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segunda-feira, 1 de junho de 2026

LEIBNIZ: IDEALISMO INFINITISTA (Draft livro Introdução histórica à filosofia cap. VII)

  

 

 

draft para editora Europa



VII

LEIBNIZ: IDEALISMO INFINITISTA

 

É mais fácil ser original e tolo que original e sábio.

Leibniz

 

 

É difícil encontrar duas personalidades tão opostas quanto as de Spinoza e Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). O primeiro tornou-se uma pessoa privada e moralmente impecável. O último, embora tenha sido um gentil e bem-intencionado humanista, foi também um homem do mundo que vivia sagazmente de seus serviços prestados à nobreza. Filho de um professor, foi um grande polímata, com uma impressionante variedade de conhecimentos. Mas ele foi, acima de tudo, filósofo e também um importante lógico e matemático, que, independentemente de Newton, inventou o cálculo infinitesimal – um talento que influenciou decisivamente sua maneira de filosofar.

   Leibniz publicou muito pouco, mas escreveu inúmeros textos e milhares de cartas em várias línguas, o que representa um sério desafio para seus intérpretes. No todo, suas obras completas terão mais de 120 volumes. Devido à sua grande variedade de “distrações”, ele dificilmente conseguia concluir um projeto. E ainda que sua filosofia contenha insights extraordinariamente instigantes, ele nunca conseguiu formulá-la de modo plenamente sistemático. Na exposição introdutória que se segue, terei de ignorar os inúmeros problemas decorrentes das variações especulativas e das indecisões argumentativas presentes em sua vasta obra.[1]

   O objetivo primordial da metafísica de Leibniz era conciliar a crença no Deus cristão com a ciência e a cultura de sua época. Seu sistema aliava grande profundidade e razoável coerência interna a uma extraordinária implausibilidade factual, tendo sido considerado demasiado imaginativo e bizarro até mesmo pelos seus contemporâneos. E seu recurso à lógica e matemática influenciou filósofos analíticos formalistas, como Gottlob Frege, Bertrand Russell e, mesmo, um filósofo mais recente, como Saul Kripke.

    Uma convicção pessoal de Leibniz que merece ser lembrada. Ele acreditava que no caso de haver duas posições filosóficas opostas, mas interessantes, o mais provável seria que ambas tivessem algo de valioso – algo que poderia ser resgatado por uma posição que abrangesse seus pontos de maior interesse, como ele mesmo tentou demonstrar em sua filosofia. O defeito mais comum, pensava ele, é o do espírito sectário, em que as pessoas, ao rejeitarem as opiniões de outras, se apequenam… Ele tinha a consciência de que o pensamento de um filósofo não deveria ser medido pelos seus erros flagrantes e inevitáveis, mas pelos seus desafios profundos e acertos prováveis.

 

1

 

Teoria da verdade. Para Leibniz, o enunciado fundamental era o predicativo singular, isto é, aquele que tem a forma sujeito-predicado ou Fa, como na frase “Sócrates é sábio”. Como Aristóteles, ele acreditava que, nesse enunciado, o sujeito deve se referir a uma substância e o predicado a uma propriedade, de modo que a substância e a propriedade continuam sendo os constituintes metafísicos últimos de toda a realidade.

   Leibniz acreditava que enunciados de outras formas poderiam ser reduzidos a enunciados predicativos. Por exemplo, um enunciado condicional como “Se algo é um cão, então esse algo é um animal” (cuja forma lógica parece ser F → G), poderia ser reduzido a “O conceito de cão contém o conceito de animal”. E o enunciado relacional “Paris ama Helena” (cuja forma lógica aparenta ser aRb), poderia ser reduzido a “Paris ama e, por esse mesmo fato, Helena é amada”. Mas essa última redução já não soa convincente. Relações assimétricas como essa são particularmente resistentes à tradução em enunciados meramente predicativos.

   De fato, ao contrário do que Leibniz pensava, o mais comum é encontrarmos enunciados aparentemente predicativos que, devidamente analisados, se revelam relacionais. Por exemplo: “João é pai” parece ser predicativo. Contudo, ao ser analisado com atenção, esse enunciado revela-se relacional, por exemplo: “João é pai de Maria, de José e de Carlos”. Afinal, ser pai significa ser pai de uma, duas ou mais pessoas (uma proposição relacional n-ádica).

   Ignorando a objeção acima, quero agora expor a teoria racionalista da verdade proposta por Leibniz, que é fundamental para a compreensão de seu sistema. Para ele, uma frase predicativa é verdadeira quando o conceito do seu sujeito contém o do seu predicado.[2] Nesse caso, temos o que ele chamou de uma verdade da razão, um enunciado que sabemos ser necessariamente verdadeiro e cuja negação implica uma contradição. Esse é claramente o caso de enunciados como, por exemplo:

 

 1. Sócrates é Sócrates,

 2. O triângulo tem três lados,

 3. Meu irmão é do sexo masculino,

 4. 2 + 2 = 4. (...)

 

Eles podem ser considerados enunciados de identidade, da forma A = A. Em outras palavras, seguem o princípio da identidade e negá-los fere o princípio da não-contradição. Não posso afirmar “(A = A) & ~(A = A)”.

   No exemplo (1) a identidade é imediata. Já nos outros exemplos é necessário analisar o conceito envolvido. Para revelar a identidade no enunciado (2) “O triângulo tem três lados”, precisamos analisar o conceito de triângulo, por exemplo, como “um polígono de três lados”. Com isso, podemos demonstrar a identidade envolvida ao substituir o sujeito por sua definição na primeira frase. O resultado fica sendo: “O polígono de três lados tem três lados.” Mas isso revela que (2) é também uma frase de identidade, que pode ser formalizada como “A(B) = A”. Para o enunciado (3) “Meu irmão é do sexo masculino” precisamos substituir “meu irmão” por “o ser humano do sexo masculino filho dos mesmos pais que eu” na construção do enunciado “O ser humano do sexo masculino filho dos mesmos pais que eu é um ser humano”, que é também um enunciado de identidade.

