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segunda-feira, 1 de junho de 2026

WITTGENSTEIN E OS LIMITES DO SENTIDO (Introdução histórica à filosofia, cap. XIII)

draft avançado do livro a ser publicado pela editora Europa (Roma)


  

 

 

 

XVIII

WITTGENSTEIN: OS LIMITES DO SENTIDO

O filósofo não é cidadão de nenhuma comunidade de ideias. É isso o que faz dele um filósofo.

Wittgenstein

 

 

Ludwig Joseph Johan Wittgenstein (1889-1951) tem sido visto como candidato ao título de “o maior filósofo do século XX.” Se o radicalismo  com que alguém se compromete com a reflexão filosófica é um parâmetro de julgamento, então há razões para acreditar que sim.

   De personalidade singular, Wittgenstein viveu uma vida marcada por aventuras e tormentos, em contraste com a grande maioria dos filósofos. Seu pai, Karl Wittgenstein, começou do nada e tornou-se um dos homens mais ricos da Europa, monopolizando a indústria do aço na Áustria. Era um homem dominador, que educava os filhos com exigências extremas, buscando transformá-los em capitães da indústria. O resultado foi trágico: três dos quatro irmãos de Wittgenstein se suicidaram. Percebendo o erro, Karl relaxou as exigências para com Wittgenstein, o caçula. Ao estudar engenharia, Wittgenstein apaixonou-se pela filosofia da matemática e, por conta própria, descobriu a incomparável obra de Frege, à época ignorada. Ele visitou Frege em Jena, que lhe recomendou ir a Cambridge para estudar com Bertrand Russell, o maior filósofo inglês do século XX. Em Cambridge, ele se tornou amigo de Russell, que logo o reconheceu como um gênio filosófico.

   Wittgenstein era homossexual, e parece ter tido algum grau de autismo.[1] Somados à intensa ambição herdada da educação paterna, esses fatores ajudam a explicar por que viveu atormentado, acompanhado pela ideia de suicídio.

   Russell se recorda de que Wittgenstein vinha visitá-lo tarde da noite e ficava andando de um lado para o outro sem dizer uma palavra. Russell temia que, se o mandasse embora, ele se suicidasse. Certa vez, perguntou: “Em que você está pensando? Em filosofia ou em seus pecados?” A resposta foi: “Provavelmente em ambos.” Outra lembrança de Russell é tê-lo convencido a assistir a uma corrida de botes em Cambridge. Wittgenstein foi, mas voltou furioso, justificando seu estado de espírito com a observação de que todo tempo que não é dedicado a ler obras geniais ou escrever obras geniais é tempo perdido!

   Wittgenstein se distinguiu da maioria dos filósofos acadêmicos por ter mantido um pé dentro da instituição universitária, que pessoalmente desprezava, e outro fora dela, o que deve ter contribuído para sua extrema originalidade. Após estudar com Russell, alistou-se no exército austríaco para lutar na Primeira Guerra Mundial. Não tinha boas razões para fazer isso, pois a guerra era iníqua, ele estava na Inglaterra e era judeu. Acredito que ele queria vivenciar situações extremas como uma forma de se encontrar. Percebendo que os oficiais receavam enviá-lo à frente da batalha, ele os procurou, declarando que se suicidaria se não o mandassem de pronto para uma posição arriscada. Eles o enviaram então para um posto de observação avançado, à noite, quando o bombardeio era mais intenso. Ele quase morreu, sim, mas de medo, por sorte voltando sem um arranhão sequer.

   Mais tarde, em uma das piores batalhas no fronte russo, a imensa maioria dos soldados foi morta, mas, outra vez, ele saiu ileso. Teve sorte. Como mais tarde comentou: “Onde quer que esteja, você sempre precisará de um anjo bom.” Nas trincheiras, escreveu o livro que resume a sua primeira filosofia: o Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1921.[2]

   Após o Tractatus, julgando ter esgotado o que tinha de importante a dizer, ele decidiu ir viver a vida simples das pessoas comuns. Empregou-se por algum tempo como aprendiz de jardineiro. Tentou ingressar em um mosteiro, mas foi rejeitado por falta de vocação. Buscava a pureza. Acabou decidindo ser mestre-escola em vilarejos pobres no interior da Áustria, profissão que exerceu por sete anos. Os camponeses em geral não gostavam dele, pois era pretensioso e demasiado severo com os alunos. Na época os professores batiam nos meninos, mas poupavam as meninas. Wittgenstein era mais “democrático”: batia em todos, sem distinção. Ajudava os bons alunos, mas era o terror dos mais fracos. Uma aluna, anos mais tarde, se recordou de que, certa manhã, irritada com as reprimendas de Wittgenstein, decidiu não responder às perguntas. Ele a puxou pelos cabelos. Ela continuou quieta. Ele repetiu o gesto, sem resultado. Ele a olhou de modo inquisitivo. Então a levou para outra sala, pediu que se sentasse em uma cama e perguntou: “Você não está passando bem? Está com dor de cabeça?” Ela mentiu dizendo que sim. Tomado de remorso, ele se ajoelhou diante dela, mãos em prece, e rogou: “Me perdoe!” Essa história demonstra um senso de retidão moral inocente e radical, junto a uma má leitura do que se passava nas mentes dos outros – ambos sintomas de autismo.

   No sétimo ano ocorreu o incidente. Wittgenstein deu um tapa na orelha de um garoto que desmaiou. Assustado, ao sair da escola, deu de caras com um camponês hostil, que lhe disse que uma pessoa assim serviria mais para domador de ursos do que para mestre-escola e que iria chamar a polícia. Como não havia policiais na aldeia de Trattenbach naquele dia, nada aconteceu. Mas ele teve de fugir a pé para Viena durante a noite e, meses depois, teve de mentir em um processo, o que feriu profundamente seu amor-próprio.[3] De volta ao palacete da família em Viena, passou a receber, em 1929, frequentes visitas dos positivistas lógicos, que queriam que ele lhes explicasse o Tractatus. Isso reacendeu seu interesse pela filosofia. Acabou retornando a Cambridge, onde passou a ministrar aulas semanais nas quais expunha suas reflexões aos estudantes. O resultado foi uma filosofia inteiramente nova.

   Essa nova filosofia, em certos aspectos oposta à do Tractatus, perseguia o mesmo objetivo: delimitar os contornos da linguagem significativa e dissolver as confusões filosóficas que surgem quando esses limites são transgredidos – confusões que sempre assombraram o pensamento filosófico. Em certa medida, o projeto de Wittgenstein pode ser considerado kantiano; porém, em vez de realizar uma crítica dos limites do pensamento, ele buscou criticar os usos filosóficos de uma linguagem cujo significado não pode ser mais que aparente.

   A filosofia do Tractatus, inspirada na lógica fregeana, buscava mostrar como a linguagem poderia ser analisada logicamente, de modo a evidenciar as condições mínimas para que ela pudesse espelhar o mundo de forma representacional. Assim se estabeleceriam os limites externos da linguagem, cuja transgressão conduziria a confusões filosóficas passíveis de dissolução pela análise lógica. Já em sua última filosofia, ele voltou-se para as transgressões dos limites internos da linguagem; confusões filosóficas derivadas do mau uso de termos pertencentes à linguagem natural, que seriam desfeitas por meio de um exame mais atento de como as palavras são realmente usadas.

