O CENÁRIO GEOPOLÍTICO NO ANO 2050
Aqui
vão minhas predições filosóficas holísticas e contraindutivas sobre o cenário
geopolítico do ano 2050.
Confesso
que sempre errei em minhas previsões. Mas como sou adepto da lógica contraintuitiva,
acertarei dessa vez. Essa lógica funciona assim: eu sempre errei em minhas
previsões político-filosóficas; logo, dessa vez eu irei acertar. Eu sempre
errei em minhas previsões político-filosóficas; logo, daqui para frente, eu
sempre acertarei. Essa lógica nunca falha, pois quanto mais erros eu tiver cometido
no passado, mais provável é que eu acertarei no futuro. Por isso, ouso dizer com
toda segurança que, dessa vez, acertarei.
A
questão é: como será o mundo geopolítico em 2050? Para refletirmos sobre isso,
precisamos primeiro voltar a Platão. Ele se opunha à democracia ateniense
porque a considerava ilusória e perversa. Os sofistas eram pagos para ensinar
aos políticos como enganar o povo, e o resultado foi que o próprio povo,
manipulado por demagogos em uma cidade-estado decadente, votou pela condenação
de Sócrates apenas porque ele desafiava os sofistas e os demagogos mais influentes
ao dizer a verdade.
A
solução proposta por Platão encontra-se em seu célebre diálogo A República.
Nele, todas as pessoas — independentemente de sua origem social, seja entre o
povo de alma apetitiva (trabalhadores, agricultores, artesãos) ou em qualquer
outra das três classes naturais de pessoas — deveriam receber, desde a
infância, uma educação universal. Aos 20 anos, seriam submetidas a provas
rigorosas. Os aprovados se tornariam guardiões ou auxiliares, servindo ao
governo; já os reprovados passariam a integrar o povo dedicado ao trabalho
produtivo.
A
razão dessas provas universais é que Platão não acreditava em méritos hereditários
nem em direitos de classe. Embora elitista em sua concepção de governo, sua
proposta rejeitava privilégios de nascimento: uma criança nascida de pais de
alma apetitiva poderia revelar alma racional ou volitiva, e vice-versa.
Os que
permanecessem entre os trabalhadores teriam o direito de acumular riquezas, mas
não o acesso ao poder. Assim, os industriais do mundo atual seriam vistos por
Platão como parte da classe produtiva. Já os aprovados poderiam ascender no
sistema político, tornando-se soldados-auxiliares. Estes teriam poder político,
mas seriam privados do direito à riqueza material, justamente para evitar a
corrupção.
Dos 20
aos 30 anos, os aprovados nas primeiras provas dedicavam-se ao estudo da
matemática e das ciências, mas ainda não tinham acesso à filosofia, considerada
prematura nessa fase. O estudo filosófico viria apenas depois. Aos 30 anos,
eram submetidos a novas provas: os aprovados passavam a integrar uma nova casta
de guardiões, agora iniciados na filosofia. Entre eles, apenas alguns poucos se
juntariam à elite filosófica destinada a governar o Estado.
Antes,
porém, deveriam viver alguns anos junto ao povo para experimentar, na prática,
a realidade da vida cotidiana das pessoas comuns. Somente após os cinquenta
anos, após todas as etapas de formação e experiência, alguns poderiam se
candidatar ao cargo supremo de rei-filósofo. Um tal sistema seria altamente
meritocrático para Platão.
Platão
defendia uma separação absoluta entre a governança e os ganhos materiais. Os
governantes não precisariam beber de cálices de ouro, pois — como escreveu — o
ouro já estaria em suas almas. Viveriam com pouco, justamente para não se
corromperem.
A
questão é: tudo isso lembra algo? De certo modo, o Estado chinês. Não é
idêntico ao modelo de Platão, mas guarda semelhanças. O Partido Comunista da
China reúne cerca de 100 milhões de membros em um país de 1,4 bilhão de
habitantes. Todos podem tentar, mas é preciso um comportamento impecável para
conseguir nele ingressar. O próprio Xi Jinping tentou nove vezes antes de ser
aceito na décima. O único vírus capaz de destruir a moral do partido é a
corrupção, razão pela qual Xi Jinping a combate duramente.
O povo
não vota diretamente para escolher o presidente. Mas participa de eleições
locais, elegendo pessoas próximas, que conhece e tem como avaliar sem ser
enganado. Esses representantes precisam demonstrar competência para ascender.
Além disso, muitos dirigentes são selecionados entre os melhores alunos das
universidades mais prestigiadas, em um sistema altamente competitivo. A rotina
acadêmica é extrema: estudantes que acordam às 7h da manhã para estudar e vão
dormir às 11h da noite, com meia hora de intervalo para o almoço. O estado
chinês atua como planejador e impulsionador do desenvolvimento, sendo capaz de
dirigir o capital público e privado para a satisfação de metas de interesse do
povo, em projeções de 5 ou mais anos.
