segunda-feira, 31 de agosto de 2015

CLAUDIO COSTA: PHILOSOPHICAL TEXTS - TEXTOS FILOSÓFICOS


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CURRICULUM:



Professor of philosophy at the UFRN (Brazil). E-mail for contact: ruvstof@gmail.com

M.S. in philosophy at the IFCS (Rio de Janeiro, 1982). Ph.D. at the University of Konstanz (1990). Sabbatical stages of one year as a visiting scholar in the Hochschule fuer Philosophie, Muenchen (1995), University of California at Berkeley (1999), University of Oxford (2004) and University of Konstanz (2009-10).

AREAS OF INTEREST: All the central questions of philosophy.

MAIN PUBLISHED WORK IN ENGLISH: The Philosophical Inquiry (UPA: Langham 2002), "Free Will and the Soft Constraints of Reason" (Ratio 2006), "The Sceptical Deal with our Concept of External Reality" (Abstracta 2009), "A Perspectival Definition of Knowledge" (Ratio 2010), and "A Metadescriptivist Theory of Proper Names" (Ratio 2011); a corrected version of the ideas of the last paper are here presented under the title "Outline of a Theory of Proper Names". The best selection of papers in portuguiesih is Paisagens Conceituais (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2012). A selection of papers published in English containing improved versions of the papers cited above is the book Lines of Thought: Rethinking Philosophical Assumptions (Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 2014).

CURRENT RESEARCH: I am presently working in a book to be called Philosophical Semantics. The aim of this book is not only to challenge the present externalist, causalist and anti-cognitivist mainstream in philosophy of language, but to provide an alternative view, trying to rescue some important ideas of the traditional philosophy of language.






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(5) NEODESCRITIVISMO SOBRE O CONCEITO DE ÁGUA (livro Cognitivismo semântico)

Draft artigo para o livro.




– 5 –
NEODESCRITIVISMO SOBRE O CONCEITO DE ÁGUA


Este capítulo contém uma refutação do argumento da Terra Gêmea de Putnam, conhecido por conduzir à conclusão de que o significado está “fora da cabeça”, além de uma breve refutação da sugestão de Kripke de que “Água é H2O” exprime uma identidade necessária e a posteriori. Essas refutações resultam do desenvolvimento de uma análise neodescritivista mais elaborada do conceito de água. É por ela que começaremos.

O descritivismo como deve ser
Para começar, consideremos a concepção descritivista ou neo-fregeana tradicional do significado da palavra ‘água’. Ela explica o significado ou conteúdo informativo em termos de um sentido ou modo de apresentação (Art des Gegebenseins) fregeano. Por ser assim, para o descritivista tradicional o sentido da palavra ‘água’ deve ser expresso linguisticamente na forma de descrições de propriedades fenomenais como as de transparência, falta de gosto e de odor etc. Esse sentido ou modo de apresentação, por sua vez, determinaria a referência e a extensão, tal como Frege sugeriu.[1]
     Essa maneira de ver contrasta com a concepção causal-externalista advogada por Hilary Putnam, segundo a qual o significado relevante da palavra ‘água’ não é aquilo que se instancia internamente em nossas cabeças na forma do que ele chamou de estereótipos, mas algo externo, determinado pela microestrutura essencial H2O compartilhada pelos volumes líquidos que formam a extensão do conceito.
     Uma primeira coisa a ser notada contra a maneira de ver tradicionalmente e quase que perversamente atribuida ao descritivismo é que o descritivista não tem obrigação alguma de restringir-se a meras descrições de superfície de propriedades fenomenais perceptíveis, como a de ser um líquido transparente, inodoro e insípido, no caso da água. Como bem o percebeu Avrum Stroll, descrições também podem ser de ordem funcional ou dinâmica.[2] Elas podem denotar processos temporais como, por exemplo, ‘um composto que reage com oxigênio e ferro produzindo oxidação’. Mas se é assim, então precisamos notar que também não há razão alguma para excluir a própria microestrutura essencial de uma substância do alcançe das descrições. Uma expressão como ‘composto químico com dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio’ não é menos descritiva do que a expressão ‘líquido transparente e inodoro que serve para beber’. Como percebeu Stroll, que tudo isso faz parte do conteúdo cognitivo-informativo expresso pela palavra ‘água’ é atestado de forma inquestionável por modernos dicionários nas mais diversas línguas. Assim, só para dar um exemplo, o melhor dicionário da língua portuguesa, o Houaiss, nos diz que a água é:

1. Substância (H2O) líquida e incolor, inodora e insípida, essencial à vida da maior parte dos organismos e excelente solvente para muitas outras substâncias; óxido de hidrogênio 2. (hidrol.) a parte líquida que cobre 70% da superficie terrestre sob a forma de lagos, mares e rios.

Descrições como essa cobrem propriedades superficiais e profundas, funcionais ou não. Se quisermos defender um descritivismo consequente devemos admitir o ponto suficientemente óbvio de que aquilo que as definições de qualquer dicionário moderno tentam fazer é sumarizar descritivamente o significado da palavra ‘água’. Tais descrições, por sua vez, são expressões resumidas das convenções constitutivas do conteúdo epistêmico da palavra.

Evolução do conceito de água e sua regra de caracterização
Se a concepção descritivista que acabo de introduzir for correta, então deve ter acontecido com o conceito de água o que aconteceu com muitos outros. O conceito de água – o significado dessa palavra[3] – sofreu um crescimento histórico em complexidade, resultante do acréscimo de convenções constitutivas, sendo interessante investigá-las. Comecemos, pois, com o homem das cavernas.[4] Como ele teria entendido o seu termo para designar aquilo que chamamos de ‘água’? Certamente, ao menos isso ele sabia:

Água = líquido transparente, sem gosto e inodoro, que aplaca a sede e apaga o fogo, cai das núvens sob a forma de chuva e enche os rios, lagos e mares.

     Esse é o único significado da palavra água que se identifica com o significado que Kripke e Putnam sugeriram que o descritivista defende que ela tem. Mas é preciso reconhecer que isso aconteceu já há muito tempo... A maioria de nossos conceitos sofre em sua história alterações semânticas bem conhecidas dos linguístas e a palavra ‘água’ não é exceção. No curso de vários milhares de anos, o significado, o conteúdo semântico dos termos correspondentes à palavra ‘água’ em diferentes línguas tem gradativamente sofrido alterações, geralmente sob a forma de acréscimos. Aos poucos lhe foram sendo adicionadas descrições de propriedades disposicionais mais complexas. Eis algumas delas, que já se haviam adicionado às já mencionadas uns três séculos atrás, na Europa:

Água = líquido que é um bom solvente, que não se mistura com óleos, que é mal condutor de eletricidade quando em estado puro, mas que a conduz muito bem quando misturado com sais, que reage em contato com o ferro produzindo ferrugem...

     Tais descrições são funcionais ou dinâmicas, dizendo respeito a disposições que envolvem algum experimento. O núcleo de sentido que inclui as descrições já conhecidas pelo homem das cavernas, adicionadas ao que o senso comum informado já nos dizia por volta de 1700, constitui o que eu gostaria de chamar de o sentido popular da palavra ‘água’.
     Mas a evolução desse conceito não parou por aí. Entre 1760 e 1830 deu-se uma revolução em nosso entendimento do conceito de água.[5] Em 1768 Lavoisier colocou hidrogênio e oxigênio em uma garrafa e aqueceu a mistura. O resultado foi uma explosão que liberou gás e água. Através dessa e de outras experiências ele acabou por concluir que a água é composta de duas porções de hidrogênio e uma de oxigênio. Em 1781 Cavendish fez na Inglaterra uma experiência similar usando fagulhas elétricas. Em 1783 Lavoisier conseguiu realizar o procedimento inverso, decompondo a água em oxigênio e hidrogênio. Em 1811 Avogadro estabeleceu a composição atômica da água como sendo HO1/2, um resultado que foi corrigido por Berzelius, que finalmente estabeleceu a fórmula H2O em 1821... Com o passar do tempo, mais e mais detalhes da microestrutura foram sendo descobertos, como o de que a água é um composto dipolar que tende a formar estruturas isoméricas quando em estado líquido, o que determina propriedades macrofísicas, como a da alta tensão superficial.
     As adições ao significado da palavra ‘água’ resultantes da investigação científica de sua microestrutura subjacente fizeram surgir então descrições microestruturais centradas na idéia de que:

     Água = composto químico constituido de dois átomos de hidrogênio e
     um átomo de oxigênio (além de ser um composto dipolar etc).