   Através dessa nova filosofia, cujas ideias centrais encontram-se condensadas no livro Investigações filosóficas[4], Wittgenstein buscou mostrar como limites internos da linguagem natural – os limites entre suas diferentes regiões – quando transpostos, também conduzem a confusões filosóficas.[5] Para bem compreendê-las, é preciso escavar nas milhares de páginas por ele escritas desde 1929, que ele só permitiu publicar após a sua morte. Wittgenstein faleceu de câncer em 1953, aos 62 anos. Até dois dias antes de morrer, ele trabalhou intensamente em um manuscrito profundamente original, que mais tarde seria publicado sob o título de Sobre a certeza.[6]

 

1

 

Figuração. Comecemos com um breve exame da filosofia do primeiro Wittgenstein, tal como exposta no Tractatus. Como vimos no capítulo dedicado a Aristóteles, ele foi guiado pela estrutura da linguagem na busca dos fundamentos de sua metafísica. As frases declarativas mais simples de nossa linguagem têm a estrutura sujeito-predicado, por exemplo: “Sócrates é um homem”. Como já vimos (Cap. III, sec. 2), partindo do pressuposto de que a linguagem espelha o mundo, Aristóteles concluiu, no livro das Categorias, que os dois elementos fundamentais da realidade são a referência do sujeito – o indivíduo (Sócrates), como substância primeira – e a referência do predicado – seu atributo essencial (ser um homem), como substância segunda.

   Wittgenstein, acompanhado por Bertrand Russell, seguiu um caminho semelhante. Mas com uma diferença crucial. A análise da linguagem feita por Aristóteles seguia a lógica aristotélica, enquanto a espécie de atomismo lógico praticada por Wittgenstein e Russell se inspirava na lógica fregeana. No final do século XIX Gottlob Frege, um filósofo de formação matemática, produziu uma revolução na lógica tradicional, tornando aquilo que havia sido iniciado por Aristóteles um instrumento imensamente mais poderoso e abrangente. Sua contribuição para a filosofia da matemática e da linguagem foi igualmente decisiva, embora também técnica e específica.

   A nova análise da linguagem permitiu mostrar que a estrutura lógica de nossos enunciados pode diferir grandemente de sua estrutura gramatical. Muitos filósofos, no passado, foram induzidos ao erro ao acreditarem que a estrutura gramatical coincidia com a estrutura lógica, sendo a mesma daquela que é pensada.

   Um exemplo claro dessa disparidade, evidenciado pela lógica quantificada desenvolvida por Frege, foi apresentado por Russell em sua teoria das descrições. Considere a sentença (i) “O atual rei da França é calvo”. Do ponto de vista gramatical, ela tem a mesma forma de (ii) “Sócrates é um homem”, ou seja, a de uma frase do tipo sujeito-predicado. Um metafísico como Alex Meinong sugeriu que, em casos como (i), para que a predicação seja possível, é preciso que o referente do sujeito subsista, mesmo que não exista. Mas isso tem o inconveniente de superpovoar o universo com uma quantidade inumerável de entidades subsistentes. Insatisfeito com essa solução, Russell sugeriu, com base na lógica fregeana, que a sentença (i) possui uma estrutura lógica completamente distinta de sua estrutura gramatical.[7] Para ele a sentença (i) deve ser analisada como a conjunção de três sentenças:

 

1.     Existe ao menos um rei da França atualmente.

2.     Existe, no máximo, um rei da França atual.

3.     Ele é calvo.

 

Assim, o nome vazio ‘o atual rei da França’ desaparece, dando lugar a predicações quantificadas. Como a primeira sentença é falsa, a conjunção de 1, 2 e 3 também é falsa, o que torna a frase “O atual rei da França é calvo” falsa.

   A diferença entre os enunciados (i) e (ii) fica mais clara quando os expomos formalmente. Chamando o predicado ‘...atual rei da França’ de F e ‘...é calvo’ de C, chamando a expressão ‘existe ao menos um...’ de , usando o parêntese (...) para expressar o designador ‘todos’, as três sentenças podem ser formalizadas pela correspondente conjunção de (1) (x) x (Fx), (2) (y) (Fy y = x) e (3) Cx. Desse modo, a sentença (i) fica sendo:

 

(x) [x(Fx) & (y)(Fy y = x) & Cx]

 

Em contraste, a estrutura lógica da sentença (ii) “Sócrates é um homem”, é muito mais simples. Se chamarmos o nome ‘Sócrates’ de s e o predicado ‘... é um homem’ de H, a formalização de (ii) fica sendo:

 

Hs

 

Retornando à análise de (i), vemos que o sujeito vazio ‘o atual rei da França’ desapareceu, dando lugar aos predicados F e C aplicados a variáveis. Isso elimina a necessidade de postularmos um atual rei da França subsistente. Para Russell, foi justamente a inconsciente assimilação da estrutura lógica complexa de (i) à estrutura gramatical do tipo sujeito-predicado em (ii) que levou filósofos como Meinong à confusão metafísica que gerou a ideia de que aquilo que não existe precisa ao menos subsistir.

   No Tractatus, Wittgenstein foi profundamente influenciado pela descoberta de que a estrutura lógica e a gramatical podem ser muito diversas. Seu pressuposto básico era que a nossa linguagem corrente, quando completamente analisada em seus constituintes lógico-metafísicos, deve demonstrar-se profundamente diferente e supostamente muito mais complexa do que sua estrutura gramatical de superfície parece evidenciar. Como ele escreveu:

 

A linguagem corrente é parte do organismo humano e não menos complicada do que ele. Dela é humanamente impossível extrair imediatamente a lógica da linguagem. A linguagem disfarça o pensamento a tal ponto que, da forma externa de sua roupagem, não somos capazes de inferir a forma subjacente do pensamento, já que a forma externa da roupagem serve a fins inteiramente diferentes dos de revelar a forma do corpo.[8]

 

A ideia aqui sugerida é que as frases (Sätze)[9] declarativas empíricas da linguagem corrente, particularmente as da linguagem factual da ciência, devem ser entendidas como funções de verdade de frases elementares, que são as frases da linguagem completamente analisada. A noção fregeana de função de verdade é aqui fundamental. Para Frege, o valor-verdade (a verdade ou falsidade) das frases declarativas compostas é dependente dos valores-verdade das frases declarativas simples que as constituem.

   Considere, por exemplo, a frase: “É meio-dia e faz calor”. Ela é composta pela conjunção das frases “Está chovendo” e “Faz calor”. Na lógica do conectivo ‘e’ (da conjunção), a frase composta só é verdadeira se ambas as frases componentes forem verdadeiras. Isso significa que o valor-verdade dessa frase composta é função de verdade dos valores-verdade de suas frases componentes. Ele resulta de uma certa combinação lógica desses valores.

   Outras frases declarativas compostas pelos conectivos lógicos com ‘ou’, ‘não’, ‘se... então’ e ‘se e somente se’ também são funções de verdade de suas frases componentes, cada qual ao seu modo.

   A hipótese especulativa do Tractatus é que as frases de nossa linguagem, quando completamente analisadas em seus componentes, expressam o que ele chamou de pensamento (Gedanke). Em carta a Russell, ele chegou a conceber o pensamento como um evento mental.[10]

   As frases, quando totalmente analisadas de modo a corresponder perfeitamente ao que pensamos por meio delas – isto é, a linguagem sem suas roupagens comunicacionais – seriam formadas pelo que Wittgenstein chamou de frases elementares (Elementarsätze). Ele sugeriu que tais frases elementares fossem constituídas por concatenações de nomes (Namen), que se referem diretamente aos objetos simples no mundo (Gegenstände).

   Esses objetos precisam ser simples; caso contrário, a análise precisaria prosseguir indefinidamente. Assim, o nome ‘Escalibur’ na frase “Escalibur tem uma lâmina afiada” não pode ser um nome no sentido em questão, pois designa uma espada, que é um objeto composto e não simples. Por serem simples, os objetos do mundo são também imutáveis e indestrutíveis: eles são a substância do mundo.[11]

   Uma característica essencial desses nomes é que não podem ser vazios: referem-se necessariamente aos objetos simples que lhes correspondem. Os objetos simples concatenam-se em cadeias de modo a formar fatos atômicos chamados por ele de estados de coisas (Sachverhalten) no mundo, cujos objetos se encontram em correspondência biunívoca com os nomes que constituem as frases elementares que os representam.

