muitas palavras com relação as quais todos nós temos conhecimento suficiente do que elas querem dizer; todos sabemos, por exemplo, que a palavra ‘cadeira’ significa ‘banco com encosto’. Mas esse não costuma ser o caso de termos científicos e técnicos. Temos conhecimento insuficiente do significado das palavras ‘molibdênio’ e ‘olmo’ – às quais sou capaz apenas de associar respectivamente as descrições ‘um metal’ e ‘um tipo de árvore’. Putnam nota corretamente que a representação mental que nos fazemos ao pensar em olmos e em faias não difere, pois tudo o que pensamos do olmo é que ele é uma árvore diferente da faia e da faia que ela é uma árvore diferente do olmo, mas que, sendo simétricas, essas representações não se distinguem entre si.  Em certa medida isso é verdade. Por isso não ficaríamos sequer muito surpreendidos se fossemos informado que olmos são a mesma coisa que faias. Contudo, se alguém nos pergunta pela diferença entre olmos e faias a informação de que há uma diferença conceitual costuma vir pressuposta. Assim, meu conhecimento insuficiente da referência já me permite, por exemplo, saber outras coisas, como que olmos e faias não são feitas de molibdênio e que uma panela de metal não pertence à classe dos olmos e mesmo – se alguém me pergunta – que não são nomes diferentes para a mesma espécie de árvore. Com isso já posso entender proferimentos com essas palavras e mesmo empregá-las corretamente na linguagem em contextos bem pouco exigentes. E posso fazer isso porque tenho consciência da insuficiência de meu conhecimento e porque usualmente os ouvintes precisam e esperam é apenas a informação vaga e incompleta e porque nos fiamos no conhecimento suficiente do sentido dessas palavras, que geralmente se encontra nas mentes dos seus usuários privilegiados, como é o caso do metalúrgico e do botânico.
     O que Putnam falha em considerar aqui (movido pelo seu compromisso exteralista) é apenas o fato de que uma sociedade lingüística não seria capaz de fazer referência as espécies naturais de coisas se em algum momento não emergisse um elemento cognitivo capaz de aplicar os critérios de identificação necessários. Assim, embora o que determina a referência não precise ser um adequado estado psicológico do falante, para que a referência seja determinada ela precisará depender de estados psicológicos de membros autorizados do corpo lingüístico coletivo; e tais estados psicológicos instanciam sentidos descritivos, que por sua vez determinam as extensões.  Mesmo que o conteúdo informativo esteja dividido entre os membros da sociedade, esses conteúdos se complementarão permitindo a caracterização. Podemos até imaginar que certos termos tenham o seu conteúdo armazenado em computadores, ou que autômatos sejam capazes de aplicá-los para nós e que as regras de identificação sejam automaticamente geradas por eles, de modo que nenhum ser humano precise conhecê-las. Mas nesse caso já admitimos que essas regras potencialmente existem, pois ao virem inscritas em computadores e autômatos identificadores, torna-se possível para nós resgatá-las cognitivamente. Podemos dizer que uma palavra cuja regra de aplicação tenha sido gerada em seu conteúdo expressivo por um computador, ou que seja aplicável por um robot identificador seria em sua significatividade e referencialidade sempre dependente, em última análise, de intérpretes humanos, ao únicos capazes de lhes doar significado, sendo por isso apenas potencialmente significativa. Ou seja: mesmo nesses casos extremos, significação e referência são fenômenos antropomórficos que em algum momento demandam ou pressupõem cognição.
     Imagine, por exemplo, que uma guerra atômica fizesse desaparecer todos os cientistas e os meios de acesso à ciência, restando apenas algumas poucas pessoas sem qualquer conhecimento de ciência, que conseguem sobreviver em uma comunidade. Nesse caso, termos de física como ‘neutrino’, ‘força forte’ e ‘supercorda’ não seriam mais capazes de denotar mais coisa alguma, mesmo que elas ainda pudessem ser lembradas ou lidas em algum lugar. Pois dizer que leigos – sem a possível orientação de especialistas – se referem a algo com essas palavras é pouco mais do que um simples modo de falar. De fato, dizer que pessoas sem conhecimento profundo de física sabem o que essas palavras significam (no sentido fregeano de conteúdo informativo) não passa de um grande exagero. Nosso conhecimento de seus sentidos é por demais genérico e em si mesmo totalmente insuficiente.
     O problema é que Putnam hipostasia o uso correto que fazemos das palavras, mesmo sem conhecimento suficiente do significado e da referência, como se nele já significássemos e pessoalmente referíssemos plenamente, como se isso se desse pelo efeito mágico das cadeias causais externas que se combinam na divisão do trabalho da linguagem. O falante que conhece insuficientemente o significado de uma palavra que usa não designa sozinho; as suas palavras têm apenas o que já chamamos de uma referência potencial, na medida em que ele (sob a condição e ser consciente da extensão de sua ignorância) é capaz de inseri-las corretamente no discurso. Pois ao fazer isso ele comunica as esperadas vaguidades semânticas que permeiam nossa compreensão cotidiana das palavras sob o suposto de que existem falantes mais competentes, capazes de lhes atribuir os sentidos adequados e torná-las referencialmente eficazes. Tais palavras são como notas promissórias de seus sentidos e referências. Nós confiamos que usuários com conhecimento suficiente dos seus sentidos sejam capazes de resgatá-las.
     O significado só existe enquanto está na mente das pessoas, pois mesmo que a sua regra esteja, digamos, inscrita nos caracteres de um livro, ou guardada na memória de computadores, mesmo que ela seja aplicada por um autômato, ela não é enquanto tal significativa nem é uma regra no sentido que nos interessa da palavra. Ela só se torna verdadeiramente uma regra semântica enquanto for interpretada por um agente humano. Uma expressão de regra, como Wittgenstein notou, pode ser sujeita a um número indeterminado de interpretações; para que lhe seja dada uma interpretação apta a consenso e portanto apta a ser socialmente usada e a pertencer à linguagem, ela precisa da natureza humana que possa constituir a base homogênea sobre qual a forma de vida foi construida.
     A conclusão de toda essa discussão é que em momento algum o significado existe fora das cabeças, mesmo que ele venha diversamente distribuído nas cabeças dos membros da comunidade lingüística. Divida-se o bolo como se quiser, o significado não está nem na natureza externa nem no corpo lingüístico coletivo externamente observável; ele há de estar sempre em cabeças particulares, sejam elas a do falante ou a do intérprete, a do leigo ou a do especialista, mesmo que desigualmente dividido entre os componentes formadores da comunidade lingüística e mesmo que parcialmente guardado na memória artificial de docomentos ou computadores. Devidamente qualificado, o descritivismo é ubíquo.

Tyler Burge e o externalismo do pensamento
Há uma experiência em pensamento complementar a de Putnam, que foi imaginada por Tyler Burge com respeito ao conceito de artrite. O que Burge pretendeu foi, para além de Putnam, mostrar que não só o significado deve ser entendido de maneira extensional, mas  que as crenças, ou seja, os próprios conteúdos de pensamento, estão fora da cabeça. Quero resumir o argumento de Burge e em seguida mostrar que há uma explicação internalista muito mais plausível para o que acontece.
     Embora Burge exponha o seu argumento imaginando uma situação contra-factual, podemos torná-lo mais claro imaginando que uma pessoa de nome Oscar sinta dor na coxa e procure um médico dizendo
     Acho que tenho artrite na coxa.
Como artrite é entendida como uma inflamação dolorosa e deformante das juntas, o médico lhe explica que a sua crença é falsa, que ele não pode ter artrite na coxa. Imagine agora que Oscar viaje para uma região do país na qual seja costume usar a palavra ‘artrite’ de um modo muito mais amplo, para se referir a toda e qualquer inflamação. Chamemos a comunidade lingüística dessa última região de B e chamemos a comunidade lingüística da primeira região de A. Suponha que, uma vez tendo chegado à região da comunidade lingüística B, Oscar procure um médico com a mesma queixa “Acho que tenho artrite na coxa”. Nesse lugar, como seria de se esperar, o médico irá confirmar a suspeita, concordando com a verdade de sua crença.
     Com base nesse exemplo, o raciocínio de Burge é o seguinte. Sem dúvida, os estados psicológicos de Oscar ao dizer que acredita ter artrite na coxa na primeira e na segunda vez são exatamente os mesmos, assim como o seu comportamento. Mas as crenças, os pensamentos expressos nos proferimentos, precisam ser diferentes, posto que o pensamento expresso pelo primeiro proferimento é falso, enquanto o pensamento expresso pelo segundo é verdadeiro, e um mesmo pensamento não pode ser falso e verdadeiro. Podemos até marcar o significado diverso da palavra ‘artrite’ no segundo proferimento com uma nova palavra, ‘cotrite’ (thartritis). A conclusão do argumento é que o conteúdo de pensamento não pode ser algo meramente psicológico. Esse conteúdo deve pertencer também ao mundo externo, às relações sociais da comunidade que envolve o falante.
     Contra essa conclusão é possível encontrar uma explicação internalista e descritivista para o que acontece. Para o internalismo a palavra ‘artrite’ deve exprimir um conjunto de regras-descrições constitutivas de seu significado. Uma delas, ‘uma inflamação que ocorre na coxa’, faz parte do sentido da palavra para a comunidade lingüística da região B, mas não para a comunidade lingüística da região A. Assim, embora o conteúdo de pensamento expresso na frase “Acho que tenho artrite na coxa”, dito por Oscar nas regiões A e B possa ser considerado exatamente o mesmo, há uma diferença que foi justamente lembrada por John Searle em uma crítica que vai ao cerne da questão:
É uma pressuposição de pano-de-fundo por trás do nosso uso social das palavras que nós compartilhamos significados comuns com outras pessoas em nossa comunidade. 
     Ou seja: quando Oscar diz ao primeiro médico “Creio que tenho artrite na coxa”, ele está pressupondo que a regra de aplicação do predicado ‘artrite na coxa’ pertence à linguagem que ele está usando, ou seja, que os outros falantes competentes da linguagem a consideram convencionalmente aplicável. O que ele tem em mente ao proferir a sua frase diante do primeiro médico poderia ser reapresentado como

(a)  Tenho artrite na coxa e a regra de aplicação do predicado ‘artrite na coxa’ é aceita como correta pelos falantes da comunidade lingüística A, a qual pertence o meu interlocutor.

