quinta-feira, 10 de maio de 2012

(9) ## UMA NOVA TEORIA DOS NOMES PRÓPRIOS - "COMO EXPRESSÕES REFERENCIAIS REFEREM?" (9)

C.F. Costa - Capítulo 9 do draft do livro Como expressões referenciais referem?
Nesse draft é desenvolvida uma teoria metadescritivista dos nomes próprios, caracterizada pela introdução de uma meta-regra organizadora do feixe de descrições. Essa teoria não só tem maior poder explicativo do que as teorias descritivistas tradicionais (Searle, Russell, Frege...) como também é capaz de explicar com seus próprios recursos fenômenos como o da rigidez dos nomes próprios em seu contraste com a contingência da aplicação das descrições definidas em geral, fenômenos supostamente explicados pelas concepções causal-descritivistas de Kripke, Donnellan, Devitt e outros. Ela permite, em suma, resolver os problemas concernentes à referência dos nomes próprios de modo mais satisfatório do que qualquer produto concorrente em oferta no mercado filosófico... (Uma versão inicial, mas defectiva, dessa teoria, foi publicada em "A Metadescriptivist Theory of Proper Names, Ratio, 24, 3, 2011; a melhor versão é "Outline of a Theory of Proper names", mais detalhada e convincente, a ser publicada no livro Lines of Thought, pela Cambridge Scholars Publishing, 2014.



9.

 NOMES PRÓPRIOS (III): META-DESCRITIVISMO


Como escreveu Ermano Bencivenga, nossas convicções filosóficas comportam-se por vezes como pêndulos, que primeiro oscilam para um lado e depois para o outro.  Um resultado disso é que quando consideradas por um período demasiado breve, elas nos oferecem a ilusória impressão de que continuarão para sempre seguindo a mesma direção. Com efeito, a teoria da referência direta dos nomes próprios, alegadamente proposta por Stuart Mill, caiu por Terra com o desenvolvimento das teorias descritivistas de Frege, Russell, Wittgenstein e Searle. Contudo, o que ninguém poderia prever é que ela iria renascer metamorfoseada na forma da teoria causal-histórica dos nomes próprios defendida por Kripke e por outros, em um movimento que até hoje persiste. Como vimos no capítulo anterior, não é nem um pouco certo que esse movimento seja definitivo. Com efeito, meu objetivo neste capítulo é tentar inverter a direção do pêndulo na direção das teorias descritivistas, mesmo que preservando alguns resultados positivos da concepção causal-histórica.
     Minha hipótese de trabalho sobre as teorias descritivistas dos nomes próprios é a de que elas falham por falta de estrutura. Um nome próprio não pode estar no lugar de um simples amontoado de descrições, como pretenderam descritivistas como John Searle. As descrições que compõem o feixe devem ser submetidas a um princípio estruturador. Por não dar conta dessa organização, a versão searleana da teoria do feixe perde em poder explicativo, dando a impressão de que as teorias causais-históricas constituem uma opção eventualmente mais plausível.
     Por força dessa hipótese de trabalho, meu objetivo será mostrar que as descrições constitutivas do significado dos nomes próprios devem satisfazer uma regra mais geral, capaz de lhes hierarquizar valorativamente. Como as descrições constitutivas do feixe são regas-descrições, ou seja, expressões de regras cognitivas que servem para conectá-las com o seu objeto de referência, essa suposta regra estruturadora do feixe de descrições deve ser uma regra de regras, a saber, uma regra de ordem superior, exprimível por meio de uma descrição de segunda ordem ou meta-descrição. Por isso chamo a versão do descritivismo que irei propor de uma teoria meta-descritivista dos nomes próprios, na verdade um meta-descritivismo causal, dado que um reconhecido elemento causal deverá ser a ela integrado.
     Há também diferenças de abordagem. Quero começar investigando sistematicamente os tipos de descrições pertencentes ao feixe. Os filósofos que investigaram nomes próprios sempre tomaram como exemplos descrições substitutivas aleatoriamente escolhidas. Quero mostrar que precisamente por serem arbitrariamente escolhidas, tais descrições eram muitas vezes de importância meramente aparente. Frege, por exemplo, sugeriu que o nome ‘Aristóteles’ pudesse estar no lugar das descrições ‘o discípulo de Platão’ e ‘o professor estagirita de Alexandre o Grande’. E Wittgenstein sugeriu que o nome ‘Moisés’ pudesse estar no lugar da descrição ‘o homem que quando bebê foi retirado do Nilo pela filha do faraó’. Mas, como veremos, nenhuma dessas descrições é fundamental.
Regras-descrições fundamentais
Há sem dúvida descrições mais e menos importantes associadas ao nome próprio. Considere, por exemplo, ‘Moisés’. A descrição ‘o homem que guiou os israelitas até a Terra prometida’ parece mais importante do que ‘o homem que quando bebê foi retirado do Nilo pela filha do faraó’. Afinal, a falsidade da última descrição traria muito menos conseqüências que a falsidade da primeira. Com o fito de hierarquizar as regras-descrições, quero distinguir três grupos de descrições definidas atributivas capazes de exprimir partes do conteúdo informativo dos nomes próprios: os grupos A e B – que contém o que chamo de descrições fundamentais – e o grupo C – que contém aquilo que chamo de descrições auxiliares. Quero evidenciar que os grupos A e B são os das descrições realmente relevantes para a identificação do objeto, enquanto o grupo C é o das descrições que, embora frequentemente exemplificadas e de alguma valia para a conexão com o objeto, não chegam a desempenhar um papel realmente importante. Quero começar procedendo de modo meramente classificatório.
     Vejamos primeiro o que chamei de descrições fundamentais. Para encontrá-las gostaria de proceder atentando para a sua relevância na linguagem. Mas como fazê-lo? J.L. Austin, o filósofo da linguagem ordinária, aconselhava que ao fazermos filosofia tivéssemos à mão o Oxford English Dictionary. Contudo, não podemos buscar os tipos de descrição mais importantes associados aos nomes próprios, posto que nomes próprios não se encontram em geral dicionarizados. Mas isso não nos deve desanimar. Pois se os nomes próprios não se encontram dicionarizados, pelo menos muitos deles se encontram “enciclopedizados”. Daí o meu conselho: se queres encontrar as descrições que importam ao nome próprio, consultes os cabeçalhos dos seus verbetes nas enciclopédias! Vejamos o que podemos encontrar, por exemplo, no verbete ‘Aristóteles’ do pequeno dicionário filosófico da Penguin. Lá está escrito:

Aristóteles = (384 a.C – 322 a.C.) nascido em Estagira, no norte da Grécia, Aristóteles produziu o maior sistema filosófico da antiguidade. (Segue-se uma lista das grandes obras de Aristóteles.)

Quando examinamos esse e outros verbetes do gênero para o nome ‘Aristóteles’, o que depreendemos é que eles abreviam especialmente duas regras-descrições, uma estabelecendo o lugar e o tempo de seu nascimento e morte (ao que podem ser adicionadas etapas de sua carreira espaço-temporal), a outra estabelecendo as propriedades mais importantes de Aristóteles, aquelas que constituem a razão pela qual aplicamos o nome. Essas propriedades são, acima de tudo, as idéias e argumentos presentes no opus aristotélico.
     Podemos agora abstrair desse caso concreto dois tipos de regras-descrições fundamentais próprias dos grupos A e B respectivamente:

A) Regra localizadora = expressa pela descrição que estabelece o que consideramos localização e carreira espaço-temporal do objeto .
B) Regra caracterizadora = expressa pela descrição que estabelece o que consideramos as propriedades mais relevantes do objeto – aquelas que constituem a razão pela qual o nomeamos.

     Consideremos agora as regras-descrições localizadora e caracterizadora de Aristóteles de modo mais explícito. Elas são:

(a) Descrição localizadora do nome ‘Aristóteles’ = a pessoa que nasceu em Estagira em 384 a.C., que viveu a maior parte de sua vida em Atenas, teve de fugir para Assos, retornou a Atenas, mas acabou tendo de fugir para Chalkis, onde morreu em 322 a.C.
(b) Descrição caracterizadora do nome ‘Aristóteles’ = o autor das doutrinas filosóficas expostas na Metafísica, na Física, na Ética a Nicômano, no Organon, nos Tópicos e nas demais obras que compõem o opus aristotélico.

    Tais regras fundamentais podem ser mais e mais descritivamente detalhadas. No caso de Aristóteles elas ultimadamente se justificam pelos testemunhos históricos.
     Para evidenciar a importância das regras-descrições fundamentais, eis alguns exemplos de descrições definidas do grupo A, que retiro diretamente do cabeçalho de verbetes da Wikipedia.  Eles apresentam como condições de identificação propriedades localizadoras de objetos referidos por nomes próprios:

1. Pelé (Edson Arantes do Nascimento) = a pessoa que nasceu na cidade de Três Corações em 1940 e que hoje vive em Santos e nos EUA.
2. Taj Mahal = um mausaléu construído de 1630 a 1652 perto da cidade de Agra, na Índia, existindo até hoje.
3. Paris = cidade de mais de dez milhões de habitantes situada no norte da França, às margens do rio Sena. Seu surgimento como cidade remonta ao século IX.
4. Amazonas = o rio que nasce nas montanhas do Peru e deságua no atlântico, seguindo a linha do equador. Junto aos seus afluentes ele forma a maior bacia hidrográfica do mundo. Existe desde tempos imemoriais...

     É preciso notar que a descrição localizadora possui ao menos um elemento caracterizador, que consiste na discriminação do tipo de objeto a ser referido. Assim, Pelé é discriminado como sendo uma pessoa, o Taj Mahal como um mausaléu, o Amazonas como um rio, Vênus como um planeta. Esse mínimo de caracterização é indispensável para que a descrição localizadora chegue a fazer sentido.
     Que as regras-descrições do grupo B também são fundamentais você também pode comprovar consultando os cabeçalhos dos mesmos verbetes. Na mesma ordem, eis o que eles dizem:

1. Pelé (Edson Arantes do Nascimento) = o mais famoso jogador de futebol de todos os tempos.
2. Taj Mahal = o belíssimo mausaléu de mármore feito pelo imperador Shah Johan para a sua esposa favorita, Aryumand Bam Began...
3. Paris = a capital da França, centro econômico e turístico do país e uma das mais belas cidades do mundo.
4. Amazonas = o mais caudaloso e provavelmente também o mais longo rio do mundo, responsável por 1/5 da água doce que desagua nos oceanos.

      É principalmente em razão da importância das propriedades denotadas por tais descrições definidas que esses nomes são usados por nós. Isso não significa, ceretamente, que estejamos concebendo as propriedades por elas denotadas como “essências reais”; elas são no máximo “essências nominais”, resultantes da concordância entre usuários privilegiados dos nomes.

Regras-descrições auxiliares
Quero agora considerar as descrições definidas que ficaram de fora, a saber, as descrições auxiliares, pertencentes ao grupo C. Elas constituem um grande número de descrições que no quotidiano usamos no lugar do nome. Por isso mesmo, como já sugeri, elas confundiram os filósofos, dificultando a detecção daquilo que é mais importante. No que se segue apresento uma classificação que embora assistemática pode ser útil.
     (1) Um primeiro caso do grupo C é o de descrições que podem ser chamadas de metafóricas, freqüentemente usadas no lugar do nome próprio. Exemplos são descrições como ‘o marechal de ferro’, ‘a águia de Haia’, ‘a cidade luz’. As propriedades que elas aludem não são, em geral, as mais importantes para a identificação do objeto. Mas elas nos chamam atenção como sugestivos e pitorescos artifícios mnemônicos. Assim, ‘o marechal de ferro’ chama atenção por apontar para uma característica marcante do marechal Floriano Peixoto, que foi o seu caráter autoritário e intransigente. Mas isso é de pouco auxílio no sentido de nos permitir identificar univocamente Floriano Peixoto, pois há outros marechais com traços de caráter semelhantes. O que mais propriamente nos permite identificar Floriano Peixoto é, certamente, saber que ele satisfaz a descrição localizadora (a) de ter sido ‘a pessoa nascida em Joazeiro em 1936, que esteve na guerra do Paraguai e no Acre e que veio a falecer em Barra Mansa em 1895’, além da descrição caracterizadora (b) de ter sido ‘o segundo presidente e o primeiro vice-presidente do Brasil, responsável pela consolidação da república’, ambas encontradas em enciclopédias.
     (2) Há também regras-descrições auxiliares não-metafóricas, que podemos classificar como acidentais, apesar de bem conhecidas. Exemplos de descrições acidentais bem conhecidas são ‘o homem que em criança foi retirado do Nilo pela filha do faraó’ e ‘o tutor de Alexandre o Grande’. Essas descrições são conhecidas pela maioria das pessoas que sabem os significados dos nomes ‘Moisés’ e ‘Aristóteles’. Mesmo assim elas são acidentais, pois certamente nem Moisés nem Aristóteles deixariam de ser quem se acredita que foram se elas fossem descobertas falsas.
     A esse tipo pertence também uma descrição muito específica, que é aquela da forma ‘o portador do nome ‘N’’, por exemplo, ‘o portador do nome ‘Aristóteles’’. Embora conhecidas, as descrições dessa forma são acidentais, pois ninguém deixaria de ser quem é, nem de ser identificável como quem é, se tivesse recebido um nome diferente. Com efeito, é um mero acidente que Aristóteles tenha sido chamado pelo nome ‘Aristóteles’, enquanto não parece ter sido igualmente acidental para nós o fato de ele ter escrito o opus aristotélico ou de ser um filósofo antigo. Se em um mundo possível Nicômaco, o médico da corte de Felipe, ao invés de ter batizado o filho nascido em Estagira em 384 a.C. de ‘Aristóteles’, o tivesse batizado com o nome de ‘Pitacus’, e se Pitacus tivesse estudado com Platão, escrito todo o opus aristotélico e tido exatamente o mesmo curso de vida de Aristóteles, nós não hesitaríamos em dizer que nesse mundo possível Pitacus foi Aristóteles.  Que a regra-descrição da forma ‘o portador do nome N’ não é fundamental para a identificação de um objeto particular se deixa comprovar pelo fato de que podemos utilizar um nome próprio e, após descobrirmos que ele é incorreto, substituí-lo pelo nome correto da mesma pessoa. Além disso, podemos saber quem é uma pessoa – onde e quando encontrá-la e o que é importante acerca dela – sem nos recordarmos ou sem sequer sabermos como ela se chama. Parece, pois, que o nome próprio é como o rótulo de um fichário que contém as regras-descrições mais e menos relevantes; podemos trocar o rótulo, mas o que importa é o conteúdo do fichário (embora o nome seja útil para comunicarmos que fichário estamos considerando, ele é no final das contas contingente).
     Essas considerações nos levam a uma conclusão curiosa. Se admitirmos que em nossas reflexões sobre a linguagem uma explicação filosoficamente relevante é aquela que tem um importe epistemológico ou metafísico , então uma teoria filosófica da semântica dos nomes próprios não é uma teoria daquilo que chamamos de nome próprio na linguagem corrente, que é a sua expressão fonética ou ortográfica, o que podemos chamar de expressão simbólica do nome. Essa expressão é aquilo que faz com que, por exemplo, ‘Köln’ seja um nome diferente de ‘Colônia’.  Uma teoria filosoficamente relevante dos nomes próprios precisa ser uma teoria de seu conteúdo semântico capaz de explicitar os mecanismos de referência contidos nas regras-descrições relevantes a eles associadas; ela é uma teoria do fichário e não do seu rótulo. Podemos fazer aqui uma distinção paralela a que já vimos entre o sentido lexical e o conteúdo semântico dos indexicais. O sentido lexical do nome próprio é o de um termo usado para nomear um objeto particular; esse sentido pode ser expresso por uma descrição do tipo ‘o portador do nome ‘N’’. Uma teoria do sentido lexical do nome próprio é possível, mas lhe faltará importe epistêmico, posto que ela não nos permitirá distinguir qual é o portador do nome. Uma teoria do conteúdo semântico do nome próprio, por sua vez, será uma teoria dos seus sentidos fregeanos, dos seus valores cognitivos (Erkenntniswerte), dos seus critérios de identificação. Só ela terá força explicativa para esclarecer a relação epistêmica entre o nome próprio e o seu objeto. Mas por isso mesmo para ela a expressão simbólica do nome próprio torna-se no final das contas acidental, pois se admite que um conjunto de expressões simbólicas equivalentes possa exprimir um idêntico ou similar conteúdo semântico e com isso produzir um idêntico ou similar ato de nomear.
     (3) Há também regras-descrições acidentais e geralmente desconhecidas. Exemplos são ‘o marido de Pitias’, ‘o amante de Herfilis’, ‘o neto de Achaeon’. Poucos sabem que essas descrições se associam todas ao nome ‘Aristóteles’. Tais descrições definidas podem, naturalmente, ser multiplicadas à vontade, sendo encontradas aos montes em biografias. Por serem conhecidas de alguns poucos, elas não têm função relevante em sua associação com o nome próprio. Imagine que tudo o que um falante sabe de Aristóteles é que ele foi o neto de Achaeon. Ele não será capaz de fazer uso desse nome de modo a comunicar-se com outras pessoas em geral, pois a falta de compartilhamento da descrição não auxilia as pessoas a reconhecerem no nome ‘Aristóteles’ por ele usado o filósofo grego e não, digamos, o milionário grego Aristóteles Onassis.
     (4) Finalmente, há descrições auxiliares adventícias, como a expressa pela descrição ‘o filósofo mencionado pelo professor’, ‘a senhora que nos foi apresentada na reunião’. As regras aqui expressas associam o nome ao contexto no qual foi propriamente usado. Elas são provisórias. Elas costumam ser constituidas, usadas por algum tempo e depois abandonadas e esquecidas, não sendo por isso constituintes semânticos característicos do nome. Contudo, por se reportarem a um contexto conhecido por um grupo de falantes, tais regras podem servir para um falante seja capaz de usar o nome próprio em conversação de modo que ele seja univocamente reconhecido pelos seus interlocutores, com a possibilidade de subseqüente troca de informações sobre o seu portador.
       Nesse ponto poderia ser feita a seguinte objeção. Afora o fato de constarem nos cabeçalhos dos verbetes das enciclopédias, não parece haver maiores razões para se privilegiar as descrições ditas fundamentais. Afinal, assim como as descrições auxiliares são contingentes, o mesmo parece acontecer com as próprias descrições fundamentais: é perfeitamente possível que Aristóteles não tivesse nascido em Estagira em 384 a.C., que Pelé não tivesse se tornado jogador de futebol, que o Taj Mahal não tivesse sido construído perto de Agra! Podemos, afinal, imaginar mundos possíveis nos quais nada disso seja o caso, mas onde mesmo assim existem Aristóteles, Pelé e o Taj Mahal. As descrições fundamentais não designam, pois, uma essência necessária ao portador do nome próprio. Em contrapartida, podemos identificar um único objeto por meio de uma descrição auxiliar: para saber que alguém está falando de Aristóteles pode ser suficiente para saber que ele fala do fundador do Liceu ou mesmo do amante de Herphylis.
     A única coisa que posso fazer diante dessa objeção é pedir ao leitor paciência. Só após a introdução de regras de ordem superior capazes de selecionar as combinações de regras-descrições de primeira ordem capazes de justificar a aplicação de um nome próprio é que a importância das descrições dos grupos A e B se tornará saliente.