   Os estados de coisas, por sua vez, combinando-se, formam os fatos (Tatsachen), que correspondem a frases de nossa linguagem corrente. O mundo nada mais é do que a totalidade dos fatos; e a linguagem é a totalidade das frases verdadeiras e falsas. Através de suas frases verdadeiras, a linguagem espelha o mundo em correlações que podem ser resumidas no seguinte diagrama:

 

LINGUAGEM:                                     MUNDO:

Frases da linguagem factual..................fatos empíricos

Frases elementares.................................estados de coisas

Nomes....................................................objetos simples

 

Essa teoria especulativa – segundo a qual as frases de nossa linguagem poderiam ser analisadas como funções de verdade de frases elementares que expressam pensamentos – não é tudo. Wittgenstein acrescentou a ela uma teoria da representação, mostrando como as frases elementares são capazes de representar estados de coisas. Trata-se de sua famosa teoria pictórica ou teoria da figuração (Bildtheorie).[12]

   Ele teve essa ideia em Paris, ao observar como um acidente de tráfego era julgado em um tribunal. Os carros e as pessoas eram representados por miniaturas e bonecos, dispostos em uma configuração correspondente àquela em que os objetos reais se teriam encontrado no momento do acidente. Ora, pareceu-lhe claro que algo semelhante deve acontecer com as frases elementares da linguagem e com os estados de coisa por elas representados. Só que de maneira abstrata.

   Antes de explicar como funciona a figuração, é preciso introduzir outro insight extraordinário de Wittgenstein, segundo o qual, para que exista representação (ou figuração), deve haver algo em comum entre aquilo que representa e aquilo que é representado. Considere, por exemplo, o caso da escultura de um busto humano. O elemento comum entre a escultura e o modelo é o espaço tridimensional. Em uma pintura naturalista e em uma fotografia, o elemento bidimensional do espaço é preservado. Considere agora o caso de uma peça musical. O que há de comum entre a música, tal como foi criada, e uma performance posterior pela orquestra é que tanto a figuração quanto o afigurado precisam se dar no curso do tempo.

   Mas o que dizer de uma frase verdadeira em nossa língua? O que há de comum entre ela e aquilo que ela representa? Certamente, nenhum meio espaço-temporal. A resposta de Wittgenstein foi que o elemento comum deve ser a estrutura ou a forma lógica. Para ele, o pensamento expresso pela frase elementar verdadeira é a figuração lógica de um estado de coisas.[13]

   Como Wittgenstein não forneceu exemplo algum de frase elementar, quero lançar mão aqui de dois exemplos meramente ilustrativos aos quais podemos aplicar a ideia de figuração, cuja importância, aliás, não se resume a seu papel na metafísica do Tractatus.[14] Suponha que em contextos demonstrativos sejam proferidas as frases:

 

(i)               O carro é amarelo.

(ii)             O gato come a ração.

 

Suponha também que ambas sejam verdadeiras. Não há nada de espaço-temporalmente comum entre as frases (i) e (ii) e os fatos correspondentes. Mas, se considerarmos a questão com mais cuidado, veremos que há algo em comum entre essas representações simbólicas e aquilo que elas representam: a mesma estrutura ou forma lógica, o que as torna representações de fatos.

   Para esclarecer, suponha que decidamos representar formalmente a frase (i) como Ac, em que c designa o carro c’ e A designa sua cor amarela A’. Suponha também que a frase (ii) seja representada como aCb, em que a designa o gato a’, C designa a ação de comer C’ e b designa a ração b’. Vemos que Ac tem a mesma estrutura que o fato A’c’ (de que o carro c’ é amarelo A’) e que aCb tem a mesma estrutura que o fato a’C’b’ (de que certo gato a’ se encontra na relação de estar comendo C’ uma certa ração b’).[15] A conclusão é que a identidade entre a forma lógica daquilo que representa e aquilo que é representado é a condição última necessária a qualquer relação afigurante em que a frase seja verdadeira.

   Aplicando as ideias acima à frase elementar, Wittgenstein sugeriu que a figuração depende das duas condições seguintes:

 

A relação afigurante consiste na correlação entre os elementos da figuração e as coisas.[16]

O fato de os elementos da figuração estarem relacionados uns aos outros de determinada maneira indica que as coisas estão relacionadas umas às outras da mesma maneira. (grifos meus)[17]

 

Ou seja: em frases elementares verdadeiras deve haver (i) uma correlação direta, de um para um (biunívoca), entre os nomes e seus objetos. Além disso (ii), esses nomes devem estar relacionados entre si do mesmo modo que os objetos por eles representados.

   Além disso, as relações entre os nomes pertencentes à frase elementar (associados uns aos outros de determinado modo) e os objetos correspondentes (associados uns aos outros do mesmo modo) são para ele imediatas:

 

As correlações são, por assim dizer, como antenas dos elementos da figuração, com as quais a figuração toca a realidade.[18]

Um nome está para uma coisa, o outro está para outra coisa e eles estão combinados uns com os outros. Dessa maneira todo o grupo – como um tableau vivant – apresenta um estado de coisas.[19]

 

O que essas considerações sugerem é uma versão mais sofisticada da teoria correspondencial da verdade, explicitamente defendida na tradição pelo menos desde Sto. Tomás de Aquino. No Tractatus, a correspondência é entendida como um isomorfismo estrutural entre a figuração e o estado de coisas.[20] Uma frase elementar é verdadeira quando seus nomes estão concatenados do mesmo modo que os objetos simples a que se referem estão concatenados. E uma frase elementar é falsa quando seus nomes estão concatenados de uma maneira diferente daquela pela qual os objetos simples a que se referem estão concatenados. Já as frases compostas são verdadeiras como função de verdade das frases elementares, de modo que sua verdade ou falsidade acaba por depender exclusivamente dos valores-verdade das frases elementares.

   Voltando aos nossos exemplos ilustrativos, a frase Ac (“O carro é amarelo”) é verdadeira quando A’c’ é um fato, e a frase aCb (“O gato come a ração”) é verdadeira quando a’C’b’ é um fato. O isomorfismo estrutural entre as frases verdadeiras e os fatos por elas representados fica aqui claramente demonstrado. Essas mesmas frases, porém, tornam-se falsas quando não há correspondência com os estados de coisas reais. Assim, digamos que o carro é verde e que, por isso, ele não é amarelo, ou que o gato rejeita a ração e que, por isso, ele não a come. As frases verdadeiras nesses últimos casos terão (i) a forma ~Ac (dado que, simbolizando verde por V, “Vc & (Vc ~Ac), logo ~Ac”), e (ii) a forma ~aCb (dado que, simbolizando por R a recusa a comer, “aRb & (aRb ~aCb), logo ~aCb)”.

   Junto a essa teoria da verdade como correspondência, o Tractatus contém uma teoria referencialista do significado. O significado de um nome é tão somente o objeto simples ao qual ele se refere: “Um nome significa um objeto; o objeto é o seu significado (Bedeutung)”.[21] Quanto à questão de se saber qual é o sentido (Sinn) da frase elementar, Wittgenstein escreveu:

 

Uma frase mostra o seu sentido. Uma frase mostra como as coisas são se ela é verdadeira. E diz que elas são assim.[22]

Ao invés de “essa frase tem tal e tal sentido” nós podemos simplesmente dizer “essa frase representa tal e tal situação”.[23]

 

À primeira vista, pode parecer que ele entende o sentido (ou significado) da frase como o estado de coisas efetivamente existente no mundo. Mas isso tornaria sem sentido as frases falsas, dado que elas não se referem a estados de coisas reais. Por isso, o sentido ou significado da frase é melhor explicado como o possível estado de coisas que ela representa.[24]

 

2

 

Mística. Com a sua teoria da figuração, Wittgenstein pretendeu explicar como é possível a linguagem da ciência empírica. Mas o que dizer da linguagem do próprio Tractatus? Para ele, a teoria da figuração não poderia ser aplicada a si mesma. Além disso, filosofia, lógica, matemática, ética, estética, religião e sentido da vida não possuem, para ele, linguagem propriamente factual, ficando excluídos de sua teoria. O que dizer de seus significados?