     Essa é uma frase falsa porque a segunda sentença da conjunção é falsa. Vejamos agora como fica a explicitação daquilo que Oscar tem em mente quando diz ao segundo médico que acha que está com artrite na coxa:

(b)  Tenho artrite na coxa e a regra de aplicação do predicado ‘artrite na coxa’ é aceita como correta pelos falantes da comunidade lingüística B, a qual pertence o meu interlocutor.

     A frase (b) é verdadeira porque exprime uma conjunção verdadeira. E a diferenca de sentido entre (a) e (b) é evidente, pois enquanto uma está indexicalmente associada à comunidade linguística A, a outra está indexicalmente associada à comunidade linguística B. Pode ser verdade que se nos restringirmos ao conteúdo expresso, os pensamentos de Oscar ao proferir a mesma frase nas regiões A e B sejam idênticos. Mas o que eles têm em mente com os proferimentos – o conteúdo completo de seus pensamentos – é mais do que isso, pois há uma assunção disposicional que envolve a situação indexical do falante, cujo valor-verdade varia com a comunidade linguística envolvida, sendo diferente para cada proferimento. Trata-se de uma assunção discursiva indispensável de que as regras de verificação constitutivas do pensamento devam estar em conformidade com as convenções da comunidade linguística na qual ele é expresso. Essa assunção é transgredida por Oscar quando ele fala com o médico da comunidade A, mas ela não é transgredida quando ele fala com o médico da comunidade B. É isso o que explica porque o pensamento de Oscar em A é falso, enquanto o pensamento de Oscar em B é verdadeiro. O pressuposto de que o pensamento expresso deve estar em conformidade com as regras da linguagem não é, porém, externo ao falante. Ele é um elemento psicológico de ordem disposicional, que completa o conteúdo de pensamento e que pode ser explicitado por Oscar sempre que isso for requerido.
     Burge chamou-nos atenção para uma coisa importante: que a verdade ou a falsidade do pensamento completo, depende da comunidade lingüística que envolve o falante. Mas diversamente do que ele pensa, essa dependência não é externa no sentido de o pensamento não ser psicológico, encontrando-se como que disperso no meio social. A dependência social reside exclusivamente em a comunidade lingüística satisfazer ou não uma condição de verdade interna ao pensamento no sentido amplo, nomeadamente, a condição de que a regra de aplicação do termo ‘artrite’ usada pelo falante seja uma regra fundamentada nas convenções lingüísticas compartilhadas pela comunidade lingüística com a qual ele se comunica.
     Finalmente, a explicação dada nos permite parafrasear em termos internalistas a distinção entre conteúdo estreito (narrow content) e conteúdo amplo (wide content), ao menos para o caso em questão. Para o externalista, o conteúdo estreito é aquele que está na mente do falante, enquanto o conteúdo amplo é aquele que está lá fora, no mundo ou na sociedade. A análise internalista do exemplo de Burge nos permite sugerir que o conteúdo estreito de pensamento é a própria ocorrência cognitivo-linguística do pensamento (expresso pela frase “Acho que tenho artrite na coxa”), enquanto o conteúdo amplo do pensamento nada mais é do que aquilo que está sendo assumido pelo que é pensado, existindo na mente do falante como uma disposição cuja existência é certa, dado que uma vez colocada em consideração ela será indiscutivelmente aceita.






12.

AS IRREGULARIDADES DO TERRENO CONCEITUAL


Como ficou claro no capítulo anterior, as teorias descritivistas tradicionais dos termos gerais eram demasiado rudimentares. Foi em parte devido a esse caráter simplista das teorias descritivistas que a teoria causal da referência dos termos gerais e o externalismo semântico pareceram plausíveis, sugerindo que as palavras precisam significar mais do que são convencionadas a significar, posto que em sua dimensão mais relevante, que é a da determinação da referência, os significados são externos as nossas mentes. Já vimos, porém, que em seu sentido próprio o externalismo semântico é insustentável. Embora não queiramos negar a indispensabilidade da influência de fatores causais externos para que a referência se torne possível, ela é aqui ainda mais elusiva do que no caso dos nomes próprios.
     Nosso objetivo deveria ser agora o de desenvolver uma mais adequada teoria descritivista dos termos gerais, seguindo um modelo paralelo ao proposto para os termos singulares. Contudo, o terreno que se encontra a nossa frente parece bem mais acidentado. Não há uma única classificação coerente para os termos gerais e parece claro que não há um princípio único determinando as suas regras de aplicação. Por isso e porque a questão demanda investigações detalhadas, não pretendo fazer mais do que esboçar algumas breves sugestões.
Uma classificação para os termos gerais
Na tentativa de estabelecer uma classificação geral dos termos gerais, quero começar propondo uma tricotomia que retém certa analogia com aquela que divide os termos singulares em indexicais, descrições e nomes próprios. Correspondentemente, gostaria de dividir os termos gerais em indexicadores, descritivadores e nominadores.
      Os termos gerais indexicadores são os que só se deixam definir em contextos indexicais. Exemplo de termos gerais indexicadores seriam palavras como ‘vermelho’, ‘redondo’, ‘quente’. Característico desses termos é que eles não se deixam analisar na forma de descrições, ao menos enquanto forem entendidos como designações de aparências fenomenais ou seus correlatos. Em contextos perceptuais esses termos podem ser usados junto a indexicais de modo a determinar a referência sem a intermediação de descrições. Não há como analisarmos fenomenalmente os termos gerais em proferimentos como “Vermelho ali”, “Redondo lá” ou “Eu sinto calor”. Não há como aprendermos o significado fenomenal de palavras como ‘vermelho’, ‘redondo’ ou ‘quente’, sem sermos apresentados a coisas vermelhas ou redondas ou quentes, ou seja, sem recorrermos ao uso dessas palavras em proferimentos indexicais. Nesse sentido eles são análogos aos indexicais. Diversamente dos últimos, porém, eles não precisam ser reconhecidos como referindo-se a particulares, a não ser que venham associados a termos singulares capazes de identificar tais particulares: não posso saber que o vermelho que vi ontem é o mesmo que o vermelho que vejo agora, a menos que o identifique como o vermelho desse sofá, associando assim a palavra ‘vermelho’ a um objeto referido pela expressão referencial ‘esse sofá’. Os termos indexicadores são, aliás, os sub-rogados daquilo que Bertrand Russell equivocamente chamou de nomes próprios lógicos, pois eles são os melhores candidatos a termos primitivos da linguagem, cujas regras de significação só são aprendidas pela familiaridade com os seus designata.
     Vejamos agora os termos gerais descritivadores. Eles são análogos às descrições definidas, mas com função classificadora ao invés de individuadora. Esses termos aparecem na forma de predicados complexos e podem sem muita dificuldade ser traduzidos como descrições indefinidas, como é o caso da descrição ‘...um caçador de raposas’, que pode ser aplicada tanto a Manoel quanto a Pedro e a José. Um imenso número de predicações se caracteriza de forma descritiva, sendo elas mais estáveis que os termos indexicadores na medida em que independem da familiaridade.
     Há, finalmente, termos gerais nominadores: nomes gerais cuja forma simbólica é não-descritiva, mas que são analisáveis de modo em certa medida análogo ao dos nomes próprios, dado que abreviam descrições ou conjuntos de descrições. Esses são termos de espécies naturais como ‘tigre’, termos de massa como ‘água’, termos de artefatos como ‘cadeira’, termos sociais como ‘professor’, termos culturais como ‘arte’. Eles são abreviações, ou de descrições ou de feixes ou grupos de feixes de descrições que podem ser mais ou menos estruturados. Ao menos em alguns casos, como veremos, eles podem ser entendidos como abreviações de feixes de descrições cujas combinações efetivamente aplicáveis são selecionadas por meio de regras de aplicação, analogamente ao caso dos nomes próprios.
     Diante disso é possível propor para os termos gerais uma hipótese genético-estrutural também em alguma medida análoga a que já foi proposta para os termos singulares. Os termos gerais indexicadores são estruturalmente mais originários, podendo a cognição das propriedades por eles designadas ser tomada como elemento na construção de conceitos mais complexos. Os termos gerais descritivadores podem originar-se de combinações de termos indexicadores na produção de termos mais complexos. Por fim, por razões de economia e flexibilidade, são instituídas palavras únicas que abreviam predicados descritivadores segundo regras, como acontece com os termos de espécies naturais e os termos de massa, em analogia com o que acontece com os nomes próprios. Assim, ao invés de dizer ‘líquido transparente, insípido e inodoro’ ou ‘hidróxido de hidrogênio’ ganhamos em flexibilidade se resumimos tudo isso com a palavrinha ‘água’. Finalmente, tanto esses termos gerais nominadores quanto os termos gerais indexicadores (como também nomes próprios e descrições definidas) podem comparecer como constituintes de predicações descritivadoras, permitindo a formação de predicados mistos sem limitações de complexidade.
     Essa analogia classificatória entre termos singulares e gerais nos leva a perguntar se não existiriam situações originárias nas quais eles não se tivessem diferenciado. Podemos imaginar a existência de termos referenciais originários que funcionariam indiferenciadamente, tanto como termos singulares indexicais quanto como termos gerais, em um papel parecido com aquilo que Ernst Tugendhat chamou de quasi-predicado.  Tratar-se-ia de predicados indexicalmente usados, como o grito de perigo de certas aves, que designariam propriedades singularizadoras pertencentes a uma região espaço-temporal definida. Essa hipótese genético-estrutural pode ser resumida no seguinte esquema:

                                Termos singulares         Descrições        <           Nomes
                       >       indexicais               >     definidas           >           próprios
  Termos
  referenciais                                                             v n                            v n
  originários   >
                                Termos gerais      >       Termos gerais       >         Termos gerais
                                 indexicadores               descritivadores     <        nominadores

     Nesse esquema as linhas cheias mostram o natural evolver genético-estrutural das expressões, enquanto as linhas tracejadas mostram o caminho inverso, através do qual, novas e mais complexas descrições definidas e predicações descritivadoras podem ser geradas tendo nomes próprios e termos gerais nominadores como constituintes.

