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segunda-feira, 1 de junho de 2026

O IDEALISMO DE PLATÃO (Draft de Introdução histórica à filosofia cap II)

  

 draft para livro a ser publicado pela Europa Editora

 

II

O IDEALISMO PLATÔNICO

 

Podemos facilmente perdoar uma criança por ter medo do escuro; a verdadeira tragédia da vida é que os adultos tenham medo da luz.

Platão

 

Em comparação com os pré-socráticos, Platão é um mundo. Ele e seu aluno Aristóteles foram os dois grandes filósofos da Antiguidade, comparáveis em influência a Kant e Hegel na filosofia moderna. Foram os primeiros a construir grandes sistemas filosóficos, tentando explicar, de forma especulativa, o mundo como um todo e o lugar que o homem nele ocupa. Ao fazê-lo, desenvolveram amplas visões de mundo, ainda hoje influentes. Eles viveram em um período em que a cultura grega já começava a declinar devido à guerra do Peloponeso, uma prolongada guerra fratricida entre as cidades-estado, que culminou na tomada de Atenas por Esparta. Aqui a história parece ter dado razão à célebre observação de Hegel de que a filosofia é como a coruja de Minerva, que só alça voo ao anoitecer.

   Platão (428-348 a.C.) pertencia à aristocracia ateniense. Era para se tornar político. Mas ele decepcionou-se com as atrocidades da política ateniense, em especial com a condenação de Sócrates. Ele tentou influenciar politicamente Dionísio, o tirano grego de Siracusa, o que quase lhe custou a vida. Acabou por se conformar em viver o resto de sua longa existência como professor na academia que fundara.

   As maiores influências no pensamento de Platão foram os filósofos pré-socráticos, principalmente Parmênides e Heráclito, além do pitagorismo e de sua tradição mística. Afora isso, ele sofreu grande influência pessoal de Sócrates, de quem foi admirador e discípulo.

 

1

 

Sócrates. É difícil explicar uma personalidade como a de Sócrates (469-399 a.C.). Ele nunca deixou palavra escrita, segundo a lenda, porque queria que a marca de suas palavras ficasse impressa nas mentes das pessoas. Ele era pobre. Estima-se que, na época, cerca de um terço dos atenienses fosse escravo. Assim, mesmo com poucos recursos, o honrado cidadão Sócrates, após ter lutado na guerra e servido ao Estado, pôde se dar ao luxo de viver pelas ruas de Atenas discutindo filosofia.

   Segundo Nietzsche, um crítico sarcástico, a culpa teria sido de sua esposa Xantipa. Para se livrar da presença dessa mulher difícil, quarenta anos mais jovem, que lhe dava muito trabalho e nenhum prazer, Sócrates resolveu ir às ruas, onde, ao conversar com as outras pessoas, desenvolveu seu talento para a dialética. A mãe de Sócrates era uma parteira. Sócrates não a decepcionou. Ele tornou-se, segundo suas próprias palavras, um parteiro de ideias, que fazia nascer a fórceps das cabeças das pessoas com as quais conversava.

   Os interesses de Sócrates eram muito diferentes daqueles dos filósofos pré-socráticos. Enquanto aqueles tinham a cosmologia como o centro de suas preocupações, Sócrates se interessava pela ética. Ele defendia uma forma de intelectualismo moral. Para ele, a moral é uma espécie de conhecimento radicado na natureza humana. Assim como a força física é a saúde do corpo, a moral é a saúde da alma. Por isso, a má ação resulta, de alguma forma, de ignorância. Quem age mal é porque não sabe fazer uma estimativa adequada do que tem a ganhar ou perder com sua ação. Ninguém faz o mal sabendo-se inteiramente culpado. A pessoa espera obter algum ganho, como riqueza, poder ou prazer, sem perceber que, com isso, está causando um dano maior a si mesma. A perda da moral é um mal feito à integridade psicológica do agente. Esse é o caso de tiranos que escravizam seu povo. São infelizes porque forçados a viver à mercê daquilo que há de mais baixo e desprezível em si mesmos. Daí que é melhor sofrer do que praticar a injustiça. A conclusão de Sócrates foi que uma pessoa só é capaz de ser feliz se for virtuosa. Não é que a virtude seja o mesmo que a felicidade, mas sim que a felicidade verdadeira pressupõe a virtude.

   O quanto Sócrates estava certo é uma questão difícil de responder. O que dizer de pessoas que, por natureza, possuem pouca ou nenhuma consciência moral, como os psicopatas, que não sentem culpa ao praticar o mal? Não poderiam essas pessoas ser felizes na ausência de virtudes? É tentador responder que a espécie de felicidade por elas alcançada é de ordem inferior, na medida em que fazer o bem é uma fonte de felicidade a elas vedada.

   Por seu questionamento moral, Sócrates incomodava as pessoas que detinham poder em Atenas. Ele incomodava os políticos por recusar-se a participar de ações desonrosas. E incomodava os sofistas, que cobravam para ensinar a arte da oratória às pessoas, de modo a fazê-las obter sucesso na vida pública, uma vez que ele mesmo nada cobrava pelos seus ensinamentos e desprezava os valores mundanos… Decidiram livrar-se dele. Sócrates foi acusado de desdenhar os deuses e de corromper a juventude, devendo ser condenado à morte. O objetivo teria sido apenas fazer com que ele fugisse de Atenas. Mas como ele não foi embora, tiveram de submetê-lo a um julgamento público. No final, os juízes concluíram que ele era culpado e deveria ser condenado à morte, mas teria o direito de optar por uma pena alternativa suficientemente severa, como a de ser banido de Atenas. Sócrates resolveu desafiar a todos. Argumentou que não só não era culpado, como também prestou grandes favores ao Estado por meio de ações e ensinamentos. Por conseguinte, não deveria ser punido, mas sim recompensado, recebendo refeições gratuitas pelo restante de sua vida, tal como acontecia com os benfeitores da pólis.[1] Afrontado, o júri não teve outra opção senão condená-lo à morte por envenenamento com cicuta.

 

   Platão foi testemunha desses acontecimentos, o que o deixou horrorizado com a espécie de democracia que dominava Atenas.[2]  A ética de Platão era semelhante à de Sócrates. Podemos atribuir à influência de Sócrates seu ensinamento de que a ideia do bem é, entre todas, a mais elevada. Quando agimos mal, fixamos nossa atenção em algum bem, esquecendo-nos das consequências, que, para nós mesmos, costumam ser piores.

 

   Para além da ética, outra contribuição de Sócrates foi preparar o caminho para a introdução do problema dos universais por Platão e Aristóteles. Sócrates foi um personagem recorrente nos diálogos platônicos, sempre em busca de definições de termos conceituais de interesse filosófico. Nos diálogos, ele sempre aparecia tentando responder perguntas do tipo “O que é X?”, em que X é um termo conceitual geral que desempenha uma função importante em nosso entendimento do mundo. Assim, nos diálogos platônicos, Sócrates formulava perguntas como “O que é a temperança?” (Cármides), “O que é a coragem?” (Laques), “O que é a piedade?” (Eutífron), “O que é a virtude?” (Protágoras), “O que é a justiça?” (República), “O que é o conhecimento?” (Teeteto)… e assim por diante. Só podemos atribuir o mesmo termo conceitual geral a muitas e muito diversas coisas porque elas satisfazem sua definição. Se somos capazes de comparar, por exemplo, dizendo que uma pessoa tem mais temperança do que outra, é porque devemos ter algum modelo conceitual do que seja a temperança, que poderia ser expresso por uma definição como, digamos, “o controle dos apetites corporais pela razão”.

 

 

2

 

As ideias. Voltemos a Platão. O centro radial de seu sistema, que influenciou tudo o que ele escreveu, foi sua doutrina das ideias. O que Sócrates buscava definir era o que usualmente chamamos de conceitos – conteúdos de significação – geralmente entendidos como algo de ordem mental, expresso por termos gerais (= expressões conceituais) tais como ‘virtude’, ‘justiça’, ‘conhecimento’. Platão foi muito além disso. Ele acreditava que o termo geral devesse referir-se a uma essência substancial, objetiva, real, imutável, ontologicamente transcendente e até mesmo capaz de exercer influência causal, que ele chamou de ideia (idéa) ou forma (eîdos).[3]

   Para ele, aquilo que nos permite dizer o mesmo sobre muitos é a referência a essa ideia ou forma única.[4] É porque o termo geral ‘justiça’ se refere primariamente à ideia ou forma da justiça que somos capazes de predicar justiça de muitas e muito diversas coisas, como ações justas, homens justos, constituições justas, etc.

   A doutrina das ideias surgiu como uma maneira de conciliar a tese de Heráclito de que o mundo sensível se encontra em constante mudança com a doutrina de Parmênides, segundo a qual o verdadeiro objeto de nosso conhecimento só pode ser algo imutável, por ele chamado de ser. A solução divisada por Platão consistiu na admissão da existência de dois mundos completamente distintos:

 

(a)  O mundo visível: das aparências sensíveis, sujeito a mudanças constantes.

(b)  O mundo inteligível: das ideias, eterno e imutável, verdadeiro objeto do conhecimento.

