terça-feira, 24 de março de 2015

ALEXANDRO JODOROWSKY (artista)



JODOROWSKY


Para mim Alexandro Jodorowsky foi o melhor cineasta de todos os tempos. Gosto artístico é coisa pessoal, difícil de comparar. Bergman é extraordinário, mas muito de seus temas são um pouco gastos e convencionais. Claudio Assis é nosso melhor cineasta, pela sua união de realismo cru com compaixão. Mas Jodorowsky transcende. Ele tem sido uma espécie de gênio polivalente, com contribuições de interesse não só para o cinema, mas para a literatura, para a poesia, para a pintura, para os quadrinhos artísticos franceses, para a psicoterapia e para a filosofia da vida.
   Tudo é diferente nesse cineasta, a começar pela sua origem. A estória é parcialmente contada no filme “La Danza de la Realidad”. Seus pais eram judeus que fugiram da Ucrânia para escaparem à perseguição dos cossacos. Seu avô paterno era sapateiro. Eles embarcaram em um navio sem destino certo e acabaram por aportar em Tucupilla, uma cidade mineira pobre de uns 2.000 habitantes no litoral arenoso do norte do Chile, junto ao deserto de Atacama, onde não há árvores e onde só chove uma vez por ano. Seu avô, sem saber uma palavra de espanhol, perdeu parte da razão. Quem tomou a si a responsabilidade pela família foi o pai de Jodorowsky, um comerciante ríspido que era estalinista e que escondia em si uma infinita agressividade. Jodorowsky nota o contraste entre seu pai estalinista e seu avô, que mais se parecia com um Gandi.
    Jodorowsky nasceu em 1929. Desde cedo ele sofreu a experiência da rejeição. A rejeição das outras crianças, que eram de origem indígena e espanhola. Rejeição por ser judeu. Rejeição da família. Do pai, a quem não conseguia imitar e que via no garoto sensível um covarde, sem notar que o garoto possuía tudo o que ele reprimira em si mesmo. Rejeição da mãe, uma mulher humilhada, que se mantinha no casamento por questão de sobrevivência e que segundo consta engravidou de Jodorowsky por ter sido estuprada pelo marido após ter recebido dele uma surra por ter supostamente aceito o flerte de um cliente. Rejeição da irmã mais velha, que era a preferida e tinha ciúmes dele. Jodorowsky aprendeu a ler sozinho, aos cinco anos, devorando os livros de contos da pequena biblioteca de Tucupilla. Como ele diz, os livros o salvaram. Aprendeu a viver em sonhos, em um mundo paralelo.
   Quando tinha nove anos a família mudou-se para Santiago, mas Jodorowsky achou a cidade grande pior do que Tucupilla. Ele engordou feito um hipopótamo, chegando a pesar 100 kilos aos doze anos, era troçado pelos colegas e foi fisicamente agredido por ser judeu. Ele só encontrou um espaço pessoal ao entrar para a universidade, quanto se juntou aos poetas e boêmios de Santiago. Decidiu abandonar a universidade para se tornar marionetista, tentando dramatizar desse modo seus problemas familiares. Seu pai chorou ao saber da decisão. Ele trabalhou como palhaço em circos e depois no teatro, chegando a criar uma peça.
    Aos 24 anos decidiu abandonar o Chile com uma passagem só de ida para Paris. Ele escreve que jogou seu caderno de endereços ao mar para se libertar do passado. Chegou a Paris sem saber a língua. Começou com trabalho braçal, mas logo matriculou-se em uma escola de mímica, e após um ano foi acolhido pelo grande mímico Marcel Marceau, que reconheceu seu talento. Nos próximos anos ele acompanhou Marceau pelo mundo inventando peças mímicas, como a famosa “A jaula”. Nela uma pessoa tenta sair de um quartinho fechado. Ele consegue, mas só para descobrir que se encontra encerrada em um quarto maior, dessa vez para sempre. Depois, por algum tempo ele trabalhou para o cantor Maurice Chevalier.
    Mais tarde Jodorowsky foi para o México, onde dirigiu muitas peças de teatro, como “Fim de Jogo” de Beckett, inventando o seu próprio teatro pânico, que era um performance não programado ao vivo, com atores nus a simbolizar um orgasmo coletivo. O prefixo ‘pan’ significa simplesmente ‘tudo’. Junto a isso, por anos ele buscou um aprimoramento místico da consciência na sabedoria de mestres zen e dos xamãs mexicanos, o que lhe serviu de fundamento para uma terapia por ele inventada chamada de psicomágica. A ideia é a seguinte.  Os xamãs agem no inconsciente das pessoas por sugestão, invocando divindades ou seres de outro mundo, embora saibam que estão enganando. Mas em muitos casos – quando há um elemento psicossomático na doença ou quando a crença é capaz de influenciar – eles de fato curam. Curam pela sugestão.
   O homem moderno, com razão, não é mais capaz de crer nessas coisas. Mas, para Jodorowsky, o inconsciente crê. Como ele nota, o inconsciente interpreta a metáfora como se fosse realidade. Assim, se o psicoterapeuta lhe identificar um conflito emocional, ele poderá dar ao paciente uma incumbência pela qual ele poderá se libertar metaforicamente das causas de seus males e o inconsciente irá assimilar essa experiência.
 Por exemplo. Uma paciente encontrava-se doente porque não conseguia libertar-se do ódio que sentia por seu ex-marido. Jodorowsky sugeriu que ela pusesse uma foto do marido em uma caixa e fizesse suas necessidades sobre a foto, enviando-a pelo correio para o ex-marido. O próprio Jodorowsky enviou ao seu pai uma caixa com uma foto junto a um melão que ele havia estraçalhado com uma faca. Para curar a timidez de um paciente, Jodorowsky aconselhou que no dia da grande festa da padroeira ele se vestisse de frade e, sem cuecas, subisse em uma árvore na praça, no meio da multidão e se masturbasse sem que ninguém percebesse.
