sexta-feira, 11 de maio de 2012

O QUE É CONSCIÊNCIA? (texto introdutório)

Texto extraído do livro Cartografias conceituais: uma abordagem da filosofia contemporânea (Natal: Edufrn 2008). Embora as idéias me pareçam essencialmente corretas, elas demandam desenvolvimento mais adequado.



                                                  DEFININDO ‘CONSCIÊNCIA’

                                                            Somos a consciência do universo, que se pensa em nós.
                                                            Cézanne


     Podemos definir “consciência”? Há quase um dogma na filosofia da mente contemporânea, que consiste em se considerar inevitável uma resposta negativa para essa pergunta. Com efeito, não faltaram filósofos a nos dizer que o conceito de consciência é indefinível, que ele é primitivo(1); que ele é demasiado pobre, tão vazio quanto a palavra ‘coisa’, sendo perda de tempo tentar defini-lo(2); que ele é por demais difícil e portanto inacessível a poderes cognitivos tão limitados como os da mente humana(3); ou mesmo que a consciência simplesmente não existe(4)...
     Não obstante, nenhuma dessas afirmações escapa a objeções mais ou menos definitivas. Quanto à sugestão de que ele se comporta como um conceito primitivo, podemos responder que seria assim se a palavra ‘consciência’ fosse como a palavra ‘vermelho’, somente definível por ostensão. Pode ser que a noção de consciência nos pareça opaca, não-analisável. Mas é comum que noções de importância filosófica (ex.: conhecimento, ação, realidade, arte...) não pareçam à primeira vista analisáveis. Por isso devemos dar à tese da analisabilidade da consciência ao menos um voto de confiança. Quanto à sugestão de que a palavra ‘consciência’ seria demasiado pobre em termos denotacionais, ela seria justificada se esta fosse mesmo semelhante à palavra ‘coisa’, tornada vazia em razão de sua extrema generalidade. Mas o domínio de aplicação da palavra ‘consciência’ é muito mais restrito, limitando-se a uma pequena sub-classe dos seres vivos. Quanto à sugestão de que somos cognitivamente incapazes de definir consciência, é possível responder que todos nós de algum modo sabemos muito bem o que queremos dizer com a palavra, o que é demonstrado pelo fácil acordo a que chegamos ao distinguirmos entre os seus usos corretos e incorretos. Sob essa perspectiva, definir consciência não seria tentar ir além de nossos poderes cognitivos, mas simplesmente encontrar um meio de explicitar satisfatoriamente aquilo que já sabemos, eventualmente aperfeiçoando e mesmo corrigindo tal explicitação com o auxílio de um rationale proveniente da informação científica. Devemos, pois, ser capazes de alcançar uma definição basicamente imanente de consciência. Para chegarmos a tal, o método mais adequado seria o de tomar como ponto de partida a análise das informações em primeira pessoa (provenientes da introspecção), tentando então adequá-la às informações em terceira pessoa (advindas de nossa leitura natural do comportamento e também de nosso conhecimento atual de ciências como a psicologia, a neurociência etc.), na tentativa de alcançar um equilíbrio reflexivo(5). Há, por fim, a hipótese eliminacionista de que a palavra ‘consciência’ é um termo vazio que nada denota, tal como a palavra ‘ops’. Mas quanto a essa objeção, não parece caber a nós o ônus da prova.
     Não são, pois, muito fortes as razões que militam contra o projeto de se definir consciência. No que se segue quero chegar a uma definição que me parece suficientemente plausível.

