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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

WITTGENSTEIN E A GRAMÁTICA DO SIGNIFICADO


Esse artigo foi publicado em A linguagem factual. Deverá ser republicado com correções.

WITTGENSTEIN E A GRAMÁTICA DO SIGNIFICADO

Ao escrever este resumo argumentado de minha tese doutoral,1 defrontei-me com a seguinte dificuldade: como condensar o conteúdo de um trabalho sistemático, no qual os argumentos particulares só adquirem poder de convicção quando compreendidos em sua relação com o todo, sem simplificar em demasia e aparentar inconsciência das dificuldades envolvidas? Para que esse inconveniente fosse amenizado, segui a estratégia de me restringir a algumas ideias centrais envolvendo a noção de regra semântica, desenvolvidas nos capítulos I, VI e VII, abstraindo de muitas outras questões interpretativas a elas relacionadas.
Começo enunciando a tese mesma. O objetivo proposto foi, através de um trabalho de reconstrução racional,2 que procedesse pelo esclarecimento de supostas relações entre os diferentes princípios semânticos sugeridos nos escritos de Wittgenstein, o de esboçar os traços gerais de uma teoria do significado filosoficamente relevante, concebida como uma elucidação genérica da gramática desse conceito - o que redundaria em um esquema conceitual esclarecedor do que precisa ser sabido para a compreensão de expressões quaisquer.
Há, na literatura secundária, pelo menos duas tentativas de se extrair semelhante teoria dos escritos de Wittgenstein: o livro de J. T. E. Richardson3 e um artigo de Paul Feyerabend.4 0 resultado não especialmente elucidativo desses trabalhos deve-se, ao meu ver, em parte, ao modo demasiado interpretativo de aproximação das questões.
O pressuposto orientador de minha reconstrução pode ser visto como um “principle of charity”, maximizador do corpus de frases verdadeiras. Esse pressuposto é o de que as diferentes sugestões feitas por Wittgenstein sobre a natureza do significado, as quais relacionam-no com o uso, com a sua explicação, com o método de verificação, com critérios, com regras da gramática, com um cálculo, e até mesmo com a correspondência de sentenças com fatos possíveis, devem ser preferencialmente vistas como diferentes meios de aproximação do mesmo problema ou de aspectos dele – diferentes metáforas elucidativas – e não como incompatíveis tentativas de explicação, por vezes inconsistentemente agrupadas, ou que teriam sido abandonadas sempre que o filósofo se apercebia de sua inadequação, como se ele estivesse progredindo por um método cego de tentativa e erro.
Uma maneira de ilustrar esse ponto de vista é evocando a parábola dos cegos e do elefante. Cada cego apalpa uma parte do elefante, descrevendo-o de maneira diferente: um diz que é uma corda, porque toca a sua cauda; outro abraça a sua perna afirmando tratar-se do tronco de uma árvore; outros, apalpando outras partes, dizem que se trata de um grande pára-vento, de um sifão, de um muro... Wittgenstein, ao contrário, estava suficientemente consciente de estar se aproximando de um mesmo problema por diferentes meios, sob diferentes ângulos, considerando a diversidade de seus aspectos, abandonando a perspectiva escolhida quando o poder de esclarecimento de suas analogias parecia esgotar-se, o que frequentemente acontecia pelo encontro de dificuldades incontornáveis. Essa é uma razão da alusividade de seus escritos; ele tomava o cuidado de não generalizar suas sugestões ao modo dos cegos da parábola e de alguns de seus intérpretes, o que ocorre mesmo em suas sempre matizadas alusões aos “erros” do Tractatus.
I
Uma dificuldade metodológica que se apresenta sempre que tentamos uma reconstrução sistematizadora do que Wittgenstein escreve, diz respeito a sua concepção de filosofia. Trata-se da objeção, que hoje sabemos ser interpretativamente simplificadora, segundo a qual ele a teria concebido como desempenhando uma função meramente terapêutica, qual seja: a de uma atividade puramente crítica, constituída de simples descrições de casos de aplicação da linguagem. Tais descrições seriam capazes de promover, pela mera apresentação de contra-exemplos, uma espécie de reductio ad absurdum de pretensas teses filosóficas, originadas de confusões conceituais locais, engendradas pela mente metafísica - o que excluiria qualquer atividade teorética ou explicativa. Tal concepção não é a minha, nem julgo sua pressuposição necessária.
Apesar das aparências, veiculadas pelo fato de a filosofia do último Wittgenstein ser crítica no conteúdo e fragmentária na apresentação, a dificuldade metodológica que assinalamos pode ser refutada; – primeiro externamente, por considerações acerca do conteúdo de seus escritos, depois internamente, em alguma medida, por uma interpretação mais circunstanciada de suas considerações sobre a natureza da filosofia.
Quanto aos escritos de Wittgenstein, é correto afirmar que a sua filosofia terapêutica não se faz sem pressupostos teoréticos, explícitos ou não. Como observou Cari Hempel: “Mesmo que a filosofia se limitasse, casuisticamente, a ajudar moscas individuais a escaparem de suas particulares garrafas papa-moscas, semelhante atividade filosófica ou terapia estaria ainda assim enformada em princípios gerais. Uma mosca presa numa garrafa, um homem preso num labirinto precisa ser conduzido para fora com seus olhos envoltos em uma bandagem: ele seguirá seu condutor cegamente e irá finalmente encontrar-se a si mesmo lá fora, mas ele não irá compreender como foi preso nem como foi trazido para fora. Mas não há nenhum análogo a esse modo de libertação física no caso da pessoa filosoficamente confundida em um labirinto. O único meio de trazê-la para fora é com seus olhos abertos, como que mostrando o caminho da saída, para usar uma expressão de Wittgenstein; quer dizer, ela deve vir a entender qual a parte da armadilha foi deixada em primeiro lugar e como evitar que o mesmo aconteça em outras situações semelhantes. E isso sempre requer ‘insights’ de um tipo geral, concernentes, por exemplo, a contextos linguísticos de um determinado tipo, cujas regras gerais são então projetadas no caso particular em questão.”5 A eficácia da terapia provém do fato de o paciente se dar conta de que a sua dificuldade é ocasionada por pressupostos que contradizem princípios cujo nível de generalidade e abstração deve equivaler ao das próprias ideias filosóficas criticadas, e isso se dá à revelia das supostas pretensões antiteoréticas de Wittgenstein.
Isso é tomado evidente quando consideramos o conteúdo sugerido pelas anotações de Wittgenstein, como, por exemplo, o argumento contra a possibilidade de uma linguagem originariamente privada. Como observou A. J. Ayer sobre a afirmação wittgensteiniana de que a filosofia não deve explicar, mas somente descrever: “sua repetida preferência por descrições e não pela explicação, e sua abstenção de teorias cuja prática ele assevera realizar e reivindica para os seus leitores, não são características de seu procedimento atual em qualquer estágio de seu desenvolvimento, inclusive nas Investigações Filosóficas. Que suas explicações sejam rúnicas, isso não as reduz a descrições; suas teorias não deixam de sê-lo por serem encobertamente assentadas”.6
Embora pertinente, essa objeção não chega a ser inteiramente justa. A noção de descrição não precisa ser assimilada a algo equivalente à descrição não-explicativa de uma paisagem.
Também Strawson e Searle chamam as suas atividades de “descritivas”, embora elas sejam obviamente explicativas e teoréticas. Mas o que se pretende com esse modo de dizer é assinalar a natureza metalinguística de uma investigação teorética que procede a uma exposição daquele nosso conhecimento tornado a priori como regras de funcionamento da linguagem; é apontar o caráter não-revisionário dessa investigação; é aconselhar que ela seja feita em um “modo formal” de discurso, que considere essas regras na abstração de sua aplicação concreta e praticamente motivada. A ênfase na descrição resume-se então a pouco mais que um playdoier por esse modo formal, no qual os referidos princípios são descritivamente expostos. Ora, não seria esse também em Wittgenstein um intuito implícito?
Parece que sim, pois é possível evidenciar que o sentido por ele dado à palavra ‘teoria’, e com ele o de todo um grupo de palavras semanticamente interdependentes, como ‘explicação’, ‘descrição’, ‘hipótese’, ‘tese’... afasta-se do sentido usual, o que, como em outros casos de termos por ele usados em sentido peculiar, pode confundir o intérprete.
Com a palavra ‘teoria’, hoje o sabemos, Wittgenstein geralmente tinha em mente a espécie científica de teoria. Intérpretes como S.S. Hilmy e a dupla Backer & Haker mostraram que ele queria criticar a assimilação do trabalho do filósofo à concepção e ao método da ciência, tendo em mente uma crítica às concepções de filosofia de Russell e James. Como consideram Backer e Haker: “A objeção de Wittgenstein ao ‘teorizar’ em filosofia é uma objeção à assimilação da filosofia, em método e em produto, a uma ciência teorética hiperfísica. A filosofia não é hipotético-dedutiva. Mas, se esmeradas refutações ao idealismo, solipsismo ou behaviorismo, envolvem um esforço teorético, Wittgenstein se engaja nele [...]”.7
Essa interpretação é corroborada pelo uso positivo do conceito de teoria que Wittgenstein às vezes faz. Em Zettel, § 144, ele escreve: “nós temos agora uma teoria, uma teoria ‘dinâmica’ da frase, da linguagem, mas ela não nos parece uma teoria”. Com isso ele quer se opor a algo como a “filosofia científica” de Russell, que propõe teorias hipotéticas à semelhança da ciência, bem como suas “explicações” e “teses”. Em escritos inéditos, observa Hilmy, Wittgenstein chega a empregar uma expressão extravagante para o que ele faz, chamando-o de “teoria da relatividade da linguagem”. Trata-se, em tais casos, da teoria entendida como uma descrição de traços fundamentais da gramática de certos termos muito gerais e de aplicação sobremodo complexa, uma teoria que não vem estruturada como um sistema arquitetônico no sentido kantiano, mas antes no sentido schopenhaueriano - referido, aliás, pelo próprio Wittgenstein - de um sistema que se desenvolve como um organismo, em uma discussão aporética, indefinida.
O conceito mais característico dessa dimensão construtiva da filosofia terapêutica é o de apresentação panorâmica, que é como tento traduzir a expressão “übersichtliche Darstellung”. A apresentação panorâmica , escreve Wittgenstein, “designa a forma de nossa representação, a maneira como vemos as coisas” (PU 122). Para ele a falta dessa visão geral é importante fonte de erros, razão pela qual torna-se filosoficamente relevante a tarefa de encontrar (finden) os elos existentes entre os conceitos, e mesmo de inventá-los (erfinden), estabelecendo-se assim uma ordem possível (PU 122, 132). A representação panorâmica é como uma fotografia aérea da gramática; do mesmo modo que a fotografia, ela ressalta os traços mais fundamentais, perdendo em nitidez quanto aos detalhes mais específicos. A elucidação filosófica pode conseqüentemente assumir uma forma semelhante ao que Strawson quis entender com a expressão metafísica descritiva, cuja função é a de oferecer-nos elucidação das relações vigentes entre nossas estruturas conceituais mais fundamentais, um esclarecimento capaz de nos prover de maior transparência semântico-conceitual, de uma compreensão mais clara de nossas frases (WWK p. 223, PU 90). Tal representação panorâmica não pode ser outra senão teorética. Transcrevendo-se mais uma vez as palavras de Backer e Haker: “Se a filosofia é uma questão de representação panorâmica, então deve haver sistema. Pois uma sinopse não pode se constituir de uma casual coleção de aperçus. Se ela não é abarcante, ela é ao menos sistemática.”8 O máximo que se pode afirmar é que Wittgenstein consideraria o trabalho sistemático inadequado como estratégia heurística em filosofia.
Não é então forçoso concluir, como o fez A. Kenny,9 que Wittgenstein defende simultaneamente duas concepções incompatíveis de filosofia, uma terapêutica e outra mais construtiva e ortodoxa, posto que uma análise mais aproximada tende a desfazer a suposta tensão existente entre elas. Com sua insistência no aspecto terapêutico, o que Wittgenstein pretendia não era tanto excluir a teorização autenticamente filosófica, quanto censurar a pressa dos filósofos em fabricar fabulações especulativas que um mapeamento suficientemente cuidadoso dos fatos linguísticos teria tornado dispensáveis. (BB p. 19)
