O texto é um draft avançado de um livro cuja versão final será publicada pela Editora Europa (Roma)
INTRODUÇÃO HISTÓRICA
À FILOSOFIA
2026
Simplex sigillum veri.
CONTEÚDO
Prefácio
I.
Os pré-socráticos e a
natureza
da filosofia
II.
O idealismo platônico
III. O realismo aristotélico
IV. Filosofia em tempos difíceis
V.
A revolução cartesiana
VI. Spinoza: naturalismo panteísta
VII. Leibniz: idealismo infinitista
VIII.
Origens do empirismo inglês
IX. Locke: construtivismo empirista
X.
Berkeley: imaterialismo
XI. Hume: ceticismo radical
XII. Kant: idealismo transcendental
XIII.
O idealismo alemão
XIV.
Hegel: espiritualismo dialético
XV. Marx: materialismo dialético
XVI.
Nietzsche: crítica à cultura cristã
XVII.
O que veio depois
XVIII.
Wittgenstein: limites do sentido
XIX.
Donald Williams: ontologia dos
tropos
XX. A filosofia na jaula de ferro
PREFÁCIO
Por
“introdução histórica à filosofia” entendo uma exposição dos momentos centrais
do desenvolvimento da filosofia ocidental, em sua conexão com os tópicos mais
importantes da filosofia, da ciência e da cultura contemporâneas. Pelo esforço de
vislumbrar a história da filosofia sob a ótica cultural da contemporaneidade,
minha exposição tornou-se inevitavelmente opinativa e, em certa medida,
crítica. Nesse ponto ela diverge da maioria das histórias da filosofia, frequentemente
marcadas por um tom apologético. Mas, justamente por isso, ela pode ser
oportuna. Afinal, filosofia é experimento: especulação acerca do que ainda não
sabemos. Até mesmo a própria tradição dominante não passa de uma configuração
provisória de opiniões hegemônicas.
Há várias razões para essa abordagem. Uma
delas é que a filosofia tem se tornado, ultimamente, por demais especializada.
Faltam abordagens gerais e independentes. Outra razão, para os iniciantes, é
que uma pessoa só pode saber o quão extraordinária a filosofia ainda é capaz de
ser se já tiver conhecido e colocado em perspectiva o pensamento dos grandes
filósofos da civilização ocidental.
Também é verdade que uma pessoa só sabe o
quão fascinante a música pode ser quando já apreciou verdadeiramente o melhor que
os grandes compositores do passado produziram. Mas tal comparação seria
exagerada: a música de Bach não perdeu em nada a capacidade de nos
impressionar. Já a filosofia não é tão resistente. Ideias filosóficas podem se
tornar arcaicas. Isso demonstra que, nesse domínio, há progresso, ainda que não
linear e quase imperceptível. O melhor exemplo disso pode ter sido a
considerável perda de credibilidade da filosofia da percepção de Kant, em razão
do desenvolvimento das geometrias não-euclidianas e da física relativista.
Ainda assim, sua obra contém inúmeros insights que permanecem atuais e
importantes.
A
filosofia tradicional é como uma bateia: nela há areia e cascalho, mas também algum
ouro. Muito dela impressiona-nos hoje apenas como monumento à imaginação
humana; mas há nela o que nos impressiona ainda mais pela surpreendente
atualidade de seus insights e desafios.
De Platão a Hegel, os filósofos
tradicionais colocaram para si mesmos problemas imensuráveis, muitos deles
ainda hoje insuficientemente resgatados. Diante desse panorama, o filósofo
inglês Colin McGinn sugeriu a hipótese do fechamento epistêmico (epistemic
closure). Para ele, a mente humana simplesmente não é capaz de resolver os
grandes problemas impostos pela tradição. Diante deles, somos como chimpanzés
tentando descobrir a teoria da relatividade: jamais conseguiremos! Melhor,
então, nos dedicarmos a problemas menores – aqueles que cabem em nossas mentes.
A reação de McGinn sempre me pareceu
derrotista. Uma reação mais cabível seria a wittgensteiniana: se somos capazes
de colocar um problema de modo adequado, é porque somos, ao menos em princípio,
capazes de resolvê-lo. Chimpanzés não são capazes de inventar a teoria da
relatividade. Mas eles também não são capazes de se perguntar, como fez
Einstein, o que aconteceria se viajássemos à velocidade da luz…
A verdade pode estar em
qualquer lugar. Hoje somos capazes de identificar erros notórios e substitutos
mais precisos e adequados para muito do que os clássicos divisaram. Mas também
muito do que eles disseram permanece mais amplo e profundo do que nossos pretensos
substitutos, resistindo a um resgate fácil e ilusório. Além disso, é cômodo que,
movidos pelos preconceitos de nossa época, os compreendamos mal precisamente
onde são capazes de nos corrigir e mostrar a direção. Isso faz com que o
problema maior seja descobrir, como notou Russell, quais pontes preservar e
quais queimar.
O presente texto contém
inevitáveis intervenções pessoais, uma vez que passei um bom número de anos
pesquisando o tratamento filosófico contemporâneo de questões tradicionais.
Além disso, como parte do próprio projeto, intercalei o que acredito ser mais
plausível em metafilosofia, epistemologia, metafísica, ética, filosofia da
percepção, da arte, da sociedade, da mente, da política… à medida que as raízes
históricas dessas problemáticas despontavam. A isso veio a se somar a
influência crítica de pensadores analíticos como Wittgenstein e Frege e, em
alguma medida, de críticos sociais como Marx, Nietzsche, Freud, Max Weber, Jürgen
Habermas… Sob a luz de suas ideias, a história da filosofia tradicional pode
ser, em certa medida, repensada, como na reconsideração do imenso papel
ideológico, tanto produtivo quanto alienador, do cristianismo na história da
filosofia ocidental. Essa atitude de preservação crítica (kritische
Bewahrung) motivou o capítulo sobre Donald Williams, no qual tentei
demonstrar que uma alternativa naturalista ao realismo ontológico tradicional
pode se mostrar viável, além do melancólico diagnóstico de certas atribulações
da prática filosófica contemporânea feito no último capítulo.[1]
Gostaria de agradecer aos meus
alunos da UFRN por suas reações e à professora Cinara Nahra pelo incentivo. Esse
livro não poderia ter sido escrito sem o apoio de Rita Cristina Fressa, a quem
ele é dedicado.
Rifaina,
2026
[1] Este livro foi escrito tendo
em vista uma leitura linear: conceitos, ideias e teorias novas foram
introduzidos em cada capítulo, sendo posteriormente pressupostas.

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