A regra disjuntiva
Cumpre assim demonstrar que há meios de distinguir quais as combinações entre as descrições do feixe que licitam a aplicação referencial do nome próprio. Trata-se, para tal, de estabelecer uma regra-descrição de segunda ordem capaz de se aplicar às regras-descrições de primeira ordem associadas a um nome próprio qualquer, de maneira a selecionar as combinações que tornam a aplicação do nome possível. Essa regra de regras deve ser, portanto, uma metaregra, uma regra meta-descritiva aplicável aos feixes de descrições que asssociamos a nomes próprios em geral.
     Para começar podemos descartar como insuficientemente relevantes as descrições do grupo C. Elas são identificadoras apenas no sentido de auxiliar na conexão do falante com o objeto, na medida em que possibilitam a sua inserção em um meio comunicacional que já tem como pressuposto que as verdadeiras regras de identificação do objeto capazes de concluir essa conexão são conhecidas ao menos pelos usuários privilegiados do nome ou pelo conjunto deles. A evidência que podemos oferecer para isso é que elas podem estar todas ausentes: podemos imaginar que Aristóteles não tivesse sido o tutor de Alexandre, nem o filho de Nicômano, nem o marido de Pítias, nem o fundador do Liceu, e que mesmo assim fosse o grande filósofo grego por nós conhecido. Contudo, o mesmo não pode ser dito das descrições fundamentais. Não podemos conceber que nem a descrição localizadora nem a descrição caracterizadora se apliquem; não podemos conceber “~A & ~B”.  Para evidenciar isso, basta lembrarmo-nos do exemplo dado por Searle do especialista em Aristóteles que veio nos informar ter descoberto que Aristóteles na verdade não escreveu nenhuma das obras a ele atribuídas, mas foi na verdade um mercador de peixes veneziano do renascimento tardio...  Nós responderemos que na melhor das hipóteses ele poderá estar falando de outra pessoa de nome Aristóteles, mas que ela não tem nada a ver com a pessoa que temos em mente. E a razão disso é que nenhuma das regras-descrições fundamentais que associamos ao nome ‘Aristóteles’ está sendo minimamente satisfeita.
     Se a regra meta-identificadora exclui “~A & ~B”, excluiria ela “A & B”? Deveria ela exigir a conjunção da descrição localizadora com a descrição caracterizadora, ou somente a sua disjunção? Ainda que usualmente os objetos satisfaçam uma conjunção de condições dos grupos A e B, é muito fácil conceber situações e casos incomuns em que o nome se refere sem que a condição pertencente a um desses dois grupos seja satisfeita.
      Para evidenciar esse ponto considere uma vez mais o nome ‘Aristóteles’. Não é difícil imaginar mundos possíveis próximos ao nosso, nos quais ele existiu sem satisfazer à conjunção das regras de localização e de caracterização para Aristóteles. A regra de localização para Aristóteles não precisa necessariamente se aplicar: podemos perfeitamente conceber um mundo possível próximo ao nosso no qual Aristóteles escreveu o opus aristotélico, mas nasceu e morreu em Roma dois séculos mais tarde, não tendo existido nenhum discípulo de Platão chamado Aristóteles e nascido em Estagira no século IV a.C. Mesmo assim, não hesitaremos em reconhecer nele o nosso Aristóteles, posto que a regra de caracterização, ao menos, continua sendo satisfeita.
     Podemos também conceber um mundo possível nos qual somente a regra de localização para Aristóteles é satisfeita, mas não a regra de caracterização, pois nele a filosofia de Aristóteles nunca existiu. Suponha que nesse mundo Aristóteles tenha nascido em Estagira em 384 a.C., filho de Nicômano, médico da corte de Felipe, e que aos 17 anos ele tenha viajado para Atenas para estudar com Platão. Infelizmente, pouco após a sua chegada ele foi vítima de uma febre cerebral que o incapacitou para atividades intelectuais pelo resto de sua vida, até a sua morte em Chalkis, em 322 a.C. Apesar disso, parece que temos elementos suficientes para reconhecer nessa pessoa o nosso Aristóteles “em potência”. Mas aqui só a regra de localização está sendo satisfeita.
     Outra evidência de que a satisfação da conjunção das regras identificadoras não é necessária é que há nomes próprios que por convenção se referem a um objeto somente através de sua localização ou então somente através de sua caracterização.
     Como exemplo do primeiro tipo, suponhamos que alguém decida chamar de Z o centro de um círculo. Esse ponto satisfaz a condição do tipo A de ter localização espaço-temporal definida, mas não é preciso que possua nenhuma característica distintiva relevante. Outro exemplo que pode ser nesse contexto lembrado é o do nome ‘Vênus’. A regra de localização é ‘o segundo planeta do sistema solar enquanto foi identificado como tal e provavelmente já há milhões de anos’, enquanto a regra de aplicação é ‘um planeta com um terço da massa da Terra e densa atmosfera’. Contudo, o que importa aqui é que a regra de localização seja satisfeita, a regra de caracterização importando muito pouco. Se Vênus perdesse parte de sua massa ou se perdesse a sua atmosfera, conquanto continuasse a ser um planeta (uma demanda já incluída na regra de localização), ele continuaria a ser Vênus. Podemos imaginar que ele deixe de orbitar o sol. Mas nesse caso ele não deixará de satisfazer a regra de localização, pois no tempo em que foi batizado ele orbitava o sol. E se for descoberto que ele não pertenceu ao sistema solar primitivo, mas veio do espaço há um milhão de anos atrás, ainda assim ele satisfará a regra de localização.
     Uma maneira de se explicar o que acontece em tais casos é dizer que neles a regra de caracterização é a própria regra de localização. Lembremo-nos que a regra de caracterização foi definida como a razão pela qual nomeamos. Mas no caso do centro Z do círculo essa razão é a própria localização e no caso de Vênus a regra de localização é pelo menos a razão que realmente conta.
     Também existem exemplos que exigem apenas a satisfação da regra de aplicação. Um deles é oferecido pelo nome ‘Almostasim’, que aparece no conto de Borges intitulado El aciercamento de Almostásim. Almostasin é um ser, talvez uma pessoa, que pelo contato com as outras emana perfeição. Alguns acreditam que podemos nos aproximar dele pelo contato com outros seres humanos que sejam repositórios limitados de sua ilimitada grandeza. Apenas nessas indicações vagas se constitui a regra caracterizadora desse nome. Mas não há uma regra identificadora de sua localização espaço-temporal, pois ninguém jamais encontrou Almostasim e alguns até mesmo negam que ele exista. Há inclusive um exemplo de nome próprio que por definição não pode ter regra de localização: trata-se da palavra ‘Universo’ (ou ‘Multiverso’, se preferirem). O objeto referido por esse nome tem regra de caracterização: ele é tudo o que empiricamente existe. Mas ele não pode ter regra de localização espaço-temporal, pois por conter todo o espaço e todo o tempo, o Universo não pode estar nem no espaço nem no tempo.
     Ora, se excluirmos “~A & ~B” e também “A & B”, é forçoso que a condição meta-descritiva usual para a aplicação do nome próprio seja “A v B”, ou seja uma disjunção inclusiva das descrições localizadora e caracterizadora. Dessas considerações segue-se uma primeira e mais rudimentar versão da regra referencial meta-identificadora para os nomes próprios, a ser aplicada a regras-descrições fundamentais de primeiro nível pertencentes aos grupos A e B. Chamo-a de regra disjuntiva:

RD:
Um nome próprio N refere-se propriamente a um objeto x pertencente a uma classe G de objetos
see,
(i-a) x satisfaz sua regra de localização
 e/ou
(i-b) x satisfaz sua regra de caracterização.

     Para exemplificar: podemos aplicar o nome próprio ‘Aristóteles’ a um objeto da classe dos seres humanos se e somente se existe um indivíduo que (i-a) satisfaz a regra de localização para ‘Aristóteles’, que é a de ter nascido em Estagira em 384 a.C. tendo vivido a principal parte de sua vida em Atenas... e falecido em Chalkis em 322 a.C. e/ou (i-b) satisfaz a regra de aplicação de ‘Aristóteles’, que é a de ter produzido o conteúdo do opus aristotélico.
     Algumas explicações são exigidas. Primeiro digo “N refere-se propriamente ao objeto x” entendendo por isso que a referência feita por um usuário idealizado do nome, que realmente conheça a regra, o que costuma ser o caso dos usuários privilegiados, embora não necessariamente. Assim, a referência é própria no sentido de que ela não é feita com insuficiente base cognitiva, como acontece quando uma pessoa emprega nomes como ‘Feynman’ e ‘Einstein’ sem saber realmente sobre quem está falando. Segundo, a classe C é algo equivalente ao genus proximum, delimitando o gênero de coisas mais relevante ao qual x pertence. O recurso à classe G serve para limitar previamente o escopo da definição. Para o nome ‘Aristóteles’, por exemplo, G pode designar a classe dos seres humanos. Com isso se exclui de antemão que ‘Aristóteles’ seja o nome de um colégio. Com isso se exclui também que ‘Aristóteles’ seja o nome de um computador. Se em um mundo possível um computador denominado ‘Aristóteles’ produzisse o opus aristotélico, não teríamos com base nisso razão para admitir que ele fosse o nosso Aristóteles, mesmo que ele fosse construído por alienígenas no ano 384 a.C. em Estagira, utilizado por mais de vinte anos em Atenas e finalmente desmantelado em 322 a.C. em Chalkis. Preferiríamos considerar essa uma coincidência ou uma falsificação. O recurso a uma classe G mais estrita pode ser particularmente útil para desambiguar os nomes próprios. Se G for entendida como a classe dos filósofos antigos, fica excluido de antemão que Aristóteles possa ser um grande armador grego que viveu no século XX ou o nome de um aluno do curso de filosofia da UFRN.
     Outra pergunta é: qual o papel das descrições auxiliares? Poderiam elas sozinhas dar conta do recado? Suponha que certo objeto satisfaça muitas ou todas as descrições auxiliares associadas ao seu nome, mas sem satisfazer nenhuma das descrições fundamentais. Suponha que um certo Aristóteles tenha vivido no século XVI em Veneza e que ele tenha sido um mercador de peixes intelectualmente obtuso. Mas suponha que mesmo assim ele satisfaça a maioria as descrições auxiliares para esse nome. Suponha que ele tenha sido filho de um médico chamado Nicômaco, neto de Achaeon, que ele tenha sido marido de Pítias e amante de Herphylis e que tenha fundado um Liceu e ensinado Alexandre. Ora, por mais notáveis que fossem essas coincidências, elas não seriam relevantes, pois lhes faltariam os contextos apropriados de localização e caracterização.  Afinal, esse médico chamado Nicômaco não poderia ser o Nicômano que sabemos ter trabalhado na corte do Felipe da Macedônia, nem o avô Achaeon pode ser aquele mesmo que viveu no século IV a.C. Nem Pítias nem Herphylis poderiam ser mulheres da Grécia antiga, apesar dos nomes. O Alexandre que esse falso Aristóteles ensinou não poderia ter sido o maior conquistador de todos os tempos. E o Liceu que esse inepto fundou não poderia ter nada a ver com o Liceu que produziu o aristotelismo antigo. A barafunda conceitual criada na tentativa de se conceber uma situação na qual só as descrições auxiliares permanecessem as mesmas não é capaz de produzir mais do que uma série de curiosas e estranhas coincidências, que se nos apresentam como uma persiflagem dos acontecimentos – uma farsa incapaz de nos convencer da autenticidade do Aristóteles proposto.

Regra meta-identificadora: primeira versão
Embora a regra disjuntiva seja importante por evidenciar o papel das descrições que realmente importam, ela não é de modo algum suficiente, pois ela é de um lado estreita demais e de outro ampla demais. Ela é estreita demais ao exigir uma satisfação completa de ao menos um disjunto de regras-descrições fundamentais de primeiro nível. Afinal, podemos imaginar não apenas casos de aplicação do nome próprio nos quais ambas as regras fundamentais são apenas casos de aplicação nos quais somente uma dessas regras é parcialmente satisfeita, enquanto a outra não é satisfeita de modo algum, mas também casos de aplicação do nome próprio nos quais apenas uma dessas regras é parcialmente satisfeita.
     Consideremos primeiro o caso em que a regra localizadora é incompletamente satisfeita e que a regra caracterizadora não é nem um pouco satisfeita. Imagine um mundo possível próximo ao nosso, uma situação contrafactual no qual não existiu a filosofia aristotélica, mas no qual existiu um Aristóteles que morreu ainda jovem, ao chegar a Atenas, vitimado por uma febre cerebral. Mesmo assim, se soubermos que ele nasceu em Estagira em 384 a.C., que foi filho do médico Nicômano da corte de Felipe e que foi enviado pelo avô Achaeon para Atenas aos 17 anos para estudar com Platão, não teremos dúvida de que se trata de nosso Aristóteles “em potência”, mesmo que RD não chegue a ser satisfeita.
     Consideremos agora um caso no qual só a regra caracterizadora é satisfeita e mesmo assim de modo incompleto. Imagine um mundo possível próximo ao nosso no qual não existiu nenhum Aristóteles nem obra aristotélica no mundo antigo, embora tenha existido Platão e os outros filósofos antigos. Imagine que nesse mundo, no século XII, em Córdoba, um filósofo árabe que leu tuda a filosofia grega disponível e tenha escrito em grego antigo partes da obra de Aristóteles, incluindo o Organon e conteúdos da Metafísica e da Ética a Nicômano sob o pseudônimo de ‘Aristóteles’ (ou se quisermos que tenha escrito em árabe o conteúdo ideativo relevante do opus aristotélico). Em tal situação, na qual não há nenhum concorrente para o nome, também tenderíamos (com alguma relutância) a reconhecer essa pessoa como o nosso Aristóteles.
     Claro que há limitações para isso. Se, em um mundo possível similar ao nosso, no qual a filosofia aristotélica nunca existiu, em 384 a.C. em Estagira o médico da corte não fosse Nicômano, filho de Achaeon, mas apesar disso uma pessoa que teve um filho que foi chamado de Aristóteles, o qual morreu pouco após o seu nascimento, teremos dificuldade em crer que ele tenha sido o nosso Aristóteles. E se o filósofo árabe de pseudônimo Aristóteles tivesse escrito apenas a primeira seção do livro Alfa da Metafísica, nós não o reconheceríamos como o nosso Aristóteles. Tais casos tenderiam a ser por nós reconhecidos como estranhas e inexplicáveis coincidências. Isso nos faz concluir que a regra meta-identificadora disjuntiva deve ser completada por uma condição exigindo que as regras-descrições fundamentais sejam suficientemente satisfeitas de acordo com as circunstâncias dadas, não precisando ser completamente satisfeitas.
     Consideremos agora o caso em que as descrições caracterizadoras são conjuntivamente satisfeitas, mas apenas de modo parcial. Nesse caso parece que o limite mínimo de satisfação exigido para cada descrição se tornaria menor do que o limite mínimo para a satisfação da descrição no caso em que somente uma das regras fundamentais fosse incompletamente, mas suficientemente satisfeita. Assim, se em um mundo possível tivesse nascido um único Aristóteles em 384 a.C. em Atenas, o qual tivesse estudado com Platão e escrito apenas as Categorias, parece que isso seria suficiente para admitirmos que se trata do nosso Aristóteles. Nesse caso parece que da satisfação insuficiente de cada disjunto resulta uma satisfação suficiente da regra disjuntiva. Ou seja: a exigência de uma satisfação suficiente da disjunção inclusiva deve incluir a consideração da soma da satisfação dos disjuntos.
     Uma dúvida importante que resta é sobre a medida exata do que devemos entender como sendo suficiente. Não creio que exista uma resposta para isso. Afinal, a linguagem empírica é inevitavelmente vaga e nossos critérios de aplicação das palavras não delimitam as fronteiras de sua aplicação de maneira afiada. Há sempre casos incertos, acerca dos quais não sabemos se devemos ou não aplicar nossos critérios. Importante é que apesar dessa vaguidade de nossa linguagem natural, somos na maioria dos casos perfeitamente capazes de nos comunicar sobre os objetos de referência. Por isso a vaguidade da linguagem natural, que certamente reflete a vaguidade própria das divisões da realidade que pretendemos categorizar, não é uma imperfeição dessa linguagem, mas um fato a ser admitido, sendo frequente ser uma linguagem vaga aquela de que mais precisamos.
     Outro ponto é que o Aristóteles recém-mencionado deixaria de ser o nosso Aristóteles se existisse um ou mais concorrentes que também satisfizessem a regra disjuntiva. Assim, imagine um mundo possível no qual Nicômano tivesse dois gêmeos idênticos batizados ‘Aristóteles’ e que eles fossem estudar com Platão e tivessem escrito o opus aristotélico a quatro mãos. Embora seja possível dizer que esse mundo tem dois Aristóteles, a rigor esse mundo não tem nenhum Aristóteles, pois um nome próprio é um termo singular que por definição se aplica a apenas um único objeto. Essa consideração nos leva a uma nova condição a ser adicionada, que é a de unicidade. Precisamos admitir como condição de aplicação da própria regra meta-referencial identificadora uma condição de unicidade, qual seja a de que no domínio considerado somente um único objeto satisfaça a regra disjuntiva.
     O principal caso no qual a condição de unicidade deixa de ser satisfeita é aquele em que a regra de localização é satisfeita por um objeto enquanto a regra de aplicação é satisfeita por outro. Este seria o caso em um mundo possível M1 no qual existiu (a) um Aristóteles grego, filho de Nicômano, que nasceu em Estagira em 384 a.C., mas que contraiu febre cerebral ao chegar a Atenas e não fez coisa alguma em filosofia até a sua morte em Chalkis em 322 a.C., e (b) um filósofo de nome Aristóteles, que escreveu o opus aristotélico em Roma cerca de duzentos anos mais tarde. Nessas circunstâncias, não temos mais como decidir quem foi o verdadeiro Aristóteles, se o grego ou o romano, pois as nossas duas regras identificadoras fundamentais entram em conflito uma com a outra. A alternativa mais natural e imediata é abandonarmos a suposição de que nosso Aristóteles existe em tal mundo, posto que a condição de unicidade do objeto não é satisfeita.
     Esse caso é similar ao do paradoxo do navio de Teseu relatado nos manuais de filosofia. Digamos que esse navio tenha o nome de ‘Calibdus’. No curso dos anos Teseu repôs pouco a pouco as partes do seu navio até que, no final, todas elas foram substituídas. Contudo, alguém decidiu então recondicionar as partes antigas e com elas construir outro navio igual ao primeiro. Digamos que então alguém pergunte: “Qual dos dois navios é Calibdus?” O paradoxal aqui é que não sabemos bem o que responder. A primeira vista pode parecer que ambos são o navio de Teseu. Mas isso seria contraditório, pois um termo singular não pode se referir a mais de um objeto. Minha proposta é a de que a questão de saber qual dos navios é Calibdus é indecidível devido a um conflito criterial que se dá entre as duas regras-descrições fundamentais para esse nome. O primeiro navio satisfaz uma regra localizadora, que nos diz que o navio de Teseu é aquele que foi construído em um lugar e tempo específicos, tendo então seguido uma certa carreira espaço-temporal. A segunda regra, satisfeita pelo segundo navio, é caracterizadora. Ela nos diz que o navio de Teseu é aquele que foi construído com certo material. Não temos, por isso, como decidir.
     Nesse ponto alguém poderá, com razão, objetar que a regra caracterizadora é mais complexa. Ela inclui características funcionais e estruturais que foram preservadas em ambos os navios. Como consequência, parece que o primeiro navio deve ser o Calibdus, pois ele satisfaz mais completamente as regras-descrições fundamentais. Contudo, podemos equilibrar essa diferença aumentando a rapidez da substituição das partes velhas pelas novas, de modo a encurtar a carreira espaço-temporal do objeto até que a substituição das peças se complete. Se toda a seqüência de substituições de partes tivesse lugar em apenas três meses, teríamos dúvidas. E se ela tivesse lugar em uma semana ou em um dia? Nesses casos com certeza consideraríamos o segundo navio como sendo o de Teseu e não mais o primeiro, dizendo que ele foi primeiro desmontado e depois remontado em outro lugar.
     Por fim, resta a estratégia de renomear os objetos. Se nos for útil podemos introduzir nomes próprios substitutivos, admitindo a existência de dois navios: Calibdus-1, que satisfaz a regra de localização, e Calibdus-2, que satisfaz a regra de caracterização, a qual entre outras coisas exige a preservação do mesmo material do navio por tempo suficiente. Do mesmo modo, no exemplo anterior podemos propor a existência de dois Aristóteles no mundo possível M1: o Aristóteles-1, que é o da Grécia antiga e que satisfaz somente a regra de localização, e o Aristóteles-2, que é apenas o autor do opus aristotélico, e que satisfaz somente a regra de caracterização. Seria um erro, porém, ver nisso uma resposta ao mesmo problema. Trata-se simplesmente de uma nova partida do jogo de nomear, uma proposta de novas convenções para novos termos referenciais, a serem usados no lugar do termo malogrado.
     Adicionando as condições de suficiência e unicidade à regra disjuntiva, chegamos a uma mais apropriada formulação da regra meta-identificadora reguladora do comportamento semântico das regras-descrições fundamentais concernentes a cada nome próprio. Eis como ela pode ser formulada:

RMI1:
Um nome próprio N refere-se a um objeto x pertencente a uma classe G de objetos
see
(i-a) x satisfaz uma regra de localização L para N
 e/ou
(i-b) x satisfaz uma regra de aplicação C para N
 e
(ii) a satisfação de L e/ou C por x é em seu todo suficiente e
(iii) unívoca.