                                                                      I

     Para começar, é providencial fazermos uma distinção propedêutica abrangente entre consciência global e consciências parciais. Por consciência global podemos entender algo próximo do que filósofos já chamaram de consciência da criatura ou do indivíduo ou ambulante(6). Trata-se do todo da consciência, incluindo nisso qualquer forma de consciência que contribua para a constituição desse todo. Trata-se, pois, daquilo que costumamos ter em mente quando aplicamos a palavra ao dizer que a pessoa x ou o animal y é ou está consciente (ex.: “Após a concussão craniana a paciente veio pouco a pouco a recuperar a consciência”, ou “Ao ser sedado com éter o animal perdeu a consciência”). O conceito de consciência global contrasta com o de consciência parcial, com o qual restringimos o termo a partes da consciência global, as quais podem variar muito em natureza e extensão, prosseguindo até chegarmos a divisões menores, que têm sido chamadas de consciências de estado (ver nota 6). Gostaria de entender a consciência de estado como a propriedade de certos estados mentais de representarem fatos, entendendo por ‘fato’ a palavra designadora do fazedor de verdade (truth-maker), seja ele qual for. Referências à consciências parciais que constituem partes mais extensas da consciência global são feitas por proferimentos como “Ele estava tão bêbado que perdeu a consciência do que fazia” ou “Seus sentimentos eram-lhe inconscientes”; referências a consciências de estados aparecem em proferimentos como “Carmen está consciente (do fato) de que há um mosquito rodeando os seus tornozelos”, que se refere a um estado de coisas externo, ou “Pedro está consciente (do fato) de que está apaixonado”, que se refere a um estado de coisas interno(7).
     A distinção introduzida repousa na assunção intuitivamente plausível de que as várias formas de consciência parcial estão relacionadas à consciência global como as partes com o todo, o que explicaria, no final das contas, porque podemos aplicar a palavra ‘consciência’ a qualquer dos casos. Essa assunção justifica a nossa estratégia, que será a de começar esclarecendo a consciência global, passando depois, por extensão, a uma delimitação mais apropriada das consciências parciais, ao menos em suas modalidades mais fundamentais, buscando discernir as propriedades comuns a toda e qualquer forma de consciência.
     Consideremos primeiro a extensão do nosso conceito de consciência global. Ele não é coextensivo ao de mente, pois a mente de quem está dormindo, por exemplo, não é consciente. Contudo, o conceito de mente é coextensivo ao de ser capaz de consciência, pois dizemos de todos os seres que possuem mentes, que eles são ao menos capazes de consciência, além de dizermos de todos os seres capazes de consciência que eles possuem mentes. Deixando-nos guiar pela intuição lingüística, consideremos a questão sob o seu aspecto evolucionário. Considere, primeiro, o caso de seres vivos muito primitivos, como vermes e insetos. Seria ridículo atribuir-lhes mentalidade e consciência sem simplificar perversamente esses conceitos. Mas nos casos de répteis, peixes, pássaros e mamíferos, a dúvida começa a emergir. Não estamos certos se podemos dizer que um lagarto imobilizado pelo frio perdeu a consciência. Contudo, quando sedamos um mamífero como o cão, ou mesmo um hamster, não hesitamos em dizer que ele perdeu a consciência. Por isso mesmo estamos certos (pace Descartes) em dizer que um cão possui mente e também alguma consciência do mundo ao redor. A fronteira de aplicação do conceito de consciência, tanto quanto o de mente, é indistinta e gradual, à semelhança da fronteira entre o conceito de colina e o de uma simples elevação de terreno.
     Talvez você tenha dúvidas sobre a credibilidade de nossas intuições lingüísticas acerca da extensão de nosso conceito de consciência. Nesse caso, imagine que os neurocientistas um dia descubram um mecanismo X responsável pela consciência, e que descubram então que lombrigas e escaravelhos possuem X, enquanto elefantes e chimpanzés não o possuem. Seríamos então forçados a concluir que os primeiros são conscientes e os últimos não? Claro que não! Nós concluiríamos que o mecanismo X não pode ser o verdadeiro responsável pela consciência, pois ela é, por princípio, aquilo que todos que compreendem a linguagem admitem ser(8).
     Sob o ponto de vista da intensão gostaria de distinguir, como constituintes da consciência global, três modalidades mais importantes de consciência:
     Modalidade (a): Em primeiro lugar, sabemos que animais superiores, como o homem, são ditos conscientes quando estão em vigília, alertas, respondendo aos estímulos sensórios. Quando uma pessoa adormece, dizemos que deixou de estar consciente; quando ela desmaia ou entra em estado de coma, dizemos que perdeu a consciência; e quando ela aos poucos acorda da anestesia geral, dizemos que está recuperando gradualmente a consciência. Com base nisso podemos distinguir, apoiados em D. M. Armstrong, uma importante e necessária modalidade da consciência, que ele chamava de consciência perceptual, definindo-a como a experiência imediata que temos do mundo ao redor e de nossos corpos(9). Essa é uma forma elementar de consciência que compartilhamos com os vertebrados em geral (quando um hamster é sedado com éter e dizemos que ele perdeu a consciência, ele perdeu a consciência perceptual).
     Modalidade (b): Também como possível parte de uma consciência global há uma outra modalidade de consciência que Armstrong chamou de introspectiva, definindo-a como a consciência que temos de nossos próprios estados mentais, o que prefiro chamar (seguindo Locke) de consciência reflexiva. Com muita justiça Armstrong considerava esta a modalidade mais importante, sugerindo que ela teria surgido da necessidade que organismos possuidores de mentes mais complexas têm de monitorarem os seus processos mentais de primeira ordem, escaneando-os através de processos mentais de ordem superior. Normalmente a consciência global inclui tanto a perceptual quanto a reflexiva. Mas há casos, como o do sonambulismo, nos quais o sistema da consciência reflexiva se encontra desligado.
     Essa segunda modalidade de consciência foi também investigada por outros pesquisadores, principalmente por D. M. Rosenthal, embora aqui não mais segundo a analogia da percepção interna (higher order perception), como fez Armstrong, mas em termos de pensamentos de ordem superior (higher order thoughts)(10). Segundo esse autor, se tenho a consciência de me encontrar em um estado de espírito melancólico, ou de saber que Schliemann desenterrou Tróia, é porque tenho o pensamento (cognição, juízo) de ordem superior de que tenho o sentimento de melancolia ou de que tenho o pensamento de que Schliemann desenterrou Tróia (forma transitiva ou relacional). Por sua vez, o sentimento e o pensamento de primeira ordem são chamados de conscientes quando são objetos de pensamentos de ordem superior (forma intransitiva ou não-relacional).
     A admissão de que em seu sentido mais importante a consciência é reflexiva nos permite responder a uma variedade de questões de psicologia cognitiva.
     Primeiramente, a noção de consciência reflexiva permite explicar a assim chamada visão cega (blind-sight). Trata-se de casos em que uma pessoa, após sofrer lesão na área V1 do córtex visual, torna-se parcialmente cega. Contudo, embora ela afirme nada ver, ela é capaz de adivinhar corretamente muito do que acontece na porção do seu campo visual que perdeu a visão(11). A explicação seria a de que ela ainda mantém a consciência perceptual, embora tenha perdido a consciência reflexiva com relação ao campo visual afetado. Ela vê sem saber que vê.
     A mesma noção nos permite explicar os curiosos resultados do experimento de Benjamin Libet, os quais mostraram que a elevação do nível de ativação cerebral no córtex motor (readiness potential, medido pelo EEG) que corresponde à decisão de agir ocorre cerca de um terço de segundo (~350 milisegundos) antes da tomada de consciência dessa decisão(12). A explicação seria a de que, embora a tomada de consciência reflexiva do que está acontecendo ocorra depois da decisão, permitindo apenas o controle ou supressão da ação, ao nível da consciência perceptual a decisão realmente ocorre simultaneamente à elevação do nível de ativação.
     Além disso, a noção de consciência reflexiva permite compreender melhor os assim chamados sonhos lúcidos(13). O sonho lúcido ocorre quando sonhamos com a consciência de que estamos sonhando. Quando isso acontece o sonho se torna mais claro e intenso, podemos nele intervir e ele é mais facilmente recordado depois. A explicação seria a de que o sonho lúcido surge quando o sonho normal se torna objeto de consciência reflexiva. Por isso ele se torna mais intenso, controlável e recordável.
     Uma diferença notável entre a consciência perceptual e a reflexiva é que a primeira é, por assim dizer, inconsciente. Sabemos que ela existe apenas com base na consciência reflexiva de nossas percepções. Organismos sem consciência reflexiva, como o lagarto, não podem saber que são perceptualmente conscientes. Diversamente da consciência reflexiva, o acesso primário que temos à consciência perceptual é em terceira pessoa (quando vemos o hamster ser sedado etc.).
     Modalidade (c): Seria muito bom se as modalidades (a) e (b) dessem conta da consciência em suas formas mais relevantes. Infelizmente, não parece ser assim. Suponha que por qualquer razão eu tenha os pensamentos de que Schliemann desencavou Tróia, de que a Estátua da Liberdade foi presenteada pela França ao governo americano, de que 13 x 13 = 169... Esses não são, obviamente, casos de consciência perceptual. Mas não parece necessário que sejam casos de consciência reflexiva! Pois parece claro que podemos pensar essas coisas irrefletidamente, sem saber (ou pensar) que as estamos pensando, apesar de toda uma tradição filosófica ter sugerido o contrário. Trata-se também aqui de eventos conscientes inconscientes de si mesmos, embora capazes de ser a cada momento reflexivamente considerados. Na falta de melhor expressão, chamo a isso de consciência discursiva.
     Em qualquer das modalidades de consciência consideradas é possível que haja um erro completo, caso no qual passamos a negar a atribuição de consciência. Assim, se me percebo sendo recebido em Tróia pela própria Helena, quando na verdade estou dormindo no sofá, se creio que sou feliz quando na verdade vivo em um estado de espírito melancólico, se penso que a Estátua da Liberdade é um bolo de chocolate e que 13 x 13 = 26, então não estou intrinsecamente consciente de nada disso.
     A questão que agora se impõe é: o que há de comum entre as modalidades (a), (b) e (c) de consciência, que faz de seus estados, estados de consciência? O que os distingue dos estados mentais falsamente conscientes, como os recém descritos? Minha sugestão é que, por surpreendente que pareça, é possível definir consciência aristotelicamente, em termos de gênero próximo e diferença específica, pois a consciência é sempre a resultante da experienciação verídica das coisas. Vejamos como isso pode ser feito.
    Quanto ao gênero próximo, a resposta não parece difícil. Como notou Owen Flanagan, em um artigo no qual tentava definir a consciência: “fenomenologicamente, consciência é experiência”(14). Suponhamos que isso seja verdade. Quanto às modalidades (a) e (b), com efeito: pessoas em vigília, alertas, acordadas, estão experienciando o mundo; a consciência perceptual de que um mosquito me rodeia os tornozelos demanda experiência, o mesmo acontecendo com a minha consciência reflexiva de me encontrar em um estado de espírito melancólico. É mais complicado encontrar as experiências produtoras da modalidade (c) de consciência, mas a minha consciência de que Schliemann desencavou Tróia, embora não demande uma experiência presente, à parte a da recordação, não veio do nada. Ela foi haurida com base na experiência de leituras dos livros sobre arqueologia e outras mais. Mesmo a minha consciência de que 13 x 13 = 169 demanda uma experiência matemática, para mim menos imediata do que 1 + 1 = 2. Por isso o conceito de experiência que se nos impõe aqui deve ser amplo, não se restringindo à experiência sensório-perceptual, mas incluindo também experiências puramente cognitivas, como as da matemática.
     Contudo, o que é experiência? Não pretendo definir esse conceito, mas posso caracterizá-lo, primeiro notando que ele aponta para uma relação causal, sendo a causa o objeto da experiência (que pode ser tanto externo quanto interno) e o efeito um produto epistêmico necessariamente interno, o qual poderia ser chamado de produto experiencial. Parece que o conceito de experiência possui uma ambigüidade processo-produto. Quando uso a palavra ‘experiência’, posso dizer “Minha experiência de x foi baseada no meu experienciar de x”, referindo-me primeiro ao produto experiencial, disposicionalmente presente, e depois ao processo experiencial. Em se tratando de consciência, a experiência envolvida parece ser no sentido de um produto experiencial, o que fica claro ao menos nos casos de consciência discursiva. Por isso não digo “Estou conscientizando x”, tal como “Estou experienciando x”, mas apenas “Estou tendo a consciência de x”. 
     Tentemos agora esclarecer as principais características da experiência. Uma delas é a subjetividade. Pode parecer que o essencial da subjetividade seja a internalidade, o acontecer dentro da cabeça, onde pareço ouvir meus pensamentos. Mas não é sempre assim: se uma pessoa tem alucinações visuais, elas são subjetivas, embora a pessoa as situe externamente. Por isso a subjetividade é mais propriamente caracterizada como ausência de intersubjetividade. Uma entidade é subjetiva quando só o seu portador tem acesso a ela.
     Uma outra característica da experiência é que ela está mais próxima do polo perceptual da vida mental, voltado para a apreensão da realidade, do que do polo conativo, voltado para a ação sobre a realidade. Assim como a consciência, a experiência pertence ao polo perceptual, de abertura para o mundo. Como os dois polos são interdependentes, é plenamente possível considerar a consciência também como uma contraparte da ação, posto que é só através da abertura perceptual da consciência que nossa vontade pode produzir ações adequadas às circunstâncias percebidas. É razoável, pois, a exigência pragmática feita por filósofos, de que os conteúdos de consciência sejam em última análise capazes de nos guiar em nossas ações. O que deixa de ser razoável é tentar explicar a consciência incluindo a atividade mental volicional e de deliberação racional entre os seus constituintes definitórios, pois isso nos convidaria a confundir o caráter da experiência consciente, que deve estar na origem desses processos, com o caráter próprio desses mesmos processos, assimilando-os então equivocamente à consciência(15).
     A experiência consciente é também um estado receptivo, por oposição à atividade mental consciente, que conduz à ação. Isso não significa que ela seja passiva. O que chamamos de estado também pode ser entendido em um sentido compatível com o de atividade, como acontece ao dizermos, por exemplo, que a água se encontra em estado de ebulição; a experiência consciente é um estado receptivo ativo, o que se demonstra mesmo no fato de podermos alterar tanto o grau quanto o foco de nossa consciência, de acordo com o interesse e a necessidade.
     Contra a idéia de que a experiência é sempre relacional pode ser objetado que em certos casos, como os de sonhos e alucinações, temos experiência sem o objeto da experiência. Contudo, essa objeção advém de um preconceito, que é o de se pensar que um objeto, para causar a experiência do que parece ser objetivamente real, precisa ser ele mesmo objetivamente real, ou seja, intersubjetivamente acessível. Mas não precisa ser assim. O objeto causador da experiência pode ser apenas subjetivamente acessível, conquanto ele seja independente da vontade. Se uma pessoa sonha que está sendo perseguida por um dragão, a sua experiência não está sendo causada por alguma coisa objetivamente real, dado que o dragão não existe. Mesmo assim, parece correto dizer que a sua experiência está sendo causada por um objeto suposto (não-intersubjetivamente acessível, mas independente da vontade), que é a imagem onírica do dragão, falsamente identificada por quem sonha como sendo um objeto real (intersubjetivamente acessível e independente da vontade). Do mesmo modo, se alguém vê um dragão na tela do cinema, a experiência não é causada pelo dragão real, mas pelo dragão do filme. Considere que nesse caso, como no do sonho, não produzimos o objeto não-objetivamente-real pela vontade. Esse objeto efetivamente causa a experiência, diversamente do que acontece, por exemplo, no devaneio, quando intencionalmente produzimos o objeto. Por essa razão não dizemos que temos experiência em um sentido igualmente forte da palavra quando “experienciamos” um devaneio, nem que ele demonstra a consciência de alguma coisa. – Observe-se que ter um devaneio não deve ser confundido com a consciência de tê-lo, nem com a consciência de seus conteúdos ficcionais, pois essas coisas dependem de juízos reflexivos de ordem superior, os quais são verídicos; o mesmo acontece com os sonhos lúcidos, os sonhos conscientes, que nos parecem mais reais por serem acompanhados de sua consciência reflexiva.
     Finalmente, é preciso notar que o estado de acesso experiencial à realidade capaz de constituir a consciência deve ser restrito ao sistema nervoso de organismos suficientemente desenvolvidos e flexíveis, tomando como paradigma o caso humano. Com isso quero não só reafirmar a natureza intrinsecamente biológica da consciência – excluindo casos como o de um suposto robô consciente – mas também eliminar casos de consciência em organismos muito inferiores na escala biológica. Considere o caso de um inseto como a abelha. Em algum sentido ela é capaz de perceber, representar, aprender e até mesmo experienciar. Ela é capaz, por exemplo, de realizar uma complicada “dança” para comunicar às outras a direção e a distância em que se encontra o alimento. Contudo, por mais igualitárias que sejam as nossas convicções etológicas, temos justificada dificuldade em admitir que abelhas sejam seres conscientes ou que possuam mentes. A inclusão da consciência no gênero dos produtos experienciais nos ajuda a compreender por que não atribuímos consciência a insetos: é que embora possamos dizer, por exemplo, que eles percebem o mundo ao redor, não parece haver muito sentido em se dizer que eles o experienciam, ao menos não no sentido mais próprio da palavra, tipicamente aplicado ao complexo processo pelo qual a experiência humana se dá. Não é usual dizermos que a abelha comunicou sua experiência, nem que ela a adquiriu ou que aprendeu através dela... (embora digamos usualmente que ela percebeu a presença do nectar). O conceito de experiência é um que só se aplica a um acesso objetual suficientemente complexo e sofisticado. Ele se aplica mais propriamente a seres capazes de apreender a realidade de maneira muito mais elaborada e flexível, tomando o grau de elaboração da experiência humana como modelo. Essa é a razão pela qual dizemos de um hamster sedado com éter, que ele perdeu a consciência. É que o seu acesso sensório-perceptual ao mundo ainda é suficientemente próximo daquele do ser humano para que possamos admitir que ele deixou de experienciar a realidade circundante. Mas se fizermos algo semelhante com uma abelha – se pudermos paralizar o seu sistema ganglionar – não nos sentiremos tentados a dizer que ela deixou de experienciar o mundo ou que ela perdeu a consciência. (É fácil estender o conceito falando da experiência de uma abelha, ou mesmo usá-lo metaforicamente para falar da experiência de um autômato, mas isso servirá apenas para confundir.)
     Uma vantagem de entendermos a consciência reflexiva como a experiência da realidade interna é que fica respondida a infame objeção de que a proposta de Armstrong nos forçaria a admitir que laptops são conscientes, uma vez que eles também são capazes de auto-escaneamento. Essa objeção é infundada, uma vez que laptops só são capazes de experienciar-se a si mesmos em um sentido meramente metafórico da palavra.
     Embora ser um produto experiencial no sentido amplo possa ser visto como uma condição necessária à consciência, o seu gênero próximo, não se trata aqui de sua condição suficiente, pois mesmo sendo toda consciência experiência (ou produto experiencial), nem toda a experiência é consciente. Quando sonhamos, por exemplo, temos uma experiência que não é dita consciente, pois realmente não dizemos, no sentido próprio, que sonhos são conscientes. Há exceções, como é o caso específico dos sonhos lúcidos, que seriam objeto de consciência reflexiva, ou da experiência da lembrança de uma experiência onírica, que sendo de algo que se deu e como se deu realmente, é consciente. Mas essas exceções apenas confirmam a regra. O que nos falta saber agora é qual seria a condição suficiente para a consciência, ou a sua diferença específica, admitindo, por suposição, que ela exista.
     Minha sugestão é a seguinte: em todas as suas modalidades, aquilo que é distintivo da experiência (ou produto experiencial) consciente é que ela é verídica, ou seja, da verdade sobre as coisas, ou, em outras palavras, das coisas tal como estamos dispostos a admitir que elas realmente são. A experiência consciente é a experiência da realidade. Ela é a das coisas tal como estamos interpessoalmente dispostos a admitir que realmente são com base em tudo o que sabemos sobre elas. O contrário da experiência consciente é a experiência deceptiva, enganosa, ilusória.
     As considerações feitas até aqui nos permitem sugerir uma definição bastante concisa da noção geral de consciência:

     (Df.C) Consciência  =  experiência verídica.