Neodescritivismo aplicado a termos gerais
Não faria sentido defender uma teoria descritivista dos termos gerais para os termos gerais indexicadores, posto que eles são simples. Também não faria muito sentido tentar desenvolver semelhante teoria para o caso dos termos gerais descritivadores, posto que eles mesmos, quando funcionam propriamente, são já descrições a exprimirem as suas próprias regras de aplicação. Mas podemos desenvolver explicações descritivistas para a aplicação de termos gerais nominadores.
     Os termos de artefatos exemplificam de forma mais simples e transparente o último caso. Considere alguns exemplos de definições de tais termos por intermédio de descrições indefinidas:

Cadeira = um objeto que serve para sentar e que é provido de encosto.
Lápis = um objeto manuseável, geralmente de madeira, com ponta de material sólido e que serve para escrever.
Carro = um objeto que se movimenta sobre rodas, sendo feito para transportar seres vivos ou objetos.
Catedral = uma igreja que tem um trono de bispo e congrega as outras igrejas da diocese.

     Podemos dizer que os termos acima abreviam as descrições indefinidas correspondentes. Elas constituem definições funcionais e, diversamente do caso de espécies naturais, não fazem menção a essências subjacentes, posto que artefatos não as possuem. Também diversamente dos termos de espécies naturais considerados nos capítulos anteriores, cujo significado é expresso por um entrelaçado de descrições de propriedades aparentes e subjacentes, termos de artefatos costumam ter o seu sentido completamente determinado por regras-descrições dos tipos que formam o conjunto <Ds + Dsd>.
     É verdade que definições descritivas dos termos nominadores de artefatos podem admitir e até requerer detalhamentos e que elas não possuem fronteiras precisas. Mas isso em nada as desabona. A vaguidade, como temos sempre recordado, é uma característica inexpugnável da grande maioria dos nossos conceitos. Pode-se tentar objetar contra as definições acima apresentadas apontando para casos limítrofes ou exceções aparentes. Um tronco de árvore com a forma de uma cadeira, que é trazido para casa e usado como cadeira, é um caso limítrofe. E um lápis eletrônico, desses usados para desenhar em telas de computador, pode ser parecido com um lápis, mas não é; trata-se já de um uso estendido da palavra, por analogia funcional.
     Psicólogos experimentais falam de tipicalidade, da aproximação de um estereótipo; assim, o estereótipo de lápis não é o lápis de cera, mas o velho lápis de madeira com ponta de grafite. O estereótipo de cadeira é a da sala de jantar e não a cadeira de balanço ou a de praia ou a elétrica. Nós reconhecemos os estereótipos mais prontamente, já que eles apresentam um maior número de propriedades típicas.  Daí eles concluem que as maneiras tradicinais pelas quais os filósofos tratam conceitos, buscando condições essenciais de aplicação, é incorreta. Parece-me, contudo, que há uma confusão categorial separando filósofos de psicólogos experimentais: uma coisa são as maneiras empíricas pelas quais reconhecemos um artefato, ou seja, através de múltiplas e variadas constelações criteriais que nos permitem identificá-lo mais ou menos prontamente de acordo com o caso; contudo, nada impede que as constelações criteriais diversas formem variações semânticas contextualmente condicionadas, que de um modo ou de outro se subordinam a um único conceito explicitado por uma descrição definicional mais genérica, exprimindo a regra da aplicação do termo. Uma cadeira de balanço, por exemplo, não possui o típico critério caracterizador de ter quatro pés; mesmo assim, ela continua sendo um objeto com encosto, feito para sentar. E o mesmo vale para a cadeira de rodas. Não é necessário, pois, que haja um contradição entre uma definição filosófica tradicional (em certos casos mesmo apresentável em termos de condições necessárias e/ou suficientes) realizada em um nível mais abstrato e a investigação de critérios identificadores mais particulares  em sua relação com processos de reconhecimento perceptual, como os que são considerados pelos psicólogos experimentais.
     No capítulo anterior vimos que no caso de termos de espécies naturais como água e ouro precisamos distinguir ao menos dois núcleos descritivos na constituição do sentido do termo: um núcleo popular, relacionado à nossa vida cotidiana, e um núcleo científico, relacionado à estrutura essencial subjacente. Mas não é possível generalizar. Considere o termo contável de espécie natural ‘tigre’. Podemos considerar a descrição de superfície (o estereótipo) como sendo Ds(t) = grande e feroz felino carnívoro e quadrúpede com pelo amarelo, listas escuras transversais e focinho branco. Junto a isso o importante para a identificação de um tigre é que ele pertença à espécie dos tigres, ou seja, que satisfaça a descrição de superfície disposicional para tigres, que sugiro ser a seguinte:

Dsd(t):  ser capaz de se entrecruzar de modo a produzir descendentes férteis, ocorrendo esse entrecruzamento com outros animais que satisfazem suficientemente Ds(t) e que pertencem à população que causalmente originou o estabelecimento convencional da aplicação da palavra ‘tigre’ aos seus membros, ou que então são descendentes dessa mesma população que ainda são capazes de se entrecruzar com membros dessa população.

     Essa caracterização da espécie é útil por associar a característica do entrecruzamento com as características da descrição de superfície historicamente associadas à população a que foi originariamente aplicada a palavra ‘tigre’, que é um animal originário da Ásia e que já era conhecido na Europa desde a antiguidade. Além disso, a exigência de que para serem tigres os animais precisam ser entrecruzáveis com os descendentes da população que originou o nome é importante, posto que a evolução poderia produzir descendentes não mais entrecruzáveis, o que daria lugar a uma outra espécie. Ainda uma vantagem dessa caracterização é que ela satisfaz condições contrafactuais: se um animal vindo de um outro planeta fosse capaz de se entrecruzar com os descendentes dos nossos tigres asiáticos ele seria, segundo essa definição, um tigre, o que não deixa de ser intuitivamente aceitável. Admitindo-se Dsd(t) chegamos à seguinte regra de aplicação constitutiva do conceito de tigre:

RA-‘tigre’:
Usamos o termo geral tigre para nos referirmos (propriamente) a uma propriedade de um animal x
see
(i) A propriedade de x satisfaz a regra de caracterização expressa por Dsd(t),
(ii) em medida suficiente,
(iii) sem competição com regras caracterizadoras de outra espécie animal.

     Aqui cabe a pergunta: sabemos que tigres são também animais que possuem um certo layout genético característico, exprimível através de uma certa descrição que podemos abreviar como Dp(t); ora, qual o papel desse layout genético na caracterização de um animal como sendo um tigre? A resposta, se considerarmos a regra acima, é que esse papel só pode ser secundário. Como já notamos, ao menos para a zoologia atual, o termo de espécie natural ‘tigre’ funciona de modo diferente do termo ‘água’. Enquanto a descrição da microestrutura é importante para a caracterização de massas d’água, o layout genético não é essencial para a identificação de tigres, diversamente da constatação de sua pertinência a uma dada espécie. Pode ser que o conceito de tigre venha a ser alterado de modo que o layout genético passe a ter um papel mais relevante, mas essa é outra estória.
     Ainda outro caso é o de termos gerais que parecem ser de espécie natural, mas que não possuem nenhuma estrutura subjacente. Considere conceitos geográficos, como os de rio e lagoa. Um rio é um fluxo D’água que corre sobre um leito naturalmente escavado na Terra em certa direção, partindo de uma nascente, diversamente de canais, rios de lava etc. Uma lagoa se distingue tão somente pela propriedade superficial de ser uma extensão fechada e suficientemente grande de água doce, diversamente de lagos, lagunas, poças D’água etc. A melhor alternativa parece ser a de definir a espécie natural pelo compartilhamento de uma essência subjacente, o que com boas razões excluiria semelhantes termos.
     Diversamente do caso dos nomes próprios, não faz muito sentido exigir dos termos gerais que eles satisfaçam descrições do grupo A, de localização e carreira espaço-temporal, posto que eles não se aplicam a um único objeto. Já vimos como isso se dá com um termo de espécie natural como ‘água’. Mas no caso de espécies zoológicas como a dos tigres, a relação com o grupo historicamente e regionalmente localizado que deu origem ao nome é importante.
     Há ainda casos em que além de serem núltiplos, os critérios caracterizadores do tipo de entidade estão muito fracamente conectados entre si. Nesses casos podemos ser levados a recorrer a uma regra meta-caracterizadora para o termo geral capaz de estabelecer o que e o quanto da multiplicidade de condições precisa ser satisfeito. Assim, podemos eventualmente precisar de

(i) um conjunto de regras-descrições de primeira ordem que constituem um paradigma (o assim chamado feixe de descrições) e
(ii) uma regra-descrição de ordem superior, RC – a regra de aplicação do conceito – estabelecendo o quanto do paradigma precisa ser satisfeito para que o termo geral possa ser aplicado.

     Quero me restringir aqui a um único exemplo desse tipo, o conceito de religião. Baseando-me em P.W. Alston, eis o paradigma de regras-descrições criteriais relevantes para a aplicação referencial da palavra ‘religião’:

1. Crenças em seres sobrenaturais (deuses).
2. Sentimentos caracteristicamente religiosos (reverência, adoração, senso de mistério, sentimento de culpa, etc. associados ao divino).
3. Um código moral que se acredita sancionado pelos deuses.
4. Rezas e outras formas de comunicação com os deuses.
5. Uma distinção entre objetos sagrados e profanos; atos rituais concentrados em torno de objetos sagrados.
6. Uma ampla organização da vida individual e social baseada em características anteriormente descritas.
7.  Uma cosmovisão, a saber, uma explicação do significado do mundo e do lugar do homem nele.