     Chamo a regra resultante da aplicação da regra meta-identificadora às regras-descrições fundamentais de um dado nome próprio de regra meta-identificadora para as regras-descrições fundamentais desse nome próprio ou – para evitar a introdução de uma terminologia especiosa – de regra de identificação ou regra definicional do nome próprio (a qual é, se quiserem, uma instanciação de RMI1). Note-se que a condição (ii), de suficiência, é para ser aplicada “ao todo”, ou seja, ao somatório da satisfação de cada disjunto. Isso nos permite resgatar a intuição de que quando cada disjunto isoladamente considerado é insuficientemente satisfeito, pode ser que mesmo assim a regra seja aplicável. Ela será aplicável se a soma da satisfação de cada disjunto for suficiente para a aplicação da regra.
     A regra de identificação para o nome próprio ‘Aristóteles’ pode ser agora abreviadamente expressa como:

RI1-Aristóteles:
Um nome próprio ‘Aristóteles’ refere-se propriamente a um objeto x pertencente à classe dos seres humanos
see
(i-a) x satisfaz a sua regra de localização de ter nascido em Estagira em 384 a.C., vivido grande parte de sua vida em Atenas e falecido em Chalkis em 322 a.C.
 e/ou
(i-b) x satisfaz a sua regra de aplicação de ter sido o autor das grandes idéias do opus aristotélico
 e
(ii) a satisfação da regra de localização e/ou da regra de aplicação por x é em seu todo suficiente e
(iii) unívoca.

Regra meta-identificadora: segunda versão
Embora RMI1 já seja uma regra bastante satisfatória, explicando a grande maioria dos casos de aplicação de nomes próprios, ela resulta de uma análise incompleta. Afinal, não é difícil demonstrar que a condição de unicidade é derivada e que RMI1 não dá conta de contra-exemplos que dependem de um estágio anterior a essa derivação. Para tal quero examinar dois deles.
     Um primeiro contra-exemplo vale-se da fantasia da Terra-Gêmea. Uma Terra-Gêmea deve ser molécula por molécula idêntica a nossa. Nela tudo existe e acontece de forma idêntica (ou quase idêntica) ao que existe e acontece em nossa Terra. Assim, o que se aplica a um objeto na Terra deve se aplicar ao seu Doppelgänger na distante Terra gêmea. Não obstante, mesmo que soubéssemos da existência de uma Terra-Gêmea, nós continuaríamos tendo uma forte intuição de que ao pronunciarmos o nome ‘Aristóteles’ nós estamos a nos referir ao nosso Aristóteles e não ao Aristóteles da Terra-Gêmea. Contudo, se considerarmos nossa primeira formulação da regra de identificação para Aristóteles, ela não parece mais aplicável, pois tanto o Aristóteles da nossa Terra quanto o da Terra gêmea parecem satisfazer suficientemente a regra disjuntiva. De um lado, ambos parecem satisfazer a regra de localização espaço-temporal, pois ambos nasceram em 384 a.C. em Estagira... E mesmo que esse não seja o caso, é indubitável que ambos os Aristóteles satisfazem a regra de caracterização: ambos escreveram o opus aristotélico até a sua última vírgula. Ora, como basta a satisfação suficiente da condição disjuntiva “(i-a) v (i-b)”, os dois Aristóteles satisfazem a regra de identificação para o nome ‘Aristóteles’. Mas se é assim, a condição de unicidade deixa de ser satisfeita, disso resultando a conclusão contra-intuitiva de que Aristóteles não existe. Mas certamente ele existe e ele é o nosso Aristóteles e não o da Terra-Gêmea!
     Exemplos com mundos possíveis também podem ser facilmente imaginados. Digamos que em um mundo possível M1 em Estagira em 384 a.C. Nicômano, o médico da corte, tenha sido pai de dois gêmeos, ambos tendo sido batizados com o nome ‘Aristóteles’. O primeiro tornou-se médico como o pai, tendo se alistado no exército de Alexandre e morrido de sede na travessia do deserto ao retornar do oriente. O segundo acabou indo para Atenas, onde escreveu todo o opus aristotélico. Como ambos satisfazem suficientemente a regra de localização, ambos satisfazem suficientemente a condição disjuntiva “(i-v) v (i-v)” exigida pela regra de identificação, o resultado é que a condição de unicidade deixa de ser satisfeita, deixando a regra de identificação para o nome ‘Aristóteles’ insatisfeita e levando à conclusão de que Aristóteles não existe. Mas não há dúvida que para nós ele existe e que ele é o segundo Aristóteles e não o primeiro. Só em um mundo possível M2, que diferisse de M1 apenas pelo fato do segundo Aristóteles não ter chegado a nascer, nós seríamos induzidos a considerar o primeiro deles o nosso Aristóteles “em potência”, ainda que mal-orientado.
     A pergunta a ser feita aqui é: o que nos leva a no primeiro contra-exemplo escolhermos o Aristóteles da Terra ao da Terra-Gêmea e no segundo o Aristóteles que escreveu o opus aristotélico ao que se tornou médico? A resposta só pode ser uma: a satisfação das regras-descrições identificadoras de certo nome por mais de um objeto elimina da competição pelo direito ao nome o objeto que as satisfaz menos. A solução, portanto, é estabelecer o que eu gostaria de chamar de condição de predominância: a condição de que no caso de mais de um objeto satisfazer a regra disjuntiva de um nome próprio, o portador do nome deve ser o objeto que mais completamente a satisfaz.
     Quero agora sugerir a forma mais aprimorada de regra meta-identificadora que incorpora em si essa última condição. Ei-la:

  RMI2:
  Um nome próprio N refere-se propriamente a um objeto x
  pertencente a uma classe G
  see
  (i-a) x satisfaz uma regra de localização L para N
  e/ou
  (i-b) x satisfaz uma regra de aplicação C para N,
  (ii) x satisfaz L e/ou C em medida no todo suficiente e
  (iii) x satisfaz L e/ou C mais do que qualquer outro objeto
        pertencente à classe G.
  
   Substituímos aqui como condição (iii) a condição de unicidade pela condição de predominância, que é anterior à da unicidade, posto que serve para garanti-la. A condição de predominância é aplicada de modo a selecionar o objeto que satisfaz suficientemente a disjunção inclusiva dos disjuntos mais do que qualquer outro objeto da mesma classe que também a satisfaça, obtendo assim uma identificação unívoca desse objeto.
     Do mesmo modo que no caso anterior, quando a regra de regras RMI2 é aplicada às regras-descrições fundamentais de um nome próprio qualquer (ou quando as suas variáveis formais forem instanciadas), ela produz uma regra de identificação ou regra definicional para o nome próprio. Eis como essa regra se afigura para o nome ‘Aristóteles’:

RI2-Aristóteles:
O nome próprio ‘Aristóteles’ refere-se propriamente a um objeto x pertencente à classe dos seres humanos
see
(i-a) x satisfaz a sua regra de localização de ter nascido em Estagira em 384 a.C., vivido grande parte de sua vida em Atenas e falecido em Chalkis em 322 a.C.
 e/ou
(i-b) x satisfaz a sua regra de aplicação de ter sido a pessoa que produziu o conteúdo relevante do opus aristotélico e
(ii) x satisfaz a disjunção (i-a) ou (i-b) em medida no todo suficiente e
(iii) x satisfaz a disjunção (i-a) ou (i-b) mais do que qualquer outro ser humano.

     A regra de identificação resultante da aplicação de RMI2 às duas descrições fundamentais de Aristóteles nos dá uma resposta intuitiva ao problema do Aristóteles da Terra-Gêmea. Pois segundo ela, embora tanto o Aristóteles da nossa Terra quanto o da Terra-Gêmea satisfaçam a regra de aplicação, o Aristóteles da nossa Terra é o único que verdadeiramente satisfaz a regra de localização espaço-temporal; afinal, só ele existe em nossa região espaço-temporal, sendo a essa região que a regra foi feita para se aplicar – a essa região específica do espaço único que inclui ambas as Terras – e não à região espacial análoga situada na distante Terra-Gêmea. Assim, o Aristóteles da nossa Terra satisfaz mais completamente a condição disjuntiva “(i-a) v (i-b)” do que o Aristóteles da Terra gêmea. Ao fazer isso ele preenche a condição de predominância da regra identificadora para Aristóteles resultante da aplicação de RMI2 às regras-descrições fundamentais associadas a esse nome, o que se encontra em pleno acordo com a nossa intuição de que é ao Aristóteles da nossa Terra que estamos a nos referir.
     A aplicação de RI2-‘Aristóteles’ também resolve o problema dos dois Aristóteles gêmeos que em M1 satisfazem a regra disjuntiva. O primeiro (que foi para a Índia com Alexandre) satisfaz apenas o suficiente da regra localizadora, nada satisfazendo da regra caracterizadora. Mas o segundo (que foi para Atenas e escreveu o opus aristotélico) satisfaz não só suficientemente a regra localizadora, mas também, mais do que suficientemente, a regra caracterizadora. Para isso, pela predominância na satisfação da regra disjuntiva, o último Aristóteles passa a ser escolhido por nós como sendo o verdadeiro, o que também se conforma com nossas intuições.
     Voltando a RMI2, resta uma questão a ser respondida. Imagine que outros nomes para o mesmo objeto, com regras de identificação próprias, viessem a competir com a regra de identificação do nome que estamos considerando. Assim, se feixes de descrições diversos associados aos nomes próprios diversos N1... Nn satisfazem RMI2 para um mesmo objeto, ou seja, se regras de identificação diferentes são satisfeitas, parece que deveria haver uma condição para se saber qual dos nomes próprios verdadeiramente se refere a esse objeto.  Não seria necessária uma condição de predominância de regra exigindo que um objeto, para poder ser referido, deva satisfazer a regra disjuntiva de identificação para o nome em questão mais do que qualquer outra regra de identificação de outro nome que também se refira a ele?
     Felizmente, não parece que no caso dos nomes próprios essa condição adicional precise ser introduzida, pois a identidade de objeto faz com que essas regras se somem ao invés de se excluir, ao menos no que concerne às descrições caracterizadoras, uma vez que não podemos ter duas descrições localizadoras diferentes para um mesmo objeto. Para evidenciá-lo, consideremos um exemplo. Suponha que venha a ser descoberto, como já se pretendeu, que Lord Bacon tenha sido o verdadeiro autor das obras de Shakespeare e que não existiu nenhum Shakespeare com a carreira espaço-temporal que a ele atribuímos. Nesse caso parece que as regras de identificação de Bacon e Shakespeare deveriam competir. Contudo, isso não precisa acontecer. Não nos encontramos realmente forçados a escolher entre Bacon ser Bacon e Bacon ser Shakespeare. Nesse caso nós estenderemos os atributos de uma mesma pessoa de modo a abranger os nomes de Bacon e Shakespeare, dizendo que Bacon, além de ser o cientista, filósofo e diplomata que foi, também escreveu anonimamente as obras de Shakespeare. E quanto ao Shakespeare nascido em Stanford-upon-Avon em 1564, que se casou com Anne Hathaway? Ora, esse é outra pessoa, outro objeto, para cuja identificação há outra regra de localização. O importante a ser notado é que aquilo que garante a aplicabilidade da regra de identificação de um nome próprio é a unicidade de seu objeto, já garantida por RMI2. Mais tarde veremos que os termos gerais, não se aplicando a um único e mesmo objeto, mas geralmente a muitos, se comportam nesse aspecto de forma muito diferente, exigindo comparação entre as regras descrições caracterizadoras.

O significado do nome próprio
Vejamos agora a questão do significado do nome próprio. Para chegarmos a uma resposta, basta nos recordarmos do argumento apresentado no capítulo introdutório, mostrando que o significado – entendido aqui como o sentido fregeano (Sinn) do termo singular – se deixa plausivelmente esclarecer em termos de regras ou de combinações de regras que possibilitam a efetiva aplicação das expressões.  Onde há regra há significação de algum tipo, mesmo que não do tipo que possa interessar. Assim, assumindo o dictum wittgensteiniano de que “o significado é aquilo que a explicação do significado explica”,  parece claro que quando falamos do significado de uma expressão linguística geralmente estamos considerando somente as regras que vcontam na explicação daquilo que queremos dizer com a expressão. A conclusão inevitável disso é que uma teoria descritivista dos nomes próprios, sendo uma teoria das regras semânticas expressas pelas descrições que ele substitui, também vale como uma teoria do significado dos nomes próprios.
     Esse ponto de vista contrasta fortemente com a opinião daqueles que defendem que nomes próprios são destituídos de sentido.  As razões por eles apresentadas são conhecidas: se nos perguntam pelo significado de um nome próprio, ficamos sem saber como responder. Além disso, como já notamos, os nomes próprios geralmente não se encontram dicionarizados; e como a finalidade dos dicionários é esclarecer os significados das palavras, tem-se mais uma razão para se rejeitar que os nomes próprios tenham significação.
     Contudo, essa tese não resiste à reflexão. Certamente, o nome próprio tem significado no sentido de ter a função lexical do nome próprio, que é a de identificar um objeto singular como sendo o seu portador. Mas ele também tem significado no sentido de ter um conteúdo semântico. Que nomes próprios devem ter significado nesse último sentido fica logo claro quando consideramos sentenças de identidade entre nomes. A frase “Dr. Jeckill é Mr. Hide”, por exemplo, deveria ser tautológica e não-informativa se os nomes próprios ‘Jeckill’ e ‘Hide’ não quisessem dizer coisas bastante diferentes, se eles não tivessem conteúdos semânticos diversos. Além disso, se admitirmos o entendimento fregeano do conteúdo semântico, ele se explica como sentido (Sinn), que é o valor epistêmico (Erkenntniswert), ou ainda, o conteúdo informativo (informatives Gehalt), parece claro que os nomes próprios não devem ser carentes, mas repletos de significado. Afinal, parece que muitos deles são repositórios de uma massa difusa de conteúdo informacional variadamente acessado. Considere, por exemplo, a imensa carga de conteúdo informacional que associamos ao nome do conquistador Napoleão ou do filósofo Bertrand Russell. Sob tal perspectiva, a questão não é tanto que o nome próprio contenha significado de menos, mas demais. E tanto é assim que o lugar reservado para a exposição do significado de certos nomes próprios não é o dicionário, mas a enciclopédia. E em alguns casos, mais do que a enciclopédia, o lugar onde encontramos o significado mais detalhado e completo de um nome próprio é a biografia. Biografias como as de Napoleão, autobiografias como a de Russell, são os lugares nos quais podemos encontrar uma pormenorizada exposição do conteúdo informacional associado a esses nomes próprios. E as regras de localização e caracterização não são em tal caso apresentadas em uma forma abreviada, como temos feito, mas em forma muito mais detalhada e completa.
     Mas por que então alguns sustentaram que nomes próprios são vazios de significado? Uma resposta emerge do fato de que quando usamos um nome próprio tudo o que costumamos saber dele são aspectos geralmente vagos e variáveis de seu significado, partes restritas de seu conteúdo informacional, cujo domínio em geral varia de falante para falante. O que (ao menos disposicionalmente) intencionamos ao usar um nome próprio é geralmente alguma parcela do seu significado, não todo ele; e uma parcela que varia de pessoa para pessoa, de ocasião para ocasião, dado que o conteúdo completo de muitos nomes próprios é conhecido por poucos e se tomado estritamente por ninguém em particular. Devido a isso, quando contrastamos esse estado de coisas com o significado permanente, distinto e universalmente compartilhado dos predicados mais simples (como, digamos ‘...é vermelho’, ‘é redondo’), temos a impressão de que por não serem capazes de significar nada de específico os nomes próprios não são capazes de significar coisa alguma.
     Identificando o sentido com regras consideremos agora a questão do sentido dos nomes próprios tendo em vista as expressões descritivas das regras já consideradas. Quais seriam as de maior valor semântico? Uma primeira regra a ser excluída é a própria regra meta-identificadora RMI: o núcleo semântico distintivo de um nome próprio não pode ser por ela constituído, pois ela não é mais do que uma simples forma compartilhada pelas regras de identificação dos mais diversos nomes próprios, enquanto o que mais importa no significado de um termo é aquilo que o distingue de outros termos do mesmo gênero. O significado também não deve ser relevantemente constituído pelas regras auxiliares expressas pelas descrições do grupo C, dado que elas são muito mais contingentes em relação à aplicação do nome, ainda que essas regras devam de algum modo contribuir para o seu conteúdo informativo. Restam, pois, as regras fundamentais de localização e/ou caracterização, expressas respectivamente pelas descrições dos grupos A e B. São essas últimas, pois, que constituem relevantemente o significado de um nome próprio. Com efeito, se nos perguntarmos, por exemplo, quais as descrições que expressam o âmago do que se pode querer dizer com o nome próprio ‘Aristóteles’, a resposta mais natural parece vir através das descrições fundamentais do homem que nasceu em Estagira em 384 a.C. e que desenvolveu as idéias que influenciaram profundamente o curso da filosofia ocidental expostas em obras como a Metafísica, a Ética a Nicômano e o Organon... E quando tudo o que uma pessoa sabe de Aristóteles é que ele foi ‘um grande filósofo grego’, ela está dizendo algo que é ao menos implicado pelas descrições fundamentais. Trata-se do conteúdo informativo indispensável, do sentido próprio do nome próprio.
     Afora esse núcleo semântico primário podemos admitir, há um halo de significação secundário em geral expresso pelas regras-descrições auxiliares. Assim, a descrição auxiliar metafórica ‘o mestre dos que sabem’, feita para conotar Aristóteles, também contribui para a massa de conteúdo informativo que constitui o significado total desse nome próprio, da mesma forma que descrições acidentais mais conhecidas, como ‘o maior discípulo de Platão’, ‘o tutor de Alexandre’, ‘o fundador do Liceu’... posto que quem as conhece já é capaz de dar um valor epistêmico qualquer ao nome. Nem todas as regras auxiliares, contudo, contribuem para enriquecer o conteúdo informativo do nome próprio. As regras-descrições acidentais ignoradas, como ‘o neto de Achaeon’, certamente não contribuem de modo relevante. E as regras-descrições adventícias, como ‘o filósofo mencionado pelo professor na aula’, por sua natureza circunstancial em nada contribuem para o conteúdo informativo permanente do nome próprio, não sendo por encontradas por isso nem em enciclopédias nem em biografias. Apesar disso pode-se dizer que essas últimas regras ainda expressam um sentido ocasional, que está sendo intencionado pelo usuário do nome quando este o emprega.
     Para evitar confusão devemos também distinguir entre o significado completo e o significado intencionado do nome próprio. Comecemos pelo significado intencionado. Ele é aquele conteúdo variável que cada qual tem em mente ao empregar o nome próprio. Podemos dizer que ele consiste naquilo que é, se não atualmente, ao menos disposicionalmente intencionado pelo falante quando ele pensa ou profere o nome. Ele é aquilo que Russell chamou de “descrição em nossas mentes”.  Digo que este significado é ao menos disposicionalmente intencionado porque a regra-descrição intencionada – que tanto pode ser fundamental como auxiliar (e que pode ser uma conjunção de regras-descrições) – não precisa ser reflexivamente considerada no momento da aplicação do nome, embora ela determine o uso do nome pelo falante e possa em princípio ser tornada consciente. Muitas vezes conhecemos pouco dos significados dos nomes próprios que usamos, de modo que o significado intencionado poucas vezes coincide com o significado completo.
     Quanto ao significado completo, ele é constituído primariamente pelo que podemos chamar de significado próprio: o conjunto formado pelas regras localizadora e caracterizadora (o núcleo semântico primário); já secundariamente ele é formado também pelo que poderíamos chamar de significado auxiliar: as regras auxiliares (o halo semântico).
     O esquema seguinte sumariza as distinções feitas aqui:

                                                                                             Significado próprio
                                               Significado completo           (núcleo semântico)
                                               (eventualmente conhe-   -<
     Significado                         cido pelos usuários              Significado auxiliar
     (sentido, valor                    privilegiados do nome)       (halo semântico)
     epistêmico, con-   -<
     teúdo informa-                 Significado intencionado do nome próprio
     cional) do nome               (é convencionalmente fundado, identifican-
     próprio                              do-se com o sentido fregeano que o usuário
                                               dá ao nome)

Finalmente, é possível nesse contexto esclarecer o papel semântico das regras auxiliares expressas pelas descrições do grupo C. Muitas vezes começamos a conhecer um nome próprio através de uma regra-descrição auxiliar de conexão com o objeto. Claramente, uma pessoa que só conhece uma regra-descrição auxiliar ainda não possui conhecimento relevante do significado do nome próprio. Mas regras-descrições como ‘o marechal de ferro’, ‘o maior discípulo de Platão’, ou mesmo ‘o filósofo citado pelo professor’, já podem bastar para permitir ao falante inserir o nome próprio no discurso de maneira comunicacionalmente eficaz, obtendo sucesso referencial em um sentido enfraquecido da palavra. Com efeito, para entendermos essa inserção precisamos reconhecer que mesmo tendo conhecimento insuficiente do significado da palavra. Com efeito, para uma pessoa ser capaz de usar o nome próprio significativamente-referencialmente no sentido de que pode contar com uma comunidade lingüística possuidora de uma adequada divisão do trabalho lingüístico, contendo intérpretes capazes de completar o significado e a referência do nome próprio que ela foi capaz de inserir corretamente no discurso, como veremos a seguir.

