Draft para livro a ser publicado pela Europa Editora
IV
A FILOSOFIA EM TEMPOS DIFÍCEIS
Todas as pessoas — gregos ou bárbaros — que,
exercitando a sabedoria, levam uma vida irrepreensível, sem escolher cometer
injustiças nem retribuí-las a outros, e evitando o convívio com pessoas
imprudentes, são em número muito pequeno. Elas são a centelha da sabedoria
guardada em nossas cidades, fazendo com que a virtude não desapareça de nossa
raça. Se todos sentissem da mesma maneira que esse pequeno número,
regozijando-se no que é belo e considerando que não há outro bem além desse,
nossas cidades estariam repletas de felicidade. Nelas, não se saberia das
coisas que causam aflição e medo, mas estariam cheias daquilo que causa alegria
e bem-estar, de modo que não haveria um único momento em que não se vivesse uma
vida plena de prazer e riso, e todo o ciclo do ano seria, para todos, uma
festa.
Fílon de Alexandria (~30 d.C.)
A morte de Alexandre, em 323 a.C., deu origem a um período conturbado e
instável, chamado de helenístico, que, por convenção, durou até 30 a.C., ano da
morte de Marco Antônio e Cleópatra. Alexandre havia conquistado a maior parte
do mundo conhecido. Mas como não deixou herdeiros, as regiões conquistadas
acabaram por ser governadas por seus generais, que passaram a disputá-las
violentamente entre si. Atenas entrou em decadência e passou a ser rivalizada
por Alexandria como centro cultural. Nesta última foi construída a famosa
biblioteca de Alexandria, que se estima ter possuído meio milhão de volumes,
destruídos mais tarde pelo fogo e pela ignorância e superstição humanas. Após
as invasões romanas da Grécia, por volta de 140 a.C., o eixo cultural do
Ocidente começou a deslocar-se para Roma.
As escolas filosóficas mais bem-sucedidas
nesses tempos difíceis foram o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo,
refletindo as atribulações da época. Para Hegel, essas escolas exprimiam o
desespero e a impotência do indivíduo, que se via cercado por poderes que era
incapaz de influenciar.[1] Com efeito, há em todas
elas um elemento de consolação, que nos faz pensar em nossos manuais de
autoajuda. Há certamente níveis cada vez mais elevados de autoajuda, até
chegarmos a um nível filosoficamente tolerável, isto é, articulado e
consistente o suficiente para não destoar da cultura herdada e do conhecimento
acumulado (não parece haver pontos de corte claros e definitivos).
Com isso, quero dizer que
essas filosofias se tornaram populares como testemunhas das incertezas da vida
humana no mundo helenístico e, principalmente, no mundo romano hedonista,
violento e cruel. O Império Romano era formado por diferentes povos que tinham
muito pouco em comum, mantendo-se coeso apenas pela força da espada.
Encontrava-se sempre sob o risco de ser destruído por forças externas ou
internas, o que gerava uma tensão permanente.
1
Epicurismo. As filosofias do epicurismo, estoicismo e ceticismo
eram seguidas por tribos humanas diversas, formadas por membros que encontravam
maior afinidade de temperamento com uma ou outra delas. Epicuro (341-270 a.C.)
foi um materialista atomista tardio, fortemente influenciado por Demócrito e
Leucipo e preocupado com questões práticas.[2] Para ele, não precisamos
temer a morte, uma vez que ela é apenas a separação dos átomos... E não
precisamos nos preocupar com os deuses porque eles não se interessam por nós...
Ele via uma dificuldade em conciliar nosso livre-arbítrio
com o determinismo causal dos atomistas: como podemos ser livres se somos
constituídos de átomos que seguem leis naturais? Sua solução foi propor que os
átomos mais sutis que constituem nossas mentes devem ser capazes de desvios
arbitrários (clinâmen) que rompem as cadeias causais do mundo
natural.[3]
Essa ideia de que nosso
livre-arbítrio se deve à capacidade de transcendência dos laços causais do
mundo material é hoje chamada de libertarismo. Ela foi imensamente
influente ao ser incorporada à filosofia cristã e permanece comum ainda hoje. O
problema, porém, é que a introdução de um elemento de puro acaso em nossas
decisões e ações não parece aumentar nossa liberdade. Para exemplificar,
imagine que uma pessoa comece a se comportar de maneira imprevisível, errática,
absurda. Isso não significa que ela se tornou mais livre. Significa apenas que
ela deixou de se comportar de forma racional. Como o livre-arbítrio é atribuído
apenas a seres racionais, parece que o melhor que podemos dizer é que o
conceito de liberdade aqui não mais se aplica.
A filosofia da vida de Epicuro baseia-se
em um hedonismo saudável, segundo o qual o prazer é o bem supremo.
Esse prazer pode ser ativo (kinetic) ou estático (katastematic).