   Podemos ter dúvidas sobre o quão eficazes são esses atos de psicomágica. Mas parece haver uma base neurofisiológica nisso. Lembro-me que o grande neurocientista Americano Ramachandran inventou uma máquina para curar as dores do membro fantasma que consistia em um simples espelho. O membro fantasma dói por encontrar-se preso, enganchado, incapaz de se mover. O paciente move o membro real e vê no espelho um membro que se move no lugar do membro fantasma, que ele sabe não existir. Apesar disso o seu inconsciente registra essa ilusão óptica como sendo o movimento real do membro fantasma amputado, que agora se torna livre, desaparecendo com isso a dor. Essa experiência me parece uma prova neurológica da teoria de Jodorowsky.
   Junto à psicomágica e aos profundos estudos do Tarot, entendido como uma técnica de exploração do inconsciente, Jodorowsky construiu uma espécie de filosofia da vida. Essa filosofia provém principalmente de seu estudo de árvores genealógicas. Para ele a sociedade nos torna prisioneiros de um falso ego. Somos ou nos esforçamos para sermos aquilo que nossos pais achavam que deveríamos ser. Não somente nossos pais e familiares, mas nossos avós e, para além deles, nosso próprio meio cultural. Tudo isso, pensa ele, é limitador, para não dizer, eliminador daquilo que seríamos capazes de nos tornar, de nosso eu verdadeiro, expressão de nosso ser essencial. Um eu verdadeiro que adivinho ser um ego independente, solitário e único, não aconselhável para todos.
   O que mais limita é a família, a sociedade, a religião, a pátria. A única maneira de nos encontrarmos a nós mesmos é pela libertação de tudo isso, como fez o próprio Jodorowsky. Sua pátria, diz ele, são os seus sapatos. Sua religião é nenhuma. Ele é um “ateu místico”. Ele nota que nenhuma de suas mulheres foi judia, a última delas é uma pintora vietnamita com uma fina educação francesa. Sua ética é algo spinozista. Ela se baseia no princípio de que nada deve ser para nós mesmos que não seja para os outros, de que aquilo que não damos, nós nos tiramos, que só precisamos do essencial. E a finalidade metafísica última da vida humana é nos tornarmos a consciência do universo.
   Quero dizer alguma coisa sobre os seus filmes. Os melhores são por vezes extremamente violentos e profundamente metafóricos. Se você não perceber que essa violência é uma metáfora multiplamente interpretável, que objetiva ampliar a sua consciência, tornando-lhe capaz de compreender melhor o mundo, você não os compreenderá e os rejeitará falsamente como perversos e bizarros. Nada disso eles são. Jodorowsky lembra-nos que a violência faz parte da vida; um nascimento é violento, a morte é uma violência. A tragédia Grega e Shakespeare são violentos. Mas não se trata da violência gratuita, daquela forma infantil de liberarmos nossa agressividade condicionada do dia-a-dia, como acontece com os verdadeiramente horríveis enlatados de Hollywood. Filmes nos quais, insiste Jodorowsky, você entra tonto e sai tonto. Trata-se da violência libertadora, capaz de aprofundar nossa visão das coisas.
    Um exemplo encontra-se no filme “A Montanha Sagrada”. Um chefe de polícia de um estado totalitário coleciona os testículos de seus policiais. Para se tornar um policial o candidato deve ter a grande honra de ter seus testículos extraídos a sangue frio em praça pública, ao som de mil cavaleiros rufando seus tambores em um espetáculo com símbolos nazistas. Depois os testículos são colocados em um jarro de vidro com clorofórmio, de modo a fazerem parte da grande coleção de 1000 testículos do chefe de polícia. As imagens seriam mero mau gosto se não fossem uma poderosa metáfora crítica sobre as perversões do poder, que emascula os seus seguidores, limitando tanto as suas ações quanto as suas mentes. Chomsky notou corretamente que todo poder precisa ser constantemente vigiado, pois o destino frequente do poder não controlado é degenerar em alguma forma de perversão.
    Outro bom exemplo está no filme “Santa Sangre” (sangue santo). Nesse filme um menino vê seu pai adúltero cortar ambos os braços de sua mãe, que lhe havia jogado ácido sulfúrico no pênis, e depois se suicidar. Quando o menino se torna adulto ele deixa seus braços atuarem como os de sua mãe, como que estivesse hipnotizado. Ele fica atrás dela e os atos dela e dele são sincrônicos, como se um adivinhasse o pensamento do outro. Em alguns atos eles concordam, como nas extraordinárias performances teatrais da mãe. Em outros eles discordam, como quando a sua mãe decide vingar-se das outras mulheres cometendo assassinatos com os braços do filho. Para mim essa pode ser uma metáfora de nossos conflitos internos, de nossos diversos centros de unidade psíquica, que ora concordam entre si, ora se opõem dolorosamente. Mas também pode ser uma metáfora sobre o tão comum poder da vontade daqueles que amamos sobre a nossa própria vontade. A polissemia é o que torna poderosa a metáfora estética.
 Os melhores filmes são os já citados junto a “El Topo”. Há, certamente, limites. O elemento místico possui algo de escapista. Há um hiper-simbolismo que não me diz muito e os enredos são artificiais... Mas a arte não precisa ser perfeita. Shakespeare está aí para nos provar isso.