Parece assim claro que a crítica à metafísica pressupõe ela própria, implicitamente, uma outra metafísica, ainda que “descritiva”, a qual baseia seu maior poder de convicção nos pressupostos comuns da linguagem. E isso é assim porque terapia e representação panorâmica, atividade crítica e atividade teorética, são como duas faces inseparáveis da mesma moeda filosófica, cabendo a fatores extrínsecos às questões mesmas que o filósofo se concentre mais em um ou outro lado desta.
Admitida essa duplicidade, pode-se ainda argumentar que a importância de uma teoria do significado, entendida simplesmente como uma representação panorâmica da gramática constitutiva desse conceito, também resida em funções terapêuticas, as quais se realizariam em dois níveis. Em um nível mais geral, a terapia se aplicaria criticamente a certos modelos de “teoria do significado”, como o objetualista, o causal, o representacional... Em um outro nível, mais específico, a função terapêutica de tal representação panorâmica poderia ser assim definida: desde que para a compreensão do significado de qualquer frase, já precisamos ter de antemão uma compreensão implícita do que o significado seja, a elucidação do conceito geral de significado explicitaria pressupostos que de outro modo poderiam ser equivocamente alterados em considerações sobre o significado de outros termos filosoficamente relevantes - pressupostos que funcionariam então como instrumentos heurísticos no correto esclarecimento dos significados desses termos.
II
Feitas essas considerações preliminares, passo ao tema do primeiro capítulo, que é um exame da identificação feita por Wittgenstein entre o significado de uma expressão linguística e o seu uso ou aplicação. O papel central da identificação e a relativa simplicidade do conceito de uso tornam esse um ponto de partida adequado.
Na fórmula “o significado de uma palavra é seu uso na linguagem” (PU 43; PG 23; BB p. 69), a noção de significado é suficientemente clara: trata-se de significados de expressões linguísticas, não só de palavras, mas também de frases, pois essas são também “instrumentos para aplicações específicas” (PU § 291). Não se trata, ademais, simplesmente daquilo que costumamos chamar de significado lexical ou literal das expressões, concebido como aquele normalmente considerado na abstração dos contextos - tanto materiais quanto representacionais e linguísticos - em que elas são aplicadas. Em Wittgenstein, o significado de uma expressão é sempre intencional e contextuai. Ele está intrinsecamente ligado ao que se “intenciona dizer”, ao que se “quer dizer”, ao que se “tem em mente” com a expressão em um sentido que, veremos, não é meramente psicológico, mas função de regras ou convenções. Esse elemento intencional, por sua vez, é contextualmente dependente, pois é o contexto, em sentido amplo, que esclarece a intenção, permitindo a diversificação do que se “quer dizer”. Considere-se, por exemplo, uma frase como “Antônio visitou Calpúmia”. Ela tem um significado lexical, mesmo que não saibamos quem são Antônio e Calpúmia, nem quando e por que Antônio a visitou. Tal não é possível com o sentido mais determinado da palavra ‘significado’ que Wittgenstein quer considerar. Para ele, quando não se tem “algo a dizer” com uma frase, quando ainda não se tem aberto o caminho de sua vinculação ao contexto, ela deixa de servir ao seu fim, deixando de ser verdadeiramente, relevantemente significativa. Daí fica mais fácil entender a razão pela qual ele diz que “é no uso que as palavras vivem”; que o uso é “seu sopro vital”; que elas só ganham sentido “no fluxo da vida” (Z 135; PU 432). É por seu necessário prolongamento intencional, pelo fato de este “querer dizer” ter uma relação necessária com contextos particulares que definem o pleno significado da expressão, que o significado tem propriamente a ver com o uso.
Uma investigação da natureza deste significado-intenção, deste sentido de utilização contextualmente determinado, justifica-se muito particularmente em filosofia, dado que as perplexidades semântico-conceituais que permeiam qualquer reflexão filosófica não dizem respeito simplesmente aos significados lexicais ou literais, mas às confusões e aos equívocos que as semelhanças entre os múltiplos significados intencionais permitem que sejam produzidos nos contextos linguístico-representacionais de argumentações metafísicas.
Passemos agora a uma análise da noção de uso na equivalência entre significado e uso. Como essa equivalência parece intuitivamente fazer sentido, e tendo o primeiro termo da relação, a palavra ‘significado’, o sentido exposto anteriormente, a estratégia argumentativa seguida consistiu em analisar os diversos sentidos da palavra ‘uso’ em busca daquele sentido “privilegiado”, em que ela satisfizesse a identificação sugerida.
‘Uso’ não significa, evidentemente, o que poderíamos denominar uso singular de uma expressão: o uso entendido como ocorrência, a realização espaço-temporalmente localizada de um proferimento. Se assim fosse, uma mesma expressão teria um significado diferente a cada vez que fosse proferida, o que é absurdo. Não se trata, também, do uso arbitrário, não-convencional, como o de Humpty-Dumpty, cuja presunção era a de achar que suas palavras significavam simplesmente o que ele quisesse que significassem. Afinal, se as palavras significassem tudo o que quiséssemos, elas não seriam capazes de significar mais coisa alguma. Se não se trata do uso arbitrário, trata-se então do uso correto? Do uso em conformidade com regras? Parece que sim, mas há um sentido em que essa sugestão deve ser recusada; é quando o uso em conformidade com regras é entendido como um determinado uso singular. Nesse caso, correto ou não, ele continuará sendo um outro a cada nova aplicação da mesma expressão, devendo pois alterar-se, tornar-se outro o seu sentido a cada aplicação, o que obviamente não se dá.
Felizmente, a palavra ‘uso’ não funciona somente na designação de uma simples ocorrência espaço-temporal de algo. Na linguagem ordinária, ‘uso’ (Gebrauch) é uma palavra que geralmente funciona como abreviação de ‘modo de uso’ (Gebrauchsweise). É possível dizer: “Eu fiz uso da [usei a] palavra x de acordo com seu uso'. Nessa frase a palavra ‘uso’ ocorre duas vezes. Em sua primeira ocorrência ela designa somente um uso singular da palavra x, a realização espaço-temporal, não sendo aqui possível substituir ‘uso’ por ‘modo de uso’. Mas na segunda ocorrência sim. E possível que se diga: “Eu fiz uso da palavra de acordo com o seu modo de uso". Importante é notar que algo paralelo ocorre quando procuramos substituir a palavra ‘uso’ pela palavra ‘significado’ na frase acima. Na primeira ocorrência a substituição não faz sentido. Não faz sentido dizer: "Eu fiz significado da [signifiquei a] palavra x de acordo com seu uso”. Na segunda ocorrência da palavra ‘uso’, entretanto, a substituição é perfeitamente legítima. Pode-se dizer: “Eu fiz uso da palavra x em concordância com seu significado [modo de uso]”. Com efeito, só faz sentido identificar significado e uso quando este último é entendido como uma forma abreviada de se falar do modo, da maneira pela qual a expressão é aplicada. É Wittgenstein quem por vezes toma o cuidado de dizê-lo. Em várias passagens de seus escritos ele identifica significado com o modo ou a forma como a palavra é usada. “Um significado de uma palavra”, diz ele em Sobre a Certeza, “é um modo de sua aplicação (eine Art seiner Verwendung)” (ÜG 61).
Mas o que é o modo de uso? o modo de aplicação? Há na linguagem uma paráfrase adequada para o que essas expressões querem dizer? Consideremos o seguinte exemplo. Alguém recebe em casa um aparelho eletrônico. Na embalagem encontra-se um folheto explicativo intitulado:
MODO DE USO
Esse título vem, como de costume, seguido de uma série de instruções sobre a maneira como o aparelho deve ser utilizado. Aqui o sentido da expressão se toma transparente: ‘modo de uso’ é o nome que se dá a uma prescrição, a uma regra ou conjunto de regras, comumente interligadas, de cuja explicitação as instruções dão conta. Esse também é o caso quando se fala dos modos de aplicação de uma ferramenta, que se diferenciam pela diversidade das regras de manuseio. O que se tem em mente são sempre prescrições: regras especificadoras dos usos singulares.
A aplicação do mesmo raciocínio à identificação wittgensteiniana nos leva a perguntar se todo o sentido que tal identificação possa ter não se reduz a uma identificação entre o significado, o modo de uso, e certas regras, que seriam regras de uso. Há para tal sugestão prós e contras a serem discutidos. A favor dela está o fato de que o significado não se reduz a um simples acontecimento espaço-temporal, à diferença do uso singular. O mesmo podemos dizer das regras. Somente a aplicação da regra é um acontecimento espaço-temporal singular, mas não a regra mesma, designada pela expressão de regra (Ausdruck der Regei), e que se deixa conceber ao modo de uma função que se instancia em suas aplicações singulares. Também fala a favor da identificação o fato de que percebemos que pertence à natureza das regras serem, digamos assim, doadoras de significado. A regra-signo (Zeichenregel) “=>” orienta-nos forçosamente para a direita, o que dá sentido ao traço no papel. A doação de significado é uma propriedade constitutiva das regras: onde há regra há sentido.
Vejamos agora as objeções. Embora Wittgenstein chegue a dizer, ao menos em uma passagem das Lectures de 1930-32, que o significado de uma palavra consiste nas regras gramaticais que a ela se aplicam,10 ele costuma evitar uma identificação direta. Assim, em Sobre a Certeza ele diz que o significado, sendo o modo de aplicação, corresponde a regras (Cf. ÜG 62). E segundo o relato de Moore em suas anotações das Lectures de 1930-33, ao lhe perguntarem se o significado de uma expressão não seria uma lista de regras, Wittgenstein teria respondido com a insinuação de que uma tal concepção poderia estar associada a uma reificação, através da qual o significado estaria sendo tratado como se fosse algo visível. Essa observação deixa-se interpretar como uma crítica a uma suposta perda da plasticidade inerente ao significado intencional, que teria de ser admitida no caso de ele ser identificado a uma regra ou lista de regras.
Nas mesmas anotações feitas por Moore na passagem que antecede a anteriormente considerada e cuja importância foi aliás apontada por E. K. Specht, Wittgenstein aproxima significado e regra de uma maneira mais informativa: “o significado de qualquer palavra singular em uma linguagem é ‘definido’ (defined), ‘constituído’ (constituted), ‘determinado’ (determined) ou ‘fixado’ (fixed) pelas regras da gramática, com as quais ela é usada naquela linguagem.”11 A questão cuja resposta pode ser esclarecedora toma-se, por conseguinte: o que se pode entender por determinação (definição, constituição, fixação) do significado ou modo de uso pelas regras da gramática? E essa questão pressupõe a resposta a uma outra: o que são as regras da gramática?
Sendo assim, abandonarei provisoriamente a questão da determinação do significado por regras para considerar a noção wittgensteiniana de regra gramatical. Com a expressão ‘regra da gramática’ ele quer se referir, como observa E. K. Specht, ao que é expresso por frases a priori: frases que se diferenciam das frases empíricas costumeiras devido à sua necessidade e direta evidência.12 Como escreve Wittgenstein: “reconhecer uma frase como absolutamente certa significa usá-la como regra gramatical. Com isso se a priva de incerteza.” (BGM p. 88) Não se trata, porém, de regras altamente genéricas, como as da lógica formal, mas de regras mais ou menos específicas, como as expressas pelas frases seguintes, recolhidas dos textos de Wittgenstein:
(i)           O vermelho é uma cor.
(ii)         Duas cores não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
(iii)       Branco é mais claro do que preto.
(iv)       5 é um número.
(v)         A soma dos ângulos de um triângulo é de 180°.
(vi)       2.2 = 4.
(vii)     A ordem ordena seu cumprimento.
(viii)    A água ferve a 100° C.
(ix)       Eu não posso sentir as dores dos outros.
(x)         Eu sei que sou um homem.
(xi)       Eu tenho duas mãos.
(xii)     Todo bastão tem um comprimento.
(xiii)    Isso é uma cadeira.
(xiv)    Paciência se joga só.