Exemplos de prazeres ativos incluem satisfazer desejos e eliminar dores. Esse é
o caso dos prazeres da alimentação e do sexo. Já os prazeres estáticos são os
de contentamento, de tranquilidade e de serenidade, alcançados pela ausência de
perturbações físicas, como a dor, e de perturbações da mente, como o
arrependimento e o medo. Embora valorizasse os prazeres ativos, Epicuro
valorizava ainda mais os prazeres estáticos.
Como os prazeres dependem da
satisfação dos desejos, ele classificou os desejos em três grupos: os naturais
e necessários, os naturais e desnecessários e os não naturais e
desnecessários.
Exemplos de desejos naturais e necessários incluem
os de alimento, descanso, abrigo e companhia. Esses desejos são essenciais à
felicidade, razão pela qual sua satisfação deve ser sempre buscada. Os desejos
naturais e desnecessários incluem o consumo de pratos refinados, o uso de
roupas caras e os prazeres sensuais. Devemos buscar satisfazê-los, mas não a
qualquer preço. Eles podem ser viciantes, pondo em risco a tranquilidade
característica dos prazeres estáticos. Finalmente, há os desejos não naturais e
desnecessários, como os de poder, opulência, honrarias e fama. Eles são os
desejos vãos. Eles não são provenientes da nossa natureza humana, mas tacitamente
designados pela sociedade. Eles são difíceis de satisfazer, pois não possuem um
limite superior. Se os alcançamos, logo nos acostumamos a eles e buscamos
obtê-los em maior medida. Pior ainda: ao satisfazê-los, passamos a ter medo de
perder o que ganhamos; a isso se adicionam a animosidade e a inveja de outras
pessoas com ambições semelhantes, o que destrói os nossos prazeres estáticos.
Por isso, os prazeres advindos da satisfação desses desejos devem ser evitados
a todo custo!
O pensamento de Epicuro é
importante por atribuir ao prazer o lugar que merece. Durante a Idade Média e
até tempos recentes, em razão do ascetismo cristão, o hedonismo epicurista foi
popularmente desvirtuado, como se o prazer devesse ser reduzido a prazeres
físicos e como se tudo o que Epicuro defendesse fosse uma indulgência em
relação a eles. Na realidade, seu conceito de prazer era muito mais amplo e
suas reflexões mais elaboradas e matizadas.
Não obstante, há também o que se
possa criticar. Não existe uma fórmula universal para a felicidade, já que cada
ser humano é único e difere profundamente em suas necessidades, que dependem de
inúmeros fatores externos. A Grécia não teria conhecido o brilhantismo de um
governante como Péricles, nem a ousadia e astúcia de um general como
Temístocles, se prazeres sociais como os do poder, da honra e da glória não
fossem, em medida saudável, apreciáveis. Além disso, comparado à filosofia dos
gregos mais antigos, o epicurismo revela sintomas do declínio que explicam seu
sucesso tardio: a perda da audácia especulativa da filosofia de outrora se
fazia sentir no redirecionamento das preocupações para temas mais corriqueiros,
como a busca de fórmulas práticas para o bem-viver. A felicidade suprema era,
para Aristóteles, um prazer ativo: o compartilhamento do pensamento de Deus, e
não um prazer estático. O prazer da especulação criativa descompromissada havia
perdido a prioridade.
2
Estoicismo. Outra doutrina que teve grande duração e sucesso foi
o estoicismo. Ele começou com Zenão de Cítio (335-263 a.C.), seguido por
Cleantes (331-232 a.C.) e Crisipo (279-206 a.C.). O sucesso dessa doutrina foi
maior em Roma, por meio de figuras como Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), o ex-escravo
Epiteto (50-135 d.C.) e o imperador Marco Aurélio (121-189 d.C.).[4]
Os estoicos dividiam a
filosofia em lógica, física e ética, que viam como
interdependentes, excluindo a especulação metafísica. É famosa a metáfora do
ovo: a casca é a lógica, a clara é a física e a gema é a ética. O entendimento
correto da ética pressupõe o entendimento da física, que pressupõe o domínio da
lógica. A principal contribuição para a lógica foi a investigação de argumentos
proposicionais não abrangidos pela lógica aristotélica dos termos (como o modus
ponens, o modus tollens e o silogismo disjuntivo).
Na física, os estoicos
desenvolveram uma visão materialista de Deus, da alma humana e do universo.
Para eles, o universo contém uma dimensão passiva e outra ativa. A dimensão
passiva é constituída pela matéria-prima. A dimensão ativa é constituída por
uma inteligência que permeia e governa todo o universo, conferindo-lhe unidade:
o logos. O logos é o princípio universal da razão, também chamado de pneuma
(o sopro vital) ou de Deus. Por meio do logos o universo inteiro se encontra em
simpatia consigo mesmo, a dizer, harmonicamente interconectado de maneira
determinista.
