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domingo, 15 de fevereiro de 2026

O MUNDO EM 2050

 


O CENÁRIO GEOPOLÍTICO NO ANO 2050

 

Aqui vão minhas predições filosóficas holísticas e contraindutivas sobre o cenário geopolítico do ano 2050.

Confesso que sempre errei em minhas previsões. Mas como sou adepto da lógica contraintuitiva, acertarei dessa vez. Essa lógica funciona assim: eu sempre errei em minhas previsões político-filosóficas; logo, dessa vez eu irei acertar. Eu sempre errei em minhas previsões político-filosóficas; logo, daqui para frente, eu sempre acertarei. Essa lógica nunca falha, pois quanto mais erros eu tiver cometido no passado, mais provável é que eu acertarei no futuro. Por isso, ouso dizer com toda segurança que, dessa vez, acertarei.

A questão é: como será o mundo geopolítico em 2050? Para refletirmos sobre isso, precisamos primeiro voltar a Platão. Ele se opunha à democracia ateniense porque a considerava ilusória e perversa. Os sofistas eram pagos para ensinar aos políticos como enganar o povo, e o resultado foi que o próprio povo, manipulado por demagogos em uma cidade-estado decadente, votou pela condenação de Sócrates apenas porque ele desafiava os sofistas e os demagogos mais influentes ao dizer a verdade.

A solução proposta por Platão encontra-se em seu célebre diálogo A República. Nele, todas as pessoas — independentemente de sua origem social, seja entre o povo de alma apetitiva (trabalhadores, agricultores, artesãos) ou em qualquer outra das três classes naturais de pessoas — deveriam receber, desde a infância, uma educação universal. Aos 20 anos, seriam submetidas a provas rigorosas. Os aprovados se tornariam guardiões ou auxiliares, servindo ao governo; já os reprovados passariam a integrar o povo dedicado ao trabalho produtivo.

A razão dessas provas universais é que Platão não acreditava em méritos hereditários nem em direitos de classe. Embora elitista em sua concepção de governo, sua proposta rejeitava privilégios de nascimento: uma criança nascida de pais de alma apetitiva poderia revelar alma racional ou volitiva, e vice-versa.

Os que permanecessem entre os trabalhadores teriam o direito de acumular riquezas, mas não o acesso ao poder. Assim, os industriais do mundo atual seriam vistos por Platão como parte da classe produtiva. Já os aprovados poderiam ascender no sistema político, tornando-se soldados-auxiliares. Estes teriam poder político, mas seriam privados do direito à riqueza material, justamente para evitar a corrupção.

Dos 20 aos 30 anos, os aprovados nas primeiras provas dedicavam-se ao estudo da matemática e das ciências, mas ainda não tinham acesso à filosofia, considerada prematura nessa fase. O estudo filosófico viria apenas depois. Aos 30 anos, eram submetidos a novas provas: os aprovados passavam a integrar uma nova casta de guardiões, agora iniciados na filosofia. Entre eles, apenas alguns poucos se juntariam à elite filosófica destinada a governar o Estado.

Antes, porém, deveriam viver alguns anos junto ao povo para experimentar, na prática, a realidade da vida cotidiana das pessoas comuns. Somente após os cinquenta anos, após todas as etapas de formação e experiência, alguns poderiam se candidatar ao cargo supremo de rei-filósofo. Um tal sistema seria altamente meritocrático para Platão.

Platão defendia uma separação absoluta entre a governança e os ganhos materiais. Os governantes não precisariam beber de cálices de ouro, pois — como escreveu — o ouro já estaria em suas almas. Viveriam com pouco, justamente para não se corromperem.

A questão é: tudo isso lembra algo? De certo modo, o Estado chinês. Não é idêntico ao modelo de Platão, mas guarda semelhanças. O Partido Comunista da China reúne cerca de 100 milhões de membros em um país de 1,4 bilhão de habitantes. Todos podem tentar, mas é preciso um comportamento impecável para conseguir nele ingressar. O próprio Xi Jinping tentou nove vezes antes de ser aceito na décima. O único vírus capaz de destruir a moral do partido é a corrupção, razão pela qual Xi Jinping a combate duramente.

O povo não vota diretamente para escolher o presidente. Mas participa de eleições locais, elegendo pessoas próximas, que conhece e tem como avaliar sem ser enganado. Esses representantes precisam demonstrar competência para ascender. Além disso, muitos dirigentes são selecionados entre os melhores alunos das universidades mais prestigiadas, em um sistema altamente competitivo. A rotina acadêmica é extrema: estudantes que acordam às 7h da manhã para estudar e vão dormir às 11h da noite, com meia hora de intervalo para o almoço. O estado chinês atua como planejador e impulsionador do desenvolvimento, sendo capaz de dirigir o capital público e privado para a satisfação de metas de interesse do povo, em projeções de 5 ou mais anos.

