quinta-feira, 1 de novembro de 2012

# RECONSIDERANDO O VERIFICACIONISMO

Texto a ser publicado no livro Cognitivismo Semântico






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RECONSIDERANDO O VERIFICACIONISMO


O verificacionismo costuma ser hoje visto como uma relíquia da filosofia da primeira metade do século XX. Afinal, embora inicialmente defendido pelos filósofos do Círculo de Viena, parece que ele cedo se provou incapaz de resistir ao acúmulo de argumentos contrários, tanto de dentro quanto de fora do círculo. Meu objetivo nesse ensaio é mostrar que o princípio da verificação não está tão morto quanto geralmente se acredita. Retornando à metodologia e assunções de Wittgenstein – que afinal foi quem primeiro teve a ideia – meu objetivo é apresentar alguns argumentos em defesa do que pode ser chamado de verificacionismo semântico, que consiste na sugestão de que o conteúdo cognitivo ou informativo ou descritivo ou representacional de frases declarativas deva ser constituido por suas regras de verificação.

A origem do verificacionismo semântico
Um primeiro ponto a ser observado é que, diversamente do que pensam alguns, a idéia de que o significado de um enunciado é o seu modo de verificação não se deve aos filósofos do positivismo lógico. O introdutor do princípio foi Wittgenstein, como os próprios membros do círculo de Viena sempre reconheceram.[1] Com efeito, se consultarmos a obra desse filósofo, veremos que ele já formulava o princípio em suas conversações com Waismann de 1929, mantendo-o em seus escritos na década seguinte. Além disso, não há sequer evidência explícita de que ele tenha mais tarde abandonado o princípio em troca de uma concepção puramente performativa do significado como função do uso, como pensam alguns. Pois é perfeitamente admissível que o verificacionismo e a vaga tese posterior de que o significado é função do uso sejam reconciliáveis. Afinal, como escreveu Moritz Schlick, o melhor intérprete de Wittgenstein no período:

Enunciar o significado de uma sentença equivale a enunciar as regras de acordo com as quais a sentença é usada, e isso é o mesmo que enunciar o modo como ela pode ser verificada. O significado de uma proposição é o método de sua verificação.[2]

     Nessa leitura o significado é o modo de uso, que são regras de uso, que inclui regras cognitivas, as quais, no caso de frases enunciativas, seriam regras de verificação.
     É sempre bom consultarmos o que disse o verdadeiro autor de uma idéia. Se compararmos o verificacionismo wittgensteiniano com o verificacionismo do Círculo de Viena, perceberemos que há contrastes marcantes. Um primeiro deles é que Wittgenstein não estava muito preocupado em utilizá-lo como uma arma para o combate à metafísica, como queriam os membros do círculo. O objetivo maior teria sido o de alcançar uma Übersicht, ou seja, elucidar um princípio constituidor da função semântica de nossa linguagem representacional.
     Outra diferença marcante é que Wittgenstein não se preocupou em precisar seu princípio por meios formais, diversamente do que membros do círculo, de Ayer a Carnap, tentaram. Não estou objetando contra isso. O que me parece, contudo, é que tal empreendimento, se tentado, deve ser muito bem respaldado por uma consideração suficientemente detida de como a linguagem natural realmente funciona, sendo provável que a desconsideração disso tenha precipitado as distorções que acabaram por tornar o princípio aparentemente inviável.
     Dito isso, quero começar examinando algumas considerações de Wittgenstein sobre o princípio da verificação. Depois disso irei examinar algumas famosas objeções ao princípio, no intuito de demonstrar que elas são mais frágeis do que aparentam.

Verificacionismo wittgensteiniano
Eis algumas das declarações de Wittgenstein apresentando o princípio da verificabilidade:

Uma frase (Satz) que não se deixa verificar de modo algum não tem nenhum sentido (Sinn).[3]
São duas frases verdadeiras ou falsas sob as mesmas condições, então elas têm o mesmo sentido (mesmo que elas nos pareçam diferentes).
Determino sob que condições uma frase pode ser verdadeira ou falsa, então determino desse modo o sentido da frase. (Esse é o fundamento de nossas funções de verdade.)[4]
Para saber o sentido de uma frase, preciso conhecer um procedimento muito bem definido para saber se a frase é verificada.[5]
O método de verificação não é um meio, um veículo, mas o próprio sentido. Determino sob quais condições uma frase deve ser verdadeira ou falsa, assim determino o sentido da frase.[6]
O sentido de uma frase é o método de sua verificação.[7]

     O que chama atenção em declarações como essas é o seu caráter fortemente intuitivo. Elas parecem expor lugares comuns acerca de nosso uso linguístico, corroborando a sugestão wittgensteiniana de que teses filosóficas são triviais por explicitarem aquilo que todos nós sempre soubemos. Esses enunciados do princípio seriam, aliás, o que Wittgenstein chama de “frases gramaticais”, ou seja: enunciados explicitadores de regras que estão no fundamento das práticas linguísticas constitutivas de nossa linguagem factual.
    Há vários pontos a serem observados aqui. Um primeiro é que a regra de verificação deve ser ao menos a parte do conteúdo de uma sentença declarativa que tem sido chamado de sentido ou conteúdo cognitivo ou descritivo ou informativo ou factual. Trata-se daquilo que Frege chamou de pensamento (Gedanke), que se caracteriza por ser o portador de um valor-verdade.
     Um segundo ponto a ser notado é que a regra de verificação, sendo o sentido cognitivo, o pensamento, é ela mesma o portador da verdade, que só secundariamente é a frase. Assim, dizer que a frase é verdadeira é uma maneira indireta de se dizer que o pensamento que ela veicula é verdadeiro, o que, por sua vez, é dizer que a sua regra de verificação, que é o pensamento, é verdadeira. Mais além, dizer que a regra de verificação é verdadeira nada mais é do que dizer que ela é efetivamente aplicável. Outrossim, dizer que o pensamento, o conteúdo cognitivo, é falso, é dizer que a regra de verificação que o constitui não é efetivamente aplicável. Isso quer dizer que a regra de verificação vem associada tanto à verdade quanto à falsidade do pensamento ou da frase que o exprime, não sendo necessário recorrer a uma regra de falsificação.
     Aquilo a que a regra de verificação se aplica é o fazedor da verdade, que podemos chamar de fato. Considere a frase “Frege era barbudo”. Aqui a regra de verificação se aplica a um fato no mundo, logo a frase é verdadeira. Considere agora o enunciado “Russell era barbudo”: aqui a regra de verificação não se aplica a nenhum fato no mundo, logo a frase é falsa. (Por ser assim não existem fatos negativos: a frase “Russell não era barbudo” não se aplica ao fato negativo de ele não usar barba. Pois “Russell não era barbudo”  quer dizer o mesmo que “É falso que Russell era barbudo”, o que, por sua vez, deve querer dizer o mesmo que “A regra de verificação para o enunciado ‘Russell era barbudo’ não se aplica”.)
     Um outro ponto acentuado por Wittgenstein é que geralmente existe uma variedade de maneiras de se verificar (falsificar) um enunciado, cada maneira constituindo um diferente aspecto do seu significado. Como ele notou:

A consideração do modo como o significado de uma sentença é explicado torna clara a conexão entre significado e verificação. Ler que Cambridge ganhou a corrida de botes, o que verifica “Cambridge venceu”, obviamente não é o significado, mas é conectado com ele. “Cambridge venceu” não é a disjunção ‘eu vi a corrida ou eu li o resultado ou...’ É mais complicado. Mas se excluirmos qualquer um dos meios de verificar o enunciado, nós alteraremos o seu significado. Seria uma infração de nossa gramática se nós excluíssemos da verificação algo que sempre acompanhou o significado. E se excluíssemos todos os meios de verificação, isso destruiria o significado. É claro que nem toda espécie de verificação é realmente usada para verificar “Cambridge venceu” nem qualquer verificação dará o significado. As diferentes verificações do vencer a corrida de botes têm diferentes lugares na gramática de “ter vencido a corrida de botes”.[8]

     Usando o vocabulário wittgensteiniano podemos dizer que a regra verificacional se aplica quando temos a cognição, a tomada de consciência de um fato. Essa cognição pode ser direta, pela satisfação de constelações criteriais de algum modo constitutivas do fato, ou indireta, pela satisfação de critérios que nos permitam inferir esse mesmo fato. A regra de verificação de um enunciado é como uma árvore cujas ramificações são sub-regras capazes de verificar o enunciado sob diferentes perspectivas. A passagem de Wittgenstein sugere uma investigação pragmática precisa e detalhada da estrutura das regras de verificação em diferentes espécies de enunciados. Esse seria um empreendimento importante que não foi, pelo que me consta, tentado. No que se segue quero limitar-me, porém, a responder às principais objeções ao princípio da verificabilidade assim entendido.
    
A objeção da inverificabilidade do próprio princípio
A primeira e mais notória objeção ao princípio da verificabilidade é que ele é autodestrutivo. O argumento é o seguinte. O princípio da verificabilidade deve ser tautológico ou sintético. Tautológico, ou seja, analítico,[9] ele não pode ser, pois nesse caso ele seria não-informativo. Mas ele nos parece claramente informativo. Além disso, enunciados analíticos são auto-evidentes e a sua negação é incoerente, o que não parece ser o caso do princípio da verificabilidade. Por conseguinte, ele é sintético. Mas se é sintético, então ele precisa ser destituído de sentido, posto que quando tentamos aplicar o princípio da verificabilidade a ele mesmo, descobrimos que ele é inverificável. Como conseqüência, o princípio é destituído de significado pelos seus próprios standards...
     Positivistas lógicos tentaram contornar essa objeção respondendo que o princípio da verificabilidade de fato não tem valor-verdade, pois ele não passa de uma recomendação metodológica, de uma prescrição, de uma proposta.[10] A. J. Ayer defendeu essa idéia desafiando os seus ouvintes a apresentarem uma opção mais convincente... Todavia, um ouvinte de outra convicção poderia responder que simplesmente não sente a necessidade de aceitar nada nem de optar por coisa alguma... Na verdade, a resposta de Ayer não parece apenas ad hoc. Ela vai contra a sugestão wittgensteiniana de que aquilo que estamos fazendo é tão somente analisar as intuições subjacentes à nossa linguagem natural em busca de princípios gerais nela embutidos. Por isso, impor à nossa linguagem uma regra metodológica que lhe seja alheia seria arbitrário e mesmo confusivo como meio de esclarecer o significado.
     Diversamente disso, minha sugestão é manter o insight original de Wittgenstein de que com tal princípio deveria exprimir nosso entendimento do que é efetivamente caucionado pela linguagem cotidiana, de modo a formar uma frase gramatical expressiva de uma condição que precisa ser satisfeita pela totalidade de nossa linguagem factual. Ora, uma vez que admitimos que o princípio faz explícitas intuições lingüísticas pré-existentes, tornamo-nos autorizados a pensar que ele é analítico, ou seja, que ele consiste na afirmação de uma sinonimidade entre as expressões ‘significado ou conteúdo cognitivo de uma sentença declarativa’ e ‘modo como o o seu valor-verdade é estabelecido’. Assim, tomando p como uma sentença declarativa qualquer, podemos definir o significado cognitivo de p através da seguinte proposição analítico-conceitual:

(Df.) Conteúdo cognitivo de p = a regra de verificação para p.

    Contra tal sugestão se poderia insistir em objetar que, sendo analítico, o princípio de verificabilidade deveria ser não-informativo, devendo a sua negação ser incoerente, o que não parece ser o caso. Em busca de uma resposta gostaria de começar remontando a uma sugestão que pode ser encontrada em John Locke. Esse filósofo distinguiu entre conhecimento sensitivo (sintético ou empírico) e relações de idéias (verdades analíticas); as últimas, por sua vez, foram distinguidas como provendo conhecimento intuitivo ou demonstrativo.[11] As frases “Vermelho não é verde” e “Três é maior que dois” exprimem para ele relações de idéias intuitivas, pois são auto-evidentes e a sua negação é claramente contraditória. Mas nem todas as frases analíticas são intuitivas. A frase “A soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos” exprime conhecimento demonstrativo, mas nem por isso deixa de exprimir uma relação de idéias, sendo, pois, uma frase analítica. O conhecimento demonstrativo é o que se baseia em demonstrações cujas premissas são constituidas por conhecimento intuitivo, ou seja, por verdades analíticas intuitivas. Por isso ele não pode ser realmente informativo, ainda que aparente sê-lo. A questão é: por que o próprio princípio da verificabilidade não poderia ser uma relação de ideias demonstrativa expressa por uma frase analítica?
     Contra essa sugestão, a objeção mais imediata é a de que o princípio da verificabilidade não pode ser demonstrativo no mesmo sentido de um teorema da geometria ou de uma demonstração em lógica. Afinal, em casos como os teoremas da geometria, é fácil explicitar novamente os caminhos já pré-determinados que conduziram a sua demonstração. Mas não há um caminho similar para se demonstrar o princípio da verificabilidade.
     A resposta surge quando comparamos o princípio da verificabilidade com enunciados que tal como ele nunca foram demonstrados e que não parecem à primeira vista demonstráveis, mas que através de análise acabam por se revelar verdades demonstrativas encobertas. Isso acontece, por exemplo, com enunciados complexos da linguagem ordinária, cuja verdade necessária não se revela de imediato, mas que a uma análise acabam por demonstrar-se tautologias analíticas. Eis um conhecido exemplo:

Uma mesma superfície não pode ser vermelha e verde (ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto).