   Considere agora (4): “2 + 2 = 4”. Esse enunciado pode ser submetido à prova leibniziana de que 2 + 2 = 4. Para chegarmos a ela, definimos 2 como 1 + 1 (Df.i), 3 como 2 + 1 (Df.ii) e 4 como 3 + 1 (Df.iii). Depois fazemos a seguinte sequência de substituições:

 

1.    2 + 2 = 2 + 1 + 1 (Df.i)

2.    2 + 2 = 3 + 1 (Df.ii)

3.    2 + 2 = 4 (Df.iii)

 

Com isso, temos uma análise finita de “2 + 2 = 4” como uma frase de identidade. Vemos, pois, que todos os quatro enunciados acima são de identidade ou redutíveis a eles, demonstrando-se verdades da razão.

   A teoria da verdade de Leibniz parece encontrar sua óbvia limitação no que ele chamava de verdades de fato. Essas verdades são enunciados verdadeiros em que o conceito do predicado não parece estar, de modo algum, contido no conceito do sujeito. Exemplos são:

 

 1. Cabral descobriu o Brasil,

 2. Júlio César morreu em 44 a.C.,

 3. Adão comeu a maçã que Eva lhe deu,

 4. A Terra gira em torno do Sol. (...)

 

Diversamente das verdades da razão, as verdades de fato podem ser negadas sem contradição. “Cabral não descobriu o Brasil” é uma frase falsa, mas não a consideramos contraditória, ao contrário de “O triângulo não tem três ângulos”. Verdades de fato não se baseiam no princípio da identidade. E elas não nos parecem necessárias, e sim contingentes.

   Leibniz então se perguntou: por que, nas verdades de fato, o conceito do sujeito não parece conter o do predicado? O senso comum responderia que isso não acontece simplesmente porque a teoria da verdade de Leibniz é demasiado restrita, aplicando-se apenas às verdades da razão e não a enunciados empíricos contingentes como os acima. A teoria da verdade aplicável às verdades de fato seria a velha teoria da correspondência, já claramente proposta por Aquino, segundo a qual a verdade de um enunciado contingente consiste em sua adequação ao fato empírico ao qual se refere (veritas adaequatio rei et intellectus)… Contudo, respeito pelo senso comum é algo que não se poderia esperar de um racionalista extremado como Leibniz! Para ele, tudo deve, de algum modo, derivar da razão. O Deus de Leibniz é um ser absolutamente racional e não poderia ter produzido nada supérfluo ou desnecessário. Por isso, tudo o que acontece no mundo precisa ter uma “razão suficiente”. Mas, se esse é o caso, tudo o que se predica verdadeiramente de um sujeito precisa pertencer intrinsecamente a ele, de modo a ser dele predicado com razão suficiente, ou seja, necessariamente. Mas então, como é possível que verdades contingentes, como “Cabral descobriu o Brasil”, satisfaçam sua definição de verdade? A resposta de Leibniz foi engenhosa: do ponto de vista humano, essa frase parece contingente; mas do ponto de vista divino, ela é necessária.

   Isso se explica pela distinção entre análise finita e análise infinita. As verdades da razão demandam análises finitas. Já as verdades de fato demandam análises infinitas, nas quais absolutamente tudo o que acontece com o objeto é explicitado. Uma frase como “Cabral descobriu o Brasil” teria a forma A(BCD…) = A. Mas quem pode saber disso? Nós, certamente, não. Para nós, essa é uma verdade contingente, pois sua negação é perfeitamente concebível. Mas Deus, sendo onisciente, a percebe como necessária! Afinal, ele sempre soube que Cabral teria de descobrir o Brasil. Assim sendo, ele sabe que, no conceito de Cabral, consta o fato de ter descoberto o Brasil em 21 de abril de 1500 e tudo o mais que possa ter acontecido com ele, nos mais ínfimos detalhes. Assim, para Deus, “Cabral descobriu o Brasil” é um enunciado de identidade em que o predicado pertence ao sujeito, de modo que sua negação é contraditória. E o mesmo pode ser dito de “Cabral espirrou 34 vezes em sua viagem até o Brasil”, caso esse enunciado seja verdadeiro.

   Daí decorre que, para Leibniz, aquilo que individua um objeto deve ser simplesmente todas as suas propriedades, o que inclui tudo o que lhe acontece. Assim, Cabral necessariamente teria descoberto o Brasil em 21 de abril de 1500, pois, se não tivesse feito isso, não seria Cabral. Importa aqui a sua distinção entre ter o conceito e ter um conceito. Só Deus tem o conceito completo de Cabral, pois ele conhece todas as suas propriedades. O que nós temos é apenas um conceito de Cabral – um conceito incompleto, perspectivo e até mesmo variável.[3] Essa constatação é importante porque, se aquilo que individua cada objeto é tudo o que lhe acontece e se nosso mundo obedece ao paradigma racionalista de um determinismo absoluto, a consequência disso parece ser que tudo no universo está interconectado. Daí que, como veremos, cada substância (mônada) deverá ser capaz de espelhar em si mesma o universo inteiro.

   Nesse contexto, também importa distinguir entre o ‘é’ da essência e o ‘é’ da existência. A teoria da verdade de Leibniz não se encontra comprometida com a afirmação de existência. Considere a frase “O cíclope é um gigante de um olho só”. Essa é uma verdade da razão, um enunciado necessário no âmbito da mitologia grega. Mas cíclopes não existem. O ‘é’ em questão é um ‘é’ da essência, e não da existência, o que apenas nos diz que é essencial ao conceito de cíclope que ele designe um certo gigante de um olho só.

   Essa consideração tem implicações para a análise infinita. Deus, por sua onisciência, é capaz de conceber uma infinidade de mundos possíveis. Assim, há um mundo possível no qual Adão se recusou a comer a maçã, outro no qual ele não foi tentado, pois Eva resistiu à sedução da serpente, outro no qual Eva sequer existiu… Cada ‘Adão’ é diferente, pois possui condições de individuação distintas. Todos eles existem na mente de Deus, mas só um deles foi atualizado em nosso mundo: o Adão que comeu a maçã. Uma consequência é que o enunciado “Adão comeu a maçã” não é apenas essencialmente verdadeiro na mente de Deus, mas também existencialmente verdadeiro, dado que a condição de ter comido a maçã foi atualizada em nosso mundo. Já o enunciado “Adão comeu a pera” é essencialmente verdadeiro na mente de Deus, mas é existencialmente falso, pois seu conteúdo não se encontra realizado em nosso mundo.