A interpretação descritivista da divisão de trabalho da linguagem
Contra RMI e as regras de identificação ainda poderia ser oposta a seguinte objeção: não precisamos conhecer as descrições fundamentais associadas a um nome próprio para podermos usá-lo corretamente e com ele denotar o seu portador. Talvez a única coisa que a maioria das pessoas hoje sabe sobre Aristóteles é que ele satisfaz a descrição indefinida ‘um grande filósofo da Grécia antiga’. Uma pessoa que só conheça isso só saberá generalidades implicadas pelas descrições caracterizadora e localizadora de Aristóteles. Mesmo assim, nós costumamos dizer que essa pessoa é capaz de se referir a Aristóteles. Mais ainda, uma pessoa pode ser admitida como se referindo a Aristóteles, mesmo associando a este nome uma única descrição auxiliar como ‘o maior discípulo de Platão’ após ter visto uma foto do afresco de Rafael, ou associar a esse nome apenas a descrição ‘o tutor de Alexandre’ após ter visto um filme sobre as conquistas de Alexandre, ou até mesmo uma descrição auxiliar adventícia, como ‘o filósofo mencionado pelo professor na aula de ontem’. Além disso, para Kripke uma pessoa poderia se referir a Aristóteles mesmo associando a ele uma descrição errônea, como ‘um filósofo medieval’ ou ‘um general grego’. Como isso é possível?
     A resposta que podemos dar a essa questão vale-se do que poderíamos chamar de um entendimento descritivista da hipótese da divisão de trabalho da linguagem. Essa divisão foi proposta por Hilary Putnam em termos não-descritivistas. Para Putnam, é comum que uma mesma palavra seja usada por diferentes pessoas de diferentes maneiras, podendo cada uma delas tendo um conhecimento diverso, maior ou menor, do que se pode querer dizer com ela. Para ele as palavras não funcionam apenas como diferentes ferramentas, como pensava Wittgenstein. A metáfora usada por Putnam, aplicável a muitas palavras de nossa linguagem, é a de um barco a vapor: diferentes pessoas usam o barco com funções e finalidades diversas; umas o usam como passageiros, outras como membros da tripulação, que por sua vez podem trabalhar na direção, na casa de máquinas, no serviço de bordo. Putnam, compromissado com o seu externalismo semântico, considera essa divisão de trabalho da linguagem sem recorrer a aspectos cognitivo-descritivos. Mas outros filósofos perceberam que seria até mais natural entender a divisão de trabalho da linguagem como uma divisão fregeana entre diversas capacidades cognitivas descritivamente exprimíveis que diversos falantes ou grupos de falantes adquirem com relação à Palavra.  Afinal, alusões à divisão de trabalho da linguagem podem ser encontradas na obra de filósofos internalistas bem anteriores a Putnam, começando com o próprio Locke, que foi o defensor clássico de uma semântica descritivista em que os significados são “idéias” psicológicas.
     Por isso quero interpretar aqui a divisão de trabalho da linguagem em termos das variadas capacidades cognitivas de conteúdos semânticos descritivamente exprimíveis que os diversos falantes podem associar à palavra, no caso presente, ao nome próprio. Com isso podemos sugerir que ao atribuirmos referência, estamos falando de sucesso referencial, que por sua vez tem ao menos dois sentidos:

(a)  o de uma referência suficiente.
(b)  o de uma referência insuficiente.

     Consideremos primeiro o caso da referência suficiente. Podemos entendê-lo como sendo aquela capaz de por si mesma nos oferecer uma garantida identificação do objeto como algo existente no mundo. O critério de sucesso referencial para o caso (a), da referência que chamo de suficiente pode ser considerado a aplicação, por parte do falante, da própria regra de identificação no nome próprio, o seja, a aplicação de suas regras-descrições localizadora e/ou caracterizadora, das quais ele tem suficiente domínio. Há muitos nomes próprios, por exemplo, de nossos familiares, cuja regra de identificação é-nos perfeitamente conhecida. Mas há outros nomes cujo sentido, cujo conteúdo informativo relevante só é conhecido por um usuário privilegiado do nome, como, digamos, o especialista, o historiador, a testemunha do batismo... alguém que seja capaz de se referir verdadeiramente ao seu portador, sendo geralmente o responsável por sua instituição e manutenção: o nomeador privilegiado.
     É com efeito freqüente atribuirmos referência tendo em mente apenas uma referência incompleta ou esquemática ou mesmo errônea feita por alguém. Isso é freqüente com o nome ‘Aristóteles’. Afinal, é usual dizermos de pessoas que conhecem apenas generalidades ou descrições auxiliares associadas a um nome próprio como ‘Aristóteles’, que elas se referem ao seu portador. Esse é o caso das pessoas que só sabem de Aristóteles que ele é uma figura de um afresco de Rafael ou que ele apareceu no filme sobre Alexandre como o seu tutor. Embora essas pessoas sejam capazes de se referir ao filósofo no sentido de que, conhecendo a gramática dos nomes próprios e possuindo certo pano de fundo informacional, que lhes permite ter consciência daquilo que podem – e principalmente daquilo que não podem – fazer com a palavra, elas são capazes de inserir o nome ‘Aristóteles’ em circunstâncias conversacionais pouco exigentes, de tal modo que um intérprete que realmente conheça a regra de identificação desse nome será capaz de reconhecer esse uso como não sendo incorreto. Isso acontece, porém, sob o pressuposto de que a comunidade lingüística possui (ou em algum momento possuiu) nomeadores privilegiados, a saber, pessoas que estão em situação que lhes permite completar a referência do nome pelo domínio de sua regra de identificação.
     Não obstante, há limites para o erro no uso do nome próprio. Se alguém usa o nome próprio ‘Aristóteles’ pensando que se trata de um número primo, ou se alguém usa o nome próprio ‘Einstein’ pensando que se trata de uma pedra preciosa, trata-se de um entendimento demasiado divergente dos nomes, nos quais sequer a classe G (dos seres humanos) é reconhecida. Aqui a pessoa não será mais capaz de inserir corretamente o nome no discurso e o seu uso que não será reconhecivel como referencial por  nomeadores privilegiados.
     Com isso podemos propor um segundo sentido de sucesso referencial, concernente ao caso (b) das referências que chamei de insuficientes. Para esse sentido fraco de sucesso referencial o critério é apenas o uso convergente do nome associado a descrições pertencentes ao feixe ou ao menos que tenham a ver genericamente com as descrições do feixe. Em adição, sugiro que entendamos por uso convergente aquele com relação ao qual os nomeadores privilegiados sejam capaxes de reconhecer o uso que o falante faz do nome próprio como não sendo incorreto. Assim, uma pessoa é capaz de usar o nome referencialmente, mesmo com conhecimento deficiente ou mesmo relativamente impróprio (embora convergente) das descrições que lhe são constitutivas, tão somente pelo fato de que ao inserir o nome na linguagem ela tem consciência e/ou nós temos consciência de que nomeadores privilegiados seriam capazes de reconhecer que a inserção do nome próprio no discurso é suficientemente correta para não obstar o caminho de uma referência mais completa. Nesse sentido de sucesso referencial, não é o falante sozinho que usa o nome para se referir ao objeto. Ele o faz apoiado em uma comunidade lingüística, que conta como sendo capaz de completar a referência para ele. Ou seja: ele se refere ao objeto por intermédio da comunidade lingüística, que é constituída de outros falantes diversamente qualificados, capazes de completar cognitivamente os sentidos das expressões por ele usadas. Embora esse processo seja social, ele não deixa de ser interno. O significado do nome próprio, mesmo estando apenas de modo muito parcial na cabeça do falante, mesmo encontrando-se diversamente distribuído nas cabeças dos outros falantes, dos potenciais intérpretes de sua referência, é interno em todos os seus momentos. Retornando à metáfora de Putnam: uma pessoa é bem sucedida em referir segundo o critério (b) de êxito referencial, concernente à referência insuficiente, da mesma maneira que um passageiro diz que toma um barco para ir até um certo lugar, mesmo sabendo que é a tripulação que realmente irá conduzir o barco até esse lugar. Esse é um caso diferente daquele de uma pessoa que é bem sucedida em referir segundo o critério (a) de êxito referencial como, digamos, o capitão da embarcação, que realmente a usa com a função de conduzir o barco até onde é estabelecido que ele deve ir. Finalmente, se quisermos ser rigorosos, devemos admitir que as pessoas que usam um nome próprio sem conhecerem as suas regras-descrições fundamentais não sabem realmente o que estão dizendo com o nome: nós só admitimos que elas são capazes de inserir referencialmente o nome na linguagem porque confiamos na existência de nomeadores privilegiados que sejam realmente capazes de identificar o seu portador.
     Para evidenciar esse ponto podemos imaginar uma situação na qual, por alguma razão, todos os nomeadores privilegiados desaparecessem. Imagine um uma catástrofe como a guerra atômica ocorresse e que apenas umas poucas pessoas iletradas e reduzidas a um estado selvagem sobrevivessem. Imagine que essas pessoas encontrassem uma descrição auxiliar concernente a Aristóteles, como “o mestre dos que sabem” e nada mais. Elas seriam capazes de reconhecer que Aristóteles é o nome de uma pessoa. Nesse caso, as pessoas em realidade não seriam capazes de se referir a Aristóteles, mesmo no sentido (b) de fazerem uma referência insuficiente, simplesmente pela falta do suporte de uma comunidade lingüística que incluísse falantes capazes de garantir a referência e dar-lhe um sentido que fosse. Sem usuários privilegiados capazes de, ao menos em conjunto, conhecer a regra de identificação, a possibilidade do uso referencial de nomes entraria em colapso. É como se as pessoas ocupassem um navio a vapor abandonado no porto sem ter a menor idéia de como fazê-lo funcionar.

Porque nomes próprios costumam funcionar como designadores rígidos
As regras de identificação resultantes da aplicação das RMI mostram o caminho para resolver um problema que tem assombrado o descritivismo, que é o da razão pela qual os nomes próprios são designadores rígidos. Para responder a questão precisamos atentar para algumas propriedades semânticas das regras de identificação para nomes próprios. Uma delas é que essas regras podem ser sempre traduzidas na forma de sentenças descritivas a serem lidas como verdades analítico-conceituais. Podemos tornar isso claro reescrevendo a regra de identificação do nome próprio ‘Aristóteles’ de forma descritivada, como se segue:
O nome próprio ‘Aristóteles’ se refere à pessoa que estiver na origem de nossa consciência de que ela satisfaz de modo em seu todo suficientemente a condição de ter nascido em Estagira em 384 a.C., vivido em Atenas e morrido em Chalkis em 322 a.C. e/ou a condição de ter sido o autor das idéias fundamentais do opus aristotélico, satisfazendo essa disjunção mais do que qualquer outra pessoa.
      Mesmo que essa sentença contenha uma disjunção e assim elementos descritivos que individualmente podem se aplicar ou não ao portador do nome, caso ele exista, como tal ela exprime uma verdade analítica necessária e a priori, posto que estabelecida por convenção tácita. Afinal, não há mundo possível no qual ela seja falsa. Não podemos conceber um mundo possível no qual Aristóteles exista e a sentença acima não seja verdadeira, ou, o que dá no mesmo, em que a sua regra de identificação não se aplique.
      Isso não nos surpreende, aliás, se admitirmos a identificação fregeana da existência com a satisfação ou ec-aplicabilidade do conceito. Pois se o conceito associado a um nome próprio é a sua regra de identificação, então a existência, a satisfação do conceito, nada mais é do que a efetiva e contínua aplicabilidade da regra de identificação associada ao nome próprio. Assim, aplicar a regra de identificação para Aristóteles em um mundo possível é o mesmo que admitir que Aristóteles existe nesse mundo, não podendo haver nenhuma lacuna entre uma coisa e outra. Por isso a ec-aplicabilidade da regra de identificação é, de um certo modo, “constituidora” do objeto, que só ganha “ser” como aquilo a que a regra é efetiva e continuamente aplicável. Essas reflexões nos permitem explicar porque nomes próprios são designadores rígidos. O designador rígido se define como aquele que é aplicável em todos os mundos possíveis nos quais a sua referência existe. Ora, o nome próprio é um designador rígido porque a sua regra de identificação é necessariamente aplicável em qualquer mundo possível no qual a sua referência possa ser dada como existente, o que é refletido na verdade necessária da frase que exprime a regra de identificação desse nome.
     Podemos nos perguntar agora: mas não existiriam casos incertos, mundos possíveis nos quais não há como saber se podemos ou não aplicar a regra, mundos nos quais só existe, digamos, “meio” Aristóteles? A resposta é afirmativa. Mas isso não tem nenhuma importância. A vaguidade é uma característica inexpugnável da linguagem e a semântica dos mundos possíveis também precisa ser adequada a isso. Certamente, há mundos possíveis nos quais não existe o suficiente de Aristóteles para sabermos se podemos ou não aplicar a sua regra de identificação. Neles não se pode dizer de Aristóteles nem que ele existe nem que ele não existe; e neles (assumindo que a vaguidade advenha da própria natureza das coisas) Aristóteles realmente nem existe nem não existe.  Isso não significa que o nome ‘Aristóteles’ não seja um designador rígido, pois fora dessa fronteira de indeterminação esse nome pode ser certamente aplicado.
     Há, porém, uma maneira natural de acomodar o conceito de designador rígido a tais casos. Basta redefinir mais adequadamente tal conceito como designando a propriedade de uma expressão referencial de se aplicar a todos os mundos possíveis nos quais o objeto referido definidamente existe. A rigidez é, em outras palavras, a propriedade da regra semântica de um termo referencial de “constituir” a existência do seu objeto em todos os mundos possíveis nos quais essa regra se revela (via atos verificadores) efetivamente e continuamente aplicável de uma forma definida, ou seja, sem que haja dúvidas quanto a isso.
     Seria ainda possível objetar lembrando o paradoxo sorites. Se há fronteiras de indeterminação, onde elas acabam?  Se não há um limite definido para o seu término, o que nos justifica dizer que já chegamos a uma zona de clareza na aplicação do conceito, em que o portador do nome definidamente existe? Contudo, o sorites pode ser gerado para virtualmente qualquer termo vago de nossa linguagem sem que ele deixe de ser na prática aplicado. Com efeito, mesmo conscientes do sorites, não deixamos de aplicar a palavra ‘calvo’ diante de um homem realmente calvo, nem a palavra ‘monte’ diante de um monte de verdade. Por conseguinte, assim como não precisamos solucionar o sorites para aplicarmos a maioria de nossos predicados, não precisamos fazer desaparecer os casos indecidíveis para admitirmos que o nome próprio Aristóteles é um designador rígido.

Porque descrições definidas não costumam funcionar como designadores rígidos
Já vimos que uma vantagem da teoria causal-histórica estaria no fato de que ela fornece uma explicação intuitiva para o fato de as descrições definidas serem designadores acidentais enquanto os nomes próprios são designadores rígidos: por se conectarem diretamente com o objeto, os nomes próprios identificam-no em qualquer mundo possível onde ele exista; já as descrições, por fazerem isso indiretamente, por intermédio do conteúdo semântico conotado, tornam-se capazes de identificar objetos diferentes em diferentes mundos possíveis.
     Essa explicação é insatisfatória, na medida em que recorre a uma misteriosa “conexão direta com o objeto” pretensamente possuida pelos nomes próprios. Em compensação, a teoria metadescritivista dos nomes próprios possibilita uma explicação complexa e muito mais convincente da diferença de comportamento entre descrições e nomes próprios. Para chegarmos a essa explicação podemos começar perguntando: em que casos as descrições definidas se tornam designadores rígidos? Um primeiro caso é aquele no qual elas são artificiosamente usadas de modo rigidificado. Para tal basta estipular, por exemplo, que a descrição ‘o último grande filósofo da antiguidade’ se refere necessariamente a Aristóteles, o que excluirá, por exemplo, que em outro mundo possível esse filósofo tenha sido Platão. Mas não é isso o que quero considerar aqui. Podemos fazer o que quisermos com a linguagem pela simples estipulação de novas convenções, sem que isso nos leve a lugar algum. O que quero considerar é o caso de descrições atributivas perfeitamente normais, que mesmo assim se deixam naturalmente interpretar como designadores rígidos. Eis alguns exemplos:

     (A)
(i) a raiz quadrada de nove,
(ii) o ponto mais oriental da América Latina,
(iii) o terceiro regimento de cavalaria de Sintra.
(iv) o último período glacial,
(v) o assassinato do arquiduque austríaco Ferdinando em Sarajevo em 1914.