Esse enunciado não é analiticamente intuitivo. Na verdade ele já foi visto e até hoje é visto como um exemplo standard do que poderia ser um juízo sintético a priori.[12] Mas se considerarmos que é intuitivamente (analiticamente) verdadeiro que (i) cores podem ocupar superfícies, que (ii) duas cores diferentes não podem ocupar a mesma superfície e que (iii) vermelho e verde são cores diferentes, parece daí resultar o caráter analítico do enunciado de que uma mesma superfície não pode ser vermelha e verde. Eis como esse argumento pode ser melhor organizado:

1        Duas coisas diferentes não podem ocupar um mesmo lugar ao mesmo tempo.
2        Uma superfície delimita um lugar.
3        (1,2) Duas coisas diferentes não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.
4        Cores são coisas que ocupam superfícies.
5        (3,4) Duas cores diferentes não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.
6        Vermelho e verde são cores diferentes.
7        (5,6) O vermelho e o verde não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.

     Parece-me claro que premissas 1, 2, 4 e 6 são (se pensadas no contexto adequado) intuitivamente analíticas. Por conseguinte, a conclusão também deve ser analítica, ainda que não pareça.
     A sugestão que quero fazer é a de que também o princípio da verificabilidade seja uma verdade analítica demonstrativa encoberta não-trivial, podendo ter o seu caráter auto-evidente esclarecido através de elucidação de seus pressupostos. Eis uma tentativa de chegar a isso:

1.     Sentidos (significados) são regras ou combinações de regras semânticas.
2.     Conteúdos cognitivos são espécies de sentidos.
3.     (1,2) Conteúdos cognitivos são regras ou combinações de regras semânticas.
4.     Enunciados expressam conteúdos cognitivos (sentidos descritivos, factuais, representacionais).
5.     (3,4) Os conteúdos cognitivos dos enunciados são regras ou combinações de regras semânticas.
6.     Regras cognitivas são regras criteriais (baseadas em critérios de aplicação).
7.     (5,6) O conteúdo cognitivo de um enunciado depende de regras cognitivas que são também criteriais, ou seja: regras cognitivo-criteriais.
8.     O conteúdo cognitivo de um enunciado depende dos modos de determinação de sua verdade.
9.     Os modos de determinação da verdade do enunciado são constituidos por meio de regras cognitivo-criteriais.
10. (7,8,9) O conteúdo cognitivo do enunciado depende de regras criteriais que são modos de determinação de sua verdade.
11. As regras cognitivo-criteriais determinadoras da verdade do enunciado constituem aquilo que chamamos de sua regra de verificação.
12. (10,11) O sentido epistêmico do enunciado é constituido por sua regra de verificação.

     Para mim, ao menos, as premissas 1, 2, 4, 6, 8, 9, 11 soam mais claramente analíticas do que 10. Com efeito, elas são realmente analíticas se pensarmos que os sentidos devem ser obviamente regras ou combinações de regras, se considerarmos que enunciados têm obviamente sentidos cognitivos dependentes de critérios, sendo as suas regras de significação regras cognitivo-criteriais, as quais não podem ser outras que não as regras determinadoras do valor-verdade desses enunciados... os quais denominamos regras de verificação. Muitos filósofos da linguagem discordarão. Mas como não posso me estender mais nesse argumento, prefiro evadir-me na escusa daquele personagem de Borges que, não tendo mais como sair-se, finalizou dizendo: “São as vossas impurezas que vos proibem de reconhecer o esplendor da verdade”.

A objeção do holismo verificacional
Uma objeção sofisticada é a proveniente da generalização da tese de Duheim feita por W. V-O. Quine. Segundo Quine, “nossos enunciados sobre o mundo externo não fazem frente à experiência sensível individualmente, mas em um corpo corporativo”.[13] A implicação anti-verificacionista disso é clara: como o que é verificado é todo um sistema de enunciados, e nunca um enunciado isoladamente considerado, não faz sentido pensar que o enunciado tem uma regra de verificação distintiva ou intrínseca, que possa ser identificada com o significado que a ele atribuimos.
     Em meu juízo, se tomada de maneira suficientemente abstrata, a idéia de que nenhum enunciado se verifica independentemente de outros enunciados do sistema é correta (ficando em aberto quais e quantos); ela constitui o que poderíamos chamar de um holismo formal ou estrutural. Mas a conclusão insinuada por Quine de que a admissão do holismo destrói o verificacionismo nada tem de segura, pois ela demanda que a admissão de um holismo formal implique em um holismo verificacional, ou seja, relativo aos procedimentos verificacionais concretos e às regras de verificação neles envolvidas. Mas isso é precisamente o que nunca acontece.
     Vejamos a questão mais de perto. A tese do holismo verificacional é inspirada no fato bem conhecido dos filósofos da ciência, de que enunciados observacionais sempre dependem da verdade de assunções ou hipóteses auxiliares para poderem ser verdadeiros. Isso é correto in abstracto; afinal, há uma maior ou menor interdependência entre nossas crenças, que não podem existir em isolamento. Contudo, se desse holismo formal ou abstrato se segue um holismo verificacional é outra questão. Em meu juízo, a tese de Quine é equívoca porque embora um sistema de enunciados no final das contas deva se confrontar como um todo com a realidade, os seus enunciados não se confrontam nem conjuntivamente nem simultaneamente com a realidade.
     Um exemplo bem conhecido pode esclarecer o que quero dizer. Sabemos hoje que Galileu descobriu a verdade do enunciado: (1) “Júpiter tem luas” pela observação telescópica. Seus contemporâneos, porém, desconfiavam dos resultados da observação telescópica. O aparelho poderia estar enfeitiçado etc. Mas filósofos da ciência hoje notam que eles não estavam de todo destituídos de razão. Pois uma assunção auxiliar para a aceitação da verdade do enunciado “Júpiter tem luas” é que o telescópio seja um instrumento confiável. Ao aperfeiçoar o telescópio Galileu certamente conhecia a lei da ampliação do telescópio, segundo a qual o poder de ampliação desse aparelho resulta do seu comprimento focal dividido pela distância focal da ocular. Mas para que essa assunção auxiliar fosse garantida, faltava ainda no tempo em que Galileu construiu o seu telescópio, a comprovação de outras assunções auxiliares, como as que constituem as leis da óptica.[14] Considere, por exemplo, a fundamental lei da refração, segundo a qual sen i / sen r = n2/n1. Essa lei só foi estabelecida em 1626 por Snell, enquanto as observações telescópicas de Galileu foram feitas em 1610. Ignorando as muitas outras hipóteses auxiliares também assumidas, a verificação feita por Galileu de que o planeta Júpiter tem luas pode ser apresentada como resultado do seguinte argumento indutivo:

1.     Observação telescópica de quatro astros orbitando Júpiter.
2.     (Lei da ampliação do telescópio)
3.     ((sen i / sen r = n2/n1))                       .                                                         
4.     Conclusão: O planeta Júpiter tem luas.

     Embora a premissa 3 tenha faltado para Galileu, ela reforça secundariamente o argumento. A falta da premissa 2 enfraqueceria ainda mais o argumento. Da consideração da inclusão dessas e de outras premissas constitutivas de hipóteses auxiliares comprovadas, o defensor do holismo verificacional conclui que 4 não possui uma regra de verificação independente, constitutiva de seu conteúdo cognitivo.
     Mas há problemas com esse raciocínio! Primeiro, precisamos notar que esses enunciados não são conjuntivamente verificados: a inferência da conclusão 4 com base em 1 em boa medida pressupõe uma anterior verificação da premissa 2, que por sua vez em alguma medida pressupõe a verificação da premissa 3 (o que é indicado pelos parênteses). Depois, esses enunciados não foram verificados simultaneamente: o enunciado 4 foi verificado como conseqüência direta da verificação do enunciado perceptual 1, que se realizou pela observação diária que Galileu fez das variações das posições dos quatro astros alinhados ao redor de Júpiter... Contudo, isso não se deu simultaneamente à verificação dos enunciados 2 e 3. Ele foi posterior à verificação do enunciado 2 e (para nós) posterior também à verificação do enunciado 3, dos quais também depende a força indutiva da conclusão verificacional. Contudo, por serem pressupostas e anteriores, torna-se claro que as verificações de 2 e 3 podem ser distinguidas da verificação de 4 por 1. O procedimento verificacional do enunciado 4 se restringe ao requerimento da verdade do enunciado 1.
     Generalizando: se chamamos o enunciado a ser verificado de P, o enunciado observacional de O, e as hipóteses auxiliares de A, a estrutura de raciocíno própria do procedimento verificacional não é

     O
     A1 + A2... + An
     Logo P

Mas sim:

     O
     (assumindo a prévia verificação de A1 + A2... + An)
     Logo P

     Essa pressuposição de uma verificação prévia (maior ou menor) das hipóteses auxiliares pressupostas é o que faz toda a diferença, pois nos permite separar a regra de verificação de P, que associa P diretamente às observações associadas a O, das regras de verificação das hipóteses auxiliares, que são assumidas como já tendo sido aplicadas.
     Além disso, podemos claramente distinguir aquilo que verifica cada hipótese auxiliar. Por exemplo: a lei da ampliação do telescópio pode ser verificada através de simples medições empíricas; e a lei da refração de Snell foi estabelecida com base em medições empíricas da relação entre variações do ângulo de incidência da luz e a densidade dos meios. Assim, embora seja verdade que em um nível formal e abstrato a verificação de um enunciado dependa da verificação de outros enunciados, ao nível dos procedimentos cognitivos concretos, a verificação dos enunciados auxiliares já vem pressuposta, o que nos permite isolar o procedimento ou regra verificacional inerente ao próprio enunciado em questão e identificá-lo com aquilo que estamos querendo dizer com ele. Ou seja: como os diferentes enunciados auxiliares devem ser verificados em separado e anteriormente ao procedimento que verifica o enunciado, somos capazes de distinguir e individuar o procedimento em questão, a sua regra de verificação, o que torna o holismo formal inofensivo quando considerado como crítica ao verificacionismo semântico. Por confundir a estrutura formal envolvida com o procedimento verificacional instanciador da própria regra verificacional, o argumento de Quine produz a impressão equívoca de que a verificação enquanto tal deva ser um procedimento holístico e que por isso o significado do enunciado não possa ser identificado com uma regra de verificação.
     Finalmente, como cada enunciado tem um sentido que lhe é próprio, torna-se outra vez perfeitamente razoável identificar o sentido do enunciado com o seu modo de verificação, posto que ambos são individuados pelo enunciado e não pelo sistema de enunciados. A conclusão inescapável é que o holismo verificacional não se sustenta, pois a simples admissão do holismo formal, isto é, do fato dos enunciados estarem sempre em alguma medida inferencialmente enovelados uns nos outros, não é suficiente para nos fazer concluir que as suas regras verificacionais não possam ser distinguidas umas das outras de modo a serem identificadas com os significados representacionais de seus respectivos enunciados.
     O exame do que acontece concretamente quando um enunciado é verificado nos mostra que mesmo assumindo um holismo formal, as regras ou procedimentos de verificação são distinguiveis umas das outras na mesma medida dos significados dos enunciados correspondentes – uma conclusão que apenas sugere a esperada correlação entre o significado como conteúdo cognitivo do enunciado e o seu modo de verificação.