 

O mundo visível é o das aparências sensíveis, um mundo em constante mudança, tal como supunha Heráclito. Em razão dessa inconstância, ele não pode ser o objeto do conhecimento verdadeiro, pois esse objeto deve ser imutável. Disso resulta que o mundo propriamente conhecível só pode ser o mundo do ser, eterno e imutável. Só que, para Platão, no lugar do ser único parmenídeo, encontramos as inúmeras ideias ou formas, vistas não só como eternas e imutáveis, mas também como transcendentes. O conhecimento só é possível porque tem por objeto próprio não o inconstante mundo sensível, mas o mundo inteligível das ideias imutáveis. Só esse mundo das ideias é capaz de ser verdadeiramente real. Os dois mundos – o inteligível e o visível – existem e sempre existirão paralelamente, em completa independência entre si.

   Exemplos típicos de ideias incluem o bem, a beleza, a justiça, o conhecimento, a virtude, a justiça, a sabedoria, o amor… Essas são ideias sublimes, cuja definição foi buscada nos diálogos. Mas também há ideias mais vulgares, como as de cama, homem, água e fogo. Para Platão, existe uma hierarquia das ideias, a mais elevada de todas sendo a do bem, que, como o sol, ilumina todas as demais,[5] determinando a ordem e a união das coisas no universo.[6] Para ele, sem sabermos o que é o bem, não seremos capazes de compreender e definir outras ideias de maneira adequada:

 

 ...a mais alta coisa a ser aprendida é a ideia do bem, da qual a justiça e as outras virtudes tiram as suas utilidades e vantagens. (...) Sem conhecê-la, ainda que conhecêssemos as outras coisas tão bem quanto possível, tais conhecimentos não nos seriam de qualquer proveito...[7]

 

A ideia do bem é idêntica à ideia do absolutamente belo[8] e intrinsecamente ligada à ideia do Uno[9]: a unidade que sustenta o todo. Abaixo delas, parece que teríamos ideias como as de justiça e de virtude, seguidas de ideias como as de identidade, semelhança, movimento… e, ainda mais abaixo, ideias como as de homem, cama, água e fogo. Ideias inferiores tendem a implicar as que estão acima. Por exemplo, a ideia de justiça implica a de bem. Não obstante, Platão nunca conseguiu estruturar essa hierarquia de forma objetiva e coerente.

   As ideias possuem numerosos atributos[10]:

 

- Elas não se encontram nem no espaço nem no tempo, sendo, ainda assim, objetivas.

- Elas são essências únicas, substâncias eternas, reais, imutáveis, absolutas, indivisíveis, puras, sublimes e até mesmo as causas últimas de tudo o que existe.

- Diversamente do Ser de Parmênides e das archai dos pré-socráticos, as ideias são transcendentes em relação à physis, nada tendo de material. Essa transcendentalidade das ideias é uma inovação original de Platão, cuja importância dificilmente pode ser exagerada: ele apresentou suas ideias como existentes em uma realidade suprassensível, para além da dimensão física, rompendo definitivamente com o naturalismo dos pré-socráticos.

 

No grego antigo, a palavra ‘idéa’ era uma modificação do sentido de (eîdos) forma ou aparência, tendo sido empregada por Platão para indicar percepção intelectual. Modernamente, a palavra ‘ideia’ refere-se a entidades psicológicas que se encontram no espaço e no tempo. Se digo “Acabei de ter uma ideia”, a ideia é algo que aconteceu há alguns segundos em um lugar específico, a dizer, na minha cabeça. Mas as ideias platônicas não são entidades psicológicas. Elas são essências objetivas e transcendentes, às quais todos nós podemos, em princípio, ter acesso.

   Além disso, as ideias platônicas são entidades singulares. Só existe uma ideia do belo, da justiça, da virtude e do bem. É por isso que a ideia de um número não pode ser repetida: não é possível que, na soma “2 + 2 = 4”, haja duas ideias do número 2 sendo referidas. Sendo singulares, as ideias são objetos, ainda que abstratos. Para demonstrar isso, Platão recorria ao recurso de nominalizar predicados que designavam ideias. Assim, no enunciado “Sócrates é sábio”, a ideia de sabedoria comparece de forma secundária. Nós só nos referimos diretamente à sabedoria quando colocamos a palavra no lugar do sujeito em um enunciado, como em “A sabedoria é uma virtude”, nominalizando o predicado. Aqui, a palavra ‘sabedoria’ refere-se diretamente a um objeto abstrato: a ideia de sabedoria. Para evidenciar esse ponto, Platão usava em grego expressões que podem ser traduzidas como “o X-em-si-mesmo”, “a X-idade”, ou “aquela coisa própria que é X”.

   Uma curiosa propriedade das ideias é que Platão as considera autopredicativas[11]. A Justiça-em-si-mesma é ela mesma justa e seria uma blasfêmia acreditar que o Sagrado-em-si-mesmo não é sagrado.[12] Uma razão para ele ter pensado assim é que as coisas do mundo possuem ideias de modo imperfeito e aspectual. Muitas coisas são belas. Mas o Belo-em-si-mesmo precisa ser belo em todos os aspectos.

    Por serem unitárias, as ideias desempenham o papel fundamental de universais, permitindo-nos, como já foi notado, dizer o mesmo sobre muitos (to auto legein epi polōn)[13]; em outras palavras, permitindo a espécie de síntese característica da predicação. Como Platão escreveu:

 

Temos o hábito de considerar uma simples ideia ou forma no caso das variadas multiplicidades às quais damos o mesmo nome. (…) Considere qualquer multiplicidade que queira, por exemplo, os muitos sofás e mesas… Mas esses utensílios implicam que há apenas duas ideias ou formas, uma a do sofá, outra a da mesa.[14]

 

Isso fica claro quando consideramos enunciados do tipo Fa, como “Sócrates é sábio”, “Parmênides é sábio”, “Heráclito é sábio”. Podemos predicar a mesma ideia de sabedoria sobre muitas coisas. E para Platão, só podemos predicar sabedoria de tantas coisas porque elas participam ou imitam a Sabedoria-em-si-mesma.

   Sob a influência de Sócrates, Platão considerava as ideias passíveis de definição, com exceção das ideias mais elevadas, como a beleza e o bem, a última se encontrando para além da essência, em dignidade e poder.[15] Por exemplo, existem muitos triângulos com as mais variadas formas, mas a ideia de triângulo pode ser definida como “figura plana com três lados”.[16]

   Particularmente importante é a maneira como as ideias se relacionam com as coisas do mundo visível. Platão recorreu a duas metáforas: a da participação (méthexis) e a da cópia ou imitação (mímesis). Embora a ideia seja única, inúmeras coisas do mundo sensível podem participar dela ou, se preferirem, copiá-la. Assim, as muitas coisas belas participam da ideia de beleza. Ou, se preferirmos, podemos dizer que as muitas coisas belas contêm cópias imperfeitas da ideia de beleza... Para Platão, só podemos conhecer o mundo sensível porque ele contém cópias, ainda que inevitavelmente imperfeitas, das ideias ou formas. O substrato material não ideativo do mundo sensível é, em si mesmo, completamente incognoscível. Como ele escreveu: “Parece-me que qualquer coisa que seja bela, à parte o absolutamente belo, é bela porque participa da beleza absoluta e por nenhuma outra razão”.[17]

 

3

 

Reminiscência. Mas por que o mundo sensível deve ser constituído de cópias das ideias? Platão respondeu de forma especulativa, recorrendo ao mito da formação do mundo. Para ele, tanto o mundo das ideias quanto o mundo sensível sempre existiram. Mas eles sempre existiram em paralelo, e o mundo sensível era um caos primevo, incognoscível e indefinível, não podendo, por isso, ser considerado real. O Demiurgo, artífice supremo guiado pela ideia do bem, decidiu tomar como modelos as ideias do mundo inteligível e, por meio delas, dar forma à matéria caótica do mundo primevo, de modo a produzir entidades particulares que fossem cópias, ainda que imperfeitas, das ideias perfeitas. É só por formarem cópias imperfeitas das ideias que as coisas do mundo sensível se tornaram cognoscíveis e reais. As ideias ou formas doam realidade às coisas que elas enformam. E o Demiurgo não precisa ser entendido como uma entidade mitológica, mas sim como o símbolo da razão que opera sobre o universo.[18]

   Essa concepção permitiu a Platão oferecer uma explicação inteiramente racionalista para a aquisição do conhecimento. Ele tendia a crer na ideia da transmigração das almas ensinada pelos místicos pitagóricos. Para ele, nossas almas tiveram contato com o mundo das ideias enquanto vagavam por ele (Menon e Fedro) ou quando pertenciam a outros seres vivos (Timeu). Mas uma vez incorporadas, elas perderam a consciência das ideias, que foram como que apagadas de suas mentes. Contudo, a experiência sensível nos leva a rememorar as ideias. Quando temos a experiência sensível do que acontece no mundo visível, ou quando aprendemos teoremas geométricos, somos levados a rememorar as ideias.[19] Por exemplo: ao percebermos igualdades entre objetos, somos levados a rememorar a ideia de igualdade. Mas nenhuma coisa no mundo sensível é exatamente igual a outra. O que encontramos são aproximações. Por isso, precisamos recorrer a um modelo de igualdade absoluta – a ideia de igualdade – para medir essas aproximações. Esse modelo só pode ser encontrado no mundo inteligível[20]. Do mesmo modo, nós recorremos à ideia ou forma da igualdade perfeita, como acontece com as ideias geométricas do ponto sem tamanho, da linha sem espessura e do círculo perfeito, que nunca encontramos no mundo visível. A conclusão impressionante de Platão foi que todo o conhecimento humano não passa de reminiscência (anamnesis). Usando o conceito kantiano de conhecimento a priori – entendido como aquele que, em si mesmo, não provém da experiência – podemos dizer que, para Platão, todo o conhecimento humano é a priori. No diálogo Menon, ele apresentou uma comprovação dessa teoria com o exemplo de um escravo iletrado que, guiado por Sócrates, desenha na areia a prova de um teorema geométrico. Para Platão, o escravo conseguiu essa proeza apenas por se recordar da geometria euclidiana que sua alma já conhecia desde sempre.