     A descrição (i) seria admitida pelo próprio Kripke como um designador fortemente rígido, posto que o seu caráter formal a torna aplicável em qualquer mundo possível. Mas não é ela que nos interessa aqui e sim as descrições (ii)-(v), cujo conteúdo é empírico. Considerá-las designadores rígidos ou não costuma depender da maneira como as interpretamos. Se entendermos a descrição (ii) como indicando um local geográfico no nordeste brasileiro onde se encontra a cidade de João Pessoa, que é onde em nosso mundo se situa o ponto mais oriental da America Latina, então essa descrição será acidental, pois em um mundo possível no qual a Patagônia fosse embicada em direção à África de modo a ficar mais ao leste do que João Pessoa (ii) se referiria a um local geográfico muito diferente. Contudo, se definirmos (ii) como indicando simplesmente qualquer local que venha a se situar no ponto mais ao leste da América Latina, abstraindo de sua latitude e de qualquer especificação geográfica, então mesmo em um mundo possível no qual esse ponto esteja muito diversamente localizado, ele continuará sendo o mesmo ponto, a saber, o ponto mais oriental da América Latina. Nesse entendimento (ii) será um designador rígido, aplicando-se a qualquer mundo possível no qual exista uma América Latina e, portanto, um ponto geográfico que lhe seja mais oriental. Assim, se em um mundo possível a Patagônia fosse embicada em direção à África de modo a ficar mais ao leste do que João Pessoa, a descrição (ii) se aplicaria a algum local da Patagônia, sem deixar de designar um mesmo ponto. O interessante, nesse caso, é que a leitura de (ii) como sendo um designador rígido não é nenhuma imposição estipulativa, mas uma interpretação natural do conteúdo da descrição.
     O ponto fica mais claro quando consideramos outras descrições. Considere (iii): se tivermos em mente somente o terceiro regimento de cavalaria da cidade de Sintra (posto que há outros), na abstração dos soldados e cavalos particulares que o constituem (o que é usual), sua descrição se torna um designador rígido, aplicando-se ao mesmo regimento em qualquer mundo no qual ele exista. As regras descrições localizadora (em Sintra...) e caracterizadora (o terceiro regimento de cavalaria) já se encontram aqui expressas.
     O mesmo também pode ser feito com as descrições (iv) e (v). A descrição (iv) pode ser entendida como designando um estado de coisas caracterizado pelo último período de esfriamento da Terra. Em nosso mundo ele durou de 110.000 até 12.000 anos atrás, mas em uma situação contrafactual ele poderia ter ocorrido em um período muito diverso, sem por isso deixar de ser o último período glacial. A descrição (v) é de um evento, contendo explicitamente a localização espaço-temporal e a sua caracterização como o assassinato de uma pessoa específica. Em nosso mundo deveu-se ao tiro desferido por Gavrilo Princip, mas em outro mundo possível ele poderia ter sido causado por estrangulamento, por envenenamento etc. sem por isso deixar de ser um assassinato.
     Vemos, pois, que existem descrições definidas de pontos, objetos, estados de coisas e mesmo eventos, os quais são naturalmente interpretáveis como designadores rígidos. Há alguma característica comum a todos esses casos? Há duas. Uma primeira é que eles constituem descrições expondo regras fundamentadoras de localização e/ou caracterização e não regras auxiliares, como no caso de descrições metafóricas ou acidentais. A outra característica é que não existem nomes próprios correspondentes a essas descrições. Logo veremos que essas marcas são decisivas.
     Para contrastar, consideremos agora exemplos de descrições definidas atributivas, que se comportam como designadores distintamente acidentais ou flácidos, que se referem a objetos diferentes em diferentes mundos possíveis. Eis alguns exemplos:

    (B)
(i) a águia de Haia,
(ii) o marechal de ferro,
(iii) a cidade luz.
(iv) o fundador do Liceu,
(v) o primeiro imperador romano.

     Essas descrições são designadores tipicamente acidentais. Ao contrário das descrições anteriores, rigidificá-las é possível apenas por estipulação. Considere (i): é natural pensarmos na descrição ‘a águia de Haia’ como uma metáfora laudatória do poder oratório de Rui Barbosa em sua passagem por Haia em 1907. Mas podemos conceber um mundo possível no qual o navio que levava Rui Barbosa ao congresso de Haia tenha naufragado no meio do atlântico e que ele tenha sido substituido por um orador igualmente impressionante, o qual tenha sido cognominado pelos seus compatriotas de ‘a águia de Haia’. O mesmo vale para qualquer outra descrição do grupo (B).
     A questão que se coloca é: o que torna as descrições do grupo (B) acidentais, em contraste com as descrições rígidas do grupo (A)? A resposta não é a de que as descrições do grupo (B) são auxiliares, pois poderíamos adicionar a essa última lista descrições como ‘o mais famoso jogador de futebol de todos os tempos’, ‘a cidade de mais de dez milhões de habitantes situada a margem do Sena”, que são fundamentais e mesmo assim flácidas. A resposta é outra. Ela é a seguinte: as descrições do grupo (B), diversamente das pertencentes ao grupo (A), encontram-se semanticamente associadas a nomes próprios correspondentes, os quais são, respectivamente, (i) Rui Barbosa, (ii) Floriano Peixoto, (iii) Paris, (iv) Aristóteles e (v) Júlio Cesar. Apesar dessa associação, essas descrições não precisam ser verdadeiras para o mesmo objeto referido pelo nome próprio correspondente em todos os mundos possíveis em que esse objeto existe, pois há mundos possíveis nos quais Rui Barbosa desistiu da carreira diplomática, Floriano Peixoto foi um cândido adepto da monarquia, Aristóteles não fundou o Liceu, Júlio César defendeu tenazmente a república Aristóteles não e Paris foi destruída no século XIV, antes de se tornar a cidade luz.
     A consideração desse ponto pesa contra explicações millianas da flacidez das descrições, segundo as quais elas são acidentais porque denotam indiretamente, com base em propriedades conotadas, e não diretamente, como é o caso do nome próprio. O que acabamos de evidenciar é que a descrição definida não é acidental em si mesma. Ela se torna acidental por sua associação com um nome próprio. Ela se torna acidental porque vem frouxamente, contingentemente, e não necessariamente associada a um certo nome próprio, o que vale não só para as descrições auxiliares como até mesmo para descrições fundamentais de nomes próprios. Podemos parafrasear essa mesma idéia dizendo que praticamente qualquer descrição pertencente ao feixe de descrições representado pelo nome próprio possui associação semântica contingente com o restante das regras-descrições constitutivas do conteúdo informativo desse nome, por ser considerada por nós como participando do conjunto das descrições que constituem o seu conteúdo semântico sem que da aplicação do nome próprio se siga necessariamente a aplicação da descrição e sem que da aplicação da descrição se siga necessariamente à aplicação do nome próprio. Ou seja, a referida associação semântica é contingente no sentido de que ela não é um traço necessário à aplicação do nome próprio, de modo que a descrição definida e o nome próprio ao qual ela se associa tendem a se referir ao mesmo objeto, embora não o façam necessariamente. Trata-se de uma relação que supomos ser o caso, apesar de sermos capazes de imaginar situações contrafactuais nas quais ela não existe. Assim, em nosso mundo ‘o autor do opus aristotélico’ é a descrição caracterizadora de Aristóteles. Mas em outro mundo possível, no qual Aristóteles morreu logo depois de chegar a Atenas, nunca tendo escrito o opus aristotélico, essa descrição – para os falantes desse mundo possível – perderá a associação semântica contingente que ela possuia com o conteúdo semântico do nome próprio ‘Aristóteles’, mesmo que ela seja parte fundamental (mas não imprescindível) da nossa regra de identificação para esse nome. Por causa dessa possível desconexão entre referência do nome próprio e a referência das descrições a ele frouxamente associadas, essas descrição sendo consideradas capazes de identificar diferentes objetos ou mesmo nenhum objeto em outros mundos possíveis nos quais o nome próprio correspondente se aplica, e identificar objetos em mundos possíveis nos quais o nome próprio que a ela asssociamos não possui referente, o que a torna um designador acidental ou flácido do portador desse nome próprio.
     Um exemplo para esclarecer. Uma descrição como ‘o primeiro imperador romano’ exprime parte da descrição caracterizadora de Júlio Cesar (Cesar foi imperador, embora de forma inoficial). Como a regra disjuntiva para a identificação de Júlio César é mais completa, permitindo identificar o objeto muito mais especificamente, nós consideramos a descrição ‘o primeiro imperador romano’ como exprimindo uma propriedade contingente, ainda que muito importante, de Júlio César. É contingente porque segundo a sua regra de identificação ele pode ser identificado como tal mesmo no caso em que essa descrição não venha a lhe pertencer. Só por isso é que essa descrição se torna acidental, havendo mundos possíveis nos quais a propriedade referida por ela pode pertencer a outro objeto, ligando-se a outras descrições fundamentais, como no mundo possível no qual Brutus foi o primeiro imperador romano, ou mesmo a nenhuma, como no mundo possível no qual Júlio Cesar foi um teimoso defensor da república e no qual essa instituição persistiu até o fim do império.
     Claro que podemos por estipulação abstrair da relação da descrição ‘o primeiro imperador romano’ com certo imperador específico designado pelo nome ‘Júlio César’; nesse caso a descrição se torna um designador rígido, pois ela designará o primeiro imperador romano em qualquer mundo possível no qual ele venha a existir. Esse estratagema pode ser aplicado a qualquer outra descrição de aplicação unívoca. Contudo, no caso das descrições do grupo (A) a rigidez se demonstra uma característica natural da descrição: ‘o terceiro regimento de cavalaria de Cintra’ naturalmente, ou seja, por força das convenções tácitas estabelecidas por nossa prática lingüística, sempre se aplicará ao mesmo objeto em qualquer mundo possível no qual ele exista. A explicação dada acima explica porque isso ocorre. Como as descrições do grupo (A) não se encontram frouxamente associadas ao conteúdo semântico de nome próprio algum, elas não tem como se referir a objetos diferentes em outros mundos possíveis nos quais esse objeto venha a existir, sendo isso o que as torna nomeadores rígidos. Vemos, pois, que muito diversamente do que Kripke sugeriu, as relações descrição/designador acidental e nome próprio/designador rígido não tem nada a ver com o mecanismo de referência dessas diferentes espécies de termos singulares, mas tão somente com as relações que eles podem possuir um com o outro.
     Um ponto a se adicionar é que nos casos em que a descrição definida é auxiliar, a regra de conexão com o objeto por ela expressa não é em si mesma suficiente para identificá-lo como o objeto referido pelo nome próprio ao qual se associa. Uma descrição como ‘a águia de Haia’, por exemplo, não é capaz, pelo seu conteúdo explícito, de identificar Rui Barbosa na independência da regra de identificação geralmente associada ao nome ‘Rui Barbosa’, pois ela não possui conteúdo descritivo suficiente para tal. Por isso em um outro mundo possível uma descrição como ‘a águia de Haia’ pode vir contingentemente associada a um outro nome próprio, digamos, João da Silva, pertencendo pois ao halo semântico desse outro nome próprio.
     Essas considerações nos permitem prever que a dependência que a descrição definida tem do contexto semântico do nome próprio correspondente deve ser menor quando mais irrelevante ela for para a identificação do objeto. Assim, será mais fácil considerar acidental uma descrição definida auxiliar como ‘o tutor de Alexandre’ ou ‘o neto de Achaeon’ ou ‘o amante de Herphylis’, posto que ela desempenha um papel secundário na determinação da referência do nome ‘Aristóteles’. Mas será menos fácil no caso das descrições fundamentais. E se a descrição definida contiver tudo aquilo que é essencial ao nome próprio ao qual se encontra subordinada, ela se torna rígida. Esse é o caso da formulação descritiva da regra de identificação para o nome ‘Aristóteles’ que, como vimos, é rígida.
     Se a flacidez é proveniente do contraste da descrição com o nome próprio, podemos nos perguntar se ela não ocorre também pelo contraste entre um nome próprio e outro. Esse deveria ser o caso de dois nomes próprios de um mesmo objeto quando um deles inclui contingentemente em seu feixe as descrições que pertenvcem ao outro. Isso parece ocorrer especialmente no caso de apelidos. Considere o caso do jovem de nome Jacinto, que por custar muito a entender as coisas foi apelidado pelos seus colegas de Cabeça-de-Bigorna ou simplesmente “o Bigorna”. Há mundos possíveis nos quais Jacinto não era cabeçudo, ou não teve colegas maldosos, ou em que o seu colega João da Silva é quem recebeu esse apelido. Nesses mundos o apelido ‘Bigorna’ ou não se aplica, ou identifica outra pessoa que não Jacinto. Esse apelido é – se considerado por contraste com o nome próprio mais autorizado – um designador acidental, um nome próprio flácido.
     As explicações recém-apresentadas para a diferença no comportamento semântico entre nomes próprios e descrições definidas não são apenas mais detalhadas do que a obscura sugestão referencialista de Kripke, segundo a qual o nome próprio refere-se por possuir uma relação de secreta e indevassável intimidade com o seu objeto. Elas tem mais poder explicativo ao justificarem casos de exceção. Com elas a rigidez do nome próprio deixa de ser entendida como uma misteriosa propriedade de designar o objeto em si mesmo, sem intermediação de propriedades, para se tornar a propriedade de designar quaisquer combinações de propriedades que satisfaçam a sua regra de identificação.
Respostas aos contra-exemplos de Kripke
Gostaria agora de examinar as objeções usualmente feitas às teorias descritivistas dos nomes próprios por defensores de teorias causais-históricas. Quero demonstrar que a teoria meta-descritivista dos nomes próprios é capaz de oferecer respostas mais detalhadas e convincentes a essas objeções, as quais geralmente falham em distinguir o papel das regras fundamentadoras, quando não falham em considerar o papel descritivamente relevante da história causal e do contexto.

1. Objeção de rigidez
Consideremos primeiro a objeção de rigidez (modal), segundo a qual se o descritivismo fosse correto então os nomes próprios não poderiam ser designadores rígidos, posto que descrições não são designadores rígidos.
     A resposta geral a essa objeção é que embora nenhuma regra-descrição de primeira ordem precise se aplicar em todos os mundos possíveis em que o objeto definidamente existe, a regra-descrição de identificação do nome próprio (resultante da aplicação da regra meta-identificadora às suas específicas regras-descrições localizadora e/ou caracterizadora) se aplica necessariamente em todos os mundos possíveis em que o objeto definidamente existe. (Como já vimos, podemos ter mundos possíveis nos quais não se pode saber se a regra de identificação de um nome próprio se aplica ou não; mas tais mundos coincidem com aqueles nos quais o objeto também não possui uma existência definida, uma vez que a própria existência do objeto se define pela efetiva aplicabilidade dessa regra.)
     Kripke considera casos nos quais nossas descrições definidas fundamentais não se aplicam, como aquele em que Aristóteles tivesse morrido muito jovem, nunca tendo escrito os textos filosóficos pelos quais o seu nome é lembrado, ou ainda, um mundo possível (dificilmente imaginável) no qual Aristóteles viveu quinhentos anos mais tarde; ainda nesses casos, pensa ele, podemos reconhecer Aristóteles, o que o leva à conclusão de que até mesmo a disjunção das descrições do feixe é desnecessária à aplicação do nome.  Mas essa conclusão é simplesmente falsa, pois tudo o que Kripke nos oferece como exemplo é no máximo o caso de não-aplicação da regra caracterizadora, junto a uma aplicação tácita da regra localizadora, ou vice-versa. Contudo, já vimos que esses casos são previstos como plenamente compatíveis com a aplicação da regra de identificação do nome próprio. O que Kripke jamais chega a considerar é um caso no qual a regra identificadora de um nome próprio não seja aplicável e ainda assim o seu portador exista.  Ela jamais chega a considerar um exemplo concreto em que a disjunção das descrições do feixe seja realmente desnecessária, a saber, no qual nenhuma das descrições se aplique em nenhuma medida. E isso acontece pela simples razão de que tal exemplo é inconcebível! Como bem notou Searle, não pode ser que Aristóteles seja o nome de um vendedor de peixes veneziano do Renascimento, nem o nome de um porteiro de hotel em Berkeley, nem o nome de um número primo.
     Outro contra-exemplo de Kripke ao descritivismo diz respeito ao nome próprio ‘Hesperus’.  Se Hesperus abreviasse a descrição ‘o corpo celeste visível por lá ao entardecer’, diz ele, então isso seria uma verdade necessária. Mas imagine que depois de ter sido cunhado esse nome um planeta errante do mesmo tamanho tivesse colidido com Hesperus, de modo que ele deixasse de ser visível ao entardecer, ou então (para piorar as coisas) tenha em seu lugar se tornado visível ao entardecer o próprio planeta errante. Nesse caso não parece que com o nome ‘Hesperus’ estamos nos referindo ao corpo celeste que satisfaz a descrição acima, mesmo que enganosamente acreditemos nisso.
     Consideremos a questão tendo em mente a concepção meta-descritivista. O caso do nome próprio Hesperus é parecido com o caso já visto do planeta Vênus.  Como já vimos, podemos assimilar a regra caracterizadora do planeta Vênus à sua regra localizadora, posto que a propriedade que realmente nos importa é a de ser o segundo planeta do sistema solar. Assim, a descrição localizadora-caracterizadora essencial à identificação de Hesperus é:
o planeta que orbita o sol entre Marte e a Terra desde que foi identificado como tal e provavelmente já há milhões de anos.
     Nesse caso a regra de identificação será de um tipo que exige a necessária satisfação dessa regra-descrição localizadora, tal como no exemplo da regra de identificação do planeta Vênus. Isso demonstra que a satisfação da descrição proposta por Kripke ‘o corpo celeste visível por lá ao entardecer’ não é relevante, a não ser como um dos possíveis meios de identificação do planeta. Afinal, se Hesperus perdesse a sua atmosfera e por isso deixasse de brilhar à noite, ele não deixaria de ser Hesperus. Contudo, no caso de um planeta errante tomar o lugar de Hesperus, mesmo que ele satisfaça essa descrição auxiliar, ele não satisfará a regra de localização para Hesperus, pois não era ele que orbitava o sol na época da denominação de Hesperus, nem (provavelmente) nos milhões de anos que a antecederam. Por isso, se o que nós virmos “por lá” ao entardecer deixar de satisfazer a regra de identificação – por não ser o planeta que orbitou o sol no tempo de sua denominação, mas, digamos, outro planeta – ele não será mais Hesperus, mas outra coisa, não tanto por não ser mais a fonte causal-histórica do batismo, mas por não se conformar mais com nossa descrição localizadora-caracterizadora mais fundamental.
     Esse contra-exemplo deve parte de sua eficácia ao fato de que o nome próprio ‘Hesperus’ pode realmente ser entendido referindo-se a algo como a estrela mais brilhante (regra caracterizadora) que aparece ao anoitecer (regra localizadora). Certamente era isso o que havia sido entendido com a palavra antes de a astronomia ter sido desenvolvida, quando não fazia diferença se Hesperus fosse o planeta Vênus ou um anjo reluzente. Nesse caso não pode ser que Hesperus não satisfaça a descrição, pois o nome se refere a uma mera aparência perceptual. Mas ninguém mais hoje se atém a esse sentido morto da palavra.

