draft para livro a ser publicado pela Europa Editora
I
OS PRÉ-SOCRÁTICOS E A NATUREZA DA FILOSOFIA
A história inicial da filosofia grega, especialmente
de Tales a Platão, é esplêndida. É quase demasiado boa para ser verdadeira. Na
origem dela esteve sempre o pensamento crítico.
Karl Popper
A filosofia ocidental surgiu como complemento e até mesmo como
substituto da mitologia e da religião. Como consequência, persiste ainda hoje,
entre os leigos, uma incômoda confusão entre filosofia e sabedoria de vida, ou,
pior, entre filosofia e misticismo. A filosofia acadêmica, porém, como
resultado de uma especulação coletiva de comunidades de conhecedores,
sedimentada em uma tradição milenar, pouco tem a ver com mera sabedoria prática
ou com o misticismo. Ela se tornou, em nossos dias, uma investigação rigorosa,
frequentemente percebida como esotérica e inacessível ao público não
especializado.
É curioso lembrar, nesse
contexto, a opinião de Hegel, segundo a qual a filosofia, tal como a concebemos
hoje, se originou realmente na Grécia Antiga e não no Oriente. A razão por ele aduzida
é que a filosofia oriental não se diferenciava o bastante da religião.[1]
Hoje sabemos que Hegel não estava tão bem informado. Embora haja uma
prevalência do elemento místico e da sabedoria de vida nas filosofias
orientais, um exame mais cuidadoso revelará uma plêiade de teorias
epistemológicas, metafísicas, lógicas e políticas capaz de reafirmar e,
potencialmente, enriquecer o que a própria filosofia ocidental desenvolveu ao
longo de sua história.[2]
Seja como for, esse livro se restringirá à
filosofia ocidental, ou seja, a um exame crítico e comparativo de seus momentos
canônicos.
Para compreender o nascimento
da filosofia ocidental, precisamos começar pelo pensamento dos filósofos pré-socráticos.
Eles foram os primeiros representantes dessa tradição, assim chamados por terem
surgido antes de Sócrates. Suas preocupações filosóficas eram sobretudo cosmológicas
e metafísicas, bastante distintas das preocupações essencialmente morais de
Sócrates. Eles floresceram na Grécia, entre os séculos VI e V a.C., e seu
principal objetivo era buscar a unidade na diversidade por meio de princípios
originadores e sustentadores de tudo o que existe, por eles chamados de arché.
Para eles, tais princípios só poderiam pertencer à natureza (physis),
daí o naturalismo de suas reflexões.
Naquele período, a Grécia
importava a ciência nascente do Egito e da Babilônia. Muitos pré-socráticos
eram também bons cientistas, conhecedores de matemática, geometria, engenharia
e astronomia. Foi essa base científica que os levou a romper com o pensamento
mitológico que os precedeu. Seu projeto comum era substituir as explicações
puramente míticas sobre a origem e a natureza do universo por princípios racionais
conjecturais, ainda que insuficientemente verificáveis pela ciência da época. Tinham
consciência das limitações de suas especulações, mas cultivavam esse exercício
intelectual pelo puro prazer da investigação e da reflexão.
No que se segue, quero resumir
as doutrinas dos filósofos pré-socráticos mais relevantes.
1
Os milesianos. O primeiro pré-socrático foi o filósofo jônico Tales
(624-546 a.C.), que viveu em Mileto, importante centro comercial da Ásia Menor.
Tales também foi um astrônomo e matemático, tendo previsto um eclipse solar no
ano de 585 a.C. Ele acreditava que a água fosse a substância originária e
subjacente a todas as coisas, aquilo que seu discípulo Anaximandro chamou, pela
primeira vez, de arché (princípio, origem). Afinal, a vida nasce de
coisas úmidas. Para ele, a água era plena de deuses e coincidia com o próprio divino.
Com a postulação de que a água
é o princípio, Tales foi a primeira pessoa a ter a intuição original de que tudo
é um,[3]
ou seja, a ideia de que o universo possui uma unidade constitutiva em princípio
acessível ao conhecimento humano. Esse esforço de compreensão
racional unificadora, ainda que especulativo, tornou-se marca da filosofia
pré-socrática e mesmo dos grandes sistemas da tradição ocidental.
Tales teve como discípulos dois
filósofos jônicos mais jovens: Anaximandro e Anaxímenes. Anaximandro (610-546
a.C.) sugeriu que a arché fosse o ápeiron, literalmente, o
‘ilimitado’: um elemento indefinido, eterno e imperceptível. Essa é uma ideia
importante por tornar o princípio explicativo das coisas, pela primeira vez na
história da filosofia, algo não perceptível aos sentidos. Ele foi responsável
pela ousada ideia de que a Terra é um cilindro suspenso entre os astros, que
não cai nem para um lado, nem para o outro, graças ao equilíbrio das forças. O
filósofo da ciência Karl Popper viu nisso uma antecipação dos conceitos de
inércia e até mesmo da gravidade.[4]
Com efeito, a metafísica pré-socrática operava na zona cinzenta entre o
pós-mitológico e o pré-científico, alcançando, por vezes, a forma de uma clara
antecipação especulativa da ciência.
Anaximandro também sugeriu que
os seres vivos se originaram da água e que os primeiros humanos eram semelhantes
a peixes. Ele argumentou que, como as crianças humanas precisam de anos de
completa dependência dos pais para só então se tornarem capazes de cuidar de si
mesmas, isso implica que nos tempos mais remotos os seres humanos deveriam ter
sido muito diferentes de como são hoje; uma intuição indicadora do
evolucionismo.
Anaxímenes (594-524 a.C.), por
sua vez, rejeitou o ápeiron por considerá-lo demasiado abstrato. Ele
buscava um elemento primordial que pudesse ser dado à experiência e que
originasse os demais. Ele sugeriu que esse princípio, a arché, fosse o ar.
Por
rarefação, o ar se tornaria fogo; por condensação, vento, água, terra e pedras.
Para ele, o ar era vital, pois nos mantém vivos ao respirarmos, e o universo
inteiro seria um organismo que precisava de ar para se manter.[5] Como ele explicou em um dos fragmentos:
Como nossa alma, que é ar, nos governa e nos mantém
unidos, assim também o vento e o ar, que são o mesmo, mantêm unido o universo
inteiro.[6]
Anaxágoras (500-428 a.C.), um filósofo jônico tardio, viveu em Atenas
por três décadas antes de ser exilado por ateísmo. É considerado o introdutor
do conceito de nous (mente, pensamento) na filosofia. Ele entendia a arché
como sendo o nous, ou seja, a mente ou pensamento. Para ele, a mente
deve ser algo que, mesmo sendo material, posto que também pertence à physis,
é algo absolutamente puro:
A mais fina e pura de todas as coisas, que possui o conhecimento de
todas as coisas e o maior poder.
A mente equivalia a Deus: uma força infinita que, ao agir sobre a
matéria informe, originava tudo o que existe no mundo, inclusive as mentes
humanas.
Anaxágoras também foi o
defensor da “versão pré-socrática da teoria do Big Bang.”[7]
Segundo ele, no começo o universo inteiro se encontrava comprimido em um átomo
primordial:
Todas as coisas estavam juntas, infinitas ao mesmo
tempo, em número e em pequenez, pois o pequeno era também infinitamente
pequeno. E como tudo estava unido, nada era reconhecível devido à pequenez.
Essa singularidade inicial era como um plasma indiviso, pois misturava
tudo no infinitamente pequeno, fazendo com que nada mais fosse distinguível.
Essa unidade primordial começou a girar com força cada vez maior, lançando para
fora de si o éter e o ar e formando as estrelas, o Sol e a Lua. Essa rotação
fez com que os elementos se separassem, mas isso nunca aconteceu por completo,
de modo que cada coisa preserva em si algo de todas as demais. (Como dizemos hoje:
“temos átomos de estrelas em nós”.) Essa expansão do universo ainda existe hoje
e continuará existindo sempre. Além disso, ele acreditava que outros mundos
semelhantes ao nosso também poderiam ter sido gerados, com sol e lua próprios e
até mesmo habitados por criaturas tão inteligentes quanto nós!
Em meio a tudo isso, a única
coisa que permanece a mesma e que tudo move é a mente. Nesse último ponto, o Big
Bang de Anaxágoras difere do nosso, uma vez que preferimos substituir seu
conceito animista de mente pelas leis fundamentais da natureza.
2
Princípios múltiplos. Alguns filósofos pré-socráticos entenderam a arché como múltipla.
Esse foi o caso dos seguidores de Pitágoras (570-495 a.C.), o matemático a quem
se atribui o teorema geométrico que leva seu nome. Tendo percebido que tudo na
natureza possuía quantidades e formas, eles concluíram que os princípios do
universo deveriam estar nas matemáticas: começando pelo número um, base
da aritmética, e pelo ponto, base da geometria. Ao que consta, do ponto
derivariam as linhas, destas os planos, dos planos os sólidos e, finalmente, os
corpos sensíveis e o universo inteiro.
Ancorados na matemática, os
filósofos pitagóricos formaram uma seita que visava não só explicar o universo,
mas também orientar a vida humana. Eles foram os primeiros
filósofos claramente reducionistas, no sentido de que
tentavam reduzir todos os fenômenos ao escopo mais limitado de um certo tipo de
explicação científica por eles privilegiado: a explicação
matemática. Fundamental à sua seita era o orfismo: a busca religiosa pela
purificação da alma por meio da transmigração de um corpo para outro (metempsicose).