   Hoje, porém, estamos em condições de oferecer uma explicação alternativa mais plausível.  Diremos que o processo evolutivo, por meio da seleção natural dos mais aptos à sobrevivência, desenvolveu em nossas mentes a capacidade inata de aplicação tácita da geometria euclidiana, que usamos o tempo inteiro na interação com o mundo ao nosso redor. A experiência pode nos levar a tomar consciência desses procedimentos e, desse modo, aprender a provar um teorema a partir de axiomas. Mas, como o processo evolucionário é empírico, esse conhecimento dependeu da “experiência empírica” da espécie, não sendo, por isso, a priori em sentido absoluto.

 

4

 

Objeções tradicionais. Aristóteles e o próprio Platão apresentaram objeções influentes à doutrina das ideias, ainda que Platão nunca a tenha abandonado. No que se segue, quero considerar, resumidamente, algumas delas.

   Uma primeira objeção, feita a Sócrates no diálogo Parmênides, foi a de que, se admitirmos que os termos gerais remetem a ideias, então, assim como admitimos as ideias do bem e da virtude, precisamos admitir ideias como as de cabelo, lama e sujeira.[21] Só que essa é uma admissão repugnante para o jovem Sócrates, que a rejeita sem saber respondê-la. Se assim fosse, as ideias deixariam de ser sublimes.

   Outra objeção diz respeito à metáfora da participação. Se as coisas precisam participar da ideia, a ideia perde sua unidade.[22] A imagem proposta no Parmênides é a de vários marinheiros carregando uma vela sobre as costas. Imaginando que as coisas particulares sejam como os marinheiros: cada qual participa de parte da ideia, e não do todo, de modo que a ideia precisa dividir-se em partes, cada qual para uma coisa particular. A alternativa seria dizer que a ideia se multiplica, pertencendo por completo a cada coisa que dela participa. Mas, nesse caso, a função unificadora da ideia também se perderia. Assim, seja pela divisão ou pela multiplicação, a ideia parece perder a sua unidade e homogeneidade originais. Sócrates sugeriu que a ideia fosse como o sol que ilumina o dia e todas as coisas nele presentes. Essa é uma bela metáfora, mas seria possível resgatá-la?

   Há também uma curiosa objeção de simetria à metáfora da cópia.[23] Afinal, se as coisas brancas são como a ideia de brancura, então a ideia de brancura deve ser branca. Mas, nesse caso, ambas compartilham o mesmo caráter, o que exigiria uma nova ideia de brancura e, assim, ad infinitum. Contra essa objeção, observou-se mais tarde que a relação de semelhança é, na verdade, assimétrica e hierárquica, o que evita a regressão infinita. Afinal, embora o rosto que vejo no espelho seja reflexo do meu, o meu rosto não é reflexo do que vejo nele. A relação de cópia é de semelhança por derivação.[24] A metáfora da cópia parece, pois, menos problemática do que a da participação.

    Ainda outra objeção importante, já presente no Parmênides, foi o assim chamado argumento do terceiro homem, atribuído a Aristóteles.[25] Se os homens particulares {H1, H2… Hn} são todos eles cópias de IH (a ideia de homem), então parece que é preciso postular uma nova ideia de homem, IH1, da qual tanto os homens particulares quanto a própria ideia de homem seriam cópias. Mas, se assim for, precisaremos de ainda outra ideia de homem, IH2, para garantir essa última relação, e assim sucessivamente, ad infinitum.

   Também seria possível argumentar que ideias não precisam se comportar da mesma maneira que as coisas de que são predicadas. É possível defender que elas são entidades sui generis que não demandam reiteração para sua identificação. Sob essa perspectiva, argumentos como o do terceiro homem e o da simetria só valem enquanto se baseiam na reificação das ideias.

   Um indício de reificação por parte de Platão encontra-se em sua insistência em tratar as ideias como se fossem autopredicativas, por considerar a autopredicação parte de sua perfeição. Posso dizer “a coisa que é uma flor é uma flor”, o que demonstra que ‘ser uma flor’ é uma expressão autopredicativa. Mas, por mais perfeita que seja, a ideia ou a forma da justiça não parece ter nada de autopredicativa! Não faz sentido dizer “A ideia da justiça é justa”, tanto quanto não faz sentido dizer “A ideia de homem é um homem”, e menos ainda “A ideia do grande é grande” (pace Vlastos).

   Um filósofo platonista de bom senso, que rejeite a sugestão de que as ideias são autopredicativas, terá mais razão ao sustentar que os argumentos do terceiro homem da simetria só valem enquanto as ideias forem assimiladas às coisas de que são ideias, pois poderá argumentar que a impossibilidade de autopredicação é uma evidência do caráter sui generis das ideias, que resistem a semelhantes argumentos por não serem coisas entre as coisas.

   A objeção mais importante à doutrina das ideias foi, talvez, a de que ela duplica os mundos, objeção que Aristóteles formulou mais tarde.[26] Além do mundo empírico, a doutrina exige a existência de um mundo inteligível que contenha um número igualmente grande de formas ou ideias. Mas isso não tem nada de parcimonioso. A solução original de Aristóteles consistiu em colar o mundo inteligível ao mundo sensível, de modo a formar um único mundo. Assim, uma maneira simplista de distinguirmos a ontologia de Platão da de Aristóteles consiste em dizer que, para Platão, caso o mundo sensível deixasse de existir, o mundo das ideias permaneceria; já para Aristóteles, se o mundo sensível deixasse de existir, com ele desapareceria também o próprio mundo das ideias.

 

5

 

Objeções contemporâneas. Há também objeções contemporâneas à doutrina. Quero considerar ao menos três. A primeira é algo que poderia ocorrer a qualquer estudante de lógica simbólica: Platão não poderia ter conhecimento da revolucionária lógica quantificada desenvolvida por Gottlob Frege no final do século XIX. Isso o levou a confundir nossa gramática de superfície com a gramática lógica no que se refere à nominalização de predicados. Para esclarecer esse ponto, considere os seguintes enunciados:

 

     (I)

(1)  Sócrates é justo.

(2)  O Partenon é um templo.

(3)  Atenas é uma cidade.

 

Com base na gramática Platão sabia que todos esses enunciados têm uma estrutura do tipo Sujeito-Predicado, cuja forma lógica pode ser expressa como:

 

Fa

 

Onde a está para o sujeito e F para o predicado. Essa seria não só a forma gramatical como também a forma ou estrutura lógica das sentenças do tipo A. Isso posto, Platão deve ter certamente comparado esses enunciados com outros, como:

 

      (II)

(1)   O bem é admirável.

(2)   A beleza faz bem ao espírito.

(3)   A justiça deve ser buscada.

 

Nesses enunciados, os predicados ‘...é bom’, ‘...é belo’ e ‘...é justo’ foram nominalizados, assumindo o lugar dos sujeitos. Ora, como os enunciados dos exemplos do tipo B têm a mesma forma gramatical Sujeito-Predicado que os do tipo A, ele concluiu que também tinham a estrutura lógica Fa. Mas essa constatação, por certo, suscitou um problema. Platão podia encontrar Sócrates, o Partenon e Atenas no mundo visível, podendo até apontar para eles. Contudo, ele não conseguia encontrar a justiça, a beleza e o bem neste mundo visível, ainda que encontrasse muitas coisas justas, belas e boas. A conclusão foi imediata: como não havia nenhum referente visível para termos-sujeito como ‘o bem’, ‘a beleza’ e ‘a justiça’, ele concluiu ser razoável supor a existência de um mundo não visível, mas puramente inteligível, no qual poderia ser encontrado o que ele chamou de o bem, a beleza e a justiça em si mesmas. Aparentemente, uma boa razão para se postular a doutrina das ideias.

   A lógica quantificada desqualificou essa espécie de ilação. Segundo ela, as sentenças do tipo A possuem, de fato, a mesma forma lógica Fa, idêntica à sua forma gramatical. Mas parece claro que as sentenças do tipo B têm uma forma ou estrutura lógica completamente distinta. Uma sentença como “O bem é admirável”, que nominaliza o predicado ‘… é bom’, permite uma análise mais econômica, como “Tudo o que é bom é admirável” ou ainda “Para todo x, se x é bom, então x é admirável”. Ou, por fim, simbolizando ‘se... então...’ como →, ‘...é bom’ como B, ‘...é admirável’ como A e ‘para todo x’ como (x), podemos formalizar a sentença como: “(x) (Bx → Ax).” Só que esse procedimento desfaz a exigência de que o predicado nominalizado ‘o bem’ possua qualquer referência, pois esse sujeito desaparece, restando somente predicados. Essa análise se estende a qualquer sentença do tipo (II). Todas elas passíveis de serem analisadas pela mesma estrutura lógica geral:

 

(x) (Fx → Gx)

 

Só que essa estrutura é completamente diferente de Fa. E o ponto crucial é que (x) (Fx → Gx) é uma sentença universal que não exige a existência de nenhum objeto no mundo visível que precise ser apontado como referente de um nome! A conclusão é que, por desconhecer a lógica quantificada, Platão foi enganado pela estrutura gramatical, que é a mesma tanto para as sentenças do tipo (I) quanto para as do tipo (II).

