sexta-feira, 3 de abril de 2015

NIETZSCHE E O IDEAL ASCÉTICO NA FILOSOFIA



NIETZSCHE E O IDEAL ASCÉTICO NA FILOSOFIA


Nietzsche foi perspicaz em notar que o pior do cristianismo é aquilo que ele chamou de o ideal ascético: o ideal de aliar-se masoquisticamente à pobreza, à humildade, à castidade e a outras formas de auto-negação como forma de se obter um prazer doentio e pervertido. Para ele a função do ideal ascético é a de dar sentido ao sofrimento, pois sem sentido o sofrimento é insuportável. O ideal ascético tem como seu maior mentor a figura do padre ascético, que se opõe à vida valorizando a auto-mortificação, a auto-flagelação e o auto-sacrifício. Essas atitudes parecem suicidas, mas na verdade são maneiras veladas de preservar a vida. E o seu objetivo último, para Nietzsche, é limitar o ser humano e envenenar as mentes do que ele chamou de homens superiores.
 Para ele a assim chamada consciência moral resulta de uma internalização e espiritualização da crueldade. Como ele escreveu em uma passagem muito citada:

Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isso é o que chamo de internalização do homem. Aquelas terríveis instituições pelas quais o estado se protege a si mesmo... Tem como resultado que aqueles instintos do selvagem, do livre homem rude são tornados contra ele mesmo. Animosidade, crueldade, o prazer de possuir, de mudar e destruir – tudo isso é forçado contra a pessoa que possui tais instintos: essa é a origem da “má consciência”.[1]

   O ideal de aliar-se masoquisticamente à pobreza, à humildade, à castidade a outras formas de auto-negação é uma forma de se obter um prazer doentio e invertido. A assim chamada ‘consciência moral’ resulta para Nietzsche de um processo de internalização e espiritualização da crueldade.
   Em observações como essa Nietzsche antecipou a psicanálise freudiana. Freud analisou o que Nietzsche chamava de ideal ascético em termos de introjeção: pela introjeção a agressividade humana é internalizada e dirigida para onde veio, para o próprio ego (Ich) tornando-se no ego superego (über-Ich), ou seja, consciência moral, sendo essa tensão chamada de sentimento de culpa e expressa na necessidade de punição. A introjeção é para Freud um mecanismo essencial ao processo civilizatório, permitindo ao homem diferenciar-se do animal.
   Nietzsche, é preciso lembrar, também tinha uma visão em parte positiva do ideal ascético. Ele reconhece que a prática científica o exige. Além disso, a própria filosofia depende dele, pois para existir ela demanda o homem inativo, contemplativo, não voltado para a ação. Como ele escreve:

A filosofia teria sido absolutamente impossível pela maior parte do tempo sobre a terra sem a máscara ascética e sem terno de algodão, sem uma falsa concepção ascética.[2]

    Por isso é fácil ao filósofo ser dominado por esse ideal, deixando que ele influa em sua própria filosofia. Com efeito, uma tese de extrema importância e a meu ver bastante plausível a ser encontrada em Nietzsche é a de que o ideal ascético não só possibilitou, mas também corrompeu grande parte da filosofia ocidental. Podemos generalizar essa tese para grande parte da história da filosofia, como o demonstram as observações que se seguem:

1. O primeiro filósofo a ser corrompido pelo ideal ascético foi Parmênides, com a sua doutrina de que toda a mudança é ilusória. Há aqui o presságio de teorias que são fugas do mundo real, visível, sensível, do mundo heracliteano da mudança privilegiado por Nietzsche.

2. Outro filósofo influenciado pelo ideal ascético foi Sócrates. Sócrates foi um precursor do padre ascético, com seu prazer sádico em destruir as crenças das pessoas em nome de algum conceito moral ideal. Sócrates era feio, nota Nietzsche, sem falar do fato de que era casado com uma mulher quarenta anos mais jovem que lhe dava muito trabalho e nenhum prazer. Nietzsche notou jocosamente que ela foi responsável pelo desenvolvimento filosófico de Sócrates, pois para não ter de conviver com ela ele decidiu passar os dias conversando nas ruais, o que lhe fez desenvolver seu talento dialético.

3. Platão, provavelmente um homossexual reprimido, também foi um grande cultor do ideal ascético. O mundo visível, o mundo da vida, não era para ele o mundo real. A pouca realidade nele encontrada era derivada do mundo das ideias, fixas, eternas, imutáveis. Embora essa doutrina tivesse a função de explicar a predicação, ou seja, como podemos dizer o mesmo de muitos, é também verdade que o ideal ascético é ao menos uma motivação da doutrina platônica. Aristóteles, que tinha os pés na terra, prescinde dos universais, ao menos nas melhores interpretações, mas sua noção de uma substância imperceptível como suporte das propriedades deixa-nos ainda hoje perplexos.
   Ontologicamente, a teoria dos tropos contemporânea inverte a equação platônico-aristotélica. O que é, o que em primeiro lugar existe, são tropos, que nada mais são do que propriedades espaço-temporalmente localisáveis, mais claramente, aquilo que podemos ver, tocar, ouvir, como essa campainha que eu vejo aperto e que depois soa. O restante é construido a partir disso. Universais são quaisquer tropos precisamente similares a um certo tropo escolhido; substâncias são combinações de tropos espaço-temporalmente localizadas. Assim, pela teoria dos tropos estamos tentando construir o geral, o abstrato, o insensível, a partir do sensível. Curioso é que essa teoria só foi seriamente proposta na década de 50 do século XX. Por que não foi proposta há quinhentos ou há mil anos atrás? A resposta é em meu juízo, nietzschiana. Essa teoria se opõe ao ideal ascético filosoficamente justificado pelo menos a partir de Platão, senão de Parmênides Ela dá um valor fundamental ao sensível e faz dele derivar o mundo inteligível. Ela encontra lugar na ontologia contemporânea, que pouco se deixa influir pelo ideal ascético, a menos que seja pelo peso da tradição.