A parte mais influente do
estoicismo foi a ética. Para o filósofo estoico, a felicidade não consiste no
prazer, como pensavam os epicuristas, mas na virtude. A virtude é o
único bem. Ela consiste em viver em harmonia com o todo, com o logos,
com Deus, com a natureza da qual fazemos parte. Embora o último guia da virtude
seja a razão individual, ele enfatizava as quatro virtudes cardinais da
filosofia grega (coragem, temperança, justiça e sabedoria).
Para os estoicos há duas
espécies de coisas que dificultam nossa vida: as que podemos e as que não
podemos controlar. Como as paixões mundanas dizem respeito ao que não podemos
controlar, devemos restringi-las ao máximo por meio do bom uso da razão.
Ademais, essas paixões nos afastam da vida virtuosa, na qual a razão deve ser
usada para dominá-las. Para alcançar a felicidade, é preciso alcançar
indiferença (apatheia) em relação aos desejos, resignando-se diante dos
absurdos da vida. Para Marco Aurélio, deveríamos viver com a consciência de que
a morte está sempre à espreita.[5] Como consequência, o
estoicismo torna-se uma filosofia do autocontrole.
A imprevisibilidade do mundo
romano levou muitos a buscar refúgio no estoicismo. Embora proveniente de
fontes suspeitas, um exemplo ilustrativo do comportamento estoico teria sido a
reação de Marco Aurélio diante do comportamento de sua esposa, Faustina, com
quem teve 14 filhos. Ela teria sido acusada de ter instigado a revolta de
Ovídio Cássio contra o marido, o que poderia lhe custar a vida. A revolta foi
descoberta a tempo. Marco Aurélio teria minimizado o castigo dos responsáveis,
destruindo as provas para que Faustina não fosse acusada. Sêneca, outro estoico
célebre, com notáveis poderes de oratória, sobreviveu a Calígula e a Cláudio,
mas não a Nero. Suspeitando que Sêneca fazia parte de uma conspiração contra
ele, enviou-lhe uma carta ordenando-lhe que se suicidasse. Sêneca cortou os
pulsos. Esses exemplos ilustram as razões psicológicas pelas quais o estoicismo
teve tanto sucesso no mundo romano.
Não quero negar que há
elementos de verdade no estoicismo: a obediência à razão, o autocontrole e a
paz de consciência têm grande importância. Mas não precisam ser objetos de fé.
Como Nietzsche notou, o estoicismo busca domesticar uma vida perigosa e
traiçoeira por meio da fé em uma razão petrificadora das paixões.[6] Parece claro que muito do
estoicismo é um exercício de fuga das vicissitudes de uma vida sobre a qual se
tinha pouco controle. Buscava-se refúgio contra as dificuldades de um mundo
desfavorável por meio da dedicação a uma vida virtuosa. Contudo, a virtude é
uma noção vaga quando dissociada das emoções, que se demonstram importantes até
mesmo para direcionar a vida virtuosa. Afinal, o que é a vida em concordância
com a natureza? Não há uma resposta clara. Para Marco Aurélio, isso teria
significado absolver sua esposa. Para Júlio César, em situação semelhante, a
ação considerada virtuosa teria sido, com certeza, muito diferente. Explicar a
virtude em termos de harmonia com a razão universal resulta em um inevitável
subjetivismo moral.
3
Ceticismo. Chegamos, por fim, ao ceticismo. Ele se caracterizava
pela desconfiança de tudo o que pretendesse ser conhecimento. O fundador do
ceticismo foi Pirro de Élis (360-275 a.C.), contemporâneo de Aristóteles. Pirro
nada escreveu. Também, para que escrever quando não se acredita em nada?
Disseram os pósteros que ele era tão cético que os seus discípulos precisavam
alimentá-lo e vesti-lo… Nesse caso, ele deve ter sido muito bem tratado, pois
conseguiu chegar próximo aos 90 anos.
Se Pirro nada escreveu, seu
discípulo Sexto Empírico (160-210 d.C.), escreveu bastante, sendo a ele que
devemos muito do que sabemos acerca do ceticismo antigo. Um conhecido método
dos céticos para alcançar a paz de espírito era o seguinte:
1) Argumente a favor de uma tese (por
exemplo: viveremos após a morte).
2) Argumente a favor de sua antítese
(por exemplo: não viveremos após a morte).
3) Reconheça que, após o acúmulo de
argumentos tanto a favor da tese quanto da antítese, nenhuma delas prevalece;
esse equilíbrio chama-se isostenia.
4) Uma vez percebido esse equilíbrio, você chega à epoché, à suspensão do juízo.
5) Uma vez chegado à epoché,
você alcança, enfim, a almejada paz do espírito: a ataraxia! Liberto da
necessidade de crer ou se preocupar com questões insolúveis, você pode
descansar com serenidade.