Também acreditavam em
princípios múltiplos os filósofos atomistas Leucipo, de quem quase nada
sabemos, e seu discípulo Demócrito (460-370 a.C.), do qual restaram muitos
fragmentos, além de Epicuro (341-270 a.C.), um atomista tardio, já pertencente
ao período helenístico. Para Demócrito, o mundo é constituído por átomos
(do grego á-tomon: ‘não-divisível’). Eles são partículas invisíveis,
indivisíveis, eternas, imutáveis, sólidas e impenetráveis, ilimitadas em número
e diversas em forma. Eles são os elementos constitutivos de todas as coisas
visíveis. Afora os átomos, só o que existe é o espaço ou vazio. Os átomos se
movem e se chocam uns contra os outros segundo leis causais deterministas. Como
consequência, os atomistas foram os primeiros filósofos distintamente
materialistas. Mas isso não os impedia de acreditar no espírito, pois as almas
humanas poderiam ser constituídas de átomos muito sutis. Assim, quando sonhamos
com um antepassado morto, pode ser porque os átomos constitutivos de sua alma
penetraram em nossas cabeças enquanto dormíamos, interagindo com os átomos de
nossas almas…
É importante notar que os
atomistas antecipavam a possibilidade de descobertas científicas que ocorreriam
mais de dois mil anos depois. Foi em sua memória que os elementos que compõem a
tabela periódica foram chamados de átomos, mais tarde subdivididos em
partículas subatômicas chamadas elétrons, quarks, glúons e fótons. Mesmo que
eles de maneira alguma fossem capazes de antecipar a presente física das
partículas, eles anteciparam a ideia de que o universo poderia ser formado por
partículas invisíveis discretas, móveis e possuidoras de massa. Não deixa de
ser impressionante que, após mais de dois milênios, a ciência tenha demonstrado
que as especulações dos atomistas gregos seriam capazes de receber
fundamentação científica.
Além das especulações
cosmológicas, a maior parte dos fragmentos deixados por Demócrito foram
instrutivos ditames morais, muitos deles ainda hoje aplicáveis. Por exemplo:
É esforçar-se em vão querer trazer entendimento a quem acredita tê-lo.
Os insensatos tornam-se razoáveis pela desgraça.
Quem procura o bem, o atinge com dificuldade. O mal, porém, atinge mesmo
quem não o procura.
A beleza do corpo é animalesca se não for dignificada pelo entendimento.
Ao homem sábio, todas as terras são acessíveis, pois a pátria de uma
alma virtuosa é o universo.
É curioso notar que esses dísticos não se aplicam menos hoje do que há
2400 anos.
Ainda outro pré-socrático
pluralista que merece ser lembrado foi Empédocles de Agrigento (495-430 a.C.).
Ele foi um filósofo bastante vaidoso, que se considerava um deus e que, segundo
a lenda, teria dado fim à sua vida de forma gloriosa, atirando-se na cratera do
Etna. Ele foi um precursor de Charles Darwin ao sugerir, de forma especulativa,
que as espécies se desenvolvem por meio de uma luta entre seres vivos que, por
acidente, nascem com as mais diversas características, o que faz com que apenas
os mais aptos sobrevivam.[8]
Empédocles foi o inventor da
ideia de que o universo é constituído por quatro elementos (raízes) por ele
encontrados em filósofos anteriores. Esses elementos originários são a água, o
ar, o fogo e a terra. Eles são imutáveis e combinam-se entre si de modo a
formar o universo visível. Não parece impossível imaginarmos de algum modo a
terra se convertendo em árvores, que, ao se incendiarem, tornam-se fogo cuja
fumaça se converte em ar, o qual se converte em nuvens que se condensam em
chuvas que caem sob a forma de água, a qual finalmente se solidifica, formando
terra. Essa teoria, tão rudimentar quanto falsa, foi aceita até o século XVII,
quando químicos como Robert Boyle fizeram-na cair por terra.
Para Empédocles há duas forças
físicas que atuam sobre os quatro elementos, que são as da harmonia (o
amor) e da discórdia (o ódio). O predomínio alternado de cada uma dessas
forças faz com que o universo sofra um processo cíclico de mudança, por meio do
qual, de tempos em tempos, tudo se repete. Assim, no início de um ciclo, os
elementos se encontram todos perfeitamente misturados; os objetos não existem e
a força imperante é a da harmonia em toda a esfera do mundo, que forma um todo
homogêneo. Mas a força da discórdia logo penetra na esfera do mundo e começa a
agir, separando os elementos e formando os objetos hoje conhecidos, até que
terra, ar, água e fogo se tornem completamente separados. Nesse ponto, a força
da harmonia começa a agir novamente, misturando pouco a pouco outra vez os
elementos, até o retorno ao estágio inicial de perfeição, quando se inicia um
novo ciclo pela força da discórdia... Em seu tempo, Empédocles acreditava que o
mundo se encontrava em um estágio intermediário em que as forças da discórdia
agiam de maneira cada vez mais efetiva.
A doutrina de Empédocles foi
sugerida pela observação dos acontecimentos cíclicos no mundo. As estações do
ano são cíclicas: vemos as árvores florescerem e dar frutos na primavera e no
verão, para então perderem as suas folhas no outono, secando no inverno, só
para florescerem de novo no próximo ano. Os seres vivos são gerados sem forma,
crescendo e se diferenciando e envelhecendo até que, com a morte, tornam-se
outra vez matéria informe...
A ideia de um mundo cíclico foi
famosamente reapresentada no século XIX por Nietzsche sob a forma do que ele
chamou de eterno retorno. Mas este último o entendeu sobretudo como um
experimento psicológico para testar a autenticidade de nossas atitudes perante
a vida.[9]
Para tal, ele imaginou que nossas vidas deveriam se repetir identicamente, nos
mais ínfimos detalhes, um número infinito de vezes. Se alguém aprovasse o
eterno retorno, querendo que cada experiência de sua vida, cada prazer e
desprazer, cada pensamento e decisão, retornasse infinitamente, essa seria a
prova de uma atitude absolutamente afirmativa diante de sua existência.
O problema com o experimento de
Nietzsche é que só depois que nossas decisões já foram tomadas é que passamos a
conhecer com certeza seus efeitos bons ou maus. Mas uma vez tendo distinguido
efeitos como sendo maus, ninguém mais desejaria em sã consciência repetir a
mesma decisão. Desejar repetir algo que se revelou um erro não demonstra uma
atitude absolutamente afirmativa diante da vida, mas apenas uma atitude
absolutamente teimosa.
Finalmente, a ideia de um
mundo cíclico nada tem de tão absurda assim. Ela está presente na cosmologia
contemporânea: para alguns astrofísicos, o Big Bang deverá ser seguido
pelo Big Crunch e assim sucessivamente.[10] Existe, pois, até mesmo
uma versão contemporânea daquilo que Empédocles propôs de forma puramente
especulativa.
3
Heráclito. Quero me deter em Heráclito e
Parmênides, uma vez que foram os pré-socráticos mais influentes. Na tradição, eram
considerados opostos, pois Heráclito enfatizava a mudança e Parmênides, a
imobilidade do ser. Mas veremos que, nem por isso, eles se opõem tão
completamente, posto que, por detrás da mudança, Heráclito enfatizava a unidade
da razão, que pode ser aproximada do Ser de Parmênides.
Heráclito de Éfeso (florecimento:
500 a.C.), tal como Nietzsche e Wittgenstein, foi um filósofo que se expressava
por meio de aforismos. Muitos deles são profundos e nos dizem algo até hoje.
Eis alguns:
Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de
tudo.
Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela
harmonia (como a do arco e da lira).
A harmonia invisível é mais forte do que a visível.
O que está em cima é idêntico ao que está embaixo.
A natureza ama ocultar-se.
Jamais encontrarás os confins da alma, tão profundo é o seu logos.
Heráclito pertencia à nobreza efésia. Foi um pensador de índole
aristocrática, misantropo, melancólico, mas profundo e poético. Expressava-se
por meio de aforismos oraculares. Seus dísticos eram intencionalmente obscuros,
de modo a não serem mal compreendidos por mentes superficiais. Ele desdenhava o
homem comum por ser prisioneiro da opinião e incapaz de agir racionalmente. Ele
era, pois, intelectualmente elitista. A razão, escreveu ele, é comum a todos,
mas o vulgo não faz uso dela, nem os habitantes de sua cidade, que deveriam ser
todos enforcados por terem exilado o melhor dos seus e nem mesmo os grandes
poetas como Homero e Hesíodo, que mereciam ser vergastados.[11]
Como escreveu ele:
A despeito do logos ser comum a todos, o vulgo vive como se cada um
tivesse um entendimento particular; não sabe nem escutar, nem falar.
Jogos de criança são as opiniões dos homens.
Heráclito também parece ter sido um filósofo capaz de odiar em medida
pouco comum, como o demonstram seus aforismos desdenhosos sobre seus
concidadãos. Faço aqui apenas uma breve seleção deles:
Asnos preferem a grama ao ouro.
Os porcos preferem a lama à água limpa.
Os cães ladram para o que não conhecem.
Tudo o que rasteja merece ser chicoteado.
Um para mim vale mil se for o melhor.
Se alguma vez você precisar ser profundamente ofensivo sem ser vulgar,
bastará recordar-se de algum desses aforismos.
Heráclito foi chamado de
filósofo do conflito. Para ele, o confronto entre os opostos não era apenas
inevitável, mas também necessário, pois é dessa tensão que nasce a mais bela
harmonia. Sua célebre afirmação:
A guerra é o pai de todas as coisas e, de todas, o
rei; de uns fez deuses, de outros homens; de uns escravos, de outros homens
livres.
A palavra ‘guerra’ deve ser entendida em sentido amplo: não como apologia
da guerra militar, mas como metáfora do papel criador do conflito no cosmos. Falando
de sua época, ele usou a guerra como símbolo do conflito inevitável. Mesmo que
as guerras desapareçam – como esperamos para o futuro – os conflitos humanos
continuarão a existir em formas mais elevadas: disputas de valores, ideias,
ideais e influências. Nesse sentido, a lição de Heráclito permanece atual: o
conflito, longe de ser apenas destrutivo, pode ser fonte de criação e
renovação.
Muitos séculos depois, Hegel
reconheceu em Heráclito um precursor da dialética, admirando sua visão dinâmica
da realidade. Embora não se possa afirmar com certeza que sua concepção da
razão universal tenha sido diretamente influenciada por Heráclito, há
afinidades evidentes: ambos viam o movimento e a contradição como motores da
transformação.
Outra ideia iconoclasta de Heráclito é a de
que, para que exista o bem, é necessário que exista o mal; e para que exista a
justiça, é necessário que também exista a injustiça. Esses opostos não são
apenas contrários, mas interdependentes: cada um só se define em relação ao
outro. Essa concepção desfaz a ilusão utópica de que possa existir um mundo
inteiramente bom e justo (o que, certamente, não nos impede de aspirar a uma
sociedade melhor e mais justa). Essa visão vale tanto para a vida coletiva
quanto para a individual. Para Heráclito, o ser humano, por sua própria
condição, está aprisionado no conflito. A possibilidade de uma existência
totalmente livre de tensões é ilusória, pois o conflito é parte constitutiva da
condição humana. Daí se conclui que é mais sábio aceitar o conflito e tomar
consciência dele, buscando superá-lo pela ação ou pela reflexão.