     Como o próprio Alston notou, há religiões como o catolicismo, o judaísmo e o islamismo, que satisfazem todas as regras-descrições constitutivas do paradigma. Elas constituem casos prototípicos, derivando-se a aplicação da palavra para casos que satisfazem apenas partes do paradigma. Cumpre notar que talvez nenhuma das condições incluídas no paradigma seja necessária, não existindo nesse caso uma essência geral da religião. No protestantismo, nota Alston, os rituais relativos a objetos sagrados são bastante atenuados; e no caso dos Quakers eles são até mesmo repudiados, tornando-se fundamental apenas a experiência mística. Mesmo a crença em seres sobrenaturais pode estar ausente; há religiões como o budismo hinayana, nas quais os seres sobrenaturais são ignorados, incidindo a ênfase no cultivo de uma disciplina moral e meditativa que busque um estado espiritual em que todos os desejos parem de existir. E há religiões laicas em que a crença em um Deus pessoal sobrenatural é simplesmente excluída, como é o caso da religião da humanidade fundada por Auguste Comte, que diviniza a sociedade humana. A religião sequer precisa ser uma prática social, como acontece com religiões pessoais, como a do filósofo Spinoza, que se baseava na calma e jubilosa aceitação de tudo o que acontecia como decorrente das leis impessoais do universo, ou a do físico Albert Einstein, que via nessas leis uma fonte de reverência e de encantamento.
     Podemos com isso estabelecer uma regra de regras aplicável às regras-descrições constitutivas do paradigma formador do sentido do termo geral ‘religião’. Podemos chamá-la simplesmente de regra de aplicação constitutiva do conceito de religião ou:

RA-‘religião’:
Usamos a palavra ‘religião’ para nos referir (propriamente) a uma prática sócio-cultural que é característica do objeto x
     see
(i) x satisfaz suficientemente ao menos uma ou duas das regras-descrições constitutitivas do paradigma para o termo geral ‘religião’.
(ii) x satisfaz mais a condição (i) do que a de qualquer outra regra caracterizadora de outras práticas sócio-culturais.

     Essa regra nos permite chamar de religião não só o catolicismo e o judaismo, que exemplificam o paradigma, mas também o budismo hinayana e a religião da humanidade. Uma característica dessa regra de aplicação é que ela é propositadamente vaga. Ela é vaga de maneira a fazer corresponder à vaguidade de nosso próprio conceito de religião, que por sua vez deve corresponder à vaguidade intrínseca ao fenômeno considerado. Há casos de religiões pessoais (como as de Spinoza e Einstein), que são fronteiriços no sentido de que não mais sabemos se o conceito realmente se aplica. E há ainda casos que eventualmente satisfazem a condição (i) da regra de aplicação, mas que não satisfazem a condição (ii). Considere, por exemplo, organizações secretas como a dos Rosacruzes, grupos políticos radicais como o dos comunistas ortodoxos, ou ainda, o misticismo matemático dos filósofos pitagóricos. Como as regras de classificação dos conceitos de organização secreta, grupos políticos radicais e filosofia se aplicam a essas coisas mais propriamente, o conceito de religião passa a aplicar-se a elas apenas em um sentido estendido.

Termos gerais e designação rígida
Diante dessa variedade de regras de aplicação podemos retornar à questão de se saber se os termos gerais são designadores rígidos. Tanto Kripke quanto Putnam responderiam afirmativamente a essa pergunta, ao menos no que concerne aos termos de espécie natural, pois eles se referem a uma mesma essência microestrutural em qualquer mundo no qual essa mesma essência existe.
     Mas a rigidez dos termos gerais é diferente do caso relativamente não-problemático da rigidez dos nomes próprios. Enquanto o nome próprio designa apenas um único objeto em qualquer mundo possível no qual esse objeto existe, precisando-se apenas identificá-lo, o termo geral designa uma propriedade instanciável em um número de objetos que difere em cada mundo possível (um mundo possível pode não conter tigre algum e um outro pode ser superpopulado por milhões de tigres). Por isso mesmo, para quem defende a rigidez dos termos de espécie natural, a sua referência não deve poder ser a extensão. Também é inadequado pensarmos que o termo geral é rígido por ter como referência uma espécie.  Pois se fizermos isso parece que, ou recaímos no mesmo problema recém-descrito, ou então nós o circundamos pensando na espécie como uma propriedade abstrata, mas ao preço de termos de aceitar alguma forma insuficientemente inteligível de realismo de propriedades, que é além disso incapaz de ser assimilada a uma semântica de mundos possíveis.
     Quero aqui coerentemente optar pela alternativa escolhida no capítulo 3 dessse livro, segundo a qual termos gerais designam primariamente propriedades singularizadas, ou seja, tropos. Sob esse ponto de vista um termo geral é rígido na medida em que ele designa uma mesma propriedade singularizada em qualquer mundo possível no qual essa propriedade singularizada exista. Mas como cada mundo possível pode ter um diferente número de propriedades singularizadas, precisamos de um critério de identidade para a propriedade a ser escolhida como sendo a mesma em cada mundo possível! Seria possível obter tal critério? Afinal, só os termos singulares são capazes disso, pois só eles são feitos para singularizar uma mesma coisa em qualquer mundo possível no qual ela exista. Minha sugestão é que podemos encontrar tal critério para os termos gerais por recurso ao critério de singularização oferecido por termos singulares. Para que isso aconteça basta vincularmos o termo geral a um termo singular e perguntarmo-nos se uma propriedade uma propriedade singularizada que o objeto referido pelo termo singular em nosso mundo possui existe ou não existe no mesmo contexto em algum mundo possível, pois no caso de ela existir ela só poderá ser a mesma. Trata-se aqui do que poderíamos chamar de uma rigidez secundária, dado que ela é dependente da rigidez do termo singular ao qual o termo geral está associado em uma frase predicativa singular. Considere, para exemplificar, o termo indexicador ‘branco’. Quando usamos a frase predicativa singular “A Lua é branca” estamos nos referindo à propriedade singularizada da brancura da Lua, de modo que o termo geral indexicador ‘branco’ pode ser considerado rígido por aplicar-se a mesma propriedade de brancura em qualquer mundo possível no qual não só exista a nossa Lua mas também a sua propriedade de ser branca. A rigidez do predicado ‘...é branca’ é aqui secundária à rigidez do nome próprio ‘Lua’, que é rígido na independência de seu comparecimento em frases predicativas. 
     Um outro caso é o de termos gerais nominadores como ‘ouro’. Se exigirmos, para a caracterização do que chamamos de ouro a satisfação da descrição “metal raro de cor amarelada, solúvel em água áurea, com peso atômico 76...” então na frase “Esse anel é de ouro” usada por mim agora para me referir ao material de um anel, parece aceitável que eu use o predicado como designador rígido, aplicando-se ele ao mesmo conjunto de propriedades em qualquer mundo possível no qual esse conjunto de propriedades seja identificado pelo indexical ‘Esse anel’ nas mesmas circunstâncias.
     Finalmente, para o caso dos termos gerais descritivadores, considere a frase “Russell tinha senso de humor”. O predicado ‘ter senso de humor’ é aqui um designador rígido secundário porque a propriedade em questão de ter senso de humor é singularizada por Russell em qualquer mundo possível no qual ele compareça de posse de seu senso de humor.
     Essa sugestão também explica porque termos gerais nominadores podem ser rígidos enquanto as descrições constitutivas desses termos não são rígidas. Assim, ‘água’ é um termo rígido por contraste com a descrição ‘serve para beber’, pois se aponto para esse copo D’água e digo ‘Essa água serve para beber” no mundo atual, isso é verdadeiro, mas pode ser que em algum outro mundo possível eu aponte para esse mesmo copo d’água e para essa água e esteja dizendo algo falso, pois embora sendo a mesma água ela contêm algumas miligramas de arsênico e realmente não serve para beber. A explicação é aqui a mesma: o termo geral descritivador é no caso semanticamente dependente da aplicação do termo geral nominador, o que explica a sua flacidez relativa.
     Essas respostas podem ser vistas como algo trivializadoras da noção de designador rígido. Mas a meu ver essa trivialização já estava presente em nossa análise da rigidez no caso paradigmático dos nomes próprios, sendo a trivialidade do caso presente uma mera consequência.

A velha questão da essência
Chegamos com isso à velha questão da essência: aplicamos termos gerais com base em essências comuns a suas instâncias? Pelo que vimos a questão não pode ser respondida com um simples sim ou não. Se entendermos por propriedade essencial aquela que é necessária e suficiente para a aplicação do termo geral que a caracteriza, podemos comparativamente classificar uma variedade de tipos de termos gerais de acordo com o grau de necessidade com que propriedades precisam satisfazer as condições para a sua aplicação. No que diz respeito a esse grau de necessidade, os termos gerais podem incluir os seguintes casos:
     (a) o termo geral que designa uma propriedade essencial, definida como sendo necessária e suficiente. Esse seria o caso de termos indexicadores como ‘vermelho’ e ‘redondo’. Esse também seria o caso de termos propriamente descritivadores como ‘um terno branco’ e ‘uma bola de fogo’, os quais demandam a satisfação de um conteúdo descritivo específico. Nesse caso parece que podemos postular essências reais (de re).
     (b) Termos nominadores de espécie natural que possuem propriedade microestrutural essencial, como ‘ouro’. Pode ser convencionalmente estabelecido que se não for o elemento de número atômico 76, não será propriamente ouro. Mas nesse caso se trata de uma essência nominal.
     (c) Termos nominadores de espécie natural como ‘tigre’, cuja propriedade essencial está por convenção no nível superficial de pertinência a uma dada espécie (aqui também uma essência nominal).
     (d) Termos nominadores de espécie natural como ‘água’ que, como vimos, possuem propriedades fundamentadoras nucleares que podem ser suficientes, mas que não são necessárias, não podendo por isso serem consideradas essenciais. Contudo, elas são essenciais quando distintivas de subconceitos, como o expresso pelo termo ‘hidróxido de hidrogênio’.
     (e) Termos gerais nominadores como ‘religião’, ‘jogo’, ‘número’, ‘arte’, ‘conhecimento’, ‘consciência’... Em graus diversos esses termos correspondem ao que Wittgenstein a meu ver equivocadamente analisou como possuindo o que ele chamava de “semelhanças de família” entre as suas aplicações.  Nesses casos não há, certamente, uma essência comum, mas aglomerados diversos de propriedades. Contudo, eles podem ser freqüentemente analisados em subconceitos que por sua vez possuem alguma essência comum. Assim, pode bem ser possível que exista uma essência comum ao catolicismo, ao jogo de xadrez, ao número natural, à arte própria, ao conhecimento proposicional ou à consciência representacional.
     A admissão das possibilidades que vão de (a) a (e) nos provê de uma chave para abordar o disputa vigente entre essencialismo e anti-essencialismo, pois sugere que ambos os casos possam ser encontrados. Admite-se a essência, que ou é nominal (e nesse sentido de dicto) ou é postulada como real (e nesse sentido limitado de re). Mas essa resposta já seria suficiente para fazer a balança pender para o lado do essencialismo, posto que basta admitirmos uma única essência essência para nos tornarmos de algum modo essencialistas, assim como basta admitirmos uma única entidade platônica para nos tornarmos de algum modo realistas.