   Se for assim, ao falarmos do bem, da beleza e da justiça, estamos apenas nos referindo, de maneira elíptica, às inúmeras coisas e eventos do mundo visível que possuem a propriedade de ser bons, belos e justos. Tais propriedades físicas e mentais nada têm de misterioso. A conclusão óbvia é que Platão, confundido pela gramática de superfície, foi levado a presumir a existência de entidades controversas.

   Nesse ponto, um platonista poderia perguntar se a análise lógica dos enunciados do tipo (II) é realmente persuasiva. Não poderia, afinal, além dos designata dos predicados ‘...é bom’, ‘...é belo’, etc., existir ‘O bem-em-si-mesmo’ como referente do sujeito ‘O bem’? A resposta encontra-se no famoso princípio da parcimônia, também chamado de “navalha de Ockham”: entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem (não devemos multiplicar entidades sem necessidade). Não é econômico postular a existência do referente do predicado nominalizado para além dos portadores das propriedades que esses predicados normalmente designam.

   Outro problema lógico surge com predicados relacionais assimétricos, como ‘ser grande’. Para Platão, um objeto material pode ser grande e também pequeno, enquanto a ideia do grande é sempre grande, já que, para ele, as ideias são autopredicativas. Mas ‘…é grande’ é um predicado que só faz sentido quando aplicado à relação entre objetos: um filhote de elefante é pequeno em relação a um elefante, mas é grande em relação a um rato… Trata-se aqui do mesmo predicado relacional ‘é grande’, aplicado a pares distintos de objetos visíveis, e não mais a um único objeto. Assim, um mesmo objeto pode ser pequeno e grande quando referido em enunciados diferentes. Contudo, se a ideia do Grande-em-si-mesmo é grande em relação a tudo, então parece que ela deve ser infinitamente grande. Nem a metáfora da cópia nem a da participação parecem capazes de resolver essa dificuldade.

   Uma objeção muito diversa veio de Nietzsche, que foi um crítico mordaz da cultura cristã, na qual via um escapismo negador da vida. Para ele, Sócrates foi o primeiro cristão e o cristianismo é o platonismo do povo. Ele considerava Sócrates um ressentido, alguém que sentia prazer sádico em vencer seus opositores nas discussões.[27] Platão, Sócrates e até mesmo Parmênides já eram, para ele, expressões da decadência da cultura grega.

   A análise psicológica de Nietzsche merece consideração. Como já notei, em 404 a.C., Atenas havia caído sob o jugo de Esparta, iniciando um período de decadência do qual nunca mais se recuperou. Platão pertencia à antiga nobreza, prejudicada no processo, e dois de seus tios foram mortos durante o violento reinado dos trinta tiranos. Grande conhecedor da história da Grécia Antiga, Nietzsche via Platão como um escapista, prisioneiro do que ele chamou de ideal ascético, por meio do qual buscava suportar as duras vicissitudes de uma realidade para além do seu controle. Platão teria criado para si e seus discípulos a ilusão de que esse amargo mundo sensível, tão pobre em dádivas, não passava de uma aparência, deslocando a realidade, que, à luz do senso comum, é espaço-temporal e sensível, para um mundo puramente intelectual e sublime – o fantasioso reino das ideias. Esse mundo transcendente passaria a possuir a mais pura realidade, a plenitude apolínea do Ser, do interior da qual o confronto com o mundo empírico tornar-se-ia de menor relevância.

   Freud poderia ser chamado para reforçar Nietzsche. Platão nunca se casou e chegou a indicar que o intercurso sexual deveria ser mantido apenas com vistas à reprodução… A psicanálise freudiana veria na negação do mundo sensível uma justificação inconsciente para a rejeição dos impulsos eróticos. Aristóteles, que rejeitava a existência de um mundo de ideias separado do mundo sensível, teve duas esposas consecutivas e um casal de filhos… Em uma época em que a ciência ainda estava muito pouco desenvolvida, era mais fácil acreditar nos mitos pitagóricos acerca da sobrevivência da alma e da metempsicose…

   Também é possível aplicar aqui a filosofia terapêutica de Wittgenstein a Platão. Para Wittgenstein, os filósofos costumam ser possuídos por uma tentação irresistível de produzir “nós do pensamento” ou “castelos de cartas” com palavras oriundas de nossa linguagem natural. Para ele, o trabalho crítico posterior da própria filosofia é terapêutico, ou seja, desatar os nós do pensamento e desmanchar os castelos de carta por meio de exemplos descritivos capazes de trazer as palavras “de suas férias metafísicas de volta ao seu labor cotidiano.”[28] Sob esse ponto de vista, o mundo das ideias platônicas seria uma fata morgana intelectual, uma perversa hipóstase[29] de certas palavras, por meio da qual valores semânticos são invertidos, uma vez que as propriedades de objetividade, causalidade e o máximo grau de realidade são, na linguagem natural, atribuídas ao mundo sensível espaço-temporal e não a um etéreo mundo puramente inteligível.

   As objeções de Nietzsche e da filosofia terapêutica de Wittgenstein se complementam: a primeira fornece a motivação psicológica para o escapismo idealista, enquanto a segunda sugere que esse escapismo idealista tenha sido construído por meio da transgressão do uso ordinário das palavras da linguagem natural.

    Não obstante, ainda restaria uma razão para defendermos o platonismo. Este seria o caso se a doutrina das ideias se demonstrasse teoricamente produtiva: a linguagem natural não é transgredida se os conceitos supostamente descobertos se destacarem dela como inovações de maior poder explicativo, como geralmente ocorre na introdução de novos termos científicos. Há dois modos pelos quais a doutrina das ideias poderia ambicionar esse resultado:

 

(i)               A doutrina platônica das ideias nos fornece uma explicação para a predicação, isto é, para dizer o mesmo de muitos.

(ii)             A doutrina satisfaz a demanda pela imutabilidade do objeto do conhecimento.

 

A questão que resta é se ambos os resultados não podem ser alcançados sem custos ontológicos como a perda de parcimônia e a duplicação dos mundos.

   Considere (i): parece que a estrutura lógico-conceitual dos termos conceituais gerais, tal como a lógica quantificada os expõe, já é suficiente para explicar sua função de predicação, ou seja, dizer o mesmo de muitos.

   Considere agora (ii): nesse caso, as formas em suas relações ainda poderiam ter uma natureza semelhante à das leis da natureza, que, consideradas enquanto tais, poderiam ser concebidas como objetivas e imutáveis, tal como a razão heraclitiana, que contrasta com o mundo visível do devir. Isso valeria tanto para as leis últimas, buscadas pela física, quanto para ideias ou formas definidas, como as do conhecimento e da justiça, originariamente analisadas por Platão e supostamente dotadas de uma estrutura última e imutável.[30] Ainda assim, seria problemático atribuir realidade e causalidade a todas essas estruturas, ainda que não deixem de ser objetivas. E precisariam ser elas entidades transcendentais, destacadas do mundo sensível? Ou seriam essas estruturas formais, constituintes insensíveis do mundo sensível enquanto tal?

   Por fim, que dizer das leis biológicas, psicológicas e sociais que só emergiram por meio da evolução natural? Podemos até mesmo conceber um mundo em que ainda não existam seres vivos com mentes, como a Terra há 4 bilhões de anos. Nesse caso, essas leis ainda não haviam se concretizado. Contudo, parece que não precisaríamos aceitar que são entidades platônicas no sentido pleno, mas apenas estruturas potencialmente concretizáveis. Essas estruturas ideativas potenciais não seriam platônicas, pois só se tornariam reais quando, com o surgimento de seres vivos, mentes e sociedades, passassem a regular o mundo sensível, sustentado por suas bases físicas. Aristóteles, como veremos, tentou seguir uma direção semelhante, ao menos até onde foi capaz.[31]

 

6

 

Conhecimento. Platão contribuiu não apenas para a ontologia, por meio de sua doutrina das ideias, mas também para a epistemologia (teoria do conhecimento), ao desenvolver sua teoria dos graus de conhecimento e ao analisar as noções de conhecimento e de crença. A primeira aparece na célebre analogia da linha dividida[32]  e na alegoria da caverna.[33] Quero me restringir aqui a algumas observações sobre sua análise da ideia de conhecimento e de suas consequências epistemológicas, sobretudo porque ela demonstra o quanto a filosofia tradicional ainda é capaz de iluminar problemas contemporâneos.

   No diálogo Teeteto, Platão examinou a ideia de conhecimento. Sua conclusão, ainda que provisória, é que o conhecimento se define como a crença verdadeira acrescida de um logos.[34] Mas ‘logos’ é uma palavra grega altamente ambígua, o que acaba por tornar o diálogo inconclusivo. Nos dois milênios seguintes, essa definição foi geralmente mantida, substituindo-se logos por termos menos ambíguos como ‘justificação’ ou ‘evidência’. Assim consolidou-se a definição de conhecimento como crença verdadeira justificada. Vejamos como isso pode ser apresentado.