     Pode ser que essa descrição da microestrutura já constitua tudo o que realmente importa. Mas suspeito que o quadro mais completo não seja tão simples. Afinal, parece que faz parte de um conhecimento mais completo de que água é H2O sabermos que 2H2 + O2 → 2H2O. Além disso, parece que o químico não deixa de enriquecer o conhecimento do conteúdo informativo envolvido ao aprender que a ferrugem se forma pelo contato do ferro com a água pela equação geral “2Fe + O2 + 2H2O → 2Fe(OH)2”, embora essa me pareça ser mais propriamente uma contribuição para o entendimento da constituição de 2Fe(OH)2 (ferrugem), assim como a fórmula anterior o foi para o entendimento da constituição de H2O. Também parece que as descrições de superfície de experiências científicas (como as de Lavoisieur, Cavendish, Avogadro e muitos outros) fazem parte do que os químicos precisam saber para entenderem que a água seja composta de H2O. Além disso, o conhecimento da microestrutura é o que permite entender propriedades fenomenais da água, como as de ter alta tensão superficial e de ser um solvente universal. Assim sendo, parece que nosso entendimento da composição química se complementa através de uma grande variedade de relações inferenciais que nos permitem derivar o micro do macro representado por eventos de superfície e vice-versa. Parece que quando nos referimos à água como o composto de estrutura química H2O, estamos nos referindo de forma abreviada às múltiplas descrições que apontam para a fórmula química como o elemento inferencial central na constituição daquilo que os especialistas – os químicos – são capazes de ter em mente com o termo. Trata-se aqui da água como sinônimo do que os químicos chamam de ‘hidróxido de hidrogênio’, ‘óxido de hidrogênio’, ‘monóxido de dihidrogênio’ etc. Chamo a esse núcleo de significação, centrado na descrição microestrutural do composto, de sentido científico da palavra conceitual ‘água’, em contraposição ao seu núcleo de significação popular mencionado anteriormente.[6]
     Aqui surge a questão. Em que medida a introdução dessas relações entre a estrutura química e outros fenômenos faz realmente parte do sentido da palavra ‘água’? Uma resposta aparece quando fazemos um paralelo entre esse caso e o caso das propriedades fenomenais macroestruturais da água consideradas no início. A água é fenomenalmente, em primeiro lugar, um líquido transparente, inodoro e insípido – o assim chamado ‘líquido aquoso’. Mas a isso já havíamos juntado descrições de relações inferenciais: ela serve para aplacar a sede, para lavar, para apagar o fogo... Mais tarde aprendemos que em contato prolongado com o ferro ela produzia ferrugem. Se admitimos que no sentido popular tudo isso passou a fazer parte do significado da palavra ‘água’ (como os dicionários insistem em afirmar), devemos concluir que também deve ser assim quando tratamos do significado científico da palavra – de água como ‘hidróxido de hidrogênio’ – devendo o conhecimento das reações químicas e experiências relacionando macro e micro e vice-versa ter a ver com o conhecimento do inteiro conteúdo informativo (significado) que pode ser visado através da palavra, tal como ele é conhecido por usuários privilegiados como é o caso dos especialistas (o que pode ser mais detalhadamente constatado se consultarmos léxicos e enciclopédias).
     A objeção a essa sugestão não se deixa esperar: o número de relações inferenciais é indeterminadamente amplo. Parece que se admitirmos isso corremos o risco de recair em uma espécie indesejável de holismo semântico extremado, segundo o qual qualquer coisa pode significar qualquer outra, ou seja, que nada significa nada. Contudo, é possível responder que as descrições funcionais relativas a vínculos inferenciais externos à fórmula química da água ou à sua descrição fenomenal contribuem para o significado da palavra ‘água’ apenas na medida em que estão mais próximas dos núcleos descritivos microfísico e macrofísico respectivamente, e que a contribuição para o significado diminui gradativamente com o afastamento desses centros, na medida em que elas passam a contribuir mais para o significado dos outros termos relacionados. Eis porque saber que 2H2 + O2 → 2H2O é mais central para o entendimento do significado da expressão ‘hidróxido de hidrogênio’ do que para saber o sentido da palavra ‘oxigênio’. Eis porque saber que 2Fe + O2 + 2H2O → 2Fe(OH)2 é mais central para o entendimento do significado de 2Fe(OH)2, ou seja, da expressão ‘hidróxido de ferro’ (ferrugem) do que para o entendimento da expressão ‘hidróxido de hidrogênio’. Isso nos dá algum insight sobre como as descrições que relacionam uma variedade de palavras conceituais distribuem proporcionalmente as suas contribuições para o conteúdo de significação dessas palavras sem que para tal os seus significados acabem por se dissipar na vacuidade de um holismo semântico extremado.
      Finalmente, gostaria de sugerir que, dentro de uma concepção descritivista consequente, o sentido ou significado – o conteúdo informativo – da palavra ‘água’, se entendido em sua maior amplitude, que é abarcada quando a palavra é usada em contextos suficientemente genéricos, não-restritivos ou topicamente neutros, seja constituido hoje em dia pelo conjunto dos dois núcleos – o popular e o científico – de significação da palavra. Assim, no proferimento “O livro A biografia da água fornece uma exposição abrangente desse conceito”, a palavra ‘água’ aparece em seu contexto de maior amplitude, querendo dizer tudo o que ela pode querer dizer. É isso a meu ver o que os dicionários modernos buscam sumarizar e que se encontra sintéticamente exposto em enciclopédias.

Uma regra geral de caracterização
Em conformidade com o que dissemos, é possível definir o conceito genérico de água – que contém os elementos de significação recém-considerados – como sendo constituido por uma regra de caracterização ou de aplicação. Essa regra nos permite aplicar a palavra ‘água’ a tudo aquilo a que efetivamente somos capazes de aplicar sem que cheguemos a ter a impressão de que a estamos usando de modo impróprio. Aqui vai uma sugestão:

     RC-água:
Podemos designar um volume líquido x com a palavra ‘água’
see
o núcleo popular de significação para a palavra ‘água’ e/ou o seu núcleo científico estiver(em) sendo suficientemente satisfeito(s) pelo volume líquido x e mais do que qualquer outro conceito que com ele(s) conflite.

     Note-se que com essa regra conceitual introduzimos uma distinção sutil entre o conceito e o significado, o sentido ou conteúdo cognitivo. O sentido é constituído pelas regras-descrições do núcleo semântico científico e popular. O conceito é algo mais: ele é a regra caracterizadora como um todo, que contém esses sentidos. Sendo assim o conceito possui um sentido. Dessa maneira espero poder fazer justiça à semelhança e diferença sutis que sentimos haver entre o sentido e o conceito.
     Por meio de RC-água também seríamos capazes de dar ao conceito de água a sua mais genérica aplicação, que tanto serve a líquidos que satisfazem apenas ao núcleo popular quanto a líquidos que satisfazem apenas ao núcleo científico. Por meio dessa regra podemos distinguir a água de outros volumes líquidos que satisfazem parte da condição de significação (o núcleo popular ou o núcleo científico) para o conceito de água, como o de álcool, que muito pouco satisfaz do núcleo popular e nada do núcleo científico do conceito de água, mas satisfaz o núcleo popular (fenomenal) e científico (microestrutural) da regra de caracterização constitutiva do conceito de álcool. O conceito de álcool visivelmente conflita com o de água na satisfação de alguns critérios semânticos, pois se a maior parte de um volume líquido for água e uma pequena parte for álcool, nós diremos que se trata de água com álcool, mas não que a água é feita de álcool, pelo fato de que os critérios de RC-água são mais completamente aplicáveis, mas não que é água feita de álcool. O mesmo não aconteceria se tivéssemos dois conceitos que satisfazem a regra, mas que não entram em competição. Por exemplo: o conceito de neve e o conceito de água não conflitam entre si: neve são flocos de cristais de gelo constituídos de hidróxido de hidrogênio. Assim, parte de sua regra de caracterização é satisfeita pelo núcleo científico do conceito de água, mesmo que as suas propriedades fenomenais sejam em sua maioria diversas.

Divisão do trabalho cognitivo
Aqui poderia surgir a velha objeção externalista de que em geral sabemos muito pouco das descrições constitutivas do significado da palavra ‘água’. A maioria de nós muito pouco sabe, por exemplo, de seu núcleo científico, exceto que se trata de H2O (mas o que é exatamente H2O poucos sabem).
     A resposta a essa objeção de ignorância do significado passa pela observação prévia de que, com efeito, em muitos casos nosso conhecimento do significado como sentido fregeano – como conteúdo informativo – é realmente muito limitado. Todos nós conhecemos bastante bem o significado de palavras triviais como ‘sapato’, ‘mesa’, ‘pedra’. Mas quando usamos termos com conotações científicas ou técnicas cujos detalhes não precisam ser considerados no discurso ordinário, nosso conhecimento do conteúdo de significação costuma se tornar incompleto no sentido de se permanecer superficial, aspectual, fragmentário. Contudo, na medida em que somos cientes disso, na medida em que sabemos que não sabemos, não surgem problemas. O conhecimento do significado que precisamos ter para inserir tais termos corretamente no discurso é em geral muito pequeno, ao menos em contextos pouco exigentes, que são os mais comuns. Sempre que fazemos uso de um termo com conhecimento limitado ou insuficiente de seu significado, nós deferimos um conhecimento muito mais completo do significado a outros membros da comunidade linguística; àqueles que por uma ou outra razão poderiam ser chamadas de usuários privilegiados do termo. O resultado é que o sentido completo do termo é geralmente constituído, senão por aquilo que cada usuário privilegiado sabe, ao menos pelo conjunto das coisas que os diversos usuários privilegiados do termo sabem no interior de uma comunidade linguística. (Considere, por exemplo, a expressão ‘teoria das cordas’: quantos sabem o que isso em todos os detalhes significa? Tanto quanto estou informado, nem mesmo os teóricos das cordas). Com essas considerações quero fazer apelo ao que gostaria de chamar de uma divisão cognitiva do trabalho da linguagem. Trata-se de uma distribuição do conhecimento do significado entre os falantes, a qual é entendida sob uma perspectiva internalista – uma idéia que já havia sido esboçada por um descritivista clássico como John Locke[7] e que foi redescoberta por Hilary Putnam sob um entendimento externalista.[8]
     O mesmo se dá ao que parece com a palavra ‘água’: não obstante o fato de essa palavra poder ter como conteúdo de significação os conjuntos nucleados das descrições superficiais e profundas recém-mencionadas, não é preciso que cada falante tenha em mente ambos os conjuntos, nem que os conheça em grandes detalhes, para dar sentido à palavra em um proferimento, ou seja, para inseri-la corretamente no discurso de maneira a fazer-se entender e provocar as respostas adequadas. Ele pode simplesmente ter em mente apenas aquilo que todos nós sabemos, como a descrição ‘líquido transparente, inodoro, insípido’ ou a descrição ‘líquido constituído de H2O’, o que já basta para a comunicação. Em outros casos a pessoa pode ter apenas uma vaga noção do significado da expressão conceitual e ainda assim ser capaz de inseri-la corretamente em discursos com propósitos suficientemente genéricos, confiando na existência de usuários privilegiados capazes de completar o conteúdo de significação do termo. Com efeito, é até mesmo possível que a pessoa associe um termo geral a uma descrição incorreta, conquanto ela seja convergente, ou seja, conquanto ela inclua a sua referência em uma classe (um genus proximus) ao qual ela realmente pertence. Assim, se alguém pensa que ‘baleia’ é o nome de um peixe grande do mar, essa descrição é incorreta, mas ainda assim convergente, pois já classifica a sua referência corretamente como um animal marinho, permitindo ao falante se referir a baleias no sentido de ser capaz de inserir corretamente a palavra no discurso usual. O que não é possível é que a pessoa não saiba realmente nada sobre o sentido do termo, ou que associe a ele descrições que não são apenas incorretas, mas que são divergentes com relação às que exprimem o sentido original por nos fazerem classificar incorretamente aquilo a que se referem, rejeitando as suas notas mais gerais. Esse é o caso da criança que pensa que o termo de espécie natural ‘baleia’ designa uma montanha na serra das Cajazeiras – uma descrição errônea e divergente.[9] Nesse caso a criança não será capaz de inserir corretamente a palavra no discurso nem de se referir a baleias. Finalmente, um pressuposto indispensável é que a pessoa conheça os limites do que sabe: ela precisa ter pelo menos um conhecimento tácito da estrutura geral das regras caracterizadoras de conceitos, sua função sintática etc.