O problema da assimetria existencial-universal
Outra objeção é a de que o princípio da verificabilidade só se aplica conclusivamente a frases existenciais, mas não a frases universais. Para verificarmos uma frase existencial como “Algumas peças de cobre se expandem ao serem aquecidas”, basta identificarmos uma peça de cobre que se expande ao ser aquecida; mas para verificarmos conclusivamente uma frase universal como “Todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas”, precisaríamos vasculhar o universo inteiro, inclusive em seu futuro e em seu passado, o que é impossível. É verdade que a universalidade absoluta é uma ficção e que, quando falamos em frases universais, estamos sempre tendo em vista certo universo de discurso. Mas ainda assim o problema permanece. Pois como o próprio caso da expansão do cobre exemplifica, o universo de discurso costuma ser muito mais amplo do que tudo o que podemos efetivamente experienciar, impossibilitando uma verificação conclusiva. Assim sendo e também pelo fato de que as leis científicas costumam ter a forma de enunciados universais, ocorreu a alguns se perguntar se não seria melhor admitirmos que o sentido cognitivo das frases universais é constituido por regras de falsificação ao invés de regras de verificação; seria essa a resposta correta?[15]
      Penso que não. O problema é que, como já foi observado no início, não parece existir uma regra de falsificação do enunciado, assim como certamente não existe uma força desassertiva do pensamento, nem algo como uma regra de desidentificação do nome ou uma regra de desaplicação do predicado. Podemos, por exemplo, falsificar o enunciado “Todos os corvos são pretos” com a verificação do enunciado “Esse corvo é albino”. A regra de verificação desse último enunciado é tal que, se aplicada, falsifica o enunciado “Todos os corvos são pretos”. Mas se o significado do enunciado universal fosse uma regra capaz de falsificá-lo, e a regra de verificação do enunciado “Esse corvo é albino” é, quando aplicada, aquilo que falsifica o enunciado “Todos os corvos são pretos”, então parece que devemos admitir que o enunciado "Todos os corvos são pretos"  é sinônimo de “Esse corvo é albino” (ou que o último seja ao menos parte do sentido do primeiro). Mas isso é absurdo: a regra de verificação para corvos albinos não tem nada a ver com o significado da afirmação de que todos os corvos são pretos.
     Parece, pois, que devemos admitir que o significado do enunciado universal seja realmente a sua regra de verificação. Mas nesse caso parece inevitável o retorno do problema da inconclusividade da verificação desses enunciados. Não é necessário, porém, que seja assim. Minha sugestão é a de que a objeção da inconclusividade é falha, emergindo do fato de que há um sério engano em nosso reconhecimento usual da forma lógica dos enunciados universais. Basta um breve exame para mostrar que eles são simultaneamente probabilistas e conclusivos. Considere outra vez a frase:

     O cobre se expande ao ser aquecido.

 A sua forma não é:

Afirmo que é absolutamente certo que todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas,

onde o ‘absolutamente certo’ significa ‘sem possibilidade de erro’. Essa forma seria apropriada para verdades formais como

      Afirmo que é absolutamente certo que 2 + 3 = 5,

 pois aqui não pode haver erro (exceto erro procedimental, o que deixamos fora de consideração). Mas essa forma não é apropriada a verdades empíricas sobre as quais não vige a certeza lógica resultante das próprias convenções conceituais adotadas. A forma lógica da frase em questão é outra. Ela é a da certeza prática expressa por

Afirmo que é praticamente certo que toda peça de cobre se expande ao ser aquecida,

onde ‘praticamente certo’ significa ‘com uma probabilidade suficientemente elevada para que a possibilidade de erro possa ser negligenciada’. Se aceitarmos essa paráfrase, uma frase como “O cobre se expande ao ser aquecido” se torna conclusivamente verificável, pois podemos claramente encontrar evidências indutivas protegidas por razões teóricas que tornem de modo conclusivo praticamente certo que todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas. Em suma: a forma lógica de um enunciado universal não é “├ todo S é P” (usando o sinal fregeano de asserção), mas:

     ├ é praticamente certo que todo S é P,

e enunciados dessa forma são conclusivamente verificáveis. Essa é mais uma razão para concluirmos que não há nada de errado em identificarmos o significado da frase universal com a sua regra de verificação.

A objeção da indireticidade
Outra objeção comum é a de que a regra de verificação de frases com conteúdo empírico exige tomarmos como ponto de partida observações diretas e intersubjetivamente possíveis dos fatos. Contudo, muitos enunciados não dependem da observação direta para serem verdadeiros, como é o caso de “A massa do elétron é de 9,109 vezes 10 Kgs elevado à trigésima primeira potência negativa”. Isso nos força a admitir que muitas regras de verificação são indiretas. Como escreveu W. G. Lycan[16], se não admitirmos isso seremos conduzidos a um instrumentalismo grotesco, no qual aquilo que é real será reduzido ao que é intersubjetivamente observado, não existindo mais coisas como eléctrons e suas massas... Mas se, por outro lado, admitirmos que há verificações indiretas, como decidir quais são as observações diretas e quais as indiretas? Não se trata de uma dessas distinções desesperadamente confusas?
     Outra vez, os problemas só emergem se embarcarmos na estreita canoa formalista do positivismo lógico e sairmos por aí atropelando a linguagem com exigências inadequadas. Nossas frases assertivas são proferidas em práticas lingüísticas, em jogos de linguagem. Por conseguinte, o critério para se distinguir a observação direta da observação indireta deve ser sempre relativo à prática lingüística que estamos tomando como modelo. Podemos ser confundidos pelo fato de que nas (i) práticas linguísticas observacionais cotidianas a verificação direta costuma ser considerada aquela resultante da observação virtualmente interpessoal de objetos sólidos, opacos e de tamanho médio, suficientemente próximos, sob iluminação adequada, por observadores em condições normais e com os sentidos desarmados... É assim que a presença do computador, da mesa e da cadeira, são verificadas. Por ser a forma mais usual de observação, essas práticas tendem a ser vistas como um modelo fundamental para a observação direta, a ser contrastado com, digamos, a observação indireta através de sintomas perceptualmente acessíveis, através de instrumentos óticos, através de espelhos etc. Mas seria um erro infeliz usar esse contraste para avaliar o que acontece em outras práticas linguísticas.
     Para contrastar quero considerar primeiro (ii) a prática linguística do bacteriologista. Nessa prática o que está em causa é a descrição de bactérias vistas ao microscópio. Nela ver bactérias ao microscópio é o modelo da observação e verificação direta. Mas o bacteriologista pode dizer que verificou indiretamente a presença de um vírus devido a alterações que ele constatou nas células bacterianas que ele viu ao microscópio, usando como modelo de observação direta a observação microscópica. Ninguém dirá que as verificações do bacteriologista são todas indiretas, a não ser que tenha em mente o modelo de observação das práticas observacionais cotidianas, o que não seria nada usual. Mas até isso é possível dizer, contanto que esteja claro o modelo de comparação que estamos usando.
     Consideremos agora (iii) a prática linguística da paleontologia. Nela a descoberta de restos fósseis será uma maneira direta de se verificar a existência desses seres em um passado remoto, posto que a observação ao vivo é descartada. Por comparação e contraste com esse modelo, o paleontólogo pode falar de verificações indiretas. Assim, se ele sugere terem vivido hominídeos em certo local apenas por ter encontrados lesões provocadas por instrumentos em ossadas fósseis de animais, essa constatação poderá ser considerada resultante de uma verificação indireta na prática paleontológica, em contraste com o encontro de restos fossilizados de hominídeos.  Claro que na prática linguística da paleontologia – tanto quanto na prática linguística da bacteriologia – qualquer de suas verificações poderá ser dita indireta se comparada com as verificações que cotidianamente fazemos de objetos opacos de tamanho médio próximos a nós (modelo da prática (i)). Contudo, essa ambiguidade não costuma ser problemática, a menos que o contexto deixe dúvidas sobre o modelo de comparação que está sendo usado.
     Se a prática lingüística for (iv) a de descrever sentimentos, a verificação de uma frase pelo próprio falante será dita direta, ainda que subjetiva, enquanto que a determinação da verdade por outros, com base no comportamento, será geralmente tida (por não-behavioristas) como indireta. Não há aqui uma maneira fácil de comparar com a prática de observação de objetos físicos de tamanho médio para considerar qual delas é a mais direta, visto que elas pertencem a domínios verificacionais muito diversos.
     A conclusão é a de que não há nenhuma dificuldade real em se distinguir entre verificações diretas e indiretas, conquanto tenhamos clareza sobre a prática lingüística no interior da qual essa verificação está sendo considerada, ou seja, sobre o modelo de comparação escolhido. Basta que os falantes compartilhem entre si os pressupostos da prática lingüística em relação a qual o proferimento é avaliado e estejam cientes do modelo de comparação empregado para se tornarem capazes de alcançar acordo sobre se a verificação/observação é direta ou indireta.

Contra-exemplos empíricos
Outra espécie de objeção diz respeito a enunciados que possuem sentido, mas que não parecem possuir regra de verificação. Em meu juízo, esse tipo de objeção demanda consideração caso a caso.
     Considere, para começar, o enunciado “João era corajoso”, em uma circunstância na qual João morreu sem ter tido nenhuma oportunidade de se demonstrar corajoso, digamos, pouco após o nascimento. Se adicionarmos ao exemplo o pressuposto de que o único meio de verificar se João era corajoso seria pela observação de seu comportamento, esse enunciado se torna logicamente inverificável. Sendo assim, segundo o princípio da verificação esse enunciado não tem significado. Contudo, ele parece ser perfeitamente significativo!
     A resposta é que o enunciado “João era corajoso” nas circunstâncias consideradas apenas aparenta ter significado. Ele pertence ao conjunto dos enunciados que aparentam ter sentido cognitivo, mas não tem. No caso, trata-se de uma frase que possui um sentido gramatical, dado pela combinação do nome próprio não vazio com um predicado. Mas não há critério para aplicarmos ou não o predicado. Assim, o enunciado não tem função na linguagem e nada é capaz de dizer. Ele faz parte do conjunto de enunciados tais como “O universo duplicou de tamanho essa noite” e “O mundo inteiro surgiu cinco minutos atrás”. Esses enunciados apenas aparentam ter algum sentido representacional, pois possuem sentido gramatical e são capazes de sugerir imagens e produzir ilações em nossas mentes. Mas a rigor eles nada dizem.
     Wittgenstein considerou um caso paralelo em Sobre a Certeza. Considere a constatação “Você está diante de mim agora” feita ao acaso, em circunstâncias normais, por uma pessoa que se encontra diante de outra. Ele sugeriu que tal frase apenas aparenta ter sentido, dado que somos capazes de imaginar situações nas quais ela teria algum uso, alguma função na linguagem, por exemplo, uma situação em que estivesse tão escuro que fosse difícil ao interlocutor identificar o falante.[17] O mesmo se dá com a frase “João era corajoso”. Somos facilmente capazes de imaginar situações contrafactuais na quais ele teria ou não teria demonstrado coragem, preenchendo-lhe assim de significado. Nas circunstâncias supostas, porém, o enunciado não possui o menor sentido.
     O que dizer de enunciados sobre o passado ou sobre o futuro? Aqui também é necessário um exame caso a caso. Digamos que alguém afirme: “O Homem de Java viveu há cerca de 1,8 milhões de anos”. Esse enunciado foi plenamente verificado pelo crânio encontrado e por um seguro procedimento de datação. A verificação observacional direta de acontecimentos passados é fisicamente e praticamente impossível, mas ela não é parte da regra de verificação cuja aplicação nos garante a verdade do enunciado em questão. Ela não pertence ao que queremos dizer com a frase.
     Muito diferente é o caso de frases sobre o passado como “Sobre essa pedra pousou uma águia há exatamente dez mil anos” ou “Napoleão espirrou mais de 30 vezes enquanto esteve na Rússia”, ditas em situações nas quais não há nenhum meio prático de se verificar. Nesses casos a verificabilidade é, como se diz, apenas lógica; tal verificação não é praticamente realizável e pelo quanto sabemos não é sequer fisicamente realizável (não podemos voltar ao passado). Mas é difícil admitir que enunciados empíricos cuja verificabilidade é apenas lógica sejam verificáveis no sentido próprio do termo, no sentido de possuirem um sentido cognitivo ou representacional. Pode ser que a distinção entre verificabilidade lógica e empírica seja uma distinção entre níveis de verificabilidade que se pressupõem, correspondendo a níveis de significação. Mas se a verificabilidade de um enunciado pretensamente empírico for apenas lógica, ele será carente de conteúdo cognitivo. Não sabemos o que fazer com ele. Ele não é capaz de cumprir com a função própria de um enunciado empírico, que é a de representar um estado de coisas real ou possível.
     Algo semelhante pode ser dito de enunciados sobre o futuro, com a diferença de que a verificação direta é fisicamente possível. O proferimento “Daqui a 7 dias irá chover” é indiretamente verificável pela metereologia (que verifica conclusivamente o enunciado “Daqui a sete dias (provavelmente) irá chover”), mas será diretamente verificável em uma semana. O enunciado “Daqui a cerca de onze bilhões de anos (provavelmente) o sol irá se expandir e engolirá Mercúrio” pode ser ao menos indiretamente verificado com base no que sabemos do destino de estrelas como o sol. Já para uma frase como “O primeiro bebê a nascer em Montes Claros em 2040 será do sexo feminino” temos uma regra de verificação que só poderá ser aplicada no futuro e de forma direta, o que nem por isso a invalida enquanto tal. Esses enunciados não são apenas logicamente, mas também fisicamente e em certa medida praticamente verificáveis; o primeiro indiretamente e o segundo diretamente, mas em um tempo futuro. Vemos que não há uma fórmula geral e única para o procedimento verificacional. Parece que a espécie de regra de verificação exigida varia com o enunciado em sua inserção na prática linguística na qual ele é realizado, sendo geralmente a confusão entre casos diversos, pertencentes a práticas diversas, aquilo que pode levar-nos a crer que existem enunciados que possuem sentido ou conteúdo cognitivo, mas que apesar disso são inverificáveis.