   Comecemos pela exigência de que a crença seja verdadeira. Se alguém sabe que p é o caso (sendo p uma proposição qualquer), é preciso que p seja pelo menos verdadeira. Afinal, uma pessoa pode saber que a Lua tem pedras, pois isso é verdadeiro, mas ninguém pode saber que a Lua é feita de queijo suíço, posto que isso é falso. Também não é possível que uma pessoa saiba que p é o caso e não acredite que p seja verdadeira. Afinal, é contraditório dizer: “Sei que a Terra é redonda, mas não acredito nisso”. O saber implica crença, salvo em situações de forte pressão psicológica. Além disso, quem afirma saber que p deve, em princípio, ser capaz de apresentar uma evidência justificadora razoável para a sua afirmação.[35] Por exemplo: se digo que sei que Villa-Lobos compôs as Bachianas Brasileiras, é porque sou capaz de justificar isso dizendo que assisti a uma apresentação das Bachianas no Youtube, ou mesmo que obtive essa informação de uma fonte confiável (conhecimento por testemunho). Mesmo que, como ocorre em muitos casos, eu tenha esquecido a justificação de algo que creio saber, se eu sei, é porque ela existiu em algum momento. Por exemplo, Maria diz saber que Stefan George escreveu a frase “Só pela magia a vida continua desperta”, sem se lembrar de como obteve essa informação. Entretanto, uma breve busca na Internet basta para nos certificarmos de que ela está justificada ao afirmar que sabe e que, em algum momento, teve evidência disso, pois a mera coincidência seria aqui demasiado improvável. O que não parece possível é que uma pessoa tenha prescindido por completo de qualquer experiência justificacional aceitável, ou que se valha de uma justificação que outros não reconheçam como razoável. Se alguém disser: “Estive na Lua enquanto dormia, porque me recordo claramente disso”, essa justificação não será aceita, pois nossa comunidade epistêmica não a considera razoável. Simbolizando por ‘a’ aquele que alega conhecimento da proposição p, ‘S’ para saber que, ‘C’ para crença e ‘J’ para justificação, podemos formular simbolicamente a definição tradicional apresentando respectivamente as condições de (i) verdade, (ii) crença e (iii) justificação, como:

 

(A)  Condições:           (i)       (ii)        (iii)

                            aSp = p  &  aCp  &  aJCp

 

Até aqui as objeções foram facilmente contornáveis. Contudo, a definição tradicional de conhecimento como crença verdadeira justificada foi desafiada por Edmund Gettier em um breve artigo publicado em 1963. Neste artigo, ele apresentou contraexemplos em que existe crença verdadeira justificada, mas não há conhecimento.[36] Desde então, uma quantidade impressionante de artigos foi publicada na tentativa de remendar, substituir ou eliminar de vez o insight platônico.

   Eis um contraexemplo do tipo Gettier[37]: suponhamos que ontem Maria ouviu, da boca do professor Pedro, que ele estaria hoje pela manhã na universidade para avaliar uma defesa de tese. Como todos sabem que Pedro é um professor “petreamente” responsável, Maria tem boas razões para afirmar: “Eu sei que Pedro se encontra na universidade”. E, de fato, ele está agora na universidade. Maria tem, assim, uma crença verdadeira justificada. Mas, na realidade, ela não sabe! E a razão é que, durante a madrugada, os três filhos adolescentes de Pedro sofreram um grave acidente automobilístico e agora estão hospitalizados. No início da manhã, Pedro suspendeu todos os seus compromissos para hoje e foi ao hospital. Contudo, por mero acaso, ele realmente se encontra na universidade, pois veio rapidamente à sua sala para pegar alguns papéis. Maria tem uma crença verdadeira, à qual adicionou uma justificação razoável, mas não tem conhecimento.

   Embora muitas soluções brilhantes tenham sido propostas, todas parecem insatisfatórias. De minha parte, não tenho dúvidas de que a solução existe, é bastante intuitiva e preserva o essencial da definição tradicional. Embora vislumbrada desde o início, ela só foi desenvolvida satisfatoriamente por Robert Fogelin[38] e, creio, aperfeiçoada pelo presente autor[39]. Para chegar a ela, basta notar que, nos contraexemplos do tipo Gettier, a justificação apresentada jamais é considerada suficiente para tornar verdadeira a proposição. Assim, dizer que o confiável Pedro havia afirmado ontem que estaria hoje pela manhã na universidade... é uma justificação prima facie razoável. Contudo, ela é insuficiente diante da informação de que Pedro foi forçado a suspender todos os seus compromissos para hoje... Já se alguém disser que Pedro se encontra na universidade por tê-lo visto passar pelo corredor há alguns minutos, por ter trocado algumas palavras com ele há pouco, ou ainda por tê-lo visto estacionar seu carro diante do edifício, isso constitui justificações razoáveis e suficientes, pois realmente tornam a proposição verdadeira.

   A solução do problema de Gettier é dialógica. Ela consiste em exigir que a terceira condição, qual seja, a de que a justificação apresentada pelo sujeito alegador de conhecimento...

 

seja considerada suficiente para tornar o enunciado de conhecimento verdadeiro sob a perspectiva do conteúdo informacional possuído pelo sujeito avaliador da pretensão de conhecimento no momento de sua avaliação.

 

O sujeito avaliador é alguém que tem melhor informação do que a pessoa que alega ter conhecimento. Essas informações adicionais permitem ao sujeito avaliador concluir que a justificação apresentada pelo sujeito alegador não é suficiente para tornar verdadeira a proposição. No caso acima, o sujeito avaliador é uma pessoa que sabe que Pedro teve de suspender seus compromissos na universidade para hoje... Ele dirá que Maria não sabe, posto que a justificação por ela apresentada, mesmo que razoável, não é suficiente para tornar verdadeira sua afirmação. Se ela tivesse dito, por exemplo, que viu Pedro passar por ela no corredor alguns minutos antes, essa justificação seria plenamente aceita pelo sujeito avaliador. Como esse não é o caso, concluímos que:

 

Um sujeito alegador de conhecimento a sabe que p para um avaliador s se e somente se:

(i)               é verdade que p,

(ii)             o sujeito alegador a, acredita saber que p é verdadeira

(iii)          a justificação que J o alegador a oferece para p deve ser considerada pelo sujeito avaliador s (que pode ser até mesmo o próprio a em um momento posterior: s = a) em um tempo t como suficiente para tornar a proposição p verdadeira.

 

O tempo t de avaliação é essencial, pois o repertório de informações do sujeito avaliador pode mudar com o tempo. Além disso, é preciso responder à objeção relativista de que, nesse caso, o que julgamos conhecimento depende totalmente do sujeito avaliador, saiba ele o que souber. A resposta aqui sumarizada é que devemos dar preferência ao avaliador epistemicamente melhor preparado, o que deve incluir a posse de melhor informação e o livre acesso à discussão crítica… o que, bem considerado, neutraliza objeções relativistas.[40]

   A versão mais detalhada da definição tradicional de conhecimento recém-apresentada pode ser formalizada adicionando ‘J*’, como o conjunto das justificações que o sujeito avaliador está disposto a aceitar como individualmente suficientes para tornar a proposição p verdadeira; ‘’, como o símbolo de pertinência; ‘t’, como o tempo da avaliação; e ‘~>’, como o símbolo da probabilidade suficientemente próxima de 1 ou mesmo igual a 1. Com isso temos a definição simbólica capaz de dar conta do problema de Gettier:

 

(B)   Condições:     (i)                (ii)                (iii)

   aSp = (J & J ~> p)  &  aCp  &  (aJp & (J J*t))

                         verdade           crença        justificação

 

O que essa definição demonstra é que, do ponto de vista do sujeito avaliador s da pretensão de conhecimento de a no momento t, a justificação J deve ser para s capaz de pertencer ao conjunto de justificações J*, individualmente capazes de tornar verdadeiro p, o que se verifica quando J probabiliza a verdade de p em em grau suficientemente próximo de 1 (no caso do conhecimento empírico) ou idêntico a 1 (no caso do conhecimento formal). Se esse for o caso, a pretensão de conhecimento de p por a será aceita pelo avaliador s.

    Em meu juízo, essa versão da definição platônica a torna tão sólida quanto uma lei da física. Sua conjectura epistêmica não exigia rejeição, como alguns pensaram, mas aprimoramento.

 

7

 

Psicologia. Quero, agora, considerar brevemente a psicologia de Platão. Inspirado pelos pitagóricos, ele sugeriu que a alma (psiqué) possui três partes: a apetitiva (epithymia), a volitiva (ou emocional) (thymos) e a racional (logos).[41] A parte apetitiva concerne ao desejo, ao apetite, ao impulso instintivo. A parte emocional diz respeito à emoção, à coragem, à energia. Já a parte racional diz respeito ao pensamento, ao entendimento, ao intelecto, à razão. As duas primeiras são compartilhadas com os animais; só a última é propriamente humana. (Daí a definição grega do ser humano como “animal racional”.)

   Para elucidar a interação conflitiva entre essas três partes, Platão recorreu à imagem de uma biga celeste com um condutor, que seria a razão, e dois cavalos, um bom – a alma emocional – que quer alçar-se aos céus, e outro mau – a alma apetitiva – que dá muito trabalho ao seu condutor e precisa ser chicoteado.[42]

   Platão associou essas três partes da alma ao que os gregos identificavam como as quatro virtudes cardinais.[43] A virtude da parte racional é a sabedoria. A virtude da alma volitiva é a coragem. A virtude da alma apetitiva, sob o controle da vontade, é a temperança. Finalmente, da harmonia de cada uma dessas partes da alma, de modo a formar um todo, resulta a virtude da justiça.