Típico dessas frases é que elas expressam convenções que se tornam hábito, e que no funcionamento dos sistemas lingüísticos que as pressupõem não se fazem mais passíveis de dúvida, uma vez que elas costumam fundamentar o que neles ocorre. “Toda frase de experiência”, escreve Wittgenstein, “pode funcionar como regra, se ela é - como a parte de uma máquina, tornada imóvel, de modo que toda representação gira em torno dela e ela torna-se parte de um sistema de coordenadas e independente dos fatos.” (BGM p. 437) Com isso, na praxis desses sistemas elas se fazem tautológicas, não-informativas, e portanto, no dizer de Wittgenstein, “destituídas de sentido.”13
Frases gramaticais diferem de expressões de regras como as da lógica formal, pois, diferentemente dessas, elas dizem respeito a domínios ou regiões mais ou menos específicas da linguagem, podendo ser, para fins filosóficos, tematizadas em uma espécie de “lógica informal” (Ryle). As frases (i), (ii) e (iii), por exemplo, expressam regras pertencentes ao que Wittgenstein chama de linguagem das cores; as frases (iv), (v) e (vi) expressam regras pertencentes à linguagem da matemática; a regra expressa em (vii) fundamenta os jogos de comando; as outras, por sua vez, são constitutivas dos sistemas de linguagem da física (viii), das sensações (ix), da identificação pessoal, como (x) e (xi), da mensuração e identificação de objetos materiais, como (xii) e (xiii) etc. A frase (xiii), “Isso é uma cadeira”, é uma frase gramatical quando concebida como ocorrendo no contexto de uma definição ostensiva de um certo tipo de objeto; ela torna-se no caso a expressão que exemplifica uma regra da gramática, da qual o próprio objeto participa como elemento constitutivo da expressão. Nesse caso ela pode ser também substituída por uma definição mais completa, que prescinda do contexto, a definição verbal: “Uma cadeira é um objeto com tais-e-tais características”.
As regras da gramática constituem sistemas de regras, que formam regiões mais ou menos especificas da linguagem, as quais são geralmente denominadas, quando mais específicas, jogos de linguagem (cap. III). Podemos chamar de Jogos de linguagem (entre outras coisas) quaisquer fragmentos identificáveis da linguagem, que se deixam analisar como sistemas localizados de regras ou convenções geralmente implícitas, as quais são tidas como simples ou básicas no âmbito do próprio jogo. Eles são basicamente constituídos de quatro elementos: signos, participantes, contexto e regras ou convenções, as quais associam signos, participantes e contexto em conexões significativas. Podemos atomizar de muitas maneiras o todo da linguagem em jogos de linguagem cada vez mais simples, e depois construí-la outra vez pela combinação e ampliação dos últimos. Ainda que imperfeita, é aqui oportuna a comparação feita por Wittgenstein entre a linguagem e uma nebulosa: “O quadro que temos da linguagem do infante é aquele de uma nebulosa massa de linguagem, sua língua materna, circundada por discretos e mais ou menos distintos jogos de linguagem, as linguagens técnicas.” (BB p. 81)
Vemos também que a maior especificidade das regras da gramática é a razão de sua relevância semântica: o significado precisa ser algo característico de um signo ou combinação de signos. Por isso, regras muito gerais, como as da lógica formal, não costumam possuir o grau de especificidade requerido para individuar o significado, especialmente quando o que queremos levar em conta é a multiplicidade de suas extensões intencionais contextualmente determinadas. Esse ponto pode ser ilustrado se compararmos o processo de compreensão do significado de uma expressão com o trabalho de um carteiro na procura de um certo endereço. ítens como o país e a cidade são excessivamente genéricos; eles são de muito pouca valia, quando já não vêm pressupostos. Também nossas frases de conteúdo seguem regras como as investigadas na lógica formal, que por sua generalidade são insuficientes para individuar seus significados. O que permite ao carteiro chegar efetivamente onde deve são os itens mais específicos do endereço, como os nomes da rua e o número da residência onde mora o destinatário. O mesmo se dá com o que poderíamos chamar de “individuação semântica” de uma expressão; para que ela seja possível é necessário recorrer a regras ou articulações de regras cuja aplicação se circunscreve à expressão da qual queremos determinar o significado ou a sinônimos dela.
Como Wittgenstein escreveu: “o lugar da palavra na gramática é seu significado”. (PG 23) Com efeito, se algo o localiza, são as regras mais específicas da gramática. São elas as responsáveis pelas- finas modulações semânticas que importam à atividade filosófica.
Voltemos agora à questão que estávamos há pouco considerando, ou seja, à questão da determinação do significado pelas regras da gramática, ou ainda, à questão de uma possível identificação entre significado e algo “do tipo de uma regra” (etwas Regelartiges).
Na raiz da crítica wittgensteiniana a um enrijecimento do significado por listas de regras, parece estar um raciocínio como o seguinte: o número ilimitado de proferimentos com significados diversos que podem ser gerados em nossa linguagem, e mesmo a pluralidade daquilo que podemos “ter em mente” ao empregarmos uma expressão, exige que a noção de regra, se identificada com o significado, seja mais abrangente que a de algo como uma simples convenção ou hábito. Mesmo que se trate de uma lista fixa de convenções, ela é, não obstante, uma convenção, e que dominássemos listas ilimitadas de convenções seria, por razões não somente medicinais, inconcebível.
Consideremos então, novamente, a ideia de que o significado seja determinado pelas regras da gramática, as quais resultam, decerto, de convenções ou hábitos. O que significa em tal caso dizer que elas determinam (constituem, fixam, definem) o significado em proferimentos concretos?
Naturalmente, não se trata aqui da determinação do uso singular da expressão, de sua ocorrência, pois isso não é, como já vimos, o significado. Não: as regras determinam ou fixam o modo, a maneira como a expressão foi usada numa ou noutra ocorrência específica.
Em uma tentativa de esclarecer o que significa aqui ‘deter- minar’, podemos recorrer mais uma vez à analogia do aparelho eletrônico acompanhado de uma série de instruções intituladas “Modo de uso”. Podemos obviamente dizer que as prescrições ou regras da série determinam, fixam, constituem o modo de uso. Elas não costumam fazê-lo, porém, na independência umas das outras: mais frequente é que elas devam ser inter-relacionadas, por exemplo, que elas formem uma sequência interligada, na qual o seguimento de uma regra dependa do seguimento de outra. Característico disso é que as regras se concatenam, se combinam; que o modo de uso costuma consistir, não em uma regra só, mas em uma combinação de regras, e que essa combinação, embora possa já vir preestabelecida, pode ser também, em princípio, ilimitadamente variável (pense-se, por exemplo, nos programas de computação).
Com isso parece que encontramos a chave para a resposta à questão do sentido da palavra ‘determinação’, quando dizemos que as regras da gramática determinam o significado: o significado de uma expressão, seu modo de uso, é uma combinação de regras individuadoras do significado, regras que constituem a gramática específica de um jogo de linguagem ou de uma apropriada região da linguagem. Semelhante combinação não é vista como uma ocorrência singular, não se reduzindo a um acontecimento espaço-temporal, como o próprio significado. E como uma tal combinação pode ser ilimitadamente variada, a plasticidade e ilimitação do que queremos entender por significado segue preservada. Esclarece-se assim em que sentido o significado pode ser considerado algo “do tipo de uma regra”.
Uma outra analogia corrobora essa sugestão. Um lance feito no decorrer de uma partida de xadrez não é um ato destituído de sentido. Há nele uma espécie qualquer de significado. Em que consiste o sentido do lance? Certamente, não na regra simples, na regra básica pela qual ele é movido, pois nesse caso todos os lances com a mesma peça, em quaisquer circunstâncias, teriam o mesmo significado (o que sob uma perspectiva mais restrita é verdade). Mas o significado de um lance feito em uma partida de xadrez para aquele que o realiza, o seu significado “intencional”, constitui-se antes na estratégia que é por ele pensada, ou seja, no cálculo estratégico que ele faz: esse cálculo nada mais é do que uma combinação de possíveis regras simples, que poderiam ser aplicadas nos movimentos seguintes - no caso de um jogador profissional, não só complexas combinações eventuais de regras básicas, mas também estratégias (combinações conhecidas de regras básicas) das quais ele já tem domínio prévio. Se fosse perguntado pelo sentido de um lance realizado, o jogador responderia com uma descrição da combinação ou estratégia que ele tem em mente. Ora, também um lance (um proferimento) em um jogo de linguagem poderia ter seu significado identificado com algo como uma combinação de regras. – Com isso parece esclarecer-se mais um princípio semântico de Wittgenstein, o de que “o significado da expressão é aquilo que a explicação do significado explica” (PU 560). A explicação do significado nada mais é do que uma explicitação, mesmo que vaga e incompleta, das regras ou combinações de regras para a aplicação da expressão em jogos de linguagem.
Tais considerações devem se afigurar de algum modo familiares aos leitores da fase intermediária de Wittgenstein. Afinal, uma combinação de regras nada mais é do que um cálculo. Quando fazemos uma complexa operação aritmética, o cálculo não é mais do que uma combinação de regras mais elementares, as quais sabemos de cór. A isso objetar-se-á talvez que a ideia de que a linguagem funciona como um cálculo, ou, nas palavras de Wittgenstein, de que “o significado de um símbolo é o seu lugar no cálculo”, foi por ele abandonada e substituída pelo conceito mais flexível de jogo de linguagem, o que foi uma pedra de toque das interpretações, desde o livro de Pitcher até o comentário de Backer e Haker de 1980.
Essa interpretação, hoje se sabe, é incorreta. Sempre fora motivo de embaraço o fato de que Wittgenstein continuasse a fazer um uso positivo do conceito de cálculo, mesmo nos escritos posteriores à introdução da noção de jogo de linguagem, como se evidencia (em contradição com a conhecida crítica do § 81) nos §§ 26 e 559 das Investigações Filosóficas, e em certas passagens dos escritos sobre os fundamentos da psicologia. A razão disso ficou esclarecida na cuidadosa investigação do Nachlass publicada por S. S. Hilmy em 1987. Nela é mostrado como Wittgenstein usou nesses escritos as palavras ‘cálculo’ e ‘jogo de linguagem’ intersubstitutivamente. Como observa Hilmy: “No começo dos anos 30 ele tinha já claramente em um sentido abandonado o que pode ser chamado ‘o modelo do cálculo do Tractatus'. No entanto, ele continuou a usar o termo ‘cálculo’ em um sentido positivo para caracterizar a linguagem, e fez isso também na década de 40, longo tempo depois do  chamado ‘período transicional’ do começo dos anos 30.”14
O fato é que, quando Wittgenstein critica a noção de linguagem como cálculo nas Investigações, e mesmo bem antes, como na página 25 do Blue Book, ele não está atacando a ideia implícita de uma combinação de regras, mas uma série de associações indesejáveis que a palavra ‘cálculo’ traz à tona, principalmente as ligadas à noção de cálculo lógico, constituído por regras exatas, rígidas, explicitamente definidas. Mas tal não costuma ser o caso das regras implícitas, inexatas e facilmente alteráveis de nossos jogos de linguagem cotidianos. Como diz Hilmy: “Quando Wittgenstein critica a concepção da linguagem como cálculo, é com referência a um cálculo de uma espécie ideal, exata, e, mais especificamente, a espécie de papel que este cálculo ideal desempenhou no Tractatus.”15
Quando examinamos os exemplos de cálculo com a linguagem apresentados no período intermediário de sua filosofia, vemos que Wittgenstein usa a palavra em um sentido derivado, como quando se fala do cálculo estratégico feito em um jogo de xadrez, em um jogo de cartas, do cálculo que um jogador de futebol faz ao passar a bola. Também em tais acepções a palavra ‘cálculo’ preserva o sentido de uma combinação de regras. Assim, não há a menor evidência de que Wittgenstein tivesse rejeitado a idéia de que os lances dos jogos de linguagem envolvessem cálculos nesse sentido fraco de combinação de regras, que admitem ser alteradas e inventadas, que podem ser imprecisas, que não exigem que seus usuários estejam em condições de explicitá-las verbalmente. Pelo contrário: só essa suposição justifica que, no § 558 das Investigações Filosóficas, Wittgenstein reafirme que a função de um símbolo deva se mostrar no decorrer do cálculo.
Com isso torna-se justificada uma reconsideração das passagens em que Wittgenstein dá exemplos de cálculo, em busca de uma melhor compreensão de como regras gramaticais podem determinar o significado, o modo de uso, caso essa determinação consista na combinação de tais regras. Afinal, ele parece em certos momentos dizer exatamente isso, como ao afirmar que “O sistema de regras, o qual determina um cálculo, determina deste modo também o ‘significado’ do signo.” (PB 152)
Antes de considerar alguns exemplos de cálculo neste sentido fraco sugerido pelo próprio Wittgenstein, gostaria de introduzir um esclarecimento geral, não acerca do tão polemicamente problematizado conceito de seguir uma regra (cap. V), mas acerca do conceito mesmo de regra, entendido como aquilo que as diferentes expressões de regra expressam em comum. Sem dúvida, se é possível estabelecer uma expressão de regra para uma regra particular, a qual é ela própria geral, embora de âmbito mais restrito, não há razão para se rejeitar que possa haver uma expressão do que seja a regra em geral, conquanto essa expressão seja uma manifestação linguística de nossa intuição comum, deixando a linguagem “como ela está”.
Contrariamente ao que se possa pensar, a reconstrução da noção de regra sob esta chave não se opõe às críticas wittgensteinianas ao essencialismo. Primeiro, porque a existência de expressões conceituais cujos casos de aplicação detêm semelhanças de família entre si (cap. VIII) não implica que todos os nossos conceitos gerais devam se fragmentar em casos de aplicação aparentados, nem que tais casos não possam ser eles próprios conceitos gerais unitários com expressões conceituais próprias. O próprio Wittgenstein considera essa última possibi- lidade ao contrastar o conceito de número, cujos casos de aplicação são múltiplos e aparentados, com o conceito precisamente definível (“streng umschriebenen") de número cardinal (PG 70).  Segundo, porque certas críticas ao realismo ontológico, como, por exemplo, ao tratamento que nele é dado a entidades abstratas como se elas fossem impalpáveis sombras (empíricas) de coisas empíricas (BB p. 17, BGM p. 63), não precisam ser interpreta- das como anti-essencialistas. Elas não impedem que uma concepção wittgensteiniana de essência possa ser resgatada como dizendo respeito à simples convenção, ao universal visto como uma espécie de “essência nominal” (BGM p. 64-5) (um conjunto modelar de condições de similaridade replicáveis de que guardamos memória), ou ainda, com relação a uma “essência real”, como algo que só as regras da gramática manifestam (pois “Das Wesen ist in der Grammatik ausgesprochen” (PU 371)), logo, como algo cuja inteligibilidade requer pleno resgate através de nossas convenções (PU 92, 97, BGM pp. 64-5).16
Consideremos então o que deve ser normalmente a expressão da regra em geral. Ela se baseia na idéia de que uma regra pode geralmente ser analisada como uma relação entre uma condição (ou grupo de condições) Cea ação A, que é a ação de segui-la, de tal modo que, dada a condição C, segue-se a ação A, não importando, para as considerações que pretendemos fazer, proceder a uma determinação precisa das espécies de relações que possam estar envolvidas - como C pode ser chamado de uma prescrição, podemos cognominar tal relação simplesmente de “relação prescritiva”. Desse modo, qualquer regra pode ser concebida como um caso da formula ou expressão geral de regra:
C => A
Nessa formula, C deve ser visto como o type de uma condição (ou conjunto de condições) qualquer, e A como o type e uma ação, entendendo por ação-type, não uma entidade abstrata, mas a classe aberta das ações-token similares entre si sob certo aspecto. Embora uma expressão de regra da gramática não tome necessariamente essa forma, ela pode em geral ser assim para- fraseada. A frase gramatical “A ordem ordena seu seguimento”, pode ser parafraseada como “Dada uma ordem, age-se segundo o que ela ordena”; a frase gramatical “A água ferve (sob condições normais de pressão etc.) a 100° C” pode ser parafraseada como “Se a temperatura da água chegar a 100° C, podemos concluir que ela ferverá”.
Também importa notar que os termos C e A não são para ser considerados em separado. A é sempre o modo de ação que se segue da condição C, pois nem toda ação que exemplifica A é a de seguir a regra em questão. Assim, um acontecimento empírico que exemplifique Al, mas que não siga as condições determinadas por Cl, não será considerado seguimento da regra Cl => Al, o que vale, mutatis mutandis para Cl, caso a sua presença não seja considerada prescrição para Al. Uma maneira de se tornar essa interdependência explícita é escrever:
'
C(A) => Â(C)