     Essa é a prometida definição aristotélica de consciência em termos de genus proximum e differentia specifica. O primeiro é a experiência ou produto experiencial, a segunda é a veridicidade. Essa experiência-produto verídica, vale repetir, pode ser tanto da realidade externa (ex.: a experiência perceptual verídica de uma mosca na sopa) como também da realidade interna (ex.: a consciência reflexiva verídica de um estado de espírito melancólico) ou discursiva (ex.: a experiência não-reflexiva verídica de que 13 x 13 = 169).
     Para que esta seja realmente uma adequada definição de consciência, porém, é preciso que os seus termos sejam entendidos de modo a não torná-la excessivamente estreita nem larga, o que tento fazer explicando os conceitos de experiência e de veridicidade. Sei que pode parecer pífia a tentativa de explicar um fenômeno tão elusivo de maneira tão suscinta; no que se segue quero fazer algumas considerações no sentido de mostrar que, longe de ser ilusória, ela nos conduz ao cerne mesmo da questão.

                                                                   II

Os argumentos que mais claramente evidenciam que a essência da consciência é a experiência verídica se baseiam na consideração da natureza da experiência dita não-consciente, como é o caso dos sonhos, além das alucinações e ilusões produtoras de limitações, distorções, patologias da consciência. A razão pela qual dizemos que sonhos e alucinações não são conscientes é que eles são ilusórios. Por que os consideramos assim? Ora, porque experiências como as do sonho não são verídicas. Elas não são experiências da realidade no sentido de serem das coisas tal como podemos justificadamente admitir que elas são.
     Muito diversamente, um sonho que fosse verdadeiramente premonitório, que nos informasse precisamente algo sobre eventos futuros, poderia ser visto como possuindo a espécie de lucidez própria de eventos conscientes, pois ele seria uma experiência premonitória verídica, ainda que mantendo o caráter tipicamente débil e embaçado do sonho e a circunstância de ter ocorrido em alguém que estava com o sistema da consciência perceptual desligado. Do mesmo modo, no caso dos sonhos lúcidos temos outra vez experiências verídicas, pois são experiências reflexivas da ficção qua ficção. O acesso consciente parece ser, pois, a forma verídica, não-deceptiva, não-enganosa, de experiência-produto. Trata-se do acesso às coisas tal como elas realmente são – ou seja, tal como estamos intersubjetivamente dispostos a admitir que elas são, uma vez que tenhamos acesso às informações relevantes (o que também implica que tal experiência-produto seja causada de um modo adequado pelo seu objeto).
     Essa idéia pode ser tornada plausível tanto na experiência externa quanto interna. Quanto à primeira, considere o caso de uma pessoa vítima de psicose alcoólica, que tem a alucinação perfeita de um cavalo branco. Podemos dizer que ela tem consciência reflexiva da visão que tem do cavalo branco, pois ela tem a experiência verídica dessa visão. Mas não podemos dizer que ela tem consciência de que existe um cavalo branco à sua frente, pois se trata de uma experiência deceptiva, ou seja, de algo que não é real. Ou então, considere o caso de uma pessoa que, vítima de delirium tremens, se encontre presa a um leito, com a mente confusa, sofrendo de alucinações visuais e táteis terrificantes, que a tornam praticamente incapaz de reagir apropriadamente a estímulos e de relacionar-se com o mundo e com as pessoas ao redor. Neste caso diremos que a sua consciência global está obnubilada, que ela praticamente perdeu o contato perceptual com a realidade. Mas por que tais experiências são insuficientemente conscientes? A resposta é a mesma: porque elas são insuficientemente verídicas. Elas não são experiências da realidade, das coisas em sua existência, identidade e detalhamento.
     Quanto a casos de consciência reflexiva, considere o da paciente histérica, que tem a experiência do desejo sexual como se fosse a de dor. Ela não está consciente do que realmente sente, diríamos, mas apenas do que ela pensa que sente, pois a única realidade que está experienciando é a do que julga sentir. Considere, também, o caso da dor hipnoticamente induzida, da pessoa que relata uma experiência de dor como um estado consciente quando realmente nada sente. Não parece que possamos dizer que ela é consciente de sua dor. Considere, finalmente, o caso de um jovem que se engana constantemente acerca de si mesmo, de seu caráter, de sua personalidade, de suas habilidades... Nós diríamos que ele possui uma “falsa consciência” de si no sentido de que em certos aspectos, ao menos – embora obviamente não em todos – lhe falta a experiência verídica de si mesmo.
     Contra essas considerações podem ser opostos casos de experiência não-consciente da realidade. Sonâmbulos e pessoas em crise de epilepsia temporal precisam ter certa experiência da realidade para poderem se desviar de objetos ou realizar ações, mas não dizemos que eles estão conscientes ao realizá-las. Contudo, essa objeção encontra os seus limites na consideração do fato de que a experiência verídica que essas pessoas estão tendo é insuficiente, limitada, incompleta. Em tais casos é comum se falar de um estreitamento do campo da consciência, pois essas pessoas não estão sendo capazes de avaliar de forma suficiente ou adequada as circunstâncias reais dentro das quais estão atuando (é um fato que elas também podem se expor inadvertidamente a grandes riscos). Em tais casos também é possível sugerir que o sonâmbulo possui consciência perceptual (“consciência inconsciente”), mas não que possui consciência reflexiva, e que pela falta da última dizemos que ele não é propriamente consciente. Por outro lado, na medida em que a pessoa possui experiência perceptual, inclinamo-nos a reconhecer que ela ainda possui um nível elementar de consciência, não muito superior, digamos, ao de uma ovelha.
     Ainda uma objeção seria proveniente da consideração de cenários céticos, como é o caso logicamente concebível (pace Putnam) de sermos cérebros em cubas, vivendo uma realidade virtual produzida em nós por um supercomputador. Em tais casos, não teremos experiência do mundo real. Mas ainda assim, ao que parece, estaremos conscientes. Contudo, essa objeção também pode ser respondida. Em certo sentido, digamos, imanente da palavra, designamos como pertencente à realidade externa o que é independente da vontade e intersubjetivamente acessível. Ora, como o cérebro na cuba tem experiência do mundo como algo intersubjetivo e independente da vontade, a sua experiência é a de um mundo real nesse sentido da palavra. Nesse sentido, a experiência do cérebro na cuba será verídica, o que nos permite dizer que ele é consciente. Ele só não está consciente da maneira que deveria estar no caso em que soubesse que é um cérebro na cuba e que o seu mundo é meramente ficcional. Essa consciência última, de uma atribuição não-imanente da realidade, ele de fato não possui.
     Uma outra objeção diz respeito a percepções subliminares que, embora verídicas, permanecem inconscientes. É possível responder a isso dizendo que há um sentido em que essas percepções são conscientes. Em inglês podemos usar a palavra ‘awareness’, dizendo que embora sejamos inconscientes (non-conscious) delas, temos certa consciência (awareness) delas. Temos aqui também a razão pela qual a consciência perceptual também pode ser chamada de consciência, apesar de a pessoa que a tem não precisar saber ou ser consciente dela. Ela é chamada de consciente enquanto puder ser considerada em termos de experiência verídica. E isso ela costuma sê-lo.
     Suponhamos agora que uma pessoa tenha a seguinte experiência de sonambulismo. Ela sonha que ouviu o despertador tocar, que se levantou e que agora está escovando os dentes. Nesse momento ela se olha no espelho e acorda, surpresa ao perceber que estava dormindo enquanto fazia tudo isso. Ela conclui, pois, que teve todas essas experiências, as quais eram verídicas e causadas por eventos reais, muito embora não estivesse realmente consciente de tê-las. Como explicar? Quero considerar duas respostas. A primeira é a de que, mesmo sendo verídicas, as experiências que a pessoa estava tendo eram mais tênues, embaçadas e incompletas, apenas por não virem acompanhadas de experiência reflexiva, de cognições de ordem superior. A pessoa estava perceptualmete consciente, mas a sua consciência reflexiva era insuficiente. A outra resposta (comum em psicopatologia) é a que se vale da noção de integração: a pessoa percebe que acordou porque as experiências que ela estava tendo eram mais tênues, embaçadas, incompletas, não integradas com o todo; a consciência que se encontrava “estreitada”, agora amplia-se. Uma vez que acontece essa integração (o que Kant chamava de unidade sintética), temos consciência.
     As duas respostas divergem, mas é possível que sejam complementares. Pode bem ser que a própria ocorrência de cognições de ordem superior seja aquilo que possibilita a integração dos estados mentais por ela objetivados ao todo da nossa vida mental. A própria consciência reflexiva, como autoconsciência, poderia ter uma função unificadora e integradora dos estados mentais. Creio que esse tenha sido um ponto vagamente antevisto por Kant, quando observou que para existir a unidade da consciência é preciso que o “eu penso” possa acompanhar toda a experiência(16).
      A definição proposta também ajuda a esclarecer um ponto muito notado desde Kant, o de que o estado subjetivo de acesso experiencial em que consiste a consciência deve ser sempre unificado, ou, melhor dizendo, integrado, no sentido de se tratar de uma unificação possuidora de uma complexa organização interna. Por isso a fragmentação da consciência em grandes blocos, que ocorre na comissurotomia, na esquizofrenia e nos discutíveis casos de múltipla personalidade, é capaz de conduzir a uma debilitação da consciência global. Ora, a nossa definição de consciência é capaz de explicar a razão dessa perda, valendo-se do argumento de sabor kantiano que apresentarei a seguir.
     Suponhamos que a consciência seja experiência verídica. Nesse caso a experiência precisa ser unificada, integrada, pois não parece ser possível termos uma experiência verídica de algo sem que ela venha conectada a muitas outras. Por exemplo: faz parte da experiência verídica que tenho do laptop que está diante de mim, que eu o situe no domínio da realidade externa. Para fazê-lo, contudo, preciso integrar sincronicamente experiências co-sensoriais que estou tendo, não só as visuais do aparelho, da mesa, da sala, mas também as auditivas do martelar dos dedos no teclado, as tácteis etc. Além disso, para identificar veridicamente esse objeto como o meu laptop, preciso integrar diacronicamente a minha experiência desse objeto aos dados mnêmicos que me informam sobre as suas propriedades, os seus programas etc. Preciso inclusive ser capaz de assumir que outros observadores teriam experiências similares nas mesmas circunstâncias que eu, o que faço com base na repetição passada de experiências semelhantes que foram intersubjetivamente compartilhadas. Assim sendo, sem integração fica impossível entender qualquer experiência como sendo verídica, ou seja, de coisas por nós identificadas como pertencentes a certo domínio da realidade. Finalmente, é possível que tal integração acabe por depender de pensamentos (juízos) de ordem superior, em sua associação com outros juízos não-atualizados, na formação de alguma superestrutura integradora da consciência. 
     Admitindo essas considerações, a consciência global pode ser definida como:

     (Df.2) consciência global = totalidade das experiências verídicas
                                             atualmente dadas a um organismo.