A verdade, porém, é que tese e antítese dificilmente aparecem como pesos
perfeitamente idênticos, a menos que forcemos nossos argumentos no sentido de
alcançarmos tal resultado – o que não é difícil na areia movediça da
argumentação filosófica.
O êxito do ceticismo durante o
Império Romano deveu-se, em grande parte, ao fato de representar mais uma forma
de evasão diante das vicissitudes dos novos tempos. Dessas três filosofias da
vida helenistas, a mais procedente foi o epicurismo, por sua ênfase no prazer
moderado. Talvez por isso ela tenha sido a mais rejeitada nos tempos ainda mais
difíceis que se seguiram.
4
Plotino. O filósofo mais original do período romano foi Plotino
(204-270 d.C.), o fundador do neoplatonismo.[7] A ideia suprema continuou
sendo, como em Platão, a do Bem. Mas, para Plotino, o bem é Deus, o Uno,
totalmente incognoscível. Embora o Uno não tenha criado o mundo
intencionalmente, como o Deus cristão, ele o fez por excesso, por
transbordamento espiritual. Deus produziu o mundo por emanações, comparáveis ao
perfume que se desprende de um frasco.
Plotino foi um idealista. Essas emanações
espirituais, esses eflúvios, somos nós e tudo o que nos rodeia. Há vários
níveis de emanações: as que constituem princípios intelectuais, as que produzem
os movimentos da alma e as que constituem a natureza visível. Tal como as
ideias platônicas, as emanações são cognoscíveis. Para além delas só existe um
fundo escuro de matéria incognoscível.
A doutrina das emanações teve
importância para a cristandade por relacionar Deus com o mundo – uma relação
que, no cristianismo, se estabelece entre o Deus pessoal, criador do mundo, e o
próprio mundo.
5
Alta Idade Média. A Idade Média começou no
século V d.C., com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C.) e acabou no
século XV d.C. A filosofia medieval acabou por recuperar o nível temático das
filosofias de Platão e Aristóteles, mas sem alterar o paradigma por eles definido.
Os dois mais importantes filósofos cristãos, Sto. Agostinho de Hipona e Sto.
Tomás de Aquino, herdaram respectivamente as estruturas teóricas desenvolvidas
por Platão e Aristóteles e as cristianizaram: Sto. Agostinho batizou Platão e Sto.
Tomás de Aquino batizou Aristóteles. As archai, as ideias, a substância
pura, o Uno, foram substituídos pelo Deus cristão, criador e pessoal, enquanto
o núcleo central da filosofia medieval continuou sendo a metafísica, sobretudo
no sentido de teologia. Além disso, era vedado ao pensamento contrariar os
cânones estabelecidos pela interpretação das sagradas escrituras. Não foram
poucos os que foram proibidos de escrever por terem infringido essa norma. E o
filósofo Giordano Bruno acabou sendo queimado vivo por reincidir.
O pensador mais importante no
início do cristianismo foi, seguramente, Sto. Agostinho de Hipona (354-430
d.C.). Ele nasceu em Tagaste, na atual Argélia. Sua mãe, Mônica, era cristã;
seu pai, pagão. Os tempos eram turbulentos: embora o Império Romano só tenha
caído em 476 d.C., com a tomada de Roma pela tribo germânica de Odoacro, a
cidade eterna já havia sido saqueada em 410 d.C. e em 455 d.C. por tribos
bárbaras. Além disso, o império decadente já havia adotado o cristianismo como
religião oficial desde 380 d.C. Por tais razões, Sto. Agostinho já pode ser
considerado o primeiro filósofo medieval.
Em seu livro Confissões,[8] ele descreveu sua
juventude como um período de dissipação e de sexualidade exacerbada, que o
levou a ter um filho ilegítimo. Essa forma de vida, na qual o sentimento e a
razão entravam em conflito com a paixão física, o constrangia ao extremo.
Motivado pelo desespero em relação ao próprio comportamento, ele se interessou pela religião e pelo problema do
mal. Foi, de início, atraído pelo maniqueísmo, a seita dos seguidores de Mani
(216-276). Para os maniqueístas, o mundo é uma batalha entre dois princípios
opostos igualmente poderosos, os do bem e do mal, e Deus não é todo-poderoso.
Durante a luta, o bem se torna um pouco mesclado ao mal. O objetivo do
maniqueísta é liberar o bem. Salvos serão os que forem bem-sucedidos em liberar
o bem por meio de uma vida de ascetismo… Mas cedo Sto. Agostinho se decepcionou
com essa imaginosa doutrina, acabando por converter-se ao cristianismo.