Essa observação torna evidente que falar do type A(C) da ação de seguir uma regra já é falar da própria regra, mesmo que de uma perspectiva determinada, que faz perceptível só um dos termos. Isso nos permite concluir que não podemos, quando identificamos o significado com o modo de uso, ao invés de identificar tal modo de uso com a regra de uso, objetar pela suposição de que o modo de uso seja simplesmente o type de usos singulares corretos, das ações-token de seguir a regra, e não a regra mesma; pois trata-se aqui da mesma coisa: o type de uma ação de seguir uma regra deve continuar a ser concebido como toda a regra, ainda que sob a perspectiva explicitadora da ação-type de segui-la.
A fórmula geral acima considerada pode ser um instrumento valioso em uma reconstrução do que Wittgenstein sugere. Com relação ao modo de ação de seguir a regra, ela nos permite distinguir dois tipos gerais de regra conversíveis entre si:
Tipo I: é o daquelas ações nas quais a ação-type A é o esquema de uma ocorrência empírica, que embora podendo ser de ordem psicológica, é freqüentemente também algo que se processa externamente, no mundo real. Exemplo do tipo I é a ação reflexa de pisar no freio diante de um sinal vermelho.
Tipo II: é o daquelas ações nas quais a ação-type A esquematiza um processo cognitivo, qual seja, o da tomada de consciência, da cognição, da constatação da existência de um determinado estado de coisas, o que resulta de certas condições C, aqui chamadas de critérios. Exemplo disso é o caso de um motorista que, vendo o sinal mudar para o vermelho, toma consciência de que não é mais permitido prosseguir. Nesses casos não costumamos dizer que a regra é seguida, mas aplicada.
Sobre essa distinção devemos notar primeiro que as regras de um tipo são conversíveis em regras equivalentes do outro tipo: regras do tipo I, realizadoras da ação – digamos, “Se o sinal está vermelho, pise no freio” – podem ser facilmente convertidas em regras do tipo II - por exemplo: “Se o sinal está vermelho, toma-se consciência de que se deve pisar no freio” - que são representadoras da ação, e vice-versa. Segundo: é muito claro que as ações humanas normalmente envolvem os dois tipos. Se nossas regras fossem apenas do tipo I, todos os nossos comportamentos teriam a forma de reflexos, de automatismos, de habituações não acompanhadas de atividade consciente. Se todas as regras fossem apenas do tipo II, nós seríamos seres puramente contemplativos, incapazes de passar da consciência à ação. Como a maioria de nossas ações é também consciente, segue-se que se trata de ações que combinam os dois tipos de regra precedentemente mencionados.
A aplicação dessa distinção ao que Wittgenstein diz é esclarecedora. Ele considera exemplos dos dois tipos de regra. Exemplos do primeiro tipo são ações que constituem mero resultado de adestramento, como pode acontecer quando a linguagem é aprendida. Trata-se de regras puramente performativas. Seguir essas regras não é um ato cognitivo, mas um ato cego, involuntário. No segundo caso, que é o que mais nos importa, os exemplos relevantes têm a ver com o que Wittgenstein chamou de modos, métodos de verificação: regras verificacionais, que para ele, mesmo nas Investigações Filosóficas, permanecem essencialmente ligadas ao que “queremos dizer” com os nossos enunciados (Cf. PU 353). A relação entre a regra de verificação e o significado como uso (aplicação) explicar-se-ia pelo fato de ela poder ser identificada com o modo de aplicação, entendido como a maneira pela qual genericamente se justifica o emprego do proferimento assertivo. Tais regras são essencialmente cognitivas, pois o resultado último da aplicação da regra ou método de verificação é a cognição da existência de um estado de coisas.
A isso liga-se uma outra noção importante, a de critério. Basicamente, critérios nada mais são do que condições (não importando o tipo) que, uma vez dadas, permitem a aplicação de uma regra verificacional, ou seja, a realização de uma verifica- ção, a cognição de um estado de coisas como efetivamente dado, a formação de um juízo; critérios são, pois, critérios de verdade de juízos ou asserções. Aliás, eles são também regras, pois, pelo que foi visto, um critério C só se concebe como C(A), que é um modo, uma perspectiva pela qual a regra total é concebida.
Em um importante exemplo presente na página 28 das Wittgenstein’s Lectures, 1932-1935, Wittgenstein relaciona explicitamente critério e regra de verificação, o que corrobora a nossa interpretação: “Os diferentes modos de se verificar ‘choveu ontem’ nos ajudam a determinar o significado. Ora, uma distinção poderia ser feita entre ‘ser o significado de’ e ‘determinar o significado de’. Que eu me lembre que choveu ontem me ajuda a determinar o significado de ‘Choveu ontem’, mas não é verdade que ‘Choveu ontem’ significa ‘Eu me lembro que  Nós podemos distinguir entre critérios primários e secundários de que está chovendo. Se alguém pergunta ‘O que é chuva?’, você pode apontar para a chuva caindo, ou derramar alguma água de uma caneca. Esses constituem critérios primários. Pavimentos molhados constituem um critério secundário e determinam o significado de ‘chuva’ de um modo menos importante.”
Note-se que o apontar para a chuva caindo tem aqui uma função semelhante ao apontar para uma cadeira e dizer: “Isso é uma cadeira”. Essa pode, como já vimos, ser uma frase gramatical expressa em uma definição ostensiva, o que é também exprimível sob a forma verbal: “A presença de tais e tais critérios (Cl) nos mostra que estamos diante de uma cadeira (Al)”. Também esclarecedora é, no caso acima, a distinção entre critérios primários (definitórios) e secundários ou sintomas, os quais parecem se constituir de modo adventício, probabilizando, mas não trazendo a certeza da existência do estado de coisas em questão (BB pp. 24-25). Os diferentes critérios são os modos de se “ter em mente” o sentido da frase. Isso não precisa conduzir, segun- do Wittgenstein, a uma dissolução da unidade de sentido da frase. O modo de verificação – e com ele o significado da frase – pode ser concebido como um único, já que os critérios secundários são sintomas de algo mais central, que é o critério primário, dado na observação que se tem como sendo direta (Cf. WWKpp. 158-9).
A conhecida identificação feita por Wittgenstein, em sua fase intermediária, entre o significado de uma frase e o seu modo de verificação é, pois, complementar a mais um princípio semântico seu, segundo o qual os critérios “dão a nossas palavras seus sentidos comuns.” (BB p. 57) De fato, se os critérios são condições antecedentes de regras cognitivas, e se essas regras (chamadas pelos intérpretes de regras criteriais) são regras de verificação, então toma-se natural que eles sejam determinadores do significado.
Com tais considerações em mente, analisarei primeiramente exemplos de cálculo, de combinações de regras, trazidos pelo próprio Wittgenstein. Uma série desses exemplos encontra-se no Brown Book, como é o caso do jogo de comando do § 33, em que, como resposta a articulações simbólicas como “aacaddd”, o ouvinte faz uma sucessão de movimentos diversamente direcio- nados em correspondência a cada letra diferente, e de compri- mentos diferentes como conseqüência da possibilidade de repetição de uma mesma letra. O exemplo de Wittgenstein que me proponho a analisar é, contudo, o da multiplicação “F” presente nas Lectures de 1930-32:
F 123
    753
    369 x
  615 y
861 z
92.619
Vale reproduzir o comentário de Wittgenstein:
“F é uma regra da gramática, ou um cálculo feito no papel; mas partes individuais do trabalho podem ser feitas de acordo com um dos cálculos mencionados. Assim, o passo x é para mim uma definição; o passo y é uma hipótese, mas o primeiro estágio deste, 5 x 3 = 15, é de novo uma definição. O resultado é uma hipótese. Uma outra pessoa poderá fazer o cálculo e chegar a um resultado diferentemente. Os passos individuais são regras da gramática e o processo como um todo é uma regra da gramática.”17
Wittgenstein considera aqui não só as regras típicas da gramá- tica, que ele chama de definições, e que são regras de hábito em cuja aplicação o erro, se houvesse, seria imediatamente corrigível, a exemplo das regras da tabuada. Ele chama de regra da gramática também a completa combinação dessas regras, o cálculo, que, sendo passível de erro, é por ele chamado de hipótese.
Digna de nota é também a possibilidade de se reduzir, não só os passos do cálculo, como o cálculo como um todo, à fórmula geral da regra, pois as condições intermediárias podem, no caso, por serem derivadas, ser abstraídas. Uma combinação de regras, embora não seja um hábito ou uma convenção, pode nesse sentido ser considerada, como o próprio Wittgenstein o faz, como uma regra; também ela é, em todo caso, do tipo de uma regra. Também é fundamental notarmos que a fronteira entre regras de hábito, que se condicionam como tais, e suas combinações, é gradual e variável: uma combinação de regras pode, por exercício, passar a ser concebida como uma regra simples - compare-se, por exemplo, a habilidade aritmética de uma criança à de um adulto.
Podemos agora procurar em Wittgenstein casos de combinações de regras, de cálculos que se aproximem do que realmente se passa na linguagem cotidiana, tanto de combinações performativas quanto de combinações que constituam regras cognitivas. Um caso de cálculo com regras performativas é apresentado por ele em um diálogo com F. Waismann. O exemplo trata do que poderia ser uma combinação de regras realizada para a compreensão da ordem: “Traga-me a gasolina”; convém transcrever a passagem: “O modo como nós usamos os signos, constitui o cálculo [...] Há entre o modo de aplicação de nossas palavras na linguagem e um cálculo, não algo como uma mera analogia; eu posso de fato conceber o conceito de cálculo de tal maneira que a aplicação da palavra cai sob ele. Eu quero logo explicar como entendo isso. Tenho aqui uma garrafinha de gasolina. Para que serve? Para lavar. Ora, nela está colado um rótulo com a inscrição ‘gasolina’ [...] Ora, essa inscrição é um ponto-de-assalto (Angriffspunkt) para um calculo, quer dizer, para a aplicação. Eu posso lhe dizer: ‘Traga a gasolina!’ E através dessa inscrição é dada uma regra, segundo a qual o senhor pode proceder. Se o senhor traz a gasolina, então está lá de novo um passo naquele cálculo que é determinado por regras.” (WWK p. 168)
Em primeiro lugar, não custa notar que no início desta passagem o modo de uso ou aplicação é identificado com o cálculo. Em seguida, há o que Wittgenstein chama de ponto-de- assalto do cálculo. Chegar a perceber a inscrição é o resultado de seguir uma regra de comando, mas a inscrição mesma é um novo ponto-de-assalto, que serve de condição para uma nova ação de seguir outra regra (a de trazer a garrafinha de gasolina), o que produz no todo, tal como no exemplo aritmético, uma combinação de regras. As regras aí em questão poderiam pressupor a regra gramatical listada anteriormente: “Uma ordem ordena a sua execução”, não se distinguindo categorialmente dela. Elas devem ser, todavia, ainda mais específicas, i. e., regras que são tidas como “simples”, de hábito, em qm jogo de linguagem muito localizado, por exemplo: “Uma garrafa costuma conter o que o seu rótulo descreve”.
Procuremos agora exemplos de regras cognitivas, de regras verificacionais. No parágrafo 25 das Lectures de 1930-32 há inicialmente uma observação, na qual Wittgenstein faz um uso equivalente das palavras ‘significado’, ‘verificação’, ‘lugar do símbolo em um cálculo’ e mesmo ‘modo de uso’, que cito com o fito único de dar confirmação textual à minha tese da existência de uma certa unidade intrínseca no pensar wittgensteiniano, por oposição à tendência escolasticista de interpretá-lo segmentando-o em compartimentos estanques: “Se você quer saber o significado de uma sentença, pergunte pelo modo de verificação. Eu sublinho o ponto de que o significado de um símbolo é o seu lugar no cálculo, o modo como ele é usado!' (grifos meus)
No exemplo que se segue a essa observação, Wittgenstein relaciona a diversidade das verificações particulares de uma sentença declarativa com a unidade de seu significado: “Atender para o modo como o significado de uma sentença é explicado torna clara a conexão entre significado e verificação. Ler que Cambridge venceu a corrida de botes, o que verifica ‘Cambridge ganhou’, não é uma disjunção ‘Eu vi a corrida ou eu li o resultado ou [...]’ É mais complicado. De fato, se nós retirarmos qualquer dos modos de verificação do enunciado, nós alteramos seu significado. E, se nós retirarmos todos os modos de verificação, nós destruímos o significado.” 18
A regra que preside uma verificação particular efetivamente realizada constitui uma nuance intencional da asserção – ao que alguém mais exatamente havia tido em mente com essa última. Mesmo que esse elemento intencional sofra variações em diferentes asserções de mesmo conteúdo, é possível que as regras contingentes que o constituem se derivem de uma regra de verificação fundamental e única, que tenha por base critérios primários e observação direta, podendo ser efetivamente identificada com o que geralmente se entende como significado cognitivo ou conteúdo proposicional da asserção. (Cf. WWK pp. 158-9).
O mesmo exemplo também sugere que as regras criteriais determinadoras do cálculo sejam regras da gramática, exprimíveis em frases gramaticais. Embora Wittgenstein não se preocupe com um esclarecimento sistematizador, é razoável pensar que, na gramática constitutiva do sistema de regras que é este jogo de linguagem específico, hajam regras simples como: “A equipe cujo barco chega primeiro vence a corrida”, a qual, traduzida na forma de uma regra criterial, toma-se algo como: “Ver o barco de uma equipe chegar em primeiro lugar é (em circunstâncias normais) critério primário para a cognição do fato de ela ter vencido a corrida”. Essa regra pode ser então combinada com a regra para a identificação da equipe de Cambridge, formando uma regra composta, a qual verifica o enunciado “Cambridge ganhou”. Semelhante era o caso de um exemplo anterior, a multiplicação “F”. “5x3= 15” (do mesmo modo que “2 x 2 = 4”) é uma regra gramatical na qual “5 x 3 =>” é critério para a cognição do resultado “15”; “F” ou “753 x 123 =>” pode ser analisada de modo a derivar uma composição de critérios, dentre os quais costuma tomar parte “5 x 3 => 15”, para que se chegue ao resultado 92619. O procedimento, o cálculo, verifica a frase “753 x 123 = 92619”.
Também procurei demonstrar essa possibilidade em jogos de linguagem cognitivos simples, como o report-game concebido em um artigo de Stenius19. Nesse jogo, um ajudante de jardineiro deve informar sobre a situação de um local de um canteiro, aplicando uma regra de identificação a uma planta que se encontra nesse local, regra essa que deve ser conjugada a uma regra de predicação, somente aplicável quando a planta está florida. Combinações de critérios de identificação e de predicação constituiriam aqui a condição antecedente, uma composição criterial justificadora da aplicarão de uma combinação de regras, qual seja, da regra verificacional para o fato de a planta estar florida. As condições de aplicação da regra não seriam, nesses casos, sequencialmente, mas simultaneamente dadas.
O que se deixa concluir das considerações precedentemente esboçadas é a plausibilidade da ideia de que a identificação entre o significado e o uso possa ser concebida como uma identificação entre o significado e algo do tipo de uma regra: regras, combinações de regras mais ou menos específicas da gramática de jogos de linguagem, as quais também podem possuir o caráter cognitivo próprio das regras criteriais ou verificacionais. O significado cognitivo de um enunciado assertivo, seu conteúdo proposicional, pode ser em princípio entendido como o modo fundamental de sua aplicação, o qual é redutível a uma regra ou complexo de regras verificacionais, cuja existência e aplicação efetiva é uma condição justificadora de seu proferimento atual em asserções, de seu uso singular20. O apelo ao uso perde com isso o indesejável tom de misticismo semântico que os aforismos wittgensteinianos frequentemente não deixam de insinuar. O que mais justifica tal apelo, porém, é a sua função heurística, de situar a questão logo de início na praxis efetiva da linguagem, que preside a conexão necessária entre o significado e o contexto, entre o significado literal e as suas múltiplas e variadas ramificações intencionais.
A sugerida unificação de princípios semânticos comprova a posteriori, a sua própria possibilidade. À objeção: “Por que Wittgenstein nunca tentou uma tal exposição argumentada e sintética da gramática do conceito de significado?”, talvez devamos responder: por motivos vários (incertezas, contradições, lacunas argumentativas...), mas talvez também por motivos não muito diversos daqueles pelos quais Platão sempre se recusou a fazer o mesmo com a sua doutrina das ideias, cerne de sua filosofia e patrimônio inafiançável de seu pensamento.
Espero que esse resumo tenha tornado plausível a ideia de que os escritos de Wittgenstein ocultam, ou pelo menos estranhamente sugerem, estruturas racionais extraordinariamente complexas, que são as fontes reais de seu permanente interesse e influência, mas que subsistem nos textos como intuições fragmentariamente explicitadas, sem que seu autor conseguido articulá-las sistematicamente.
Uma adequada explicitação, organização e desenvolvimento de semelhantes estruturas deverá pôr a descoberto um outro corpo de ideias, nem sempre inevitavelmente coerente com as suposições do autor, mas mais poderoso, em virtude de sua capacidade de impor-se à razão, do que aquilo que alguns intérpretes de uma certa época e de determinadas correntes de pensamento nos haviam feito imaginar.