Contextos de interesse e sentidos de aplicação
O ponto crucial para o qual gostaria de chamar atenção é que aquilo que as pessoas têm em mente ao usar a palavra ‘água’ pode sofrer oscilações contextuais. Ou seja: o que queremos dizer quando usamos certas palavras pode variar com o contexto de interesses envolvido, que defino como sendo o contexto das intenções e circunstâncias pragmáticas envolvidas na interação comunicativa. Com a variação desse contexto varia o que queremos dizer com certas palavras, o valor cognitivo que com elas pretendemos veicular, elevando-se o valor dos aspectos do significado que para algum propósito nos interessam. Quanto à palavra ‘água’, nós vemos isso acontecer claramente quando o contexto enfatiza um dos dois núcleos semânticos há pouco mencionados.
     Mais circunstanciadamente, podemos dizer que há primeiro contextos de interesse genéricos, não restritivos ou topicamente neutros, nos quais somos autorizados a ter em mente apenas a satisfação suficiente de:

(A) uma disjunção entre os dois núcleos de significado da palavra 'água' – o popular e o científico.

     Esse é o caso no qual aplicamos RC-‘água’. Esse é o uso mais genérico concebível para a palavra ‘água’, aquele cujos critérios são os mais liberais. Nesse sentido poderíamos dizer que um líquido transparente, insípido, inodoro, que aplacasse a sede e apagasse o fogo... mas que possuisse estrutura química XYZ, seria água, e do mesmo modo poderíamos dizer que um líquido com constituição química H2O, mas que se apresentasse fenomenalmente como um óleo escuro, venenoso e inflamável, também não deixaria de ser água.
     Não obstante, o que importa é notar que há contextos de interesse que chamo de “Bs”, nos quais é demandado que tenhamos em mente apenas um dos núcleos ao neles usarmos a palavra.
     Considere, para exemplificar, o contexto de uma comunidade de pescadores onde tudo o que as pessoas almejam é cavar um poço de modo a obter água doce para beber e lavar. Aqui o contexto de interesse é popular. Nesse caso, o que importa se reduz a:

(B1) o núcleo popular de significação da palavra.

Aqui as pessoas chamarão de água o líquido que tiver as propriedades de superfície da água, sem se preocupar se a sua composição química é a de hidróxido de hidrogênio ou não, conquanto ele sirva adequadamente às funções por elas esperadas da água, como as de aplacar a sede e lavar. Se for descoberto que o líquido que os pescadores tiram do poço tem uma estrutura química diferente de H2O (sob o suposto de que estar assegurada nenhuma alteração nos efeitos, incluindo nenhum dano à saúde), eles não encontrarão razão alguma para deixar de usar a palavra ‘água’ na denominação do líquido por eles usado.
     Agora imagine, por contraste, que algumas pessoas estejam fazendo experimentos em um laboratório de química com o objetivo de decompor amostras de água através de métodos como o da eletrólise. Nesse caso, o que elas têm em mente é:

    (B2) o núcleo de significação científico da palavra.

     Aqui o contexto de interessesse é o científico. Tudo o que for hidróxido de hidrogênio será para essas pessoas água, independentemente das propriedades de superfície que a amostra tiver. Afinal, elas querem usar a palavra ‘água’ no sentido daquilo cuja estrutura química essencial é H2O. Se um líquido oleoso, escuro, venenoso e inflamável se evidencia como possuindo – contra todas as apostas – a estrutura química H2O, eles não hesitarão em chamá-lo de água, mesmo querendo saber por que mágica ele não demonstra as propriedades superficiais da água.

A fantasia da Terra Gêmea: respostas conflitantes
Quero agora fazer uma primeira aplicação da recém-exposta análise neodescritivista do conceito de água, usando-a para explicar, sob uma perspectiva inteiramente internalista, o que acontece na famosa fantasia da Terra Gêmea sugerida por Hilary Putnam.[10] De acordo com essa fantasia existe uma Terra Gêmea que é idêntica à nossa em tudo, exceto pelo fato de que nela o líquido transparente e inodoro que aplaca a sede e apaga o fogo tem uma estrutura química XYZ e não H2O. Nesse caso, se em 1750, pouco antes da descoberta da microestrutura da água, Oscar apontasse para um copo D’água e dissesse “Isso é água”, ele estaria se referindo a um líquido constituido por H2O. Contudo, o seu Doppelgänger da Terra Gêmea, o Oscar-gêmeo, ao dizer “Isso é água” estaria se referindo a XYZ e não a H2O. Com base nisso, Putnam faz o seguinte raciocínio. Como Oscar e Oscar-gêmeo em 1750 tinham em suas cabeças apenas descrições de superfície, as quais eram exatamente as mesmas, e como eles estavam realmente se referindo a coisas de naturezas diferentes e com extensões diferentes, o significado da palavra ‘água’ (‘what they meant with the word’) não poderia estar em suas cabeças, mas fora delas! O significado possui, portanto, um componente extensional fundamental, que é externo e determinado pela estrutura química essencial do volume líquido apontado, o qual possui identidade-L (microestrutural) com os outros volumes líquidos de aparência similar. É isso, escreve Putnam, o que sempre foi entendido pela palavra. A isso pode ser acrescentado que a causa real e objetiva dos proferimentos de fato possui uma natureza essencial diversa na Terra e na Terra-Gêmea: em um caso ela é H2O, no outro XYZ.
     Críticos de Putnam como A. J. Ayer, Eddy Zemach e D. H. Mellor, que preferiram se manter fiéis a uma posição descritivista ou neo-fregeana tradicional, sugeriram que a pretensa intuição semântica da fantasia putnamiana é incorreta.[11] Oscar e Oscar Gêmeo não estavam apontando para coisas diversas. Eles estavam apontando para a mesma espécie de coisa – o mesmo líquido transparente, insípido, inodoro etc. E a prova disso é que o significado da palavra ‘água’ para eles já se mostra inteiramente expresso nas descrições de superfície (as descrições que Putnam chamou de estereótipos).
     Stroll, que compartilha dessa opinião, imagina uma situação em que desde 1750 tivesse havido comércio entre as pessoas da Terra e as da Terra Gêmea, e que grandes quantidades de água fossem transportadas da Terra para a Terra Gêmea e vice-versa, sem que as estruturas moleculares do líquido em questão chegassem a ser descobertas. Ora, se um dia fossem, afinal, descobertas as diferenças nas estruturas químicas, as pessoas não iriam concluir que a água da Terra Gêmea não é água. Elas concluiriam apenas que é uma água de outro tipo!
     Se seguirmos a intuição dos descritivistas neo-fregeanos, o problema de Putnam não chega a se colocar. Oscar e Oscar-gêmeo estavam apontando para a mesma espécie de referência porque tinham os mesmos sentidos determinadores da referência em suas cabeças. E a extensão seria também a mesma, cobrindo tanto a água da Terra como a da Terra Gêmea. Assim, não havendo desacordo algum entre o significado e os estados psicológicos dos Oscares, os significados podem ser considerados como estando sempre em suas cabeças.
     Não obstante, é importante perceber que ambas as alternativas explicativas – a de Putnam e a de seus críticos – são intuitivamente fortes, o que gera um dilema incômodo, tanto para os defensores do externalismo semântico quanto para os internalistas neo-fregeanos tradicionais. Nenhum dos dois grupos encontra meios de acomodar as intuições contraditórias.