   Nesse contexto também tem lugar o princípio do melhor. Deus, sendo perfeito, não poderia ter escolhido criar qualquer mundo possível. Por isso ele decidiu realizar o melhor dos mundos possíveis, que é o nosso. Nosso mundo contém males, infortúnios e episódios infelizes, como o de Eva ter se deixado seduzir pela serpente… Mesmo assim, embora só Deus seja capaz de saber por que nosso mundo é o melhor, mundos melhores do que o nosso são logicamente inconsistentes e a única coisa que Deus não é capaz de transgredir são as leis da lógica (os únicos aos quais é realmente dado esse direito são alguns lógicos contemporâneos). Por isso, Deus não teve outra alternativa senão escolher realizar o Adão que cedeu à tentação, comendo a maçã da árvore proibida.

   Uma objeção seria que se Deus, por sua perfeição, criou o melhor dos mundos possíveis, então ele teve de criar esse mundo. Ele não foi livre ao fazer isso. A resposta de Leibniz é que, ao criar esse mundo, Deus foi forçado apenas por uma necessidade moral, e não por uma necessidade metafísica ou absoluta. É certo que, a partir disso, tudo o mais se seguiu por meio de uma imensa cadeia de necessidades; mas esse ato livre de criação serve como justificação última do caráter supostamente contingente das verdades de fato.

   As verdades de fato são o que são porque, para que tudo o que se predica de um sujeito pertença a ele, Deus precisava de uma razão suficiente para fazê-lo, mesmo que essa razão só fosse compreendida por ele mesmo. Assim, a teoria da verdade de Leibniz implica o princípio da razão suficiente. Deus tinha em mente uma infinidade de Adãos; mas, movido pelo princípio do melhor, ele escolheu realizar um só deles, qual seja, o Adão que comeu a maçã. Deus tinha em mente uma infinidade de Júlios Cesares, mas, movido pelo princípio do melhor, escolheu realizar apenas aquele que lutou na Gália, atravessou o Rubicão em 49 a.C., derrotou Pompeu, sublevou o Senado e foi assassinado em 44 a.C.

   Afora isso, o princípio da razão suficiente conduziu Leibniz a outro princípio: o da identidade dos indiscerníveis.[4] Segundo ele, nenhum objeto na natureza pode ser completamente idêntico a outro; nenhuma folha é idêntica a outra. E precisa ser assim, não só porque nesse caso, pelo princípio da individuação, tudo o que acontecesse a um objeto também teria de acontecer ao outro, mas também porque Deus não teria razão suficiente para criar duas coisas absolutamente idênticas. Leibniz relatou que certa vez encontrava-se no jardim da Mme. N., quando um velho senhor descrente pôs em dúvida o princípio da identidade dos indiscerníveis. Leibniz pediu ao homem que encontrasse duas folhas idênticas no jardim. O pobre homem procurou, procurou, mas nada conseguiu encontrar, acabando por render-se ao princípio…

 

2

 

Mônadas. Passemos agora à questão da substância. Influenciado pela filosofia escolástica, Leibniz concebia a substância como aquilo que realmente existe. Sua definição era aristotélica: a substância é aquilo que pode ser sujeito de muitos predicados, mas não pode ser predicado de sujeito algum. Mas então, o que é a substância? Leibniz rejeitou a res extensa cartesiana pela seguinte razão: a substância, no sentido mais próprio, precisa ser algo que não possa depender de nada mais para existir. A extensão, contudo, pode ser infinitamente subdividida. Assim, se admitirmos que um corpo extenso é substância, ele dependerá de suas partes para existir, as quais também serão substâncias e, assim, infinitamente. Mas a substância, por definição, não pode depender de nada além de Deus para existir. Se o mundo físico das coisas extensas não pode ser substancial, tudo o que resta são as mentes. Afinal, as mentes – como o Deus e as almas dos escolásticos – devem ser consideradas simples e, por isso mesmo, indivisíveis, o que as torna independentes de suas partes. E as mentes devem possuir, naturalmente, vida, tendo como características principais a percepção e a apetição (vontade).

   A essas substâncias simples de natureza mental, Leibniz deu o nome de mônadas (do grego monas, que significa 'unidades'). Elas são substâncias simples, pontuais, indivisíveis e, por isso mesmo, indestrutíveis. O universo é constituído por uma infinidade de mônadas que possuem percepções, ou seja, “representações no simples daquilo que é composto ou daquilo que lhe está fora”.[5] Para Leibniz, a mônada possui uma força ativa primitiva mental, que é a atualidade, equivalente à forma substancial aristotélica, além de uma força primitiva passiva, que é a sua potencialidade, por ele chamada de matéria prima e equivalente à matéria aristotélica.

   Como só a substância mental, a mônada, é real, o espaço e o tempo não podem ser, por si mesmos, reais. Sendo Deus perfeito, ele criou um número infinito de mônadas, que, pelo princípio da identidade dos indiscerníveis, precisam ser todas diferentes entre si. O que chamamos de universo, como notei, nada mais é do que uma infinidade de mônadas. Enquanto Spinoza era frugal e admitia apenas uma substância, Leibniz era um esbanjador, admitindo um número infinito de substâncias.

   Mas, se admitirmos que o universo é fundamentalmente constituído por mônadas simples e pontuais, como explicar os objetos visíveis que nos cercam, como uma pedra, uma árvore, uma pessoa? Também para isso Leibniz encontrou respostas. Assim como uma infinita sequência de pontos infinitamente pequenos permite a construção de uma linha reta extensa na geometria euclidiana, também um número infinito de mônadas é capaz de produzir objetos com extensão espacial. Para explicar como um número ilimitado de mônadas é capaz de conferir solidez a uma rocha, ele fez uma comparação com o arco-íris. As cores parecem existir, mas são meros reflexos de gotículas de água. Assim, agregados infinitos de mônadas mentais produzem a impressão de corpos físicos extensos como a rocha, que não passam de “fenômenos bem fundados” (phaenomena bene fundata). Leibniz, como vemos, foi um filósofo idealista.