Notas
1            C. F. Costa. Wittgensteins Beitrag zu einer sprachphilosophischen Semantik, Konstanz, 1990. As obras de Wittgenstein abreviadamente referidas são as do Werkausgabe de 1984 da editora Suhrkamp, com exceção dos The Blue and Brown Books, quando se usou a, edição inglesa de R. Rhees (1975).
2            Uma interpretação é uma seleção do que se julga ser demonstravelmente relevante num texto. Uma reconstrução consiste, basicamente, numa interpretação que acrescenta novas premissas, que não constavam no texto original e o tornam mais instrutivo. Um trabalho inspirado ou influenciado por um certo texto é geralmente aquele que não só lhe adiciona premissas, mas também desconsidera tudo aquilo que tiver sido tornado incompatível com tal adição. No caso de um texto tão ambíguo como o de Wittgenstein, pode ser difícil separar a segunda da terceira possibilidade. Ainda assim penso que o texto que se vai ler é essencialmente reconstrutivo.
3            Em The Grammar of Justification (New York, 1976), Richardson defende que “toda uma teoria do significado pode ser retirada da ideia de que o significado é o uso” (p. 45) e, em concordância com o que irei expor, conclui que a teoria criterial exemplifica a teoria do significado, pois critérios são convenções semânticas constitutivas de jogos de linguagem e justificadoras da aplicação da palavra nestes (p. 126).
4            P. Feyerabend. "Philosophical Investigations", in: G. Pitcher (ed.): Wittgenstein: The Philosophical Investigations. London, 1968, pp.104-150.
5            Carl Hempel. "Rudolf Carnap, Logical Empiricist", in: Synthese, Vol. 25, 1972-3, p. 264.
6            A. J. Ayer. Ludwig Wittgenstein, p. 137, New York 1985. Ver também S. S. Hilmy, The Later Wittgenstein: the Emergence of a new Philosophical Method, Oxford 1987, pp. 208-9.
7            Backer & Haker: Wittgenstein, Understanding and Meaning, Oxford 1980, p.489.
8            Ibid., p. 489.
9            Para esse autor coexistem na obra do segundo Wittgenstein duas concepções de filosofia, uma terapêutica, enquanto a outra “parece bem mais com algumas das tradicionais, mais imperialistas, visões da filosofia” (p. 43), buscando “abrangência de entendimento, uma visão clara do mundo” (p. 39) (“Wittgenstein on the Nature of Philosophy”, in: A. Kenny, The Legacy of Wittgenstein, Oxford 1984).
10         D. Lee (ed.): Wittgenstein’s Lectures, 1930-1932, Oxford, 1980, p. 85.
11         G. E. Moore, “Wittgenstein’s Lectures in 1930-33”, in: Philosophical Papers, London, 1963, p. 257. Cf. também E. K. Specht: Die Sprachphilosophischen und ontologischen Grundlagen im Spätwerk Ludwig Wittgensteins, (Kantstudien Erganzungsheft 84), Köln 1963, cap. V.
12         E. K. Specht: “Wittgenstein und das Problem des ‘a priori’”, in: Revue Internationale de Philosophie, 88/89, (1969), pp. 167 ss.
13         Se essa última afirmação, literalmente tomada, for correta – o que não creio - a acusação de ser sem sentido aplica-se também à nossa própria tentativa de propiciar uma representação panorâmica, “teorética”, dos princípios gramaticais constitutivos do conceito geral de significado. Mas isso não vale como objeção interna: se somos contraditórios, Wittgenstein também o é.
14         S. S. Hilmy, Ibid., p. 98.
15         S. S. Hilmy, Ibid., p. 106.
16         A atitude de Wittgenstein, que, pendendo para o nominalismo, só aborda muito tangencialmente a questão dos universais, evidenciase na evasiva colocação de F. Waismann: “Não é como se quiséssemos negar a existência do zero e reconhecer apenas a do signo. (Pense no que pode significar a frase ‘O zero não existe’!). Nós passamos apenas a um outro domínio da gramática, onde somos sujeitos a menos perigos. Nós não fugimos do abstrato para o concreto; nós queremos somente considerar as coisas, uma única vez, sem preconceitos.” (Logik, Sprache, Philosophie. Stuttgart 1977, p. 131).
17         A. Ambrose (ed.). Wittgenstein’s Lectures, 1932-1935, Oxford 1979, pp. 96-97.
18         A. Ambrose, Ibid., § 25.
19         E. Stenius. “Mood and language-game”, in: Synthèse 17 (1967), p. 263 ss. Ver também E. Tugendhat e U. Wolf: Logisch-semantische Propüdeutik, Frankfurt 1983, pp. 235-6.
Exceções a essa forma genérica de verificacionismo podem ser reinterpretadas e evidenciadas como sendo aparentes. Exemplo: Sepodemos considerar João como tendo sido corajoso, embora ele tenha morrido sem ter podido demonstrar a sua coragem (não havendo qualquer outra razão para que creiamos nisso), parece então que temos um enunciado significativo, mesmo que inverificável - o que conduz à sugestão de que não é necessária uma regra de verificação para que tenhamos um enunciado significativo, bastando que sejamos capazes de reconhecê-la, caso ela nos for dada (Dummett).
Tal sugestão parece-me desnecessária, pois o conteúdo preposicional acima considerado não é significativamente enunciável ou asserível, tendo apenas um significado lexical. Temos apenas a impressão de que asseri-lo é possível, dado que podemos isolar tal conteúdo preposicional e inseri-lo, por exemplo, em asserções modais como “É possível que João fosse corajoso”, que se assemelham à pseudo-asserção “João era corajoso”, que é absurda. Uma tal asserção modal é perfeitamente significativa, dado que para ela temos procedimentos verificacionais (basta, para tal, ter verifica- do que João era um ser humano, pois se era humano, pode ter sido corajoso.)
20         Maneira de ver semelhante encontro em A. J. Ayer, para quem especificar o uso, entendido como o significado de uma sentença declarativa, é descrever os estados de coisas que a verificam (The Concept ofPerson, London 1963, pp. 22-23).