Como solucionar o conflito
É nesse ponto que entra o meu argumento. Ele se vale da análise neo-descritivista aprimorada do conceito de água proposta nesse capítulo, além do velho princípio fregeano de que o sentido determina a referência. O argumento baseia-se na observação de que na verdade existe uma dupla interpretação possível para a referência feita pelos Oscares: a interpretação do ponto de vista deles e a interpretação do ponto de vista nosso. A primeira interpretação dá conta da intuição dos neo-fregeanos, enquanto a segunda dá conta da intuição dos putnamianos. O resultado vantajoso de semelhante análise é que conseguimos alcançar uma acomodação satisfatória entre as duas intuições conflitantes.
     Consideremos primeiro a interpretação do ponto de vista dos Oscares. Nesse caso, aquilo que queremos levar em consideração é o significado da palavra ‘água’ tal como ele era conhecido pelas pessoas em 1750. Nesse caso devemos dar razão aos fregeanos, pois a descrição que exprimia o significado da palavra ‘água’ era por essa época apenas a de um líquido transparente, sem gosto e inodoro, que aplacava a sede e apagava o fogo e que enchia os rios, lagos e mares, sendo um bom solvente que não se misturava com óleos etc.[12] Ou seja: descrições fenomenais e disposicionais e nada mais. Nesse caso o contexto de interesses envolvido era inevitavelmente popular. Nesse caso interessamo-nos por considerar apenas o núcleo de sentido popular da palavra ‘água’, que é exatamente o mesmo tanto para Oscar quanto para o Oscar Gêmeo, que mantinham as mesmas descrições, o mesmo significado em suas cabeças. Mas como nesse caso tanto Oscar quanto Oscar Gêmeo estavam se referindo à mesma espécie de coisa com uma única e mesma extensão, que envolve todo o líquido aquoso de ambas as terras, a igualdade do que eles tinham em suas cabeças é perfeitamente compatível com a idéia fregeana de que o significado determina a referência e a extensão.
     Quanto à possível objeção de que a causa objetiva última dos proferimentos são as microestruturas H2O num caso e XYZ no outro, isso aqui pouco importa, pois no contexto de interesses popular vigente em 1750 as pessoas estavam perfeitamente e inteiramente autorizadas a dizer que aquilo que realmente causou as diferentes impressões sensíveis foi o conjunto das manifestações fenomenais constitutivas da superfície da água (líquido transparente, inodoro, insípido...), as quais eram as mesmas tanto aqui quanto na Terra Gêmea. Não há uma razão a priori para se privilegiar o discurso causal em termos moleculares sobre o discurso causal em termos das características macrofísicas, exceto quando nada se sabe acerca das primeiras.
     Há, todavia, uma segunda maneira descritivista de analisar o que Oscar e Oscar Gêmeo estavam dizendo, que é a de interpretar a questão da referência feita pelos Oscares sob nosso próprio ponto de vista. Essa interpretação corresponde exatamente à intuição seguida por Putnam, embora ele não a analisasse nesses termos. Ela vem a tona quando nos interessamos em colocar em pauta o núcleo de significado científico da palavra ‘água’, que só mais tarde veio a ser descoberto. Nesse caso, obviamente, diremos que Oscar estava se referindo ao líquido com microestrutura H2O, enquanto Oscar Gêmeo estava se referindo ao líquido com microestrutura XYZ. E nesse caso diremos que ambos os líquidos possuiam extensões muito diferentes, o primeiro se restringindo aos volumes de água da Terra e o segundo aos volumes de água da Terra Gêmea. Mas há aqui um ponto crucial que tem passado despercebido. É que no caso em questão estamos sem perceber considerando o significado da palavra ‘água’ usada por Oscar e Oscar Gêmeo tal como ele é conhecido por nós mesmos hoje, mas não como ele era conhecido pelos Oscares em 1750, que não se encontravam em condições de acessar a idéia de uma fórmula química, nem mesmo se eles fossem químicos. Ora, mas se é assim, o que nós realmente estamos considerando não deve ser o que os próprios Oscares tinham em suas cabeças, como pretende Putnam, mas simplemente o que nós mesmos temos hoje em nossas cabeças ao nos referirmos às referências dos Oscares! Mas o que nós temos em nossas cabeças ao pensarmos no proferimento “Isso é um copo d’água” dito por Oscar é claramente diferente do que nós temos em nossas cabeças ao pensarmos “Isso é um copo d’água” dito pelo Oscar-Gêmeo. No primeiro caso incluímos o conceito de H2O no conteúdo do proferimento, enquanto no segundo incluímos o conceito de XYZ (a assim chamada água-gêmea), o que faz com que o correlacionamento entre a variação do que é encontrado no mundo real e a variação do que acontece nas cabeças dos intérpretes da frase seja preservado. Ora, isso permite que os significados em questão sejam considerados como estando em nossas cabeças e determinando, a partir delas, ao modo fregeano, as referências e extensões correspondentes.
     O que filósofos como Putnam deixaram de perceber é que tudo o que fazemos é projetar os nossos próprios sentidos descritivos da palavra ‘água’ nos proferimentos dos Oscares, usando-os como instrumentos indexicais para a nossa própria determinação de suas diferentes referências e extensões, as quais são, em última instância, fregeanamente determinadas pelos diferentes sentidos da palavra ‘água’ que temos em nossas próprias cabeças.
     O que essa dupla aplicação de nossas intuições de senso comum sugere é o inverso do famoso coloquialismo de Putnam. Ela é: “Divida-se o bolo como quiser, o significado permanecerá na cabeça!” Com efeito, minha conclusão é que a resposta neo-descritivista que sugiro para a questão do significado da palavra ‘água’ tem maior poder explicativo do que a resposta de Putnam, pois tanto explica a sua intuição de que os Oscares estavam se referindo a coisas diferentes, como também explica a intuição dos neofregeanos tradicionais, segundo os quais os Oscares estavam se referindo à mesma coisa com a mesma extensão.
     O que fiz até agora foi apenas desenvolver uma elucidação natural e a meu ver bastante convincente de idéias neo-descritivistas e neo-fregeanas, para então aplicá-las à fantasia da Terra Gêmea, considerando-a do ponto de vista de quem realmente avalia a referência. Trata-se de uma explicação tão simples e razoável que a ausência de sua consideração na literatura chega a ser curiosa. Uma vez, porém, que ela é admitida, tudo se deixa explicar sem maiores comoções. Não é só o conflito entre intuições que se explica pela escolha de diferentes sujeitos e modos de avaliação dos proferimentos dos Oscares. Agora não precisamos mais nos afastar da idéia demasiado plausível de que o significado diz respeito a regras convencionalmente fundadas[13] – um afastamento que seria inevitável se o significado fosse alguma coisa externa, a pairar de algum modo fora das cabeças. Além disso, não precisamos mais ser forçados a concluir contra-intuitivamente que talvez não saibamos ainda ou talvez não venhamos nunca a conhecer o significado de muitos de nossos termos gerais. E nem somos mais forçados a concluir que os Oscares em 1750 não conheciam realmente o significado da palavra ‘água’ no sentido próprio da palavra, mesmo que eles fossem estranhamente capazes de entender esse significado, usá-lo referencialmente e comunicá-lo uns aos outros.[14]

O status epistêmico do enunciado "Água é H2O"
Outra conseqüência interessante diz respeito à nossa análise da frase de identidade “Água é H2O”. Segundo a análise kripkiana essa frase possui um status epistêmico especial: ela exprime uma verdade necessária e a posteriori. É a posteriori porque foi descoberta pela ciência; é necessária porque ‘água’ e ‘H2O’ são designadores rígidos, aplicáveis à mesma substância em qualquer mundo possível.[15] Nossa análise do que queremos dizer com a palavra 'água' demonstra que não é assim.
     Como parece ter ficado claro, o conceito de água pode adquirir ao menos três sentidos (A), (B1) e (B2). A frase “Água é H2O” entendida como uma frase de identidade é falsa nos sentidos (A) e (B1), pois no sentido (A) a disjunção dos núcleos de significado popular e científico do termo ‘água’ não pode ser identificada com o seu núcleo científico mais restrito (ou com o conceito de H2O), enquanto no sentido (B1) o núcleo de significado popular do termo ‘água’ é obviamente diferente do seu núcleo científico (ou H2O). Apenas no caso de o ‘é’ ser entendido mais naturalmente como um ‘é’ de constituição, e não mais de identidade, podemos dizer que no sentido popular da palavra ‘água’ (B1) a frase “A água é (constituida de) H2O” é verdadeira, algo já percebido por Stroll. Mas essa é uma verdade contingente a posteriori, pois o líquido transparente, inodoro e insípido que chamamos de água poderia ser constituido de outra coisa. Não obstante, a frase “Água é H2O” pode ser interpretada como uma frase de identidade verdadeira no contexto de interesse que envolve (B2), onde o ‘é’ pode ser substituído por ‘é o mesmo que’. Contudo, nesse caso não teremos uma verdade necessária a posteriori. Pois aqui a palavra ‘água’ é usada no sentido de ‘hidróxido de hidrogênio’ e o que estamos realmente querendo dizer é:

Hidróxido de hidrogênio é (o mesmo que) H2O.

Mas como ‘hidróxido de hidrogênio’ é por definição H2O, o que estamos de fato afirmando é “H2O = H2O”, ou seja, uma tautologia analítica e não uma identidade descoberta a posteriori. Concluimos, pois, que em nenhum dos sentidos considerados a frase “Água é H2O” expressa uma verdade necessária a posteriori.


Apêndice: Tyler Burge e o externalismo do pensamento
Há uma experiência em pensamento complementar a de Putnam, que foi imaginada por Tyler Burge com respeito ao conceito de artrite e que vale a pena ser lembrada. O que Burge pretendeu foi, para além de Putnam, mostrar que não só o significado deve ser entendido de maneira extensional, mas que as crenças, ou seja, os próprios conteúdos de pensamento, estão fora da cabeça. Quero aqui resumir o argumento de Burge e em seguida mostrar que há uma explicação internalista muito mais plausível para o que acontece.
     Embora Burge exponha o seu argumento imaginando uma situação contra-factual, podemos torná-lo mais claro imaginando que uma pessoa de nome Oscar sinta dor na coxa e procure um médico dizendo

     Acho que tenho artrite na coxa.

Como artrite é entendida como uma inflamação dolorosa e deformante das juntas, o médico lhe explica que a sua crença é falsa, que ele não pode ter artrite na coxa. Imagine agora que Oscar viaje para uma região do país na qual seja costume usar a palavra ‘artrite’ de um modo muito mais amplo, para se referir a toda e qualquer inflamação. Chamemos a comunidade lingüística dessa última região de B e chamemos a comunidade lingüística da primeira região de A. Suponha que, uma vez tendo chegado à região da comunidade lingüística B, Oscar procure um médico com a mesma queixa “Acho que tenho artrite na coxa”. Nesse lugar, como seria de se esperar, o médico irá confirmar a suspeita, concordando com a verdade de sua crença.
     Com base nesse exemplo, o raciocínio de Burge é o seguinte. Sem dúvida, os estados psicológicos de Oscar ao dizer que acredita ter artrite na coxa na primeira e na segunda vez são exatamente os mesmos, assim como o seu comportamento. Mas as crenças, os pensamentos expressos nos proferimentos, precisam ser diferentes, posto que o pensamento expresso pelo primeiro proferimento é falso, enquanto o pensamento expresso pelo segundo proferimento é verdadeiro, e um mesmo pensamento não pode ser falso e verdadeiro. Podemos até marcar o significado diverso da palavra ‘artrite’ no segundo proferimento com uma nova palavra, ‘cotrite’ (thartritis). A conclusão do argumento é que o conteúdo de pensamento não pode ser algo meramente psicológico. Esse conteúdo deve pertencer também ao mundo externo, às relações sociais da comunidade que envolve o falante.
     Contra essa conclusão é possível encontrar uma explicação internalista e descritivista para o que acontece. Para o internalismo a palavra ‘artrite’ deve exprimir um conjunto de regras-descrições constitutivas de seu significado. Uma delas, ‘uma inflamação que ocorre na coxa’, faz parte do sentido da palavra para a comunidade lingüística da região B, mas não para a comunidade lingüística da região A. Assim, embora o conteúdo de pensamento expresso na frase “Acho que tenho artrite na coxa”, dito por Oscar nas regiões A e B possa ser considerado exatamente o mesmo, há uma diferença que foi justamente lembrada por John Searle em uma crítica que atinge o cerne da questão:

É uma pressuposição de pano-de-fundo por trás do nosso uso social das palavras de que nós compartilhamos significados comuns com outras pessoas em nossa comunidade.[16]

     Ou seja: quando Oscar diz ao primeiro médico “Creio que tenho artrite na coxa”, ele está pressupondo que a regra de aplicação do predicado ‘artrite na coxa’ pertence à linguagem que ele está usando, ou seja, que os outros falantes competentes da linguagem a consideram convencionalmente aplicável. O que ele tem em mente ao proferir a sua frase diante do primeiro médico poderia ser reapresentado como

(a)     Tenho artrite na coxa e a regra de aplicação do predicado ‘artrite na coxa’ é aceita como correta pelos falantes da comunidade lingüística A, a qual pertence o meu interlocutor.