Italo Calvino, em O Visconde Partido ao
Meio, ofereceu uma narrativa que dialoga com essa ideia. O visconde
Medardo di Terralba, ferido em batalha contra os mouros, é dividido em duas
metades por uma bala de canhão. Os cirurgiões, ao separarem as partes, criam
dois viscondes distintos: um encarna apenas o mal, transformando-se em um
psicopata destrutivo; o outro encarna apenas o bem, tornando-se ingênuo e
enfadonho, incapaz de se afirmar. A história culmina no reencontro das duas
metades, que, ao duelarem, paradoxalmente parecem buscar a aproximação.
Feridos, são novamente reunidos por um cirurgião competente, e o visconde
renasce como um homem inteiro, consciente dos extremos do bem e do mal que
precisa manter sob a vigilância e o controle da razão. Assim como em Heráclito,
em Calvino a mensagem é clara: os extremos isolados, seja o bem absoluto ou o
mal absoluto, são insuficientes e mesmo destrutivos. A verdadeira medida humana
surge da integração dos opostos, harmonizada pela razão. É nesse equilíbrio que
se encontra a possibilidade de uma vida mais plena e consciente.
Para Heráclito, o principal
elemento é o fogo, no qual todos os outros se desfazem. Segundo ele:
Este mundo sempre foi, é agora e sempre será o sempre
vivente fogo, com medidas certas de seu acender e medidas certas do seu apagar.
A escolha do fogo decorre da ênfase no conflito mediado pelo logos,
posto que, sem o conflito, o mundo se desfaria em um nada.
Heráclito foi também o filósofo
do movimento, da mudança. A realidade é mudança. Como o fogo, tudo se
encontra em movimento. Também a vida é movimento incessante:
Tu não podes atravessar duas vezes o mesmo rio, pois
novas águas correm sempre por ele.
Mas não entende Heráclito quem acredita que ele queria reduzir tudo ao
movimento e ao conflito desordenado, pois, sob o conflito de opostos, ele
acreditava em uma ordem oculta da natureza, imposta pelas leis da razão
(o logos) e só alcançável por meio do pensamento. É a razão que,
secretamente, domina o mundo. Embora ele fosse uma espécie de panteísta,
acreditando que Deus se encontra em todas as coisas, para ele, esse Deus, o
Uno, era a própria razão, que revela a identidade na diferença, a unidade do
todo e a medida certa de cada coisa. Mas embora a razão seja comum a todos,
muito poucos fazem uso dela.
O fundamento último, a arché
da filosofia de Heráclito não se encontra, portanto, no movimento, nem no
conflito dos opostos, mas na ideia de que o todo possui uma unidade oculta, na
ideia de que a razão, o logos que subjaz ao conflito, é capaz de
unificar os opostos e dar-lhes proporção e medida. Sob a perspectiva do Deus –
ou razão, ou logos – todas as tensões são reconciliadas e as diferenças
harmonizadas:
Para Deus, todas as coisas são belas, boas e justas,
mas os homens sustentam que algumas são erradas e outras certas.
Em Heráclito encontramos também o que parece ser uma sugestão acerca da
natureza da filosofia como um saber antecipador de formas mais
consensualizáveis de conhecimento, algo que ele apresenta por apelo ao saber
adivinhatório do oráculo. Eis como ele o expõe:
A sibila, que com sua boca delirante diz coisas sem
alegria, sem ornatos e sem perfumes, mas atinge com sua voz mais de mil anos,
graças ao deus que está nela.
Esse juízo de Heráclito sobre a sibila é, na verdade, sobre sua própria
filosofia. Ele também se aplica ao que de melhor foi feito na história da
filosofia. Muito da filosofia pré-socrática, ainda que figurativamente,
antecipou temas que seriam futuramente tratados com maior rigor e detalhe por
outros filósofos, ou mesmo reconfirmados através da ciência. Por isso, a
filosofia tem sido por vezes chamada de berçário das ciências, ou ainda, de seu
guardador de lugar.
4
Parmênides. Entre os filósofos pré-socráticos, talvez nenhum
tenha exercido tanta influência quanto Parmênides (530-460 a.C.), fundador da
escola eleática. Ele escreveu um poema intitulado “Sobre a natureza” no qual
introduziu um enigma tão sugestivo quanto indecifrável. Para ele, o princípio,
a arché, é o que ele chamou de ser. Ele definiu o ser como algo imóvel
e imutável. Sua ideia central foi a de que o ser, o Uno, é; enquanto o
não-ser, a mudança, o devir, não é – sendo, por isso, apenas ilusão. O
argumento é simples e radical: é preciso que seja assim porque, se algo vem a
ser, então ele vem a ser do ser ou do não-ser. Se vem a ser do ser, então já é,
caso em que não pode não ter sido. Mas se vem do não-ser, então nada é, pois
nada pode vir do não-ser ao ser.
Mas afinal, o que é o ser? Parmênides
atribuiu ao ser uma lista de propriedades, nem sempre compatíveis entre si. O ser
é: único, incorruptível, nem gerado nem perecível (eterno), encontra-se
inteiro em cada instante, é absoluto, contínuo, indivisível, imutável e também
finito e bem redondo (dado que, para os gregos, a esfera finita era o
símbolo da perfeição). Em conformidade com o modo de pensar dos pré-socráticos,
o ser parmenídeo também deve pertencer à physis, à natureza, não a
transcendendo.
Eis a transcrição do fragmento
principal do poema de Parmênides:
E agora [disse a musa] vou falar: e tu, escutas as
minhas palavras e guarda-as bem, pois vou dizer-te dos únicos caminhos da
investigação concebíveis. O primeiro diz que o ser é e que, portanto, não é
não-ser; esse é o caminho da persuasão, pois segue a verdade. O segundo caminho
diz que é o que não é, daí resultando que é preciso não ser; essa via, digo-te,
é imperscrutável; pois não podes conhecer nem dizer aquilo que não é.
Que é seguido da sentença:
...Pois o que pode ser pensado e o ser são o mesmo.[12]
Na primeira passagem, Parmênides distinguiu explicitamente a via do
conhecimento da via do erro. O conhecimento diz respeito ao ser, enquanto o
erro diz respeito ao pretenso conhecimento do não-ser. O conhecimento do ser é
daquilo que é imutável, diversamente do pretenso conhecimento do não-ser, que
advém da aparência, que é daquilo que aparece aos sentidos como mutável. Fica
claro então que, por contraste, o mundo sensível heraclitiano, que se encontra
em constante mudança, não pode ser o mundo real.
Os atributos que Parmênides
impõe ao ser constituem um todo tão interessante quanto intrinsecamente
incoerente, o que explica os intermináveis debates interpretativos que se
seguiram. Seu ser é prodigamente polissêmico. Considere, por exemplo, o que os
lógicos extraíram do poema de Parmênides. Eles perceberam que ao afirmar que o ser
é e que não pode não ser, ele já vislumbrava os princípios lógicos da
identidade (o que é, é) e da não-contradição (o que é não pode não ser). Há
também um aceno epistemológico na ideia de que só podemos conhecer aquilo que
é, ou seja, o imutável objeto da verdade; o que não existe não pode ser
conhecido… Além disso, ele nos faz pensar no Deus monoteísta, nas leis últimas
da natureza, no logos heraclitiano. Uma sugestão interessante seria a de que o
ser é a totalidade do universo físico, que, para Parmênides, seria um círculo
finito. Mas então, como explicar sua indivisibilidade e imutabilidade?
Minha sugestão interpretativa seria a de que o
ser é o conjunto dos pensamentos – verdadeiros e falsos – no sentido
fregeano da palavra; nesse sentido, o pensamento é aquilo que a sentença declarativa
nos diz (ou expressa). Nesse caso, o não ser seria aquilo que as sentenças
declarativas não são capazes de dizer, como “O quadrado redondo é redondo” ou
“Meu irmão morreu depois de amanhã”. Embora essa leitura resolva a objeção de
que o ser parmenídeo não nos permite dizer o falso, não parece que Parmênides tivesse
algo do gênero em mente…
O fato é que, com a substantivação do verbo
ser, Parmênides inventou uma espécie de metáfora universal[13] que lhe permitiu insinuar
muito mais do que o discurso literal é capaz de dizer. O recurso ao ser
tornou-se desde então frequente na especulação filosófica, embora pouco
apropriado aos tempos atuais.
É possível uma interpretação ou
uma reconstrução capaz de resgatar o ser parmenídeo em sua integridade? Em meu
juízo, não. Mais de dois mil anos de esforços interpretativos me dão razão. O
que Parmênides fez foi recorrer a um artifício especulativo que pode ser
chamado de uso hipostasiado de um termo. Esse artifício sincretizador
será explicado mais tarde, quando for discutida a filosofia terapêutica de
Wittgenstein (Cap. XVIII). Lá, ele será entendido como um equivalente
filosófico do que Freud chamou de condensação, consistindo na fusão de uma
diversidade de insights de interesse especulativo em um único termo ou
expressão magnificadora de seu efeito.
Parmênides teve um discípulo
importante, Zenão (490-450 a.C.), que, segundo Diógenes Laércio, era seu filho
adotivo e amante.[14] Zenão foi o inventor de
paradoxos, como o de Aquiles e a tartaruga: Aquiles não pode alcançar a
tartaruga se lhe der uma vantagem. Pois, quando ele chegar ao ponto onde a
tartaruga se encontrava no início, ela já se terá movido um pouco adiante;
quando ele chegar ao ponto adiante, ela já terá se movido algo mais à frente, e
assim, infinitamente. Também a flecha não pode se mover porque, a cada
instante, ela se encontra em um ponto fixo do espaço.
Aristóteles respondeu ao primeiro
paradoxo, notando que Aquiles leva cada vez menos tempo para alcançar cada novo
ponto alcançado pela tartaruga, dividindo-se o tempo ao infinito, o que lhe
permite atravessar um espaço que, embora também infinitamente divisível, é ele
mesmo finito.[15]
Com isso, ele antecipou a ideia moderna do cálculo, segundo a qual a soma de infinitas
quantidades que tendem a zero pode convergir para um valor finito. Já quanto ao
argumento da flecha, Zenão pressupôs falsamente que o tempo é composto por
“agoras”, ou seja, por intervalos discretos quando, na verdade, é fluido.