quinta-feira, 1 de novembro de 2018

DISCOVERY OF WINE

Draft of the last appendix of Philosophical Semantics. To be published by CSP in 2018/1. 


Appendix to Chapter VI


DISCOVERY OF WINE



Notre époque est une époque de misère sans art, c’est pitoyable. L’homme est nu, dépouillé de tout, même de sa foi en lui.
[Our epoch is a time of misery without art, it is pitiable. Man is naked, despoiled of all, even of his faith in himself.]
Louis-Ferdinand Céline
The name of poet was almost forgotten; that of orator was usurped by the sophists. A cloud of critics, of compilers, of commentators, darkened the face of learning, and the decline of genius was soon followed by the corruption of taste.
Edward Gibbon
We have first raised a dust and then complain we cannot see.
Berkeley
Once one absurdity is accepted, the rest follows.
Aristotle

There is a mythical story of the discovery of wine, told by the humorist Millôr Fernandes in his book Fabulous Fables (1963), which I would like to recall here. It goes as follows:
  A traveler once needed to cross a desert. Since he loved grapes, though not grape pits and skin, it occurred to him that in his saddlebag he could bring with him not water but only the juice of crushed grapes. After a journey of three days he noticed that the juice had turned yellow, tasted different and was releasing bubbles. After he had drunk this beverage, he noted that it made him feel much better than usual, so much so that he judged this to be the most enjoyable trip of his entire life! After his arrival, he told the news to his fellow travelers, who decided to follow his example, making long journeys across the desert with heavy saddlebags filled with the juice of crushed grapes, so that they could enjoy the same feeling of well-being. For a long time this state of affairs continued unchanged, until one day a stubborn camel refused to commence a journey and for three days remained so to speak nailed to the same spot with the grape juice on his back. To the surprise of the camel’s owner, the juice also changed its color and taste and released bubbles. The news spread quickly. From the discovery of fermentation to the bottling and commercialization of wine, it was hereafter a very short step.
  For me this story illustrates the all too easy ways in which we can go astray in developing our philosophical conjectures. In a world plagued by a growing multiplication of philosophical views, many of them inevitably standing on equivocal foundations, this difficulty can lead to dangerous disorientations that accumulate in unappealing forms of escapism like skepticism, relativism, irrationalism and the most surreptitious forms of sophistry[1]… not to speak of expansionist scientism. Under these circumstances, the effort to achieve some comprehensive picture – as was attempted here – could possibly (though not certainly) furnish better guidance by suggesting conclusions that have a better chance to impose themselves by the force of the picture’s internal coherence.
  My point should not be carried too far: the above mentioned pitfalls have in one way or another always belonged to philosophy, since it has always encouraged hopes that have subsequently been exposed as highly questionable even in the best of cases! In this regard, my hope concerning the stories told in this book is still the same: I believe have approached the right comprehensive view of the cluster of conceptual structures associated with reference and cognitive meaning, finding in this way the right path to critical consensual truth. This alternative approach should cut deeply into the inherited wisdom of contemporary philosophy of language, having the potential to liberate it from its main stalemates and to remap much of the field by bringing it back to its most proper epistemic center. In this way it might offer us renewed hope of approaching science in its wider sense as ‘consensualizable public knowledge’ (J. M. Ziman, 1968),[2] sparing the reader many long, senseless journeys across the scorched desert sands of philosophically illusory arguments.








[1] See Frankfurt 2005.                          
[2] This is a weak but all-embracing intuitive definition of science as any knowledge already able, within the appropriate community of ideas, to achieve legitimate consensual truth concerning its results. This has been impossible for philosophy due to a lack of consensus regarding fundamental assumptions concerning methodology and starting points. (Costa 2002, Ch. 2) But if the views defended in the present book are substantially right, we now have a better chance to lift some issues of theoretical philosophy to a less speculative stage.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

THE UTILITARIAN FOUNDATION OF ETHICS (ROUGH DRAFT!)


Obs: this is only a PROJECT, VERY ROUGH & NON- CORRECTED draft.





ETHICS


The most discussed sub-domain of practical philosophy is ethics (or moral theory). In general, ethics is concerned with a system of precepts envisaging the maximization of the common well-being by human action.
   Normally, the good intention of the agent leads to a good action, which leads to good consequences, while his bad intention should lead to a bad action and a bad consequence... This justifies the historical existence of three groups of ethical theories. First, there is the ethics of virtues, finding the source of moral value in the moral qualities of the agents and their good intentions. Second, there is the deontological ethics, which finds the source of moral value in moral rules instantiated in the agent’s actions. Third, there is the consequentialist ethics, which finds the source of moral value in the good consequences of such actions.
   The moral views of philosophers of Antiquity like Platon and Aristotle focused on virtues. For them, the important thing is the virtue because if you become a virtuous person, you will automatically do good things. For Aristotle, things have proper functions. Human beings are rational animals. The proper function of human beings is not only to grow and reproduce as animals but also to be rational and socially virtuous human beings. For this goal, nature has built into us the desire to be virtuous. But what means to be virtuous? Aristotle understood virtue as the golden mean – the midpoint – between two extremes. Take, for instance, the courage. Courage is a virtue because it is the golden mean between cowardness and recklessness. Generosity is also a virtue, since it is the golden mean between stinginess and prodigality. What the golden mean means depends on the circumstances.
   According to Aristotle, a virtue is like the hability to throw darts at the target; it can be developed. A person’s character can be developed by habituation and imitation of exemplary characters. If you are virtuous, you can achieve eudaimonia, which is the ideal of humanity. Eudaimonia is the flourishing of a human life. It is a life of human achievements; a life of accomplishments in which a person is the best he could be. Finally, it is easy to understand why the Greeks were not very much concerned with rules of action and their consequences. They had a society of customs admonished by their gods. They didn’t feel very much the need to questioning their rules or the consequences of this.
   Deontological ethics focuses on the rules exemplified in actions. These ethics were typical of our Judeo-Christian monotheism, from the Middle Ages to modernity. The Ten Commandments are a rough example of deontological ethics. Kant’s categorical imperative, building a meta-rule as a method to know what maxims exemplified in actions should be followed is also essentially deontological. His principle of universalizability is a meta-rule according to which the maxim exemplified by an action is legitim as far as it can be universalized. For instance, the maxim instantiated in “She kept her promise” can be universalized as “All people should keep their promises”. This legitimates the moral rule of keeping promises, since it would be desirable that all people are trustful. By another formulation of his categoric imperative persons have the duty not to use the humanity of themselves or of others merely as means to achieve some end, since they must respect the integrity of other human beings. Thus, you can use the humanity of the taxi driver to bring you to the local you wish, but in this case, you are not using him only as an end and vice-versa. However, neither you nor the taxi-driver can abuse these prerogatives.
   The problem with these deontological rules is that they are not enough flexible to take account of the many exceptions. There is a famous (or infamous) attempt made by Kant to prove that one should not lie under any circumstances, once lying cannot be universalized. In its actualized version this example would be: suppose you were in Nazi Germany and you have hidden a jew in your home. One day a Nazi official comes to your home asking if you have hidden someone. According to Kant, you should still tell the truth since if you lie and your protected person escapes through a window and afterwards the official kills him, you will be responsible not only for the killing of an innocent person, but also for transgressing the holy principle of generalizability. Moreover, it seems that by lying you would not be treating the Nazi official also as an end in itself, but merely as a mean...
   Nietzsche was the great philosopher who dedicated his work to the criticism of the judeo-christian morality and in this way, indirectly, also to criticize deontological ethics. As I tried to show in few words, deontology finds its limits in vagueness, arbitrariness and lack of flexibility of its rules. Even if only unconsciously, we still live in a world shaped by the Judeo-Christian-Mohamedhan monotheism, and it is difficult to change a paradigm when we are still inside it. As I intend to show later, the rule-utilitarianism is the best way to preserve the advantages of the deontological ethics without falling pray to its disadvantages. Because of this I agree with John Searle as he said: “The cathegorical imperative is a hippopotamus, death since long time, circled by very intelligent people who try to resuscitate him by means of mouth-to-mouth respiration.”[1]
   The third kind of ethics is the consequentialism, according to which what the good or bad consequences of an action are the fundamental measure of its value.
   There are three forms of consequentialism: ethical egoism, ethical altruism, and utilitarianism. The first two are problematic. Ethical egoism means that each agent must do the best for himself, notwithstanding the consequences for the others. Only a few philosophers came near to this view. The problem with ethical egoism is that it leaves no room for things that we value very much like love, friendship, loyalty, compassion. How could people be happy without these things? How could people worry about the future of the planet if only their selves count? How could people have confidence in the promises of a politician? In the worst case, a world of ethical egoists would be a world of nefarious persons, as we find in some penal institutions. In the best case, it would be a world full of rules forbidding actions, perhaps established by a strong sovereign, able to organize the villans for the benefit of himself.
  Altruism would also have its misfits. It would only be possible in a world of altruist persons, once in a mixed world they would be cracked down by the less altruists. Closed societies like that of the Amishes have some proximity to an altruist society. However, they must pay a price in terms of the renunciation to personal freedom of choice.
   By far, the most plausible form of consequentialism is utilitarianism. According to utilitarianism, the right action is the action that has as consequence the best for all people involved, including the agent. The most popular form of utilitarianism is hedonistic. According to the hedonist utilitarianism, the ethical good resides in the pleasurable consequences of action, while its opposite, the bad, is the painful consequence (understanding pleasure and pain in the broadest possible sense, which includes any kind of pleasure and suffering). As Jeremy Bentham (1748-1832) famously wrote:

Nature has placed Mankind under the governance of two sovereign masters, pain and pleasure. It is for them alone to point out what we ought to do, as well as to determine what we shall do.[2]

This seems to be a fundamental truth. Some moral philosophers have denied this, arguing that pleasure and pain are neither the most worthful nor the most important things in life. There are other worthful things like knowledge, justice, beauty, freedom… However, hedonists like Bentham have seen that only pleasure and pain are intrinsically good and bad respectively. Things like knowledge, justice, beauty, and freedom are extrinsically good since they are ‘instrumental’ goods for the achievement of the intrinsically good, which is happiness, and happiness is nothing but the predominance of pleasure resulting from the good life.
   A deep reason for the denial of hedonist utilitarianism would be prejudices, like the anti-hedonist bias incentived by the great monotheistic religions that have dominated our western civilization. It is reasonable to think that some people hold a biased view of life, hyposthasizing certain values in a dogmatic way, so that they can hold them without submitting them to rational scrutiny in order to withstand criticism. A hermit who lives alone believing that suffering purifies the soul can exemplify this point. The denial of hedonism is frequent, affecting even sophisticated people.
   There are two forms of utilitarian hedonism: act-utilitarianism and rule-utilitarianism. Act-utilitarianism focuses on individual actions. Its general principle is that a good action must maximize pleasure and/or minimize pain to all people that can be involved. Jeremy Bentham, following Francis Hutcheson, has formulated the utilitarian principle by saying that:

The right action should lead to the greatest happiness for the greatest number...
                 