   Há uma série de propriedades das mônadas que são sui generis. A mais curiosa é que elas são “sem janelas”: não interagem umas com as outras, mesmo que lhes pareça o contrário. Elas não podem interagir porque as interações são relações e já sabemos que, para ele, as relações são ilusórias, sem realidade própria. A conclusão de Leibniz é que cada mônada, cada substância individual, já tem, desde sempre, a sua história completamente determinada por Deus. Como consequência disso, a causalidade verdadeira é impossível: basta considerarmos que as relações causais são inerentemente temporais, a causa vindo tipicamente antes de seu efeito, para entender que, para Leibniz, faz sentido desclassificá-la. A única exceção é Deus, que é a causa externa do mundo.

   Uma outra propriedade impressionante que Leibniz descobre nas mônadas é a capacidade de cada uma delas de espelhar o universo inteiro, em todos os seus detalhes e em todos os tempos. Como ele escreveu:

 

Ora, esse enlace, essa acomodação de todas as coisas criadas a cada uma e de cada uma a todas as outras faz cada substância simples ter relações que exprimem todas as outras e ser, portanto, um espelho vivo e perpétuo do universo.[6]

 

Esse espelhamento do universo não pode ser feito por meio de relações verdadeiras, mas pelas propriedades intrínsecas das mônadas. Assim, se a e b são mônadas, elas não se associam na forma relacional aRb, mas nas formas predicativas Fa e Fb, onde os F substituem os R tomando o lugar de suas propriedades intrínsecas.

   Ainda outra propriedade das mônadas é que cada uma delas reflete o universo sob um ponto de vista particular, caracterizado por Leibniz como a clareza e a distinção perceptuais dos aspectos das coisas, movidas pela apetição das mônadas. Explicando: cada mônada tem maior ou menor clareza e distinção, distribuídas de forma diferente para coisas distintas. Isso é importante porque, se cada mônada reflete, em si, todo o universo, então elas não parecem diferenciar-se entre si, o que fere o princípio da identidade dos indiscerníveis. Todavia, como cada uma reflete o universo sob um ponto de vista diferente, elas se diferenciam entre si nesse aspecto. Mesmo entre diferentes mundos possíveis, não seria possível a existência de duas mônadas idênticas, pois, como cada uma reflete o universo inteiro e os mundos sob perspectivas distintas, elas precisam ser sempre distintas.  É a diferença de ponto de vista que distingue cada mônada das demais.

 

3

 

Hierarquia. Há outra maneira pela qual as mônadas diferem: pela sua posição na hierarquia das mônadas.

   As mais inferiores são as mônadas nuas. Dos agregados harmônicos de infinitas mônadas inferiores derivam o que percebemos como corpos físicos, o mundo vegetal, os corpos dos animais e os nossos próprios corpos. Essas mônadas têm uma percepção completamente inconsciente e não possuem memória. Cada uma delas percebe o mundo infinitamente, embora de forma totalmente inconsciente. E qualquer objeto físico é fundado na atividade de um número infinito de mônadas. A extensão, melhor dizendo, a impressão de extensão, era, para Leibniz, resultado da repetida continuidade de uma força de resistência e impenetrabilidade que constitui o que usualmente chamamos de matéria. Quando essa força se torna ativa, produz movimento. Para além de Descartes, Leibniz foi contemporâneo de Newton, preferindo reduzir a extensão a um resultado da ação de forças físicas, ainda que de modo vago e obscuro.

   O próximo nível é o das mônadas animais. As almas animais são capazes de percepção e memória. Elas percebem o mundo sob perspectivas particulares, ainda que confusas. Leibniz comparou a percepção confusa ao rugido das ondas do mar, que não permite ouvir cada som separadamente. Assim, o corpo de um elefante é constituído por infinitas mônadas nuas, coordenadas por uma mônada mestra, que é a sua mente animal. Essa última mônada é dominante em relação ao agregado de mônadas a partir do qual se origina o que é percebido como o corpo do animal. Essa é uma sugestão mais sensível do que a de Descartes, segundo a qual os animais não passavam de autômatos.

   Em um terceiro nível temos as mônadas racionais. Espíritos racionais, como as almas dos seres humanos, são capazes não só de perceber o mundo sob pontos de vista particulares e de possuir memória, mas também de apercepção, termo que Leibniz usava para designar a consciência. Ele distinguia corretamente a consciência da mera percepção, que não precisa ser consciente.[7] Mesmo assim, embora tenhamos percepção de todo o universo, quase todo esse conhecimento permanece inconsciente.

   No quarto nível, chegamos finalmente à mônada-Deus, que possui percepção absoluta do mundo inteiro sob todos os pontos de vista e apercepção absoluta. Nós somos limitados em nossos julgamentos por perspectivas reduzidas, sempre parciais. Só Deus é capaz de julgar sob todas as perspectivas, com inteira imparcialidade e ilimitada sabedoria. Daí porque, para ele, todo o universo é racionalmente justificado.

   Para Leibniz, todas as mônadas têm apetição, movimento, aspiram à perfeição. Por essa razão, o mundo se move em direção a Deus. Em nosso melhor mundo possível, quando algo de muito ruim acontece (uma guerra, uma catástrofe natural…), deve ser apenas para que algo melhor venha a acontecer mais tarde.

   Se as mônadas são sem janelas, por que parecem interagir entre si? Por que eu tenho a impressão de mover a infinitude de mônadas que constituem o meu braço, ou de me comunicar com outras mônadas-mentes de outras pessoas?

   A resposta de Leibniz surgiu em oposição ao ocasionalismo de Nicolas Malebranche, que fazia sucesso na época. Malebranche rejeitava, com boas razões, o interacionismo de Descartes. Sua solução, porém, consistia na ideia de que Deus intervinha a cada momento. É ele quem faz com que acontecimentos no mundo exterior ocorram e, logo em seguida, faz com que a alma tome consciência deles e reaja, tendo a impressão de que essa reação está produzindo um movimento corporal, quando, de fato, ele é outra vez causado por Deus. O que Descartes entendia como interação passou a ser considerado uma ilusão de interação.