5
Ciência. Os filósofos pré-socráticos se distinguiram por terem
substituído as explicações mitológicas por especulações metafísicas possuidoras
do que poderíamos chamar de forma de teorias científicas, entendendo-se
com isso ideações especulativas motivadas por um conhecimento prévio da
natureza da investigação científica. Essas explicações, como vimos, em alguns
casos detiveram forte analogia com teorias posteriores, verdadeiramente
científicas. É esse insight figurativo da forma geral da teoria o que há
em comum entre o atomismo especulativo de Demócrito e a teoria atômica da
microfísica contemporânea, entre a especulação de Anaxágoras e a presente
teoria cosmológica do Big Bang, entre Empédocles e Darwin.
Esses pensadores tiveram a
ideia de substituir a antiga explicação do cosmos por meio de deuses, em geral
pouco acreditados, por uma explicação baseada em princípios especulativos.
Esses princípios, contudo, nem eles mesmos podiam avaliar, dada a insuficiência
de conhecimentos que lhes permitissem alcançar resultados concretos em domínios
de investigação ainda inexistentes.
Tais especulações só se
tornaram possíveis porque esses filósofos foram profundamente influenciados
pelas ciências cujo desenvolvimento já se iniciava na Grécia Antiga. Havia
matemática importada dos egípcios e dos babilônios. Mas, enquanto os últimos usavam
a geometria para fins práticos, só os gregos tiveram a ideia de considerá-la
pela primeira vez em abstração de suas aplicações, o que permitiu que ela fosse
axiomatizada em um esforço que culminou na obra de Euclides intitulada Os
Elementos. Havia conhecimento de astronomia adotado dos egípcios e babilônios.
Platão já acreditava que a Terra se movia. É bem sabido o notável feito de
Erastóstenes (circa 300 a.C.), que conseguiu medir o diâmetro da Terra
com razoável precisão. Para isso, ele mandou colocar duas estacas ao meio-dia,
separadas por cerca de 450 km. Uma delas fazia sombra enquanto a outra não,
devido à diferença no ângulo de incidência da luz solar. Tomando como referência
as medidas dos ângulos formados pelas estacas e suas sombras, ele conseguiu
calcular com certa precisão a circunferência da Terra, um feito extraordinário para
a época. Embora Erastóstenes, como a maioria, acreditasse no modelo
geocêntrico, um contemporâneo seu, Aristarco, sugeriu que, sendo o Sol muito
maior do que a Terra, esta última deveria orbitá-lo, propondo, pela primeira
vez, o modelo heliocêntrico. Havia também conhecimentos de engenharia e
rudimentos de física, como se ilustra na lei de alavanca de Arquimedes (287-222
a.C.) ou na medição da massa específica de diferentes substâncias, estabelecida
pela relação entre o peso e o volume de água por elas deslocada.
Seria ingênuo pensar que os pré-socráticos não
estavam cientes da incomparável vantagem teórica e prática que o conhecimento
verdadeiramente científico é capaz de proporcionar. Ainda assim, verdadeira motivação
de suas filosofias era o prazer especulativo.
O estudo dos filósofos
pré-socráticos nos oferece uma excelente oportunidade para investigarmos a
natureza da filosofia, o que será feito nas próximas seções.
6
Auguste Comte. Quando nos perguntamos sobre o que os filósofos
pré-socráticos estavam fazendo em sua relação com a ciência, alguma luz pode
ser trazida pela consideração da assim chamada “lei dos três estados”
desenvolvida por Auguste Comte (1798-1857), o mais influente filósofo francês
do século XIX.
A chamada Lei dos três estados (états)
da evolução da civilização foi desenvolvida sistematicamente por Comte em seu Curso
de filosofia positiva.[16]
Esses estados são o teológico, o metafísico e o positivo.
Quero, no que se segue, interpretar essa lei de modo que ela ainda possa ser
reconhecida como plausível.[17]
Uma primeira observação, com a qual Comte
estaria de inteiro acordo, é que não se trata de uma lei no sentido mais
estrito em que a palavra é usada nas ciências duras, mas de uma lei a ser
entendida como uma simples regularidade tendencial. Trata-se da
identificação de uma vaga sucessão de três largos estados, que se sobrepõem de
modo parcial e irregular no desenvolvimento da civilização. Eis como Comte a
apresentou:
A lei consiste em que cada uma de nossas principais
concepções, cada ramo de nosso conhecimento, passa sucessivamente por três estados
teóricos distintos: o estado teológico ou fictício; o estado metafísico ou
abstrato; o estado científico ou positivo. Em outros termos, o espírito humano,
por sua natureza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas pesquisas, três
métodos de filosofar (...)[18]
O estado teológico ou fictivo é aquele em que as anomalias da natureza
(seus imprevistos) são explicadas pela intervenção de projeções antropomórficas
chamadas “deuses”. Tendencialmente, ele começa com o subestado do fetichismo,
caracterizado pelo animismo, a ideia de que objetos como plantas e animais
incorporam deidades. O estado teológico passa então ao subestado politeísta,
no qual um grande número de deuses concorre na explicação das anomalias da
natureza. Nesses dois subestados, cada anomalia pode ser explicada por um deus
diferente, não se impondo a questão de unificar suas causas. Essa unificação só
é ambicionada no terceiro subestado, o do monoteísmo, que se caracteriza
pela crença na existência de um único Deus. O monoteísmo tem a vantagem de oferecer
uma explicação unificada do mundo, ainda que recorra ao antropomorfismo
representado por um Deus pessoal. Para Comte, o estado teológico corresponde à
infância da humanidade. Em suas fases iniciais, ele é repetição do que acontece
no crescimento cognitivo do indivíduo humano, quando a criança acredita na
existência de fadas, bruxas e gnomos.
O estado metafísico ou abstrato
é aquele que marca a transição entre os estados teológico e positivo. Nele, os
seres humanos buscam substituir os seres sobrenaturais por entidades abstratas,
numa transição do imaginário para o
racional. O Deus sobrenatural é então substituído por “abstrações
hipostasiadas”, que passam a servir como princípio explicativo de todo o
universo, de preferência reduzindo tudo a um princípio único. Embora em franca
divergência com Comte (que muito pouco podia conhecer dos pré-socráticos[19]), considero que o exemplo
mais claro de abstração hipostasiada, ou mesmo personificada, foi o das archai
dos pré-socráticos. O estado metafísico apresenta-se aqui, de maneira evidente,
como uma especulação intermediária que deixou de ser religião, mas não chegou a
ser ciência.
Comte percebeu que os estados
religiosos e metafísicos são necessários por motivarem os seres humanos a
continuar buscando o conhecimento, mesmo quando sua forma científica ainda não
é possível. Foi graças a eles que o ser humano persistiu em observar os movimentos
dos astros por milhares de anos, na tentativa de fazer previsões. Essa
persistência foi indispensável, pois foi apenas por meio do apoio de crenças
supersticiosas sobre os astros que o ser humano, após longos períodos de
observação infrutífera, alcançou descobertas astronômicas consistentes. Foi
assim que se chegou primeiro à medição, distinção e previsão dos movimentos planetários
que sustentaram o geocentrismo de Ptolomeu e, mais tarde, à verdadeira
revolução epistêmica que consistiu no heliocentrismo de Copérnico, nas leis de
Kepler e nas descobertas da física de Galileu e Newton. Sem esse longo estado
anterior de especulação pré-científica, nada disso teria sido possível.
Para Comte, o estado metafísico
foi o momento da adolescência do espírito humano, pois correspondia, no
crescimento cognitivo individual, ao período em que os adolescentes se
comportam como aprendizes de feiticeiros, crendo poder saber tudo sem
aprendizado e experiência suficientes. Essa analogia recebeu certa confirmação por
parte de psicólogos: Jean Piaget identificou a tendência “metafísica” do
adolescente de raciocinar sem ainda ter conhecimento consolidado, apoiando-se
apenas no domínio intuitivo da lógica proposicional, surgido no estágio operatório-formal,
após os 12 anos.
É plausível entender que os
três estados se sobrepõem parcialmente, além de ocorrerem em tempos distintos em
cada ciência básica, considerando como básicas as matemáticas, a física, a
química, a biologia e, ainda, o que ele chamava de física social. Isso torna a
pretensão de datar os estados uma tarefa simplista e equívoca. Comte parece não
ter querido compreender esse ponto como deveria, o que o levou a uma visão
precipitada e, certamente, falsa da questão. Para ele, ao nível social o estado
teológico teria predominado antes da Revolução Francesa; o metafísico, entre a Revolução
e a queda de Napoleão, logo depois disso tendo se iniciado o ambicionado estado
positivo... Essa maneira implausível de tratar uma descoberta particularmente
sugestiva só pode ter contribuído para o seu descrédito.
De uma perspectiva
contemporânea, restringindo-nos à cultura, é razoável pensar que, no Ocidente,
o estado metafísico começou com a filosofia dos pré-socráticos e continuou pelo
menos até Hegel, enfraquecendo-se depois, embora ainda de algum modo presente
em filósofos como Husserl e Heidegger. O estado religioso, embora sempre
existente, tornou-se particularmente forte na Idade Média e, aos poucos, viu
sua influência diminuir, muito por força do desenvolvimento teórico e prático das
ciências. Já o estado científico só começou a se consolidar de forma definitiva
com o Renascimento, ganhando proeminência exponencial em nossa visão de mundo
atual.[20] A ciência aplicada é hoje
dominante em nossas vidas, pois acreditamos mais nos átomos do que em deuses ou
em obscuras elucubrações metafísicas. De resto, os três estados se sobrepõem e
só podem ser classificados vagamente quanto à influência sociocultural.
O que importa para nós, no
momento, é salientar que o exemplo mais flagrante da emergência de um estado
metafísico intermediário entre religião e ciência é o que encontramos entre os
pré-socráticos. Essa admissão nos permite compreender melhor o que aqueles
filósofos estavam fazendo, pois os princípios ou archai por eles
buscados encontravam-se de algum modo entre os deuses da mitologia e as leis
naturais.