In some cases, this is very reasonable. If you wish to buy drinks for a dinner and your guests like red wine, you buy red wine, even if your personal preference is for white wine (maybe you buy both).
  Utilitarians like Bentham have developed a hedonist calculation, constituted by a balance between the pleasures and pains caused by each alternative action and then choosing the action that would give the most positive balance. It is important to consider each dimension of the value:

1)     intensity (how strong is a pleasure),
2)     duration (how much time they take),
3)     certainty (how probable they are to happen),
4)     proximity (how much proxy is the effect to the action in time and space),
5)     purity (the chance an action has of not being followed by sensations of the opposite kind),
6)     fecundity (the chance the action has of being followed by sensations of the same kind: pleasure with pleasure, pain with pain), and
7)     extension (how many people will be affected).

     To explain these dimensions: food and, particularly, sex, can be intensely pleasurable, and this pleasure is certain and proximal, but the duration isn’t so great; they are impure in the sense that they can bring pain (too much food generates sickness and with the time endanger health, sex can be viciating). Moreover, there is not much fecundity involved, since in excess they can be damaging. Classical literature and music, on the contrary, often do not produce the same intense pleasure, but this pleasure has fecundity, amplifying our understanding of the human world and leading us to other sources of aesthetic and non-aesthetic pleasure. Faust was only able to utter the sentence “stay forever!” (“Verweile doch, du bist so schön”) as he did something able to produce enduring pleasure for many others. Moreover, proximity in space and time is important. The utilitarian should try to do the best, first for those nearer to him in space because he knows better what is better for them, and secondarily for those who are distant and unknown. And considering the proximity in time, one should do the best for the proximal future and less for the more distant future. Probability (degree of certainty) is also important here, since actions aiming the future are less certain. People like Lenin and Trotsky, for instance, have convinced themselves that they would produce the paradise on earth only to bring their country to the gates of the hell.
   This version of utilitarianism is called act utilitarianism. John Stuart Mill adapted it in order to protect it from the objection that this would lead us to a pig’s ethics since it seems to bring about the result that a world of satisfied pigs would be morally better than a world of unhappy philosophers. Against this, he distinguished two categories of pleasure: the lower and the higher. The first ones are bodily and physical, while the second ones are aesthetic, intellectual and cultural, like the intelligent conversation, the learning of a science, the appreciation of arts. This last category of pleasure has for Mill more value and should be preferred. It has the nobleness and human dignity that animals lack. This explains why we have more care and consideration to human beings than to the animals: the last ones are only able to lower pleasures. Because of this, one would prefer to live a short unhappy life as a human being than a thousand years’ life as an oyster…
   Although it is to me obvious that there are higher and lower pleasures, it is not in my view a qualitative distinction able to explain why the first ones are more valuable. Defending Bentham, we could argue that the so-called superior pleasures have more value than the lower ones simply by the fact that they satisfy better the dimensions already considered by him. Think about the wrecked and short life of many sensualist people who lived only to satisfy lower pleasures. Consider that the pleasures obtained by the knowledge of arts, philosophy and sciences might even protect and prolong the life, satisfying conditions like purity, fecundity, and extension much more than the others. When we take into consideration what these conditions in the end mean, Mill’s distinction loss its categorical appearance. On the other hand, how many would in fact prefer to live a short miserable life of wisdom than a long happy life as an idiot? And how many would not prefer to be an oyster living a thousand years than to be a human being condemned to a short and painful life?
   Against ethical hedonism, Robert Nozick imagined a pleasure machine, able to give the person a life of all conceivable pleasures given by direct stimulation of their brains. Nozik suggests that we would prefer to live in the real world and not in the world of the pleasure machine. Others have contested this example, considering that the answer would be dependent on circumstances that remained implicit. Indeed, under the warrant that the machine would work without the possibility of error and the awareness that the life outside will be full of miseries, many would chose to live in the pleasure machine (anti-depressives and drugs are chemical pleasure-machines and religious sects and psychoanalysts are masters in the construction of imaginary pleasure-machines).
   To make clear that higher pleasures are not necessarily preferable, suppose that you had only two alternatives:

 Alternative (A) You would live your life in a room having all the time the best conceivable orgasmic sex (in a level comparable to injections of heroin) and the best food, without any fear of pain or being in this way endangering your life (what means: the pleasures would be pure). Together with this, you would would receive an info that would make you immune to higher pleasures.
Alternative (B): You would live in the room of a monastery, but now vaccinated against any sexual desire or any special tastes for good food and any low pleasure, but with all possibilities of having superior pleasures, along with their expected purity and fecundity.

Assuming that you will live a warranted good life for the same extension of time and that no choice will be in any way harmful for your health, what alternative would you choose? I myself (assuming the given guarantee) would choose the first alternative. I would choose the first not as much because of its higher intensity and lack of pain, but also because I doubt the possibility of having very high pleasures without the capacities for the lower ones. If my preference (certainly unconceivable for a Victorian like Mill, with very poor sensual experience) is the most reasonable, even if there is no preference, then there is no greater intrinsic value belonging to the superior pleasures.
   Concerning our difference with animals, the case is more complicated. Things like dignity, which only humans have, protect our well-being and therefore the happiness by their fecundity and purity. Moreover, we avaliate the life of human beings more than than animals because men are able not only to lower, but also to higher pleasures…
   Things are made complicated by the fact that not all other people are utilitarians. It makes no sense to be a utilitarian in a society of ethical egoists, each one searching for the well-being of him- or herself and disconsidering the well-being of others. Treating ethical egoists in accordance with utilitarian principle would be naïve and counterproductive. It would be socially prejudicial, increasing the total unhappiness. Moreover, we are all to a greater or less extent different, what means that we could apply the hedonist calculus in different ways, what does not make moral judgment anything easier. Anyway, it is when we are under similar moral expectations that moral agreement comes to the fore. If we see that we are able to increase the total happiness by following some reciprocally accepted rules, and being consciously or unconsciously utilitarians we make the mutual promise to follow them, we arise to what is called contractualist ethics. Our moral contracts need to be based on reason, and reason is based on the maximization of utility. Contractualism assumes utilitarianism.
   Another objection is that good action can have further effects that are bad. If in 1938 one saves a person to drown and this person is Hitler, who will be later responsible for the death of 56 million persons, the ultimate consequence of the action is very bad. It suggests that in order to evaluate an action we should consider not the actual consequences, but the foreseeable consequences…
   The answer, however, is not difficult. The limits of the action are the limits of the intention associated with the action. The fact that the person was Hitler or that he would be responsible for the Second World War was fully outside the intention that led the person to the action. Consequently, the act of saving him, though not very good, could not be measured by these posterior terrible effects. That the person will be responsible for the death of 56 million human beings is far distant from the narrow limits of the intention of saving a person who is drawing, even if this person was Hitler.
   There are also the cases of actions intended as good but that lead to bad consequences. This is the case of a physician who doing his best accidentally causes the death of his patient. We should distinguish the goodness of the person, which is evaluated by his good intention, from the goodness of the action, which is evaluated by its consequences. The action was bad because the consequence was bad; but the person had a good intention, what indicates his goodness.
   Nonetheless, act-utilitarianism alone is a deeply wrong doctrine. There is a number of serious objections to act-utilitarianism, which makes it in the end indefensible. It can have terrible consequences, it is too onerous, and it is disconcerned with special duties. The examples seem to speak for themselves:

1)  A utilitarian judge knows that if he liberates a small thief that should be condemned to a year of prision he will make the not only the thief happy, but also his family, shorting the costs of the imprisionment. It seems that the utilitarian advantage of letting the thief out would be greater.
2)  A utilitarian surgeon has four patients that need transplantation: one of the hearth, the other of kidneys, a third of liver, and a fourth of lungs. There is a patient who has only a feverish cold and whose organs are perfectly compatible with the needs of each of the four patients. Consequently, it would be correct that the surgeon sacrifices the life of the last patient in order to save the lives of the four other patients since he would by this means increase the happiness in the world.
3)  The ten thousand people in the Roman circus have a huge happiness in seeing some Christians being eaten alive by the lions (without counting the happiness of the lions, who are also sentient beings and according to Bentham subjects to moral judgment).
4)  Another case is that of a utilitarian rich man who should donate most of his fortune in order to increase the general happiness.
5)  A good utilitarian should work all the time without rest for the benefit of the humanity.
6) A father should do what is the best to all the children more than what is the best to his own children at first place.
6)  Five utilitarians are lost in a lifeboat. They are dying of starvation. Always when the situation turns critical the utilitarian who is nearest to his death is sacrificed by the others so that the chance that some utilitarian survive and be rescued increases.
7)  Jim is on a botanical expedition in South America when he happens upon a group of twenty indigenous people and a group of soldiers. The whole indigenous group is about to be executed for protesting their oppressive regime. For some reason, the leader of the soldiers offers Jim the chance to give the first shot. The leader says to Jim that if he does it he will let the 19 remaining Indians go. Otherwise all the 20 will be shot. According to act-utilitarianism, assuming that Jim is no Indiana Jones, he should shot someone.

There are many counterexamples like these. They make us doubt if act-utilitarianism as able to furnishing a general rule of action. There is, however, a strategy that might be able to save utilitarianism from most if not from all objections. It is what we may call a two-tiered utilitarianism, a version of this once proposed by R. M. Hare,[3] but whose implicit origins can be traced back even to Mill and Bentham. The idea is that we should combine act-utilitarianism with rule-utilitarianism. We can understand rule-utilitarianism as a theory according to which we should be act in accordance with a system of rules that increases the happiness and/or minimize the unhappiness of the greatest number of persons. Indeed, in most of our actions with moral implications, we do not apply any act-utilitarian calculations; we simply follow already existent explicit or implicitly or, in any way, easily deductible conventions. We do it because we are unable to know the complexity of their effects and we would not be able to make sense of our actions in society without knowing what to expect as reactions from others. Therefore, we follow those rules that society would agree and that have proved themselves to maximize the utility by promoting the higher amount of social happiness. These rules are full of exceptions that are also explicitly or implicitly known by us. A rule like “You should not kill” is excessively poor to cover many exceptions. Trying to complement it, we could state the rule as: “You should not kill, except in self-defense, except if it is to protect the life of innocent people, except in the case you are a soldier fighting in a just, inevitable war…” Consequently, the form of these rules is “You should do (or not do) X, except in the circumstances C1, C2… Cn”. It is true that there is no limit to the sub-rules added to the main rule, but usually, insofar as we know the system, we can intuitively (that is, using utilitarian shoes) derive them.
   Sometimes there is a conflict between the rules. If Mary is a physician and she stops her car in a forbidden place in order to attend a man who had a heart attack, it is clear that the rule that one should not be parking in a forbidden place is overridden by the rule that one should try to save the life o someone in risk of life. Still here the reason is utilitarian: one weight more heavily the rule that says that one should save the life of people than the rule that one should not produce disturbance by stopping a car in a forbidden place, since we feel that the first rule maximize happiness more than the second one. This is not as the case of breaking a rule without a serious reason since this would give the right of any other to break them also, what would endanger the whole system or relevant sub-system. – A society could not work efficiently without the observation of its system of moral rules.