Contra-exemplos formais
É possível estender a aplicação da tese verificacionista aos enunciados formais da lógica, da matemática e da geometria. Nesse caso a regra verificacional é constituido pelos procedimentos (combinações de regras) formais que demonstram a sua verdade, acrescentando-lhe sentido representacional dentro do sistema formal no qual é considerado. A principal diferença com relação à verificação empírica é que no caso da verificação formal, dispor da regra de verificação já é o mesmo que aplicá-la, posto que os critérios a serem satisfeitos são os próprios axiomas já estabelecidos pelo sistema.
     Um muito falado contra-exemplo a essa sugestão é a conjectura de Goldbach. Essa conjectura costuma ser enunciada como

g = Todo número inteiro par acima de dois resulta da soma de dois números primos.

A objeção é a de que essa conjectura possui significado mesmo que nunca se tenha conseguido prová-la, mesmo que o procedimento verificacional formal para g não tenha sido ainda encontrado. Logo, o significado de f não pode ser uma regra de verificação!
     A resposta a esse argumento é simples demais e advém da observação de que a conjectura de Goldbach não passa de mera conjectura. Ora, o que é uma conjectura? Não é uma afirmação, um teorema provado, mas o reconhecimento da plausibilidade de uma proposição. Assim, a verdadeira forma da conjectura de Goldbach é:

     É plausível que g.

Mas “É plausível que g”, melhor dizendo, “[Afirmo que] é plausível que g”, ou ainda (usando o sinal fregeano da asserção) “├ é plausível que g”, é algo diferente de

     Afirmo que g

 ou “├ g”, que é aquilo que poderíamos dizer se quisessemos enunciar o teorema de Goldbach, ou seja, a conjectura provada. Ora, a regra de verificação do reconhecimento do enunciado de plausibilidade é bem menos exigente do que a regra de verificação capaz de demonstrar g. Se nosso caso fosse o de “Afirmo que g”, a saber, uma afirmação ou tese ou teorema Goldbach, a regra de verificação exigida seria realmente o procedimento de prova do teorema. Mas nosso caso é

     [Afirmo que] é plausível que g,

no qual a regra de verificação consiste tão somente em um procedimento verificacional capaz de sugerir que g possa ser provada. Ora, esse procedimento verificacional, essa regra, de fato existe. Ela consiste simplesmente em considerar exemplos de números pares aleatoriamente dados, como 2, 4, 8 e verificar se eles podem resultar na soma de dois números primos, como (respectivamente) 1 + 1, 3 + 1, 5 + 3. E essa regra verificacional não só existe como tem sido aplicada até hoje, sem exceção, a todos os números inteiros pares considerados. Essa é a razão que realmente temos para sustentar a conjectura de Goldbach. Se uma exceção tivesse sido encontrada a conjectura ruiria; ela teria sido provada falsa, pois “├ ~g” é incompatível com

     [Afirmo que] é plausível que g.

     Assim, a conjectura é verificável e tem sido verificada. É realmente plausível que g seja o caso. O que não é verificável nem foi verificado é a afirmação de g, o teorema. Essa afirmação não faz realmente sentido, não possui conteúdo semântico, posto que ainda não dispomos de um procedimento matemático que a verifique. O erro consiste na confusão de uma suposição com uma afirmação, de uma conjectura com um teorema.
     Note-se que a conjectura de Goldbach, como afirmação de plausibilidade, tanto pode ser demonstrada verdadeira como também falsa. Ela é considerada verdadeira porque tem obtido comprovação constante. Ela será falsa se for encontrado um contra-exemplo: um número par acima de 2 que não resulte da soma de dois primos. A conjectura será falseada se for encontrado um caso de inaplicabilidade da regra verificacional que nos manda buscar sempre a soma de dois números primos de modo a resultar no número par em questão.
     Um caso contrastante é o do último teorema de Fermat. Eis como ele costuma ser formulado:

 f = não existem três números positivos x, y e z que satisfazem a equação “xⁿ + yⁿ = zⁿ” se n for superior a 2.

     Esse teorema já havia sido parcialmente demonstrado até que em 1995 Andrew Wiles conseguiu encontrar uma demonstração completa. Alguém poderia aqui objetar que mesmo antes de sua demonstração f já era chamado de “o teorema de Fermat” e que, portanto, fazia sentido como teorema mesmo sem que tivéssemos uma demonstração...
     Mas essa seria uma objeção ingênua. Pois com ela esquecemos que ‘o teorema de Fermat’ é uma denominação fantasiosa. Chamamos f de teorema equivocamente, apenas devido ao fato de que antes de sua morte Fermat escreveu que tinha uma prova para ele, mas que não podia colocá-la no papel, já que a margem de seu caderno era muito estreita para cabê-la. (Hoje sabemos, aliás, que Fermat não deve ter escrito isso a sério, visto que a matemática da época não lhe provia de meios para demonstrar a sua conjectura.) Seja como for, a verdade é que f não passava de uma conjectura da forma

     [Afirmo que] é plausível que f,

até que Wiles a demonstrou, só depois disso tornando-se realmente um teorema. Assim, antes de 1995 todo o sentido ou conteúdo cognitivo que podia ser dado a f era na verdade “[Afirmo que] é plausível que f”, uma conjectura que era demonstrada pelo fato de que nunca foram encontrados os números x, y e z capazes de satisfazer a equação. Já o sentido ou conteúdo cognitivo de f, melhor dizendo, “Afirmo que f” ou “├ f” (que muito poucos realmente conhecem) deve incluir a demostração encontrada por Wiles, que nada mais é do que a aplicação de uma extraordinariamente complexa combinação verificacional de regras. (Naturalmente, não podemos cair no erro de confundir o significado gramatical de f com o seu sentido cognitivo. Qualquer identidade absurda, mesmo “Cesar é um número primo”, tem um sentido gramatical.)
     Há muito mais a ser considerado sobre essas questões. Espero, contudo, que essas poucas observações sejam suficientes para convencê-lo de que o princípio da verificabilidade fica mais próximo de ser reabilitado se for proximado através de uma metodologia que não viole a tecitura sutil da linguagem natural.



REFERÊNCIAS:
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Costa, C. F.: “A verdadeira teoria da verdade”, in Paisagens conceituais (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2012).
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Wittgenstein, L.: Tractatus Logico-Philosophicus (Frankfurt: Suhrkamp 1983).
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Wittgenstein, L.: Wittgenstein’s Lectures: Cambridge 1932-35, ed. Alice Ambrose (New York: Prometeus Books 2001).
Wittgenstein, L.: Ueber Gewissheit (Frankfurt: Suhrkamp 1983).









[1] Como nota Hans-Johann Glock em seu Wittgenstein-Lexikon: “o princípio foi primeiramente defendido pelo círculo de Viena, mas seus membros o atribuem a Wittgenstein, que o expôs a Waismann em conversações”, p. 354.
[2] M. Schlick: Gesammelte Aufsaetze, p. 340
[3] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 245.
[4] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 244.
[5] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und er Wienner Kreis, p. 47.
[6] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis p. 244.
[7] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, pp. 226, 227.
[8] Wittgenstein’s Lectures, Cambridge 1932-5, p. 29.
[9] Entendo uma proposição analítica como sendo aquela cuja verdade decorre da combinação dos sentidos de suas expressões constitutivas. Quine (em “Two Dogmas of Empiricism”) rejeitou o conceito de analiticidade por este se basear no conceito demasiado vago de significado. Contudo, a vaguidade em si mesma não é um defeito, a menos que seja confundida com imprecisão. Vago ou não, o conceito de analiticidade cumpre aqui com a sua função de produzir uma definição perfeitamente inteligível e em si mesma irretocável (R. G. Swinburne: “Analyticity, Necessity and Apriority”, p. 228; ver também H. P. Grice e P. F. Strawson em “In Defense of a Dogma”).
     Também parece falaciosa a rejeição de Quine à sua própria tentativa de definir analiticidade através de sinonimidade e necessidade, em razão da excessiva proximidade semântica entre os vários conceitos envolvidos (significado, sinonimidade, necessidade...), o que produz, segundo ele, uma quase-circularidade na definição. Afinal, em nossas definições é natural e mesmo indispensável que os conceitos usados pertençam a um mesmo campo semântico. Cadeira, por exemplo, se define como ‘banco com encosto para uma pessoa’, mas tanto o conceito de cadeira, como o de banco e o de encosto pertencem ao domínio da carpintaria e nem por isso essa definição é quase-circular.
[10] Essa posição foi aceita ou defendida por Rudolf Carnap, Hans Reichembach e A. J. Ayer (ver C. J. Misak: Verificationism, pp. 79-80).
[11]  John Locke: An Essay Concerning Human Understanding, livro IV, cap. II, § 7.
[12]  Ver, por exemplo, Laurence Bonjour: In Defense of Pure Reason, p. 100 ss.
[13] W. V-O. Quine: “Two Dogmas of the Empiricism”, p. 41.
[14]  Merrilee Salmon: Introduction to Logic and Critical Thinking, p. 276.
[15] Ver C. G. Hempel: “Problems and Changes in the Empiricist Criterion of Meaning”, Revenue Internationale de Philosophie 11, 1950, 41-63.
[16] W. G. Lycan: Philosophy of Language: A Contemporary Introduction, pp. 121-122.
[17] Ver Wittgenstein: Über Gewissheit, sec. 10. 

sábado, 8 de setembro de 2012

# NOMES PRÓPRIOS PROPRIAMENTE EXPLICADOS (texto introdutório)

Texto publicado na revista Investigação Filosofica, 4, 1, 2013 com o título de 'Como nomes próprios realmente referem?'






NOMES PRÓPRIOS PROPRIAMENTE EXPLICADOS

Claudio Ferreira Costa [1]




Resumo:
Nesse artigo é sugerido o esboço de uma versão aprimorada da tradicional teoria descritivista dos nomes próprios. Essa versão é capaz de explicar o conteúdo informativo dos nomes próprios e o seu constraste, como designadores rígidos, com as descrições definidas, além de responder de forma mais adequada aos contra-exemplos usualmente apresentados contra o descritivismo.
Abstract:
This paper contains an outline of a more developed descriptivist theory of proper names. This version is able to explain the informative content of proper names and why they are rigid designators by contrast with definite descriptions. Moreover, it is able to answer in a more convincing way the counterexamples usually presented agaist descriptivism.
Palavras-chave: descritivismo, nomes próprios, referência.
Key words: descritivism, proper names, reference.