2. Objeção da necessidade indesejável
Vejamos agora a objeção de necessidade indesejável (epistêmica). Essa objeção parte da constatação de que, sendo os nomes próprios designadores rígidos, eles se aplicam necessariamente aos seus objetos. Como nenhuma descrição se aplica necessariamente ao seu objeto, nomes próprios não podem ser reduzidos a descrições.
     Se essa objeção, como já vimos no capítulo 8, se aplica somente a uma caricatura do descritivismo, não faz o menor sentido querer aplicá-la ao meta-descritivismo. O que necessariamente se aplica, caso o objeto definidamente exista, é apenas a regra de identificação (i.é ao menos uma descrição fundamental deve ser suficientemente e predominantemente aplicável a algo). Assim, como também já vimos, a regra de identificação para o nome próprio ‘Aristóteles’ pode ser transformada em uma descrição necessariamente aplicável, abreviadamente expressa como:
a pessoa que satisfaz suficientemente e predominantemente as descrições de ter nascido em Estagira em 384 a.C. vivido em Atenas e falecido em Chalkis em 322 a.C. e/ou a pessoa que foi o autor das idéias do opus aristotélico.
Ao fazermos tal consideração não devemos nos esquecer que as descrições constitutivas do significado de um nome próprio são capazes de serem alteradas e ampliadas, podendo inclusive sofrer variações locais e temporais dentro da comunidade lingüística. Essas alterações, contudo, não devem ser tais que ponham a perder a unidade do significado. O exemplo do impostor de nome ‘Tom Castro’ pode esclarecer. Nascido na Jamaica, ele foi certamente identificado através de regras de localização e caracterização por seus familiares quando criança. Mas adulto ele foi viver na InglaTerra , onde por alguns anos conseguiu se fazer passar pelo filho de uma nobre inglesa, que muitos anos antes havia desaparecido nas costas do Caribe. A regra caracterizadora pela qual o conhecemos é a de um grande impostor. Mas sabemos hoje que é a mesma pessoa que foi conhecida pelos seus pais devido ao compartilhamento de uma mesma regra de localização.
     Passemos agora a um dos mais bem conhecidos exemplos de Kripke, concernente à descrição que a maioria das pessoas associa ao lógico Kurt Gödel. Essa descrição é: ‘o homem que descobriu a incompletude da aritmética’. Podemos imaginar que Gödel não tenha descoberto o teorema da incompletude. Suponhamos, diz Kripke, que Gödel tenha tido um amigo, um obscuro lógico chamado Schmidt, que desenvolveu sozinho o teorema de incompletude em um artigo e morreu logo depois em circunstâncias obscuras. Gödel apossou-se então do artigo e o publicou em seu próprio nome. Imagine também que, como muitas outras pessoas, tudo o que João associa ao nome ‘Gödel’ é a descrição ‘o inventor do teorema da incompletude da aritmética’. Nesse caso, pensa Kripke, segundo o descritivismo, quando João fica sabendo que foi Schmidt quem descobriu o teorema da incompletude, ele deve ser levado à conclusão de que o nome ‘Gödel’ significa o mesmo que ‘Schmidt’, ou seja, de que Gödel é Schmidt. Mas não é isso o que acontece. Pois continua bastante claro que Gödel é Gödel e que ele não é Schmidt.
     Discordando da análise de Kripke, John Searle notou que uma pessoa dirá que Gödel não é Smith porque ela entende por Gödel
o homem que minha comunidade lingüística, ou pelo menos aqueles através dos quais eu cheguei a esse nome, chamam de Gödel, assumindo que algo mais é requerido.
 Com efeito, se tudo o que João sabe sobre Gödel é que foi ele quem descobriu a incompletude da aritmética e se ele acha que isso é suficiente para a identificação, então ele não entende a gramática dos nomes próprios, não sabe o que é um nome próprio, não é capaz de lhe dar sentido.
     É com base em nossa análise da forma da regra de identificação para nomes próprios que podem explicitar aquele algo mais que segundo Searle a pessoa assume que é requerido. Nossa resposta é que a conclusão de Kripke é incorreta porque não leva em conta a regra de identificação que a comunidade lingüística deve ter para o nome ‘Gödel’, a assunção feita por João, como falante competente da linguagem, de que ele não a conhece o suficiente para concluir que a referência se alterou.
     Vejamos primeiro o que seria a regra de identificação do nome ‘Gödel’ para os nomeadores privilegiados da comunidade lingüística. Do ponto de vista desses nomeadores há duas razões para Gödel não ser identificado com Schmidt. Em primeiro lugar, a descrição ‘o descobridor do teorema da incompletude’ não é mais do que uma parte da regra-descrição caracterizadora para Gödel. O teorema da incompletude foi apenas a mais importante dentre as variadas contribuições de Gödel. Além disso, mesmo sem ser Schmidt, Gödel foi um lógico suficientemente competente para ser aceito em Princeton. Assim, a regra de aplicação para Gödel continua a ser parcialmente satisfeita pelo nome ‘Gödel’ (digamos, 2/3 dela), mesmo que ele não tenha descoberto o teorema em questão. A segunda razão pela qual a comunidade lingüística continua a chamar Gödel de ‘Gödel’ é que a regra-descrição localizadora continua sendo plenamente satisfeita por Gödel! Afinal, continua sendo Gödel, e não Schmidt,
o homem que nasceu em Brünn em 1906, que estudou na Universidade de Viena e em 1940 emigrou pela ferrovia transiberiana para os EUA, onde trabalhou na universidade de Princeton até a sua morte em 1978.
     Não devemos sobrepor a nossa conclusão de que Gödel não pode ser Smith à conclusão de João, pois esse último, por falta de informação, só é capaz de suspender o juízo. Contudo, seu domínio da gramática dos nomes próprios lhe permite concluir que ele não tem elementos suficientes para concluir que Gödel é Schmidt. João está certamente ciente de que ao associar o nome ‘Gödel’ à descrição ‘o inventor da prova da incompletude da aritmética’ ele provavelmente domina apenas uma parte da regra-descrição caracterizadora de Gödel, que deve ser mais completamente dominada por alguns outros membros da comunidade lingüística. Mas o ponto crucial é que, como falante competente da linguagem, João sabe que sendo Gödel o nome de uma pessoa deve haver também alguma regra de localização espaço-temporal para Gödel, a qual ele desconhece, uma regra que precisa ser diferente da regra de localização espaço-temporal para Smith, posto que as informações que ele tem são de que Smith é outra pessoa (Gödel não poderia matar-se a si mesmo para então roubar-se o manuscrito). Sabendo disso e sabendo que desconhece as regras de localização ele sabe que não se encontra em condições de concluir que Gödel é Schmidt, diversamente de nós, que enquanto nomeadores privilegiados sabemos que Gödel não pode ser Schmidt.
     Há uma curiosidade a respeito. Como ao menos parte de uma das duas descrições fundamentais identificadoras de Gödel é satisfeita por Schmidt, é possível dizer que este último passa a herdar alguma coisa do significado do nome ‘Gödel’, mesmo que não ganhe a sua referência. E isso realmente acontece. Digamos que um lógico, revoltado pela notícia acerca do roubo do teorema e com pena de Schmidt, lance a exclamação “Schmidt é quem foi o verdadeiro Gödel!” Essa é uma frase verdadeira se for entendida como uma hipérbole. E a razão pela qual ela é verdadeira é dada por nossa versão da teoria descritivista, a qual prevê que o nome Schmidt herda alguma coisa relevante do significado do nome ‘Gödel’.
     Há, por fim, uma maneira de fazer com que Gödel seja realmente Schmidt, mas ela dá a Kripke o bolo sem o direito de comê-lo. Imagine que bem no início da estória Schmidt, por alguma razão, tivesse assassinado o jovem Gödel e assumido a sua identidade. Schmidt, que era muito melhor lógico que Gödel, descobriu a incompletude da aritmética, casou-se com Adele, tornou-se professor em Princeton e faleceu em 1978, de modo que aquele sujeito de calças curtas junto a Einstein na famosa foto de ambos era ele mesmo, o falsário Schmidt. Nesse caso não há dúvida de que Gödel é Schmidt. E o metadescritivismo explica: ele é Schmidt porque as regras-descrições caracterizadora e localizadora, com exceção das descrições relativas à infância, são as de Schmidt e não as da criança que uma vez foi chamada de Gödel, a qual há muito deixou de existir.

3. Objeção da ignorância e erro: nomes próprios ficcionais
Vejamos agora casos que envolvem ignorância e erro. Eles são importantes por iluminarem o caráter social dos conteúdos representacionais envolvidos na referência.
     Um caso especial de ignorância e erro (além de necessidade indesejável) exposto por Kripke foi o de nomes próprios parcialmente ficcionais, como Jonas, o pregador. Ele distingue tais casos daqueles de nomes próprios propriamente ficcionais, como Santa Claus. Mesmo que tenha existido um religioso com o nome de Santa Claus no passado, sabemos que o nosso Santa Claus nada tem a ver com ele e que esses nomes são meros homônimos, assim como Napoleão, como o nome da figura histórica e como nome do cão que assim foi batizado.  Mas o mesmo, pensa Kripke, não se dá no caso de Jonas. Segundo a Bíblia, Jonas foi um pregador enviado por Deus à cidade de Nineveth para converter os pagãos e que acabou sendo engolido por um grande peixe. Mas ninguém acredita que essas descrições sejam verdadeiras. Mesmo assim, estudiosos da Bíblia acreditam que realmente existiu uma pessoa que originou a estória.  Mas se é assim, o descritivismo é errado, pois não possuímos descrições capazes de identificar univocamente Jonas . E a teoria causal deve ser certa, pois o uso semi-ficcional do nome foi realmente causado por seu portador.
     Um exemplo similar e até mais adequado é o do justiceiro Robin Hood. Historiadores crêem que a lenda de Robin Hood seja baseada em alguma pessoa real, que viveu no século XIII. Para tal há uma lista de candidatos. Entre eles, porém, encontram-se pessoas que não eram pobres, que não eram foras-da-lei, que não viveram na floresta de Sherwood e que nem sequer se chamavam Robin Hood! Contudo, o referente dessa figura parcialmente ficcional é suposto como sendo um e o mesmo, apesar do fato de não satisfazer propriamente descrição alguma. Para Kripke, a razão pela qual estamos no final das contas tratando de pessoas que realmente existiram é que a cadeia causal começa com o reconhecimento do personagem real. Desse modo a teoria causal-histórica parece possuir uma explicação para algo que a teoria descritivista não é capaz de explicar.
     Antes de respondermos, precisamos lembrar que há coisas que podem ser aceitas como portadoras do nome e outras não. Suponha, por exemplo, que um antigo escrivão da Bíblia tenha pisado em um ouriço-do-mar, e que no doloroso período de convalescência que se seguiu, as lembranças do acidente o tenham induzido a inventar a história de Jonas; ou então, suponha que algum escritor de ficção do final da Idade Média tenha sido agredido pelas costas à noite por um assaltante desconhecido, o que o deixou desacordado, e que esse acidente o tenha induzido a imaginar a estória de Robin Hood. Obviamente, ninguém dirá que o ouriço-do-mar é Jonas e que o ladrão desconhecido é Robin Hood, só porque eles podem ser considerados as causas da invenção desses personagens. Alguém poderá aqui objetar que para Kripke a cadeia causal-histórica precisa ser associada a um ato de batismo, o que não é aqui o caso. Mas esse também não teria sido o caso do nome ‘Robin Hood’ no caso da pessoa que originou a lenda ter sido batizada com outro nome. Quanto ao nome ‘Jonas’, podemos ainda imaginar que o antigo escrivão da Bíblia tenha guardado o ouriço-do-mar em sua casa e que logo depois de inventar a história de Jonas e contá-la aos seus amigos, ele tivesse tomado o ouriço em suas mãos e dito: “Por isso eu te batizo com o nome Jonas”. Não parece que ele teria sido capaz de assim originar uma cadeia causal capaz de fazer-nos reportar o nome ‘Jonas’ ao ouriço-do-mar, pois Jonas teria sido um pregador e o ouriço de nome Jonas um simples ouriço.
     Ora, por que em certos casos reconhecemos a causa como sendo o portador do nome e em outros não? A única resposta plausível é que a causa que reconhecemos como adequada é aquela capaz de satisfazer elementos cognitivos que associamos ao nome. Nos casos de Jonas e Robim Hood, mesmo havendo uma cadeia causal (o que é inevitável), o que confere adequação a essa cadeia causal são representações descritivamente exprimíveis dela resultantes, mesmo que bastante vagas, de quem seriam Jonas e Robim Hood. Com efeito, da história bíblica nós inferimos alguma coisa da descrição localizadora, qual seja, a de que o Jonas real teria sido uma pessoa que viveu nos tempos bíblicos (entre 600 a 1.000 anos a.C.), e alguma coisa da descrição caracterizadora, qual seja, a de que ele foi algum pregador da bíblia. E quanto à pessoa que gerou a lenda de Robin Hood, sabemos que ela deve satisfazer alguma coisa da descrição localizadora de ter vivido na InglaTerra do século XIII, além de alguma coisa da descrição caracterizadora, como talvez a propriedade de ter sido um justiceiro. Além disso, em ambos os casos vagas histórias causais podem ser supostas. Segundo a regra meta-identificadora para nomes próprios é essa provável satisfação genérica da regra-descrição fundamental aquilo que torna esses nomes semi-ficcionais indicadores de coisas alegadamente reais. É verdade que essas descrições são insuficientes para a identificação unívoca de Jonas e de Robin Hood, mas não é isso o que pretendemos com elas, pois afinal não somos realmente capazes de identificar essas pessoas. O que elas nos permitem fazer é apenas propor hipóteses plausíveis – supor que esses personagens existiram realmente. E isso é o que realmente fazemos.
     Podemos, pois, distinguir nas descrições associadas aos nomes de personagens semi-ficcionais dois elementos. O primeiro é o elemento ficcional, constituído de descrições geralmente coloridas e fantasiosas, que não foram feitas para se aplicar à realidade. O segundo é o elemento não-ficcional; são descrições localizadoras e caracterizadoras muito vagas, que seriam implicadas pelas regras localizadora e caracterizadora que supomos que poderiam ser completadas se dispuséssemos de informações suficientes a respeito do portador do nome. Aquilo que define o que chamamos de caráter semi-ficcional é a adição do elemento imaginativo, decalcado sobre critérios identificadores insuficientes que nos teriam sido originariamente legados. Há, como vemos, um esperado paralelo entre a incerteza ligada aos nomes semi-ficcionais e a insuficiência das descrições que a eles somos capazes de associar.
4. Objeção da ignorância e erro: descrições elípticas e incorretas
A mais interessante forma de objeção da ignorância e do erro é aquela na qual Kripke demonstra que geralmente as pessoas conseguem fazer com que um nome próprio tenha referência, mesmo quando a ele associam apenas uma descrição indefinida ou uma descrição incorreta. Exemplos do primeiro caso são os nomes ‘Cicero’ e ‘Feynman’, aos quais muitos associam apenas alguma descrição indefinida como ‘um famoso orador romano’ para o primeiro e ‘um grande físico norte-americano’ para o segundo.  Apenas uns poucos seriam capazes de explicar os discursos políticos de Cicero ou de dissertar sobre as contribuições de Feynman para a microfísica. Mesmo assim, as pessoas são capazes de se referir a Feynman através do seu nome. Mais do que isso, as pessoas são capazes de usar um nome próprio referencialmente, mesmo quando associam a ele descrições blatantemente errôneas. Kripke observou que em sua época muitos associavam ao nome ‘Einstein’ a descrição ‘o inventor da bomba atômica’.  Com isso as pessoas já conseguiam se referir a Einstein, acreditou ele, apesar de a bomba atômica tenha sido elaboração dos cientistas do projeto Manhattan, do qual Einstein nunca participou.
     Podemos desenvolver aqui mais adequadamente a resposta esboçada por Searle de que a descrição sustentada pelo falante deve estar em convergência com o conteúdo caucionado pela comunidade lingüística. Essa convergência já permite um uso vago, que por isso mesmo não deixa de ser correto, do nome próprio na linguagem. Ela permite o que já chamamos de uma referência insuficiente, um gesto em direção à verdadeira referência. Associando os nomes ‘Cicero’ e ‘Feynman’ a descrições indefinidas, e mesmo associando o nome ‘Einstein’ a uma descrição errônea, as pessoas já se tornam capazes de colocar o nome próprio na órbita da referência, ou seja, de usá-lo em práticas lingüísticas nas quais seu papel seja suficientemente vago para podeer ser interpretado por nomeadores privilegiados como denotando corretamente o seu portador. Afinal, mesmo no caso de uma descrição incorreta, como ‘o inventor da bomba atômica’, a pessoa já sabe que o nome ‘Einstein’ se refere a um cientista e a um ser humano, e não, por exemplo, a uma espécie de pedra preciosa. Assim, se a pessoa disser que Einstein inventou a bomba atômica, outros poderão corrigi-la, admitindo que ela queria se referir a mesma pessoa a qual elas se referem com esse nome. Contudo, se, como já notamos, uma pessoa usasse o nome ‘Einstein’ para designar um diamante, ou usasse o nome ‘Feynman’ para designar uma marca de perfume, ela não estaria tentando se referir a mesma coisa a que nós nos referimos com esses nomes, não sendo geralmente capaz de inseri-los corretamente em situações dialógicas.
     Seria possível opor à resposta descritivista o fato de que uma razão pela qual nos lembramos do físico Robert Oppenheimer é que ele foi o principal responsável pela criação da bomba atômica. Logo, quem diz que Einstein foi o inventor da bomba atômica está usando a regra caracterizadora para Oppenheimer, devendo fazer referência a Oppenheimer ao falar de Einstein, o que não é o caso... Uma resposta a essa objeção é que muito depende do que está sendo enfatizado. Se a frase fosse “O inventor da bomba atômica foi Einstein”, a pessoa seria de fato corrigida com a resposta de que o responsável pela criação da bomba foi Oppenheimer e não Einstein. Contudo, quando o nome próprio ‘Einstein’ está na posição de sujeito, nós enfatizamos a regra associada à descrição auxiliar ‘o portador do nome “Einstein’”. A posição de sujeito só deixa de importar aqui quando a informação é mais detalhada. Se uma pessoa dissesse: “Einstein foi o físico que dirigiu o projeto Manhattan, que produziu a primeira bomba atômica, tendo nascido em Nova York em 1904 e falecido de câncer em 1967”, nós não a corrigiríamos dizendo que Einstein não foi o responsável pela invenção da bomba atômica; nós diríamos que a pessoa está realmente se referindo a Oppenheimer.
     Um último argumento de Kripke é o que apela à circularidade: o nome Einstein não pode ser explicado pela descrição ‘o criador da teoria da relatividade’, pois o nome ‘teoria da relatividade’ é explicado pela descrição ‘a teoria criada por Einstein’.  Uma circularidade semelhante ele aponta na explicação do nome próprio ‘Giuseppe Peano’. Muitos de nós associamos a esse nome a descrição ‘o descobridor dos axiomas da aritmética’. Trata-se, porém, de um engano. Peano apenas expôs os axiomas, adicionando ao seu texto uma nota na qual atribuía corretamente o seu descobrimento a Dedekind. O erro, porém, perpetuou-se. Uma solução, escreve Kripke, seria dizer que Peano é ‘a pessoa que a maioria dos experts referem como sendo Peano’. Mas essa solução seria circular. Como identificar os experts em Peano? Suponhamos que eles sejam os matemáticos. Mas pode ser que a maioria dos matemáticos erroneamente associe ao nome Peano a descrição ‘o descobridor dos axiomas da aritmética’. Poderíamos então sugerir o recurso à descrição ‘a pessoa a qual a maioria dos Peano-experts refere pelo nome Peano’. Mas essa solução seria também circular, pois para identificar os Peano-experts já precisamos ter identificado Peano, já precisamos saber quem é Peano.
     Essas objeções de circularidade parecem-me claramente falaciosas e me pergunto se alguma vez alguém já as levou realmente a sério. Por certo é possível que alguém aprenda a teoria da relatividade na independência de qualquer referência ao nome de Einstein. E quanto a Peano, se tudo o que penso saber dele é que foi o descobridor dos axiomas da aritmética, essa é uma descrição falsa, mas convergente. Posso digitar “O descobridor dos axiomas da aritmética” no Google e descobrir que errei. Mas por ser convergente a descrição já implica coisas verdadeiras, como o fato de que Peano foi um famoso matemático italiano. Assim, percebido o erro eu recomeço orientando-me por elas. Para aprender mais posso procurar em uma enciclopédia ou um livro sobre a história da matemática. Lá eu encontrarei informações mais detalhadas, oferecidas pelos matemáticos. De posse dessas informações e da bibliografia dada eu chegarei a textos específicos sobre Peano, escritos por especialistas em Peano, e mesmo aos textos do próprio Peano. O processo não é circular, mas de ascenção em báscula: com base nas informações preliminares genéricas I1 sobre x somos capazes de procurar e encontrar as informações adicionais I2 sobre x; com base no conjunto das informações {I1, I2} sobre x tornamo-nos capazes de procurar e encontrar as informações I3 mais detalhadas sobre x; com base então no conjunto de informações {I1, I2, I3} chegamos a I4 e assim por diante.. Claro que cada novo corpo de informações adquirido já contém as informações anteriores e as iniciais, o que pode dar uma impressão de circularidade... Mas isso não é suficiente para tornar o processo realmente circular, uma vez que é o conhecimento adicionado e não somente o conhecimento preservado aquilo que nos leva a adiquirir novo conhecimento.
      Isso também se aplica, é claro, ao procedimento que Kripke tenta exemplificar. É verdade que se para saber quem é o especialista em Peano precisássemos já saber tudo o que o especialista em Peano sabe sobre Peano, precisaríamos saber quem é Peano para saber quem é o especialista em Peano e cairíamos em circularidade. Mas como para saber quem é o especialista em Peano precisamos no máximo saber algumas generalidades sobre Peano (um grande matemático italiano do século XIX etc.), e para saber quem é Peano o especialista em Peano precisa saber muito mais coisas sobre Peano do que nós sabemos, nós caímos, não em uma circularidade, mas em um movimento cada vez mais detalhador de informações sobre o objeto referido. Você mesmo poderá comprovar o processo da próxima vez que fizer uma pesquisa no Google.