Para concluir
Quero terminar retornando às considerações metafilosóficas genéricas com as quais iniciei esse livro. “Tudo é um”, pensavam os pré-socráticos. A abrangência de escopo tem sido um traço constitutivo da filosofia em toda a sua história. Mas essa abrangência tem sido desafiada pela filosofia contemporânea, voltada como ela se encontra para investigações cada vez mais específicas, frequentemente redutivas e cientificistas. Scott Soames, por exemplo, chamou atenção para o fato de que a filosofia contemporânea tem produzido teorias cada vez mais especializadas, que se desdobram expansivamente em novas subteorias e assim por diante sem qualquer expectativa de síntese.  Um resultado disso é que, no imenso tear da filosofia contemporânea as visões compreensivas parecem quase perder-se de vista, não nos sendo dada a oportunidade de refletirmos sobre a validade dos pressupostos positivos e negativos de suas teorizações. 
     QuisProcurei seguir aqui o caminho inverso. Meu intento foi o de proceder de modo sistematizador e não-redutivo, o que me fez distanciar do modelo formalista, herdeiro da filosofia da linguagem ideal, que forma a corrente principal da filosofia da linguagem contemporânea. Em oposição a esse modelo tentei fazer juz à herança da filosofia da linguagem ordinária, que se inspira nas intuições que se nos apresentam quando analisamos a atividade comunicacional como um todo e nas estruturas formais que refletem esse entendimento. Esse é em princípio um procedimento anti-redutivo .  
     Como também fiz notar, essa aproximação das questões não nos força a permanecer em um estágio pré-teorético superficial. O que se inicia como uma vaga apresentação panorâmica da gramática conceitual é capaz de evoluir em direção a um consenso científico. O ponto de partida na situação total de fala é, ademais, em princípio anti-redutivo e pluralista, deixando aberta a possibilidade de importarmos resultados das ciências particulares no intento último de mostrar como é possível uma explicação internalista de fundo cognitivista para os mecanismos de referência de cada espécie de termo referencial.
     Creio que um resultado flagrante da sistematização esboçada nesse livro deva ser um remapeamento mais consistente e mais plausível das idéias usualmente aceitas sobre os mecanismos de referência. Da reconfiguração de valores resultante da forma de cognitivismo semântico aqui delineada emerge um quadro mais complexo, no qual maneiras de ver aparentemente ultrapassadas voltam a ocupar o centro das atenções, enquanto maneiras de ver que pareciam ter se tornado centrais tem o seu papel reescrito como o de figurantes secundários, cuja principal função é a de produzirem curiosos e dialeticamente instigantes desafios, cuja consideração nos permitiu dar um passo adiante.