   A resposta está na chamada mística do Tractatus. Ele introduziu aqui uma distinção importante entre o dizer (sagen) e o mostrar (zeigen). A linguagem factual da ciência empírica, explicada pela teoria da figuração, é a única capaz de nos dizer como as coisas são. Outras linguagens são capazes apenas de mostrar.

   Um exemplo é a lógica. As frases da lógica são tautologias (sempre verdadeiras) ou contradições (sempre falsas). Uma tautologia como “p v ~p” pertence à lógica, sendo sempre verdadeira. Ela é instanciada por frases como “Está chovendo ou não está chovendo”, que são sempre verdadeiras. Do mesmo modo, frases contraditórias da forma “p & ~p” são sempre falsas. Tautologias e contradições são frases degeneradas, incapazes de nos dizer algo sobre o mundo. Elas não nos dizem nada, mas mostram o que são tautologias e contradições.

   O mesmo ocorre com a forma lógica. Não somos capazes de dizer o que é a forma lógica, mas apenas de mostrá-la por meio de exemplos. E a razão disso é que a forma lógica é comum tanto à linguagem quanto ao mundo. Por sua própria ubiquidade, ela se encontra além de qualquer possibilidade de figuração pela linguagem.

   O mesmo vale para a teoria desenvolvida no Tractatus. Ao falar de como a linguagem factual é capaz de dizer algo sobre o mundo, Wittgenstein precisa ir além dela, penetrando no domínio do que pode ser apenas mostrado. O Tractatus é, portanto, um instrumento: não uma doutrina definitiva, mas um meio para alcançar maior clareza na compreensão de nossa representação linguística do mundo empírico. Como ele escreveu:

 

Minhas frases esclarecem na medida em que aquele que me compreende, no final, as reconhece como sem sentido quando sobe por elas – sobre elas – além delas. (Ele precisa, por assim dizer, lançar a escada fora após ter subido por ela.) Ele precisa superar essas frases para então ver o mundo corretamente.[25]

O que não pode ser dito deve ser calado.[26]

 

A diferença importante está entre o que Wittgenstein considera sem sentido (sinnlos) e absurdo (unsinnig). A filosofia do Tractatus é destituída de sentido factual, pois não pode ser apreendida pela própria teoria da figuração que expõe. Ela nada nos diz sobre como o mundo é. Mas nem por isso é absurda, dado que mostra os limites da linguagem e nos orienta para além deles.

  Quanto à filosofia tradicional, a posição de Wittgenstein parece ter sido dupla. Uma teoria como a de Meinong, se vista como resultado de uma confusão lógica, seria julgada absurda (unsinnig). Já a filosofia de Schopenhauer, que ele leu na juventude e que lhe causou grande impressão, seria considerada apenas sem sentido factual (sinnlos). Para ele, as frases desse filósofo não podem ser tomadas literalmente, pois não dizem nada propriamente verdadeiro sobre o mundo empírico. Mas elas são expressivas; dispõem-nos a certas atitudes; mostram algo acerca do mundo e de nós mesmos, algo que ultrapassa o alcance da linguagem factual. Para Wittgenstein, o mesmo se pode dizer de nossos julgamentos morais e das frases da estética e da religião.

   Podemos nos perguntar se, com sua mística, Wittgenstein não tentou abarcar uma variedade excessivamente ampla de coisas por meio de uma única distinção, ela própria questionável. Rudolf Carnap criticou-o por ser inconsistente: se não podemos formular frases filosóficas, então por que escrever um livro inteiro de filosofia, em vez de ficar em silêncio?[27] E o amigo Frank Ramsey ironizou: “O que não pode ser dito, não pode ser dito e nem sequer assoviado.”[28]

   Contra o modo de pensar de Wittgenstein, parece possível entender a teoria exposta no Tractatus como uma metalinguagem. Nesse caso, a sua teoria da relação afigurante entre a linguagem factual e o mundo poderia ser vista como uma teoria metalinguística, sujeita às mesmas exigências que descreve, mas agora aplicadas à relação entre ela própria e a linguagem factual. Além disso, por que aCb não pode afigurar, de modo metalinguístico, a própria forma lógica expressa pela frase “O gato come a ração”? E por que a ideia de figuração não pode ser aplicada também à matemática e até a outros domínios não primariamente factuais do conhecimento?

   Finalmente, que julgamento podemos fazer sobre o Tractatus? A maneira mais generosa de avaliá-lo consiste em vê-lo como um esplêndido texto de metafísica especulativa, à semelhança da Monadologia de Leibniz. O livro apresenta um mundo logicamente possível, mas empiricamente impossível, dado que objetos simples e estados de coisas elementares não são passíveis de existência. Ainda assim, trata-se de uma concepção imponente, da qual insights importantes podem ser recuperados. Afinal, sem a ideia de figuração não temos sequer como conceber nossa capacidade de representar.

 

3

 

Terapia. A última filosofia de Wittgenstein, provavelmente influenciada pelos anos em que viveu como mestre-escola, caracterizou-se por uma radical alteração metodológica, que enfatiza o exame dos usos ordinários da linguagem.

   A hipótese fundamental do Tractatus, segundo a qual as frases factuais de nossa linguagem corrente são sempre analisáveis como funções de verdade de frases primitivas de estrutura completamente diversa, foi abandonada. Em sua última filosofia ele deixou de conceber a linguagem factual como demandando uma análise lógica profunda e inevitável, mas como uma mera decomposição em segmentos. Passou a tratá-la metodologicamente como capaz de “decomposição” em segmentos também pertencentes a ela mesma: “a filosofia deixa tudo como está”.[29]

   Uma mudança radical foi feita em sua teoria do significado. No Tractatus ele sustentava uma forma de referencialismo semântico na qual o significado do nome seria a sua referência. Contudo, problemas com essa concepção saltam à vista: se roubam a minha carteira, não roubam o significado da expressão “minha carteira”; se a pessoa de nome NN morre, não morre com ela o significado de NN; as expressões nominais ‘Napoleão’ e ‘o homem do destino’ tem sentidos diferentes, embora se refiram à mesma pessoa; nomes sem referência como ‘Eldorado’ e ‘Vulcano’ nem por isso deixam de ter significado.

   Mesmo quando os termos são aprendidos em situações indexicais, o referencialismo falha. Imagine, para exemplificar, que o significado do termo ‘vermelhão da China’ seja aprendido por meio de um exemplo – digamos, um modelo de cor apresentado. Seria o modelo o seu significado? Obviamente não. Esse modelo é memorizado e associado ao nome da cor, de modo que a pessoa consegue reconhecer a cor quando lhe é apresentada e lhe dar o mesmo nome. Não obstante, o significado do termo não é o modelo, mas o elo semântico entre a palavra e a coisa, que não pode ser outro senão alguma regra cognitiva que associa a palavra ao modelo e aos seus similares no mundo. O mais próximo que chegamos de admitir uma teoria referencialista do significado é aceitar que, em casos como esse, o contato experiencial com a propriedade – de modo a permitir a formação da regra semântica semântico-cognitiva – é imprescindível (um cego não terá como aprender o significado fenomenal do termo ‘vermelhão da China’).