     Essa definição pode ser facilmente adaptada às consciências parciais se levarmos em conta que elas são componentes constitutivos da consciência global. Mas há ao menos uma diferença. No caso da consciência global, a integração é interna: ela deve se dar entre os estados subjetivos que a constituem. Já no caso das consciências parciais, a integração deveria ser interna e também externa, ou seja, entre os estados mentais que as constituem e os que lhes são externos.
     Podemos, por fim, redefinir as três modalidades de consciência consideradas com base na definição de consciência global: (a) a consciência perceptual se redefine como a experiência resultante do acesso verídico à realidade externa, (b) a consciência reflexiva se redefine como a experiência resultante do acesso verídico à realidade interna, e (c) a consciência discursiva poderia ser redefinida como o produto experiencial verídico resultante do acesso a estados de coisas que, embora não estejam sendo presentemente experienciados, têm a sua origem na experiência, passível de rastreamento pelo pensamento e pela memória.


Notas:
1 J. R. Searle sugere algo próximo disso em The Rediscovery of Mind (Cambridge University Press: Cambridge 1992), p. 83.
2 Keith Wilkes: “Is Consciousness Important?” British Journal of Philosophy of Science, 35, 1984, 223-243, p. 241.
3 Collin McGinn: “Can we Solve the Mind-Body Problem?”, Mind 98, 1989, 349-366.
4 Paul Churchland, “Consciousness: the Transmutation of a Concept”, Pacific Philosophical Quarterly, 64, 1983, pp. 80-95, p. 80.
5 Owen Flanagan chama isso de “método natural”. Ver seu Consciousness Reconsidered (MIT-Press: Cambridge Mass. 1992), p. 11 e ss.
6 A distinção propedêutica entre consciência global e parcial é muito próxima da existente entre consciência da criatura (Rosenthal) ou do indivíduo (Güzeldere) ou ambulante (O’Shaughnessy), de um lado, e consciência de estado (Rosenthal), de outro. Ver D. M. Rosenthal: “A Theory of Consciousness”, em Ned Block, O. Flanagan & G. Güzeldere, The Nature of Consciousness: Philosophical Debates (MIT Press: Cambridge Mass. 1999), p. 726; ver também G. Güzeldere: “Consciousness – Perception of what passes in One’s Own Mind?” ibid. pp. 790-91 e Brian O’Shaughnessy: Consciousness and the World (Oxford University Press: Oxford 2002), parte I.
7 Fatos são para muitos filósofos entidades abstratas, não podendo ser confundidos com eventos. Apresentei uma refutação dessa idéia no artigo “Fatos Empíricos”, sugerindo que a palavra ‘fato’ é um termo-valise, aplicável tanto a situações ou estados de coisas (que são entidades cuja estrutura perdura no tempo em que elas existem) quanto a eventos ou processos (que são entidades que se modificam no tempo, as modificações pertencendo a sua própria constituição). Devido a esse sentido dual da palavra ‘fato’, filósofos como P. M. Strawson usaram as características lingüísticas que ela compartilha com palavras como ‘situações’ e ‘estados de coisas’ para equivocadamente demonstrar que fatos não podem ser eventos. Ver C. F. Costa, “Fatos empíricos”, in A Linguagem Factual (Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro 1996). 
8 Estou apenas virando ao avesso um argumento apresentado por J. R. Searle in Susan Blackmore (ed.): Conversations on Consciousness (Oxford University Press: Oxford 2006), pp. 211-12.
9 Ver o artigo clássico de D. M. Armstrong: “What is Consciousness?”, in The Nature of Mind (Cornell University Press: Ithaca 1981), pp. 55-67. Ver também o seu livro Mind and Body: an Opinionated Introduction (Westview Press: Boulder 1999), cap. 10. Além da consciência perceptual e (como veremos) introspectiva, Armstrong também tem o conceito de consciência mínima, que é simplesmente a ocorrência de estados mentais, como nos sonhos. Mas esse parece-me um sentido artificial da palavra, introduzido por ele para distinguir elementos mínimos formadores da consciência, enquanto o que estou tentando fazer é distinguir o que é comum às nossas variadas aplicações ordinárias da palavra.
10 Ver D. M. Armstrong: “What is Consciousness?”, in The Nature of Mind (Cornell University Press: Ithaca 1981), pp. 55-67. Uma excelente seleção dos ensaios de David Rosenthal encontra-se em seu recente livro Consciousness and Mind (Oxford University Press: Oxford 1965). Sobre a origem da noção de consciência reflexiva, ver John Locke: An Essay Concerning Human Understanding (Clarendon Press: Oxford 1975), livro II, cap. 1, § 19.
11 Ver Jason Holt: Blindsight and the Nature of Consciousness (Broadview Press: Ontario 2003).
12 Benjamin Libet: “Unconscious Cerebral Initiative and the Role of Conscious Will in Voluntary Action”, The Behavior and Brain Sciences 8, 1985, 529-39.
13  Stephen LaBerge: Lucid Dreaming (Ballantine Books: New York 1985).
14 Owen Flanagan: “Consciousness”, in W. Bechtel & G. Graham: A Companion to Cognitive Science (Blackwell: Oxford 1998), p. 184.
15 Ned Block define como consciência de acesso um estado mental cuja representação é capaz de entrar como premissa em raciocínios e ser adequada ao controle racional da ação e do discurso. De um lado ele parece aqui próximo de cometer a falácia de definir a consciência pelo polo conativo do mental, mas de outro lado, a sua intenção de promover uma definição funcional de consciência aproxima-se do que chamei de consciência discursiva. Ver N. Block: “On a Confusion about a Function of Consciousness”, Behavior and Brain Sciences 18:2, 1995, pp. 227-287.
16 Immanuel Kant: Kritik der reinen Vernunft (Crítica da Razão Pura), B 131-132.

# IDENTIDADE E NECESSIDADE EM KRIPKE

Texto extraído do livro Cartografias conceituais: uma abordagem da filosofia contemporânea (Natal: Edufrn 2008) - C.F. Costa




                                    IDENTIDADES SEM NECESSIDADE (KRIPKE)
                                                           Doutrinas inaceitáveis que iluminam são como
                                                           cruzes em mapas, que mostram onde tesouros
                                                           se encontram ocultados.
                                                           Brian Magee


A teoria filosófica resultante das aplicações da lógica modal feitas por Saul Kripke aos problemas da referência sempre me pareceu um notável costurado de confusões. Como a maioria discorda, quero justificar-me através de uma discussão crítica do seu artigo “Identity and Necessity”(1), que antecede as doutrinas do livro Naming and Necessity(2) e que contêm algumas idéias fundamentais recém-tiradas do forno. Os parágrafos resumindo o artigo de Kripke virão em itálico, para distinguir dos parágrafos contendo comentários meus.

     Kripke começa considerando um argumento modal para o caráter necessário de enunciados de identidade. Sendo N o operador de necessidade, que aqui será vista como de re (independentemente do modo de designação lingüístico), podemos considerar que, dado o princípio da substitutividade dos idênticos, segundo o qual “(x) (y) ((x = y) → (Fx → Fy))”, e dado o princípio da identidade, segundo o qual “(x) N(x = x)”, podemos concluir que se a propriedade F for a de ser necessariamente igual a x, então y também deve ter essa propriedade, ou seja, é necessário que y seja igual a x, em símbolos, “(x) (y) (x = y) → (N(x = x) → N(x = y))”, ou seja: “(x) (y) (x = y) → N(x = y)”.
    Kripke aceita esse resultado, sendo por ele levado à surpreendente conclusão de que identidades entre nomes e identidades teoréticas (essenciais) são necessárias. Assim, se a e b são realmente nomes e “a = b” é uma identidade verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Esse seria o caso de identidades como “Hesperus é (o mesmo que) Phosphorus” e “Cícero é (o mesmo que) Túlio”, que para Kripke são necessárias. Mais além, se F e G são predicados teoréticos, definidos como designadores de propriedades essenciais, e a identidade teorética (x) (Fx = Gx) é verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Por isso identidades como “Calor é movimento molecular” e “Um estado mental é um estado físico”, se verdadeiras, são necessárias.
    O próprio Kripke nota que identidades entre nomes e teoréticas têm sido geralmente consideradas contingentes, expondo as razões. Considere o enunciado “Hesperus é Phosphorus”. Sendo que Hesperus é Vênus visto ao anoitecer e Phosphorus é Vênus visto ao amanhecer, foi uma importante descoberta astronômica a de que se tratava do mesmo planeta. Assim sendo, essa parece ser uma verdade empírica contingente. O mesmo se aplica a identidades teoréticas, como “Calor é movimento molecular”. Essa identidade foi uma descoberta da ciência e poderia ser falsa, pois se a teoria do calórico fosse correta então o calor não seria movimento molecular. Este parece ser, pois, um enunciado contingente, pois o necessário é o que é verdadeiro sem que seja possível ser de outro modo.
     A tese de Kripke, porém, é a de que todas essas identidades, embora a posteriori, são necessárias, apesar de aparentarem não sê-lo. Para reforçá-la ele introduz uma distinção sua entre designador rígido, por ele definido como um termo que designa o mesmo objeto em todos os mundos possíveis nos quais esse objeto existe, e o designador não-rígido, que pode designar objetos diferentes em outros mundos possíveis. Para ele, um exemplo de designador não-rígido é uma descrição definida como “o inventor das bifocais”, que é George Washington, mas que pode em princípio ser outra pessoa qualquer. Já exemplos de designadores rígidos são descrições como “a raiz quadrada de 25”, que em qualquer mundo possível será cinco, ou nomes próprios como George Washington, que se aplica a uma mesma pessoa, em qualquer mundo no qual ela tenha vivido. Para Kripke, tanto nomes próprios quanto predicados teoréticos são designadores rígidos.

     Parece claro que uma expressão matemática é um designador rígido, pois essa designação não depende de como o mundo é. Mas será que nomes próprios são realmente designadores rígidos? Imagine um mundo possível quase idêntico ao nosso, no qual, logo após o nascimento de George Bush um marciano tenha se apossado do seu corpo e desde então o tenha usado como uma camuflagem, tornando-se presidente dos Estados Unidos e realizado as mesmas ações. Não seria o caso então que nesse outro mundo o nome ‘Bush’ estaria sendo usado para identificar uma outra pessoa, diferente daquela que ele é em nosso mundo? Parece que não. Pois em defesa de Kripke podemos dizer que se trata de uma falsa identificação de Bush no mundo quase idêntico ao nosso, a qual pode ser corrigida, não impedindo que o nome seja um designador rígido. Nesse mundo o verdadeiro George Bush teria morrido logo após o nascimento. O caso é, portanto, muito diferente daquele que encontramos na descrição ‘o inventor das bifocais’, pois pode ser facilmente imaginado um mundo no qual o inventor das bifocais não tenha sido George Washington, sendo ainda assim George Washington essencialmente o mesmo lá e aqui. A conclusão é a de que nomes próprios verdadeiros de fato funcionam como designadores rígidos: eles designam necessariamente uma mesma coisa em qualquer circunstância de mundo na qual ela exista.
     Uma coisa bem diversa, porém, é saber se o conceito de designador rígido tem as conseqüências que Kripke dele espera, de garantir a necessidade de re de identidades. Penso que a assunção dessa necessidade seria desnecessária no caso em que a teoria descritivista dos nomes próprios – segundo a qual eles estão no lugar de feixes de descrições definidas – for capaz de explicar de que maneira o recurso a descrições poderia tornar o nome um designador rígido. Kripke parece, em Naming and Necessity, ter mostrado que isso é impossível. Quero, no excurso que se segue, mostrar que uma forma descritivista de teoria dos nomes próprios pode em princípio ser desenvolvida de maneira a dar conta da propriedade da rigidez.
     Aqui vai o argumento. Descrições são expressões de regras de conexão com o objeto. Algumas descrições, como ‘o estagirita’, exprimem regras identificadoras do objeto. Afinal, é importante a informação de que Aristóteles nasceu em Estagira, que é grego. Mas a maioria das descrições definidas são enganadoras, pois exprimem apenas regras de conexão com o objeto que são meramente auxiliares. Esse é o caso, por exemplo, de ‘a cidade luz’, ‘o preceptor de Alexandre’, ‘O inventor das bifocais’, ou ainda, de ‘o filósofo referido pelo professor’. Minha sugestão é a de que as regras-descrições fundamentais de identificação para um nome próprio sejam as que o conectam com:

     (A) as características do objeto que para nós são mais relevantes.
     (B) a região e percurso espaço-temporal do objeto.