     Essa é uma frase falsa porque a segunda sentença da conjunção é falsa. Vejamos agora como fica a explicitação daquilo que Oscar tem em mente quando diz ao segundo médico que acha que está com artrite na coxa:

(b)    Tenho artrite na coxa e a regra de aplicação do predicado ‘artrite na coxa’ é aceita como correta pelos falantes da comunidade lingüística B, a qual pertence o meu interlocutor.

     A frase (b) é verdadeira porque exprime uma conjunção verdadeira. E a diferenca de sentido entre (a) e (b) é evidente, pois enquanto uma está indexicalmente associada à comunidade linguística A, a outra está indexicalmente associada à comunidade linguística B. Pode ser verdade que se nos restringirmos ao conteúdo expresso, os pensamentos de Oscar ao proferir a mesma frase nas regiões A e B sejam idênticos. Mas o que eles têm em mente com os proferimentos – o conteúdo completo de seus pensamentos – é mais do que isso, pois há uma assunção disposicional que envolve a situação indexical do falante, cujo valor-verdade varia com a comunidade linguística envolvida, sendo diferente para o mesmo proferimento nas comunidades linguísticas das regiões A e B. Trata-se de uma assunção discursiva indispensável de que as regras de verificação constitutivas do pensamento devam estar em conformidade com as convenções da comunidade linguística na qual ele é expresso. Essa assunção é transgredida por Oscar quando ele fala com o médico da comunidade A, mas ela não é transgredida quando ele fala com o médico da comunidade B. É isso o que explica porque o pensamento de Oscar em A é falso, enquanto o pensamento de Oscar em B é verdadeiro. O pressuposto de que o pensamento expresso deve estar em conformidade com as regras da linguagem não é, porém, externo ao falante! Ele é um elemento psicológico de ordem disposicional, que completa o conteúdo de pensamento e que pode ser explicitado por Oscar sempre que isso for requerido.
     Burge chamou-nos atenção para uma coisa importante: que a verdade ou a falsidade do pensamento completo depende da comunidade lingüística que envolve o falante. Mas diversamente do que ele pensa essa dependência não é externa no sentido de o pensamento não ser psicológico, encontrando-se como que disperso no meio social. A dependência social reside exclusivamente em a comunidade lingüística satisfazer ou não uma condição de verdade interna ao pensamento no sentido amplo, nomeadamente, a condição de que a regra de aplicação do termo ‘artrite’ usada pelo falante seja uma regra fundamentada nas convenções lingüísticas compartilhadas pela comunidade lingüística com a qual ele se comunica.
     Finalmente, a explicação dada nos permite parafrasear em termos internalistas a distinção entre conteúdo estreito (narrow content) e conteúdo amplo (wide content), ao menos para o caso em questão. Para o externalista, o conteúdo estreito é aquele que está na mente do falante, enquanto o conteúdo amplo é aquele que está lá fora, no mundo ou na sociedade. A análise internalista do exemplo de Burge nos permite sugerir que o conteúdo estreito de pensamento é a própria ocorrência cognitivo-linguística do pensamento (expresso pela frase “Acho que tenho artrite na coxa”), enquanto o conteúdo amplo do pensamento nada mais é do que aquilo que está sendo presumido no que é pensado, existindo na mente do falante como uma disposição que uma vez expressa será aceita ou rejeitada pela comunidade linguística.






[1] O descritivista neo-fregeano provavelmente discordará de Frege quanto à questão do status ontológico dos conteúdos informativos constitutivos do significado descritivo de uma expressão. Para Frege os sentidos e suas conjugações em pensamentos precisam ser entidades abstratas, platônicas, de modo a ter a sua comunicabilidade, garantida. Contudo, para o neo-fregeano contemporâneo esse é um preço ontológico alto demais. A reação mais natural é a de localizar esses conteúdos de informação em nossas cabeças, na forma de instanciações cognitivas de convenções ou de suas combinações, confiando em que o fundamento convencional intersubjetivo dessas instanciações tornaria esse conteúdo informativo instanciado intrinsecamente capaz de ser comunicado.
[2] Ver Avrum Stroll: Sketches and Landscapes: Philosophy by Examples, cap. 2.
[3] Desnecessário dizer que me refiro ao significado ou conceito de água e não, naturalmente, à palavra que o exprime; o primeiro pouco se altera, mesmo sendo expresso por uma grande variedade de palavras em diferentes línguas e épocas.
[4] Se acharem esse apelo demasiado fantasioso sugiro pensarem no homem da idade do bronze ou então em alguma tribo indígena não contactada.
[5] A história da descoberta da composição química da água é complexa e controversa, de modo que o que apresentarei aqui será um breve sumário. Ver, por exemplo, Philip Ball: A Biography of Water (California: University of California Press 2001), cap. 5

[6] Vale notar que se entendido em um sentido suficientemente amplo, o descritivismo é capaz de incluir o que é indicado pelo rótulo genérico de inferencialismo semântico. Com efeito, as descrições que associamos a um termo não deixam de expressar um conteúdo inferencial específico. Sobre o inferencialismo, ver Robert Brandom: Articulating Reasons: An Introduction to Inferentialism, cap. 1.
[7] John Locke: An Essay Concerning Human Understanding, 2.31.4-5, 2.32.12, 2.29.7, 3.10.22, 3.11.24.
[8] Hilary Putnam: “The Meaning of ‘Meaning’”, in Language and Reality, Philosophical Papers, vol. 2, pp. 227-229.
[9] Esse exemplo é paralelo ao do nome próprio ‘Einstein’ usado como abreviação da descrição errônea ‘o inventor da bomba atômica’ (Kripke). Contudo, essa descrição errônea é ainda assim convergente, pois guarda traços comuns com o portador do nome, que era um cientista e um ser humano. Se o usuário do nome ‘Einstein’ o associasse a uma descrição divergente como, por exemplo, o nome de um diamante conhecido como “a pedra única” (ein-Stein), ele seria certamente considerado incapaz de usar a palavra corretamente.

[10] Hilary Putnam: “The Meaning of ‘Meaning’”, in Language and Reality, Philosophical Papers, vol. 2.
[11] A. J. Ayer: Philosophy in the Twentieth Century p. 270. Ver também D. H. Mellor: “Natural Kinds” e Eddy Zemach: “Putnam’s Theory on the Reference of the Substance Terms”.
[12]  Putnam observou que em 1750 e mesmo muito antes já se assumia a existência de uma substância ou essência pura, comum às massas d’água, o que acabou sendo descoberto como sendo sua microestrutura química H2O. Contudo, como essa substância comum não podia ser determinada, para o que se queria dizer com a palavra ‘água’ tanto fazia que ela fosse H2O ou XYZ. Além disso, a idéia de uma substância pura subjacente pode ter valido para os químicos pouco antes das descobertas de Lavoisieur. Mas ela não valia muito antes disso, quando seria igualmente razoável imaginar que os volumes de água fossem como os volumes de ar ou urina, que não passam de misturas. Se quisermos, aliás, podemos fazer regredir a fantasia aos Oscares das cavernas, ou aos da Idade do Bronze, que certamente não teriam nem porque nem como postular um substrato único comum ao que chamamos de água.
[13] Uso a expressão ‘regra convencionalmente fundada’ para designar combinações de regras que não são elas próprias convencionais, mas que se baseiam em regras que foram ao menos implicitamente convencionadas.
[14] Como escreveu Putnam “Oscar1 and Oscar2 understood the term ‘water’ differently in 1750” (Mind, Language and Reality, p. 224, grifo meu). Ele foi bem mais cuidadoso em seu livro Representation and Reality, onde tentou responder à objeção de que em 1750 o significado era, afinal, o mesmo. Seu argumento é o de que embora em 1750 os Oscares não pudessem ter critérios explícitos de identificação da substância água, eles sabiam o significado do termo no sentido comum de saberem usá-lo corretamente no discurso (p. 32). Mas isso não muda coisa alguma. Se fizermos uma experiência hoje com eletrólise usaremos a palavra ‘água’ ao concluir que as porções de hidrogênio e oxigênio resultantes são componentes da água. Mas o uso-significado feito pelos Oscares não poderia ser o mesmo. Assim, é mais coerente dizer que aquilo que os Oscares em 1750 tinham em mente ao usar a palavra ‘água’ era o que Putnam chama de significado como estereótipo, descrições de superfície, enquanto no uso atual dessa palavra nós somos capazes de ir além, mas apenas porque hoje conhecemos as descrições microestruturais. Minha conclusão é que se o externalismo for razoavelmente enfraquecido, ou ele passa a não dizer mais coisa alguma, ou o que ele diz se torna algo completamente trivial, como é o caso da afirmação de que os significados de nossos termos referentes a coisas externas são geralmente originados da experiência de suas referências...
[15] S. Kripke: Meaning and Necessity, pp. 128, 134, 150.
[16] J.R. Searle: Mind: A Brief Introduction, p. 184.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

(3) O MITO DO NECESSÁRIO A POSTERIORI (do livro Cognitivismo semântico)

 Draft



– 3 –
O MITO DO NECESSÁRIO A POSTERIORI



Boa parte da teoria filosófica resultante das aplicações da lógica modal feitas por Saul Kripke aos problemas da referência sempre me pareceu um notável costurado de confusões. Como a maioria discorda, quero justificar-me através de uma discussão crítica do seu artigo “Identity and Necessity”[1], que antecede as doutrinas do livro Naming and Necessity[2] e que contêm algumas idéias fundamentais recém-tiradas do forno. No que se segue resumirei o artigo de Kripke intercalando a isso meus comentários críticos.