Qual é o mecanismo pelo qual nomes próprios como Aristóteles, Paris, Vênus etc. são capazes de designar seus portadores? Segundo a tradicional teoria do agregado de descrições, que foi sugerida nos escritos de Frege, Russell e Wittgenstein, e que se encontra mais claramente exposta por John Searle, o que alguém tem em mente com um nome próprio de maneira a ser capaz de usá-lo referencialmente é exprimível por um subconjunto indefinido de um conjunto aberto de descrições co-referenciais (minimamente, um subconjunto contendo uma única descrição).[1] Assim, um nome próprio como ‘Aristóteles’ pode vir no lugar de descrições definidas (que geralmente começam com um artigo definido) como ‘o estagirita’, ‘o autor da Ética a Nicômano’, ‘o autor da Metafísica’, ‘o discípulo de Platão’, ‘o fundador do Liceu’, ‘o tutor de Alexandre’.
     Para Saul Kripke, um problema com as teorias descritivistas é que, embora um nome próprio se aplique necessariamente ao seu portador em qualquer circunstância na qual ele exista, ele pode ser aplicado ao seu portador sem que nenhuma das descrições definidas usualmente associadas a ele necessariamente se aplique.[2] Assim, podemos imaginar um mundo possível no qual Aristóteles existiu, mas morreu ainda criança, não tendo sido discípulo de Platão e nem escrito nenhuma das obras a ele atribuídas. E também podemos imaginar um mundo possível no qual Aristóteles existiu, mas não nasceu em Estagira e sim em Roma, duzentos anos mais tarde. Fica assim claro que nenhuma das descrições que associamos ao nome próprio se aplica necessariamente. Além do mais, Kripke notou que uma pessoa pode usar um nome próprio referencialmente, mesmo tendo em mente uma única descrição, que pode ser indefinida ou mesmo incorreta. Assim, uma pessoa pode se referir a Feynman, dele sabendo apenas que foi um cientista norte-americano, e alguém pode perfeitamente se referir a Einstein pensando incorretamente que ele foi o inventor da bomba atômica. Considere, ainda, o caso de nomes de personagens semificcionais, como Robin Hood. Sabemos que deve ter existido alguém que esteve na origem desse personagem, mas nada sabemos sobre ele, nem mesmo se foi um fora da lei ou se realmente se chamava Robin Hood! Em todos esses casos a descrição não adquire nenhum papel relevante.
     A solução encontrada por Kripke, Keith Donnellan, Michael Devitt e outros, foi causal. Esses filósofos concluíram que aquilo que suporta a referência de um nome próprio é uma cadeia causal-histórica externa, que para Kripke começa com a primeira denominação do objeto através do nome, o seu “batismo”. Se eu profiro o nome ‘Aristóteles’ e esse for o último elo de uma imensamente complexa cadeia causal-histórica que começou com o batismo de Aristóteles em 384 a.C. em Estagira, isso é suficiente para eu me referir a Aristóteles. Descrições podem acompanhar o meu uso do nome ‘Aristóteles’, mas sua função será meramente auxiliar. Embora essa hipótese possa parecer fantástica, há muito ela se tornou a nova ortodoxia.

Dois tipos fundamentais de descrições
A resposta que gostaria de sugerir aqui consiste na defesa de uma forma mais sofisticada de descritivismo. Ela se resume na descoberta de uma meta-regra cuja função é a de selecionar elementos do agregado de descrições, provendo-lhe de uma estrutura valorativa adequada. É só acrescido dessa meta-regra, exprimível na forma de uma meta-descrição,  que o descritivismo ganha o poder explicativo que merece, tornando a hipótese causal-histórica dispensável como meio de explicar a referência.
     Para chegarmos onde queremos precisamos primeiramente excluir as descrições fundamentais das descrições auxiliares várias, que merecem ser descartadas. Considere, por exemplo, descrições inteiramente contingentes como ‘o tutor de Alexandre’, ‘o fundador do Liceu’, ‘o pai de Nicômano’, ‘o neto de Achaeon’ ou mesmo ‘o amante de Herphylis’. Afinal, Aristóteles continuaria sendo ele mesmo, ainda que não tivesse sido nada disso. Além disso, há muitas descrições definidas típicas, como ‘o estagirita’ e ‘o mestre dos que sabem’, que tem função tipicamente expressiva ou metafórica, fazendo muito pouco para caucionar a identificação do objeto referido. Finalmente, existem descrições que são adventícias e temporárias, como a usada pelo aluno que só sabe dizer de Aristóteles que ele é ‘o filósofo mencionado pelo professor’. Chamo a todas essas descrições de auxiliares porque, apesar de ajudarem na identificação do portador do nome e apesar de constituírem parte secundária de seu conteúdo informativo, elas são, como veremos, ultimadamente prescindíveis.
     Minha sugestão é a de que as descrições fundamentais para a referência do nome próprio são de um outro tipo e que as formas tradicionais da teoria do agregado são enganosas, em parte por seus proponentes terem sido desviados do que é relevante por terem recorrido a exemplos de descrições auxiliares, como ‘o tutor de Alexandre e o fundador do Liceu’ para Aristóteles (Frege) e ‘a criança retirada do Nilo pela filha do faraó’ para Moisés (Wittgenstein).
     Minha proposta é a de que as descrições realmente fundamentais são expressões lingüísticas de duas espécies de regras identificadoras do objeto, que são:

A. REGRA LOCALIZADORA: que estabelece a localização e carreira espacio-temporal do portador do nome próprio,
B. REGRA CARACTERIZADORA: que estabelece uma caracteriza-ção daquilo que consideramos como mais relevante no portador do nome próprio, de modo a justificar nossa aplicação do mesmo.

     Assim, para um nome próprio como ‘Aristóteles’ a descrição ‘a pessoa nascida em Estagira em 384 a.C., que viveu grande parte da sua vida em Atenas e que faleceu em Chalcis em 322 a.C.’ exprime resumidamente nossa regra localizadora de Aristóteles no espaço e no tempo. Já a descrição que permite caracterizar Aristóteles por aquilo que nele consideramos importante a ponto de justificar nossa identificação através do nome próprio pode ser resumida como ‘o autor do conteúdo relevante do opus aristotélico’.
    Mas o que justifica nossa aposta nas regras localizadora e caracterizadora como sendo as regras fundamentais? Minha resposta consiste simplesmente em apelar para as intuições de nossa linguagem natural. Em atenção a isso J. L. Austin, o filósofo da linguagem ordinária, aconselhava-nos o uso dos melhores dicionários como um método para encontrarmos distinções semânticas que pudessem importar filosoficamente. Como nomes próprios raramente são dicionarizados, falta-nos esse recurso. Mas como eles são muitas vezes enciclopedizados, essa falta é sobejamente compensada quando procuramos as condições de referência dos nomes próprios oferecidas em enciclopédias. Com efeito, as enciclopédias geralmente explicam o que os nomes próprios querem dizer a partir de descrições fundamentais e não das descrições auxiliares. Eis o que encontro sobre o nome ‘Aristóteles’ em meu Penguin Dictionary of Philosophy, que escolho por ser o mais conciso:

(384 - 322 a.C.) Nascido em Estagira no norte da Grécia. Aristóteles produziu o mais completo e poderoso sistema filosófico da antiguidade. (Segue-se uma breve exposição da vida de Aristóteles, seguida de um resumo das principais obras...)

     Essa descrição concentra-se nos critérios identificadores dos tipos A e B. Se consultarmos a elucidação lexical de outros nomes próprios, não só de pessoas, mas também de coisas, como ‘Taj Mahal’, ‘Paris’, ‘China’ e ‘Rio Amazonas’, encontraremos resultados semelhantes.
     Para tornar mais claro o caráter fundamental das descrições localizadora e caracterizadora, tente imaginar um nome próprio usual com relação ao qual as descrições auxiliares se aplicam, mas sem que suas descrições fundamentais tenham aplicação alguma. Imagine, por exemplo, um Aristóteles que nunca teve nada a ver com a filosofia ou com a ciência, que não nasceu na Grécia antiga e que teve uma localização, carreira e origem espacio-temporal completamente diversa daquela tida pelo Aristóteles filósofo. Imagine, glosando um exemplo de John Searle, que a pessoa chamada pelo nome ‘Aristóteles’ tenha sido apenas um vendedor de peixes veneziano iletrado que viveu na Renascença tardia e que nunca teve nada a ver com a filosofia. Certamente não o reconheceremos como sendo o nosso Aristóteles, mas alguma outra pessoa com o mesmo nome! [3]
     Um ponto complementar é que na absoluta ausência de aplicação das descrições fundamentais as descrições auxiliares deixam de ser úteis, pois elas só auxiliam por força de sua associação com as descrições fundamentais. Para demonstrar isso tente imaginar que as descrições auxiliares que geralmente associamos a Aristóteles se apliquem ao nosso vendedor de peixes: descobrimos que ele ensinou alguém chamado Alexandre, que ele fundou um Liceu e foi chamado de ‘o mestre dos que sabem’. Nenhuma dessas estranhas coincidências seria capaz de nos fazer admitir que o vendedor de peixes seja realmente aquele que entendemos pelo nome ‘Aristóteles’. Afinal, o Alexandre que ele ensinou não pode ter sido o maior conquistador de todos os tempos, não é possível que o vendedor de peixes iletrado tenha verdadeiramente fundado o Liceu aristotélico, nem que o apelido ‘o mestre dos que sabem’ seja o mesmo que foi usado por Dante na Divina Comédia. Pode ser que se descubra então que esse Aristóteles vendedor de peixes era um fanfarrão que se acreditava sábio, que os nomes em questão eram apelidos, que o Alexandre em que ele ensinou foi um pescador, que o Liceu que os amigos deram à sua tenda e que a descrição ‘o mestre dos que sabem’ tenha sido ironicamente usada por eles... Mesmo que todas as descrições auxiliares fossem verdadeiras, sem as descrições fundamentais elas não seriam capazes de produzir mais do que uma senação de estranha coincidência e persiflagem do real. A conclusão será sempre a mesma: descrições auxiliares só serão capazes de contribuir para a referência se forem articuladas dentro de um contexto definido pelas próprias descrições fundamentais que complementam, tornando-se inúteis na ausência disso.

A regra de identificação do nome próprio
Uma vez que encontramos as descrições fundamentais, a questão seguinte é saber como elas são exigidas para a aplicação de um nome próprio qualquer.
     Uma primeira consideração a ser feita é que para a identificação do portador do nome próprio a satisfação de “A & B”, ou seja, da conjunção das condições, é desnecessária. Há razões conclusivas para se pensar assim. A primeira é que há nomes próprios que constitutivamente possuem apenas uma regra caracterizadora. Considere o nome ‘Universo’. A descrição caracterizadora é ‘tudo o que existe’. Mas pelo próprio fato de ser tudo o que existe (existiu e existirá) o universo não se encontra nem no espaço nem no tempo. Há também nomes próprios que só possuem regra localizadora. Digamos que o centro de um dado círculo seja casualmente denominado ‘Z’. Aqui a localização é o que importa, pois não há razão para a sua consideração.
     Outra razão para se pensar que a conjunção “A & B” é desnecessária vem da consideração de situações contrafactuais. Imagine, pois, um mundo possível m1, muito próximo ao nosso, no qual Aristóteles nasceu em Estagira em 384 a.C., filho de Nicômano, o médico da corte de Felipe, mas que ele morreu de febre aos dezessete anos, em sua viagem para Atenas, não chegando a escrever o opus aristotélico. Nesse caso admitiremos talvez que nosso Aristóteles “em potência” existiu em m1. Nesse caso apenas a regra localizadora é aplicada e o nome próprio ‘Aristóteles’ encontra a sua designação. Além disso, podemos conceber um mundo possível m2, também muito próximo ao nosso, no qual Aristóteles viveu em Roma mais de duzentos anos mais tarde, tendo lá escrito o seu opus. Nesse caso tenderemos a dizer que m2 também teve o seu Aristóteles, embora ele tenha existido em lugar e época diversos. Podemos até mesmo imaginar que os indivíduos aqui imaginados não se chamavam Aristóteles, pois descrições do tipo ‘a pessoa de nome N’ também são auxiliares (se em um mundo possível o autor do opus aristotélico se chamasse Pitacus, reconheceríamos Pitacus como sendo o nosso Aristóteles).
     Do fato de que as condições A e B não são isoladamente necessárias podemos concluir que nem a descrição localizadora nem a descrição caracterizadora são essenciais, se por essencial se entende algo que é necessário. Podemos, no entanto, conceber que a satisfação de uma disjunção “A ou B” das regras-descrições fundamentais seja uma condição minimamente capaz de dotar os nomes próprios de referência. Mesmo que isso seja possível, parece que realmente não podemos imaginar que um nome próprio se aplique em um mundo possível em que “~A & ~B” seja o caso, ou seja, em que nenhuma das regras-descrições fundamentais se aplique. Esse é o caso do exemplo já considerado de Searle, em que ele imagina um especialista em Aristóteles que veio nos dizer que descobriu que Aristóteles não foi nem grego nem filósofo, mas um obscuro vendedor de peixes veneziano que viveu na renascença tardia. Essa proposta seria escandalosa se não fosse ridícula, pois é claro que esse vendedor de peixes não pode ser nosso Aristóteles. O mesmo aconteceria se alguém nos dissesse que Aristóteles foi, na verdade, um armador grego que viveu no século XX, foi amante de Maria Callas e se casou com Jackeline. Afinal, Aristóteles Onassis não satisfaz nem a descrição localizadora nem a descrição caracterizadora para o estagirita.
     Nesse ponto pode ser objetado que as condições A e B não precisam em si mesmas ser inteiramente satisfeitas. Um nome próprio pode se aplicar ao seu portador mesmo quando as descrições fundamentais se aplicam apenas parcialmente ou quando uma só se aplica e mesmo assim se aplica apenas parcialmente! Afinal, no mundo m1, no qual Aristóteles nasceu em Estagira em 384 a.C., mas morreu aos dezessete anos, não só a condição caracterizadora não está sendo satisfeita, mas a condição localizadora está sendo apenas parcialmente satisfeita, já que ele não teve a carreira espacio-temporal esperada: ele não viveu em Atenas, não viajou para Lesbos nem morreu em Chalcis em 322 a.C. Igualmente, no mundo possível m2, em que Aristóteles viveu em Roma mais de duzentos anos depois, podemos conceber que ele tenha escrito apenas a Ética a Nicômano, a Metafísica e alguns outros trabalhos menores. Se não houver nenhum Aristóteles grego para competir com ele, nós tenderemos a admitir Aristóteles existiu realmente em m2, mesmo que grande parte da condição B não esteja sendo satisfeita e nada da condição A tenha sido satisfeito.
     É fácil, porém, responder a essa objeção. Basta exigir satisfação suficiente e não mais completa do termo ou dos termos da disjunção.
     Finalmente, é necessário considerar o caso do mundo possível no qual existem dois ou mais objetos que satisfazem as condições fundamentais. Nesse caso o verdadeiro objeto de referência do nome próprio será aquele que a tiver satisfeito as descrições fundamentais de modo mais completo. Se no mundo m3 além do Aristóteles de Estagira tivesse existido um filósofo romano com o nome de Aristóteles que tivesse escrito o opus aristotélico durante a Idade Média, nós veríamos nisso uma coincidência milagrosa. Mas preferimos considerar o Aristóteles de Estagira como sendo o nosso Aristóteles, uma vez que ele satisfaz a condição de localização além da condição de caracterização.
     Juntando as condições fundamentais e as condições adicionais recém-consideradas estamos em condições de estabelecer a forma de qualquer regra de identificação de nome próprio. Eis é estabelecida pelo que chamo de uma regra meta-descritiva, uma regra de regras, posto que as descrições dos agregados também são regras. Essa regra meta-descritiva, uma meta-descrição, é aquela que organiza os agregados de regras-descrições de qualquer nome próprio eventualmente dado. Eis como ela pode ser apresentada:

RMD: Um nome próprio N se aplica a objetos da classe C see a condição A para N e/ou a condição B para N for(em) suficientemente satisfeita(s), sem que haja nenhum outro objeto da classe C que chegue a satisfazê-la(s) na mesma medida.

     Substituindo as variáveis pelos dados e descrições localizadora e caracterizadora de qualquer nome próprio que venhamos a escolher, nós estabelecemos o que pode ser chamado de a regra de identificação (RI) para esse nome. Uma regra que estabelece as condições necessárias e suficientes para a sua aplicação.
     Assim, se RMD for aplicada ao nome ‘Aristóteles’ teremos a seguinte regra de identificação para esse nome próprio:

RI-‘Aristóteles’: O nome próprio ‘Aristóteles’ se aplica a seres humanos em um mundo possível qualquer see nesse mundo existiu um ser humano que nasceu em Estagira em 384 a.C., viveu grande parte de sua vida em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C. e/ou ele foi o autor das grandes idéias contidas no opus aristotélico, satisfazendo essa condição (ou essas condições) suficientemente e mais do que qualquer outro ser humano.
                                
     É interessante notar que é possível parafrasear essa regra usando os artifícios da teoria russelliana das descrições. Para tal precisamos primeiro transformar as descrições fundamentais em predicados. Assim, se o predicado ‘…ser humano que nasceu em Estagira em 384 a.C., viveu a maior parte de sua vida ativa em Atenas e morreu em Chalcis em 322 d.C.’ for simbolizado por A, o predicado ‘...autor das grandes ideias do opus aristotélico for simbolizado por B, se o predicado ‘…gostava de cachorros’ for simbolizado por C, nós podemos (de modo simplificado) formalizar a sentença “Aristóteles gostava de cachorros” como:

Ǝx ((Ax ᴗ Bx) & (y) ((Ay ᴗ By) → y = x) & Cx).

     Aqui o requisito de existência é o da disjunção das condições fundamentadoras suficientemente satisfeitas, enquanto o requisito de unicidade substitui o requisito de maior satisfação de x. Essa paráfrase sublinha os aspectos formais.
     A regra de identificação do nome próprio recém-exposta é intuitiva. Se a aplicarmos ao caso do filósofo árabe medieval que em um mundo possível muito próximo ao nosso escreveu o opus aristotélico, veremos que ele satisfaz unicamente e suficientemente a condição B, mas não a condição A, o que já basta para que ele satisfaça a regra de identificação para Aristóteles. Contudo, se nesse mundo possível também houvesse outro Aristóteles nascido em Estagira em 383 a.C., filho do médico Nicômano, mas falecido jovem, antes de se tornar filósofo, ou se alguma outra pessoa tivesse escrito o conteúdo da Ética a Nicômano na Grécia antiga, teríamos razões para repensar nossa decisão de nele identificar o pensador árabe medieval como sendo Aristóteles, pois outra pessoa estaria satisfazendo suficientemente a disjunção de condições e talvez até mais do que o filósofo medieval. Se a medida da satisfação dos objetos concorrentes for aproximadamente a mesma pode não haver como decidir, o que significa não teremos como aplicar a regra, devendo concluir que Aristóteles não existe, posto que na lógica dos conflitos criteriais 1 + 1 = 0.
     Esse caso recorda o paradoxo do navio de Teseu relatado nos manuais de filosofia. Digamos que esse navio seja batizado conm o nome de ‘Calibdus’. No curso dos anos Teseu repôs pouco a pouco as partes do seu navio até que, no final, todas elas foram substituídas. Contudo, alguém decidiu então recondicionar as partes antigas e com elas construir outro navio igual ao primeiro. Digamos que então alguém pergunte: “Qual dos dois navios é Calibdus?” O paradoxal aqui é que não sabemos bem o que responder. A primeira vista pode parecer que ambos são o navio de Teseu. Mas isso seria contraditório, pois um termo singular não pode se referir a mais de um objeto. Minha proposta é a de que a questão de saber qual dos navios é Calibdus é indecidível devido a um conflito criterial que se dá entre as duas regras-descrições fundamentais para esse nome. O primeiro navio satisfaz uma regra localizadora, que nos diz que o navio de Teseu é aquele que foi construído em um lugar e tempo específicos, tendo então seguido uma certa carreira espaço-temporal. A segunda regra, satisfeita pelo segundo navio, é caracterizadora. Ela nos diz que o navio de Teseu é aquele que foi construído com certo material. Não temos, por isso, como decidir.
     Nesse ponto alguém poderá, com razão, objetar que a regra caracterizadora é mais complexa. Ela inclui características funcionais e estruturais que foram preservadas em ambos os navios. Como consequência, parece que o primeiro navio deve ser o Calibdus, pois ele satisfaz mais completamente as regras-descrições fundamentais. Contudo, podemos equilibrar essa diferença aumentando a rapidez da substituição das partes velhas pelas novas, de modo a encurtar a carreira espaço-temporal do objeto até que a substituição das peças se complete. Se toda a seqüência de substituições de partes tivesse lugar em apenas três meses, teríamos dúvidas. E se ela tivesse lugar em uma semana ou em um dia? Nesses casos com certeza consideraríamos o segundo navio como sendo o de Teseu e não mais o primeiro, dizendo que ele foi primeiro desmontado e depois remontado em outro lugar.
     Há nisso tudo um elemento de vaguidade capaz de incomodar alguns. Contudo, a vaguidade, a indeterminação semântica, é um pouco como a indeterminação na física quântica: ela é irredutível. Ela é um elemento geralmente irredutível da linguagem, posto que simplesmente constitutivo de nossa relação com aquilo que pretendemos identificar como a referência de nossos conceitos.  Ela em nada atrapalha o funcionamento da linguagem, a menos que se transforme em imprecisão. Se quisermos ter uma teoria dos nomes próprios precisaremos abandonar o “preconceito da pureza cristalina” (Wittgenstein) e acostumar-nos com isso.

Problemas insolúveis da teoria causal-histórica
Podemos ainda nos perguntar se o metadescritivismo não deveria incorporar alguma coisa da concepção causal-histórica, transformando-se em um metadescritivismo causal.[4] Meu ponto de vista é o de que isso é desnecessário. Que geralmente existe uma cadeia causal é um fato que mesmo descritivistas como P. F. Strawson há muito reconheceram. A novidade da concepção causal-histórica é a de que ela ambiciona primariamente explicar a referência dos nomes próprios através dessa cadeia causal. O que eu contesto é precisamente essa ambição, sugerindo que o poder explicativo do recurso à cadeia causal externa, se ela existir, não será primário, mas derivado da explicação que recorre a descrições expressando regras cognitivas ou pré-cognitivas através das quais o objeto de referência é identificado. Além disso, parece claro que nomes próprios podem ter significado sem que o elemento causal-histórico exista, como o demonstram os muitos exemplos de nomes próprios vazios, como, digamos, ‘Eldorado’. Esse é um nome próprio ordinário. Os espanhóis ouviram dos índios detalhes sobre uma cidade riquíssima, situada em algum lugar ao leste da cordilheira dos Andes, embora nunca a tenham encontrado. Também acontece de nomes próprios possuirem referência sem que tenha sido formada qualquer cadeia causal. Um caso é o de nomes que foram criados antes do aparecimento de seus portadores. ‘Brasilia’, por exemplo, é o nome de uma cidade planejada e nomeada antes de ter sido construída, o que torna impossível que o objeto seja a causa determinante das aplicações iniciais desse nome. Outro caso é o de nomes próprios proferidos sem que haja cadeia causal alguma, mas que foram inferidos. Sabemos, por exemplo, que o referente do nome ‘Ramsés VIII’ deve ter existido por volta do século oitavo a. C., pois embora não saibamos nada sobre esse faraó, sabemos algo sobre Ramsés VII e Ramsés IX. Certamente, quando pronuncio o nome ‘Ramsés VIII’ meu proferimento não está no final de uma cadeia causal-histórica...
     Um teste para saber se a incorporação de alguma cadeia causal é necessária à explicação da função referencial dos nomes próprios consiste em considerar se há exemplos de proferimentos em que o falante não é bem sucedido em estabelecer qualquer vinculação causal entre o nome próprio que usa e a sua referência, embora esse nome próprio seja em geral causalmente vinculado a sua referência. Se por causa disso a referência desaparece é sinal de que ela depende necessáriamente da associação causal. Imagine, pois, que um psicótico em um sanatório afirme repetidamente que os extraterrenos irão pousar na cidade de Saratoga, na California. Ele associa ao nome ‘Saratoga’ ao menos a descrição ‘uma cidade na Califórnia’. De fato, existe uma pequena cidade na Califórnia com esse nome. Mas suponhamos que o nome Saratoga tenha sido invocado em sua mente por ter causalmente ouvido por ele em um documentário sobre a batalha de Saratoga na guerra da independência americana, uma batalha que obviamente se deu na costa leste dos EUA. Como ele também ouviu a palavra ‘Califórnia’, ele entendeu que Saratoga é uma cidade situada na Califórnia... Não há, portanto, nenhuma cadeia causal (ao menos em meu exemplo) relacionando a cidade de Saratoga com o nome ‘Saratoga’ pronunciado pela pessoa. A questão é: a pessoa logrou referir-se ao portador do nome? Embora a linguagem natural não nos forneça uma intuição positiva forte para casos inusitados como esse, a resposta é que podemos dizer que sim, já que não somos forçados a dizer que não. Podemos dizer que a pessoa foi bem sucedida em se referir à cidade de Saratoga, embora essa referência tenha sido meramente coincidental. Não há, portanto, nenhuma intuição lingüística que nos obrigue a introduzir um elemento causal no descritivismo, mesmo sendo matéria de fato que as referências sejam em geral causalmente implicadas.