   Leibniz não gostava dessa ideia, que transformava Deus em um trabalhador incansável. A sua solução foi tão simples quanto fantástica. Trata-se de sua doutrina da harmonia pré-estabelecida. Quando Deus criou o universo, determinou previamente tudo o que cada mônada faria e perceberia ad aeternum. Como um relojoeiro perfeito, ele sincronizou todas as mônadas, fazendo com que cada uma, por toda a eternidade, parecesse relacionar-se com as demais, assim como relógios bem sincronizados que marcam as mesmas horas sem se influenciarem mutuamente.

   Não surpreende, portanto, que você tenha a impressão de interagir com um mundo externo e que sua mônada-alma pareça estar, agora, lendo um texto escrito por minha mônada-alma. Afinal, essa coincidência já havia sido estabelecida por Deus no momento da criação.

 

4

 

Consciência e inconsciência. Com a noção de apercepção, Leibniz antecipava teorias contemporâneas sobre a consciência, incluindo aquelas que requerem estados mentais de ordem superior. Segundo David Armstrong, o primeiro a propor uma teoria de ordem superior, esses estados tornaram-se necessários para a regulação de sistemas cognitivos de primeira ordem mais complexos.[8] Segundo essas teorias, a consciência dos estados mentais de primeira ordem depende de sua cognição por meio de estados mentais de segunda ordem. Um estado mental torna-se consciente quando é objeto de uma cognição (percepção, para Armstrong, e pensamento, para David Rosenthal) de nível superior. Por exemplo: se sinto uma dor de dente muito leve durante todo o dia, só me torno consciente dela quando penso nela. Esse pensamento é uma cognição de nível superior. A mesma coisa deve acontecer com outros estados mentais, como emoções e pensamentos, quando ditos conscientes. Mas a cognição de segunda ordem, segundo Rosenthal,[9] não é consciente, a menos que se torne objeto de uma cognição de terceira ordem e assim por diante. O pensamento que está no topo, escreveu ele, nunca é consciente, o que explica a impossibilidade de uma consciência completa e até a dificuldade de chegar à teoria.

   Outro conceito que Leibniz antecipou foi a ideia de que quase a totalidade da percepção das mônadas é confusa, tal como a imensa mistura de sons que produz o rugido do mar, o que foi denominado inconsciente. Trata-se de petites perceptions, incapazes de ultrapassar o limiar da consciência. Somente no século XX, graças ao extraordinário trabalho de Sigmund Freud nas circunstâncias mais bem controladas da experiência psicanalítica, o conceito de inconsciente foi explorado de forma muito mais detalhada e profunda.

 

5

 

Espaço e tempo. Outro tópico importante diz respeito à disputa com Newton em física. Newton foi um físico incomparável, mas Leibniz era superior a ele como filósofo. Leibniz objetou à ação à distância implícita na ideia newtoniana da força gravitacional. Aqui, Leibniz antecipou, de forma especulativa, um pressuposto que só foi propriamente resgatado pela teoria da relatividade geral: a ideia de que não existe uma força gravitacional que atue à distância. O que existe, sabemos hoje, é um encurvamento do espaço-tempo proporcional à proximidade entre os corpos físicos, o que faz com que eles caiam ou entrem em órbita, como acontece com os planetas em relação ao Sol.

   Leibniz também parece ter razão contra Newton em suas objeções à concepção absolutista do espaço e do tempo defendida por Newton. Para Newton, o espaço e o tempo são absolutos e infinitos. O espaço é como um contêiner infinito, no qual se encontram os objetos materiais, os eventos, as forças físicas… E, com o tempo, sucede o mesmo: os eventos ocorrem no tempo, mas o tempo é absolutamente independente deles. Espaço e tempo seriam, para Newton, o sensorium Dei, ou seja, o meio pelo qual Deus ganha consciência do universo e se torna capaz de ordená-lo.

   Leibniz respondeu apelando ao princípio da identidade dos indiscerníveis e ao que hoje chamaríamos de princípio da verificação. Esse princípio nos diz que enunciados que, por razões lógicas, não podem ser tornados verdadeiros ou falsos simplesmente não fazem sentido. Ele respondeu a Newton dizendo que, se o espaço fosse infinito e o universo fosse finito, o universo poderia estar situado em outra região do espaço, sem que pudéssemos saber qual. O universo poderia até mesmo mover-se de uma região para outra do espaço infinito e não teríamos meio algum de verificar essa mudança. Se o tempo, por sua vez, fosse algo infinito no qual os eventos se sucedem, o universo poderia ter se iniciado antes ou depois no interior do tempo, o que também não poderia ser verificado, pois, diante da infinitude, não teríamos como saber o antes do que e o depois do que seriam esses. Afora isso, Deus não teria mais qualquer razão suficiente para escolher situar o universo em uma região do espaço ou em um período do tempo. Afora isso, uma região do espaço infinito seria idêntica a qualquer outra, o que também fere o princípio da identidade dos indiscerníveis.

   O argumento contra Newton é forte. Ele seria menos convincente se Leibniz não tivesse outra concepção do espaço e do tempo para concorrer com a posição newtoniana: a teoria relacional que veremos a seguir.

   Para Leibniz, espaço e tempo só existem porque há corpos, eventos e forças físicas. Para ele, o espaço é uma ordem de coexistências, enquanto o tempo é uma ordem de sucessões. Essa é a essência de sua teoria relacional do espaço e do tempo. Eles dependem das coisas que compõem o universo.

   Sob essa perspectiva, o que chamamos de espaço resulta de corpos materiais e eventos mais ou menos próximos, acima, abaixo e ao lado, com distâncias medidas por repetições da mesma relação espacial. O mesmo vale para o tempo: o antes, o depois e a simultaneidade dependem das coisas que preexistem, pós-existem e coexistem. Como diríamos hoje, o tempo depende de eventos físicos; o tempo começou a ser medido pela repetição cíclica desses eventos, como os dias e as estações do ano, e, mais tarde, essa medida se tornou mais precisa com a invenção de relógios, também cíclicos. Se corpos materiais, eventos e forças físicas não existissem, o espaço e o tempo também não existiriam.