   Concerning the case (1) of the judge, our conclusion is that there should be rules like “A judge should not hide evidences that could influence his judgement”. Our trust in the word of the judges is based on rules like that.
   Te assumption that the normal moral tire must be rule-utilitarianism disarms the case (2) of the utilitarian chirurgeon. The implicit rule is: (i) “one should not sacrifice the health of a person to increase the health of others.” This rule brings more happiness to more people, for example, it prevents the commerce of organs. Moreover, imagine who would have the courage to let be interned in a hospital knowing that he could be arbitrarily harmed for the benefit of other patients! Our certainty that physicians follow this rule increases the general happiness.
   Rule utilitarianism also answers the problem (3) of the Roman circus. There should be a rule (i) according to which “The happiness of a person arbitrarily produced by the unhappiness of other persons should not be allowed”. Following this rule would produce greater happiness for the majority since it would break the production of arbitrary unhappiness overall.
   However, the Romans could accept rule (i) without seeing it as deterring the functioning of their sadist spectacles, since the killing of Christians was for them seen as a non-arbitrary deterrence of the evil. Would then be it moral? From their perspective yes, though obviously not from our own moral perspective.
   It is worth to notice that pleasures are to a great extension culture-relative. This means that hedonist utilitarianism must be relativized to a culture, even if we agree that cultures are not relativizable among them. For the Romans, as for the people in the Middle Ages, to see people suffering could be a source of pleasure, and spectacles of public torture of condemned were for them morally justified. For us, these spectacles are repugnant. We live in a world where technology and knowledge have made possible a very meaningful incrementation of moral values.
   Consider, to give another example, the case of slavery. During the ancient times, it was certainly unavoidable: a nation without slavery would be soon itself enslaved by other competing nations. In the present world we have the material conditions for more social justice. Esclavery would not only be unnecessary but would produce an increase of general unhappiness, diminishing utility. To accept these historical facts does not bring us to relativism since we can say that these old civilizations could only sustain themselves under the hardness of lower moral standards.
   It should be seen as a fact that some degree of injustice is for utilitarian reasons inevitable. Under the Romans there were the punition of decimation: one under ten soldiers should be randomically punished with death in the case of a severe indiscipline committed by the legion. This barbarous procedure was accepted as a minor bad. Today we have efficient penal systems, but where is justice there is also the possibility of judicial error: the possibility of a judicial error is always present, though we would agree that it is better to accept this possibility than to have a faulty kind of justice. The unavoidableness of the bad is often artistically articulated, as in Igor Stravinsky’s Le Sacre du Printemps, which celebrates a rite of pagan Russia, in which a maiden should be sacrificed in order to propitiate the wonder of the spring.
   This also solves the problems (4) and (5). We do not wish that the rich man donates his fortune (assuming that he has reached it by honest means) as far as we recognize that he deserves what he has achieved and because he has the capacity to invest money in a reasonable way for the benefit of the majority. Because of this, we agree that it can be immoral or insensible that one does not donate his money more than it is reasonable. The second is that we do not wish that utilitarians work until exhaustion, because this would increase general unhappiness. Laws forbidding extra-hours work are there in order to satisfy similar aims.
   Moreover, rule-utilitarianism solves the problem of impartiality created by act-utilitarianism. Often our search for well-being is partial and necessarily so. We take care of our family more than of strangers, of our children more than of the others, of our fellow people more than of the others. This partiality of behavior is not only expected but it promotes a kind of “division of work” that provides for the general well-being, remaining beyond consideration only for pure act-utilitarianism.
   Case (6) is caricatural. Anyway, there are reports of occurrences like that, as the case of the four sea-men that after the naufrage of their ship and many days of hunger and thirst in a small saving-boat turned themselves into act-utilitarians. They decided to kill the weakest fellow who was indeed almost death in order to survive eating his body and drinking his blod for the next four days, when they were rescued.[4] It is true that without this they would probably not survive, but one can ask if they should at least wait until the weakest fellow die… Indeed, a case of cannibalism without killing was that of the rugby team that survived the plane crash on a desert glacier in the Andes in 1972. They survived for more than two months eating the bodies of their death fellows in order to survive. Shortly after the crash, the Catholic Church announced that according to the religiose doctrine they had committed a sin by eating the flesh of the death. This only highlights the inflexibility of the deontological rules based on “God’s commandment” or “pure reason”. However, two-tiered utilitarians would explain that there would be no alternative in such particular circumstance – in two and half months they would all die of starvation. There are extreme cases in which utilitarian rules preventing acts like murder and cannibalism are to be withdrawn. Here I agree with Nietzsche: what prevents many people to accept these exceptions is the load of two thousand years of Christian deontology.
   Case (7) is our final example. Jim is in a situation in which he must actively break the moral rule of not killing innocent people. Assuming that he is no Indiana Jones and that there is no alternative to choose in order to save the major quantity of lives possible, he would be right in killing one innocent Indian. Many of us would not have the courage to do it, but this has nothing to do with the fact that Jim should do it in order to save the lives of 19 Indians.
   The observance of moral rules is important because our social mechanism is dependent on it: it generates trust and allows cooperative action. Without the cooperation generated by these rules, no social life would be possible. Moreover, the maximization calculi are complex, disputable and time-consuming. We could not cope with normal social life if we should make a utilitarian calculus each time we bought a bread in the bakery.
   However, there are situations in which it is clearly advantageous end even necessary to make ourselves act-utilitarians. These are at least the cases when (i) there are no rules, and (ii) the utilitarian advantages of breaking the rules would be so great that they overthrow the disadvantages of breaking with the system of rules.
    Exemplifying the case (i) there is the construction of a barrage to retain the water that falls from the mountains always when tempests occur, destroying houses and plantations. There is no rule in sight, but it is clear to all inhabitants of the region that it would bring more happiness to the great majority, even if this should mean the removal of the people living in the small village at the center of the place. After all, these people will receive a compensation. Act utilitarian choice in circumstances when there is no rule are common.
   Concerning the case (ii), we can consider cases like that of the innocent dick man who leads seven others in a cave at the shore at the level of the water. Since the tide is growing and the level of the water is growing, the cave will be soon full of water. As he tries to get out through the only hole that can lead the people outside the cave, he get stuck in the hole and can neither go outside neither come back. If this situation remains for long all the seven people will drawn. Luckely, one of them has a dynamite`s banane with him, and they are able to explode the hole together with the innocent dick man and in this way save themselves. The action would be immoral if we think deontologically that lifes of innocent people are sacred under any circumstance. However, the action is correct and it is even a moral obligation from the utilitarian point of view, since it would be a sign of moral weakness not to explode the dynamite.[5] This case is not essentially different from cases (6) and (7). According to the two-tiered utilitarianism, the advantage of breaking the rule is in this and similar cases so great that the involved persons must forget the rule-utilitarian rule according to which we should respect the life of an innocent person and turn themselves to the second tire: the act utilitarianism. They should calculate what action maximizes utility, that is, diminish the pain for the most people in a way similar to that proposed by Bentham.
   Most cases are easy to identify. However, consider Feynman`s rule of active irresponsibility: “do what only you are prepared to do and let for the others to do the work that they also can do”. This was the maxim used by this physicist in order to economize time. In doing this, he followed a personal utilitarian rule that was not inscribed in the university institution. Non-utilitarians would complain that this is immoral.
   There are difficult cases in which breaking the rules would be for many immoral. Consider the case of the painter Paul Gauguin, who abandoned his woman with five children in France and went to the Pacific islands searching for inspiration in a more natural human world. Some would say that it was immoral to break the rules of marriage in such an irresponsible way since he caused harm to his family. However, when we think about the new world discovered by his art, and the fact that these admirable discoveries were posthumously shared to the world, giving pleasure to many further generations, we see that he was right in breaking the rules. The compensation in form of collective happiness was in the long run much greater than the harm that he could have caused to his family and I guess that he was aware of this. Real artists might have a moral bonus concerning the responsibility for their actions, even if this prerogative is easily exaggerated. This example can give us a glimpse into the difficulties that are involved in judging the morality of a person’s decision by inside.
   The two-tiered utilitarianism helps us to understand the extensional limits of act utilitarianism. We do not need to worry about the happiness of people in an unknown planet of a distant Galaxy as well as we should not worry about the life of uncontacted Indians who live in a forest unrelated to the world outside. The reason is that we do not know anything about their system of values and we do not have the right to project our system of rules to them under the danger of promoting unhappiness. They might be even happier than we are through the oblibion of living within they autoctone culture and outside any contact with our civilization.
   I can summarize my point so: our intention to follow the rule-utilitarian system or even to override it by means of act-utilitarian actions can be extended only to the limits of the system of rules within which we are acting. If we find reasons to break with our system of rules, this gives us no reason to break with a completely different, unknown system. We should simply let it outside our concerns.
   There are also some additions to what I have said until now. One of them is that pain (in a broad sense) seems to have a heavier value than pleasure: with exception of masochists, we refrain to feel pain mixed with equal amount of pleasure. Hence, we should not do something that spreads pain with a surplus of pleasure unless our fellows were a bunch of masochists.
   Moreover, there is the clever objection that rule-utilitarianism collapses into act-utilitarianism. The argument, which seems particularly applicable to two-tiered utilitarianism, runs as follows: The form of our rules is: “Do x (or not x), unless x (or not x) does not maximize utility”. However, this is the same as “Do always whatever maximizes utility”.
    However, two-tired utilitarianism has a very reasonable answer to this objection. It is necessary a particularly strong utilitarian justification for disavowing a utilitarian rule. It is not fell as correct, for instance, to jump a queue, even if you have something you believe is more important to do. It is also not correct that a judge releases an already small theft, only because he knows that his family needs him and that this will maximize happiness. The ground is that if you break rules for unimportant reasons you are jeopardizing the trust people should have in the system of rules. And, as John Hospers noted, there is nothing more demoralizing than the corruption of laws through the people who should apply them.[6]
   Thus, we shall not break the rules only because of small utilitarian advantages. We should do this only in extreme cases, when the utilitarian advantages greatly surpass the disadvantages of demoralizing the system of rules. And we should do this by creating new consensual means, when the reality shows that it is necessary to change some rules of the system in order to adapt it to the changing reality, what is often the case.
   The conclusion seems to be that a two-tiered hedonist utilitarianism is the best and the most fundamental ethical theory. What makes things complicated is the unavoidable fact that its application always demands an examination of the concrete circumstances involved. These circumstances can make the ethical praxis much more complex than the utilitarian principles are able to foreseen.
   Finally, what to think when we compare the two-tired utilitarianism with the deontological ethics and the ethics of virtues? The answer is that the rules exemplified in the action and the ethics of virtue must be subordinated to utilitarians ends. The deontology gives way to rule-utilitarianism. If the ten commandments and the categorical imperative have a value – and I believe they have – then they need to lose their absolute status and be seen as rule-utilitarian rules. And the virtues are virtues only insofar as in the majority of their application they contribute to maximizing utility. This explains why virtues are changeable according to times and circumstances. McIntyre noticed this point. In the Homeric Greece, pure physical force was considered a virtue. During the beginning of Christianity piety and selflessness were great virtues. According to McIntyre, in the XIII Century, for Jane Austen, constancy as an important virtue, since in her Romances, after being deceived by the young lover the hero, usually ended up marrying a dedicated, loyal older man. If virtues are changeable according to circumstances, it is because they are dependent on the consequences that establish what kind of action is a good action.
   This dependence of circumstances can be illustrated by the case of the millionaire great sailboat that enrolled by a tempest ended up crashing on an uninhabited island where they needed to live for ten years until they found rescue. The person who turned out to be the organizer of this society of castaways were not the millionaires that owned the ship, but a young waiter. In this situation, his courage and unknown skills transformed themselves in virtues that maximized the happiness in the new society of shipwrecked, while the probable virtues of the millionaires were unuseful under the same conditions.
   A point to notice is that two-tired utilitarianism furnishes the otherwise unexplained grounds for contractualism. The idea is that we are able to make implicit or explicit reasonable agreements, which are reasonable because if we follow them they promote collective happiness. Contractualism is rule-utilitarianism warranted by mutual agreement able to maximize the social cooperation and therefore the collective happiness.
   Another point to notice is that utilitarianism opposed deontology and virtue theory of morality, inverting the direction of their values. Well understood, a sufficiently sophisticated form of utilitarianism is a progressive form of ethics opposing any law, moral code, tradition, tabu and divine order, as far as they do not serve the aim of increasing human happiness. In fact, it relativizes what these theories have to say, attracting against it the weight of tradition that builds much of human consciousness, even if only unconsciously. As the result of more than thousand years of inculcated deontological doctrine opposing virtue theory, many people have a biased perception of the conclusions of two-tired hedonist utilitarianism as exposed here. It is not easy to counter prejudices sedimented over centuries, even millennia. The hardness of the moral ‘must’ tests our capacity of conscious endurance regarding real life.




[1] I remember to have heard this sentence in his course at the UCLA-Berkeley.
[2] Jeremy Bentham, An Introduction to the Principles of Moral and Legislation, J. H. Burns, ed. (Oxford: Oxford Clarendon Press, 1996), Ch. I, sec. 1.
[3] R. M. Hare, Moral Thinking (Oxford: Oxford University Press, 1981)

[4] Michael J. Sandel, Justice (Farrar, Straugh and Giroux, 2009), ch. 2.

[5] Kai Nielsen: ``Against Moral Conservatism``, Ethics 82, 1972.
[6] John Hospers, Human Conduct? An Introduction to the Problem of Ethics (Harcourt Brace Jovanich, 1961).