   Rejeitando o referencialismo, Wittgenstein acabou por concluir que o significado de uma palavra deve consistir em seu uso,[30] melhor dizendo, em seu modo de uso. Isso fica bem explícito em uma de suas últimas observações sobre a questão:

 

O significado de uma palavra é seu modo de aplicação (Art der Verwendung)... Assim, há uma correspondência entre os conceitos de ‘sentido’ e ‘regra’.[31]

 

Ou seja: o uso aqui é o modo de uso, o uso correto, o que conduz às regras que determinam usos episódicos da palavra. Por conseguinte, o conceito de significado deve corresponder ao de regra. É possível até mesmo dar um passo além do que ele escreveu, admitindo que o significado de uma expressão (palavra, frase) possa ser reduzido às regras ou (como veremos) a combinações de regras com base nas quais realizamos usos episódicos da mesma.

   Wittgenstein também percebeu que o uso de uma expressão ocorre sempre em um contexto que estabelece as regras de sua aplicação. Isso é importante porque, muitas vezes, ao alterarmos o contexto em que inserimos uma expressão, teremos de aplicar regras diferentes, o que resulta em usos diversos, a saber, em nuances de significado distintas. Ele decidiu dar a esse contexto de uso da expressão o nome de jogo de linguagem (Sprachspiel) ou prática linguística (Praxis) ou mesmo região da linguagem (sprachliche Region), quando descritivamente mais extenso.

   Nas Investigações filosóficas ele apresentou uma lista de jogos de linguagem:

 

Comandar e agir segundo comandos / Descrever um objeto conforme aparências ou conforme medidas / Desenhar um objeto segundo uma descrição / Relatar um acontecimento / Conjecturar sobre o acontecimento / Expor uma hipótese e prová-la / Apresentar os resultados de um experimento por meio de tabelas e diagramas / Inventar uma história/ ler / Representar teatro / Cantar uma cantiga de roda / Resolver enigmas / Inventar uma anedota, contar / Resolver um exemplo de cálculo aplicado / Traduzir de uma língua para outra / Pedir, agradecer, maldizer, saudar, orar. (...)[32]

 

Para ele, a nossa linguagem é constituída por um número ilimitado de jogos de linguagem ou de práticas linguísticas.

   Para esclarecermos o que é um jogo de linguagem, podemos recorrer à distinção semiótica entre regras sintáticas, semânticas e pragmáticas.[33] Uma linguagem é um sistema de regras. Suas regras são sintáticas quando estabelecem relações entre os signos, por exemplo, a ligação entre o termo geral e o termo singular em uma frase predicativa, ou a relação de conjunção entre duas frases. As regras semânticas são as que relacionam a linguagem aos objetos por ela referidos. Por exemplo: a regra que relaciona um nome ao seu referente, uma frase ao fato por ela referido. Há, por fim, a dimensão pragmática, a exemplo das regras que estabelecem o tipo de relação entre o falante e o ouvinte (as forças ilocucionárias), como as de dar uma ordem, fazer um pedido, uma pergunta, uma promessa, etc.

   Considerando os inúmeros exemplos de jogos de linguagem apresentados por Wittgenstein, podemos, quase sempre, caracterizá-los como sistemas de regras sintáticas, semânticas e pragmáticas. Mesmo que nem todos os jogos de linguagem precisem ter a conjunção dessas três espécies de regras, sua presença é o que mais os tipifica. Isso fica claro mesmo nos jogos de linguagem mais simples por ele exemplificados, como o do pedreiro e seu ajudante:[34]

 

Um pedreiro diz ao seu ajudante: “Traga aquela tábua!” O ajudante lhe traz a tábua indicada. Pouco depois, o pedreiro lhe diz: “Traga dois tijolos!” O ajudante lhe traz os dois tijolos.

 

Na segunda frase, há uma regra sintática que liga as palavras ‘tijolo’ e ‘dois’. Nesses proferimentos, há regras semânticas que ligam a palavra ‘tábua’ ao objeto apontado e a palavra ‘tijolo’ ao tipo de objeto referido. E há também pelo menos uma regra pragmática (ilocucionária): o pedreiro está dando ordens ao seu ajudante, que deve trazer-lhe os objetos referidos. Nos escritos de Wittgenstein, jogos de linguagem ou práticas linguísticas podem variar imensamente, mas é comum que contenham esses três tipos de regras.[35]

   Na concepção de Wittgenstein, a linguagem pode ser decomposta das mais diversas maneiras em um número indeterminado de jogos de linguagem.[36] No Livro Marrom ele comparou a linguagem com uma nebulosa e nas Investigações ele a comparou com uma grande cidade antiga. Vale a pena citar:

 

A linguagem do adulto apresenta-se aos nossos olhos como uma massiva nebulosa, a linguagem natural, rodeada por jogos de linguagem mais ou menos definidos, que são as linguagens técnicas.[37]

Nossa linguagem pode ser vista como uma velha cidade: um novelo de pequenas ruas e pracinhas, velhas e novas casas e casas com construções de diversas épocas; e isso tendo como contorno uma porção de novos bairros com ruas retas e regradas e casas idênticas.[38]

 

Para Wittgenstein, somos capazes de dividir a linguagem natural de múltiplas e variadas maneiras em jogos de linguagem.[39] De modo similar, podemos dividir uma cidade em bairros (práticas) ou, digamos, em zonas (regiões da linguagem), que podem incluir uma variedade de bairros. Podemos ter um condomínio de casas, grupos de casas ou simplesmente casas (jogos de linguagem), etc. O centro antigo da cidade corresponde à linguagem natural, enquanto os novos bairros, com suas casas e ruas planejadas, correspondem às linguagens científicas posteriores, que dependem da primeira para serem compreendidas. (Eis por que dar primazia à linguagem científica, em detrimento da linguagem ordinária, sem maiores considerações, pode ser colocar a carroça diante dos bois.)

   Convém notar que essa divisão em jogos de linguagem é muito mais variada e flexível do que as distinções entre tipos de interações linguísticas mais tarde sistematicamente investigadas por filósofos como J. L. Austin, John Searle e mesmo Jürgen Habermas. Como veremos, a maior utilidade da noção de jogo de linguagem é instrumental; ela serve ao aspecto terapêutico da filosofia de Wittgenstein. Importa também que sejamos capazes de reconhecer, interpessoalmente, o uso episódico de uma expressão como pertencente a uma certa maneira de dividir a linguagem, a um jogo de linguagem. Sem esse compartilhamento, a comunicação de um mesmo significado se tornaria impossível. Mas se podemos compartilhar localizações dentro de uma cidade antiga, múltipla e variadamente subdivisível, sem maiores problemas, por que não podemos fazer o mesmo com a linguagem?

   Além de uso, regra e jogo de linguagem, um último conceito semântico fundamental é o de forma de vida (Lebensform), que, para Wittgenstein, é “o dado”, vale dizer, aquilo que precisa ser aceito como mais fundamental e que poderíamos tentar caracterizar como todo o complexo de atividades linguísticas e não linguísticas que caracterizam a vida das pessoas em um meio social e físico específico. Para ele, é a forma de vida que provê os fundamentos últimos do significado, não sendo possível uma linguagem significativa que não esteja nela enraizada. Acredita-se que a noção de forma de vida tenha sido inspirada pela leitura que Wittgenstein fez de um artigo do antropólogo Bronislaw Malinowski, no qual defendia que só somos capazes de compreender a linguagem de um povo primitivo quando participamos da maneira como ele vive. Em um de seus exemplos: nós só compreendemos o significado da expressão ‘remamos em um lugar’ usada pelos nativos das ilhas Trobiand se soubermos que as águas ao redor daquelas ilhas são muito profundas, não permitindo varar a canoa, o que exige que se reme até chegar a alguma vila, aqui chamada de ‘lugar’.[40] Uma das melhores qualidades de Wittgenstein como filósofo foi saber ver as implicações de uma boa ideia.