  Hoje, podemos encontrar uma fundamentação neurocientífica razoável para a tripartição platônica da alma. Trata-se da teoria do cérebro triúno, proposta pelo grande neurofisiologista norte-americano Paul McLean.[44] Segundo essa teoria, nosso cérebro é composto por três computadores inter-relacionados, que evoluíram em sequência: o arquiencéfalo, o mesencéfalo e o neoencéfalo. O arquiencéfalo corresponde ao bulbo raquidiano e ao cerebelo e é responsável pelas disposições instintivas do organismo, como a fome e o desejo sexual… O mesencéfalo é constituído pelo que ele chamou de sistema límbico, responsável pelas emoções e motivações. Há, por fim, o neoencéfalo, que constitui o córtex. No ser humano, ele ocupa cerca de 78% da massa encefálica, sendo responsável pelo pensamento, pela racionalidade e pela consciência. A teoria do cérebro triúno não deixa, pois, de demonstrar a existência de divisões neurofisiológicas suficientemente próximas daquilo que Platão havia sugerido como as partes apetitiva (arquiencéfalo), volitiva (mesencéfalo) e racional (neoencéfalo).

   A teoria do cérebro triúno confirma, assim, a ideia de que a filosofia muitas vezes antecipa a ciência. Contudo, um fato curioso é que essa teoria neurofisiológica não substitui a teoria da tripartição da alma por ser psicologicamente rudimentar. Ela não nos permite relacionar funções do cérebro a virtudes. Falar de substituição, sem mais, pode nos levar ao reducionismo – à crença de que só uma dessas teorias importa – ou ao cientificismo – que, no caso, seria a crença de que só a teoria que segue os métodos e parâmetros das ciências experimentais merece ser discutida.[45]

   Afora isso, Platão buscou demonstrar, no diálogo Fédon, a imortalidade da alma, o que, em tempos pré-científicos, era uma ideia mais facilmente aceitável. Ele acreditava que a alma vive no corpo como em uma prisão, sendo forçada a carregá-lo até sua libertação final. O corpo é, aliás, a origem dos males. Ele é a sede de doenças, preocupações, paixões e fantasias que conduzem a conflitos que, na sociedade, culminam em guerras. Se a alma for boa nesse mundo, ela viverá após a morte em alguma maravilhosa ilha bem-aventurada; se for má, será castigada no Tártaro, dado que só o sofrimento purifica a alma. Tudo isso é platonismo.

 

8

 

Filosofia política. Na antiguidade e no período medieval, os diálogos políticos que receberam maior atenção foram O Timeu e As Leis, escritos na velhice de Platão. Foi só depois do Renascimento que se redescobriu a importância da República. Nesse diálogo colossal, pela primeira vez na história, um estado utópico foi experimentalmente construído; um estado que deveria ser capaz de realizar plenamente sua função própria: proporcionar a felicidade aos seus cidadãos.

   A questão central que perpassa a República é como definir a justiça. Em uma das formulações iniciais, a justiça é entendida como “dar a cada um o que é devido”. Mas isso nos diz muito pouco. Após testarem várias propostas insatisfatórias, Sócrates sugere investigar a justiça em grande escala. Como a justiça se dá sempre em uma sociedade, devemos procurar saber qual será a forma de um estado ideal, pois este será aquele em que reina a justiça. Uma vez conhecido o estado ideal, poderemos compreender mais facilmente o que é a justiça.

   Ao considerar como deve ser uma cidade-estado, Platão observa que a divisão do trabalho é o princípio operante. Ninguém pode fazer bem todas as coisas. Assim, cada segmento da sociedade deve se especializar em fazer certas coisas e trocá-las por outras de que precisa.

   A divisão do trabalho resulta de uma divisão de classes. Ele teve a ideia de aplicar a teoria da tripartição da alma para dividir os cidadãos do estado ideal em três classes, segundo o predomínio das partes apetitiva, volitiva e racional. As pessoas com predomínio da parte apetitiva da alma compõem a classe trabalhadora, composta por agricultores, artesãos, mercadores e por qualquer outra atividade físico-laboral. (Em nosso mundo atual, isso incluiria a classe dos que trabalham no comércio e na indústria.) As pessoas com predomínio da parte volitiva da alma formam a segunda classe, a dos auxiliares, dos militares encarregados da defesa da cidade-estado, indispensáveis no mundo antigo. E as pessoas com predomínio da parte racional da alma formam a terceira classe, a dos governantes-filósofos.

   Assim como a parte racional da alma deve ter domínio sobre as partes apetitiva e volitiva, a classe que compõe a parte racional do estado, representando a virtude e a sabedoria, deve ter domínio sobre as classes que representam a busca de honras e de lucros.

   Platão era intelectualmente elitista: para ele, poucas pessoas seriam capazes de alcançar a razão filosófica. Para que a maioria das pessoas não se sentisse ressentida por ser escolhida como pertencente às classes inferiores, mesmo que isso fosse feito para o seu próprio bem, os governantes deveriam recorrer a uma “nobre mentira” segundo a qual, por decisão dos deuses, os trabalhadores têm alma de bronze, os militares têm alma de prata e os filósofos têm alma de ouro.

   A favor de Platão, pode-se notar que, em sua República, há tanto igualdade de oportunidades quanto mobilidade social, coisas que ainda hoje geralmente nos faltam. Até os vinte anos, todos devem estudar educação física e artes no sentido amplo (os gregos eram alfabetizados por meio da poesia). E o aprendizado não deve ser forçado, pois, nesse caso, as pessoas acabam esquecendo. Ele deve ser baseado no puro prazer de aprender.

   Quanto à mobilidade social, ele lembrou que os pais não podem, por antecipação, saber qual predominância terá a parte da alma que terão os filhos. Pode ocorrer que o filho de um guardião tenha a alma de bronze ou que o filho de um agricultor tenha a alma de ouro. Por isso, após um período inicial de educação universal, deve haver um primeiro exame, quando os jovens completam 20 anos. Quem for reprovado, identificando-se mais com a alma apetitiva, permanecerá na classe trabalhadora, tornando-se agricultor, artesão, comerciante ou coisa do gênero. Quem for aprovado continuará aprendendo ciências, como matemática e astronomia, até um segundo exame, quando completar 30 anos. Os que não avançarem tornar-se-ão auxiliares. Trata-se dos que têm predominância da alma volitiva, devendo ser encarregados de funções de organização, principalmente militares, o que requer coragem. Só quem for aprovado nesse segundo exame terá o direito de aprender filosofia. Para Platão, a filosofia não pertence ao início, mas ao final do processo de aprendizado; sem isso, ela não passará de um jogo infantil e estéril. Nisso ele tinha razão. Os filósofos estudados nesse livro, em geral, acumularam uma ampla gama de conhecimentos e experiências para o melhor desempenho de seu ofício.

   É interessante o que Platão tinha a dizer sobre os prazeres e os bens materiais. Os cidadãos pertencentes à classe dos guardiões e auxiliares não podem possuir bens. Eles devem receber o suficiente para viverem confortavelmente e de forma igualitária. Eles não beberão em copos de ouro, pois o ouro deverão trazer em suas almas – uma exigência necessária para que não haja corrupção nem ambição demeritória. Aqueles que poderão adquirir posses serão pessoas das classes de agricultores, artesãos e comerciantes… Elas poderão acumular riquezas em medida suficiente, pois, pela inclinação de suas naturezas, não buscam integridade nem honra, mas, principalmente, os prazeres físicos. O estado, zelosamente administrado pelos guardiões, será benéfico à classe apetitiva. A ideia de que a riqueza não deve ser usada para corromper a política é perfeitamente atual.

   Mulheres terão os mesmos direitos dos homens na escala social; poderão ir à guerra e tornar-se guardiãs. Entre os auxiliares e guardiões, não haverá casamento; o sexo será controlado com objetivos principalmente eugênicos. As crianças serão educadas em creches, sem saber quem são seus pais. Ele acreditava que isso promoveria um maior senso de comunidade entre os membros da classe… Entre os 40 e os 50 anos, além de estudar ciências e filosofia, os guardiões deveriam adquirir experiência prática do mundo, juntando-se à classe trabalhadora. Só depois dos 50 anos, eles poderiam concorrer para que um deles se tornasse rei, que então seria um rei-filósofo, capaz de saber o que proporcionaria uma boa vida aos seus concidadãos.

   Platão acreditava que só quando os governantes fossem sábios e o rei fosse filósofo, uma república teria cidadãos felizes. Ele tinha plena consciência de que seu estado ideal não passava de um experimento imaginário. Mas esse experimento serve para orientar nossos pensamentos sobre ideias importantes da filosofia política.