Exposição
Kripke começa considerando um argumento modal para o caráter necessário de enunciados de identidade. Sendo N o operador de necessidade, que aqui será vista como sendo pertencente à modalidade de re (independentemente do modo de designação lingüístico), podemos considerar que, dado o princípio da substitutividade dos idênticos, segundo o qual “(x) (y) ((x = y) → (Fx → Fy))”, e dado o princípio da identidade, segundo o qual “(x) N(x = x)”, podemos concluir que se a propriedade F for a de ser necessariamente igual a x, então y também deve ter essa propriedade, ou seja, é necessário que y seja igual a x, em símbolos, “(x) (y) (x = y) → (N(x = x) → N(x = y))”, ou seja: “(x) (y) (x = y) → N(x = y)”.
    Kripke aceita esse resultado, sendo por ele levado à surpreendente conclusão de que identidades entre nomes e identidades teoréticas (essenciais) são necessárias. Assim, se a e b são realmente nomes e “a = b” é uma identidade verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Esse seria o caso de identidades como “Hesperus é (o mesmo que) Phosphorus” e “Cícero é (o mesmo que) Túlio”, que para Kripke são necessárias. Mais além, se F e G são predicados teoréticos, definidos como designadores de propriedades essenciais, e a identidade teorética (x) (Fx = Gx) é verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Por isso identidades como “Calor é movimento molecular” e “Um estado mental é um estado físico”, se verdadeiras, são necessárias.
    O próprio Kripke reconhece que identidades entre nomes e identidades teoréticas têm sido geralmente consideradas contingentes, expondo as conhecidas razões. Considere o enunciado “Hesperus é Phosphorus”. Sendo que Hesperus é Vênus visto ao anoitecer e Phosphorus é Vênus visto ao amanhecer, foi uma importante descoberta astronômica a de que se tratava do mesmo planeta. Assim sendo, essa parece ser uma verdade empírica contingente. O mesmo se aplica a identidades teoréticas, como “Calor é movimento molecular”. Essa identidade foi uma descoberta da ciência e poderia ser falsa, pois se a teoria do calórico fosse correta então o calor não seria movimento molecular. Este parece ser, pois, um enunciado contingente, pois o necessário é o que é verdadeiro sem que seja possível ser de outro modo.
     A tese de Kripke, porém, é a de que todas essas identidades, embora tenham sido aprendidas a posteriori, são necessárias, apesar de aparentarem não sê-lo. Ele reforça esse ponto introduzindo uma distinção importante entre o designador rígido, por ele aqui definido como um termo que designa o mesmo objeto em todos os mundos possíveis nos quais esse objeto existe, e o designador não-rígido, que pode designar objetos diferentes em diferentes mundos possíveis. Para ele, um exemplo de designador não-rígido é uma descrição definida como “o inventor das bifocais”, que é George Washington, mas que pode em princípio ser outra pessoa qualquer. Já exemplos de designadores rígidos são descrições como “a raiz quadrada de 25”, que em qualquer mundo possível será cinco, ou nomes próprios como George Washington, que se aplica a uma mesma pessoa, em qualquer mundo no qual ela tenha vivido. Para Kripke, tanto nomes próprios quanto predicados teoréticos são designadores rígidos, diversamente das descrições definidas.

Comentário
Parece claro que uma expressão matemática é um designador rígido, pois essa designação não depende de como o mundo é. Mas será que nomes próprios são realmente designadores rígidos? Imagine um mundo possível quase idêntico ao nosso, no qual, logo após o nascimento de George Bush um marciano tenha se apossado do seu corpo e desde então o tenha usado como uma camuflagem, tornando-se presidente dos Estados Unidos e realizado as mesmas ações. Não seria o caso então que nesse outro mundo o nome ‘Bush’ estaria sendo usado para identificar outra pessoa, diferente daquela que ele é em nosso mundo? Parece que não. Pois em defesa de Kripke podemos dizer que se trata de uma falsa identificação de Bush em um mundo possível M2, quase idêntico ao nosso, a qual pode ser corrigida, não impedindo que o nome seja um designador rígido. Em M2 o verdadeiro George Bush teria obviamente morrido logo após o nascimento, quando o marciano se apossou de seu corpo. O caso é, portanto, muito diferente daquele que encontramos na descrição ‘o inventor das bifocais’, pois pode ser facilmente imaginado um mundo no qual o inventor das bifocais não tenha sido George Washington, sendo ainda assim George Washington essencialmente o mesmo lá e aqui. A conclusão é a de que nomes próprios verdadeiros de fato funcionam como designadores rígidos: eles designam necessariamente uma mesma coisa em qualquer circunstância de mundo na qual ela exista.
     Uma coisa bem diversa, porém, é saber se o conceito de designador rígido tem as conseqüências que Kripke dele espera, de garantir a necessidade de re de identidades. Penso que a assunção de uma necessidade na referência do nome próprio cairá por terra se demonstrarmos que uma versão da teoria descritivista dos nomes próprios (segundo a qual eles estão no lugar de agregados de descrições definidas) der conta da propriedade do nome próprio de ser um designador rígido. Kripke parece, em Naming and Necessity, ter mostrado que isso é impossível. No próximo capítulo desse livro pretendo demonstrar o contrário. Quero, no excurso que se segue, antecipar alguma coisa, mostrando como uma forma descritivista de teoria dos nomes próprios pode em princípio ser desenvolvida de maneira a dar conta da propriedade da rigidez.
     Aqui vai o argumento. Descrições são expressões de regras de conexão com o objeto. Algumas descrições, como ‘o estagirita’, exprimem regras identificadoras do objeto. Afinal, é importante a informação de que Aristóteles nasceu em Estagira, que é grego. Mas a maioria das descrições definidas são enganadoras, pois exprimem apenas regras de conexão com o objeto que são meramente auxiliares. Esse é o caso, por exemplo, de ‘a cidade luz’, ‘o preceptor de Alexandre’, ‘O inventor das bifocais’, ou ainda, de ‘o filósofo referido pelo professor’. Minha sugestão é a de que as regras-descrições fundamentais de identificação para um nome próprio sejam as que o conectam com:

     (A) as características do objeto que para nós são mais relevantes.
     (B) a região e percurso espaço-temporal do objeto.

      Esses dois tipos de regras de identificação fundamentais não são por si mesmos suficientes. Uma vez que as tenhamos, podemos dizer que a regra de identificação de qualquer nome próprio que nos seja dado precisa instanciar a seguinte forma:

O referente de um nome próprio N identifica-se em um dado mundo possível como sendo o objeto que satisfaz as condições estabelecidas pelas regras de tipo (A) e/ou (B) para N de maneira suficiente e mais do que qualquer outro eventual competidor nesse mundo possível.

     Quero exemplificar minha sugestão com o nome ‘Aristóteles’. A condição (A) para Aristóteles é a de que ele tenha sido um dos grandes filósofos da humanidade, mais precisamente, ‘o autor das grandes idéias do opus aristotélico’. A condição (B) é a de que ele seja ‘a pessoa nascida em Estagira em 384 a.C. que viveu a parte mais importante de sua vida em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C.’. Que isso é o mais fundamental não é invenção minha: trata-se de algo que qualquer enciclopédia pode testemunhar.
     As descrições auxiliares podem todas falhar. Pouco importa, por exemplo, que Aristóteles não tenha sido o preceptor de Alexandre, nem o maior discípulo de Platão, nem o fundador do Liceu. Mas as descrições dos tipos (A) e (B) são fundamentais e não podem ambas falhar de todo, pois nesse caso o nome não mais se aplica.
     Alguns exemplos evidenciam esse ponto. Pode ser que em um mundo possível semelhante ao nosso haja a seguinte diferença: o Aristóteles grego nunca existiu e o opus aristotélico foi escrito por um filósofo árabe medieval com o pseudônimo ‘Aristóteles’... Nesse caso tenderemos a dizer que a regra (B) para Aristóteles deixou de se aplicar, mas que Aristóteles é o filósofo árabe, pois (A) ainda se aplica. E pode ser ainda que exista um mundo possível no qual os dados biográficos de Aristóteles estejam corretos, mas que ninguém tenha escrito o opus aristotélico. Nesse caso ainda admitiremos, pela satisfação de (B), que ele existiu. (Kripke considerou os dois casos.) Mas não é possível conceber um caso no qual nem a condição (A) nem a condição (B) estejam sendo minimamente satisfeitas! Não pode ser, por exemplo, que em um mundo possível Aristóteles tenha nascido no século XX e que nunca tenha sido filósofo, mas sim um grande armador grego que namorou Callas e se casou com Jackeline... Pois nesse caso o nome do filósofo perderia todo o seu sentido para roubá-lo indebitamente de um homônimo contextualmente identificável. (Casos como esse foram os que Kripke falhou em investigar.)
     Ora, pode bem ser que a regra meta-identificadora, exigindo uma satisfação suficiente de condições de identificação estabelecidas por uma disjunção de regras identificadoras de primeira ordem, seja aquilo que dá a um nome a estabilidade que regras de conexão com objeto expressas por descrições definidas carecem.
     Contra tal sugestão poderia ser objetado que os limites de aplicação estabelecidos pela regra meta-identificadora são inevitavelmente vagos. Mas isso não significa, como o sorites comprova, que tais limites não existam. Afinal, é bem concebível um mundo possível no qual Aristóteles nem existiu nem não existiu. Esse seria o caso, por exemplo, de um mundo possível no qual a filosofia aristotélica nunca tenha surgido, pois embora em 384 a.C. tenha nascido em Estagira um bebê de nome ‘Aristóteles’, ele morreu pouco depois de nascer. Teria sido ele o nosso Aristóteles em potência?
     A solução para essa dificuldade é fácil: basta redefinir o designador rígido como sendo aquele aplicável em todos os mundos possíveis nos quais o objeto inequivocamente e definidamente existe. É pelo fato de que a regra meta-identificadora se aplica em qualquer mundo possível no qual o objeto existe univocamente e suficientemente que um nome próprio como ‘Aristóteles’ é um designador rígido.
     Temos aqui também uma explicação para o fato de a maioria das descrições definidas (ex: ‘o inventor das bifocais’) não serem designadores rígidos. Ao se aplicarem elas se associam semanticamente à regra de identificação de algum nome próprio (como George Washinghton). Mas essa associação não é necessária. Por isso há mundos possíveis nos quais os objetos referidos pelos nomes que as correspondem não as satisfazem, posto que, ou elas não se aplicam, ou elas se aplicam a outros objetos que não aqueles a que elas usualmente, por sua subordinação semântica ao nome próprio, se referem (por exemplo, no mundo no qual foi João da Silva quem inventou as bifocais). Isso é comprovado pelo fato de descrições definidas que não se vinculam semanticamente a nomes próprios (como, por exemplo, ‘o terceiro regimento de cavalaria de Cintra’) serem designadores rígidos.
     Se admitirmos semelhante versão revisada da teoria descritivista dos nomes próprios, poderemos sugerir que a regra meta-identificadora é constitutiva do núcleo de significação de um nome próprio, tornando-o um designador rígido cuja necessidade é apenas de dicto, ou seja, convencionalmente estabelecida. Essa versão revisada da teoria descritivista aqui toscamente esboçada demanda, obviamente, uma elaboração que será ao menos no essencial desenvolvida no próximo capítulo.