Para fins de análise, podemos
distinguir aqui dois extremos entre as archai: o das exuberantes e
o das escassas. As exuberantes são as que não apenas admitem entidades
naturais propostas como princípios ou formas gerais de leis, mas a elas
adicionam características próprias dos deuses, como poderes, vida e consciência
própria, e mesmo a formação de abstrações personificadas. As escassas são as
que se restringem à sugestão de entidades naturais como se fossem leis, sem
adicionar traços de entidades sobrenaturais, prescindindo da adição
antropomórfica.
Alguns exemplos justificam a distinção. A água
de Tales era um princípio exuberante: funcionava como uma condição nomológica
natural capaz de possibilitar a vida, mas, ao mesmo tempo, estava repleta de
deuses. Também para os pitagóricos, embora os princípios fossem números e
formas, eles se tornavam exuberantes por não se restringirem à satisfação de
relações matemáticas e geométricas, mas também por exercerem um papel mágico na
determinação do destino humano. O ar de Anaximandro era necessário à respiração
e, assim, era a fonte da vida do universo. O mesmo aconteceu com a mente de
Anaxágoras. Aqui, o papel do psicológico estava presente, mesmo que essas
entidades devessem (com razão) pertencer à physis; ainda assim, elas
representam princípios espirituais capazes de comandar o curso do universo.
Já em Empédocles, os quatro
elementos eram regidos pelas forças do Amor e do Ódio, que apesar de receberem
nomes de afetos, são melhor interpretadas como forças naturais regulando o
curso cíclico do universo, o que já as aproxima de archai escassas.
Passando às archai escassas, os exemplos mais flagrantes são elementos
ou formas claramente não espirituais, a exemplo dos átomos de Demócrito. Também
são classificáveis como archai escassas, o Ápeiron de Anaxímenes, a
razão de Heráclito e mesmo o Ser de Parmênides. Aqui o aspecto espiritual tende
a desaparecer, permanecendo uma realidade postulada e em si mesma indecifrável,
uma abstração hipostasiada que toma o lugar de uma explicação que a ciência da
época não podia alcançar.
Os pré-socráticos aparecem como
os melhores exemplos de filósofos metafísicos no sentido proposto pela lei dos
três estados, uma vez que suas archai apresentam o inteiro espectro, já
que eles suspeitavam da mitologia e aspiravam a ciência, mas sem ter condições
práticas nem teóricas de alcançá-la em âmbitos tão ambiciosos, disso resultando
atitudes e procedimentos inevitavelmente especulativos.
Não obstante, é plausível pensar
que o estado metafísico teve com os pré-socráticos apenas o seu começo. As archai
– os princípios metafísicos fundamentadores da realidade como um todo –
continuaram sendo propostas ao longo de toda a história da filosofia. Foi assim
que Platão tinha como princípio as ideias, Aristóteles a substância,
os medievais o Deus dos filósofos, Leibniz as mônadas, Kant o noumenon,
Hegel o absoluto, Husserl o Eu transcendental, Heidegger o
Ser, Wittgenstein o indizível... Sob essa perspectiva, o período
metafísico foi mantido em filosofia até pelo menos a primeira metade do século
XX, em rematada discrepância com a perspectiva reducionista-positivista do
próprio Comte.
O último estado do
desenvolvimento civilizatório seria, para Comte, o científico ou positivo. Aqui
o ser humano substitui a pergunta pelo “porquê” pela pergunta pelo “como”. Ele
desiste da tarefa impossível de buscar princípios últimos explicativos do
universo como um todo, contentando-se em buscar relações fixas entre os fenômenos
observados, ou seja: leis da natureza aplicáveis em âmbitos mais ou menos
específicos. No lugar da busca por uma inalcançável verdade absoluta, o ser
humano passa a buscar verdades por meio de aproximações sucessivas, consciente
de poder sempre estar errado. Além do mais, abandonando a ambição de unificar
todo o conhecimento em uma única ciência, o conhecimento passa a ser reduzido a
unificações parciais alcançadas pelas ciências particulares, ainda que essas
possam (e devam) ser compreendidas como complementares entre si. Essa seria a
fase adulta do desenvolvimento da humanidade, correspondendo, na psicologia do
crescimento individual, ao homem adulto, ainda que resíduos dos estados
anteriores permaneçam latentes em seu psiquismo…
Um ponto importante é que, se a
chamada lei dos três estados for essencialmente correta, abre-se a
possibilidade de que a filosofia, em todos os seus domínios centrais – compreendidos
naquilo que Comte chamou de metafísica – possa ser substituída por alguma forma
de ciência. Esse é um ponto controverso ao qual voltarei ainda neste capítulo;
sua resposta, adianto, encontra-se diretamente relacionada ao que decidimos
entender com a palavra ‘ciência’, que aqui será empregada em sentido bem mais
amplo do que os filósofos da ciência mais tradicionais a compreenderam.
7
Classificação das ciências. A lei dos três estados
precisa ser complementada pela classificação das ciências básicas proposta por
Comte. Ele percebeu que os estados religiosos e metafísicos, em geral,
antecederam o nascimento do que podemos chamar de ciências básicas, e
que estas nasceram sucessivamente em uma hierarquia de dependências. Isso
introduz um elemento de complicação no processo.
Para Comte, as ciências
empíricas básicas podem ser classificadas segundo a generalidade e a complexidade.
A generalidade é inversamente proporcional à complexidade. Quanto mais geral é
uma ciência, mais simples são seus princípios. Quanto mais complexa é uma
ciência, menos geral ela é. Alterando um pouco a lista de Comte das ciências
básicas (limitada pelo desenvolvimento científico de sua época), nós chegamos
resumidamente ao seguinte quadro:
BIOLOGIA ciências
QUÍMICA naturais
FÍSICA
maior
(CIÊNCIAS
FORMAIS) generalidade
Embora a matemática tenha surgido primeiro, ela não é propriamente uma
ciência natural e ganha um status particular. Assim, a lista deve começar pela
física, a ciência de maior simplicidade em termos de princípios. Por
compensação, suas leis devem se aplicar, supostamente, a todo o universo, o que
lhes confere a maior generalidade. A química é um fenômeno emergente que diz
respeito às inúmeras combinações de átomos. Ela se aplica aos compostos
químicos presentes em grande parte do universo, mas em estruturas relativamente
simples. A química do carbono, muito mais complexa, especialmente na
bioquímica, restringe-se a pouquíssimos planetas com condições semelhantes às
da Terra, o que reduz seu escopo. A psicologia (ignorada por Comte) diz respeito
apenas aos seres vivos capazes de vida mental consciente, um fenômeno emergente
que não se aplica mais à vida vegetal. E a sociologia, ou física social, diz
respeito ao estudo empírico e sistemático da sociedade composta por seres humanos
conscientes. A sociologia é a ciência básica de menor generalidade e de maior
complexidade em seus princípios...
Há um grande número de outras
ciências, mas, em geral, são derivadas, aplicando o conhecimento adquirido
pelas ciências básicas a domínios específicos. Um exemplo é o da geologia, que utiliza
conhecimentos de física, química, biologia, psicologia etc. para estudar a
Terra e as rochas. Outro é a neurociência, que pretende aplicar nosso
conhecimento de biologia, bioquímica, biofísica etc. à investigação do
funcionamento do cérebro. Outro exemplo é a astronomia (que Comte erroneamente
considerava uma ciência básica), que aplica conhecimentos de física, química e
matemática ao estudo do cosmos.
Mais importante é notar que a
passagem do estado metafísico para o estado científico, a revolução epistêmica,
tem ocorrido com o surgimento de cada ciência básica em tempos distintos e de
maneiras diversas. As ciências naturais mais gerais surgiram primeiro, uma vez
que seu conhecimento costuma ser pressuposto para o desenvolvimento das demais.
A “física” aristotélica (quando restrita à física) era puramente especulativa e
completamente errônea, prevalecendo até o fim da Idade Média. A física só se
tornou realmente ciência após Galileu, no século XVI, quando passou a ser
matematizada. Entre as ciências empíricas, a física surgiu primeiro, uma vez
que é pressuposta pelas demais ciências básicas, mas não as pressupõe,
passando, assim, ao estado positivo. A química só passou de seu estado
metafísico, como o da alquimia, para o estado científico no final do século
XVIII, pressupondo, em muito, a física e suas aplicações matematizáveis em
experimentos. A biologia só se libertou definitivamente de crendices como a da
geração espontânea por meio da investigação de Pasteur no século XIX,
pressupondo, para seu desenvolvimento, o conhecimento de ciências mais básicas,
o que incluiu as tecnologias por elas possibilitadas, como a invenção do
microscópio. E tanto a psicologia quanto a sociologia ainda se encontram, hoje,
em um estado parcialmente conjectural (ou “metafísico”), a despeito do
excessivo otimismo de Comte quanto à última.
Ciências derivadas, como a
neurociência contemporânea, dependem, para o seu aparecimento, de toda sorte de
desenvolvimentos anteriores de outras ciências, particularmente no que concerne
à produção de instrumentos e meios de pesquisa. Essa constatação é importante
porque, quando consideramos mais detidamente o que realmente aconteceu, fica claro
que a lei dos três estados diz respeito apenas a uma tendência geral de
sucessão cumulativa, não existindo um tempo histórico definido para cada estado,
visto que eles se sobrepõem de tal maneira que ainda hoje somos capazes de
encontrar resíduos do estado metafísico e até mesmo do estado teológico em
nosso pensamento.
Um ponto a ser adicionado é que
a revolução epistêmica abrupta que ocorreu com o surgimento da física no
Renascimento e, mesmo, da química na virada do século XIX não pôde ser repetida
com a mesma presteza no surgimento de outras ciências, pois, em razão de sua
maior complexidade e especificidade, elas dependem do estabelecimento de um
número cada vez maior de pressupostos teóricos e práticos. A biologia tem
passado ao nível de ciência mais gradualmente.
Que dizer das hoje chamadas
ciências humanas? A passagem da psicologia para a ciência tem sido muito mais gradual.