REFERÊNCIAS

Aristóteles: “Categories”, in J. Barnes (ed.): The Complete Works of Aristotle (Princeton: Princeton University Press 1984), 2 vols.
Alston, P.W.: Philosophy of Language (Englewood Cliffs: Prentice Hall 1964). Trad. bras. Filosofia da Linguagem (Rio de Janeiro: Zahar 1973).
Austin, J.: How to do Things with Words (Oxford: Oxford University Press1962).
- “Unfair to Facts”, Philosophical Papers (Oxford: Oxford University Press 1990).
Armstrong, D.M.: “What is Consciousness?” in, The Nature of Mind (Ithaca: Cornell University Press 1981).
- Mind and Body: an Opinionated Introduction (Boulder: Westview Press 1999).
Avramides, A: “Intention and Convention”, in B. Hale & C. Wright (eds.): A Companion to the Philosophy of Language (Oxford: Blackwell 1997).
Ayer, A. J.: Language, Truth and Logic (New York: Dover Publication 1952).
Backer, G.P.: “Criteria: a New Foundations for Semantics”, Ratio 16, 1974, pp. 156-189.
Baker, G.P. & Hacker, P.M.S.: Wittgenstein: Understanding and Meaning. An Analytical Commentary on the Philosophical Investigations (Oxford: Oxford University Press 1980).
Beaney, M. (ed.): The Frege Reader (Oxford: Blackwell 1997).
Bell, D.: Husserl: The Arguments of the Philosophers (London: Routledge 1990)
Bencivenga, E.: Die Referenzproblematik: eine Enführung in die analytische Sprachphilosophie (Frankfurt: Peter Lang 1987).
Berkeley, G.: Philosophical Works Including the Work on Vision, ed. Michael R. Ayers (London: Everyman 1975).
Black, M.: “Russell’s Philosophy of Language”, in P.A. Schilpp: The Philosophy of Bertrand Russell (La Salle: Open Court 1944).
Blackburn, S.: Spreading the Word: Groundings in the Philosophy of Language (Oxford: Clarendon Press 1984).
Block, N.: “Functional Role and Truth-Condition”, Proceedings of the Aristotelian Society, 1987.
Bonjour, L.: In Defense of Pure Reason (Cambridge University Press: Cambridge 1998).
Borges, J.L.: “El Tinturero Enmascarado Hakin de Merv”, in Historia universal de la infamia (Madrid: Alianza Editorial 1971(1935)).
Brandon, R.B.: Articulating Reasons: An Introduction to Inferentialism (Cambridge Mass.: Harvard University Press 2000)
Branquinho, J., D. Murcho, N.G. Gomes: Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos (São Paulo: Martins Fontes 2006).
- Referência e Cognição, cap. 1, seção 1 (draft de livro).
Braun, D.: “Demonstratives and their Linguistic Meanings” Nous 30, 1996.
- “Indexicals”, Stanford Encyclopedia of Philosophy (Web), 2008.
- “Reference”, Stanford Encyclopedia of Philosophy (Web), 2006.
Brock, S.: “The Ubiquitous Problem of Empty Names”, Journal of Philosophy 101, 2004, 277-298
Bridgman, P.W.: The Logic of Modern Physics (New York: McMillan 1927).
Brito, A.N.: Nomes Próprios: Semântica e Ontologia (Brasília: Editora Universidade de Brasília 2003).
Burge, T.: “Other Bodies”, in A. Woodfield (ed.): Thought and Object: Essays on Intentionality (Oxford: Oxford University Press 1982).
- “Individualism and the Mental”, in (eds.) P.A. French, T.E. Uehling Jr., H.K. Wettstein: Midwest Studies in Philosophy, vol. IV, Studies in Metaphysics, 1979, 73-121.
- “Sinning against Frege”, in: Truths, Thoughts, Reason: Essays on Frege (Oxford: Clarendon Press 2005).
Campbell, K.: Abstract Particulars (Oxford: Blackwell 1990).
Caplan, B.: “Millian Descriptivism”, Philosophical Studies 133.2 2007, 181-198.
Carnap, R.: Meaning and Necessity: a Study in Semantics and Modal Logic (Chicago: Chicago Press 1956).
Chalmers, D. J.: “On Sense and Intention”, Philosophical Perspectives 16, 2002, 135-182.
Chalmers, D.J.: “The Foundations of Two-Dimensional Semantics”, in M. Garcia-Carpintero, J. Macià: Two-Dimensional Semantics (Oxford: Clarendon Press 2006).
Chomsky, N.: Rules and Representations (New York: Columbia University Press 1980).
- Knowledge of Language (New York: Praeger 1986).
Costa, C.F.: “A Meta-Descriptivist Theory of Proper Names”, Ratio 24, 2011, pp. 259-251.
- “A verdadeira teoria da verdade”, in Paisagens Conceituais: ensaios filosóficos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2011).
- “O verdadeiro portador da verdade”, in Cartografias Conceituais: Uma abordagem à Filosofia Contemporânea (Edufrn: Natal 2008).
- “Identidade pessoal: por uma criteriologia mista”, in Paisagens Conceituais: ensaios filosóficos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2011).
- “Critérios de realidade”, in Paisagens conceituais: ensaios filosóficos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2011).
- “Linguagem Privada e o Heteropsíquico”, in Paisagens conceituais: ensaios filosóficos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2011).
- Filosofia da Mente (Rio de Janeiro: Zahar 2005).
- The Philosophical Inquiry: Towards a Global Account (Lanham: University Press of America 2002).
- “Fatos empíricos”, in A Linguagem Factual (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 1995).
- “A pragmática da relação correspondencial”, in A Linguagem Factual (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 1995).
- Wittgensteins Beitrag zu einer sprachphilosophischen Semantik (Konstanz: Hartung-Gorre Verlag 1990).
Craig, E. (ed.): The Routledge Encyclopedia of Philosophy (London: Routledge 1997)
Craine, T.: “All the Difference in the World”, Philosophical Quarterly 41, 162 (1991), pp. 1-26.
Davidson, D., Harman, G. (eds.): Semantics of Natural Language (Reidel: Dordrecht 1986).
- Inquires into Truth and Interpretation (Oxford: Oxford University Press 1984).
Davidson, M. (ed.): On Sense and Direct Reference: Readings in the Philosophy of Language (Boston: McGrawhill 2007).
Dennet, D.: “Beyond Belief”, in A. Woodfield (ed.): Thought and Object: Essays on Intentionality (Oxford: Clarendon Press 1982).
DeRose, K. e T.A. Warfield (eds.), Skepticism: A Contemporary Reader (Oxford: Oxford University Press 1999).
Devitt, M.: “Meanings just ain’t in the Head”, in George Boolos: Meanings and Method: Essays in Honor of Hilary Putnam (Cambridge: Cambridge University Press 1990).
- “Against Direct Reference”, Midwest Studies in Philosophy 14, 1989, 206-240.
- Designation (New York: Columbia University Press 1981).
Devitt, M. e K. Sterelny: Language and Reality: An Introduction to the Philosophy of Language (Oxford: Blackwell Publishers 1999, 2 ed.).
Devitt, M. & R. Hanley (ed.): The Blackwell Guide to the Philosophy of Language (Oxford: Blackwell 2006).
Donnellan, K.: “Reference and Definite Descriptions”, Philosophical Review 75, 1966.
Donnellan, K.: “Proper Names and Identifying Descriptions”, in Donald Davidson and Gilbert Harman: Semantics of Natural Language (Boston: D. Reidel Publishing Company 1972), pp. 373-375 (originalmente publicado em Synthesis 21, 1970, 335-58).
- “Speaking of Nothing”, The Philosophical Review LXXXIII 1974, 3-32. 
Dummett, M.: “What is a Theory of Meaning? (I)” e “What is a Theory of Meaning? (II)”, in The Seas of Language (Oxford: Clarendon Press 1993).
- The Interpretation of Frege’s Philosophy (London: Duckworth 1981).
- Truth and Other Enigmas (Cambridge Mass.: Harvard University Press 1978).
- Frege: Philosophy of Language (London: Duckworth 1981, 2. ed.).
Dupré, J.: The Disorder of Things: Metaphysical Foudations of the Disunity of Science (Cambridge: Harvard University Press MA 1993).
- “Natural Kinds”, in W. H. Newton-Smith (ed.): A Companion to the Philosophy of Science (Oxford: Blackwell 2000), p. 318.
- “Natural Kinds and Biological Taxa”, The Philosophical Review 90, 1981, 66-91.
Edwards, P. (ed.): The Encyclopedia of Philosophy (London: MacMillan 1967).
Erwin, E., L. Kleiman, E. Zemach: “The Historical Theory of Reference“, Australasian Journal of Philosophy, 56, 1974, 50-56.
Evans, G.: “Semantic Theory and Tacit Knowledge”, in G. Evans: Collected Papers (Oxford: Oxford University Press 1985).
- “Understanding Demonstratives”, in H. Parrett & J. Bouveresse (eds.): Meaning and Understanding (Berlin: W. de Gruyter 1981).
- “The Causal Theory of Names”, Aristotelian Society: Supplementary Volume 47, 1973.
Field, H.: “Logic, Meaning and Conceptual Role”, Journal of Philosophy 69, 1977.
Fitch, G.W.: Saul Kripke (Ithaca: McGill-Queens University Press 2004).
- Naming and Believing (Dordrecht: Kluwer 1980).
Fodor, J.: A Theory of Content and other Essays (Cambridge Mass.: MIT-Press 1990)
Fogelin, R.: Wittgenstein (London: Routledge 1995).
Forbes, G.: “The Indispensability of Sinn”, Philosophical Review 89 (1990), 535-563.
- “Indexicals and Intensionality: A Fregean Perspective”, The Philosophical Review, 96, 1987, pp. 3-31.
Frege, G.: “Der Gedanke”, Beitrage zur philosophie des deutschen Idealismus I, 2, 1918, 58-77.
- Frege’s Lectures on Logic: Carnap’s Jena Notes, 1910-1914, eds. S. Awodey, E. Reck, G. Gabriel (LaSalle: Open Court 2004).
- “Einleitung in die Logik”, in H. Hermes, F. Kambartel, F. Kaulbach (eds.): Nachgelassene Schriften (Hamburg: Felix Meiner: 1969), 74-91.
- “Ausführungen über Sinn und Bedeutung”, in H. Hermes, F. Kambartel, F. Kaulbach (eds.): Nachgelassene Schriften (Hamburg: Felix Meiner: 1969), 128-135.
- “Sinn und Bedeutung”, Zeitschrift für Philosophie und philosophische Kritik, NF 100, 1892, 25-50.
- “Über Begriff und Gegenstand”, Vierteljahreschrift für wissenschaftliche Philosophie 16, 1892, 192-205.
- Die Grundlagen der Arithmetik (Hamburg: Felix Meiner 1988 (1884)).
- Lógica e Filosofia da Linguagem, ed. e trad. Paulo Alcoforado (São Paulo: Edusp 2009).
Freud, S.: Die Traumdeutung (Frankfurt: Fischer Verlag 1998 (1900)).
- “Die Verneinung”, in Gesammelte Werke (Frankfurt: Fischer 1968 (1925)) vol. 14.
Gellner, E.: Words and Things (London: Routledge 2005 (1959)).
Gibson, R.: The Philosophy of W.V. Quine (Chicago and LaSale: Open Court Press 1998).
Glock, H-J.: Wittgenstein Lexikon (Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft 1996).
Goldstein,  L., A. Brennan, M. Deutsch, J.Y.F. Lau: Logic: Key Concepts in Philosophy Series (London: Continuum 2005). Trad. bras. sob o título de Lógica: conceitos-chave em filosofia (Porto Alegre: Artmed 2005).