O significado dos nomes próprios
Essa solução permite responder ao problema do significado dos nomes próprios, entendendo a palavra ‘significado’ no sentido fregeano de ‘sentido’ (Sinn) ou ‘conteúdo informativo’ (informatives Gehalt) ou ainda (em frases) ‘valor epistêmico’ (Erkenntniswert). Em que ele consiste? Certamente, não na forma da regra meta-descritiva (RMD), que é a mesma para cada nome próprio; também não nas descrições auxiliares, embora se possa dizer delas que formam franjas de significação. O significado de um nome próprio deve consistir centralmente naquilo que lhe distingue dos outros nomes próprios, a dizer, de suas regras-descrições localizadora e caracterizadora. Quem realmente sabe o significado do nome próprio é quem, em maior ou menor medida, domina essas regras, sendo essa pessoa o que chamo de usuário privilegiado do nome. Outras pessoas, como aquele que sabe apenas que Aristóteles foi um pensador grego (descrição indefinida) ou que acredita que ele foi o descobridor da lei da alavanca (descrição errônea, mas convergente) podem ser capazes de inserir o nome ‘Aristóteles’ corretamente no discurso, sabendo mesmo algo de seu sentido, mas não sabem de maneira suficiente o que ele significa, que deveria ser suficiente para a identificação do seu portador, devendo assumir que usuários privilegiados existem e que estes seriam capazes de completar ou corrigir o pouco que eles sabem.
     Essa constatação nos permite admitir que o conhecimento do significado de um nome próprio não precisa ser propriedade de cada um dos usuários. Ele pode ser propriedade apenas dos usuários privilegiados. Além disso, eles não precisam individualmente conhecer todo o significado do nome, sendo possível que cada um deles tenha acesso a uma parte diferente do significado. É possível até que parte do conteúdo informativo do nome próprio seja mesmo armazenada fora de mentes humanas, conquanto ela possa ser utilizada por elas, o que ainda assim demandará um elemento cognitivo-descritivo prévio. A condição a qual queremos chamar atenção é apenas a de que o significado conhecido do nome próprio – a sua regra de identificação – não precisa ser propriedade de cada usuário, sendo propriedade necessária da comunidade lingüística formada pelo conjunto de seus usuários, podendo ser atualizada ao menos na soma dos elementos desse conjunto.
    Minha sugestão, pois, é que pessoas que só conseguem associar ao nome descrições auxiliares ou genéricas ou mesmo insuficientemente corretas, só são capazes de se referir ao objeto de um modo dependente ou insuficiente, por se fiarem na existência de usuários privilegiados do nome. Para o nome Aristóteles esses usuários são especialistas, conhecedores da história da filosofia ou da cultura. Só eles, em conjunto ou isoladamente, são capazes de se referir a esse filósofo de modo independente ou suficiente, por associarem seu nome a descrições fundamentais. Há aqui um equivalente ao que Putnam chamou de divisão do trabalho lingüístico, só que essa divisão possui caráter potencialmente ou atualmente cognitivo, sendo inteiramente compatível com o descritivismo.
     Tendo isso em mente, em situações nas quais os usuários privilegiados do nome próprio desaparecessem e com eles os próprios meios de se obter o conhecimento das descrições fundamentadoras, o significado do nome próprio também se perderia. Imagine que após uma guerra atômica restasse apenas uma comunidade de nativos em algum lugar do mundo que fossem capazes de falar inglês, mas que quase nada soubessem da cultura norte-americana. Digamos que um deles encontre em uma folha de papel a única referência restante a Feynman no mundo inteiro, a frase “Richard Feynman foi um grande conhecedor de Tannu Tuva”. Claro que nós mesmos somos capazes de saber que ao pensar essa descrição ele se refere insuficientemente ao criador da eletrodinâmica quântica (basta digitarmos no Google ‘Richard Feynman’ e ‘Tannu Tuva’). Mas não é isso o que quero considerar. O que quero é apontar para o fato de que esses nativos, em sua sociedade, não serão capazes de fazer nada com a descrição encontrada, posto que as condições últimas de referência se tornaram para eles irrecuperáveis: a comunidade lingüística à qual eles pertencem não possui as regras-descrições fundamentais para a identificação do portador do nome Richard Feynman, não possuindo portanto, a regra de identificação para esse nome próprio. Como resultado, eles próprios não serão capazes de fazer coisa alguma com esse nome.
     Essas sugestões permitem-nos explicar porque alguém pode se referir a Feynman através de uma descrição indefinida e a Einstein através de uma descrição errônea. Minha sugestão é que essas pessoas são capazes de fazer uma referência incompleta, um gesto em direção à referência, e que isso muitas vezes é tudo o que precisamos. Mas para que tal aconteça é preciso ao menos duas coisas. Primeiro, é preciso que a descrição que a pessoa associa ao nome próprio seja convergente, entendendo por descrição convergente aquela capaz de identificar ao menos a classe C a que pertence o portador do nome. Se alguém crê que Feynman foi um grande cientista, essa descrição indefinida é convergente, pois já contém informação sobre Feynman (um homem, um cientista).  Se alguém crê que Einstein foi o inventor da bomba atômica, mesmo que essa descrição seja errônea, ela nem por isso deixa de ser convergente, pois ela já implica que Einstein foi um ser humano e que ele foi um cientista, o que é verdadeiro.  O mesmo não ocorreria se as descrições fossem divergentes, por exemplo, se alguém acredita que Feynman é o nome de uma marca de perfume ou que Einstein é o nome de uma pedra preciosa. Aqui os portadores dos nomes não pertencem à classe identificada.
     A segunda condição é a de que a pessoa possua conhecimento tácito do mecanismo de referência dos nomes próprios, da regra meta-descritiva. Com isso ela sabe ao menos que aquilo que sabe das descrições fundamentadoras exigidas é insuficiente. Com essas duas condições satisfeitas, com o pouco saber convergente que lhe está disponível, com a consciência que ela tem de sua própria falta de conhecimento, ela já será capaz de inserir o nome próprio adequadamente no discurso, em contextos que reconhece como sendo suficientemente vagos, como tantas vezes acontece. Eis é a razão pela qual alguém pode, em um certo sentido (insuficiente) da palavra, se referir a Feynman sabendo apenas que ele foi um grande cientista e a Einstein acreditando que ele foi o inventor da bomba atômica. Na verdade ele está inserindo o nome corretamente no discurso de modo a fazer uma referência incompleta, posto que em última análise dependente da comunidade lingüística, a qual possui recursos para completar a referência.

Porque nomes próprios são designadores rígidos
A solução sugerida também permite responder à objeção de que a teoria do agregado não dá conta da propriedade do nome próprio de ser um designador rígido, que é mais intuitivamente definida como sendo a de se aplicar a um mesmo objeto em qualquer mundo possível no qual esse objeto exista.[5] Para encontrarmos a resposta basta considerarmos atentamente as regras de identificação dos nomes próprios resultantes da aplicação de RMD. No caso do nome próprio ‘Aristóteles’ a regra estabelece uma identidade entre o nome e uma descrição complexa, que é a seguinte:

o ser humano que satisfaz suficientemente e mais do que qualquer outro as condições de ter nascido em Estagira em 384 a.C... e/ou de ter sido o autor das grandes ideias do opus aristotélico.

A identidade é analítica ou necessária, valendo para todos os mundos possíveis. A descrição aqui apresentada, que exprime a regra de identificação para Aristóteles, é por sua vez um designador rígido: ‘o ser humano que satisfaz suficientemente e mais do que... o autor das grandes ideias do opus aristotélico’ aplica-se em todos os mundos possíveis nos quais Aristóteles existe.
     Certamente, haverá mundos possíveis nos quais não saberemos se a regra de identificação para um nome próprio é minimamente satisfeita ou não (digamos que em um deles na corte de Felipe em Estagira em 384 a.C. tenha nascido um tal de Aristóteles, filho de um médico da corte, mas que ele tenha morrido logo após o nascimento... e que ninguém tenha escrito o opus aristotélico). Mas isso sugere apenas que a semântica dos mundos possíveis deve ser reescrita de modo a dar lugar a casos indecidíveis. Para dar conta disso o designador rígido precisa ser redefinido como aquele que se aplica a todos os mundos possíveis nos quais o objeto definidamente existe.
     Com isso fica fácil explicar porque nomes próprios são designadores rígidos do ponto de vista do descritivismo. É que as regras de identificação dos nomes próprios, quando expressas por descrições, originam descrições rígidas, também elas aplicáveis em todos os mundos possíveis nos quais esse objeto definidamente existe. A descrição definida acima exprime também um critério definitório de aplicação do nome próprio, ou seja, a condição necessária e suficiente para a sua aplicação. Dizer que Aristóteles definidamente existe em um mundo possível é o mesmo que dizer que a regra de identificação para esse nome próprio é aplicável nesse mundo, pois a sua aplicabilidade em um mundo possível define o que entendemos pela existência do seu objeto de referência nesse mundo.

Porque descrições definidas são designadores flácidos
A introdução de regras de identificação para nomes próprios como resultado da aplicação de RMD nos permite explicar não só porque nomes próprios são designadores rígidos, mas porque as descrições definidas que a eles associamos são em geral designadores flácidos, ou seja, designadores que se referem a objetos diferentes em diferentes mundos possíveis. Considere a descrição definida ‘o fundador do Liceu’. Podemos conceber um mundo possível no qual o nome ‘Aristóteles’ se aplica a Aristóteles, que nele existiu, mas no qual a descrição ‘o fundador do Liceu’ se aplica a outra pessoa, digamos, ao seu discípulo Teofrasto, que nesse mundo foi quem realmente fundou o Liceu. E também podemos conceber um mundo possível em que o nome ‘Aristóteles’ se aplica a Aristóteles, que nele existiu, mas no qual a descrição ‘o fundador do Liceu’ não se aplica, pois nesse mundo nenhum Liceu foi fundado. Por que é assim?
     A resposta encontra-se à mão. Sabemos que nenhuma das descrições do agregado, mesmo as descrições fundamentais, se encontra necessariamente vinculada à aplicação do nome próprio, caso o objeto a ser referido pelo nome próprio exista. O que necessariamente se encontra vinculado à aplicação do nome próprio, caso a sua referência exista, é apenas a regra de identificação do nome próprio, que como um todo estabelece o que chamo, seguindo Wittgenstein, de critério definitório para a sua aplicação. O critério definitório ou primário é aquele que, uma vez dado, garante a existência daquilo de que é critério. Ele se distingue do sintoma ou critério secundário, que uma vez dado apenas torna provável a existência daquilo de que é critério.[6] O contraste entre a descrição que esprime a regra de identificação do nome próprio e as descrições constitutivas do agregado por ele abreviado é uma distinção entre critério definitório e sintoma ou critério secundário. Sempre que a descrição da regra de identificação é satisfeita ela garante a aplicação do nome próprio, o que o torna um designador rígido, posto que aplicável em qualquer mundo possível no qual seu objeto a ser referido exista. Mas quanto a qualquer das descrições do agregado, mesmo as fundamentais, a sua satisfação apenas probabiliza a aplicação do nome próprio, o que as impede de serem aplicadas em todos os mundos possíveis nos quais o objeto referido pelo nome próprio existe. O resultado disso é que as descrições do agregado são flácidas, posto que podem se aplicar a outros objetos, que não o referente do nome próprio, em outros mundos possíveis, ou simplesmente a nenhum objeto mesmo em um mundo possível no qual o objeto referido pelo nome próprio exista e vice-versa.
As descrições do agregado não precisam se aplicar, não só em outros mubdos possíveis (em situações contra-factuais), mas mesmo ao nosso próprio mundo. Eis porque uma descrição definida como ‘o fundador do Liceu’ é um designador flácido.
     A evidência a favor dessa sugestão é que a oposição nome próprio rígido vs. descrição definida flácida se mantém apenas aonde as descrições vem associadas a nomes próprios. Isso nos permite prever que descrições definidas que não se encontram associadas a nomes próprios, especialmente quando são fundamentais, devem funcionar como designadores rígidos. Considere, por exemplo, a descrição ‘o terceiro regimento de cavalaria de Sintra’. Ela exprime as regras de localização e caracterização do regimento, que por sua vez não possui um nome próprio. Por ser assim ela se nos apresenta como uma descrição definida rígida, aplicando-se em qualquer mundo possível no qual esse regimento exista, mesmo que composto por diferentes cavaleiros e cavalos. Ela é rígida porque exprime uma regra de identificação que não está associada a nenhum nome próprio, não podendo por isso haver divergência entre o objeto de aplicação dessa regra e o objeto de aplicação de um nome próprio ao qual ela se vincule em algum mundo possível. Outros exemplos de descrições naturalmente rígidas são: ‘o assassinato do arquiduque Ferdinand em Sarajevo em 1914’, ‘o ponto mais oriental da América Latina’ e ‘a última idade do gelo’, que designam respectivamente um evento, um local e um processo.