      Esses dois tipos de regras de identificação fundamentais não são por si mesmos suficientes. A suas instanciações deve ser aplicada a seguinte regra de ordem superior:

Regra meta-identificadora para nomes próprios:
O referente de um nome próprio N identifica-se por ser o objeto que satisfaz as condições estabelecidas pelas regras de tipo (A) e/ou (B) para N de maneira unívoca e suficiente.

     Quero exemplificar minha sugestão com o nome ‘Aristóteles’. A condição (A) para Aristóteles é a de que ele tenha sido um dos grandes filósofos da humanidade, mais precisamente, ‘o autor das grandes idéias do opus aristotélico’. A condição (B) é a de que ele seja ‘a pessoa nascida em Estagira em 384 a.C. que viveu a parte mais importante de sua vida em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C.’. Isso é o mais relevante, como qualquer enciclopédia pode testemunhar.
     As descrições auxiliares podem todas falhar. Pouco importa, por exemplo, que Aristóteles não tenha sido o preceptor de Alexandre, nem o maior discípulo de Platão, nem o fundador do Liceu. Mas as descrições dos tipos (A) e (B) são fundamentais e não podem ambas falhar de todo, pois nesse caso o nome não mais se aplica.
     Alguns exemplos evidenciam esse ponto. Pode ser que em um mundo possível semelhante ao nosso haja a seguinte diferença: o Aristóteles grego nunca existiu e o opus aristotélico foi escrito por um filósofo árabe medieval com o pseudônimo ‘Aristóteles’... Nesse caso tenderemos a dizer que a regra (B) para Aristóteles deixou de se aplicar, mas que Aristóteles é o filósofo árabe, pois (A) ainda se aplica. E pode ser ainda que exista um mundo possível no qual os dados biográficos de Aristóteles estejam corretos, mas que ninguém tenha escrito o opus aristotélico. Nesse caso ainda admitiremos, pela satisfação de (B), que ele existiu. Mas não é possível conceber um caso no qual nem a condição (A) nem a condição (B) estejam sendo minimamente satisfeitas! Não pode ser, por exemplo, que em um mundo possível Aristóteles tenha nascido no século XX e que nunca tenha sido filósofo, mas sim um grande armador grego que namorou Callas e se casou com Jackeline... Pois nesse caso o nome do filósofo perderia todo o seu sentido para roubá-lo indebitamente de um homônimo.
     Ora, pode bem ser que a regra meta-identificadora, exigindo uma satisfação suficiente de condições de identificação estabelecidas por uma disjunção de regras identificadoras de primeira ordem, seja aquilo que dá a um nome a estabilidade que regras de conexão com objeto expressas por descrições definidas carecem.
     Contra tal sugestão poderia ser objetado que os limites de aplicação estabelecidos pela regra meta-identificadora são inevitavelmente vagos. Mas isso não significa, como o sorites comprova, que tais limites não existam. Afinal, é bem concebível um mundo possível no qual Aristóteles nem existiu nem não existiu. Esse seria o caso, por exemplo, de um mundo possível no qual a filosofia aristotélica nunca tenha surgido, pois embora em 384 a.C. tenha nascido em Estagira um bebê de nome ‘Aristóteles’, ele morreu ainda muito jovem. Teria sido ele o nosso Aristóteles em potência?
     A solução para essa dificuldade é simples: basta redefinir o designador rígido como sendo aquele que se aplica a todos os mundos possíveis nos quais o objeto inequivocamente e definidamente existe. É pelo fato de que a regra meta-identificadora se aplica em qualquer mundo possível no qual o objeto existe univocamente e suficientemente que um nome próprio como ‘Aristóteles’ é um designador rígido.
     Temos aqui também uma explicação para o fato de a maioria das descrições definidas (ex: ‘o inventor das bifocais’) não serem designadores rígidos. Ao se aplicarem elas se subordinam semanticamente à regra de identificação de algum nome próprio (como George Washinghton). Por isso há mundos possíveis nos quais os objetos referidos pelos nomes que as correspondem não as satisfazem, posto que, ou elas não se aplicam, ou elas se aplicam a outros objetos que não aqueles a que elas usualmente, por sua subordinação semântica ao nome próprio, se referem (por exemplo, no mundo no qual foi João da Silva quem inventou as bifocais). Isso é comprovado pelo fato de descrições definidas que não se vinculam semanticamente a nomes próprios (como, por exemplo, ‘o terceiro regimento de cavalaria’) serem designadores rígidos.
     Se admitirmos semelhante versão revisada da teoria descritivista dos nomes próprios, podemos sugerir que a regra meta-identificadora é constitutiva do núcleo de significação de um nome próprio, tornando-o um designador rígido cuja necessidade é apenas de dicto, ou seja, convencionalmente estabelecida. Essa versão revisada da teoria descritivista aqui toscamente esboçada demanda, obviamente, uma elaboração que não posso oferecer aqui.

     Kripke também considera a noção de aprioridade. A verdade a priori é aquela que pode ser conhecida sem recurso à experiência. Muitos consideram o necessário e o a priori equivalentes. Mas a noção de necessidade é metafísica – sobre o modo como o mundo poderia ser – enquanto a noção de a priori é epistemológica – sobre como conhecemos o mundo atual. Kripke pensa que as duas classes não se equivalem. Considere, escreve ele, a conjectura de Goldbach, segundo a qual qualquer número natural é a soma de dois primos. Ela pode ser uma verdade necessária sem que saibamos disso a priori.

     A sugestão de que a necessidade é metafísica e a aprioridade é epistemológica pode ser questionada. Ela só vale se a necessidade for entendida como de re, como Kripke pretende. Mas se existem necessidades de re é algo que não podemos saber. Elas seriam necessidades das coisas mesmas como, supostamente, a de uma lei natural. Contudo, como podemos saber que uma lei natural é necessária? Ora, nossa falibilidade epistêmica no que diz respeito ao conhecimento empírico nos impede de adquirirmos conhecimento certo acerca disso. Por isso, a espécie de necessidade das leis naturais só parece poder ser de dicto, ou seja, resultado de convenções pragmático-lingüísticas que nos dizem que elas devem ser tratadas como se fossem necessárias. Trata-se, pois, de uma necessidade hipotética, postulada com base na experiência e aceita como regra no sistema de linguagem – no que Wittgenstein chamou de jogo de conhecimento da física(3). Eis a sua sugestão, na qual lemos a palavra ‘regra’ como envolvendo proposições a priori:

Toda proposição empírica pode servir como uma regra se ela for fixada como peça imóvel de um mecanismo, de tal forma que a totalidade da representação gira ao seu redor tornando-a parte de um sistema de coordenadas independente dos fatos(4).

     Para exemplificar o que Wittgenstein quer dizer, consideremos uma lei física qualquer, digamos, “e = mc2”. Ela pode ser duplamente compreendida:

(a) Como componente da teoria da relatividade generalizada, pressupondo a verdade dessa teoria. Nesse caso ela será vista como necessária e a priori, ou seja, como um postulado independente da experiência, sendo a sua necessidade de dicto (convencional).
(b) Com relação ao nosso sistema total de crenças, a mesma lei física deve ser considerada como um enunciado a posteriori e contingente. Afinal, nesse caso ela pode em princípio ser falseada pela observação, posto que a falibilidade é um traço pervasivo de nosso conhecimento empírico(5).

     Isso explica porque enunciados como “Hespherus é Phosphorus” e “Calor é movimento molecular” podem ser considerado a posteriori e contingentes (com relação ao nosso sistema total de crenças) e também a priori e necessários de dicto (como componentes de subsistemas de crenças, respectivamente, a astronomia e a termologia).
     Quanto à conjectura de Goldbach, se ela for verdadeira, será necessária, e se for uma verdade necessária é porque potencialmente sabemos disso a priori.

     O exemplo mais famoso de enunciado necessário a posteriori introduzido por Kripke é o da mesa de madeira a sua frente. Ele começa com a pergunta: poderia ela ter sido feita, desde o início de sua existência, da água congelada do Tâmisa? Certamente que não.  Ela seria um objeto diferente. Assim, o enunciado “Essa mesa, se ela existe realmente, não pode ser feita de gelo” mostra-se uma verdade necessária conhecida a posteriori. Mesas, diz ele, geralmente não são feitas de gelo, essa parece ser de madeira, não está fria, portanto provavelmente não é feita de gelo. Claro, pode ser um truque, sendo ela na verdade de gelo. Mas não é isso, diz Kripke, o que ele pretende. O que ele pretende é que dado o fato de ela não ser feita de gelo, mas de madeira, não se pode imaginar que ela poderia ser feita de gelo. Dado que ela não é feita de gelo, conclui ele, é necessário que ela não seja feita de gelo. Em outras palavras: sendo P = “Essa mesa não é de gelo”, sabemos a priori da verdade de “Se P então NP”. Ademais, sabemos por investigação empírica que P é verdadeiro. Juntando esses dois enunciados ele constrói o seguinte argumento usando o modus ponens:

     1  P → NP
     2  P                  
     3 
Logo: NP

     É, pois, necessário que a mesa não seja de gelo, embora isso só seja conhecido a posteriori, pela investigação empírica.

     Minha dificuldade com este argumento diz respeito ao status epistemológico de P. A lógica trata da verdade de P abstraindo do fato de que P, como qualquer enunciado empírico, só pode ser conhecido e avaliado em seu valor-verdade quando considerado por sujeitos epistêmicos inevitavelmente falíveis. Mas esse não é o caso de nenhum enunciado de nossa vida real! Considerado em seu significado, naquilo que entendemos com ele, o enunciado P da segunda premissa poderia ser reescrito como (2’): “É praticamente certo (extremamente provável) que P”. Com efeito, tem de ser assim, pois só Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente, poderia ter como absolutamente certa a verdade do enunciado P (atribuindo-lhe probabilidade 1). Deus poderia saber da existência factual de P, que é o mesmo que saber da verdade absolutamente certa de P, que seria então uma necessidade de re. Já quanto a nós, tudo o que podemos saber é que P é um enunciado praticamente certo, a dizer, extremamente provável (ou seja, com uma probabilidade muito próxima de 1), posto que nosso conhecimento empírico nunca é certo (é possível, por exemplo, que algum demônio enganador me faça crer que estou diante de uma mesa de madeira quando ela na verdade é de gelo, como o próprio Kripke admite). Consideremos agora a primeira premissa. Com ela o mesmo não pode ser feito. É compreensível a idéia de que, dado o fato de que P, daí se segue NP. Assim, o que P → NP diz é (1’) “Se é o caso que P, então é necessário que P”. Mais além, a apreensão epistêmica de que P é um fato dado só será possível para um sujeito epistêmico que tenha absoluta certeza de P. Assim, a primeira premissa poderia ser ainda reescrita como (1’’) “Se é absolutamente certo que P então é necessário que P”, mas não como (1’’’) “Se é praticamente certo (extremamente provável) que P então é necessário que P”, pois a mera probabilidade de P, não importa quão alta seja, não garante a necessidade de P. Admitindo, pois, substituir a premissa (1) por (1’) e (2) por (2’), o argumento de Kripke se torna:

1  Se (é absolutamente certo que) P, então é necessário que P.
2  É praticamente certo que P.
3  Logo: É necessário que P.