   O estado idealizado por Platão, que produz o máximo de felicidade para os seus cidadãos, seria o estado justo. O que caracteriza sua justiça é que, devido à comunhão entre o indivíduo e a sociedade, nesse estado ideal, cada um faz o que melhor lhe compete e recebe, como recompensa, o que, por sua natureza, mais deseja, e cada parte da cidade cumpre seu papel sem interferir nas demais.[46] Esse estado ideal é concebido para permitir que seus membros floresçam no que há de melhor em si, maximizando a cooperação social. Nele, um homem justo é aquele que ocupa o lugar que lhe é próprio na sociedade. A harmonia entre as partes de sua alma tenderá a fazer dele uma pessoa justa e, por consequência, virtuosa, por refletir, em si mesma, a justiça social resultante da harmonia entre as classes. Por ser a justiça um conceito social, pouco sentido faz perguntar se uma pessoa é justa em uma sociedade injusta. O grande exercício de pensamento que foi a construção de um estado supostamente perfeito proporcionou ao seu autor uma explicação plausível sobre a natureza da justiça.

   Essa não é, contudo, a única conclusão importante do diálogo. Já vimos que a virtude da parte racional da alma é a sabedoria, que a da alma volitiva é a coragem, que a da alma apetitiva, unida à parte volitiva, é a temperança, e que a da justiça, mais do que as outras virtudes, é o que resulta da harmonia entre todas as partes da alma. Como consequência, cada classe do estado ideal incorpora em si uma das virtudes consideradas cardinais: os guardiões incorporam a sabedoria; os auxiliares, a fortaleza ou coragem; a classe trabalhadora, a temperança. E a justiça, como já foi dito, consiste na harmonia entre as classes, no sentido de que cada classe desempenha a tarefa que lhe é mais apropriada.

   Finalmente, com base nessas ideias, Platão distinguiu cinco tipos de constituição política que tendem a se seguir uns aos outros, decrescendo em virtude: monarquia (ou aristocracia), timocracia, oligarquia, democracia e tirania.[47]

   A melhor forma de constituição era para ele a monarquia ou aristocracia, que preserva todas as virtudes sob o timão da sabedoria. O estado ideal concebido por Platão pertence a esse primeiro tipo, sob o pressuposto de que o monarca e os aristocratas sejam sábios. Quando os governantes deixam de ser sábios, surge a timocracia: aqui, o governo é dominado por militares, pelos que mantêm a virtude da fortaleza ou coragem. A timocracia tende a degenerar, dando lugar a uma forma de governo ainda inferior: a oligarquia, governo dos ricos. Esta ainda conserva alguma virtude de temperança, mas perdeu a da coragem. A oligarquia degenera-se em democracia, caracterizada pela rejeição da temperança e pela desordem, mesmo na aplicação da ideia de justiça ainda presente. Na democracia, as pessoas agem por amor ao lucro, pois o dinheiro é o que lhes permite satisfazer desejos materiais. Por fim, como as pessoas na democracia perderam até mesmo a temperança, são facilmente enganadas por um líder populista que se alça ao poder e acaba aprisionando os cidadãos em um regime totalitário. É assim que a democracia se degenera em tirania: o governo de déspotas que perderam até mesmo a ideia de justiça.

 

9

 

Observações. Karl Popper responsabilizou Platão, Hegel e Marx por rejeitarem a democracia, o que, segundo ele, levou as pessoas a crerem em regimes totalitários.[48] Popper nos lembrou que Platão e Heráclito pertenciam à velha aristocracia grega, que havia perdido o poder para a democracia, e que mais de um de seus familiares foi morto nesse contexto. A herança aristocrática levou Platão a sentir-se ressentido em relação à democracia… A crítica de Popper não tem tanto a ver com a democracia populista da Grécia Antiga, criticada por Platão, quanto com uma falha central do experimento platônico: a dificuldade de determinar quem poderá ser o rei-filósofo. Como erigir tal estado? Como decidir, por exemplo, o conteúdo das avaliações para a escolha dos guardiões? Essa espécie de questão nunca foi respondida.

   O importante livro de John Rawls, intitulado Uma teoria da justiça,[49] tinha como objetivo estabelecer critérios para identificar a forma de uma sociedade verdadeiramente justa. Para isso, Rawls idealizou uma famosa experiência em pensamento. Imagine que você tenha várias alternativas de sociedade para escolher e que precise ingressar em uma delas. Você conhece a natureza humana e sabe como funcionam as diversas sociedades. Mas você não sabe como irá entrar em qualquer uma dessas sociedades: se rico ou pobre, se homem ou mulher, se jovem ou velho, se inteligente ou tolo, se branco ou negro… Essa condição de incerteza é o que Rawls chamou de “o véu da ignorância”.

   Nessa situação, que sociedade você escolherá? A resposta é que você preferirá entrar em uma sociedade em que impera a justiça social. Como essa será uma escolha para a sua vida inteira, muito provavelmente você optará hoje por entrar em uma sociedade social-democrática, no sentido em que a expressão é usada nos países nórdicos, pois será a sociedade em que, em qualquer situação, você estará mais protegido. Você não escolherá entrar em uma sociedade sem mobilidade social, como a do antigo império egípcio, na qual terá boas chances de entrar como escravo e ficar assim para sempre.

   Uma questão é saber quantos de nós, sob o véu da ignorância, escolheriam ingressar na sociedade ideal proposta por Platão, considerando-a como alternativa às sociedades existentes à época. Desconfio que a maioria de nós escolheria a república de Platão, ainda que com reservas. Afinal, imagine que uma pessoa tenha nascido com as partes racional e apetitiva da alma bem desenvolvidas, mas com a parte volitiva muito fraca. Essa pessoa não terá lugar na sociedade ideal de Platão, pois não estará suficientemente satisfeita nem entre os agricultores, nem entre os guardiões, muito menos entre os auxiliares. Lá não haverá lugar para a combinação de ouro e ferro.

 

10

 

Arte. No incômodo capítulo X da República, Platão condenou a arte. Para ele, o artista não sabe realmente do que fala. De acordo com ele, a arte é mímesis, que significa ‘cópia’. Mas como as coisas visíveis já são cópias das ideias e a arte é cópia dessas cópias, trata-se de algo por demais imperfeito e enganador. Platão aceitava, em sua república, apenas poesias e hinos patrióticos. Como foi precisamente essa a forma de arte que as mais lamentáveis ditaduras do último século apoiaram, torna-se difícil para nós concordar com Platão.

   Uma razão para pensarmos que Platão possuía uma visão distorcida do papel da arte é que os artistas, em geral, se encontram voltados para o mundo sensível: seu material de trabalho é a vida tal como é, sem anestesias nem consolações filosóficas. Voltados, como estavam, às experiências emocionais e sensórias, tornaram-se os maiores críticos da ascese platônica. Se o estudo das matemáticas a favorecia a disciplina da alma, a experiência estética a dificultava.

  Contudo, há algo de certo no que Platão escreveu sobre a má arte. Ele observou que o pintor retrata um sapateiro em seu ofício, sem entender nada da arte de fazer sapatos; e o mesmo ocorre com um dramaturgo que representa as ações de um grande general, sem entender nada da estratégia militar.[50] O resultado é que ele tenderá a confundir o espectador, que também sabe pouco ou nada sobre a complexidade dos acontecimentos reais por trás do que vê representado.

   Mas há também algo de muito errado, o que pode ser esclarecido por meio de uma comparação com o que o filósofo R. G. Collingwood. Ele distinguiu três formas de arte: a arte como entretenimento, a arte sacra e a arte própria, a mais elevada, exemplificada pelo melhor da tragédia grega e pelos textos de Shakespeare. Para Collingwood, a única forma de arte verdadeiramente merecedora do nome seria a arte própria, cujo objetivo é reavivar nas pessoas aquilo que elas procuram esconder de si mesmas e que, por isso, adoece a sociedade. Como ele escreveu:

 

Conhecer a nós mesmos é a fundação de toda a vida que se desenvolve para além do nível de experiência meramente físico. Uma consciência verdadeira dá ao intelecto uma fundação firme; uma consciência corrompida força-o a construir sobre areia movediça.[51]

 

 

Por isso, o artista deve ser um profeta:

 

 

…não no sentido de prever o que virá, mas no sentido de que ele conta à sua audiência, sob o risco de desagradá-la, os segredos de seus próprios corações. (...) Como porta-voz de sua comunidade, os segredos que ele precisa pronunciar são os dela mesma. A razão pela qual ela precisa dele é que nenhuma comunidade conhece seu próprio coração; e, por falhar em conhecê-lo, engana-se a si mesma sobre uma matéria em relação à qual a ignorância significa morte… A arte é a medicina comunitária para a pior doença da mente, que é a corrupção da consciência.[52]

 

Para Collingwood, a boa arte, a arte própria, tem o potencial de despertar a consciência humana, enquanto a má arte serve apenas para mantê-la entorpecida.

   Quero exemplificar a função terapêutica da arte própria, relembrando uma música cantada por Billie Holiday, intitulada “Estranho Fruto” (Strange Fruit). Traduzo livremente[53]:

 

Árvores do sul dão um estranho fruto

Sangue nas folhas, sangue nas raízes

Corpos negros balançando à brisa do sul

Estranho fruto pendurado sob os álamos.

Cena pastoral do galante sul

Olhos abaulados, bocas retorcidas

Perfume de magnólia, doce e fresco

E o repentino odor de carne queimada.

Um fruto para os corvos arrancarem

Para a chuva lavar e o vento sugar

Para o sol apodrecer e da árvore tombar

Aqui se dá uma estranha e amarga colheita.