Os resultados da psicologia experimental são científicos, mas ela é limitada,
como ocorreu com as teorias do condicionamento passivo (Pavlov) e operante
(Skinner). A chamada “psicologia profunda” (Freud), embora constitua um avanço
indiscutível, obteve resultados parciais e controversos e, ainda hoje, não
encontra consenso suficiente sequer entre os psicanalistas. E a sociologia,
embora tenha se estabelecido muito lentamente como um domínio do conhecimento,
constitui-se de uma plêiade de teorias, em parte divergentes e em parte
complementares, ainda longe de alcançar o consenso público que se espera de uma
ciência. Nesses últimos dois casos, encontramos um desenvolvimento muito mais
gradual do que propriamente se espera de uma revolução científica, uma vez que
eles geralmente dependem do reconhecimento empático (o Verstehen
de Dilthey e Weber) do objeto de investigação – colocar-se no lugar de outros
ou de inteiras coletividades humanas – o que demanda um apoio teórico-experiencial
muito mais difícil de ser consensualmente objetivado.
A constatação acima tem uma
moral em relação à filosofia. Se for o caso de que domínios do saber ainda hoje
pertencentes à filosofia (ao que Comte chamou de ‘metafísica’), sejam capazes
de se transformar em alguma espécie de ciência, isso não significa que essa
transição precisará ocorrer por meio de uma ruptura abrupta, como aconteceu com
ciências como a física e a química. Pode ser que essa transição seja gradual,
dependente de inúmeros fatores e conservando verdades que foram sendo
reveladas, de forma fragmentária e tentativa, desde o início (penso, por
exemplo, na importante especulação aristotélica sobre a natureza da substância
sensível). Pode bem ser que essa passagem aconteça de maneira gradual e dependa
de suportes não apenas verticais, de nível mais concreto, mas também de
suportes provenientes das mais variadas direções, inclusive os oriundos de
outros domínios mais abstratos, como os de outras áreas da filosofia, ou seja,
múltiplas e variadas formas de reforço teórico, tanto empíricas quanto formais.
Afora isso, como logo veremos, se os domínios centrais da filosofia forem
capazes de passar ao nível de “ciência”, precisaremos considerar com muito mais
cuidado o conceito de ciência que estamos levando em conta, para não cairmos na
mesma cilada positivista na qual Comte se deixou aprisionar.
Filósofos geralmente torciam o
nariz às ideias de Comte. Eles se sentiam insatisfeitos com seu positivismo
reducionista, com sua maneira apressada de substituir a conjectura filosófica
pela ciência, sem falar de sua trajetória mística posterior como fundador da
religião da humanidade. Jean-Paul Sartre chegou a dizer que Comte está na
origem do fascismo… Contudo, quando sensatamente revisadas, as principais
suposições de Comte sobre a evolução das formas de investigação e a ordem do
nascimento das ciências básicas demonstram-se capazes de ser absorvidas com
proveito.
8
J. L. Austin. A consideração da lei dos três estados nos leva
diretamente a outra ideia, qual seja, a de que a filosofia, ou pelo menos boa
parte dela, possa ser vista como uma protociência. Segundo essa ideia, a
filosofia antecipa a ciência; ela é aquilo que é possível fazer antes
do surgimento da ciência.
Quando ainda não temos domínio dos
métodos a serem empregados, quando não sabemos sequer quais são os dados que
devem ser considerados mais fundamentais, falta-nos qualquer critério para
saber que espécie de teoria será preciso desenvolver. O que nos resta são
conjecturas filosóficas, ou seja: escolhemos com certo grau de arbitrariedade
pontos de partida cuja aceitação depende do “gosto e temperamento” do filósofo
e de seus discípulos, admitindo-os como pressupostos para a especulação. Assim,
um filósofo X escolhe um conjunto de ideias como ponto de partida e as utiliza
como pressupostos para construir uma linha de raciocínio que levará a
resultados plausíveis ou, ao menos, interessantes. Já outro filósofo, Y, com gosto
ou temperamento diferente, escolhe outro conjunto de pressupostos como ponto de
partida, construindo outra linha de raciocínio, outra filosofia. É claro que,
depois disso, não será possível comparar os resultados, ficando a escolha final
na dependência do gosto ou do temperamento de cada um.
Essa situação também permite um
uso relativamente livre da imaginação na busca por soluções meramente
especulativas. E isso também tem sido muito característico do trabalho do
filósofo. Esse sentir-se bem no pensamento especulativo é o que motivou
Bertrand Russell a comparar os filósofos aos Pais Peregrinos, que insistiam em
ir viver sempre mais para o oeste, de modo a fugir da civilização que deles se
aproximava.
Como observou J. L. Austin em
uma famosa metáfora que não me canso de citar, com a qual preparava o terreno
para seu projeto de retirar do domínio conjectural da filosofia uma ciência da
interação comunicativa:
Na história da investigação humana, a filosofia ocupa
o lugar do sol inicial central, seminal e tumultuoso: de tempos em tempos, ele
lança fora uma porção de si mesmo para formar uma estação como ciência, um
planeta, frio e bem regulado, que progride continuamente em direção a um final
distante. Isso aconteceu há muito tempo com o nascimento da matemática e ainda
com o nascimento da física... Não é possível que o próximo século possa ver o
nascimento, por meio do trabalho conjunto de filósofos, gramáticos e de
numerosos outros estudantes da linguagem, de uma verdadeira e abrangente
ciência da linguagem? Então nós teremos nos livrado de mais uma parte da
filosofia (haverá ainda muitas deixadas para trás) da única maneira pela qual
podemos nos livrar da filosofia, que é chutando-a para o andar de cima.[21]
Austin demonstrou isso na prática. Ele passou os últimos dez anos de sua
vida trabalhando no desenvolvimento de uma gramática dos diferentes atos de
interação linguística, como afirmar, perguntar, prometer, pedir, ordenar,
batizar… disso resultando o que ele chamou de uma teoria dos atos de fala,
que hoje é estudada nos cursos de linguística mais do que nos de filosofia.[22]
Exemplifica-se aqui a condição da filosofia como protociência, em alguma
medida complementar à visão de Comte. E o sol inicial, central e tumultuoso,
não pode ser melhor descrito do que na filosofia dos pré-socráticos.
9
O exemplo da teoria dos atos de fala também nos mostra que o papel de
protociência da filosofia não consiste em antecipar ciências semelhantes às que
já existem, mesmo que de forma embrionária. Essa atitude tende a desaguar em
uma forma de reducionismo contraprodutivo. Se a filosofia for protociência, ela
o será no sentido de antecipar o inesperado, a exemplo da teoria dos atos de
fala.
Há, nesse ponto, uma objeção à
ideia de filosofia como protociência, que ainda hoje deve ocorrer a muitos, mas
que resulta de simples confusão. Ela foi feita por Sir Anthony Kenny. Ele
sustentou que pelo menos os domínios centrais da filosofia, como os da
metafísica, das teorias do significado e da ética, continuarão para sempre
filosóficos.[23]
Essa conclusão, porém, deve-se à aceitação de uma concepção positivista da
natureza da ciência que Kenny e outros aceitavam, e que muitos ainda têm em
mente. Essa concepção foi amplamente difundida pelo positivismo lógico e pelo
fato de que os primeiros filósofos contemporâneos da ciência empírica eram
filósofos da física. Trata-se da definição da ciência pelo emprego de
experimentos verificadores (Carnap) ou falsificadores (Popper), notadamente
aqueles passíveis de controle preciso e de repetição. Tal concepção se aplica
quando muito à física, mas não se aplica facilmente a um domínio obviamente
científico, como o da teoria da evolução, que não é passível de experimentos
repetíveis. Ademais, o que dizer de muitas outras atividades geralmente
consideradas científicas, como a economia, a linguística, a história, a
antropologia física? Concepções positivistas da ciência costumam ser
reducionistas, por isso mesmo, deixando de corresponder ao que cientistas e
pessoas com educação científica costumam chamar de ciência, que é algo muito
mais amplo. Se quisermos entender a ideia de filosofia como protociência,
mantendo uma estreita concepção positivista da natureza da ciência, a conclusão
de Kenny é correta e inevitável: o sol seminal filosófico, naquilo que ele tem
de mais central, jamais poderá dar lugar à ciência, a menos que isso seja feito
caricaturalmente, por meio de alguma forma brutal de reducionismo positivista.
A objeção acima é facilmente
respondida pela adoção de uma concepção alternativa, não reducionista de
ciência. E ela existe. Ela foi sugerida por John Ziman, um físico e sociólogo
da ciência, o que corresponde exatamente ao que cientistas e pessoas com
formação científica costumam chamar de ciência. Segundo Ziman, o traço mais
fundamental da investigação científica é que ela é conhecimento público
consensualizável (public consensualizable knowledge).[24]
A ideia é intuitiva: o conhecimento dito científico é aquele que, em contraste
com a especulação filosófica, é apto a obter consenso quanto aos seus
resultados da parte de uma comunidade de ideias apropriada, a comunidade dos
cientistas. Sendo assim, a metodologia torna-se relativa ao campo de
investigação ao qual também, por consenso, deverá se adequar. Só onde há consenso
pode haver previsão e progresso.
A ideia de Ziman é intuitiva,
mas insuficiente. Ela pode ser melhor qualificada se adicionarmos a exigência
de que o consenso seja autêntico. O consenso autêntico pode ser
caracterizado como o produto de uma comunidade de especialistas que funcione de
modo semelhante ao que Jürgen Habermas chamou de “situação ideal de fala” (ideale
Sprachsituation).[25] Trata-se, melhor dizendo,
de uma comunidade crítica de especialistas que se caracteriza por
ter participantes:
(a) similarmente competentes,
(b) com idêntico acesso à informação,
(c) com iguais direitos de manifestação crítica,
(d) com completa liberdade de expressão,
(e) com comprometimento com a verdade (...)
Um preenchimento suficiente dessas
condições é necessário para que se alcance consenso autêntico na avaliação
pública dos resultados obtidos em um domínio de investigação. Casos em que
essas condições não foram satisfeitas em grau minimamente suficiente arruinaram
a comunidade científica. Exemplos convincentes: a ciência ariana sob o nazismo
e a biologia dialética de Lysenko sob a ditadura stalinista.