    Qual o status lógico desse argumento? Ora, ele é obviamente inválido, posto que o modus ponens não pode ser aplicado a 1 e 2. E ele continuará inválido mesmo se revertermos a primeira premissa a (1’) como “Se é o caso que P, então é necessário que P”, pois o antecedente não está dizendo o mesmo que (2’). O argumento de Kripke nada faz, portanto, para convencer-nos de que o enunciado “Essa mesa não é de gelo”, embora a posteriori, seja necessário. Ele é a posteriori e portanto contingente como era esperado. A impressão de que ele possa ser necessário advém do fato de que o enunciado “Se essa mesa é de madeira então ela não é de gelo”, que é necessário e conhecido a priori, costuma entrar no raciocínio que conduz à conclusão de que a mesa não é de gelo. Eis o raciocínio implícito na afirmação de que a mesa não é de gelo:

1  Se essa mesa é de madeira então ela não é de gelo.
2  Essa mesa é de madeira.
3  Logo: Essa mesa não é de gelo.

     Como a primeira premissa é um enunciado necessário e a priori, enquanto a segunda premissa é um enunciado contingente a posteriori (pois só pode ser praticamente certo que a mesa é de madeira), a sugestão enganosa de que a conclusão é necessária e a posteriori torna-se disponível. Contudo, conclusões de argumentos que misturam a priori com a posteriori e necessidade com contingência herdam sempre a última propriedade dessas distinções sendo, pois, a posteriori e contingentes, como ocorre com P.

     Outro caso de enunciado necessário e a posteriori é, segundo Kripke, o das identidades entre nomes, como “Hesperus é Phosphorus” e “Cícero é Túlio”. Estas são identidades empíricas, geralmente consideradas contingentes. Para Kripke elas são identidades entre designadores rígidos, o que as torna necessárias, posto que em qualquer mundo possível esses nomes irão se referir ao mesmo objeto, não sendo pois possível uma situação na qual Hesperus não seja Phosphorus ou em que Cícero não seja Túlio. Poderíamos, diz ele, ter identificado Hesperus e Phosphorus com dois corpos celestes distintos, mas nesse caso a frase “Hesperus é Phosphorus” teria um outro significado. Este seria o caso, por exemplo, se marcianos tivessem habitado a terra e tivessem identificado Hesperus com Vênus e Phosphorus com marte. De modo similar, 2 + 2 = 4 seria falso se por 4 entendêssemos a raiz quadrada de -1. O mesmo se dá com a identidade “Cícero é Túlio”. Parece que esse enunciado é contingente porque por vezes aprendemos esses nomes com o auxílio de descrições como “o maior orador romano”, achando que identificamos o objeto por meio de propriedades contingentes quando na verdade tais nomes não são sinônimos de descrições, mas designadores rígidos.

     Também das supostas necessidades de identidades empíricas podemos discordar. Mudanças no valor-verdade de uma identidade como “Hesperus é Phosphorus” não se devem somente a confusões quanto a convenções para a aplicação dos nomes. Podemos convencionar a necessidade de dicto de Hesperus ser idêntico a Phosphorus com base em teorias hoje universalmente aceitas pelos astrônomos, admitindo tal necessidade sob o pressuposto da verdade dessas teorias. Mas com relação à totalidade potencialmente mutável de nossas crenças, essa é uma identidade contingente. Como é bem sabido, foi uma descoberta astronômica que Hesperus – o corpo celeste visto ao anoitecer – é o mesmo que Phosphorus – o corpo celeste visto ao alvorecer. Contudo, esses nomes não tinham significados diferentes antes dessa descoberta. É verdade que hoje sabemos que esses nomes se referem a um mesmo planeta, Vênus. Mas, embora seja extremamente improvável, é possível que se descubra que Hesperus não é Phosphorus, e que Phosphorus, o corpo celeste mais brilhante visto ao alvorescer, é na verdade um outro astro. Pode ser, por exemplo, que os Deuses tenham produzido uma grande ilusão de conhecimento nas mentes humanas e que os planetas na verdade não passem de um enxame de pequenos vagalumes que a cada noite se reúnem para decorar a abóboda celeste... Nesse contexto, Hesperus tem localização diversa de Phosphorus quando visto olho nu, mas parece idêntico a Phosphorus quando visto pelo telescópio, não por ser um mesmo planeta, mas como resultado de enfeitiçamento.
     Poderíamos também aqui aplicar o mesmo argumento do início, chamando h de Hesperus e p de Phosphorus:

     1  (h = p) → N(h = p)
     2  h = p                     .
     3  Logo: N(h = p)

     O problema é que também aqui o modus ponens não se aplica, pois a identidade h = p expressa no antecedente da primeira premissa só implica em N(h = p) se ela for pensada como uma identidade certa, como objeto de certeza absoluta. Contudo, para tal ela precisaria ser descoberta, não pelo sujeito epistêmico humano, que por sua inevitável falibilidade é incapaz disso, mas por Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente (o que certamente de nada nos adianta). Quanto à “h = p”, a segunda premissa, ela só pode ser, como vimos, uma hipótese empírica dizendo algo como “É praticamente certo (extremamente provável) que “h = p”, o que mesmo assim não é absolutamente certo. A formulação seguinte demonstra o equívoco do argumento segundo o mesmo modelo:

       1  Se (é absolutamente certo que) h = p, então N(h = p).
       2  É praticamente certo que h = p.
       3  N(h = p)

     Note-se que a expressão ‘é absolutamente certo que’, com o seu elemento epistêmico, não é necessária, podendo ser substituída por ‘é o caso que’. Mesmo que a espécie de certeza absoluta requerida pela identidade da primeira premissa não seja acessível, é evidente que de “(h = p) → N(h = p)” e “É praticamente certo que h = p”, não podemos usar o modus ponens para derivar N(h = p).
     O próximo exemplo de Kripke diz respeito à identidade entre tipos de coisas. Considere o enunciado “Calor é movimento molecular”. Muitos pensam que essa é uma verdade a posteriori, pois é resultado de investigação científica empírica. Mas para ele essa é uma identidade necessária a posteriori, pois o calor (nos gazes) não pode ser outra coisa senão a energia cinética molecular média. Pode ser, diz ele, que a terra viesse a ser habitada por seres que sentissem frio quando sentimos calor e vice-versa, de modo que calor não seria para eles idêntico a movimento molecular. Mas nem por isso calor significaria frio, pois o calor é entendido como o movimento molecular, tal como ele é sentido por nós. Para Kripke os termos ‘calor’ e ‘movimento molecular’ são designadores rígidos, o que torna a identidade entre eles necessária. Para ele o fato de o movimento molecular produzir a sensação de calor é usado para fixar a referência, tornando a identidade necessária; a ilusão de contingência se deve ao fato de que confundimos isso com o fato contingente de identificarmos o movimento molecular pela sensação de calor.

     A situação imaginada por Kripke da terra sendo habitada por seres que sentem frio no lugar de calor apenas nos desvia do ponto essencial, que é a falibilidade de nossas constatações de identidade entre tipos de coisas. Imagine que por razões totalmente inesperadas quase toda a nossa química tenha de ser revisada e que se venha a descobrir que a melhor explicação para o calor é, com efeito, a de que se trata de um flúido inflamável semelhante ao calórico. Nesse caso será simplesmente falsa a identificação do calor nos gazes com o movimento molecular. Claro que a possibilidade dessa revisão é extremamente remota, mas não se trata de algo logicamente impossível. E se é logicamente possível que o calor seja idêntico a quantidades de calórico, então não é logicamente necessário que o calor seja movimento molecular e não o calórico. O erro cometido por Kripke consiste em confundir a necessidade empírica de identidade do calor com o movimento molecular com a necessidade que nela vemos sob o pressuposto da verdade da teoria termodinâmica, esquecendo-nos que essa teoria faz parte de nosso sistema total de crenças, o qual pode evoluir de modo a falseá-la, falseando com isso a identidade. Como já notamos, tal necessidade só pode ser de dicto, pois depende da postulação de alguma teoria para se afirmar. 
     Como para Kripke calor e movimento molecular, sendo designadores rígidos, designam necessariamente a mesma essência, o seu argumento, chamando calor de C e movimento molecular de M, poderia ser construído como:

     1  ((Cx = Mx) → N(Cx = Mx))
     2  (Cx = Mx)
     3  Logo: N(Cx = Mx)

     Presenciamos aqui o retorno sistemático da mesma dificuldade. A primeira premissa diz apenas que se é um fato que (Cx = Mx) então isso é necessário, ou então, de um ponto de vista epistêmico, que se for absolutamente certo que todo calor é movimento molecular, então é necessário que todo calor seja movimento molecular. Mas em qualquer dos casos, a identidade expressa na segunda premissa é alcançada por sujeitos epistêmicos falíveis com base em dois aspectos diferentes de uma essência a que temos todas as razões para crer que é a mesma, tratando-se outra vez de certeza prática. Ora, com base nas premissas “Se (é absolutamente certo que) Cx = Mx, então é necessário que Cx = Mx” e “É praticamente certo (extremamente provável) que Cx = Mx”, não podemos usar o modus ponens para concluir “É necessário que Cx = Mx”. A formulação que evidencia o equívoco é:

    1  Se (é absolutamente certo que) (Cx = Mx) então N(Cx = Mx).
    2  É praticamente certo que (Cx = Mx).
    3  Logo: N(Cx = Mx)

    O último exemplo de Kripke concerne à teoria da identidade de tipos na relação mente-corpo, segundo a qual enunciados como “Dor é um estado cerebral tal e tal”, seriam descobertas científicas contingentes e a posteriori ainda por serem feitas. Mas, escreve Kripke, ‘dor’ e ‘estado cerebral tal e tal’ são aqui designadores rígidos, pois designam propriedades essenciais. Contudo, se é assim, o teórico da identidade está em papos de aranha, pois a identidade precisa ser necessária, o que se choca frontalmente contra o fato de que ninguém há de negar que é possível conceber que tenhamos dores sem termos os correspondentes estados cerebrais (podemos imaginar que ao abrirmos o crânio de uma pessoa nele encontremos apenas um punhado de palha). O teórico materialista, escreve Kripke, precisa defender que coisas que podemos imaginar na verdade não podemos imaginar, o que torna a teoria da identidade improvável.     
     Esse argumento parece-me claramente inconsistente. Se fosse assim teríamos de rejeitar também a identificação entre calor e movimento molecular, posto que podemos perfeitamente imaginar o calor na independência, por exemplo, da vibração molecular (calor nos sólidos), no caso em que a neve do pólo sul fosse mais quente do que as areias do Sahara.
     Afora isso, a objeção aqui é a mesma que no caso anterior: do ponto de vista ontológico pode ser absolutamente certo e conseqüentemente necessário que a dor seja o mesmo que certo estado cerebral. Mas só Deus pode saber disso com absoluta certeza. Para nós, sujeitos epistemológicos falíveis, essa identidade, ou é necessária e de dicto e, portanto, a priori, ou é contingente e a posteriori, posto que a sua constatação é capaz de espelhar apenas provavelmente a sua realização ontológica. Crer no contrário, como Kripke inadvertidamente faz, é atribuir à identidade epistemicamente suposta o mesmo status de uma identidade ontologicamente realizada que enquanto tal é incognoscível.