Respostas aos contra-exemplos de Donnellan
Além das objeções feitas por Kripke precisam ser lembrados alguns contra-exemplos de Keith Donnellan apresentados em um importante artigo de 1970, onde ele defendeu uma teoria causal-histórica semelhante a de Kripke.

1. Tales o cavador de poços
O primeiro contra-exemplo diz respeito ao filósofo Tales, sobre o qual não sabemos muito mais do que a descrição definida “o filósofo milesiano antigo que afirmou que tudo é água”.   Imagine agora que as nossas fontes, Aristóteles e Herótodo, estivessem mal-informadas, e que Tales tenha sido apenas um sábio cavador poços que, cansado de sua profissão, exclamou: “Quem me dera se tudo fosse água para eu não ter de cavar esses malditos poços!”, e que um viajante tenha por engano entendido essa frase como dizendo respeito à natureza da realidade, tendo sido esse engano repetido por Herótodo e por Aristóteles, que acabou por legá-lo à tradição filosófica. Afora isso, imagine que tenha existido um eremita que nunca divulgou suas idéias, mas que realmente sustentou que tudo é água. Nesse caso, escreve Donnellan, nossa tendência seria a de pensar que com o nome ‘Tales’ não estamos nos referindo ao eremita, mas ao cavador de poços, apesar de ele não satisfazer nossa descrição. Nós fazemos essa referência, pensa ele, devido ao tear causal-histórico que se inicia com Tales, mesmo que associado a uma descrição errônea. A favor dessa conclusão está o fato de que não há relação causal alguma entre o nosso uso do nome ‘Tales’ e o eremita. Não é o pensamento desse eremita (talvez nunca transmitido a ninguém) de que tudo é água que foi lembrado por sucessivas gerações de filósofos.
     Vejamos agora como seria a resposta descritivista. Examinando esse exemplo, Searle começou por relativizar a conclusão de Donnellan ao conceber uma versão do exemplo que parece contradizer a concepção causal-histórica. Se Herótodo tivesse um poço no qual um sapo coaxasse de modo a emitir sons parecidos com a frase “Tudo é água” e o sapo pertencesse à espécie chamada ‘Tales’, ele poderia ter dito “o Tales disse que tudo é água”, originando ele próprio o equívoco. Mas se a teoria causal-histórica é certa, uma vez esclarecidos sobre esse fato nós deveríamos concluir que com o nome ‘Tales’ estamos nos referindo ao sapo do poço de Herótodo, o que certamente não é o caso.  O que concluiríamos, certamente, é que Tales nunca existiu. Parece, pois, que só a origem causal não basta.
     Mas o que mais nos interessa notar é que o descritivista pode responder introduzindo descrições relativas ao que já chamamos de história causal, a história que somos capazes de derivar do percurso espaço-temporal delineado por uma cadeia causal. Searle percebeu isso ao observar que:
Quando dizemos “Tales foi o filósofo grego que sustentou que tudo é água”, não queremos apenas dizer que qualquer um que sustentou que tudo é água, nós queremos dizer a pessoa que era conhecida de outros filósofos gregos como argumentando que tudo é água, que era referida em seu tempo ou subseqüentemente por algum predecessor grego pelo nome ‘Tales’, cujos trabalhos e idéias chegaram até nós postumamente através dos escritos de outros autores e assim por diante.
          
     Com efeito, mais do que qualquer outro filósofo, a importância de Tales está em seu lugar na história da filosofia ocidental, que é o de sua própria origem. Como resultado da longa história causal daí resultante, o que justifica a aplicação do nome passou a ser em grande parte a crença na aplicabilidade de uma variedade de descrições históricas. Como resultado disso, ao recebermos a notícia de que Tales era um cavador de poços passamos a oscilar entre a admissão de que ele realmente foi um cavador de poços e (como Searle também observou) a conclusão de que o filósofo ‘Tales’ na verdade nunca existiu.
     Como já foi visto no capítulo anterior, embora não possamos resgatar cognitivamente uma suposta cadeia causal-histórica, nós podemos resgatar cognitivamente elementos da história causal, a saber, acontecimentos espaço-temporais evidenciadores de elos de cadeias causais, principalmente através de seus supostos nódulos representacionais ocorrentes nas mentes de certas pessoas e linguisticamente manifestados. No caso de Tales, há descrições como a de que ele foi “a pessoa nomeada por Herótodo e Aristóteles na doxografia como sendo o filósofo pré-socrático que afirmou que tudo é água...”, que nos permitem resgatar pontos nodais cognitivos da cadeia causal concernentes a representações que devem ter ocorrido nas mentes de Heródoto e Aristóteles. A importância desses elementos históricos é aliás aqui tão grande que eles passam a fazer parte de uma exposição mais completa da regra de caracterização de ‘Tales’ o filósofo, que deve ser expressa como “O filósofo grego referido na doxografia por Aristóteles e Herótodo como tendo afirmado que tudo é água etc.”  É verdade que assim exposta a regra de caracterização continua sendo apenas parcialmente satisfeita pelo cavador de poços. Contudo, se adicionarmos a isso a satisfação suficiente da regra de localização espaço-temporal como sendo a da pessoa que viveu provavelmente de 624 a 548-5 a.C., que nasceu e morreu em Mileto e que viajou ao Egito... podemos continuar a dizer que sabemos que mesmo sendo um cavador de poços sem qualquer relação com a filosofia ele satisfaz a regra disjuntiva continuando a ser o nosso Tales. Finalmente, Tales não poderia ser um sapo que viveu por volta de 580 a.C., em Mileto, pela simples razão de que a regra disjuntiva demanda que ele pertença à classe dos seres humanos.
     Não obstante, a assunção de uma história causal como parte da regra de caracterização no caso recém-exposto não deixa de ser de fundamental importância. Basta imaginarmos que o eremita considerado por Donnellan, além de ter sustentado que tudo é água, tenha satisfeito a condição localizadora para Tales de ter vivido entre 624 e 548-5 a.C., tendo nascido e morrido em Mileto e viajado ao Egito. Imaginemos também que venhamos a descobrir que Tales não viveu exatamente no mesmo período e que na nunca tenha visitado o Egito, como se tem acreditado. Nesse caso poderá ser objetado que o eremita satisfaz a regra localizadora e mesmo a maior parte da regra caracterizadora mais do que Tales. Mesmo assim parece-nos que o eremita não poderia ter sido Tales. E isso é assim por que o Eremita não satisfaz a esperada história causal. Se, por outro lado, o nome Tales não estivesse vinculado a nenhuma história causal, não teríamos qualquer dificuldade em identificá-lo com o eremita.

2. O célebre filósofo J.L. Aston-Martin
O segundo contra-exemplo é sobre um estudante que conversou em uma festa com uma pessoa que ele acreditava ser um grande filósofo, J.L. Aston-Martin, o autor de “Outros Corpos”.  Embora a pessoa coincida em se chamar Aston-Martin, ela apenas se faz passar pelo filósofo. Donellan nota que a frase (a) “Na noite passada eu falei com Aston-Martin”, é falsa, pois associa o nome ‘Aston-Martin’ à descrição

     D1: o filósofo autor de “Outros Corpos”,

 enquanto as frases (b) “No final da festa Robinson tropeçou nos pés de Aston-Martin e deu com a cara no chão” e (c) “Fui quase o último a sair, só Aston-Martin e Robinson ficaram”, são verdadeiras, pois vêm associadas à descrição

     D2: o homem chamado Aston-Martin que encontrei na festa.

A objeção é que a teoria do feixe de descrições não explica essa alteração: tanto em (a) quanto em (b) e (c) o nome Aston-Martin deveria vir associado ao mesmo feixe de descrições que inclui ‘o autor de “Outros Corpos”’.
     Penso que essa objeção possa ser eficazmente respondida pela aplicação a nomes próprios de uma distinção similar à introduzida pelo próprio Donnellan entre usos atributivo e referencial de descrições definidas. No caso das descrições definidas, o uso atributivo era aquele vinculado ao conteúdo da descrição, enquanto o uso referencial era vinculado à função indexical da descrição. No caso do nome próprio, o equivalente ao uso atributivo é aquele que se baseia nas descrições que exprimem a sua regra de identificação. Isso explica o sentido do nome ‘Aston-Martin’ na frase (a), pois a descrição ‘o autor de Outros Corpos’ exprime parte da regra de identificação do objeto. Já no caso caso similar ao do uso referencial para o nome próprio o elemento indexical e o contexto têm papel decisivo, de modo que a regra de identificação usual deixa de importar. Isso explica o sentido do nome ‘Aston-Martin’ nos casos (b) e (c). Aqui o que importa é a descrição adventícia D2 no lugar da qual comparece o nome próprio. Como tal ela é provisória e dependente da situação conversacional na qual foi adquirida. O que o falante nesses casos pretende é apenas identificar um certo participante da festa utilizando o nome pelo qual ele foi chamado, deixando de ter qualquer importância se esse é o nome verdadeiro da pessoa que lá se encontrava ou não. 

3. A inversão dos quadrados idênticos
Outro contra-exemplo de Donnellan é o de uma pessoa A que, usando óculos especiais, identifica em uma tela dois quadrados idênticos, colocados um em cima do outro. Ao quadrado que está em cima ela chama de Alfa, ao quadrado embaixo ela chama de Beta. A única descrição que ela tem para a identificação de Alfa é

     (a) o quadrado que está em cima.

 Acontece que, sem que a pessoa saiba, ela está usando óculos que invertem a posição dos quadrados, de modo que o quadrado Alfa é o que está embaixo. Donnellan pensa ter assim demonstrado que o quadrado ao qual a pessoa se refere é o quadrado Alfa (o de baixo), mesmo associando à palavra a descrição errônea (a).
     Como resposta, sugiro que a pessoa só se refere ao quadrado Alfa porque, embora associando a Alfa uma descrição errônea, trata-se de uma descrição convergente, corrigível para

     (b)  ˹O quadrado˺ (que A vê como o) ˹que está em cima˺.

 Essa correção, por sua vez, é parte da verdadeira descrição identificadora do quadrado Alfa, que é:

     (c): ˹o quadrado˺ (que A vê como o) ˹que está em cima˺

 (quando na verdade é o que está embaixo, uma vez que A está usando óculos que invertem a posição das imagens),que o observador A desconhece. Essa última descrição é conhecida de outros usuários da linguagem, de nomeadores bem informados, que podemos chamar de B. Esses usuários dirão que A se refere ao quadrado Alfa que está embaixo por disporem da informação dada pela descrição (c), que expressa o mais completo modo de apresentação do objeto. Em contrapartida, de posse das informações oferecidas pelos nomeadores B, que incluem a descrição (c), A concordará em revisar a descrição (a) como parte de (b), referente apenas ao modo como A vê, que por sua vez é parte da descrição (c). Embora literalmente falsa, a descrição (a) é útil à referência porque reinterpretável como parte de uma descrição identificadora correta mais completa.

4. “Tom é uma pessoa simpática”
Um último contra-exemplo de Donnellan é o de uma criança que já foi para a cama e que é acordada brevemente pelos pais.  Tom, um velho amigo da família, chegou de visita e gostaria de ver o filho mais jovem, que ainda não conhece. A mãe diz “Esse é Tom”. Tom diz “Oi jovem”. No dia seguinte a criança acorda e tudo o que ela sabe dizer de Tom é que ele é ‘uma pessoa simpática’. Ela sequer se recorda de ter sido acordada na noite anterior. Mas ela se refere a Tom sem o auxílio de descrições definidas. Para W.G. Lycan essa é uma prova contundente da teoria causal dos nomes: a criança é capaz de se referir a Tom apenas através de uma transferência causal demonstrativa.
     Examinando melhor esse exemplo Brian Loar considerou que bem pode ser que a linguagem aqui nos engane, como no caso em que uma pessoa percebe que faltam convidados para o jantar, mas não se recorda quem; somos intitulados a dizer que ela se refere a quem não compareceu, mas a palavra ‘refere’ não parece estar sendo usada aqui no sentido apropriado.  Com efeito, se a criança de nada se recorda ao dizer que Tom é simpático, não podemos sequer distinguir o seu proferimento da mera expressão da vontade de agradar os pais.
     Contudo, podemos ainda admitir – para o bem do exemplo – que a criança possui cognições semânticas não-reflexivas relacionadas ao seu encontro com Tom, que lhe justificam dizer que ele é simpático. Nesse caso há um elemento cognitivo convergente, que nos permite concluir que a criança logra introduzir a palavra na situação dialógica referindo-se a Tom. Mas ainda aqui trata-se de uma referência incompleta, de um limitado e insuficiente gesto em direção à referência. Como todos sabem a quem a criança está se referindo, o exemplo pode produzir a falsa impressão de que a criança é capaz de fazer uma referência identificadora completa a Tom. Mas isso é ilusório. Ela não sabe quem é Tom e não saberia reconhecê-lo se o encontrasse. Se ela dissesse ‘Tom é uma pessoa simpática’ a estranhos que desconhecessem as circunstâncias, a lembrança do testemunho seria perdida e ninguém seria capaz de dizer de quem se trata. Por conseguinte, o proferimento se refere efetivamente a Tom, não para o falante, mas para os intérpretes capazes de completar a referência, que no caso são os pais da criança. Afinal, não só eles recordam que a criança foi introduzida a Tom e pressupõem que é por causa disso que ela agora diz que Tom é simpático, mas são eles que realmente sabem quem é Tom e que são capazes de reidentificar a pessoa a quem as palavras se referem. Com efeito, são os pais da criança que conhecem a regra de identificação para o nome ‘Tom’, a qual pode ser descritiva de sua aparência, dos seus traços psicológicos, do que ele faz, de onde ele vive e de onde ele veio. Eles também conhecem descrições auxiliares relevantes, concernentes às relações de Tom com a família. Como o proferimento da criança acontece em um espaço público em que esses intérpretes privilegiados estão presentes, a intenção da criança de se referir a alguma pessoa simpática com a qual esteve em contato é complementada pela identificação referencial dessa pessoa feita pelos outros participantes da situação conversacional, o que pode produzir a ilusão de que a criança produziu uma referência completa.

Resposta à objeção de magia epistêmica
Há, finalmente, uma objeção genérica levantada por filósofos externalistas como Michael Devitt, segundo a qual existe alguma coisa mágica no descritivismo. Segundo essa objeção, o descritivismo atribui à mente uma propriedade extraordinária, que é a de permitir aos seus conteúdos se relacionarem como que por encanto às coisas fora dela. Como escreve Devitt em sua crítica a Searle:

 Como poderia algo dentro da cabeça determinar a referência, que é uma relação com coisas particulares fora da cabeça? ...supor que o pensamento de alguém pode alcançar objetos particulares fora da mente é sustentar teorias mágicas da referência e intencionalidade. 
Como pode uma coisa dentro da cabeça se referir a uma coisa fora da cabeça? Searle não vê problema: simplesmente acontece. Essa é a verdadeira mágica.

     Frente a isso um cognitivista poderia redarguir que a sua tese de que as palavras se ligam aos objetos devido a idéias ou representações que eles veiculam é perfeitamente natural e intuitiva.  É verdade que, enquanto filósofos, somos também conduzidos ao tradicional e intratável hoje irresolvido problema da percepção, a saber, o problema de como podemos ir além do véu da percepção, posto que tudo o que pode ser dado à experiência são impressões sensíveis. Essa é uma questão em aberto, que o fenomenalismo discutido na introdução desse livro, segundo o qual podemos “constituir” a realidade externa com base em sensações possíveis efetivamente experienciáveis, oferece uma esperança de resposta. Aqui há um mistério que parece demandar mágica para ser resolvido. Mas a mágica pela qual, através de representações mentais podemos ter acesso a um mundo físico exterior é, podemos apostar, meramente aparente. Esse é, afinal, um problema filosófico central. Muito mais extrema, porém, parece-me a feitiçaria do referencialismo direto, segundo a qual as próprias palavras, sem intermediação cognitiva, têm o poder de alcançar os seus objetos de maneira a se referirem a eles. É verdade que Devitt defende uma forma matizada de referencialismo, segundo a qual redes causais parcialmente cognitivas são responsáveis pela referência. Mas ainda assim, se ele não quiser recair no cognitivismo, ele precisa ignorar qualquer força explicativa originada do conteúdo dessas cognições. Mas então a pergunta retorna: como podem essas cadeias causais, na independência de sua relação com conteúdos cognitivos, ser capazes de explicar nossa referência às coisas particulares que as originaram? Isso nos faz suspeitar que as considerações de Devitt sejam psicologicamente explicáveis como uma projeção inconsciente da negação do próprio problema do referencialismo no campo inimigo do cognitivismo.

Reformulações russellianas
Vale aqui notar que as regras meta-identificadoras permitem uma aplicação sistemática do procedimento da teoria das descrições à teoria metadescritivista dos nomes próprios, o que pode ser útil no objetivo de exibir a estrutura lógica da regra de identificação. Considere, por exemplo, a sentença (i) “Aristóteles teve de abandonar Atenas”. Tendo em mente a aplicação de RMI1 na formulação da regra de identificação para o nome ‘Aristóteles’, podemos parafrasear essa regra através do método proposto por Russell em sua teoria das descrições como:

1. Há ao menos um x que satisfaz suficientemente a condição de ter nascido em Estagira em 384 a.C., vivido em Atenas e morrido em Chalkis em 322 a.C. e/ou a condição de ter sido o autor das grandes doutrinas do opus aristotélico.
2. Não existe mais de um x para o qual vale o que foi enunciado em 1.
3. Este x se chama Aristóteles e teve de abandonar Atenas.

     A condição 1 inclui a idéia de suficiência, a condição 2 expõe a idéia de unicidade, e a condição 3 associa o que foi univocamente delimitado ao nome ‘Aristóteles’, adicionando a predicação de (i). Para formular a sentença (i) simbolicamente, estabelecemos que N = ‘...é a pessoa de nome ‘Aristóteles’’, A = ‘...satisfaz suficientemente a condição de ter nascido em Estagira em 384 a.C., tendo vivido em Atenas e morrido em Chalkis em 322 a.C.’ (regra localizadora), B = ‘...satisfaz suficientemente a condição de ter sido o autor das grandes doutrinas do corpus aristotélico’ (regra caracterizadora), e T = ‘...teve de abandonar Atenas’, a frase “Aristóteles teve de abandonar Atenas” pode ser formalizada como “Ex ((Ax v Bx) & (y) ((Ay v By) → y = x) & Nx & Tx)” e RI-‘Aristóteles’ pode ser formalizada como:

     Ex(Ax) ↔ Ex ((Ax v Bx) & (y) ((Ay v By) → y = x)

Com isso é requerida a existência, a unicidade e a suficiência, que aqui entram como parte dos predicados que expressam as propriedades identificadoras.
     Algo semelhante, podemos supor, pode ser feito com regras de identificação resultantes da aplicação de RMI2 (deixo a demonstração disso como exercício para o leitor). Seja como for, o que essas breves considerações sugerem é que o verdadeiro serviço da teoria das descrições seja o de exibir a estrutura formal de regras de identificação de termos singulares.
Respondendo aos enigmas fregeanos da referência
Tendo como pressuposto a compatibilização de “Frege” com “Russell” sugerida no capítulo 6 e a recém exposta acomodação da teoria das descrições de Russell à versão metadescritivista da teoria do feixe, quero agora abordar os quatro enigmas da referência. Esses enigmas – que são uma velha pedra no sapato dos filósofos referencialistas – permitem uma explicação metadescritivista bastante razoável.