Xi
Jinping é um exemplo mais antigo. Ainda adolescente, cometeu erros, como fugir
da escola, e o partido decidiu enviá-lo para viver entre camponeses, a fim de
ser reeducado por meio do aprendizado da realidade da vida. Passou seis anos morando
em uma caverna, trabalhando no campo. Só depois lhe disso lhe permitiram
retornar a Pequim ou Xangai, sei lá eu. Para ascender na carreira política,
teve de cursar engenharia e demonstrar sua capacidade ao governar duas
províncias com metade do tamanho do Brasil. Como as administrações locais
competem intensamente entre si, seu bom desempenho o levou ao Politbüro
e, gradualmente, ao núcleo dos cinco dirigentes mais influentes, até alcançar a
liderança máxima da China, com poder político e militar.
Ele
não é visto como um ditador; ocupa o cargo porque o partido o considera a
pessoa mais preparada. Se o partido decidir, perderá o lugar. O sistema é
concebido como meritocrático: o povo não é enganado e existe uma democracia de
base, já que a principal preocupação do partido é evitar a insatisfação
popular. Na prática, esse modelo resulta em índices de aprovação superiores a
90%, em contraste com muitas democracias ocidentais em crise, nas quais uma parte
significativa da população prefere não votar a fazer parte do circo. É evidente
que o modelo chinês guarda semelhanças com a República de Platão.
Entender
o modelo chinês torna-se mais fácil ao lembrarmos de sua longa tradição. A
China teria começado por volta de 2.600 a.C., com a dinastia Xia, mas só se
unificou de fato em 221 a.C., sob a dinastia Qin. Essa trajetória milenar
moldou modos de pensar profundamente enraizados na mentalidade coletiva, reforçados
pelo pensamento de Confúcio e de outros filósofos que desenvolveram uma
filosofia sociopolítica prática voltada à harmonia interna do Estado.
O
país, vasto e populoso, era marcado por revoltas camponesas que, de tempos em
tempos, levavam novos líderes ao poder. Após tais revoluções, o novo governante
recebia o chamado “mandato dos céus” e, em geral, no início, governava com
justiça. Para que o sistema não privilegiasse apenas as elites, a partir da
dinastia Han (206 d.C.) — que se consolidou na dinastia Tang (618 d.C.) —
surgiu o sistema dos mandarins: funcionários públicos selecionados por
meio de exames imperiais extremamente rigorosos.
Essas
provas exigiam profundo conhecimento dos textos clássicos, especialmente de
Confúcio. Para ser admitido na carreira, era necessário dominar a escrita pictográfica
chinesa com seus milhares de caracteres, que atuava como uma linguagem
universal, independente dos dialetos, contribuindo para a unificação cultural
do país. O objetivo central do sistema dos mandarins era recrutar
administradores com base no mérito, e não na origem aristocrática.
É
impressionante a recorrência das revoluções camponesas contra as dinastias de
elites na história chinesa. Em 184 d.C., ocorreu a revolta dos Turbantes
Amarelos contra a dinastia Han. Mais tarde, em 304, veio a revolta dos Cinco
Bárbaros, também contra a ordem Han. Por volta de 1351, uma nova insurreição
dos Turbantes Amarelos abalou a dinastia Yuan, abrindo caminho para a ascensão
da dinastia Ming.
No
século XIX, destacou-se a Revolução Taiping, que teve um enorme custo em vidas
humanas em um país já combalido pela exploração ocidental. Já no século XX, a
revolução maoísta, igualmente baseada no campesinato, transformou radicalmente
o país.
O que
se observa é um padrão repetitivo: uma revolução popular derruba a dinastia
vigente, instaura um novo imperador e inaugura uma nova ordem. Inicialmente,
essa dinastia governa com valores renovados e legitimidade, mas, com o tempo,
acaba se corrompendo, até que uma nova revolução camponesa surge,
substituindo-a por outra dinastia que retoma os ideais de justiça e renova os
valores.
A
revolução chinesa pode ser vista como uma reencarnação desse antigo sistema dos
mandarins, acrescida de um objetivo socialista marxista – ainda que a realidade
tenha impedido sua plena realização.
Minha
suspeita: o padrão histórico das revoluções camponesas, seguidas pela ascensão
de novas dinastias legitimadas pelo chamado “mandato dos céus”, que, com o
tempo, acabavam se corrompendo e sendo substituídas por novas revoluções, criou
um modelo que talvez responda a uma questão central da República de Platão:
quem decide o quê? Quem escolhe o rei-filósofo? Quem define o conteúdo das
provas? Platão não tinha como responder.