Notas:
1 Saul Kripke: “Identity and necessity”, publicado em Identity and Individuation, ed. M. K. Muniz (New York University Press: New York 1971).
2 Saul Kripke: Naming and Necessity (Blackwell: Oxford 1980).
3 Ludwig Wittgenstein: Über Gewissheit (Sobre a certeza) (Suhrkamp: Frankfurt 1984), Werkausgabe vol. 8.
4 Ludwig Wittgenstein: Bemerkungen über die Grundlage der Mathematik (Observações sobre os fundamentos da matemática) (Suhrkampf : Frankfurt 1984) Werkausgabe vol. 6, parte VII, p. 437.
5 Um ponto central da filosofia de Karl Popper foi o de que não pode haver leis irrefutáveis na ciência empírica, posto que aquilo que a torna científica é o próprio fato de ela ser aberta à refutação empírica. Ver Logik der Forschung (A Lógica da Investigação) (Mohr Siebeck: Tübingen 2005(1935)).




 
                              

REVIEW OF SEARLE'S BOOK MIND, LANGUAGE AND SOCIETY

Review of John Searle, Mind, Language, and Society (Basic Books 1998). The review was published in the journal Philosophical Investigations, vol 23, n 1, January 2000



               REVIEW OF SEARLE’S BOOK MIND, LANGUAGE AND SOCIETY
                                                          Claudio F. Costa


Though we don't live in a world of outstanding philosophers, J. R. Searle is one of the few who approaches this category; after all, where could we find today a systematic work in philosophy with such a solid original treatment of relevant issues, with so much clarity and penetration of thought? Such is the appraisal that one might almost inevitably make when reading Mind, Language and Society, a book written by Searle to give an overview of his forty years of philosophical work.
     The book is written in the most clear and lively philosophical prose one could imagine, and can be useful to students as an introduction to Searle's work, as well as to the philosophical problems dealt with in it. But it would be very misleading to think of this only as an introductory book, since it raises new ideas and exposes old ones to new light. As it would make no sense to try to summarize and discuss so many ideas here, I will present only a few that seem particularly relevant to me or give occasion for critical commentary.
     Chapter 1 is a defense of what Searle calls the ‘Enlightenment vision’. In theoretical philosophy this can be described as the vision that holds that there is an external, independent real world, which is immediately accessible to us; that this world is intelligible, especially through science; that humans share common patterns of rationality which make this intelligibility possible; that there is an objective causal determinism; that truth is conformity to facts; and that words have their own, distinctive meanings. Such views are what Searle calls default positions – fundamental views whose rejection common sense holds untenable. Nevertheless, as Searle shows, the majority of the influential philosophers of our time (like Rorty, Derrida, Feyerabend and, to a certain extent, also Quine, Putnam, Kuhn, Davidson and others) have come to work against the Enlightenment vision.
     How can this be explained? Searle sees a deep psychological reason for this, called by him a ‘basic urge to power’ (p. 18). This urge makes it uncomfortable to accept that we are subject to an external world that is independent of our minds and to a very large extent uncontrollable and threatening. For this reason, we are tempted to search in our philosophy for mitigation of this state of affairs, insofar as we can argue that the constitution of the outside reality is in some sense relative to and dependent on the mind, or that this reality doesn’t have an independent determinism and causality. Moreover, it is at least implicit in the text that a source of our temptation to dismiss the value of factual truth, of clarity and rigor, and also of our scientific reason, is that the admission of these values requires a restraint of our capacity of self-deception. Searle has come to see very clearly that those temptations are being satisfied today by a sophisticated though deceptive philosophical literature, intended to seduce us as a refined kind of analgesic against the full awareness of reality.
     This kind of diagnosis is certainly not new. Similar ideas were thought by the Enlightenment philosophers and also by thinkers as diverse as Russell and Freud in the (in certain aspects maybe more enlightening) first half of this century. But its present restatement by Searle, directed to contemporary theoretical philosophy, is very opportune, since the supposedly ‘post-modern’ intellectual scenery can give us the impression that we have evolved beyond this kind of anti-enlightening temptation. The fact is that in philosophy those temptations seem able to be more efficacious today than ever, since they are not under thoroughgoing criticism and since the state of affairs that causes them, though some somewhat relieved by the progress of science, remains basically the same. Finally, I'm not certain if this serious cause of anti-Enlightenment is not in some cases surpassed by more spurious ones, like a gratuitous delight in intellectual amazement without a serious point or simply the wish to make things easier.
     Searle does not remain with an external, genetic diagnosis. The main part of his attack is internal, consisting of very well aimed – though not detailed – arguments directed against the metaphysical anti-Enlightenment in its present forms. To choose one of them, I present Searle’s general refutation of the two basic arguments against external (or direct) realism – the theory that we have direct perceptual access to the external world. They are what we can call the argument of science and the argument of illusion. The first asserts that we can't perceive the real world, since science has shown us that what we perceive is only our internal experience of the world, which is only the end of a series of causal steps. This is fallacious, writes Searle, since from the fact that we can give a causal account of how it comes about that we experience the real world it does not follow that we do not experience the real world (p. 28). (Indeed, abstraction of non-relevant steps of a process is a fully acceptable semantic feature of our concept of directness. I can correctly say, for example, that I'm seeing a football game directly through the TV, though I am aware of the fact that I'm seeing only images, which come through different stations of retransmission, satellites, etc.)
     In his answer to the argument of illusion, Searle begins by identifying its general form: the argument is based on the consideration that we can't show a phenomenal difference between the veridical phenomenal experience (I see a chair in front of me) and the non-veridical phenomenal experience (I push one of my eyeballs and the chair seems to move itself). If we can't see the difference – so the argument goes – we don't have grounds to believe that some phenomenal experiences are more veridical than others, that some concern the real world while others do not. Searle answers that this argument is fallacious, since a phenomenal difference is not necessary to the distinction. The difference between veridical and non-veridical experience is already identified through the integration of the experience within the network of other experiences and taken-for-granted capacities we have for coping with the world – an integration that is absent in the non-veridical phenomenal experience.
     Another interesting idea set forth in the first chapter is that external realism (direct realism) is not a theory about the world, but the general framework within which it is possible to have such theories; not a claim about the existence of this or that object, but a presupposition of the way we understand such claims (p. 32). External realism is a background presupposition that is taken for granted by us when we eat, walk or drive a car (p. 39).
     Though this is a suggestive idea, the following thought-experiment seems to show that it is nonetheless counterintuitive. Suppose that there is a far more developed civilization in which, when someone commits a crime, for humanitarian reasons he will not be condemned to death, but to live the rest of his life as a brain in a vat. So, after the criminal hears his sentence, his brain is surgically extracted and put into a vat, where a virtual world perfectly similar to the world he has inhabited is produced, so that he can continue living and interacting with it in the same way as always, though being well aware that it has ceased to be the real world. It seems clear that, in spite of this somewhat uncomfortable awareness, he will hold the same theories about the world he has always held, and he will not stop acting; he will eat, walk, drive a car, and perhaps commit other murders. But if his ideas about the world and his actions were dependent on the background presupposition of their reality, as Searle thinks, it seems that he should fall into a state of radical skepticism and complete lethargy.
     Chapters 2 and 3 of Searle's book deal respectively with the problems of the nature and the structure of consciousness, exposing ideas mostly already developed in his earlier book, The Rediscovery of Mind (MIT: Cambridge 1992). The fundamental insight is Searle's proposal for the dissolution of the mind-body problem, which is here stated in its clearest form. For Searle the mind-body problem is not a genuine one, arising from the fact that the dualist, accepting that consciousness is irreducible, thinks that it must be something non-physical, while the materialist, believing that conscious states are physical occurrences in the brain, thinks of them as suspicious entities, in need to be reduced to physical. For Searle the dualist is right in saying that consciousness is irreducible and the materialist is right in thinking that it is a natural, biological phenomena. Consciousness is a ‘high-level property of the brain’, an ‘emergent’ biological property. This statement seems to make him an identity theorist. But the identity theorist is a materialist, who believes that conscious states can be reduced to states of the brain, somewhat as the hardness of a piece of ice can be reduced to the state of the molecules of water. Searle shows that such an analogy is misleading: both ice and water molecules have a third-person ontology; but although brain states have a third-person ontology, it belongs essentially to consciousness to have a first-person ontology, in which consciousness exhausts itself (p. 57). And this means that consciousness must be accepted as irreductible.
     Having dissolved the mind-body problem in this way, a surrogate of it arises: how is brain causally related with consciousness and its different conscious states? This is a very big problem, but Searle does not see it as a philosophical one. It is a scientific problem, which will be only answered when we are able to develop a comprehensive neuroscience of mind. Against this, a philosopher could complain: ‘This is not really my question; my question is: how it is possible that a physical brain causes something so peculiar, so idiosyncratic as consciousness’. Searle would certainly answer that this is a pseudo-question (see the conclusion of Searle’s book The Mistery of Mind,  NYREV: New York 1997). The question is like that which could be made by someone at the end of the last century, who, after being informed about Darwin’s theory, would reply: ‘Even if natural selection occurs, the mystery remains, namely, how could an arbitrary processes of natural selection possibly explain the creation of things so beautiful as the orchid, so precise as the eagle’s eye, or so complex as the human brain?’ To this, the only answer would be: ‘Wait and see; the day scientists are able to uncover more accurately the mechanisms of evolution and to historicize it in much more detail, your wonder about natural selection will vanish’. In a similar way, Searle thinks that the day scientists develop a comprehensive neuroscience of mind, any further philosophical question about the mystery of consciousness will show itself out of place. Nonetheless, his position is much more difficult than that of the evolutionist, since he is arguing for the consequences of a theory that does not exist yet.
     An interesting passage in the third chapter is Searle's presentation of his analysis of the unity of consciousness. For him it is a double unity: first, of the experiences hanging together in the consciousness in a certain moment – the ‘vertical unity’; and second, of things coming and going, being preserved in short-term memory – the ‘horizontal unity’ – which is essential to our capacity to give sense to our thoughts and experiences (p. 74 f.). Along with this, he discards what he calls the fallacy of the homunculus as the entity responsible for unifying all those conscious experiences. He suggests instead that the nature of consciousness alone is responsible for the unity of consciousness, and not something additional (p. 82). It seems obvious enough that this idea could also be used against Kant's suggestion of the existence of a non-experienceable ‘transcendental subject’ of all subjective (and objective) experiences, as also against its contemporary surrogate, the ‘elusive I’.
     There is at least one point in these two chapters with which I can't agree, namely, Searle's indulgence in the idea that an artificial brain could in principle have consciousness (p. 53). The very idea seems to me somewhat grotesque. My reason for dismissing it is based on the fact that consciousness is dependent on sense perception and feelings. Could a non-living automaton be constructed in order to duplicate precisely the same quality of sensations and feelings that living beings have? Consider basic sensations, for example, pains, tastes, sexual excitation, or even our auditory and visual impressions as they are for us; consider feelings like love, hope and despair. We can conceive an automaton who imitates the behavior associated with such mental states (it drops tears of pain, its photoelectric cells eat light, it unplugs itself when utmost contradicted...), or that has some internal analogical resemblance to corresponding parts of our nervous system (it has sensory elements that can be roughly compared with our sensory cells…). However, a mechanical duplication of such biological sensations and feelings as they are in themselves seems to be in principle unconceivable, since at those levels only the biological can match the biological. Moreover, the quality of our feelings depends in some way on the quality of the sensations we have, so that an automaton, to duplicate our feelings, would need to duplicate our sensations too. But if at the basic levels of sensations and feelings there is no possibility of constructing a mechanical duplication, then the rationality seems to be compromised as well, for even if the computational aspects of our reasoning can be mechanically duplicated, reason can't be duplicated in its proper autonomy, since this autonomy is in some way dependent on our emotional and sensorial life – on our passions, as Hume said. The fact that we intuitively realize that conscious life can't be non-biologically duplicated is the very reason, I think, that the idea of a ‘human computer’ seems to be so awkward. This idea seems to me more consistent with Searle's own biological view of consciousness.
     Chapter 4 is about intentionality, urging that intentionality – like consciousness – must be seen as an irreducible, intrinsically mental phenomenon. If we try to reduce intentionality to brain states, we are led to an unsolvable problem: how to explain that these neurophysiological states are about anything? If we try to view linguistic intentionality (which only makes sense as derived from mental intentionality) as primary, the same unsolvable problem appears again: how could any assemblage of words refer to something?
     Chapter 5 resumes Searle's theory of social reality. He shows how social reality, composed of social facts, can be created by collective intentionality. Here again there is a point I find questionable: his explanation of collective intentionality, not as a metaphysical ‘we-intention’ floating above individuals, nor as a mere sum of individuals’ ‘I-intentions,’ but as a ‘we-intention’ residing in the head of each individual person (p. 119). I disagree with all these alternatives. If each individual had a ‘we-intention,’ for example, to push a car, in the end we would have not only one, but a sum of collective intentions. Moreover, a musician does not say, ‘I have the intention to play the symphony’ nor ‘I have our (collective) intention to play the symphony.’ She would say, ‘We have the intention to play the symphony and I have the intention to participate in it.’ So I prefer to think that the ‘we-intention’ exists as something different from individual intentions, though compounded from them; it belongs to a group of individuals, though not to the individuals belonging to the group, so that one can be aware of a collective intention, and one can also take part in it, but one can't have it as it exists for the group (a pretension some altruists falsely have). This idea isn't any more metaphysical, I believe, than more familiar ones, such as the idea that a geometrical figure can't be reduced to the sum of its parts.
     The last chapter, on language, is to bind the threads together. It deals with the relationship between language and mind, showing how conventional meaning is derived from collective intentionality and how language is a matter of institutional fact. Once again, there are too many interesting points to be considered here. The book ends with some metaphilosophical remarks derived from the exercise of philosophy exemplified in it. Searle accepts the concept of philosophy as an endeavor that anticipates science: it is the best way we have to deal with the very broad questions that have not already been given away to science, and there is no exclusive methodological approach to this. Indeed, philosophy involves those things, at least, even if its more precise nature remains unexplained.