   O conceito de forma de vida é importante porque os usos de nossas expressões, produzidos pelas regras constitutivas dos jogos de linguagem nos quais elas ocorrem, só chegam a fazer sentido por estarem enraizados no interior de uma forma de vida. É justamente por não se encontrar devidamente enraizado em uma forma de vida biológica que o uso de uma palavra por um computador, por exemplo, jamais poderá adquirir significado, a menos que seja interpretado por nós mesmos. Além disso, a linguagem natural enraíza o significado na forma de vida, enquanto uma linguagem pretensamente científica, mas que tenha perdido qualquer relação de dependência com os conceitos da linguagem natural – como é comum acontecer na filosofia – torna-se etérea e vazia.

   Juntando tudo o que dissemos acima, podemos agora arriscar uma definição reconstrutiva do significado no último Wittgenstein:

 

(I)               Um significado de uma expressão W (Df.) = um modo de uso de W estabelecido por regras ou combinações de regras de um jogo de linguagem enraizado em uma forma de vida.

 

Note que aqui identificamos o significado não apenas com regras, mas também com combinações de regras. A expressão ‘dois tijolos’ nos leva a combinar as regras. Wittgenstein brincou com a ideia de combinação de regras ao aproximar o significado de um cálculo; afinal, o significado de uma conta em aritmética parece residir no cálculo que produz sua solução.[41] A definição (I) proporciona o que, nas palavras de Wittgenstein, poderia ser chamado de uma representação panorâmica (übersichtliche Darstellung) da gramática do conceito de significado.[42]

   Podemos nos perguntar: para que serve essa maneira de entender o significado voltada à aplicação cotidiana de nossas expressões? Ora, ela serve como um artifício pelo qual somos capazes de identificar as nuances corretas no uso de nossas palavras e, assim, refutar as transgressões sutis dos limites internos da linguagem, comuns à filosofia praticada como metafísica no sentido negativo da palavra. Essa ideia é especialmente relevante se considerarmos que grande parte da filosofia, não só a contemporânea, mas também a tradicional, tem sido construída com o auxílio de transgressões dos limites da linguagem, confusões linguísticas, nós do pensamento e castelos de cartas conceituais, para usar as palavras do autor. Concordando em parte com Wittgenstein, creio que tais confusões linguístico-conceituais seriam, na melhor das hipóteses, cruzes na estrada capazes de indicar caminhos a serem ou não seguidos. Quando alcançam mais do que isso, é porque já começaram a abandonar seu status filosófico original.

   Wittgenstein entendeu a filosofia como composta por dois tipos, um deles intrinsecamente associado ao outro. Eles são o que poderíamos chamar de filosofia como metafísica e filosofia como terapia ou crítica da linguagem. De acordo com ele, no curso de nossas reflexões filosóficas, somos inevitavelmente levados a produzir confusões metafísicas em nossos usos de palavras e frases, precisando, em um segundo momento, corrigir esses usos equívocos por meio de terapias linguísticas. As confusões ocorrem porque as mesmas expressões podem ser usadas em diferentes jogos de linguagem, adquirindo, por meio disso, diferentes matizes semânticos, o que torna possível confundir seus usos. Assim, confundimos o uso (nuance semântica) de uma palavra em um jogo de linguagem com o seu uso (nuance semântica) em outro jogo.

   Há aqui duas possibilidades de confusão:

 

(a)    A primeira é o que poderia ser chamado de uso equívoco de uma expressão: quando a usamos no jogo de linguagem (contexto) B segundo as regras que ela tem quando usada no jogo de linguagem (contexto) A.

(b)     A segunda é o que poderia ser chamado de uso hipostasiado da expressão, que ocorre quando usamos a expressão de modo confuso, tentando sustentar as regras de seu uso em diferentes jogos de linguagem (contextos) ao mesmo tempo, como se isso acontecesse em um único jogo (contexto).

 

Quando o filósofo transgride os limites da linguagem, seja por equívoco ou por hipóstase, incorre na confusão linguística típica da filosofia. É aqui que, para ele, deve entrar em cena a filosofia terapêutica, a crítica da linguagem, que tem por função “trazer as palavras de suas férias metafísicas de volta ao seu labor ordinário.”[43] Embora Wittgenstein nunca tenha oferecido exemplos com respeito à tradição filosófica, é fácil encontrá-los, a exemplo, digamos, da lógica de Hegel (Cap. XIV, sec. 4-5). Considere, para nos restringirmos a casos específicos, a afirmação de Platão de que a tênue realidade do mundo visível depende de seu espelhamento do único mundo real, que é o mundo inteligível das ideias eternas e imutáveis. Aqui, ele estava usando a palavra ‘realidade’ em um sentido provavelmente equivocado, cabendo ao crítico da linguagem demonstrar isso ao expor a maneira como essa palavra é realmente aplicada nos jogos de linguagem que constituem nossa forma de vida (Cap. II, sec. 4-5). Outro exemplo de uso equívoco pode ser encontrado no empirismo inglês: foi por ter ignorado que a gramática de nossa linguagem proíbe falar da percepção de nossas ideias (sense-data) que Locke preparou o caminho para o idealismo de Berkeley e o ceticismo de Hume – um ponto muito bem notado por Thomas Reid (Cap. X, sec. 3). Exemplos de uso hipostasiado podem ser encontrados em Parmênides e em Heidegger. No primeiro, o “ser” tem sido interpretado de uma variedade de maneiras incongruentes (Cap. I, sec. 4). No segundo, a palavra ‘Ser’ aparece como uma metáfora camaleônica que, em textos que se assemelham a prédicas religiosas, sugere existência, mas também costuma sugerir Deus, essência, transcendência, relevância, beleza… amiúde variando sua conotação de acordo com o contexto verbal no qual vem inserida (Cap. XIV, sec. 5).

   Podemos encontrar aqui, aliás, uma correspondência entre o que chamei de usos equívoco e hipostasiado de expressões e, respectivamente, aquilo que Freud chamou de deslocamento e condensação.

 Como já vimos, para Freud esses são os dois mecanismos fundamentais do que ele chamou de processo primário, que é o mecanismo pelo qual produtos do inconsciente, como os sonhos, a obra de arte e mesmo a filosofia, se concretizam (Cap. XVI, sec. 1). Isso sugere que os usos equívocos das expressões pelo metafísico também possam ser mais facilmente determinados por razões inconscientes do que o uso hipostasiado. O mesmo, como já vimos, apresenta-se também na arte, como produto do processo primário: a arte com predomínio do deslocamento é apolínea, diversamente da arte dionisíaca, que tem predomínio da condensação. Podemos agora fazer um esquema desses produtos patológico (Freud), artístico (Nietzsche) e filosófico (Wittgenstein) do processo primário:

 

 

  FREUD:                       NIETZSCHE (etc.):         WITTGENSTEIN:

 


  DESLOCAMENTO     ARTE APOLÍNEA        USO EQUÍVOCO

  inconsciente de             produto majoritária-       de expressões na

  material psíquico          mente inconsciente         confusão conceptual

 

  CONDENSAÇÃO       ARTE DIONISÍACA     USO HIPOSTASIADO

  pré-consciente de         produto majoritária-        de expressões na

  material psíquico.         mente pré-consciente      confusão conceptual

 


A importância do pensamento de Wittgenstein está em ter mostrado o quanto de confusão linguística está embutida nas chamadas “teses” filosóficas. Essas confusões não aconteceriam se o filósofo não tivesse motivações capazes de induzi-lo ao erro. Nietzsche contribuiu para trazer à tona motivações religiosas que operam na construção de um bom número dessas confusões metafísicas. E Marx mostrou ainda como as bases econômicas podem conduzir a ideologias produzidas por motivações enganosas.