   Ao admitir que espaço e tempo são relacionais e considerando que, para Leibniz, relações não existem, espaço e tempo são, para ele, ideais, no sentido de não possuírem realidade autônoma. São, como ele escreveu, phenomena bene fundata, produzidos pelos diversos pontos de vista das mônadas. Mas, como a monadologia é uma teoria aceitável apenas em meio a pressupostos teológicos, fazemos bem em separá-la da teoria relacional do espaço e do tempo. O próprio Leibniz fez isso ao defendê-la em sua famosa discussão com Clarke, um seguidor de Newton.

   Um resultado da concepção relacional foi, para Leibniz, o horror ao vazio. Ele discutiu a experiência de Torricelli, que encheu um tubo fino de vidro, com uma ponta fechada e outra aberta, com mercúrio, mergulhando o lado aberto em uma cuba cheia de mercúrio. Como o mercúrio é muito pesado, parte dele descia pelo tubo, deixando atrás de si um vácuo absoluto. Leibniz respondeu que não se trata de um verdadeiro espaço vazio, pois “o vidro tem poros muito sutis através dos quais os raios de luz, os do ímã e outras matérias muito finas podem passar.”[10] Ele não precisaria ter ido tão longe.

   Seria interessante ver como a disputa entre os espaços e os tempos absolutos e relacionais pode ser projetada na física contemporânea. Segundo a teoria da relatividade restrita, medições espaço-temporais devem ser sempre feitas em relação a um sistema inercial, no qual se baseiam, o que se alinha à concepção relacional de Leibniz. Um problema maior consistiria na comparação com a teoria da relatividade geral. Talvez seja mesmo possível a um defensor contemporâneo de Leibniz dizer que os corpos e eventos físicos se relacionam espaço-temporalmente por meio da gravitação, de modo que o espaço-tempo só existiria onde houvesse gravitação. Nesse caso, um espaço-tempo completamente “fora” do universo não poderia existir.

 

6

 

Inatismo. Ainda um tópico a ser abordado é a oposição entre o “ultraracionalista” Leibniz e seu contemporâneo, o “megaempirista” John Locke, quanto ao conhecimento inato.

   Locke, como filósofo empirista, rejeitou qualquer espécie de conhecimento inato. Nossa mente, quando nascemos, é como uma folha de papel em branco e todo o nosso conhecimento é obtido a posteriori, por meio da experiência indutiva. Vemos o sol nascer todos os dias e, por indução, concluímos que ele também nascerá amanhã... Locke estendia o empirismo até mesmo à matemática e a lógica. Um exemplo é o princípio da não-contradição, considerado por Aristóteles o mais fundamental da lógica (Cap. III, sec. 8). Na versão de Locke, esse princípio afirma que “um mesmo enunciado não pode ser verdadeiro e falso”. Para racionalistas como Leibniz, já nascemos com a disposição para seguir esse princípio. Para Locke é diferente: nós aprendemos os conceitos de branco, preto, quadrado, círculo, amarelo, doce etc., para então percebermos que o branco não pode ser preto, o quadrado não pode ser um círculo, o salgado não pode ser doce… Isso nos leva a concluir que um enunciado como “Isso é branco” não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo no mesmo sentido. No passo seguinte, generalizamos e concluímos que um mesmo enunciado não pode ser verdadeiro e falso. É dessa maneira que ele acreditava que até mesmo o princípio da não-contradição poderia ser extraído da experiência empírica![11]

   Leibniz, pelo contrário, acreditava que nós nascemos com uma multidão de inclinações, disposições, tendências ou virtualidades inatas, que, incitadas pela experiência, se revelaram como conhecimento a priori, isto é, independentes da indução empírica. A palavra mais usada hoje é ‘disposição’. Uma propriedade é disposicional quando só se manifesta em circunstâncias específicas, geralmente não presentes. Esse é o caso do sal de cozinha. Ele tem a propriedade disposicional de se dissolver quando misturado à água. Para Leibniz, o mesmo acontece com as assim-chamadas ideias inatas. Sua analogia, em oposição à de Locke, era a de um bloco de mármore homogêneo com veios.[12] Tudo o que o escultor (a experiência) precisa fazer é escavar os veios, o que fará surgir a estátua de Hércules (a ideia inata) oculta no mármore. Uma vez exposta, a estátua pode ser polida – nós diríamos, a ideia inata se torna capaz de ser colocada em palavras. É por meio dessas disposições inatas que um racionalista explicaria nossa capacidade de aprender e explicitar linguisticamente coisas como a aritmética, a geometria euclidiana e os princípios lógicos fundamentais.

   Mas como justificar a verdade de nossa disposição inata para termos certas ideias? Leibniz responderia que, sendo feitos à imagem de Deus, possuímos um entendimento semelhante ao dele, embora muito inferior. Esse entendimento se baseia no acesso disposicional a um conhecimento verdadeiro e a priori, dado que mesmo pressupondo a experiência, não é dela originado.

   Se considerarmos o desenvolvimento contemporâneo da psicologia, por exemplo, a psicologia genética de Jean Piaget, podemos concluir que o tempo deu razão a Leibniz quanto à disposição inata para a formação de conceitos e princípios, entre eles o princípio lógico da não contradição. Esse princípio pode ser chamado de a priori no sentido de que, embora pressupondo a experiência para sua compreensão linguística, não se originou dela. Contudo, o tempo não deu razão a Leibniz quanto à verdade necessária de toda e qualquer ideia ou princípio resultante de disposições inatas, ainda que isso possa valer para princípios lógicos fundamentais.

    Assim, se o filósofo racionalista contemporâneo quiser sustentar que possuímos muitos conceitos e princípios a priori, ele precisará enfraquecer essa noção, abandonando a condição de que sejam necessários e universais.[13] Ou seja, o conhecimento a priori deve passar a ser visto como, em geral, falseável pela experiência, ou seja, falível.[14]

   A motivação mais importante da defesa do empirismo por Locke era garantir a flexibilidade de nosso entendimento, necessária ao desenvolvimento da ciência, por oposição ao dogmatismo e ao autoritarismo. É aqui que entra em cena uma tese importante de Karl Popper, um racionalista crítico contemporâneo (como Jean Piaget e Noam Chomsky), que admitia um inatismo disposicional sem deixar de preservar a flexibilidade do conhecimento. Para Popper, um filósofo como Locke defendia uma versão da teoria epistemológica do “balde mental”, à qual ele opunha sua teoria do “holofote do conhecimento.”[15] Para Locke, a mente seria como um balde que, sob as torneiras da experiência, vai, aos poucos, se enchendo de conhecimento. Contra essa teoria, Popper comparou nossas disposições inatas ao fenômeno chamado de imprinting nos animais.