A FILOSOFIA DA MENTE EM SEARLE (introdutório)

Texto extraído do livro Cartografias conceituais: uma abordagem da filosofia contemporânea (Natal: Edufrn 2008). Acho que embora útil como informação, esse texto não faz jus a espécie de excrutínio crítico mais detalhada que a obra de Searle mereceria.



          JOHN SEARLE SOBRE CONSCIÊNCIA E O PROBLEMA MENTE-CORPO


Há um gênero de pensadores cujas mentes brilham como holofotes. Ao iluminarem os objetos visados, elas o fazem com tamanha intensidade que parecemos vê-los à luz do dia. Essa qualidade, porém, acompanha-se de um inconveniente, que é o de cegar-nos para tudo o que se encontra ao redor. Para o bem e para o mal, Searle é um filósofo desse gênero. Por isso o breve resumo que farei aqui das respostas originais que ele deu aos problemas fundamentais da natureza da consciência e da relação mente-corpo será complementado por uma ainda mais breve crítica, reveladora de algumas coisas importantes que ficaram ofuscadas ou distorcidas.
Consciência como o estar acordado, atento ao mundo ao redor
Para Searle ser consciente é estar acordado, atento, percebendo o mundo. Segundo ele, a consciência começa quando acordamos, dura o dia inteiro e volta a desaparecer quando caímos em um sono sem sonhos, ou quando somos anestesiados ou morremos...(1) Trata-se, aqui, da consciência no sentido mais amplo possível, aquele no qual até mesmo um camundongo pode ser considerado consciente. Ele distingue esse sentido do de autoconsciência, que se restringe quase que só aos humanos. A estratégia investigativa de Searle no que concerne à consciência é a de selecionar e analisar as características mais próprias da mente consciente.
     A primeira delas é o caráter qualitativo, a presença de qualidades fenomenais chamadas tecnicamente de qualia. Não há definição para os qualia. Mas quando uma pessoa leva um soco no olho e fica vendo estrelas, elas são qualia; e quando ela arde de paixão, essa ardência é feita de qualia. Sensações e emoções conscientes são, pois, qualidades fenomenais. Searle, contudo, vai além e sugere que os “sentimentos qualitativos” pervadem toda a consciência, inclusive estados cognitivo-intencionais, como pensamentos e crenças. O pensamento “Dois mais dois é quatro”, diz ele, soa diferente de “Deux et deux fait quatre”, e “Dois mais dois é cento e oitenta e quatro” soa estranho. Por conseguinte, pensamentos também possuem qualia(2).
     A segunda característica da consciência é a subjetividade ontológica. Searle sugere corretamente que há uma tendência errônea de se pensar que a subjetividade ontológica implica em subjetividade epistemológica, e que por causa disso tudo o que é subjetivo é irresgatável para a ciência. Ora, as duas noções são independentes. Há coisas que são ontologicamente objetivas, mas epistemologicamente subjetivas e vice-versa. Considere, por exemplo, as avaliações acerca do governo do presidente Jucelino Kubitcheck. Embora a qualidade do seu governo seja algo objetivo, a sua avaliação epistêmica é subjetiva e incerta, pois falta consenso. Por outro lado, a avaliação de um estado mental como a intensa dor abdominal em barra relatada por pacientes com pancreatite aguda é epistemicamente objetiva, embora seja um estado ontologicamente subjetivo. O mesmo se dá com a consciência: o fato de ela ser um fenômeno ontologicamente subjetivo não a torna epistemicamente subjetiva. Por isso ela pode ser objeto de investigação científica. 
     Uma terceira característica da consciência é a unidade, o que Kant chamava de “unidade transcendental da apercepção”: a consciência se apresenta sob a forma de um campo unificado. Todos os meus estados mentais conscientes vêm ligados a uma subjetividade única que os acompanha.
     As características acima apresentadas são as mais importantes, mas ainda há outras. Uma delas é a intencionalidade, mesmo que nem todo o estado consciente seja intencional. Outras características são ainda o humor, a distinção entre centro e periferia, prazer e desprazer, situação, atividade e passividade, estrutura gestáltica e a presença de um eu unificador da experiência.
     Searle também discute as duas principais abordagens da consciência, que são a de blocos de construção – aproximação da consciência somando as consciências parciais – e a de campo de consciência – aproximação analítica a partir da totalidade da consciência. Ele prefere a última. Para mostrar a vantagem dessa abordagem ele constrói a seguinte experiência em pensamento: Uma pessoa acorda em um quarto escuro, sentindo apenas o peso de seu corpo. Mesmo assim, ela tem um completo campo de consciência. Se a porta se abre, a luz se acende, ela ouve sons... então não parece que uma nova consciência foi criada, como a abordagem dos blocos de construção prevê, mas que o campo pré-existente foi modificado, ou seja, que calombos e afundamentos se formaram no campo. A natureza da consciência parece, pois, privilegiar a abordagem de campo de consciência(3).

Relação mente-corpo como confusão conceitual
Quanto ao problema da relação mente-corpo, Searle busca uma solução intermediária entre o materialismo e o dualismo. O materialismo está errado porque pretende uma redução completa da consciência ao comportamento neuronal. Para isso seria necessária uma redução ontológica, ou seja, uma demonstração de que a consciência é constituída pelo comportamento neuronal. Para Searle, porém, a consciência não é constituída pelo comportamento neuronal, pertencendo a uma ordem superior. Nós sabemos disso porque por definição ela é caracterizada pelo acesso em primeira pessoa, enquanto o acesso que temos ao comportamento neuronal é em terceira pessoa. Portanto, o materialismo é falso.
     Mas o dualismo também é falso, posto que a consciência é inteiramente causada pelo comportamento neuronal. Embora não sendo ontologicamente redutível ao material, pensa Searle, ela é causalmente redutível a ele. Como conseqüência, ela não é algo metafisicamente diverso, como a res cogitans cartesiana.(4)

Problemas
Instigantes como o são, as idéias de Searle encontram-se abertas às seguintes objeções:
1. O argumento para demonstrar que os elementos fenomenais-qualitativos chamados de qualia pervadem todo o mental precisa ser melhor qualificado. Na verdade os qualia se restringem a sensações e emoções. Claro que “Deux et deux fait quatre” soa diferente de “Dois mais dois é quatro”. Mas a expressão lingüística do pensamento não deve ser confundida com o pensamento enquanto tal. É ela e não o pensamento que produz uma reação sensório-emocional diferente quando expressa em línguas diferentes. Frege já havia distinguido entre pensamentos de um lado e iluminações (Beleuchtungen) de outro. Iluminações são acompanhantes psicológicos não-convencionais da expressão lingüística dos pensamentos, nada tendo a ver com eles. Estados cognitivo-intencionais são essencialmente representativos e dependentes de articulações conceituais; a sua associação com os qualia, quando ocorre, é contingente.
2. O conceito de consciência analisado por Searle é o daquilo que D. M. Armstrong chamava de consciência perceptual – o estar acordado, alerta, percebendo o mundo ao redor e o próprio corpo – e não o do que esse mesmo autor chamava de consciência introspectiva – o conhecimento reflexivo dos próprios estados mentais. Essa última constituía para Armstrong (e hoje também para filósofos como D. M. Rosenthal, com a sua defesa da idéia de que a consciência depende da formação de pensamentos de ordem superior) o conceito mais relevante de consciência, distintivo do ser humano e de alguns animais superiores. Estamos, enquanto filósofos, mais interessados na consciência humana (que é admitidamente uma autoconsciência), mas não podemos dar conta de suas peculiaridades investigando um conceito de consciência que é tão vasto a ponto de incluir camundongos e lagartos entre os seres que a possuem.(5)
3. K.T. Maslin objetou contra Searle que não é rigorosamente correto dizer que estados neuronais causam a consciência(6). Posso dizer (usando um exemplo do próprio Searle) que certa combinação de moléculas causou a explosão, mas isso é uma maneira a rigor incorreta de dizer que essa combinação constituiu a explosão. Da mesma forma, o mais correto seria dizer que alguma combinação de comportamentos neuronais constitui a consciência, não que a causa. Searle evita esse modo de falar porque ele o comprometeria com o materialismo.
4. A solução de Searle para o problema mente-corpo parece-me claramente inconsistente. Quando ele afirma que a consciência pertence a uma ordem superior, não se constituindo de comportamento neuronal, embora sendo causada pelo último, ele está inadvertidamente defendendo o que tem sido chamado de dualismo de propriedades, uma conclusão já chegada por Thomas Nagel(7). Segundo essa doutrina, a propriedade do mental é emergente no sentido de que embora ela dependa de estados neurofisiológicos, não se reduz a eles, pertencendo, pois, a um novo domínio ontológico. Searle, no entanto, rejeita o dualismo. Ele afirma que não existe um reino do mental, metafisicamente diverso do físico. Ora, aqui parece residir a grande incoerência de sua “solução”, pois ele também afirma que o mental não é ontologicamente redutível ao físico. Ora, como o metafísico implica no ontológico (se não for a mesma coisa), se o mental não é ontologicamente redutível ao físico então ele deveria pertencer a um reino ontologicamente (ou metafisicamente) diverso e Searle deveria admitir que é um dualista de propriedades(8).    



Notas:
1 J. R. Searle: The Rediscovery of Mind (MIT-Press: Cambridge Mass. 1993), p. 84.
2 J. R. Searle: Consciousness and Language (Cambridge University Press: Cambridge 2002), p. 40.
3 J. R. Searle: Mind: a Brief Introduction (Oxford University Press: Oxford 2004), pp. 154-5.