   À primeira vista, a concepção terapêutica de filosofia pode parecer radicalmente contrária à concepção mais substancial de filosofia como protociência apresentada no primeiro capítulo desse livro. Mas não é forçoso que seja assim, posto que as motivações nem sempre são ideológicas. Geralmente elas também visam à busca da verdade, e mesmo motivações ideológicas podem desempenhar uma função veritativa, a exemplo da doutrina das ideias em Platão.

   Como já observamos ao considerar a filosofia de Parmênides, a antecipação da ciência, no sentido de buscar um saber consensual, é uma tentativa de dizer algo sobre aquilo que ainda não temos condições de saber e sobre o que carecemos até mesmo de um vocabulário apropriado – o que inevitavelmente gera confusões linguísticas. Quando essas confusões são profundas, podem servir de marcos na floresta conceitual. Desfazer as confusões pode nos levar adiante, seja ao revelar saídas possíveis, seja ao expor precipícios sem retorno.

 

4

 

Verificacionismo. Considerando a ênfase no modo de uso como significação, pode parecer que o último Wittgenstein tenha rejeitado por completo a concepção pictórica ou figurativa da linguagem do Tractatus e a relação entre o significado e a representação de estados de coisas. Mas pensar assim é confundir uma simples mudança de interesse e perspectiva com uma completa mudança de opinião.

   Durante a década de 1930, Wittgenstein voltou-se cada vez mais para a pragmática, com o objetivo de investigar a atividade linguística, deixando para trás o interesse pela sintaxe lógica da linguagem factual. Esse movimento já se encontrava visível no que pode ser chamado de princípio semântico da verificação, formulado em 1929, em conversas com Friedrich Waismann, e aprofundado nos anos seguintes. Em suas palavras: “O sentido de uma frase é seu modo de verificação. O método de verificação não é um meio, um veículo, mas o próprio sentido.”[44] Podemos expor isso de modo algo mais qualificado:


(I) Significado cognitivo de uma frase declarativa P (Df.) = a resultante das possíveis regras ou combinações de regras procedurais por meio das quais somos capazes de avaliar o valor-verdade de P em jogos de linguagem descritivos.

 

Ou seja: aquilo que a sentença declarativa diz, a proposição por ela expressa, o pensamento (Gedanke), seu conteúdo cognitivo, nada mais é do que o modo de verificação. Esse modo, porém, deve ser visto como um procedimento que, em geral, é multiplamente ramificado e muitas vezes conhecido apenas parcialmente pelos falantes, que, confiando em conhecedores privilegiados, afirmam a verdade ou a falsidade de uma frase.[45]

   Para dar uma ideia de como Wittgenstein pensou a questão já por volta de 1933, considere a seguinte frase:

 

A graciosa cachoeira do Formiga localiza-se no Parque Estadual do Jalapão.

 

Como Wittgenstein traduziria seu significado cognitivo em termos de modos de verificação? A resposta é: de múltiplas maneiras. Alguns sabem disso só por terem ouvido dizer. Pode ser também que alguém tenha aberto um guia turístico e encontrado lá uma foto da pequena cachoeira com informações a respeito. Pode ser que alguém vá à cidade de Mateiros, no Parque Estadual do Jalapão, e lá tenha sido informado sobre a cachoeira do Formiga. E pode ser que um guia turístico tenha levado a pessoa a tomar banho em suas águas tépidas e transparentes, o que é uma forma mais fundamental de verificação.

   Todos esses procedimentos de verificação se fundamentam em regras procedurais publicamente reconhecíveis. Se em visita ao Jalapão um guia turístico me levar para tomar banho na cachoeira do Formiga e eu encontrar o nome dela inscrito na entrada, eu aplicarei a regra de verificação por identificação perceptual. E, se justifico que a cachoeira do Formiga se encontra perto de Mateiros, no Jalapão, com base no que li em um guia turístico, estou fundamentando o que digo nas regras da prática de conferir dados geográficos.

   Wittgenstein notou que os diversos procedimentos de verificação estão interligados entre si, além de possuírem pesos semânticos distintos. Saber que a cachoeira do Formiga se localiza no Parque Estadual do Jalapão por verificação direta tem muito mais peso do que só por ter ouvido dizer. A tese de Wittgenstein é, pois, a de que os diferentes modos de verificação são partes diversamente valoradas do significado. Sua tese é clara: “Se retirarmos alguns procedimentos, a frase perde parte de seu significado; e se retirarmos todos os procedimentos, a frase deixa de ter qualquer significado.”[46]

   Embora essa explicação pragmática multifacetada do procedimento verificacional demande desenvolvimento, ela é, sob um ponto de vista metodológico, muito mais adequada do que as tentativas de precisar a ideia de significado como verificação realizadas pelos filósofos do positivismo lógico, que buscaram forçar um problema pragmático dentro de um espartilho lógico-formal falsamente unificador. Esses filósofos não fizeram mais do que tentar construir uma versão formalista simplificadora do insight de Wittgenstein, com o objetivo comum de destruir a metafísica, só para constatar que tal versão era insustentável. Como reação, eles refutaram a própria versão, acreditando, assim, ter refutado a formulação mais apropriada de Wittgenstein, que mal conheceram e cujo desenvolvimento demandaria uma análise da pragmática de diferentes espécies de atos verificacionais.

   Infelizmente, o erro acabou por cristalizar-se em uma “sabedoria herdada”, segundo a qual o princípio da verificação foi definitivamente refutado. Ele foi, sem dúvida, refutado, só que em uma versão positivista que Wittgenstein sempre rejeitou.

  

5

 

Representação panorâmica. Até agora vimos que existe em Wittgenstein duas maneiras de filosofar: a filosofia como metafísica, que transgride as fronteiras da linguagem, e a filosofia como terapia ou crítica da linguagem, que desfaz essas transgressões.

   Esse duplo movimento encontra um paralelo no método praticado nos diálogos de Platão e, na verdade, ao longo de toda a filosofia: produz-se uma tese que, após discussão, se demonstra errônea ou insuficiente; inventa-se uma alternativa que também pode se demonstrar insuficiente; mas, por esse processo, consegue-se uma maior aproximação da resposta procurada. A transgressão das fronteiras da linguagem corresponde ao primeiro momento, enquanto a terapia nos conduz ao último. Assim, o que distingue um filósofo como Wittgenstein é sobretudo uma maior ênfase na dimensão linguística em termos de terapia ou crítica da linguagem.

   Mas o que dizer do momento construtivo, da busca por uma resposta mais precisa? Wittgenstein faz um gesto nessa direção ao escrever sobre um terceiro modo de filosofar, que permite uma aproximação à ideia de que a filosofia é protocientífica no sentido de uma busca de um “conhecimento publicamente consensualizável” (Cap. I, sec. 8). Trata-se de uma teoria da linguagem e do significado que é por ele assumida e apenas fragmentariamente tematizada, tal como, digamos, a doutrina das ideias em Platão. Essa teoria já foi delineada quando conectamos usos, nuances de significação, regras, jogos de linguagem e formas de vida. Trata-se certamente de uma teoria de textura aberta, vaga, orgânica, dinâmica, cuja finalidade é exclusivamente filosófica. Mas ela não é uma adição dispensável. Ela constitui o próprio fundamento justificativo da crítica da linguagem. Ela é como a poção indispensável à eficácia de sua terapia linguística. Como ele escreveu: “Temos agora uma teoria. Uma teoria dinâmica da frase, da linguagem, mas ela não se nos afigura como teoria.”[47] Nas Investigações filosóficas ele expôs esse ponto de forma particularmente pregnante:

 

Uma fonte principal de nossa incompreensão é que não possuímos uma visão panorâmica do uso de nossas palavras. Falta caráter panorâmico à nossa gramática. – A representação panorâmica (übersichtliche Darstellung) permite a compreensividade, que consiste justamente em “ver as conexões”. Daí a importância de encontrar e inventar articulações intermediárias.