Xi Jinping é um exemplo mais antigo. Ainda adolescente, cometeu erros, como fugir da escola, e o partido decidiu enviá-lo para viver entre camponeses, a fim de ser reeducado por meio do aprendizado da realidade da vida. Passou seis anos morando em uma caverna, trabalhando no campo. Só depois lhe disso lhe permitiram retornar a Pequim ou Xangai, sei lá eu. Para ascender na carreira política, teve de cursar engenharia e demonstrar sua capacidade ao governar duas províncias com metade do tamanho do Brasil. Como as administrações locais competem intensamente entre si, seu bom desempenho o levou ao Politbüro e, gradualmente, ao núcleo dos cinco dirigentes mais influentes, até alcançar a liderança máxima da China, com poder político e militar.

Ele não é visto como um ditador; ocupa o cargo porque o partido o considera a pessoa mais preparada. Se o partido decidir, perderá o lugar. O sistema é concebido como meritocrático: o povo não é enganado e existe uma democracia de base, já que a principal preocupação do partido é evitar a insatisfação popular. Na prática, esse modelo resulta em índices de aprovação superiores a 90%, em contraste com muitas democracias ocidentais em crise, nas quais uma parte significativa da população prefere não votar a fazer parte do circo. É evidente que o modelo chinês guarda semelhanças com a República de Platão.

Entender o modelo chinês torna-se mais fácil ao lembrarmos de sua longa tradição. A China teria começado por volta de 2.600 a.C., com a dinastia Xia, mas só se unificou de fato em 221 a.C., sob a dinastia Qin. Essa trajetória milenar moldou modos de pensar profundamente enraizados na mentalidade coletiva, reforçados pelo pensamento de Confúcio e de outros filósofos que desenvolveram uma filosofia sociopolítica prática voltada à harmonia interna do Estado.

O país, vasto e populoso, era marcado por revoltas camponesas que, de tempos em tempos, levavam novos líderes ao poder. Após tais revoluções, o novo governante recebia o chamado “mandato dos céus” e, em geral, no início, governava com justiça. Para que o sistema não privilegiasse apenas as elites, a partir da dinastia Han (206 d.C.) — que se consolidou na dinastia Tang (618 d.C.) — surgiu o sistema dos mandarins: funcionários públicos selecionados por meio de exames imperiais extremamente rigorosos.

Essas provas exigiam profundo conhecimento dos textos clássicos, especialmente de Confúcio. Para ser admitido na carreira, era necessário dominar a escrita pictográfica chinesa com seus milhares de caracteres, que atuava como uma linguagem universal, independente dos dialetos, contribuindo para a unificação cultural do país. O objetivo central do sistema dos mandarins era recrutar administradores com base no mérito, e não na origem aristocrática.

É impressionante a recorrência das revoluções camponesas contra as dinastias de elites na história chinesa. Em 184 d.C., ocorreu a revolta dos Turbantes Amarelos contra a dinastia Han. Mais tarde, em 304, veio a revolta dos Cinco Bárbaros, também contra a ordem Han. Por volta de 1351, uma nova insurreição dos Turbantes Amarelos abalou a dinastia Yuan, abrindo caminho para a ascensão da dinastia Ming.

No século XIX, destacou-se a Revolução Taiping, que teve um enorme custo em vidas humanas em um país já combalido pela exploração ocidental. Já no século XX, a revolução maoísta, igualmente baseada no campesinato, transformou radicalmente o país.

O que se observa é um padrão repetitivo: uma revolução popular derruba a dinastia vigente, instaura um novo imperador e inaugura uma nova ordem. Inicialmente, essa dinastia governa com valores renovados e legitimidade, mas, com o tempo, acaba se corrompendo, até que uma nova revolução camponesa surge, substituindo-a por outra dinastia que retoma os ideais de justiça e renova os valores.

A revolução chinesa pode ser vista como uma reencarnação desse antigo sistema dos mandarins, acrescida de um objetivo socialista marxista – ainda que a realidade tenha impedido sua plena realização.

Minha suspeita: o padrão histórico das revoluções camponesas, seguidas pela ascensão de novas dinastias legitimadas pelo chamado “mandato dos céus”, que, com o tempo, acabavam se corrompendo e sendo substituídas por novas revoluções, criou um modelo que talvez responda a uma questão central da República de Platão: quem decide o quê? Quem escolhe o rei-filósofo? Quem define o conteúdo das provas? Platão não tinha como responder.