Respostas a contra-exemplos
A teoria meta-descritivista dos nomes próprios recém-esboçada permite respostas mais convincentes aos contra-exemplos ao descritivismo. Responderei aqui a apenas alguns deles.
     Consideremos primeiro o caso inicialmente mencionado de nomes semificcionais, como Robin Hood. Kripke sugeriu que esses nomes demonstram a verdade da concepção causal-histórica, pois embora não tenhamos descrições definidas capazes de identificar seus portadores, sabemos que eles se referem a algum objeto que foi a fonte causal desses nomes.
     Nossa resposta começa com a constatação de que nomes semi-ficcionais abreviam dois tipos de descrições: as não-ficcionais, que servem para identificar o objeto que realmente originou causalmente o nome; as ficcionais, que foram adições imaginativas posteriores, nada tendo a ver com o objeto originador do nome. Embora alguma coisa das descrições não-ficcionais seja sabida (sabemos que Robin Hood teria sido um justiceiro que viveu na Inglaterra no período medieval) em geral não sabemos distinguir quais são as descrições ficcionais e quais são as não-ficcionais nem a extensão disso.
     Imagine agora que uma das muitas teorias concernentes a quem teria sido Robin Hood seja demostrada. Suponhamos que documentos sejam descobertos comprovando a teoria de L. V. D. Owen, de acordo com a qual o Robin Hood histórico foi um fora da lei chamado Hobbehod que viveu na primeira metade do século XI em Yorkshire. Nesse caso ao menos nossa descrição caracterizadora de Robin Hood como um fora da lei seria confirmada e complementada, enquanto nossa descrição localizadora de Robin Hood como tendo vivido no período medieval na Inglaterra teria sido confirmada e precisada. O nome próprio teria sua referência real comprovada com base em descrições e não no elemento causal, mesmo que este ocorra.
     Suponhamos, por outro lado, que alguém descubra que o nome Robin Hood tenha sido invocado na mente do primeiro escritor medieval a usar o nome, não por um ser humano, mas por seu bravo cão perdigueiro de nome Robin, que costumava acompanhá-lo em suas incursões na floresta de Sherwood... Nesse caso não diremos que o nome próprio Robin Hood se refere ao cão de caça do escritor, mas que ele não possui referência alguma, tratando-se na verdade de um nome completamente ficcional. Nossa teoria oferece uma explicação para o que acontece: nossa regra de identificação para Hobin Hood se aplica a uma classe C, que no caso é a classe dos seres humanos; além disso, o cão não satisfaz coisa alguma da regra de caracterização que temos para Robin Hood. Contudo, parece que pela teoria causal-histórica devemos reconhecer o nome Robin Hood como permanecendo semi-ficcional por se referir ao cão do escritor medieval. Afinal, há uma cadeia causal-histórica que começou com o cão batizado com o nome de Robin... Isso é, porém, uma conclusão absurda.
     Outro famoso contra-exemplo de Kripke é o de um falante que associa ao nome do matemático Kurt Gödel a descrição ‘o inventor da prova da incompletude’. Imagine, escreve ele, que se descubra que essa prova foi na verdade descoberta por Schmidt, que morreu em Viena em circunstâncias misteriosas e que seu amigo Gödel tenha roubado a prova e publicado em seu próprio nome. Nesse caso, se nomes fossem abreviações de descrições, pensa Kripke, uma vez informada disso a pessoa deveria admitir que Gödel é Schmidt, pois é a Schmidt que devemos agora associar a descrição. Mas isso é contra-intuitivo, pois a pessoa continuará certa de que Gödel é Gödel e não Schmidt, mesmo sabendo que ele foi um falsário e que não descobriu a prova da incompletude.[7]
     A resposta que a versão meta-descritivista da teoria do agregado dá ao exemplo em questão é, diversamente do esperado, perfeitamente intuitiva. O usuário privilegiado do nome ‘Gödel’ o reconhece por satisfazer a regra de localização (A) de ter nascido em Brünn em 1906, estudado em Viena, emigrado para os EUA e trabalhado em Princeton, onde faleceu em 1978, e por satisfazer a regra de caracterização (B) de ter sido um grande matemático que descobriu o teorema da incompletude além de ter feito muitas outras contribuições menores. Assim, mesmo que Gödel deixe de satisfazer parte (digamos 2/3) da regra de caracterização, ele continua satisfazendo integralmente a regra de localização, satisfazendo, pois, RI para ‘Gödel’ bem mais do que RI para ‘Schmidt’. Eis porque Gödel não pode ser Schmidt![8]
     Quanto à pessoa que associa ao nome ‘Gödel’ somente a descrição ‘o inventor da prova da incompletude’, como falante competente ela conhece a regra de identificação para nomes próprios e, por conhecê-la, ela sabe que a regra que essa descrição exprime é incompleta, recusando-se por isso a aceitar que Gödel é Schmidt enquanto não obtiver maiores informações.
    Uma curiosidade acerca do exemplo é que como ao menos parte de uma das duas descrições fundamentais identificadoras de Gödel é satisfeita por Schmidt, é possível dizer que este último passa a herdar alguma coisa do significado do nome ‘Gödel’, mesmo que não ganhe a sua referência. E isso realmente acontece. Digamos que um lógico, revoltado pela notícia acerca do roubo do teorema e com pena de Schmidt, lance a exclamação “Schmidt é quem foi o verdadeiro Gödel!” Essa é uma frase verdadeira se for entendida como uma hipérbole. E a razão pela qual ela é verdadeira é dada por nossa versão da teoria descritivista, a qual prevê que o nome Schmidt herda alguma coisa relevante do significado do nome ‘Gödel’.
     Há, por fim, uma maneira de fazer com que Gödel seja realmente Schmidt, muito embora ela dê a Kripke o bolo sem o direito de comê-lo. Imagine que bem no início da estória Schmidt, por alguma razão, tivesse assassinado o jovem Gödel e assumido a sua identidade. Schmidt, que era muito melhor lógico que Gödel, descobriu então incompletude da aritmética, casou-se com Adele, fugiu para os EUA pela Transiberiana EM 1940, tornou-se professor em Princeton e faleceu em 1978, de modo que aquele sujeito de calças curtas junto a Einstein na famosa foto de ambos era ele mesmo, o falsário Schmidt. Nesse caso não há dúvida de que Gödel é Schmidt. E o metadescritivismo explica: ele é Schmidt porque as regras-descrições caracterizadora e localizadora, com exceção das descrições relativas à infância, são as de Schmidt e não as da criança que uma vez foi chamada de Gödel, a qual há muito deixou de existir.
     Quero, por fim, analisar rapidamente um contra-exemplo proposto por Keith Donnellan.[9] Imagine, escreve ele, que se descubra que Tales não foi na verdade nenhum filósofo, mas um sábio cavador de poços cansado de sua profissão que uma vez dissera: “Quem me dera se tudo fosse água para eu não ter de cavar esses malditos poços”, tendo essa frase passado equivocamente a Herótodo, a Aristóteles e a outros como veículo da idéia atribuída ao filósofo Tales, segundo a qual a água é o princípio de tudo. Digamos também que a ideia de que tudo é água tenha sido sustentada por um eremita que viveu tão remotamente que nem ele nem suas doutrinas tenham qualquer conexão histórica conosco. Mesmo assim nós não diremos que Tales foi o eremita. A teoria causal-histórica possui uma maneira de explicar isso. Segundo ela é assim porque foi o cavador de poços Tales quem se encontrava no princípio da cadeia causal-histórica e não o eremita. Mas segundo a teoria descritivista o eremita é quem deveria ser Tales, pois é ele quem satisfaz a descrição – um resultado contraintuitivo.
     A resposta que a teoria metadescritivista por nós proposta irá dar parte da constatação de que em certos casos a descrição da história causal simplesmente faz parte da descrição caracterizadora. Esse é precisamente o caso de Tales, pois o que mais nos importa na formação da regra caracterizadora para Tales é o seu lugar e influência na origem da filosofia ocidental. A descrição caracterizadora de Tales não se poderia resumir à ridícula afirmação de que tudo é água per se, pois se um filósofo de uma época mais próxima à nossa escrevesse isso ele seria tomado como incompetente. A descrição caracterizadora de Tales só importa para nós por incluir a história causal. Podemos resumi-la como: ‘a pessoa que originou a doxografia encontrada em Herótodo, Aristóteles e outros, onde ela é descrita como o primeiro filósofo grego, a defender que a água é o princípio de todas as coisas, que tudo é vivo, que tudo é um etc.’ Quanto à regra localizadora, sabemos que foi “o milesiano que viveu provavelmente de 624 a 547-8 a.C...” Em vista disso, se retornarmos ao exemplo de Donnellan, concluiremos que o eremita não pode ter sido Tales. Primeiro porque não satisfaz a descrição localizadora. Depois porque ele não satisfaz a descrição caracterizadora, mesmo que satisfaça alguma coisa dela. Assim, mesmo que Tales tenha sido um cavador de poços milesiano que viveu de 624 a 547-8 a.C., ele satisfaz as regras fundamentadoras muito mais completamente do que o eremita. Afora isso é preciso notar que dependendo dos detalhes que forem adicionados ou subtraídos ao exemplo dado, as nossas intuições podem se alterar, levando-nos tanto à conclusão de que nenhum Tales realmente existiu quanto, eventualmente, à conclusão de que Tales na verdade foi o eremita.
     Acredito que para quem conseguir não se curvar ao argumento de autoridade, que secretamente rege a discussão acadêmica, para quem for capaz de pensar por si mesmo, na independência da imensa influência imposta pela nova ortodoxia causal-externalista já de há muito vigente, fica fácil concluir que a teoria dos nomes próprios aqui rapidamente esboçada contém uma promessa muito mais auspiciosa.


REFERÊNCIAS:
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Frege, G.: “Der Gedanke”, Beitrage zur philosophie des deutschen Idealismus I, 2, 1918, 58-77.
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Strawson, P. F.: Individuals: An Essay on Descriptive Metaphysics (London: Routledge 2003(1959)).
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Wittgenstein, L.: Philosophische Untersuchungen (Frankfurt: Suhrkamp 1983).

























[1] Essa é a formulação sinóptica da versão searleana apresentada por Susan Haack em Philosophy of Logics, p. 58. Ver especialmente o artigo de J. R. Searle: “Proper Names”.
[2] Ver Saul Kripke: Naming and Necessity cap. II. Para uma resposta importante, curiosamente passada em silêncio pelos defensores da concepção causal-histórica, ver J. R. Searle: Intentionality: an Essay in the Philosophy of Mind, cap. 9.
[3] J. R. Searle: “Proper Names and Descriptions”, p. 490.
[4] Em uma primeira versão das idéias aqui desenvolvidas tentei equivocamente incorporar um elemento causal ao metadescritivismo. Ver C. F. Costa: “A Meta-Descriptivist Theory of Proper Names”.
[5] O próprio Kripke oscila entre essa definição e a definição segundo a qual o designador rígido é o que se aplica em todos os mundos possíveis, inclusive naqueles nos quais o objeto não existe. Mas parece claro que no último caso a maioria dos nomes próprios deixaria de ser designadores rígidos, posto que nenhum nome próprio irá referir em um mundo possível no qual o seu objeto de aplicação não existe.
[6] Essa é uma maneira de se interpretar o que Wittgenstein escreve sobre a distinção entre critério e sintoma. Ver L. Wittgenstein, The Blue and the Brown Books, p. 24 ss.
[7] Saul Kripke: Naming and Necessity, pp. 83-84.
[8]  Por isso mesmo, porém, aproveitando-se do fato de que algo do significado descritivo do nome ‘Gödel’ passou a estar contido no nome ‘Schmidt’, um matemático ultrajado com a notícia e com pena de Schmidt poderá produzir uma hipérbole exclamando: “Schmidt sim é quem foi o verdadeiro Gödel!”.
[9] Keith S. Donnellan: “Proper Names and Identifying Descriptions”, pp. 373-375.