A principal marca do pensamento
agostiniano foi a preocupação com a interioridade. Para ele, a finalidade da vida humana consiste na contemplação
de Deus. Só ela é capaz de nos proporcionar a verdadeira felicidade. Sua
doutrina mais famosa foi a da iluminação. Ele não podia aceitar a teoria
platônica da reminiscência, uma vez que o cristianismo não admite que a alma
tenha existido antes de ser gerada. Como alternativa, ele concluiu que, no que
diz respeito às “verdades eternas”, é Deus quem ilumina a alma humana, permitindo-nos
acesso direto às ideias presentes na mente divina. Por isso, somente por meio
da fé nos tornamos capazes de alcançar a verdade.
Após Sto. Agostinho, a Idade
Média bateu forte. Com a dissolução do Império Romano, desapareceu o imprescindível
sistema de trocas de mercadorias que atendia às mais diversas necessidades em regiões
as mais diversas. Os reis bárbaros que dividiram entre si os despojos do
império, não sabiam governar: eram desorganizados e lutavam entre si. O próprio
Sto. Agostinho, que morreu quando sua cidade estava sendo sitiada pelos
vândalos, escreveu:
Vislumbramos a meta a alcançar, mas de permeio está o
mar. E ninguém poderá atravessar o mar do século presente se não for levado
pela cruz de Cristo.[9]
A Alta Idade Média (séculos V a X) foi um período muito duro, em que a
Europa foi, aos poucos, sendo retalhada em pequenos feudos, com duas classes
principais: a dos nobres e a dos servos. Estes já não eram escravos, pois já possuíam
alguns direitos. Por exemplo, quando a terra era vendida eles faziam parte do “pacote”.
Embora fossem todos mais pobres, vivia-se, ao que parece, em um sistema menos
injusto. A cultura ficou restrita a mosteiros cuja função se restringia a
conservar o pouco que restou do patrimônio intelectual da antiguidade. O
cristianismo tornou-se onipresente e foi o responsável ideológico pelo
silencioso, mas considerável, avanço civilizatório que acabou por dar fim à
escravidão na Europa. A Idade Média firmou-se como um período de despojamento,
de pobreza e analfabetismo, mas de relativa ordem. Um tempo de constrição da
cultura, que de resto podia esperar.
O único filósofo realmente
original surgido na Alta Idade Média foi o irlandês John Scotus Eriugena
(810-877 d.C.). Ele escreveu um livro chamado De Divisione Naturae,[10] obra que apresenta uma
história cíclica do mundo na qual as coisas se originam em Deus e, no final,
retornam a ele. O universo passa por quatro fases:
1.
A da natureza
não criada e criadora. É aqui o Deus Pai, o princípio primeiro e incriado
de todas as coisas, incognoscível e inefável.
2.
A da natureza
criada e criadora. É o Verbo, o mundo inteligível das ideias-arquétipos, que
expressam os pensamentos e a vontade de Deus antes da criação do mundo sensível.
3.
A da
natureza criada e não criadora. É o mundo no qual vivemos, criado no
espaço e no tempo. Essa natureza não cria coisa alguma, porque o que gera os
outros seres não é o indivíduo, mas a espécie, que só se determina nos
indivíduos em virtude do Espírito.
4.
A da
natureza não criada e não criadora. Aqui trata-se do próprio Deus, fim
absoluto de toda a natureza criada, ao qual tudo retorna. O homem, ao imitar o
exemplo do filho de Deus, liberta-se do pecado original e retorna a Deus como
alma separada do corpo.
O ciclo tem início em Deus e termina em Deus. Por meio dele, todas as
coisas criadas tornam-se manifestação divina. Mas isso não é panteísmo, pois
embora todas as coisas estejam em Deus, ele próprio não está nelas, posto que
as transcende.
6
Baixa Idade Média. Após o século X, a filosofia
começou novamente a florescer na Europa medieval com o surgimento da
escolástica. No ápice desse desenvolvimento encontra-se Sto. Tomás de Aquino
(1225-1274 d.C.). Ele foi um grande sintetizador do conhecimento em obras
imensas por ele ditadas, como a Summa Theologica e a Summa contra
Gentiles. O gênio de Aquino se encontra disperso nos volumes de sua obra
teológica, o que o torna pouco acessível a não iniciados.
Na época de Aquino, a Metafísica
de Aristóteles já havia sido traduzida para o latim. Contudo, muitos
teólogos e autoridades religiosas torciam o nariz para esses escritos. O Deus
aristotélico – o primo motor – não se parecia em nada com um Deus
pessoal da Bíblia, criador e preocupado com seres humanos feitos à sua imagem e
semelhança. Aquino conseguiu reverter esse cenário ao cristianizar a obra de
Aristóteles. Para isso ele introduziu a distinção entre o reino da razão e o da
revelação. A revelação, presente nas escrituras, era para ele incontestável. Nesse
campo Aristóteles cometeu erros. Mas a filosofia de Aristóteles estava certa no
que concerne ao mundo natural. O mundo visível não é constituído por cópias
imperfeitas de ideias platônicas, mas por uma realidade efetivamente acessível
à experiência sensível. Como o mundo natural foi criado por Deus, que lhe impôs
uma ordem, investigá-lo pela razão nos permite alcançar algum entendimento da
mente divina.