Exposição
Kripke também considera a noção de aprioridade. Uma verdade a priori é aquela que pode ser conhecida sem recurso à experiência. Muitos consideram o necessário e o a priori equivalentes. Mas a noção de necessidade é metafísica – sobre o modo como o mundo poderia ser – enquanto a noção de a priori é epistemológica – sobre como conhecemos o mundo atual. Kripke pensa que as duas classes não se equivalem. Considere, escreve ele, a conjectura de Goldbach, segundo a qual qualquer número natural é a soma de dois primos. Ela pode ser uma verdade necessária sem que saibamos disso a priori.

Comentário
A sugestão de que a necessidade é metafísica e a aprioridade é epistemológica pode ser questionada. Ela só vale se a necessidade for entendida como de re, como Kripke pretende, posto que a necessidade de dicto se segue da aprioridade epistemológica. Mas se existem necessidades de re é algo que a rigor não podemos saber. Elas seriam necessidades das coisas mesmas como, supostamente, a de uma lei natural. Contudo, como podemos saber que uma lei natural é necessária? Ora, nossa falibilidade epistêmica no que diz respeito ao conhecimento empírico nos impede de adquirirmos conhecimento certo acerca disso. Por isso, a espécie de necessidade que atribuímos às leis naturais só pode ser de dicto, ou seja, resultado de convenções pragmático-lingüísticas que nos dizem que elas devem ser tratadas como se fossem necessárias. Trata-se aqui de uma necessidade hipotética, postulada com base na experiência e aceita como regra no sistema de linguagem – no que Wittgenstein chamaria de o jogo de conhecimento da física. Eis a sua sugestão, na qual lemos a palavra ‘regra’ como envolvendo proposições a priori:

Toda proposição empírica pode servir como uma regra se ela for fixada como peça imóvel de um mecanismo, de tal forma que a totalidade da representação gira ao seu redor tornando-a parte de um sistema de coordenadas independente dos fatos.[3]

     Para exemplificar o que Wittgenstein quer dizer, consideremos uma lei física qualquer, digamos, “e = mc2”. Ela pode ser duplamente compreendida:

(a)           Como componente da teoria da relatividade, pressupondo a verdade dessa teoria. Nesse caso ela será vista como necessária e a priori, ou seja, como um postulado independente da experiência, sendo a sua necessidade de dicto (convencional).
(b)           Com relação ao nosso sistema total de crenças, a mesma lei física deve ser considerada como um enunciado a posteriori e contingente. Afinal, nesse caso ela pode em princípio ser falseada pela observação, posto que a falibilidade é um traço pervasivo de nosso conhecimento empírico.[4]

     Isso explica porque enunciados como “Hespherus é Phosphorus” e “Calor é movimento molecular” podem ser considerado a posteriori e contingentes (com relação ao nosso sistema total de crenças) e também a priori e necessários de dicto (como componentes de subsistemas de crenças, respectivamente, a astronomia e a termologia).
     Quanto à conjectura de Goldbach, se ela é expressão de um teorema verdadeiro, sendo matemática, ela é necessária, mas se ela é uma verdade necessária é porque podemos saber disso a priori, mesmo que presentemente não o saibamos.

Exposição
O exemplo mais famoso de enunciado necessário a posteriori introduzido por Kripke é o da mesa de madeira a sua frente. Ele começa com a pergunta: poderia ela ter sido feita, desde o início de sua existência, da água congelada do Tâmisa? Certamente que não.  Ela seria um objeto diferente. Assim, o enunciado “Essa mesa, se ela existe realmente, não pode ser feita de gelo” mostra-se uma verdade necessária conhecida a posteriori. Mesas, diz ele, geralmente não são feitas de gelo, essa parece ser de madeira, não está fria, portanto provavelmente não é feita de gelo. Claro, pode ser um truque, sendo ela na verdade de gelo. Mas não é isso, diz Kripke, o que ele pretende. O que ele pretende é que dado o fato de ela não ser feita de gelo, mas de madeira, não se pode imaginar que ela poderia ser feita de gelo. Dado que ela não é feita de gelo, conclui ele, é necessário que não seja feita de gelo. Em outras palavras: sendo P = “Essa mesa não é de gelo”, sabemos a priori da verdade de “Se P então NP”. Ademais, sabemos por investigação empírica que P é verdadeiro. Juntando esses dois enunciados ele constrói o seguinte argumento usando o modus ponens:

     1  P → NP
     2  P                   
     3  NP

     É, pois, necessário que a mesa não seja de gelo, embora isso só seja conhecido a posteriori, pela investigação empírica.
 
Comentário
Minha dificuldade com este argumento diz respeito ao status epistemológico de P. A lógica trata da verdade de P abstraindo do fato de que P, como qualquer enunciado empírico, só pode ser conhecido e avaliado em seu valor-verdade quando considerado por sujeitos epistêmicos inevitavelmente falíveis. Mas esse não é o caso de nenhum enunciado de nossa vida real! Considerado em seu significado, naquilo que entendemos com ele, o enunciado P da segunda premissa poderia ser reescrito como (2’): “É praticamente certo (extremamente provável) que P”. Com efeito, tem de ser assim, pois só Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente, poderia ter como absolutamente certa a verdade do enunciado P (atribuindo-lhe probabilidade 1). Deus poderia saber da existência factual de P, que é o mesmo que saber da verdade absolutamente certa de P, que seria então uma necessidade de re. Já quanto a nós, tudo o que podemos saber é que P é um enunciado praticamente certo, a dizer, extremamente provável (ou seja, com uma probabilidade muito próxima de 1), posto que nosso conhecimento empírico nunca é certo (é possível, por exemplo, que algum demônio enganador me faça crer que estou diante de uma mesa de madeira quando ela na verdade é de gelo, como o próprio Kripke admite). Consideremos agora a primeira premissa. Com ela o mesmo não pode ser feito. É compreensível a idéia de que, dado o fato de que P, daí se segue NP. Assim, o que P → NP diz é (1’) “Se é o caso que P, então é necessário que P”. Mais além, a apreensão epistêmica de que P é um fato dado só será possível para um sujeito epistêmico que tenha absoluta certeza de P. Assim, a primeira premissa poderia ser ainda reescrita como (1’’) “Se é absolutamente certo que P então é necessário que P”, mas não como (1’’’) “Se é praticamente certo (extremamente provável) que P então é necessário que P”, pois a mera probabilidade de P, não importa quão alta seja, não garante a necessidade de P. Admitindo, pois, substituir a premissa (1) por (1’’) e (2) por (2’) “É praticamente certo que P”, o argumento de Kripke se torna:

  1. Se é absolutamente certo que P, então é necessário que P.
  2. É praticamente certo que P.
  3. É necessário que P.

     Qual o status lógico desse argumento? Ora, ele é obviamente inválido, posto que o modus ponens não pode ser aplicado a 1 e 2. E ele continuará inválido mesmo se revertermos a primeira premissa a (1’) como “Se é o caso que P, então é necessário que P”, pois o antecedente não está dizendo o mesmo que (2’). O argumento de Kripke nada faz, portanto, para convencer-nos de que o enunciado “Essa mesa não é de gelo”, embora a posteriori, seja necessário. Ele é a posteriori e portanto contingente como era esperado. A impressão de que ele possa ser necessário advém do fato de que o enunciado “Se essa mesa é de madeira, então ela não é de gelo”, que é necessário e conhecido a priori, costuma entrar no raciocínio que conduz à conclusão de que a mesa não é de gelo. Eis a maneira como sujeitos cognoscentes humanos (e não divinos) são capazes de tornar razoável o argumento indicado:

  1. Se for praticamente certo que essa mesa é de madeira, então será praticamente certo que ela não é de gelo.
  2. É praticamente certo que essa mesa é de madeira.
  3. É praticamente certo que essa mesa não é de gelo.

   Como essa é uma formulação algo complicada, preferimos uma formulação elíptica do mesmo argumento, ou seja, dizemos apenas que 1) Se essa mesa é de madeira, então ela não é de gelo; 2) Essa mesa é de madeira, 3) Logo, essa mesa não é de gelo. Essa formulação usual é não obstante enganosa, pois nos sugere que argumentos como o de Kripke possam ser (humanamente) válidos.