1. Referência a inexistentes
Considere a sentença “Vulcano é quente”.  O nome ‘Vulcano’ foi dado por Leverrier no século XIX para o pequeno planeta que deveria orbitar entre Mercúrio e o Sol à cerca de 21 milhões de quilômetros deste último, como uma maneira de explicar as variações do periélio de Mercúrio. Esse é basicamente também o sentido do nome ‘Vulcano’, o seu modo de apresentação, a sua regra de localização (ignoro aqui a menos relevante regra de caracterização estipulando a massa do pequeno planeta). Contudo, é hoje considerado certo que a regra de localização para o nome próprio ‘Vulcano’ não se aplica ao mundo real, primeiro porque foram inúmeras as vezes em que se tentou localizar esse planeta, segundo porque a variação do periélio de Mercúrio é hoje explicada pela teoria geral da relatividade. A regra de identificação de Vulcano só se aplica imaginativamente, na cabeça dos astrônomos que tentaram encontrá-lo. Por ser assim, a regra de aplicação do predicado ‘...é quente’ também não se aplica: pois a aplicação de uma regra de aplicação depende da prévia aplicação da regra de identificação para o termo singular, ou seja, da localização e/ou caracterização do objeto de predicação. A frase “Vulcano é quente” é falsa, se quisermos, pois o predicado não se aplica pelo fato de o nome não se aplicar. A regra de verificação para essa frase também não se aplica, pelas mesmas razões, também por isso tornando-a falsa. Como o sentido do nome próprio ‘Vulcano’ é dado por seu modo de apresentação, que é a regra de identificação, o sentido continua existindo, o mesmo se dando com o sentido do predicado, com a sua regra de aplicação. Por isso também a sentença não deixa de ter sentido, pois esse último se constitui na regra de verificação constituída pela combinação da regra de identificação do nome com a regra de aplicação do predicado, independentemente dessa combinação ser aplicável ou não. Não há aqui enigma algum, pois nenhum desses procedimentos nos compromete com a existência de Vulcano.
     A formulação russelliana nos conduz à mesma conclusão. A sentença “Vulcano é quente” fica sendo:
Existe exatamente um x que satisfaz suficientemente a condição de ser um planeta descrito por Leverrier como orbitando o sol entre Mercúrio e esse último e esse x é quente.
     Chamando de V o predicado ‘...é um planeta do sistema solar denominado ‘Vulcano’ por Leverrier no século XIX, devendo ser encontrado entre Mercúrio e o Sol, a cerca de 2,1 milhões de Km do último”,  e chamando de Q o predicado ‘...é quente’, temos a seguinte apresentação simbólica da regra de identificação e de sua articulação com a regra de aplicação do predicado:

(Ex) (Vx & (y) (Vy → y = x) & Qx)

Exige-se aqui a efetiva aplicabilidade da regra de aplicação do predicado exprimindo uma propriedade fundamental que devem identificar um único objeto. Essa exigência não é satisfeita, o que faz com que a regra de aplicação do predicado ‘...é quente’ também não se aplique. Da não aplicação da primeira regra segue-se já que a sentença “Vulcano é quente” é falsa, posto que ele não existe e que sendo o primeiro conjunto falso a conjunção se torna como um todo falsa. A formulação russeliana, bem entendida, é apenas uma versão formalizada da formulação neo-fregeana recém proposta.

2. Existenciais negativos
 Considere agora a sentença “Vulcano não existe”. Interpretada como “Não é o caso que Vulcano existe”, podemos simbolizá-la a partir de MRI1 como:
      (1)  ~E(x ) (Vx & (y) (Vy → y = x))

     Essa sentença tem um sentido, que reside na regra de identificação para Vulcano representada pela conjunção “Vx & (y) (Vy → y = x)”, cuja aplicabilidade é negada. Dizer que Vulcano existe é simplesmente dizer que essa regra de identificação é aplicável, simbolicamente (2) (Ex) (Vx & (y) (Vy → y = x). A sentença (2) é falsa, posto que a regra de identificação é inaplicável. A sentença (1) é, por sua vez, verdadeira, pois é a negação de uma conjunção falsa. Mas com ela também não nos comprometemos com a existência de Vulcano, pois tudo o que fazemos é negar a aplicabilidade da regra-descrição fundamental do predicado V.

3. Sentenças de identidade.
Outro enigma é o da necessidade indesejável em frases de identidade como “Cicero é Tulio”. Como explicar que essa frase possa ser informativa? Se o nome à esquerda de ‘...é (o mesmo que)...’ exprime a mesma regra de identificação que o da direita, e se essas regras são designadores rígidos, como concedemos, então esses nomes deveriam significar a mesma coisa e a frase de identidade deveria ser uma tautologia analítica como “Cicero é Cicero”.
     Quero abordar esse problema chamando atenção para a distribuição de descrições associadas a cada nome próprio, a saber, o fato de que quando temos dois nomes próprios homônimos, certas descrições são mais freqüentemente associadas a um homônimo do que a outro, tendendo, pois, a distribuir-se diversamente nas mentes dos usuários de um e de outro nome próprio.
     Vejamos primeiro o caso mais simples, que diz respeito à descrição contida na própria expressão do nome. Considere o caso de Cicero, cujo nome completo era ‘Marco Tulio Cicero’. Um falante pode proferir o nome ‘Tulio’ conhecendo as regras-descrições fundamentais e auxiliares, mas sem conhecer a regra-descrição ‘o portador do nome ‘Cicero’’ ou a regra-descrição ‘o portador do nome ‘Marco’’. Mas ele não poderá desconhecer que Tulio é ‘o portador do nome ‘Tulio’’, que para ele torna-se uma descrição necessária. Por sua vez, essa descrição poderá ser perfeitamente desconhecida por alguém que profere o nome ‘Cicero’. Por isso, por muitas vezes faltar o conhecimento de que descrições auxiliares de símbolos de nomes próprios estão ligadas ao que queremos dizer com o nome diversamente simbolizado, o proferimento “Cicero é Tulio” pode ser informativo. Ao ouvirmos “Cicero é Túlio” ficamos sabendo que ao portador do nome ‘Tulio” também se aplica o nome ‘Cicero’.
     Geralmente o caso não é tão simples. Há nomes que contém diferenças nas regras de conexão com o objeto que vão além da diferença na mera regra auxiliar de expressão simbólica do nome. A diferença também pode incluir partes da regra de identificação. Esse é o caso do enunciado de identidade “George Eliot é Mary Evans”. A escritora inglesa Mary Ann Evans decidiu adotar um nome masculino, em parte para proteger a sua vida pessoal, que não correspondia à moral vitoriana da época. Assim, há um grupo (i) de pessoas, o grande público, que conhecia o essencial de (b), a regra-descrição caracterizadora ‘o autor de Middlemarch e outras finas obras literárias’. Esse grupo costumava não conhecer a regra-descrição ‘a pessoa cujo verdadeiro nome é Mary Evans’, geralmente não associada ao nome ‘George Eliot’. Há também pessoas de um grupo (ii), que conheceram fortuitamente Mary Evans como Mary Evans. Elas geralmente sabem um pouco da regra-descrição caracterizadora no que diz respeito a traços psicológicos e físicos de Mary Evans, além de pequenos segmentos de sua carreira espaço-temporal. Mas elas não costumam conhecer a descrição ‘a escritora cujo pseudônimo literário é ‘George Eliot’’. Há, por fim, pessoas de um grupo (iii), que inclui, além da própria Mary Evans, parentes próximos, amigos, amantes e maridos de Mary Evans. Essas pessoas a conheciam bem e sabiam que Mary Evans era George Eliot. Essas pessoas conheciam tanto as regras de conexão conhecidas pelas pessoas do grupo (i) como as do grupo (ii), de modo que para elas a frase ‘George Eliot é Mary Evans’ exprime uma tautologia. Mas o mesmo não acontece com as pessoas dos grupos (i) e (ii), entre as quais a distribuição do conhecimento de regras-descrições sobre Mary Evans e sobre George Eliot diverge bastante.
     As diferenças de sentido de expressões simbólicas diversas de um mesmo termo singular são, sob esse prisma, uma questão relativa a diferentes distribuições das descrições do feixe no que concerne ao que é disposicionalmente intencionado pelos usuários do nome. Contudo, se as diversas expressões simbólicas dos nomes se referirem realmente ao mesmo objeto, então os seus significados referenciais completos devem ser os mesmos, variando apenas a distribuição na intenção usual dos falantes, e com isso o sentido intencionado que eles contextualmente lhe dão.
     Considero agora a frase: “Hesperus é Phosphorus”. Em geral sabemos que esses dois nomes próprios se referem a uma mesma coisa, o planeta Vênus. Mas enquanto um falante que usa ‘Hesperus’ para Vênus necessariamente sabe que Vênus é ‘a estrela da tarde’, ele não precisa necessariamente saber que ele é a estrela da manhã, enquanto um falante que usa ‘Phosphorus’ para Vênus necessariamente sabe que ele é a estrela da manhã. A regra de conexão com o objeto que a pessoa deve ter em mente ao usar o primeiro nome é diferente da regra de conexão que ela deve ter em mente ao usar o segundo, do que resultam as diferenças no sentido das descrições apontadas por Frege.
     Esses pontos também podem ser refletidos em apresentações russellianas das sentenças. Restringindo-me apenas ao primeiro exemplo, supondo que tanto o nome ‘Tulio’ quanto o nome ‘Cicero’ abreviem a mesma regra disjuntiva expressa pelos predicados A v B, estando T no lugar de Tulio e C no lugar de Cicero, a sentença “Tulio é Cicero” fica sendo:
    (Ex) ((Ax v Bx) & (y) ((Ax v Bx) → y = x)) & Tx & Cx

    Como Tx e Cz são predicações diferentes que podem ser diversamente sabidas, “Tulio é Cicero” pode ser uma sentença informativa para uns e tautológica para outros.

     (iii) Substitutividade. O quarto enigma é o da intersubstitutividade salva veritate em contextos opacos. Compare os enunciados “Maria acredita que Tulio é Tulio” com “Maria acredita que Tulio é Cicero”. O fato de o primeiro enunciado ser verdadeiro não implica na verdade do segundo. Mas por que, se Tulio é a mesma pessoa que Cicero? A resposta está no fato de que Maria pode conhecer a regra de identificação para um desses nomes próprios sem saber que ela também é a regra de identificação do outro nome próprio, pois ela pode não saber que a regra de conexão auxiliar do símbolo de um dos nomes pertence ao feixe de descrições fundamentado pela regra de identificação do outro nome. É isso o que torna a crença na identidade de Tulio com Cicero a crença em um conteúdo proposicional diferente do  conteúdo da crença na identidade de Túlio com Tulio.
     Supondo que Maria tenha conhecimento da regra de identificação para Tulio, se simbolizarmos ‘Nascido em 105 a.C em Arpino e executado em 43 a.C. em Formia... e/ou um grande orador, político, filósofo e escritor romano, autor das Catilinárias...’ como ‘A v B’, ‘é chamado de Tulio’ como ‘T’, e ‘é chamado de Cicero’ como ‘C’, podemos usar a teoria das descrições de modo a analisar a sentença (i) “Maria Crê que Tulio é Tulio” como:
     Maria crê que (Ex) ((Ax v Bx) & (y) ((Ay v By) → y = x) & Tx & Tx)

Essa sentença é evidentemente tautológica. Considere agora a sentença (b) “Maria crê que Tulio é Cicero”. Ela fica sendo:

     Maria crê que (Ex) ((Ax v Bx) & (y) ((Ay v By) → y = x) & Tx & Cx)

Esta, contudo, é uma sentença cujo conteúdo costuma ser informativo. Pois se Maria não souber que z = x, isto é, que C e T se aplicam ao mesmo objeto, ela não saberá que esses nomes próprios são intersubstituíveis salva veritate.

Identidades entre nomes próprios e o “necessário a posteriori”
As considerações que acabamos de fazer nos conduzem a uma última questão, concernente ao status epistêmico das identidades entre nomes próprios. De acordo com Kripke, como os nomes próprios são designadores rígidos, dois nomes próprios com a mesma referência precisam se aplicar a um único objeto em qualquer mundo possível no qual ele exista. Por conseguinte, embora as frases de identidades entre nomes próprios  sejam a posteriori, ou seja, aprendidas a partir da experiência sensível, elas são necessárias. Por isso uma frase como “Hesperus é Phosphorus” expressa para Kripke uma proposição necessária a posteriori. Contudo, essa conclusão de que existem proposições necessárias a posteriori tem sido considerada absurda por vários filósofos. Como é possível, afinal, que uma proposição verdadeira em todos os mundos possíveis, possa depender da experiência para ser verdadeira?
Considere, para começar, a frase “Cicero é Tulio”. A regra de identificação para o nome próprio ‘Marco Tulio Cicero’ é (abreviadamente):

RI-Marco Tulio Cicero
 O nome próprio ‘Marco Tulio Cicero’ – tal como, por consequência, também os nomes ‘Marco’, ‘Tulio’ e ‘Cicero’ – se refere a um objeto x pertencente à classe dos seres humanos see x nasceu em Arpino em 106 a.C. e faleceu em Fórmia em 43 a.C. e/ou que foi um filósofo, orador, advogado e político romano, o senador romano que escreveu as Catilinas etc.

     Considerada com esse sentido intencionado a frase “Tulio é Cicero” é obviamente necessária e a priori, pois ela é analítica, definitória do que entendemos pelo nome ‘Marco Tulio Cicero’. Supondo que não exista diferença de sentido entre as diferentes denominações, uma pessoa que não sabe que Tulio é Cicero é como uma pessoa que não sabe que “ß é ss”, uma ignorância nomenclatural.
     Os outros exemplos são mais complexos. Podemos ter uma regra geral do tipo:

RI-Mary Ann Evans
O nome próprio ‘Mary Ann Evans’, tal com o seu pseudônimo ‘George Eliot’, se refere a um objeto x pertencente à classe G see x estiver na origem de nossa consciência de que x é a pessoa que viveu de 1819 a 1880 na InglaTerra e/ou a escritora inglesa que escreveu clássicos como Middlemarch, possuindo tais e tais traços pessoais etc.

     Essa é a regra conhecida pelos falantes do grupo (iii). Nesse sentido intencional, considerado pelos dois maridos de Mary Evans e pela própria Mary “George Eliot é Mary Evans” pode ser considerada uma frase necessária, pois é analítica e definitória. Mas não precisa ser assim. O que as pessoas do grupo (i) tem em mente com a regra de caracterização para George Eliot é (i) é “o autor de Middlelmarch e outros clássicos da literatura inglesa”, tendo vagas indicações acerca do tempo e lugar em que esse autor viveu. Já as pessoas do grupo (ii) tem como sentido intencional a regra de caracterização de Mary Evans como “a mulher com tais e tais traços pessoais que foi vista em tal lugar em tal época etc.” As regras de localização não podem aqui se contradizer, uma vez que são partes de uma mesma regra. Mas para as pessoas dos grupos (i) e (ii) aprender que as regras de identificação parciais que elas usam são partes de uma regra maior de identificação é algo informativo. E por isso mesmo a frase de identidade “George Eliot é Mary Evans” é para elas contingente e a posteriori. É a posteriori enquanto depende de informações de subfatos contingentes para o seu aprendizado, como a decisão de Mary Evans de usar um certo pseudônimo literário.
     Note-se que os componentes do grupo (iii) podem pensar a identidade de George Eliot com Mary Evans também da segunda maneira, em termos dos modos de apresentação da pessoa, por exemplo, quando explicam a alguém a identidade. Nesse caso elas estão considerando as regras parciais para cada nome querendo mostrar que elas são partes constitutivas da regra de identificação completa de Mary Ann Evans. Sem consideração do contexto a frase “George Eliot é Mary Evans” é ambígua, podendo querer dizer uma coisa ou outra ou ambas as coisas.
     Algo similar se pode dizer, finalmente, da frase “Hesperus é Phosphorus”. A regra de identificação para Vênus é hoje algo como:

RI-Vênus
O nome próprio ‘Vênus’ – tal como os nomes ‘Hesperus’ e ‘Phosphorus’ – se refere ao planeta que estiver na origem de nossa consciência de que ele satisfaz de modo suficiente a sua regra fundamentadora de ser o planeta que foi identificado em certa certa época como sendo o segundo do sistema solar etc.

     Se tivermos em mente essa regra de identificação não há diferença entre Hesperus e Phosphorus, o que torna “Hesperus é Phosphorus” um enunciado necessário e a priori, pois se deriva da regra. Mas também podemos considerar a identidade em questão, tal como Frege o fez, como uma descoberta astronômica. Nesse caso o que estamos fazendo é associar ao nome ‘Hesperus’ a descrição auxiliar ‘a estrela mais brilhante vista ao anoitecer’ e associar a ‘Phosphorus’ a descrição auxiliar ‘a estrela mais brilhante vista ao amanhecer’. Cada uma dessas descrições tem como referente simplesmente a estrela que vemos no céu em certo tempo e lugar e nada mais. O que a frase de identidade faz é afirmar que além disso esses dois modos de apresentação são modos de apresentação de um mesmo objeto, ou seja, que cada uma dessas regras de identificação é parte das regras auxiliares da regra de identificação para Vênus. Também aqui foi empiricamente descoberto que as essas duas regras de identificação para objetos dados diferentes poderiam ser entendidas como partes de uma regra de identificação para um único objeto foi resultado da experiência empírica, de modo que enquanto tal “Herperus é Phosphorus” expressa uma verdade a posteriori e também contingente, pois poderia não ter sido assim.
     Se não houver um contexto desambiguador a frase “Hesperus é Phosphorus” retém a sua ambiguidade semântica, podendo ser interpretada em um e outro sentido. O que um filósofo como Kripke fez foi confundir as duas maneiras de entender as frases de identidade entre nomes próprios recém-apresentadas ignorando as flutuações contextuais capazes de desambiguá-las. Ele confundiou as formas de entendimento juntando a necessidade da frase de identidade a ser entendida como analítica (necessária e a priori), visando expor uma regras de identificação, com o caráter a posteriori da frase de identidade entendida como sintética (contingente e a posteriori), que visa expor diferentes modos de apresentação de objetos (aparências) diferentes para nos informar que esses objetos são eles próprios modos de apresentação de um objeto mais fundamental.
     Finalmente, é interessante observar a curiosa coincidência entre esses resultados, derivados de nossa análise das regras de identificação dos nomes próprios, e os resultados da análise das frases de identidade sob a perspectiva metodologicamente diversa do bidimensionalismo semântico. Essa coincidência nada tem de casual.

Conclusão
Como é comum em filosofia, sempre que pensamos ter resolvido um problema há outros à nossa espera na próxima curva do caminho. Contudo, um pouco de reflexão sobre a maneira de ver aqui proposta sugere que o caminho em questão é viável e desejável. Para mostrar que houve algum progresso, suponha que RMI2 seja implementada em um programa de computador, e que sejam nele introduzidos nomes próprios junto com as informações necessárias sobre as suas descrições fundamentais, histórias causais etc. Nesse caso parece prima facie concebível que o computador seria capaz de nos dizer com boa margem de segurança se o nome próprio é ou não aplicável. Mas o mesmo não me parece sequer pensável para as teorias descritivistas tradicionais e ainda menos para as vagas sugestões causais-históricas.




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