Essa maneira de ver inovadora
foi importante porque concedeu aos cristãos o direito de considerar o mundo
empírico, que deixou de ser apenas uma sombra das ideias platônicas. Isso
serviu de incentivo ao desenvolvimento das ciências empíricas, ao menos antes
de Copérnico e Galileu demonstrarem que o matrimônio entre ciência empírica e
religião revelada era incestuoso.
Santo Tomás de Aquino costuma
ser lembrado pelos seus argumentos empíricos para demonstrar a existência de
Deus. Esses argumentos podem ser lógicos ou empíricos. O
argumento ontológico de Sto. Anselmo de Aosta (1033-1109 d.C.), por exemplo,
foi lógico. Segundo esse filósofo, Deus deve ser definido como “aquilo que de
maior pode ser pensado”. O tolo (o ateu), afirma que Deus não existe. Mas ao
dizer isso, ele pressupõe a possibilidade de que exista algo maior do que “aquilo
que de maior pode ser pensado”, ou seja, o Deus existente. Mas isso é
contraditório. Logo, Deus existe.[11] Aquino discordava desse
argumento por achar que não somos capazes de conhecer a natureza de Deus, a
ponto de dar sentido à definição de Anselmo.
Os argumentos empíricos que
Aquino usou para demonstrar a existência de Deus já haviam sido apresentados
por outros filósofos. O que ele fez foi reuni-los nas chamadas “cinco vias”.
Eles são:
(1) Primeiro motor: Tudo o que se move deve ser movido por
outro. Essa cadeia não pode ser infinita. Logo, deve haver um motor imóvel que
seja a causa eficiente de todo movimento: Deus.
(2) Causa primeira: Se percorrermos retrospectivamente as causas
eficientes, compreenderemos que essa regressão não pode ser infinita: deve
existir uma causa incausada de todas as causas, que é Deus.
(3) Ser necessário: Tudo é contingente e pode não existir. Logo,
deve haver um ser necessário, que é Deus.
(4) Graus de perfeição: Os seres apresentam diferentes graus de bondade e perfeição. Logo, deve
haver um ser que possua perfeição em grau absoluto: Deus.
(5) Finalidade: No mundo, as coisas se orientam para fins. Assim
como o arco e a flecha precisam de um arqueiro para servir a um fim, deve
existir um ser que ordena o mundo: Deus.[12]
Todos esses argumentos parecem-nos hoje suspeitos. Não precisamos mais
desse horror ao infinito. Não é evidente que todo movimento precise de um motor
e nada nos força a pensar que deva haver um primeiro motor imóvel que seja
causa eficiente de tudo o que se move, pois uma sequência potencialmente
infinita de causas eficientes parece-nos perfeitamente concebível, bem mais do
que uma incompreensível causa da qual nada mais pode ser causa. (negação de 1 e
2).
Pelo simples fato de existir, o todo do
universo pode bem justificar a contingência de suas partes, sem demandar um ser
necessário externo. (negação de 3).
Para Aquino, a existência do imperfeito
demanda a existência da perfeição: o quente existe porque existe o fogo, que,
para ele, era o máximo de calor. Mas, tanto quanto isso é falso também é falso
que para existir o bem precise existir factualmente o bem supremo. (negação de
4).
A ciência atual nos ensina que a grande
organização teleológica do mundo vivo nesse minúsculo ponto do universo onde
nos encontramos se explica hoje por milhões de anos de evolução natural, que,
embora tenha gerado a indescritível organização e refinamento da vida sobre a Terra,
tem por função última apenas aumentar o grau de desordem (entropia) no universo
(negação de 5).
É verdade que nossa imagem
científica atual do mundo não precisa ser definitiva. Contudo, as respostas
negativas baseadas na ciência são, atualmente, o que temos de mais sólido, e a
fé advinda da mera vontade de crer não é uma alternativa racional.
Aquino se deixa compreender: afinal, se
vivêssemos no mundo medieval, sem o esclarecimento da ciência natural sobre o
mundo, sem a teoria darwiniana da evolução das espécies, sem nossa atual
cosmologia e sem os aportes culturais advindos da sociologia (de Feuerbach a Durkheim)
e da psicologia profunda (sobretudo sem o ainda hoje insuperado trabalho de
Freud), dificilmente nos libertaríamos da crença nos ensinamentos dos textos
sagrados. Não temos hoje a mesma desculpa.