   Um ganso, por exemplo, tem o que Popper chamou de uma “teoria” inata: a de que o primeiro objeto móvel que ele encontrar diante de si, nas primeiras horas após o nascimento, é “sua mãe”, devendo ser seguido de para sempre. Geralmente essa teoria é verdadeira: o objeto é realmente a sua mãe. Mas a teoria se demonstra falsa quando, por exemplo, esse primeiro objeto móvel forem as botas do pesquisador. Nesse caso, o pequeno animal irá seguir as botas do pesquisador durante todo o seu crescimento, como se fossem a sua mãe, em um processo irreversível.

   Popper comparou o caso da imprintação em animais ao que acontece com os seres humanos. Para ele, há uma diferença crucial: enquanto nós compartilhamos com os animais disposições inatas para formar teorias sobre o mundo, somos flexíveis o suficiente para abandoná-las quando a experiência as refuta. Procuramos, então, criar outras hipóteses teóricas capazes de resistir à refutação pela experiência. As disposições inatas podem ser o começo de tudo, mas não são, para nós, o fim de tudo. O fim de tudo reside no conhecimento científico.

   A última pergunta a ser respondida diz respeito à razão pela qual nossas disposições inatas para o conhecimento são falíveis. A resposta é simples. Elas são resultado da evolução natural. A seleção dos mais aptos faz com que sobrevivam aqueles indivíduos que possuem uma disposição –  digamos, a de seguir o primeiro objeto móvel que se encontra diante deles –, uma vez que esses espécimes serão capazes de crescer e se reproduzir, transmitindo essa disposição à sua prole. Com o tempo, a maioria, ou mesmo todos os membros da espécie, passa a possuir essa disposição.

   Mas por que tais disposições herdadas podem gerar “teorias” que se mostrem falsas? Minha resposta é que elas também foram consequência de um processo indutivo. Na evolução, ao longo do tempo, quando os novos indivíduos são sempre expostos às mesmas circunstâncias, são selecionados aqueles que possuem as disposições necessárias para sobreviver e se multiplicar. Se essas disposições forem cognitivas, servirão de base para a produção de um conhecimento a priori, no sentido de uma disposição inata para formar uma “teoria” sobre como as coisas são, a qual sempre foi confirmada pela experiência coletiva.

   É curioso notar que se esse processo seletivo for considerado sob o ponto de vista lógico, ele se mostrará de natureza indutiva. Afinal, também é pela repetição de eventos similares com consequências similares em situações as mais diversas que, no caso mais comum, produzimos nossas inferências indutivas enumerativas. Podemos ter a impressão de que um processo logicamente idêntico não pode ocorrer na seleção natural apenas porque estamos acostumados a induções feitas por sujeitos cognitivos como nós mesmos. Mas, do ponto de vista lógico, isso não é necessário. Uma máquina é perfeitamente capaz de ser programada para realizar induções sem que isso se acompanhe de um processo cognitivo. O mesmo ocorre na formação de disposições por meio da evolução da espécie. Chamo a isso de indução evolucionária ou indução da espécie. Uma espécie pode ser tratada como um indivíduo que se estende no tempo, assim como um formigueiro pode ser tratado como um indivíduo estendido no espaço.[16] Do ponto de vista da formação de disposições cognitivas, uma espécie se transforma e evolui por meio da indução evolucionária.

   A conclusão epistemológica importante disso é que temos uma explicação da falibilidade de muito do que pode ser classificado como conhecimento a priori: como o mecanismo de formação das disposições inatas é indutivo e como todo o conhecimento que advém da indução é falível, os resultados cognitivos dessas disposições podem, em geral, ser falseados por novas experiências. É claro que essa conclusão não pode ser generalizada para conceitos metafísicos, como o de existência, e para princípios lógicos, como o da não-contradição, uma vez que seus designata são comuns tanto a qualquer pensamento quanto a qualquer coisa no mundo, assumindo que nada de incognoscível possa pertenceer a ele.[17] Mas eles são muito poucos.

   Uma última questão: estamos com a ideia de uma indução evolucionária esposando uma forma radical de empirismo? Creio que não. Mesmo que as disposições inatas sejam derivações indutivas da “experiência” da espécie, elas são, ainda assim, inatas, atuando de modo a constituírem pontos de partida estruturantes e direcionadores de nosso aprendizado. Seria mais correto dizer que estamos preconizando uma espécie de naturalismo, o que nos remete a um racionalista como Spinoza. Parece claro que a oposição histórica entre racionalismo e empirismo está sendo, aos poucos, superada.

 

7

 

Identidade. Como vimos, para Leibniz o critério de identificação de um objeto consiste na totalidade de suas propriedades. O problema é que só Deus seria capaz de aplicá-lo. O critério de identificação de objetos materiais a ser adotado por nós deve ser muito diverso, pois precisa ser suficientemente econômico para caber em nossas mentes. Os dois maiores candidatos ao papel de critério de identificação que podemos considerar são, no caso de um objeto material:

 

(i)               sua localização e carreira espaço-temporal e

(ii)             propriedades que mais o caracterizam.

 

Esse, por exemplo, é o caso do critério de identificação do Taj Mahal. Esse monumento tem um critério de localização espaço-temporal: desde o término de sua construção em 1653, ele se localiza junto à cidade de Agra, no norte da Índia. Mas ele também possui, como critério de identificação, propriedades caracterizadoras (isto é, a razão pela qual aplicamos o nome): no caso, a de ser um belíssimo mausoléu de mármore branco, com formas bem conhecidas, construído pelo imperador Shah Jahan para sua amada terceira esposa… A razão para privilegiarmos a localização espaço-temporal e as propriedades caracterizadoras como critérios é intuitiva. O teste para demonstrar isso é trivial: basta recorrer à sabedoria acumulada das enciclopédias. Qualquer uma que tenha um artigo sobre o Taj Mahal disponibilizará a localização espaço-temporal, juntamente com os caracteres essenciais, como critérios fundamentais para sua identificação.[18]

   Elementos espaço-temporalmente localizadores e/ou elementos essencialmente caracterizadores são os que nos permitem identificar objetos materiais. Eles precisam se fazer suficientemente presentes, mesmo que uma determinação mais precisa, capaz de aclarar casos limítrofes, seja impossível.