Grice, P.: Studies in the Ways of Words (Cambridge Mass: Harvard University Press 1989).
Grice, H.P. & P.F. Strawson: “In Defense of a Dogma”, The Philosophical Review 65, 1956, pp. 141-158.
Gunderson, K. (ed.): Minnesota Studies in the Philosophy of Science, vol. VII: Language, Mind and Knowledge (Mineapolis: University of Minnesota Press 1975).
Haack, S.: Philosophy of Logics (Cambridge: Cambridge University Press 1978).
Harman, G.: “(Non-Solipsistic) Conceptual Role Semantics”, in G. Harman: Reasoning, Meaning and Mind (Oxford: Oxford University Press 1999).
Hacker, P.M.S.: Insight and Illusion (Oxford: Oxford University Press 1986).
- Wittgenstein: Meaning and Mind: An Analytical Commentary on the Philosophical Investigations, vol. 3 (Blackwell: Oxford 1990), parte I, Ensaios.
Hacker, S.: Philosophy of Logics (Cambridge: Cambridge University Press 1978)
Hempel, C.G.: Philosophy of Natural Science (Englewood Cliffs: Prentice-Hall 1967).
- “Problems and Changes in the Empiricist Criterion of Meaning”, Revenue Internationale de Philosophie 11, 1950, 41-63.
Hilmy, S.S.: The Later Wittgenstein (Oxford: Blackwell 1987).
Hill, T.E.: The Concept of Meaning (London: Routledge 2004).
Hughes, C.: Kripke: Names, Necessity and Identity (Oxford: Clarendon Press 2004).
Hume, D.: A Treatise of Human Nature ed. L.A. Selby-Bigge 2a. edição revisada por P.H. Nidditch (Oxford: Clarendon Press 1975(1738)).
Husserl, E.: Logische Untersuchungen (Tübingen: Max Niemeyer Verlag 1980 (1901)), 3 vols.
Hylton, P.: “The Theory of Descriptions”, in N. Griffin (ed.): The Cambridge Companion to Bertrand Russell (Cambridge: Cambridge University Press 2003).
Jackson, F.: “Reference and Descriptions Revisited”. In J. E. Tomberlin (ed.): Philosophical Perspectives 12: Language, Mind and Ontology (Blackwell: Oxford 1998) 201-18.
Kant, E.: Kritik der reinen Vernunft (Frankfurt: Suhrkamp 1988(1787)).
Kapitan, T.: “Indexical Identification: a Perspectival Account“, Philosophical Psychology, 14, 2001, pp. 293-312.
Kaplan, D.: “Demonstratives”, in J. Almog, J. Perry e H. Wettstein: Themes from Kaplan  (Oxford: Oxford University Press 1989), pp. 271-563.
- “Dthat”, in P. Cole (ed.): Syntax and Semantics 9: Pragmatics. (New York: Academic Press 1978).
Katz, J.: “Has the Description Theory of Names been Refuted?”, in G. Boolos (ed.): Meaning and Method: Essays in Honour of Hilary Putnam (Cambridge University Press: Cambridge 1990), 31-61.
Katz, J.: Propositional Structure and Illocutionary Force (New York: Crowell 1977).
Kenny, A.: Frege: An Introduction to the Founder of Modern Analytic Philosophy (Oxford: Blackwell 1995).
- Wittgenstein (Cambridge Mass.: Harvard University Press 1973).
Kneale, W. & M. Kneale: The Development of Logic (Oxford: Clarendon Press 1962).
Kripke, S.: Naming and Necessity (Cambridge: Harvard University Press 1980).
- “A Puzzle about Belief”, in A. Margalit (ed.): Meaning and Use (Dordrechts, The Niederlands: Reidel 1979).
- “Speaker’s Reference and Semantic Reference”, P.A. French et all, Contemporary Perspectives in the Philosophy of Language, Midweat Studies in Philosophy, no. 2 (Minneapolis: University of Minnesota Press 1977) 6-27.
- “Identity and Necessity”, in M.K. Munitz (ed.): Identity and Individuation (New York: New York University Press 1971), 135-64.
Kornblith, H.: “Referring to Artifacts”, Philosophical Review 89, 1980, 109-14.
Kroon, F.W.: “Causal Descriptivism”, Australasian Journal of Philosophy 65, 1987, 1-17.
- “Theoretical Terms and the Causal View of Reference”, The Australasian Journal of Philosophy 63, 1985, 143-66.
- “The Problem of ‘Jonah’: How not to Argue for the Causal Theory of Reference”, Philosophical Studies 43, 1982, 281-99.
Kvart, I.: “Mediated Reference and Proper Names”, Mind 102, 1993, 611-28.
Laporte, J.: Natural Kinds and Conceptual Change (Cambridge: Cambridge University Press 2004).
- “Chemical Kind Term Reference and the Discovery of Essence”, Nous 30, 1996,112-132.
Larson, R., G. Segal: Knowledge of Meaning: A Introduction to Semantic Theory (Cambridge Mass.: MIT Press 1995).
Lepore, E. & B. Smith (ed.): The Oxford Handbook of Philosophy of Language (Oxford: Clarendon Press 2006).
Lewis, D.K.: “Naming the Colors”, Australasian Journal of Philosophy 75, 1997, 325-42.
- “Putnam’s Paradox”, Australasian Journal of Philosophy, 62, 1984, 221-236.
- “How to Define Theoretical Terms”, Journal of Philosophy, 67 1979, 427-46.
- Convention: A Philosophical Study (Cambridge: Harvard University Press 1969).
Locke, J.: An Essay Concerning Human Understanding (Clarendon Press: Oxford 1975).
Loar, B.: “Social Content and Psychological Content”, in R. Grimm & D. Merril (eds.): Contents of Thought: Proceedings of the 1985 Oberlin Colloquium in Philosophy (University of Arizona Press: 1988).
Luntley, M.: Contemporary Philosophy of Thought: Truth, World, Content (Oxford: Blackwell 1999).
Lycan, W.: “The Meaning of Water: An Unsolved Problem”, in E. Sosa & E. Vallanueva (eds.): Philosophy of Language, Philosophical Issues, 16, 2006, 184-199.
- “Names”, in M. Davitt & R. Hanley (eds.): The Blackwell Guide to Philosophy of Language (Oxford: Blackwell 2006).
- “Some Flaws in Searle’s Theory of Proper Names”, Philosophy 74, fall 2003.
- Philosophy of Language: A Contemporary Introduction (London: Routledge 1999).
Lyons, J.: Semantics (Cambridge: Cambridge University Press 1977), 2 vols.
Lyons, J.: “Deixis as the Source of Reference’, in Keenan, E (ed.): Formal Semantics of Natural Language (Cambridge: Cambridge University Press: Cambridge 1975).
Lynski, L.: Names and Descriptions (Chicago: University of Chicago Press 1977).
Mackenzie, I.E.: Introduction to Linguistic Philosophy (London: Sage Publications 1997).
Mackie, J.: Problems from Locke (Oxford: Clarendon Press 1976).
Makin, G.: The Metaphysicians of Meaning: Russell and Frege on Sense and Denotation (London: Routledge 2000).
Malinowski, B.: “The Problem of Meaning in Primitive Languages”, publicado como suplemento em C.K. Ogden & I.A. Richards: The Meaning of Meaning (Orlando: Mariner Books 1989 (1923)). 
Marcus, R.B.: “Modalities and Intentional Languages”, Synthese 13, 303-322. Republicado em R.B. Marcus: Modalities: Philosophical Essays (Oxford: Oxford University Press 1993). 
Margolis, E. & S. Laurence (ed.): Concepts: Core Readings (Cambridge: MIT-press 1999).
McDowell, J.: “On the Sense and Reference of a Proper Name”, in Meaning, Knowledge and Reality (Cambridge Mass: Harvard University Press 1998).
McDowell, J.: “Putnam on Mind and Meaning” Philosophical Topics 20, 1, 1992 pp. 35-48.
McKinsey, M.: “The Internal Basis of Meaning”, Pacific Philosophical Quarterly 72, 1992, pp. 143-69.
McKinsey, M.: “Names and Intentionality”, Philosophical Review 87, 1978, 171-200.
Martinich, A.P. (ed.): The Philosophy of Language (New York: Oxford University Press 1996).
Meinong, A.: “The Theory of Objects”, in R. M. Chisholm (org.): Realism and the Background of Phenomenology (Glencoe II: Free Press 1960).
Mellor, D.H.: “Natural Kinds”, British Journal for the Philosophy of Science, 28, 1977, 299-312.
Mill, J.S.: System of Logic: Ratiocinative and Inductive (Honolulu: University Press of the Pacific 2002 (1891)).
Mill, J.S.: An Examination of Sir William Hamilton’s Philosophy, and the Principal Philosophical Questions Discussed in his Writtings (London: Longman Green 1865).
Miller, A.: Philosophy of Language (Montreal & Kingston: McGill-Queen’s University Press1998).
Mohanty, J.N.: Edmund Husserl’s Theory of Meaning (The Hague: Martinus Nijhoff 1964).
Morris, C.W.: Foundations of the Theory of Signs (Chicago: The University of Chicago Press 1938).
Morris, M.: An Introduction to the Philosophy of Language (Cambridge: Cambridge University Press 2007).
Moore, G.: “In Defense of Common Sense”, in Philosophical Papers (London: George Allen & Unwin 1970)
Mulligan, K., P. Simons e B. Smith: “What is Wrong with Contemporary Philosophy?”, Topoi 25, 2006, 63-67.
Neale, S.: Descriptions (Cambridge Mass.: MIT Press 1990).
Odell, S.J.: On the Philosophy of Language (Belmont: Wadsworth 2006).
Ostertag, G. (ed.): Definite Descriptions: a Reader (Cambridge Mass.: MIT Press 1998).
Peacocke, C.: Sense and Content: Experience, Thought and their Relations (Oxford: Clarendon Press 1983).
Peacocke, C.: “Proper Names, Reference and Rigid Designation”, in S. Blackburn (ed.): Meaning, Reference and Necessity (Cambridge: Cambridge University Press 1975).
Peirce, C.S.: “Critical Common-Sensism”, in Justus Buchler (ed.): Philosophical Writtings of Peirce (New York: Dover 1955).
Perry, J.: “The Problem of the Essential Indexical”, Nous, 13, 1979, 3-20.
- “Frege on Demonstratives”, Philosophical Review 86, 1977, 474-97.
Pessin, A., S. Goldberg (eds.): The Twin Earth Chronicles: Twenty Years of Reflexion on Hilary Putnam’s ‘The Meaning of ‘Meaning’” New York: M.E. Sharpe 1996).
Plantinga, A.: “The Boethian Compromisse”, American Philosophical Quarterly, 1978, 429-438.
Potter, M. & Ricketts, T. (ed.): The Cambridge Companion to Frege (Cambridge : Cambridge University Press 2010).
Putnam, H.: “Sense, Nonsense, and the Senses: an Inquiry into de Powers of the Human Mind”, The Journal of Philosophy vol. XCI, 9, 1994.
- Representation and Reality (Cambridge: MIT Press 1989).
- Reason, Truth and History (Cambridge: Cambridge University Press 1981).
- “The Meaning of ‘Meaning’”, in K. Gunderson (ed.): Language, Mind and Knowledge (Mineapolis: Minnesota University Press 1975), pp. 131-193. Reimpresso em H. Putnam: Mind, Language and Reality: Philosophical Papers volume 2 (Cambridge: Cambridge University Press 1975)
- “Meaning and Reference”, Journal of Philosophy 70, 1973, 699-711.
Quine, W.V.: “Two Dogmas of the Empiricism”, in From a Logical Point of View, originalmente publicado em  Philosophical Review 60, 1961, 20-43.
- Word and Object (Cambridge Mass: MIT-Press 1960)
- From a Logical Point of View (Cambridge Mass: Harvard University Press 1980 (1953)).
Recanati, F.: Direct Reference: From Language to Thought (Oxford: Blackwell 1993).