Mais interessante foi a
contribuição de Aquino à epistemologia.[13] Embora mantivesse a
inclinação empirista de Aristóteles, ele não considerava a mente um recipiente
passivo. Mesmo rejeitando a doutrina agostiniana da iluminação, ele punha
ênfase nas capacidades inatas de aprendizado, defendendo que possuímos um intelecto
ativo, dotado de uma “luz natural da razão”. Esse intelecto transforma um
objeto do mundo, que é apenas potencialmente pensável, em um objeto atualmente
pensável na mente. Contudo, para ele esse intelecto ativo não é mais do que uma
faculdade natural criada por Deus para nos permitir conhecer a natureza eterna
das coisas.
Como em Aristóteles, também para Aquino o
conhecimento começa com a sensação. Os entes particulares são compostos por
matéria e forma. Ao percebermos os objetos sensíveis, tornamo-nos formalmente
idênticos a eles, produzindo cópias de suas formas substanciais e
acidentais em nossos órgãos sensoriais. Por esse meio temos acesso ao que ele
chamou de “espécies sensíveis” que a imaginação retém e coleciona na memória
como phantasmas (imagens mentais contendo espécies). É nesse momento que
entra em ação o intelecto ativo. Esse intelecto ativo: ele abstrai dos
phantasmas os conceitos imateriais e os deposita no intelecto passivo,
que funciona como o quadro negro no qual os conceitos são inscritos.
Ainda mencionáveis (entre tantos
outros!) são dois importantes filósofos de língua inglesa que pertenceram ao
escolasticismo tardio: Duns Scotus e William de Ockham. A filosofia de Scotus
(1265-1308) é um labirinto de sutilezas escolásticas que levou Bertrand Russell
a observar que o nome ‘Duns’ vem de ‘dunce’, que significa o mesmo que ‘obtuso’
– uma piada de mau gosto.
Scotus foi perspicaz ao
rejeitar a opinião de Aquino de que a identidade de uma coisa particular
depende de sua matéria. Podemos reconstruir seu argumento da seguinte maneira: A
matéria de uma certa árvore, assim como a matéria de um tronco que flutua na
água ou a matéria de uma certa mesa, sendo em todos esses casos madeira, não é em
si mesma suficientemente determinada para nos permitir individuar a mesma
árvore. Quanto à matéria-prima comum a todas as coisas, além de indeterminada,
não é sequer cognitivamente acessível. Já a forma específica – por exemplo, a
forma essencial que uma árvore possui ao pertencer à espécie Pinus
sylvestris – também não é capaz de individuar a árvore, uma vez que existem
inúmeros exemplares dessa mesma espécie. A conclusão é que nem a matéria nem a
forma específica são capazes de individuar o objeto particular. Aquilo que
identifica o indivíduo particular precisa ser uma forma própria dele mesmo, uma
diferença individualizante (differentia ultima), a haecceitas
(“o que esse ser é”) capaz de distinguir essa árvore das demais. Assim, além de
Sócrates possuir uma matéria e a forma específica de um ser humano, ele deve
possuir uma diferença individualizante que consiste, diríamos, em sua
“socraticidade.”[14]
William de Ockham (1285-1347),
o último filósofo que devo mencionar aqui, foi o defensor de uma forma
conceptualista de nominalismo. O primeiro nominalista, Roscelin de Compiègne
(1050-1125), teria sustentado a ideia radical de que os universais nada mais
são do que sopros de voz (flatus vocis), ou seja, os sons que
produzimos ao proferir termos conceptuais como ‘vermelho’ ou ‘sábio’. A única
coisa que realmente existe são os indivíduos, como essa árvore e aquele homem.
Ockham era muito mais refinado.
Também rejeitava a existência de universais no sentido realista, por acreditar
que a mente humana não é capaz de apreender quididades ou formas gerais
abstratas. Ele admitia a existência do universal somente como um conceito
mental (conceptus mentis) e, de modo derivado, como um termo
geral, mas, em qualquer dos casos, não possui existência metafísica, não
passando de um particular.
Em outras palavras: para Ockham,
o universal resulta de uma abstração (seleção) de semelhanças. O universal é um
ato de pensamento capaz de intelecção confusa de uma infinidade de coisas
semelhantes de uma só vez. Esse ato, contudo, nada mais é do que uma qualidade
singular de uma mente individual. Ele é universal apenas no sentido de ser um
símbolo mental natural de uma diversidade de coisas e de poder ser predicado
delas em uma proposição mental.[15]
7
Nominalismo.
Uma versão contemporânea do nominalismo é aquela
segundo a qual termos gerais, como ‘o bem’ e ‘a justiça’, se referem a classes
de objetos. Assim, se dizemos que Aristóteles é branco e que Platão é
branco, ambos os predicados nos dizem o mesmo, pois se referem à mesma classe
de objetos – os objetos brancos.[16]
Um problema encontrado nesse assim chamado
nominalismo de classes é que termos gerais com intensões (sentidos)
diferentes podem ter a mesma extensão (a mesma classe de objetos
referidos). Em um exemplo clássico, o termo geral ‘animal com rins’ se aplica à
mesma classe do termo geral ‘animal com coração’. Mas nesse caso parece que
eles deveriam ter também a mesma intensão – ou seja, deveriam significar
ou dizer a mesma coisa, o que nesse e em outros exemplos similares não é o
caso.