Aqui,
a resposta parece estar na própria natureza humana. Todo sistema, por mais
justo que seja em sua origem, tende à corrupção com o passar do tempo. As
revoluções, nesse sentido, foram a única forma de regenerar o sistema, de restaurar
os valores. Elas têm sido a maneira de fazer com que o sistema escolha
mandatários capazes, mas isso é guiado pela natureza corruptível das sociedades
humanas, assim como os ciclos econômicos, que, guiados por essa mesma natureza,
são inevitáveis. Gostaria que essa resposta pessimista, de uma repetição
inevitável de ciclos de corrupção, ruptura e renascimento, fosse incorreta.
O ponto crucial é que o modelo chinês – no qual
os governantes pertencem a uma elite meritocrática piramidal, baseada nos
interesses reais do povo e sustentada por uma democracia de base, mostra-se
muito mais capaz de promover o desenvolvimento econômico e humano do que as
democracias ocidentais – muito além das democracias-títere dos interesses
norte-americanos, como o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan. Retirar 800 milhões
de pessoas da pobreza, elevando-as à classe média e à alta, é um fenômeno sem
precedentes na história. O sistema herdado pelos chineses revelou-se absurdamente
eficaz e, ao que tudo indica, continuará assim, pois depende da mesma
meritocracia hierárquica que, por longos períodos históricos, tornou a China o
mais rico país do mundo.
Se lançarmos um olhar sobre a história da
China, veremos que o governo chinês era considerado o centro do mundo, cercado
por estados tributários – no bom sentido – como Vietnã, Coreia, Okinawa,
Tailândia, Camboja, Nepal, Tibete e, em certos períodos, até mesmo o Japão.
Digo “no bom sentido” porque esses estados tributários não perdiam sua
soberania: tratava-se de relações diplomáticas e comerciais de mútuo benefício,
muito diferentes das práticas colonizadoras ocidentais. A China não explorava
esses países como ocorreu na colonização da África pela Europa, muito menos
como Roma fez ao escravizar povos dominados, e tampouco como os Estados Unidos,
que exerceram e ainda exercem sua influência militar e ideológica em países
menos desenvolvidos, mantendo-os forçosamente incapazes de se industrializarem,
subindo à mesa dos mais ricos.
A China exportou para esses estados
tributários a escrita simbólica, desenvolvimentos técnicos, roupagens e hábitos
que só o ancestral sistema chinês dos mandarins era capaz de desenvolver. Com o
Japão, essa influência também se estendeu até lá pelo século X. Foi então que
uma casta guerreira, a dos samurais, tomou conta do Japão e passou a piratear
as águas da China. Daí veio a profunda oposição entre a China e o Japão. Ela
teve origem na perversão da versão japonesa do “reino do meio”, a China, assim
chamada por se considerar o centro do mundo civilizado lá no século III. Esse é
o mesmo Japão imperialista que criou com a China uma dívida moral pelas
terríveis ações de agressão feitas na primeira metade do século XX e que até
hoje, como títere do imperialismo ocidental, se recusa a reconhecer.
O resultado dessas considerações é claro: o
sistema chinês mostra-se incomparavelmente superior às democracias ocidentais
decadentes, que, em geral, se podem comparar cada vez mais à democracia
ateniense.
Se
quisermos sobreviver, suspeito que tenhamos de nos submeter à China como
estados tributários – no bom sentido – pois versões locais de seu modelo, que
tende a dominar o mundo por volta de 2050, se expandirão globalmente. Nesse
cenário, poderíamos assistir ao nascimento de uma verdadeira república, como a
imaginada por Platão, sob a forma de uma confederação mundial.
É claro que nada disso acontecerá sem
resistências — e elas serão sérias, envolvendo guerras e o constante risco de
desaparecimento da humanidade, seja por um conflito nuclear ou por uma
catástrofe climática.
Por exemplo, Xi Jinping já disse que, a
partir de 2027, irá reintegrar Taiwan. Podemos imaginar Taiwan economicamente
fragilizado com forças navais muito superiores cercando a ilha, exigindo
rendição ou enfrentamento. Para evitar um milhão de mortes, o governo de Taiwan
acabará se rendendo, tornando-se equivalente a uma Hong Kong, no sentido de
manter sua administração interna, mas sem servir a interesses ocidentais.
Nesse cenário, os Estados Unidos e o Japão já
estarão conscientes de que o preço a pagar, se intervirem, será enorme.
Acredito que, no fim das contas, eles terão de recorrer ao banco dos BRICS em
busca de ajuda não exploratória, algo merecido, já que suas populações terão
sido, por tempo demais, ludibriadas pelas elites. Infelizmente, não há parto
sem dor.