Aqui, a resposta parece estar na própria natureza humana. Todo sistema, por mais justo que seja em sua origem, tende à corrupção com o passar do tempo. As revoluções, nesse sentido, foram a única forma de regenerar o sistema, de restaurar os valores. Elas têm sido a maneira de fazer com que o sistema escolha mandatários capazes, mas isso é guiado pela natureza corruptível das sociedades humanas, assim como os ciclos econômicos, que, guiados por essa mesma natureza, são inevitáveis. Gostaria que essa resposta pessimista, de uma repetição inevitável de ciclos de corrupção, ruptura e renascimento, fosse incorreta.

   O ponto crucial é que o modelo chinês – no qual os governantes pertencem a uma elite meritocrática piramidal, baseada nos interesses reais do povo e sustentada por uma democracia de base, mostra-se muito mais capaz de promover o desenvolvimento econômico e humano do que as democracias ocidentais – muito além das democracias-títere dos interesses norte-americanos, como o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan. Retirar 800 milhões de pessoas da pobreza, elevando-as à classe média e à alta, é um fenômeno sem precedentes na história. O sistema herdado pelos chineses revelou-se absurdamente eficaz e, ao que tudo indica, continuará assim, pois depende da mesma meritocracia hierárquica que, por longos períodos históricos, tornou a China o mais rico país do mundo.

   Se lançarmos um olhar sobre a história da China, veremos que o governo chinês era considerado o centro do mundo, cercado por estados tributários – no bom sentido – como Vietnã, Coreia, Okinawa, Tailândia, Camboja, Nepal, Tibete e, em certos períodos, até mesmo o Japão. Digo “no bom sentido” porque esses estados tributários não perdiam sua soberania: tratava-se de relações diplomáticas e comerciais de mútuo benefício, muito diferentes das práticas colonizadoras ocidentais. A China não explorava esses países como ocorreu na colonização da África pela Europa, muito menos como Roma fez ao escravizar povos dominados, e tampouco como os Estados Unidos, que exerceram e ainda exercem sua influência militar e ideológica em países menos desenvolvidos, mantendo-os forçosamente incapazes de se industrializarem, subindo à mesa dos mais ricos.

   A China exportou para esses estados tributários a escrita simbólica, desenvolvimentos técnicos, roupagens e hábitos que só o ancestral sistema chinês dos mandarins era capaz de desenvolver. Com o Japão, essa influência também se estendeu até lá pelo século X. Foi então que uma casta guerreira, a dos samurais, tomou conta do Japão e passou a piratear as águas da China. Daí veio a profunda oposição entre a China e o Japão. Ela teve origem na perversão da versão japonesa do “reino do meio”, a China, assim chamada por se considerar o centro do mundo civilizado lá no século III. Esse é o mesmo Japão imperialista que criou com a China uma dívida moral pelas terríveis ações de agressão feitas na primeira metade do século XX e que até hoje, como títere do imperialismo ocidental, se recusa a reconhecer.

   O resultado dessas considerações é claro: o sistema chinês mostra-se incomparavelmente superior às democracias ocidentais decadentes, que, em geral, se podem comparar cada vez mais à democracia ateniense.

   Se quisermos sobreviver, suspeito que tenhamos de nos submeter à China como estados tributários – no bom sentido – pois versões locais de seu modelo, que tende a dominar o mundo por volta de 2050, se expandirão globalmente. Nesse cenário, poderíamos assistir ao nascimento de uma verdadeira república, como a imaginada por Platão, sob a forma de uma confederação mundial.

   É claro que nada disso acontecerá sem resistências — e elas serão sérias, envolvendo guerras e o constante risco de desaparecimento da humanidade, seja por um conflito nuclear ou por uma catástrofe climática.

   Por exemplo, Xi Jinping já disse que, a partir de 2027, irá reintegrar Taiwan. Podemos imaginar Taiwan economicamente fragilizado com forças navais muito superiores cercando a ilha, exigindo rendição ou enfrentamento. Para evitar um milhão de mortes, o governo de Taiwan acabará se rendendo, tornando-se equivalente a uma Hong Kong, no sentido de manter sua administração interna, mas sem servir a interesses ocidentais.

 Nesse cenário, os Estados Unidos e o Japão já estarão conscientes de que o preço a pagar, se intervirem, será enorme. Acredito que, no fim das contas, eles terão de recorrer ao banco dos BRICS em busca de ajuda não exploratória, algo merecido, já que suas populações terão sido, por tempo demais, ludibriadas pelas elites. Infelizmente, não há parto sem dor.

 

  

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