 

O estranho fruto são dois negros que linchados e enforcados sob uma árvore na Carolina do Sul, em meio a uma multidão festiva que se orgulhava do feito. Não havia leis proibindo o linchamento. A cantora foi perseguida e até presa por ter tido a ousadia de continuar cantando a música. Mas a letra amplia o sentimento de injustiça ao denunciar, pelo antagonismo de uma metáfora, com irônica elevação de alma, um cenário cruel e desumano.

   Uma fotografia ou um artigo de jornal noticiando o acontecimento seria, certamente, uma cópia da realidade. Mas, na poesia acima, a realidade copiada precisa ser decifrada, dado que a intenção é denunciar uma injustiça concreta, colocada em contraposição flagrante ao ideal de justiça – algo cuja força é esteticamente ampliada.

   Diversamente do caso acima, a crítica social pode ser sutil a ponto de permanecer quase despercebida. Foi assim com a última fase da obra de Machado de Assis. Como demonstrou Roberto Schwarz, essa obra contém uma crítica refinada às contradições de nossa classe abastada, que, em suas convicções, se pretende progressista, mas, em suas ações, está disposta a ceder a toda espécie de baixeza.

   Mas que dizer de passagens literárias clássicas incomparáveis, como o monólogo sobre a futilidade e o abissal vazio da existência humana no Macbeth de Shakespeare,[54] ou, em Dante, na inscrição à porta do inferno[55], como uma advertência sobre a inelutável e incessante dor decorrente do dilaceramento moral, não em outro mundo, como críticos já notaram, mas em nosso próprio. Também, nesses casos, trata-se de um chamado à consciência, mas agora com respeito a aflições cuja universalidade é a da própria condição humana.

   Em nada disso houve a menor intenção de copiar a realidade, a menos que fosse para denunciá-la, opondo a ela ideias como as da justiça, da beleza e do bem, que tanta importância tinham para Platão.

 



[1] Platão: Apologia de Sócrates 36-37. Socrates’ Defense (Apology) in Plato: Collected Dialogues. Ed. Edith Hamilton & Huntington Cairns (Princeton University Press 1963).

[2] Sócrates foi condenado por 280 votos a favor e 220 contra, por um júri popular de aproximadamente 500 cidadãos atenienses escolhidos por sorteio.

[3] Carta VII. Nessa carta, escrita quando Platão tinha cerca de 75 anos, ele definiu as cinco condições do conhecimento como sendo o nome (ex: ‘círculo’), sua definição (uma figura cujas extremidades são sempre equidistantes de seu centro), sua representação sensível (uma forma corpórea), seu conhecimento conceitual (algo de ordem mental) e, finalmente, seu referente objetivo (a forma imutável e perfeita do círculo). Como notou W. K. C. Guthrie ao comentar a carta, “Não há prova mais clara de que, para o final de sua vida, Platão pensou nas formas, não como conceitos ou universais, mas como realidades existentes independentemente”. A History of Greek Philosophy (Cambridge University Press 1978), vol. V, p. 408. cf. C. W. W. Taylor, Sócrates (LPM 1998), p. 69.

[4] Platão: República X, 596 a 7-9.

[5] O bem “é aquilo que dá às coisas conhecíveis a verdade e ao conhecedor a capacidade de conhecer”. República, Livro VI 509b.

[6] Fédon 99c 5. cf. Comentários em A. E. Taylor: Plato: The Man and his Work (Meridian Books 1963), p.  287.

[7] República 505a-b. Ver A. E. Taylor: Plato: The Man and its Work (Dover Publications 2001) pp. 286-289.

[8] Simpósio 211-212.

[9] Parmênides, Parte II.

[10] Ver Fédon 74-78. República V, 476, 479.

[11] Fedro 250b-c.

[12] Protágoras 330c-d.

[13]  Sofista 251b-d.

[14] República 596a-b.

[15] República , Livro VI, 509b.

[16] Filósofos analíticos contemporâneos falariam de análise conceitual em vez de definição, o que demonstra que a assim chamada tradição analítica, em seus melhores momentos, não se distinguiu, em essência, de uma continuação mais rigorosa da filosofia tradicional.

[17] Fédon 100c 4-6.

[18] Frederick Copleston, Uma história da filosofia (Vide Editorial 2021), vol. I, p. 198.

[19] Menon, 81c-d.

[20] Fédon 74-75.

[21] Parmênides 130c 6-8

[22] Parmênides 131a-d.

[23] Parmênides 132c-133a

[24] Proclus Commentary on Plato’s Parmenides, trad. G. R. Morrow & John Dillon (Princeton University Press 2021), pp. 869-870.

[25] Parmênides 132a-b, Aristóteles, Metafísica 990b17, 1059b.

[26] Aristóteles, Metafísica I, 990b 1-10.

[27] Nietzsche, O crepúsculo dos ídolos (Companhia de Bolso 2017). O problema de Sócrates, sec. 3. Em outras passagens Nietzsche demonstrou-se mais simpático à figura desse filósofo.

[28] Ludwig Wittgenstein, Investigações filosóficas (Nova Cultural 1996), Parte I, sec.109-133.

[29] Usarei ‘hipóstase’ no lugar do que Freud chamava de condensação (Verdichtung), mas aplicada ao que Wittgenstein entendia como uma confusão linguística na qual uma palavra – digamos, “o ser” – toma o lugar de várias outras, capturando seus sentidos. (Cap. XVIII)

[30] Para a análise desses conceitos, ver respectivamente as seções 6 e 8 desse capítulo.

[31] cf. Aristóteles, Metafísica 1036a 12-13.

[32] República, livro VI 509d-511e.

[33] República, livro VII, 514a-517a.

[34] A mesma definição aparece em Menon 97a-98a, na República, Livro VI, 509d-51e, e no Fedro 249b-c. Nesses diálogos, o logos é entendido, respectivamente, como explicação causal, compreensão racional das causas e justificação discursiva.

[35] Uma exceção seria o caso do conhecimento dos assim chamados enunciados básicos, em que a justificação pode tornar-se desnecessária. Assim, se digo “Estou com dor de cabeça”, não preciso nem tenho como justificar, pois sei disso por experiência imediata.

[36] Edmund Gettier: “Is Justified True Belief Knowledge?” Analysis 23, 1963, pp. 121-123

[37] São inúmeros, mas isso não nos deve confundir, pois todos possuem o mesmo defeito: a justificação não é suficiente para tornar a crença verdadeira.

[38] Ver Robert Fogelin: Pyrronian Reflexions on Knowledge and Justification (Oxford University Press 1994), cap. 1.

[39] Ver Claudio Vosta, Lines of Thought: Rethinking Philosophical Assumptions (CSP 2014), cap. V.

[40] Jürgen Habermas analisou essa condição no que chamou de situação ideal de fala (ideale Sprachsituation), no artigo Wahrheitstheorien”, in H. Fahrenbach (ed.), Wirklichkeit und Reflexion (Neske 1973), pp. 211–265.

[41] República 435e- 441c.

[42] Fedro 228b-230a.

[43] República, livro 427e-434d

[44] Paul D. McLean: The History of Neuroscience in Autobiography, ed. L. R. Squire (Academic Press 1988), vol. II, cap. 20. O influente artigo de Jeremy Genovese’s “Snakes and Ladders: A Reappraisal of the Triune Brain Hypothesis.” (Evolutinonary Psychology 2003), apela às múltiplas adaptações de nicho para refutar McLean. Contudo, adaptações de nicho encontram-se em um nível de abstração muito mais específico do que o da evolução geral do cérebro tematizada pela teoria do cérebro triúno.

[45] A divisão feita por Freud entre as três instâncias do psiquismo, o Ego, o Id e o Superego, corresponde, de forma grosseira, às funções volitiva, apetitiva e racional da alma, ainda que seja bem mais complexa por incluir o inconsciente. A principal diferença é que, em Freud, as decisões são tomadas pela instância volitiva (o Ego, que possui controle motor) e não pela instância racional-censora (o Superego). A diferença reafirma a disposição ascética do platonismo, que centra o poder decisório na razão. Ver Sigmund Freud, O Ego e o Id e outros trabalhos (Imago 1969). 

[46]  República IV, 433, 443d-e.

[47] República, livros VIII e IX.

[48] Karl Popper: The Open Society and its Enemies (Princeton University Press 2013), vol. I: The Spell of Plato.

[49] John Rawls, A Theory of Justice (Harvard University Press 1971).

[50] Ver Ion 540-542.

[51] R. G. Collingwood:  The Principles of Art (Clarendon Press 1947), p. 284.

[52] R. G. Collingwood: The Principles of Art (OUP 1958), p. 336.

[53] O poema original foi escrito por Abel Meeropol, um judeu novaiorquino.

[54]Amanhã, depois de amanhã, depois de amanhã… Arrasta-se, em seu passo vacilante, dia após dia, até a última sílaba do tempo registrado. E todos os nossos ontens têm apenas iluminado o tolo caminho para o pó da morte. Apaga, apaga, vela breve! A vida não passa de uma sombra ondulante; um pobre ator que se agita e se aflige em seu momento no palco – e então não mais é ouvido. Uma mentira, contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada.” Macbeth, Cena V.

[55] “Por mim se vai à cidade dolente, / Por mim se vai à eterna dor, / Por mim se vai à perdida gente. / Justiça moveu meu alto feitor; / Fez-me a divina Potestade, / A suma sapiença, primeiro Amor. / Antes de mim não foram coisas criadas / Se não eternas, eu eterno duro. / Deixai toda esperança, ó vós que entrais.

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