A definição de ciência como
conhecimento público consensualizável resgata à perfeição o que cientistas e
leigos cultos admitem chamar de ciência. Vejamos alguns casos. A teoria da
evolução é científica porque há consenso suficiente entre os especialistas
quanto aos seus resultados. Casos como o da evolução do cavalo (Equus
caballus) são por demais conhecidos para que haja dúvidas. A antropologia
física é científica porque a comunidade científica é capaz de concordar com os
seus resultados. Por exemplo: admitimos que os seres humanos atuais emigraram
da África entre 70 à 100 mil anos atrás em levas sucessivas, espalhando-se
então pelo mundo... Considere agora a história e a economia, que se classificam
como partes das ciências humanas e sociais. Embora a história seja um processo,
há pontos gerais de consenso entre especialistas e mesmo possibilidades de
previsão, o mesmo acontecendo no campo volátil da economia, embora essas
ciências trabalhem com inúmeros e sempre novos fatores intervenientes,
dificultando previsões. Considere agora o caso limítrofe da psicanálise. Embora
ela se aproxime mais da ciência do que de uma psicologia de cadeira de balanço,
por ser praticada no ambiente mais controlado de sessões psicoterapêuticas, ela
não chega a ser ciência no sentido mais forte de seus resultados serem
integralmente aceitos pelos psicanalistas.
Muito diverso é o caso de uma
pseudociência como a astrologia. Mesmo formando um arbitrário cânon de predição,
os astrólogos nunca conseguiram formar uma comunidade crítica de especialistas
capaz de chegar a acordos legítimos sobre suas teorias e resultados, nem sequer
estabelecer parâmetros de competência aceitáveis.
Não é exatamente o mesmo que aquilo
que vemos acontecer na tradição filosófica. A tradição filosófica produziu um saber
cumulativo que, mesmo não sendo capaz de encontrar a verdade, tem sido cada vez
mais capaz de afastar o que deve ser falso. Ela sempre se valeu de uma
comunidade de especialistas que possuía parâmetros de competência comuns
capazes de medir graus de plausibilidade, relevância especulativa e
originalidade, ainda que culturalmente instáveis. Essa comunidade tem certa
proximidade com uma comunidade crítica de especialistas, ainda que se saiba
incapaz de alcançar um grau suficiente de consenso quanto aos resultados. Um
ponto importante é que uma comunidade de especialistas só se torna capaz de
concordar quanto aos resultados – concretos na ciência e meramente
especulativos na filosofia – se condições mínimas de objetividade do domínio da
investigação forem compartilhadas e aceitas pela comunidade científica como um
todo. Tais condições não se encontram presentes em pseudociências como a
astrologia.
Alguns poderão objetar que nada
disso resolve o problema, pois, diversamente da ciência, a especulação filosófica
é demasiado abstrata, de sorte que a aquisição de consenso a respeito dela será
sempre impossível, a menos que se proceda de maneira artificiosa. Acredito que
essa objeção possa ser respondida por meio do apelo ao conceito de
consiliência, tal como interpretado por Susan Haack.[26] Os cientistas precisam adotar o pressuposto de
que a realidade seja suficientemente unificada para que as ideias científicas
verdadeiras se complementem e se reforçem entre si em sua relação com a
verdade. Um exemplo clássico é o da genética molecular. Ela corrobora os
achados da genética mendeliana, que, por sua vez, são corroborados pela teoria
da evolução natural, a qual, por sua vez, é corroborada por dados geológicos...
O que Haack fez foi aplicar a ideia de consiliência às teorias filosóficas. À
medida que diferentes subáreas da filosofia possuem algo de verdadeiro e se
encontram interligadas entre si, as ideias verdadeiras desenvolvidas nessas
subáreas devem poder se reforçar de forma verídica. Além disso, ideias
pertencentes a áreas do conhecimento complementares a um certo domínio da
filosofia devem ser capazes de reforçar ideias verdadeiras desse mesmo domínio
e enfraquecer ideias falsas. A assunção da consiliência nos leva a concluir que
a confluência do conhecimento proveniente de diversas direções é capaz de
estreitar os fios da teia do conhecimento e, gradualmente, aproximar os
resultados da especulação filosófica de uma matéria de consenso, melhor
dizendo, da ciência, no sentido flexível de um conhecimento público legitimamente
consensualizável, sem, para isso, ter de adotar um procedimento reducionista.
Se admitirmos uma concepção
suficientemente liberal de ciência como conhecimento público legitimamente
consensualizável, torna-se factível a possibilidade de que áreas centrais da
filosofia tradicional venham, aos poucos, a se tornar científicas, uma vez que
a filosofia contrasta com a ciência precisamente por sua falta de consenso
público quanto aos resultados. Quando teorias pertencentes a domínios centrais
da filosofia, como a metafísica, a epistemologia e a ética, se tornarem objeto
de consenso entre seus conhecedores, elas deixarão de ser filosóficas para se
tornarem científicas. E não precisamos nos tornar reducionistas, positivistas
ou cientificistas para admitirmos essa possibilidade.
10
O triângulo metafilosófico. Há, por fim, uma
maneira de entender a natureza da filosofia que é complementar ao que foi
considerado até aqui e capaz de nos proporcionar um quadro mais completo e
acabado. Trata-se da ideia de que a filosofia é uma prática cultural derivada.
Um exemplo de prática cultural derivada é a ópera. Ela resulta, basicamente, de
três práticas artístico-culturais: a música, o enredo e a poesia. Tendo em
vista a filosofia, parece que podemos considerá-la uma prática cultural
derivada de três práticas culturais mais fundamentais: religiosas, artísticas e
científicas. A filosofia não se reduz a nenhuma dessas três práticas, mas extrai
elementos de cada uma delas.[27]
Pode-se sugerir que a filosofia retira da prática religiosa sua
motivação “mística”, a ser realizada em termos de profundidade e abrangência. O
“espanto” do qual, segundo Aristóteles, nasce a filosofia tem a ver com essa fonte. Trata-se
aqui da motivação que podemos chamar de totalizante ou holística,
que contém um fator integrador, visível no esforço de direcionar as conjecturas
rumo à maior amplitude possível, ao conjunto da realidade. Assim, quando o
filósofo busca “uma explicação última do universo e do lugar que o homem nele
ocupa” (Aquino), quando ele se pergunta “de onde viemos, quem somos, para onde
vamos” (Gauguin), ou ainda, quando ele se põe a questão “por que o ente e não
antes o nada?” (Heidegger; Leibniz), o que vemos em ação é a mesma motivação
que sob circunstâncias outras conduziria à religião. Mesmo que se conclua
negativamente que precisa ser o ente e não antes o nada, simplesmente porque
“se fosse o nada, ninguém estaria aqui para fazer essa pergunta” (Stephen
Hawking), o interlocutor demonstra uma preocupação filosófica pertencente ao
mesmo escopo holístico, ainda que invertendo o resultado.
Da prática artística, o
filósofo retira o caráter criativo e inevitavelmente metafórico dos conceitos
que fundamentam seu discurso (como os de “ser”, “conceito”, “ideia”, “coisa em
si”, “absoluto”, “indizível”), bem como de suas metáforas, alegorias e
aforismos, de sua retórica e da estrutura mesma do discurso, como ocorreu com
Platão, Spinoza e Wittgenstein. Ao dizer que “da luta dos opostos nasce a mais
bela harmonia” (Heráclito), que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”
(Platão), que “a angústia é a disposição fundamental que nos coloca diante do
nada” (Heidegger), ou ainda que “todo objeto amado é o centro de um paraíso”
(Novalis), o filósofo cede a recursos estéticos como veículos de suas
intuições.
Finalmente, da prática científica
o filósofo retira seu objetivo veritativo, no sentido de busca pela
verdade, a intenção de aproximar-se da verdade, e os recursos metodológicos,
formais ou empíricos, tomados de empréstimo às ciências. Por isso mesmo, o
filósofo precisa estar ciente daquilo que Wilfrid Sellars chamou de imagem
científica do mundo (i.e., as ideias científicas relevantes de sua época),
que pode ser interpretada como uma extensão da imagem manifesta do
mundo, na medida em que ela for entendida como nosso saber comum, da qual ele
também precisa estar ciente de modo a manter os pés no chão da realidade.[28] Considere, por exemplo,
afirmações como as seguintes: “o mundo é feito de átomos e do vazio”
(Demócrito), “nada pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto” (Aristóteles),
“quando penso que existo não posso estar errado” (Descartes), ou ainda “a
indução só é possível se o universo for uniforme” (Hume). Através delas, o que
vemos é o filósofo procurando fundamentar seu discurso em verdades acerca do
mundo, o que aproxima a filosofia do saber compartilhado da ciência.
Sob tais condições podemos
construir um triângulo em cujos vértices se encontram a religião, a arte e a
ciência, encontrando-se a filosofia no espaço interior do triângulo, como é
sugerido abaixo:
CIÊNCIA
FILOSOFIA
RELIGIÃO
ARTE
Quando consideramos a filosofia dos pré-socráticos, todos esses
elementos estão presentes. É evidente o elemento estético nos aforismos de
Heráclito e no poema de Parmênides. Mas Heráclito escreveu em tom oracular e o
poema de Parmênides é apresentado por uma deusa que, apontando as indevassáveis
virtudes do ser, revela a influência totalizante do elemento místico. Além
disso, o primeiro buscava a sabedoria no logos, nas leis da razão que
governa o mundo, enquanto o segundo tinha por objeto o conhecimento do ser como
seu objeto imutável, o que só pode acontecer pela motivação veritativa de
compreender a verdadeira natureza das coisas, o que deriva da busca do consenso
autêntico característico da ciência.
Podemos intuitivamente situar
os diferentes filósofos em diferentes locais no interior do triângulo.
Filósofos que possuem em medida similar elementos místicos, estéticos e veritativos
podem ser postados na região central do triângulo. O melhor exemplo é Platão,
que tem sido por muitos considerado o filósofo par excellence, que
dignificava especialmente as ideias do bem e do belo e também, talvez nem
tanto, a da verdade. Aristóteles e Kant também estão na área central, mas o
primeiro se encontra algo mais próximo do vértice científico, dignificando
especialmente a verdade, e o segundo algo mais próximo do vértice místico.