Frente a essa dificuldade, D. K. Lewis
(1941-2001) sugeriu aplicar a noção de mundo possível ao problema dos
universais.[17]
Um mundo possível é um modo completo e consistente pelo qual o mundo é ou
poderia ser. Ora, se a extensão da expressão conceitual for sua aplicação tanto
no mundo atual quanto em outros mundos possíveis, então a extensão de termos
gerais, como os acima considerados, pode variar. Afinal, devem existir mundos
possíveis em que animais com rins não possuem coração e vice-versa, o que
justificaria a diferença no sentido dos termos.
Um problema é que, para que isso seja
possível, parece necessário que os mundos possíveis pertençam ao mesmo domínio
referencial do nosso mundo atual, ou seja, que sejam reais. Embora um tanto
inacreditável, essa posição foi calorosamente defendida por Lewis, para quem os
mundos possíveis são tão reais quanto o mundo atual, com o único problema de serem
completamente inacessíveis. Em que pese a originalidade da sugestão de Lewis,
ela tem a desvantagem de nos comprometer com uma posição especulativa de todo
inescrutável.[18]
[1] G. W. F. Hegel: Vorlesungen
über die Philosophie der Geschichte (1833). Trad. port. Aulas de filosofia da história
(Casa Martines 2026), Terceira Parte: o mundo romano.
[2] Epicuro: Cartas e máximas principais (Penguin-Companhia
2021).
[3] Lucrécio: Sobre a natureza das coisas (De rerum
natura) (Autêntica 2021), 2.256-2.263.
[4] Ver Sêneca e Marco Aurélio in Grandes
Mestres do Estoicismo (Edipro 2021).
[5] Meditações foi um livro escrito por
Marco Aurélio quando defendia o império nas fronteiras do norte: ele é repleto
de alusões à morte, como se, ao invocar a sua presença, ele melhor pudesse
dominar seu receio de encontrá-la.
[6] Ver James A.
Mollison: “Nietzsche Contra Stoicism: Naturalism and Value, Suffering and Amor
Fati.” In
Inquiry, 2019, 61 (1), 93-115.
[7] Os escritos de Plotino foram publicados por seu
discípulo Porfírio sob o nome de Enneadi. Trad port. Tratado das
Enéadas (Polar: 2000).
[8] Confissões de
Santo Agostinho (Garnier 2024).
[9] Comentário ao evangelho de João (2,2).
[10] Periphyseon: The Division of Nature (Dunbarton
Oaks 2025). Para acesso, ver Henry Bett: Johannes Scotus Erigena: A Study on
Medieval Philosophy (Angelico Press 2025).
[11] Sto. Anselmo de Aosta: Proslógio,
cap. II. In col. Os pensadores, vol. 7 (Abril Cultural 1973).
[12] Suma Teológica (Fonte Editorial),
Parte Primeira, questão 2, a existência de Deus, artigo 3, pp. 21-22.
[13] Suma
Teológica, Ibid., vol. I, Questões 84-88, pp. 751-807.
[14] O argumento para a haecceitas aqui exposto não é o mesmo que se
encontra em Scotus, mas parece-me a melhor maneira de esclarecer sua ideia de
que um indivíduo demanda um princípio positivo intrínseco que torne a
substância indivisível em partes subjetivas. cf. Scotus: Ordinatio (Opus
Oxoniensis), livro II, distinção 3, parte 1, questão 2 (Quarrachi 1950...).
Em meu livro sobre a referência de nomes próprios, creio ter analisado em
detalhes essa diferença individualizante, apelando a regras conceptuais de identificação de termos singulares. Ver How
do Proper Names Really Work? (De Gruyter 2023), cap. III.
[15] William of Ockham,
Ockham: Philosophical Writings: A Selection (Hackett Publishing Company 1990), pp. 43-44. Para um estudo contemporâneo, ver
Claude Panaccio, Ockham’s Nominalism: A Philosophical Introduction (Oxford
University Press 2023).
[16] D. E. Armstrong, Universals:
An Opinionated Introduction (Westview Press 1989), pp. 8-14.
[17] D. K. Lewis, On
the Plurality of the Worlds (Oxford University Press 1986).
[18]
Outro problema que me parece haver na solução
de Lewis é que ela não nos garante que termos como ‘animal com rins’ e ‘animal
com coração’ não possuem a mesma intensão – não sejam sinônimos – pois a
inacessibilidade dos mundos não nos garante que eles não tenham a mesma
extensão em todos os mundos possíveis, como acontece, digamos, com os termos
‘triângulo equilátero’ e ‘triângulo regular’. Mas isso é contraintuitivo, pois
sabemos que não são sinônimos.

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