Exposição
Outro caso de enunciado necessário e a posteriori é, segundo Kripke, o das identidades entre nomes, como “Hesperus é Phosphorus” e “Cícero é Túlio”. Estas são identidades empíricas, geralmente consideradas contingentes. Para Kripke elas são identidades entre designadores rígidos, o que as torna necessárias, posto que nos mais diversos mundos possíveis esses nomes irão se referir ao mesmo objeto, não sendo pois possível uma situação na qual Hesperus não seja Phosphorus ou em que Cícero não seja Túlio. Poderíamos, diz ele, ter identificado Hesperus e Phosphorus com dois corpos celestes distintos, mas nesse caso a frase “Hesperus é Phosphorus” teria um outro significado. Este seria o caso, por exemplo, se marcianos tivessem habitado a Terra e tivessem identificado Hesperus com Vênus e Phosphorus com marte. De modo similar, 2 + 2 = 4 seria falso se por 4 entendêssemos a raiz quadrada de -1. O mesmo se dá com a identidade “Cícero é Túlio”. Parece que esse enunciado é contingente porque por vezes aprendemos esses nomes com o auxílio de descrições como ‘o maior orador romano’, achando que identificamos o objeto por meio de propriedades contingentes quando na verdade tais nomes não são sinônimos de descrições, mas designadores rígidos.

Comentário
Também para essas identidades a resposta pode ser similar ao que já observamos anteriormente. Podemos convencionar a necessidade de dicto de Hesperus ser idêntico a Phosphorus com base em teorias hoje universalmente aceitas pelos astrônomos, admitindo tal necessidade sob o pressuposto da verdade dessas teorias: teremos então uma identidade necessária a priori. Mas com relação à totalidade potencialmente mutável de nossas crenças, essa é uma identidade contingente e a posteriori.
   Consideremos o último caso. Como é bem sabido, foi uma descoberta astronômica que Hesperus – o corpo celeste visto ao anoitecer – é o mesmo que Phosphorus – o corpo celeste visto ao alvorecer. É verdade que hoje sabemos que esses nomes se referem a um mesmo planeta, Vênus. Mas, embora seja extremamente improvável, é possível que se descubra que Hesperus não é Phosphorus, e que Phosphorus é na verdade outro astro. Não é logicamente impossível que os Deuses tenham produzido uma grande ilusão de conhecimento nas mentes humanas e que os planetas na verdade não passem de um enxame de pequenos vagalumes que a cada noite se reúnem para decorar a abóboda celeste... Nesse contexto, Hesperus teria localização diversa de Phosphorus quando visto olho nu, mas pareceria idêntico a Phosphorus quando visto pelo telescópio, não por ser um mesmo planeta, mas como resultado de enfeitiçamento.
     Alguém poderia aplicar aqui um argumento similar ao de Kripke com o fito de demonstrar a necessidade de re de que Hesperus = h seja o mesmo que Phosphorus = p:

     (h = p) → N(h = p)
     h = p
     N(h = p)

     O problema é que também aqui o modus ponens não se aplica, pois a identidade h = p expressa no antecedente da primeira premissa só implica em N(h = p) se ela for pensada como uma identidade certa, como objeto de certeza absoluta. Contudo, para tal ela precisaria ser descoberta, não pelo sujeito epistêmico humano, que por sua inevitável falibilidade é incapaz disso, mas por Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente (o que certamente de nada nos adianta). Quanto à “h = p”, a segunda premissa, ela só pode ser, na relação com a totalidade de nossas crenças, uma hipótese empírica a dizer algo como “É praticamente certo (extremamente provável) que h = p,” o que mesmo assim não é absolutamente certo. A formulação seguinte demonstra o equívoco do argumento segundo o mesmo modelo:

       Se é absolutamente certo que h = p, então N(h = p).
       É praticamente certo que h = p.
       N(h = p)

     Note-se que a expressão ‘é absolutamente certo que’ pode ser substituída por ‘é o caso que’. Mesmo que a espécie de certeza absoluta requerida pela identidade da primeira premissa não seja acessível, é evidente que de “(h = p) → N(h = p)” e “É praticamente certo que h = p”, não podemos usar o modus ponens para derivar N(h = p).

Exposição
O próximo exemplo de Kripke diz respeito à identidade entre tipos de coisas. Considere o enunciado “Calor é movimento molecular”. Muitos pensam que essa é uma verdade a posteriori, pois é resultado de investigação científica empírica. Mas para ele essa é uma identidade necessária a posteriori, pois o calor (nos gazes) não pode ser outra coisa senão a energia cinética molecular média. Pode ser, diz ele, que a Terra viesse a ser habitada por seres que sentissem frio quando sentimos calor e vice-versa, de modo que calor não seria para eles idêntico a movimento molecular. Mas nem por isso calor significaria frio, pois o calor é entendido como o movimento molecular, tal como ele é sentido por nós. Para Kripke os termos ‘calor’ e ‘movimento molecular’ são designadores rígidos, o que torna a identidade entre eles necessária. Para ele o fato de o movimento molecular produzir a sensação de calor é usado para fixar a referência, tornando a identidade necessária; a ilusão de contingência se deve ao fato de que confundimos isso com o fato contingente de identificarmos o movimento molecular com a sensação de calor.

Comentário
Aqui também precisamos distinguir (a) a identidade entre calor e movimento molecular sob o pressuposto da termologia contemporânea e (b) a mesma identidade sob o pressuposto da totalidade de nossas crenças atuais. No primeiro caso, “Calor nos gazes = energia cinética média” é um enunciado de identidade necessário e a priori, pois nçao pode ser diferente. No segundo caso essa identidade se defronta com a falibilidade intrínseca de nosso conhecimento empírico, tornando a identidade contingente e a posteriori.
   Assim, imagine que por razões totalmente inesperadas quase toda a nossa química tenha de ser revisada e que se venha a descobrir que a melhor explicação para o calor é, com efeito, a de que se trata de um flúido inflamável semelhante ao calórico. Nesse caso será simplesmente falsa a identificação do calor nos gazes com o movimento molecular. Claro que a possibilidade dessa revisão é extremamente remota, mas não se trata de algo logicamente impossível. E se é logicamente possível que o calor seja idêntico a quantidades de calórico, então não é logicamente necessário que o calor seja movimento molecular e não o calórico. O erro cometido por Kripke consiste em confundir a necessidade empírica de identidade do calor com o movimento molecular com a necessidade conceitual que nela vemos sob o pressuposto da verdade da teoria termodinâmica, esquecendo-nos que essa teoria faz parte de nosso sistema total de crenças, o qual pode evoluir de modo a falseá-la, falseando com isso a identidade. Como já notamos, tal necessidade só pode ser de dicto, pois depende da postulação de alguma teoria para se afirmar. 
     Vejamos agora o que acontece se a necessidade for considerada de re. Nesse caso, como calor e movimento molecular são designadores rígidos e eles devem designar necessariamente a mesma essência, o seu argumento, chamando calor de C e movimento molecular de M Kripke poderia construir o seguinte argumento:

     (x) ((Cx = Mx) → N(Cx = Mx))
     (x) (Cx = Mx)
     (x) N(Cx = Mx)

   Contudo, presenciamos aqui o retorno sistemático da mesma dificuldade. A primeira premissa diz apenas que se é um fato que (Cx = Mx) então isso é necessário, ou então, de um ponto de vista epistêmico, que se for absolutamente certo que todo calor é movimento molecular, então é necessário que todo calor seja movimento molecular. Mas em qualquer dos casos, a identidade expressa na segunda premissa é alcançada por sujeitos epistêmicos falíveis com base em dois aspectos diferentes de uma essência a que temos todas as razões para crer que é a mesma, tratando-se outra vez de certeza prática. Ora, com base nas premissas “Se (é absolutamente certo que) Cx = Mx, então é necessário que Cx = Mx” e “É praticamente certo (extremamente provável) que Cx = Mx”, não podemos usar o modus ponens para concluir “É necessário que Cx = Mx”. A formulação que evidencia o equívoco é:

    (x) Se é absolutamente certo que (Cx = Mx) então N(Cx = Mx).
    (x) É praticamente certo que (Cx = Mx).
    (x) N(Cx = Mx)

   Vemos que o fato de C e M serem tratados como designadores rígidos não garante a identidade, pois eles podem designar rigidamente coisas diferentes.

Exposição
O último exemplo de Kripke concerne à teoria da identidade de tipos na relação mente-corpo, segundo a qual enunciados como “Dor é um estado cerebral tal e tal”, seriam descobertas científicas contingentes e a posteriori ainda por serem feitas. Mas, escreve Kripke, ‘dor’ e ‘estado cerebral tal e tal’ são aqui designadores rígidos, pois designam propriedades essenciais. Contudo, se é assim, o teórico da identidade está em papos de aranha, pois a identidade precisa ser necessária, o que se choca frontalmente contra o fato de que ninguém há de negar que é possível conceber que tenhamos dores sem termos os correspondentes estados cerebrais (podemos imaginar que ao abrirmos o crânio de uma pessoa nele encontremos apenas um punhado de palha). O teórico materialista, escreve Kripke, precisa defender que coisas que podemos imaginar na verdade não podemos imaginar, o que torna a teoria da identidade improvável. 
   
Comentário
Esse argumento parece-me claramente inconsistente. Se ele fosse correto teríamos de rejeitar também a identificação entre calor e movimento molecular, posto que podemos perfeitamente imaginar o calor na independência, por exemplo, da vibração molecular (calor nos sólidos), no caso em que a neve do pólo sul fosse mais quente do que as areias do Sahara.
     Afora isso, a objeção aqui é a mesma que no caso anterior: sob o pressuposto de uma teoria futura pode ser absolutamente certo e conseqüentemente necessário que a dor seja o mesmo que certo estado cerebral. Mas só os deuses pode saber disso com absoluta certeza. Para nós, sujeitos epistemológicos falíveis, essa identidade, ou (a) é necessária e de dicto e, portanto, a priori, ou (b) é contingente e a posteriori, posto que a sua constatação é capaz de espelhar apenas provavelmente a sua realização ontológica, a rigidez dos designadores nada tendo a ver com isso. Crer no contrário, como Kripke inadvertidamente faz, é atribuir à identidade epistemicamente suposta o mesmo status de uma identidade ontologicamente realizada que enquanto tal é incognoscível.







[1] Saul Kripke: “Identity and necessity”.
[2] Saul Kripke: Naming and Necessity.
[3] Ludwig Wittgenstein: Bemerkungen über die Grundlage der Mathematik (Suhrkamp: Frankfurt, 1984), p. 437..
[4] Um ponto central da filosofia de Karl Popper foi o de que não pode haver leis irrefutáveis na ciência empírica, posto que aquilo que a torna científica é o próprio fato de ela ser aberta à refutação empírica.