   Felizmente, tal determinação mais precisa costuma ser desnecessária. Podemos, por certo, imaginar uma situação contrafactual que torne incerta a aplicação dos critérios usuais. Imagine que nosso mundo não existisse, mas em compensação tivesse existido um mundo praticamente idêntico ao nosso, no qual um mausaléu chamado Daj Nahal muito parecido com o nosso Taj Mahal fosse construído, mas não foi por Shah Jahan, nem junto à Agra, mas por outra pessoa junto a Rishikesh no ano 1536 e não em 1653. Seria ele o nosso Taj Majal?  Parece que não... Ou talvez sim! – Não sabemos. Importante notar que, ao menos nas circunstâncias usuais – as que realmente importam. É sempre possível ao filósofo conceber situações insólitas em que nossos critérios relativamente imprecisos de localização e caracterização deixam de ser aplicáveis. Contudo, a existência de fronteiras indefinidas na aplicação de um conceito não é razão para nos tornarmos céticos quanto à sua aplicação. A vaguidade de nossa linguagem seria um acompanhante da vaguidade metafísica da própria realidade por ela representada.

   Observações semelhantes valem para os critérios de identificação de pessoas (ver Cap. IX, sec. 11). Aqui deve ser considerado um critério espaço-temporal de continuidade física (que não se resume à permanência do mesmo), sendo a isso adicionados critérios psicológicos de permanência, como o da memória, o das disposições de caráter e o das habilidades. Também aqui é impossível resolver casos limítrofes, o que não significa que os critérios usuais não sejam perfeitamente adequados aos casos ordinários com os quais efetivamente lidamos.[19] A linguagem natural é vaga. Se desejarmos um nível de precisão maior, bastará alterá-la, adotando, por convenção, critérios de identificação mais rigorosos.

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] A mais clara e recomendável introdução a Leibniz presentemente disponível é talvez a de Nicholas Jolley, Leibniz (Routledge 2025).

[2] “...em toda proposição afirmativa verdadeira, necessária ou contingente, geral ou singular, a noção do predicado se encontra, de algum modo, contida na noção do sujeito (o predicado está incluído no sujeito).” Leibniz, Carta a Arnauld, 14 de julho de 1686.

[3] G. W. Leibniz: Discours de Métaphysique (1686). Trad. port. Discurso de Metafísica. In Os Pensadores 19 (Abril Cultural 1974), sec. 8.

 

[4] Esse princípio não deve ser confundido com o princípio da indiscernibilidade dos idênticos, que nada tem de metafísico. Segundo esse último princípio, se os nomes a e b se referem à mesma coisa, então qualquer propriedade de a também será propriedade de b e vice-versa. Simbolicamente: (x = y) → (x) (y) (F) (Fx ↔ Fy).

[5] G. W. Leibniz, Principles of Nature and Grace, Founded on Reason, sec. 1. In Leibniz: Philosophical Writings, ed. G. H. R. Parkinson (J. M. Dent & Sons 1973).

[6] G. W. Lebniz, Monadologie (1614). Trad. port. Monadologia, sec. 56. In Os Pensadores XIX (Abril Cultural 1974).

 

[7] G. W. Leibniz, Monadologia, sec. 14.

[8] David Armstrong, The Nature of Mind and Other Essays (Cornel University Press 1981), cap. 4.

[9] David Rosenthal, Consciousness and Mind (Clarendon Press 2005). Essas teorias concorrem hoje com uma variedade de teorias de primeira ordem. Mas é plausível pensar na possibilidade do desenvolvimento de uma teoria mais abrangente, capaz de incluir o que há de verdadeiro nelas. cf. The Oxford Handbook of the Philosophy of Consciousness. Ed. U. Kriegel (OUP 2023).

[10] G. W. Leibniz, Correspondência com Clarke, sobre a sec. 7. In Os Pensadores XIX (Abril Cultural 1974).

[11] Ensaio sobre o entendimento humano (Calouste Gulbekian 1999) I, II, 18-19.

[12]  G. W. Leibniz, New Essays on Human Understanding (Cambridge University Press 1996), prefácio.

 

 

[13] Kant definiu o conhecimento a priori de forma forte, como aquele que mesmo dependendo da experiência, não é proveniente dela, tendo como marcas identificadoras a necessidade e universalidade (ver cap. XII, sec. 2).

[14] Maurice Bonjour pareceu aproximar-se disso ao admitir a falibilidade da justificação a priori. Ver “Is there a priori Knowledge?” in M. Steup e E. Sosa, Contemporary Debates in Epistemology (Blackwell 2005). Fica a questão de saber se vale a pena retermos o conceito; filósofos como Michael Devitt acham que não.

[15] Karl Popper, “O balde e o holofote: duas teorias do conhecimento.” In, K. R. Popper: Conhecimento objetivo. (Itatiaia-Edusp 1975) pp. 313-332. Outros ilustres defensores do que chamo de racionalismo crítico foram Jean Piaget e Noam Chomsky.

[16] M. T. Ghiselin, “A Radical Solution to the Species Problem.” Systematic Zoology 23 (4), 1974, pp. 536-544.

[17] É comum ouvir dizer que a física quântica refuta a não-contradição e coisas do gênero. Mas isso dependerá da interpretação da teoria que escolhermos, o que torna o assunto mais controverso do que possa parecer.

 

[18] J. L. Austin, o maior expoente da filosofia da linguagem ordinária, sugeriu que o filósofo deve começar sua lida com a consulta a dicionários. Ver J. L. Austin, Philosophical Papers (Clarendon Press 1991).

[19] Claudio Costa, “Definindo identidade pessoal”. In Arquiteturas conceituais (Dialética 2022) cap. 20.

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