O conceito de representação panorâmica é, para nós, de importância fundamental. Designa nossa forma de representação, o modo pelo qual vemos as coisas (é isso uma ‘cosmovisão’?).[48]

 

 Em suma: a terapia filosófica proposta por Wittgenstein depende de pressupostos teóricos subjacentes acerca do funcionamento da linguagem. Esses pressupostos podem ser explicitados em representações panorâmicas que se constituem naquilo que pode, com razão, ser chamado de uma teoria filosófica – distinta das teorias científicas pela extrema vaguidade e abrangência de seus insights. Se a filosofia terapêutica não fosse fundada em assunções teóricas, ainda que implícitas e profundamente entranhadas em nossa linguagem – assunções que tentei explicitar aqui –, ela careceria de poder de convencimento. A representação panorâmica em Wittgenstein é a forma que sua filosofia assume como protociência.[49]

 

 

 

 

 

 



[1] O Dr. Christopher Gillberg, que em um ensaio diagnosticou Wittgenstein como portador de autismo leve ou síndrome de Asperger – caracterizada por inabilidade social acompanhada de interesses obsessivos – fez sobre ele a seguinte observação: “A perseverança, o impulso para a perfeição, a boa inteligência concreta, a habilidade para desconsiderar convenções sociais e não se preocupar em demasia com as opiniões e críticas dos outros, poderiam ser todas vistas como vantajosas, talvez mesmo um pré-requisito para certas formas de novo pensamento e criatividade.” Christopher Gillberg, A Guide to Asperger Syndrome (Cambridge University Press 2005), cap. 15.

[2] Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus (Edusp 2022)

[3] Ray Monk, Wittgenstein: The Duty of Genius (Penguin 1990), p. 234.

[4] Philosophische Untersuchungen (1953). Trad. port. Investigações filosóficas (Nova Cultural 1999).

[5] A distinção entre a investigação dos limites externos e internos da linguagem em Wittgenstein encontra-se em David Pears, As Ideias de Wittgenstein (Cultrix 1971).

[6] Über Gewissheit. Trad. port. Sobre a certeza (Fósforo 2023).

[7] Ver Bertrand Russell “On Denoting”. Mind 14, n. 4, 1905, pp. 479- 493. A teoria de Russell foi desafiada por P. F. Strawson no artigo intitulado “On Referring”, Mind 59, 1950, 320-344.

[8] Tractatus Logico-Philosophicus 4.002.

[9] Wittgenstein usa a palavraSatz’, cuja tradução mais literal é ‘frase.’ Em geral a palavra ‘Satz’ é traduzida como ‘proposição’, ‘enunciado’ ou mesmo ‘sentença’. Prefiro manter a tradução literal sob o pressuposto de que com a palavra ‘frase’ se entenda também aquilo que a sentença diz e não apenas a mera expressão linguística.

[10] Nesse caso, os pensamentos seriam figurações lógicas (Tractatus) realizadas em eventos mentais. Ver carta de Wittgenstein a Bertrand Russell, datada de 19 de agosto de 1919.

[11] Tractatus Logico-Philosophicus 2.021.

[12] Outro problema de tradução: a palavra ‘Bild’, usada por Wittgenstein, significa literalmente ‘quadro’. Contudo, suas conotações são intraduzíveis. A tradução inglesa ‘picture’ possui deficiências semelhantes. Por isso prefiro traduzir Bildtheorie por ‘teoria da figuração’,

[13] Tractatus 3.

[14] cf. Erik Stenius, Wittgenstein’s Tractatus: A Critical Exposition of its Main Lines of Thought (Cornell University Press 1960). Ver também artigos posteriores. Stenius mostrou que a teoria da correspondência como isomorfismo estrutural pode ser tornada independente da metafísica do Tractatus, além de não contradizer o Wittgenstein das Investigações,

[15] Esses exemplos ilustrativos nada têm a ver com as frases elementares do Tractatus porque nem os termos singulares nem os termos gerais designam objetos simples.

[16] Tractatus 2.1514.

[17] Tractatus 2.15.

[18] Tractatus 2.1515.

[19] Tractatus 4.0311.

[20] Ver a interpretação de Erik Stenius, “Die Bildtheorie des Satzes”. In Erkenntnis 9, 1975, pp. 35-55. Stenius demonstrou que a teoria da figuração pode ser diretamente aplicada a frases de nossa linguagem ordinária, sem a necessidade da metafísica atomista sugerida no Tractatus.

[21] Tractatus 3.203.

[22] Tractatus 4.022.

[23] Tractatus 4. 031.

[24] O termo ‘estado de coisas’ (Sachverhalt) é ambíguo, querendo dizer também a possível combinação de objetos representada pela proposição elementar, razão pela qual também podemos dizer que o sentido da frase é simplesmente o estado de coisas (ver Tractatus 2.201 ss.).

[25] Tractatus 6.54.

[26] Tractatus 7.

[27] Rudolf Carnap: Philosophy and the logical syntax (Kegan Paul 1955), p. 37 ss.

[28] Frank Ramsey, Philosophical Papers (Cambridge University Press 1990) p. 146.

[29]  Investigações filosóficas (Vozes 2014), Parte I, sec. 124.

[30]  Investigações filosóficas, Parte I, sec. 43.

[31] Sobre a Certeza, sec. 61-62.

[32] Ver Investigações filosóficas parte I, sec. 23

[33] C. W. Morris, The foundations of the theory of signs (University of Chicago Press 1938)

[34] Investigações filosóficas, parte I, sec. 20.

[35] O que não as torna necessárias: o jogo de solitária, por exemplo, não possui regras pragmáticas.

[36] Investigações filosóficas, parte I, sec. 46-48.

[37] Das braune Buch (Suhrkamp 1984), p. 122.

[38] Investigações Filosóficas, parte I, sec. 18.

[39] Investigações Filosóficas parte I, sec. 48.

[40] O artigo foi publicado como apêndice no livro de C. K. Ogden & I. A. Richards, The Meaning of ‘Meaning’ (Orlando: Harcourt Brace 1984 (1922)), um texto que foi lido por Wittgenstein.

[41] Alice Ambrose (ed.): Wittgenstein’s Lectures 1932-1935 (Oxford University Press 1979), pp. 96-97. Também Wittgenstein The Big Typescript (John Willey & Sons 2012), sec. 35.

[42] Investigações filosóficas I, sec. 122.

[43] Investigações filosóficas I, sec. 116.

[44] Wittgenstein und der Wiener Kreis (Suhrkamp 1984), p. 244.

[45] Podemos nos perguntar se em seus limites esses procedimentos não acabariam por demandar isomorfismo estrutural com facetas do fato referido dadas à experiência, como em um palimpsesto da teoria figurativa do Tractatus.

[46] Para um exemplo do próprio Wittgenstein com observações similares, ver Alice Ambrose (ed.): Wittgenstein’s Lectures 1932-35. (Prometheus Books 2001), p. 29. Considerações mais detalhadas encontram-se em meu livro Philosophical Semantics: Reintegrating Theoretical Philosophy (CSP, 2018), cap. VI.

[47] Wittgenstein: Zetteln, sec. 444.

[48] Investigações I, sec. 122.

[49] Claudio Costa, Wittgenstein’s Beitrag zu einer sprachphilosophischen Semantik (Hartung-Gorre Verlag 1990).

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