4. O mais ascético dos filósofos pré-cristãos foi Plotino, que provavelmente sofria de hanseníase e tinha os melhores motivos para negar o corpo. Para Plotino a alma é má por encontrar-se interconectada com o corpo. Para ele a vida nesse mundo é degeneração, fracasso. Como o mal está no mundo e a alma foi feita para escapar do mal, pensava ele, devemos fugir desse mundo.

5. Se mesmo antes do mundo cristão o ideal ascético impregnava a filosofia, ainda mais, podemos prever, com o cristianismo. E aí a lista se torna longa, indo de Agostinho a Hegel e a Shopenhauer, passando por Descartes, Spinoza, Leibniz e Kant.

6. Considere, por exemplo, um filósofo teórico quase contemporâneo como Edmund Husserl, com sua aceitação de um platonismo de significados e com a sua teoria um tanto mística da intuição categorial das essências (intuição intelectual) e com a sua sugestão de um Eu transcendental fundador.

7. Podemos especular o que Nietzsche teria considerado nesse aspecto da filosofia de um pensador com temática parecida como Heidegger. Heidegger acreditava que o homem é um ser para a morte e em seus úlitmos anos se refugiou em um esteticismo místico que vê a linguagem como a casa do ser... Em uma entrevista ele observou que só um Deus poderia nos salvar. Sem dúvida, este seria mais um exemplo de um cultor do ideal ascético em filosofia! Heidegger também é, sob esse ponto de vista, um filósofo pré-nietzscheano.

8. Finalmente, podemos encontrar traços do ideal ascético no início da filosofia analítica contemporânea, em um filósofo como Frege, com o seu mundo de sentidos eternos e atemporais. Mais ainda, podemos encontrar traços fortes do ideal ascético em filósofos analíticos contemporâneos como Michael Dummett (católico) e Kripke (judeu praticante), que dentro de suas obsessões formalistas sofre de um certo grau de horror mundi. Não são muitos os filósofos analíticos que resistiram a importar algum traço do ideal ascético em suas filosofias, embora alguns, como Russell e Wittgenstein. me pareçam muito pouco afetados por ele.

   Essa percepção das repercussões filosóficas resultantes do diagnóstico nietzschiano do ideal ascético como sintoma de um adoecimento da civilização ocidental é um ponto sumamente importante e a meu ver correto. Podemos encontrar uma justificação para a inclinação ascética do filósofo: O filósofo precisa viver a vida do pensamento, o que inevitavelmente demanda certo distanciamento e repressão das paixões e conflitos mundanos. Filósofos modernos de Descartes a Kant, por exemplo, não se casaram. O próprio Nietzsche praticou esse distanciamento e até muito mais do que outros. Como observou o Mefistófeles de Goethe, "toda a filosofia é cinzenta; verde é apenas a árvore de ouro da vida". É por isso mais tentador justificar esse distanciamento necessário, muitas vezes reativo e mal-resolvido, através da ideia de que o mundo da vida é destituído de valor. É parte da integridade e coragem intelectual de Nietzsche ter praticado esse distanciamento sem ter precisado para isso se tornar um “negador da vida”.
   Por outro lado, embora influenciando a filosofia, a aceitação e mesmo defesa do ideal ascético pode atingir muito pouco as ideias de filósofos interessados em questões menos associadas à vida humana, naquilo que mais lhes dá valor, do mesmo modo que o cristianismo doentio de Pascal não atingia as suas contribuições para a matemática enquanto tais.
   Tomemos como exemplo a doutrina das ideias de Platão. Importa pouco que o ideal ascético esteja em sua gênese, uma vez que o objetivo de sua teoria era linguístico-epistemológico e ontológico, buscando explicar como podemos predicar, como é possível dizer o mesmo de muitos. A ontologia platônica não escapa do ideal ascético ao sugerir que as ideias tem mais realidade do que as suas cópias no mundo visível, as quais, aliás, só possuem alguma realidade por participarem delas ou por serem suas cópias imperfeitas. Essa questão é aproximada na ontologia contemporânea pela teoria dos tropos, que nada tem do ideal ascético. Mas foi mérito da doutrina platônica ter sido a primeira tentativa explícita de responder à questão da unidade do múltiplo pela postulação de um mundo intelectivo separado do mundo sensível. Desvalorizar a doutrina platônica com base apenas em seu ascetismo reativo sem uma cuidadosa avaliação dos argumentos seria uma vez mais cometer uma falácia genética.






[1] Genealogia da Moral, II, 16.
[2]  Genealogia da Moral, III, 10.

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