Filósofos cujo trabalho possui
maior predominância de elementos místicos podem ser postados próximos ao
vértice religioso do triângulo, a exemplo de Sto. Agostinho, Aquino, Schelling
e Hegel. Filósofos com predominância de elementos estéticos, poetas-filósofos
como Nietzsche e mesmo Heráclito, podem ser postados próximos do vértice
artístico do triângulo. Filósofos com predominância conjunta dos elementos
estético e místico, como Kierkegaard e Heidegger, podem ser postados próximos
ao meio da linha de baixo do triângulo. E ainda filósofos com interesses
particularmente veritativos, como Locke e Russell, sem falar de cientificistas
como Rudolph Carnap e W. V. O. Quine, podem ser postados próximos ao vértice
científico do triângulo. Por fim, há aqueles que se encontram na fronteira
entre filosofia e outra coisa, como Novalis e o poeta Hölderlin, cujos escritos
possuíam insights filosóficos, mas também de caráter artístico, ou o
filósofo-místico medieval Meister Eckhart, cujos sermões são prédicas
religiosas filosoficamente coloridas. E quanto à zona limítrofe entre filosofia
e ciência, temos ainda o caso de Freud e da psicanálise: no ambiente controlado
da prática psicoterápica, ele teve condições de aprofundar conceitualmente a
psicologia filosófica, ainda assim, sem alcançar o alto consenso científico por
ele ambicionado.
O triângulo metafilosófico nos
ajuda até mesmo a classificar os direcionamentos das filosofias adotados em
diferentes culturas, como nos casos das filosofias alemã, francesa e inglesa.
Assim, filósofos alemães, desde figuras limítrofes como Meister Eckhart até
filósofos de grande estatura como Kant e Husserl, geralmente demonstravam maior
proximidade do vértice místico-religioso, tendo sua ambição de abrangência
totalizante maximamente exemplificada no sistema omniabrangente que foi o
idealismo absoluto de Hegel. Alguns, como Schelling, Hegel e Heidegger, até
mesmo estudaram em seminários religiosos. A filosofia francesa, desde
Descartes, ainda mais com Jean-Paul Sartre, mas em um nível extremo no
movimento pós-modernista da retórica filosófica de pensadores como Michel
Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Derrida, possuiu ênfase estética
fronteiriça, tendendo ao extremo artístico, certamente sob a influência da
extraordinária literatura produzida em língua francesa. Finalmente, a filosofia
inglesa, seguida da filosofia norte-americana e australiana, sob a influência
maior dos desenvolvimentos científicos e técnicos, pôs ênfase no aspecto veritativo
próprio do vértice científico. Basta considerar exemplos de filósofos como
Locke, John Stuart Mill, Bertrand Russell, W. V. O. Quine, Saul Kripke e mesmo,
se bem considerados, J. L. Austin, Paul Grice e John Searle.
De maior importância é um
desenvolvimento histórico constatável no interior do triângulo: a direção
verticalizadora da ciência. A tendência geral é que as investigações
filosóficas, em suas áreas tradicionais, muito gradualmente se aproximem do
vértice científico no sentido exposto, ou seja, que suas discussões, de início
inteiramente aporéticas, aos poucos, pelo reforço interteorético proveniente de
diversas direções, estreitem cada vez mais as exigências de suas teias
argumentativas, de modo a se elevarem gradualmente à forma de um conhecimento
público legitimamente consensualizável.
Quando isso acontecer, é possível que a
filosofia nesses domínios centrais seja substituída pela ciência, restando como
filosóficas formas periféricas que, em seu modo especulativo, são menores. É
bem possível que estejamos nos aproximando desse ponto. Nesse caso, assim como
uma vez assistimos ao desaparecimento da mitologia, teremos então a morte da
filosofia no sentido do empreendimento profundamente abrangente e aporético com
o qual nos acostumamos no curso da tradição até tempos bem recentes, o que não
significa que ela deva ser substituída por ciências menos complexas e de
abrangência reduzida – muito pelo contrário! O maior risco, porém, é que se
tente apressar essa morte por meio de formas aparentemente assépticas de
eutanásia, como a fragmentação cientificista de áreas centrais da filosofia em
obscuros guetos de proficiente miséria intelectual – o que alguns receiam estar
hoje acontecendo.[29]
Muito do que será exposto aqui
servirá quase incidentalmente como comprovação das teses metafilosóficas
recém-defendidas.
11
No século IV a.C., a filosofia dos
pré-socráticos foi substituída pela filosofia madura da Grécia Antiga, representada
por Sócrates, Platão e Aristóteles. Os dois últimos, juntamente com filósofos
como Kant e Hegel, constituem, se assim podemos dizer, o cânone da tradição
filosófica ocidental, pela amplitude, coesão lógica e força imaginativa de seus
sistemas. Eles realizaram tentativas de unificar, de forma especulativa, nosso
entendimento do mundo e do lugar que o homem nele ocupa, com base no conhecimento
e na cultura do tempo em que viveram.
[1] Ver G. W. F.
Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie (1837) - Die
orientalische Welt.
[2] A. C. Grayling, The
History of Philosophy (Penguin Press 2019), Parte V.
[3] Friedrich Nietzsche: “Os filósofos Trágicos”,
in Os Pré-Socráticos: Fragmentos, doxografia e comentários, col. Os pensadores (Abril Cultural
1978), pp. 10-12.
[4] Karl Popper: “Back to the Pre-Socratics.” In Conjectures
and Refutations (Routledge 1989), p. 138.
[5] Ver discussão em
W. K. C. Guthrie, A History of Greek Philosophy I: The earlier Presocratics
and the Pythagoreans (Cambridge University Press 1962), pp. 119-133.
[6] Nas citações dos pré-socráticos farei livre
uso de G. S. Kirk, J. E. Raven e M. Schofield, The Presocratic Philosophers
(Cambridge University Press 1995), além das traduções a serem encontradas em Os
Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários, Col. Os Pensadores
(Abril Cultural 1973).
[7] Encontro essa
sugestão em Anthony Kenny: A New History of Western Philosophy (Oxford
University Press 2004) vol. I, p
25.
[8] O próprio Darwin reconheceu isso no apêndice
da sexta edição de A origem das espécies.
[9] Friedrich Nietzsche, A gaia ciência
(1882, 1887) sec. 285, 341.
[10] A ideia do universo pulsátil foi inicialmente
sugerida por R. C. Tolman em seu clássico Relativity, Thermodynamics, and
Cosmology (Dover 1987 (1934)), sec. 174, p. 439.
[11] Os Pré-Socráticos: Fragmentos, doxografia
e comentários, Col. Os Pensadores (Abril Cultural 1978), fragmentos
42, 106, 121.
[12] A sentença grega original, “To
gar auto noein estin te kai einain”, é ambígua e tem sido traduzida de
várias maneiras. Se for traduzida como “pensar e ser são o mesmo” (“Denn
dasselbe ist Denken und Sein” (Diels/Kranz)) confunde o ser com o ato
de pensar. Por isso prefiro traduções como as de W. K. C. Guthrie e Edward
Hussey.
[13] Aristóteles se apercebeu disso ao notar que o
ser tem múltiplos sentidos.
[14] Diôgenes Laértios: Vidas e doutrinas dos filósofos
ilustres (UNB 1987), p. 258.
[15]
Aristóteles, Física 239b 14-30, 263-264.
[16] Auguste Comte, Cours
de philosophie positive (Rouen Fréres 2830), p 3 e ss. Trad. port. Curso de filosofia positiva (e outros textos) (Nova
Cultural 2005).
[17] Não há aqui espaço para discuti-la em detalhes. Ver W. Schmaus,
“A Reappraisal of Comte’s Three-State Law”, in History and Theory 21
(2), 1982.
[18] Auguste Comte, Cours
de philosophie positive, Prèmier Lesson, p. 2.
[19] Na época de Comte, as citações remanescentes
dos escritos perdidos dos pré-socráticos eram acessíveis apenas a poucos
especialistas, só tendo sido reunidas e classificadas por Hermann Diels em sua
monumental obra, Die Fragmente der Vorsokratiker, publicada em 1903.
[20] Uma questão em aberto é em que medida a lei
dos três estados se aplica a história das civilizações orientais.
[21] J. L. Austin: Philosophical Papers (Oxford
University Press 1979), p. 232.
[22] O texto clássico foi publicado após o
falecimento do autor sob o título de How To Do Things With Words
(Clarendon Press 1962); tradução portuguesa de Danilo Marcondes, sob o título
de Quando dizer é fazer: palavras e ação (Artes Médicas 1998).
[23] Anthony Kenny: Aquinas
on Mind (Routledge 1993) cap. 1, p. 4.
[24] John Ziman: O Homem e a Ciência (Itatiaia
1979), pp. 24-27.
[25] „Wahrheitstheorien“, in Vorstudien und Ergänzungen zur Theorie des
kommunikativen Handelns (Suhrkamp
1984).
[26] Ver Susan Haack:
“The Fragmentation of Philosophy, The Road to Reintegration”, in Reintegrating
Philosophy. Ed. J. F. Göhner, Eva-Maria Junger (Springer Verlag 2016), p.
15 ss.
[27] Em si
mesma, a ideia não é nova. Eis como Johannes Hessen a
expressou: “Se desejamos definir resumidamente a posição da filosofia no
sistema da cultura, devemos dizer o seguinte: a filosofia tem duas faces; uma
dirige-se à religião e à arte, a outra à ciência. Tem de comum com aquelas o
dirigir-se ao conjunto da realidade; com esta, o seu caráter teórico.” Johannes
Hessen: Teoria do conhecimento (ed. Coimbra 1987), p. 18. Ver também “The Nature of Philosophy”, in Dilthey: Selected Writings, Ed. H.
P. Hilkman (Cambridge University Press 2010), p. 122.
Essa, como outras ideias metafilosóficas resumidas nesse capítulo, encontram-se
desenvolvidas em Claudio Costa, Sobre a natureza da filosofia (Dialética
2025).
[28] É preciso distinguir aqui o saber comum modesto
(“mooreano”, segundo D. M. Armstrong), exprimível por sentenças como “eu tenho
um corpo” e “o mundo externo existe”, que se complementa com a ciência, do
senso comum ambicioso, que extrapola seus limites sob o risco de ser
refutado pela ciência, como foi o caso da ideia de que o Sol gira em torno da
Terra.
Claudio Costa, Philosophical Semantics: Reintegrating Theoretical Philosophy
(CSP 2020), cap. II.
[29] cf. Susan Haack: “The
Fragmentation of Philosophy: The Road to its Reintegration”, in J. F. Göhner e
Eva-Maria Jung: Susan Haack: Reintegrating Philosophy (Springer 2016).

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