Reid, T.: Essays on the Intelectual Powers of Man (Cambridge Mass.: MIT Press 1969).
Reimer, M. & A. Bezuidenhout (eds.): Descriptions and Beyond (Oxford: Oxford University Press 2004).
Riemer, N.: Introducing Semantics (Cambridge: Cambridge University Press 2010).
Ryle, G.: “The Theory of Meaning”, in C.A. Mace: British Philosophy in the Mid-Century (London: George Allen & Urwin 1957)
Rosenthal, D.M.: Consciousness and Mind (Oxford: Oxford University Press 2005).
Rosh, E.: “On the Internal Structure of Perceptual and Semantic Categories”, T.E. Moore (ed.), Cognitive Development and the Acquisition of Language (New York: Academic Press 1973).
Reichembach, H.: Elements of Symbolic Logic (London: McMillan 1947).
Runggaldier, E.: Zeichen und Bezeichnetes: Sprachphilosophische Untersuchungen zum Problem der Referenz (Berlin: Walter der Gruyter 1985).
Russell, B.: An Inquiry into Meaning and Truth (London: Allen & Unwin 1966).
- “Mr. Strawson on Referring”, in A.P. Martinich: The Philosophy of Language. Originalmente publicado em Mind 66, 1957.
- Introduction to Mathematical Philosophy (George Allen & Urwin: London 1919).
- ABC of Relativity (London: Routledge 2009).
- “The Philosophy of Logical Atomism“, in Logic and Knowledge: Essays 1901-1950, ed. R.C. Marsch (London: Routledge 1994)
- “Knowledge by Acquaintance and Knowledge by Descriptions”, in Misticism and Logic and Other Essays (London: Longmans 1918). 
- The Problems of Philosophy (Oxford: Oxford University Press 1980 (1912)).
- “On Denoting”, Mind 14, 1905, pp. 479-493.
Ryan, A.: The Philosophy of John Stuart Mill (London: Macmillan 1987).
Sainsbury, M.: Russell (London: Routledge & Kegan Paul 1979).
Salmon, M.: Introduction to Logic and Critical Thinking (Wadsworth 2002).
Salmon, N.U.: Reference and Essence (NewYork: Prometeus Book 2005 (1980)).
- “A Millian Heir Rejects the Wages of Sinn”, in C.A. Anderson & J Owens (ed.): Propositional Attitudes: The Role of Content in Logic, Language, and Mind (Center for the Study of Language end Information: Palo Alto 1990).
- “Existence”, in James Tomberlin, ed., Philosophical Perspectives 1, 1987, pp. 49-108.
- Frege’s Puzzle (Cambridge: MIT Press 1985).
Schlick, M.: Die Probleme der Philosophie in ihrem Zusammenhang: Vorlesungen aus dem Wintersemester 1933/34 (Frankfurt: Suhrkamp 1986), cap. 14.
- “Meaning and Verification”, Philosophical Review, vol. 45 (1936), 339-368.
- Gesammelte Aufsätze 1926-1936 (Wien: Gerold & Co. 1938).
- “Das Wesen der Wahrheit nach der modernen Logik“ (1911), in M. Schlick: Philosophische Logik, ed. B. Philippi (Frankfurt: Suhrkamp 1986).
Schulte, J.: “Bedeutung und Verifikation”, Gräzer philosophische Studien, vol. 16/17, 1982, 241-253.
Schwarz, S.: “General Terms and Mass Terms”, in M. Devitt & R. Hanley: The Blackwell Guide to Philosophy of Language (Oxford: Blackwell 2006).
- “Kinds, General Terms, and Rigidity: A Reply to LaPorte”, Philosophical Studies 109, 2002, pp. 265-277.
- “Putnam on Artifacts”, Philosophical Review 87, 1978, 566-74.
Schwarz, S. (ed.): Naming, Necessity, and Natural Kinds (Ithaca: Cornell University Press 1977).
Searle, J.R.: “The Unity of the Proposition”, in Searle, Philosophy in a New Century (Cambridge: Cambridge University Press 2008).
- “What is Language? Some Preliminary Remarks”, in ed. S. Tsohatzidis: John Searle’s Philosophy of Language: Force, Meaning and Mind (Cambridge: Cambridge University Press 2007).
- Mind: A Brief Introduction (Oxford: Oxford University Press 2004).
Searle, J.R.: Mind, Language and Society: Doing Philosophy in the Real World (London: Weinfeld & Nicholson 1999).
- “Truth:  A Reconsideration of Strawson’s View”, in L.E. Hahn (ed.): The Philosophy of P. F. Strawson (Chicago: Open Court 1998).
- Intentionality (Cambridge: Cambridge University Press 1983).
- “The Background of Meaning”, in J. Searle, F. Kiefer e M. Bierwisch (eds.): Speech Act Theory and Pragmatics (Reidel: Dordrecht 1980).
- “Referencial and Attributive”, in J.R. Searle Expression and Meaning: Studies in the Theory of Speech Acts (Cambridge: Cambridge University Press 1979).
- Speech Acts: An Essay in the Philosophy of Language (Cambridge: Cambridge University Press 1969).
- “Proper Names and Descriptions”, in Paul Edwards (ed.): The Encyclopedia of Philosophy (London: Macmillan Publishers 1967), vol. 6.
- “Proper Names”, Mind 67, 1958, 166-173.
Simons, P.: “Meaning and Language”, in B. Smith & D.W. Smith: The Cambridge Companion to Husserl (Cambridge: Cambridge University Press 1995).
- “Particulars in Particular Clothings: Three Trope Theories of Substance”, Philosophy and Phenomenological Research, 54, 1994, 553-75.
Simpson, T.M.: Linguagem, Realidade e Significado (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves 1976).
Smith, A.D.: “Natural Kind Terms: A Neo-Lockean Theory”, European Journal of Philosophy, 13, 2005, 70-88.
Soames, S.: What is Meaning? (Princeton: Princeton University Press 2010).
- Philosophical Analysis in the Twentieth Century (Princeton: Princeton University Press 2003), 2 vols.
- Beyond Rigidity: the Unfinished Semantic Agenda of Naming and Necessity (Oxford: Oxford University Press 2002).
Sofia-Maurin, A.: If Tropes (Berlin: Springer 2002).
Stanley, J.: “Names and Rigid Designation” in B. Hale e C. Wright (eds.): A Companion to the Philosophy of Language (Oxford: Blackwell 1997).
Stenius, E.: “The Picture Theory and Wittgenstein’s Later Attitude to it”, I. Block (ed.): Perspectives in the Philosophy of Wittgenstein (Oxford: Oxford University Press 1981).
Sterelny, K.: “On Natural Kind Terms”, Pacific Philosophical Quarterly 44, 1983, 110-25.
Strawson, P.F.: “Reply to Searle”, in L.E. Hahn (ed.): The Philosophy of Strawson (Chicago: Open Court 1998).
- “Truth”, in: Logico-Linguistic Papers (Oxford: Oxford University Press 1971).
- “Singular Terms and Predication”, The Journal of Philosophy, 58, 1961, pp. 393-412.
- Individuals: An Essay on Descriptive Metaphysics (London: Routledge 2003(1959)).
- Introduction to Logical Theory (London: Methuen & co. 1952).
- “On Referring”, Mind 59, 1950, pp. 320-344.
Stanley, J. & T. Williamson: “Quantifiers and Context Dependence”, Analysis 55.4, 1995, 291-295.
Stroll, A.: Sketches and Landscapes (Cambridge MA: MIT-Press 1996). 
- Twentieth Century Analytic Philosophy (New York: Columbia University Press 2000).
Swinburne, R.G.: “Analyticity, Necessity and Apriority”, in P.K. Moser: A Priori Knowledge (Oxford: Oxford University Press 1987).
Taylor, K.: Truth and Meaning: an Introduction to the Philosophy of Language (Oxford: Blackwell 2006).
Textor, M.: Frege on Sense and Reference (New York: Routledge 2011).
Thiel, C.: Sinn und Bedeutung in der Logik Gottlob Freges (Meisenhein am Glan: Verlag Anton Hain 1965).
Tomberlin, J. (ed): Philosophical Perspectives 3: Philosophy of Mind and Action Theory (Atascadero CA: Ridgeview Publishing Company 1989).
Tréhin, J.: Urville (London: Jessica Kingsley Publ. 2006).
Tugendhat, E: “Überlegungen zur Methode der Philosophie aus analytischen Sicht“, in Philosophische Aufsätze (Frankfurt: Suhrkamp 1992).
- “Die Bedeutung des Ausdrucks ‚’Bedeutung’ bei Frege“, in Philosophische Aufsätze (Frankfurt: Suhrkamp 1992).
- Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie (Suhrkamp: Frankfurt 1976). Trad. port.: Lições Introdutórias à Filosofia Analítica da Linguagem (Ijuí: Editora Unijuí 2006)
Tugendhat, E. & U. Wolf: Logische-Semantik Propädeutik (Stuttgart: Reclam Stuttgart 1983), trad. port. Propedêutica Lógico-Semântica (Petrópolis: Editora Vozes 1997).
Unger, P.: “The Causal Theory of Reference”, Philosophical Studies 43, 1983, 1-45.
Van Inwagen, P.: “Creatures of Fiction”, American Philosophical Quarterly 14(4), pp. 299-308.
Vision, G.: “I am here now”, Analysis 45, 1985, 198-99.
Waismann, F.: Logik, Sprache, Philosophie (Stuttgart: Reclam 1986).
- “Verifiability”, in A. Flew (ed.): Logic and Language 1st Series (Oxford: Basil Blackwell 1951).
Wettstein, H.: The Magic Prism: An Essay in the Philosophy of Language (Oxford: Oxford University Press 2004).
- Has Semantics Rested on a Mistake? (Stanford: Stanford University Press 1991).
- “Demonstrative Reference and Definite Descriptions”, Philosophical Studies 40, 1981, pp. 241-257.
Wiggins, D.: “The Kant-Frege-Russell View of Existence: Toward the Rehabilitation of the Second Level View”, in W. Sinnot-Armstrong, D. Raffman, N. Asher (eds.): Modality, Morality and Belief. Essays in Honor of Ruth Barcan Marcus (Cambridge: Cambridge University Press 1995).
Williams, D.C.: “The Elements of Being”, Review of Metaphysics, vol. 7, 1953.
Williams, S.G.: “Existence”, in J. Kim & E. Sosa: Companion to Metaphysics (Oxford: Blackwell 1995).
Wilkerson, T.: “Recent Work on Natural Kinds”, Philosophical Books 39, 1998; 225-33.
Wittgenstein, L.: Über Gewissheit (Frankfurt: Suhrkamp 1983).
- Philosophische Untersuchungen (Frankfurt: Suhrkamp 1983), Werkausgabe Band.
- The Blue and the Brown Books (Oxford: Oxford University Press 1986).
- The Big Typescript (Oxford: Blackwell 2005).
- Wittgenstein’s Lectures: Cambridge 1932-1935, ed. Alice Ambrose (New York: Prometeus Books 2001).
- Wittgenstein’s Lectures: Cambridge 1930-1932, ed. D. Lee (Oxford: Oxford University Press 1980).
- Philosophische Bemerkungen (Frankfurt: Suhrkamp 1984), Werkausgabe Band 2.
- Ludwig Wittgenstein und der Wiener Kreis (Frankfurt: Suhrkamp 1985), Werkausgabe Band 3.
- Tractatus Logico-Philosophicus (Frankfurt: Suhrkamp 1983), Werkausgabe, band 1.
Wolfram, S.: Philosophical Logic: An Introduction (London: Routledge 1989).
Wright, C.: “Theories of Meaning and Speaker’s Knowledge”, in C. Wright: Realism, Meaning, and Truth (Oxford: Blackwell 1986).
Zemach, E.: “Putnam’s Theory on the Reference of the Substance Terms”, Journal of Philosophy 73, 1986,116-27.
Ziff, P.: “The Meaning of Proper Names”, Mind 72, 1963.
Ziff, P.: Semantic Analysis (Ithaca NY: Cornell University Press 1960).

Nenhum comentário:

Postar um comentário