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segunda-feira, 1 de junho de 2026

PREFÁCIO DE "INTRODUÇÃO HISTÓRICA À FILOSOFIA" (Draft avançado)

 O texto é um draft avançado de um livro cuja versão final será publicada pela Editora Europa (Roma)

 

 

 

 

 INTRODUÇÃO HISTÓRICA

À FILOSOFIA

 

 

 

 

 

 

2026

 

 

 

 

 

 

 

Simplex sigillum veri.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      CONTEÚDO

 

Prefácio

I.                       Os pré-socráticos e a natureza

       da filosofia

II.                  O idealismo platônico

III.            O realismo aristotélico

IV.             Filosofia em tempos difíceis

V.                  A revolução cartesiana

VI.             Spinoza: naturalismo panteísta

VII.        Leibniz: idealismo infinitista

VIII.                  Origens do empirismo inglês

IX.             Locke: construtivismo empirista

X.                  Berkeley: imaterialismo

XI.             Hume: ceticismo radical

XII.        Kant: idealismo transcendental

XIII.                  O idealismo alemão

XIV.                   Hegel: espiritualismo dialético

XV.         Marx: materialismo dialético

XVI.                   Nietzsche: crítica à cultura cristã

XVII.              O que veio depois

XVIII.         Wittgenstein: limites do sentido

XIX.                   Donald Williams: ontologia dos

       tropos

XX.        A filosofia na jaula de ferro

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

 

Por “introdução histórica à filosofia” entendo uma exposição dos momentos centrais do desenvolvimento da filosofia ocidental, em sua conexão com os tópicos mais importantes da filosofia, da ciência e da cultura contemporâneas. Pelo esforço de vislumbrar a história da filosofia sob a ótica cultural da contemporaneidade, minha exposição tornou-se inevitavelmente opinativa e, em certa medida, crítica. Nesse ponto ela diverge da maioria das histórias da filosofia, frequentemente marcadas por um tom apologético. Mas, justamente por isso, ela pode ser oportuna. Afinal, filosofia é experimento: especulação acerca do que ainda não sabemos. Até mesmo a própria tradição dominante não passa de uma configuração provisória de opiniões hegemônicas.

   Há várias razões para essa abordagem. Uma delas é que a filosofia tem se tornado, ultimamente, por demais especializada. Faltam abordagens gerais e independentes. Outra razão, para os iniciantes, é que uma pessoa só pode saber o quão extraordinária a filosofia ainda é capaz de ser se já tiver conhecido e colocado em perspectiva o pensamento dos grandes filósofos da civilização ocidental.

   Também é verdade que uma pessoa só sabe o quão fascinante a música pode ser quando já apreciou verdadeiramente o melhor que os grandes compositores do passado produziram. Mas tal comparação seria exagerada: a música de Bach não perdeu em nada a capacidade de nos impressionar. Já a filosofia não é tão resistente. Ideias filosóficas podem se tornar arcaicas. Isso demonstra que, nesse domínio, há progresso, ainda que não linear e quase imperceptível. O melhor exemplo disso pode ter sido a considerável perda de credibilidade da filosofia da percepção de Kant, em razão do desenvolvimento das geometrias não-euclidianas e da física relativista. Ainda assim, sua obra contém inúmeros insights que permanecem atuais e importantes.

   A filosofia tradicional é como uma bateia: nela há areia e cascalho, mas também algum ouro. Muito dela impressiona-nos hoje apenas como monumento à imaginação humana; mas há nela o que nos impressiona ainda mais pela surpreendente atualidade de seus insights e desafios.

   De Platão a Hegel, os filósofos tradicionais colocaram para si mesmos problemas imensuráveis, muitos deles ainda hoje insuficientemente resgatados. Diante desse panorama, o filósofo inglês Colin McGinn sugeriu a hipótese do fechamento epistêmico (epistemic closure). Para ele, a mente humana simplesmente não é capaz de resolver os grandes problemas impostos pela tradição. Diante deles, somos como chimpanzés tentando descobrir a teoria da relatividade: jamais conseguiremos! Melhor, então, nos dedicarmos a problemas menores – aqueles que cabem em nossas mentes.

   A reação de McGinn sempre me pareceu derrotista. Uma reação mais cabível seria a wittgensteiniana: se somos capazes de colocar um problema de modo adequado, é porque somos, ao menos em princípio, capazes de resolvê-lo. Chimpanzés não são capazes de inventar a teoria da relatividade. Mas eles também não são capazes de se perguntar, como fez Einstein, o que aconteceria se viajássemos à velocidade da luz…

   A verdade pode estar em qualquer lugar. Hoje somos capazes de identificar erros notórios e substitutos mais precisos e adequados para muito do que os clássicos divisaram. Mas também muito do que eles disseram permanece mais amplo e profundo do que nossos pretensos substitutos, resistindo a um resgate fácil e ilusório. Além disso, é cômodo que, movidos pelos preconceitos de nossa época, os compreendamos mal precisamente onde são capazes de nos corrigir e mostrar a direção. Isso faz com que o problema maior seja descobrir, como notou Russell, quais pontes preservar e quais queimar.

    O presente texto contém inevitáveis intervenções pessoais, uma vez que passei um bom número de anos pesquisando o tratamento filosófico contemporâneo de questões tradicionais. Além disso, como parte do próprio projeto, intercalei o que acredito ser mais plausível em metafilosofia, epistemologia, metafísica, ética, filosofia da percepção, da arte, da sociedade, da mente, da política… à medida que as raízes históricas dessas problemáticas despontavam. A isso veio a se somar a influência crítica de pensadores analíticos como Wittgenstein e Frege e, em alguma medida, de críticos sociais como Marx, Nietzsche, Freud, Max Weber, Jürgen Habermas… Sob a luz de suas ideias, a história da filosofia tradicional pode ser, em certa medida, repensada, como na reconsideração do imenso papel ideológico, tanto produtivo quanto alienador, do cristianismo na história da filosofia ocidental. Essa atitude de preservação crítica (kritische Bewahrung) motivou o capítulo sobre Donald Williams, no qual tentei demonstrar que uma alternativa naturalista ao realismo ontológico tradicional pode se mostrar viável, além do melancólico diagnóstico de certas atribulações da prática filosófica contemporânea feito no último capítulo.[1]

   Gostaria de agradecer aos meus alunos da UFRN por suas reações e à professora Cinara Nahra pelo incentivo. Esse livro não poderia ter sido escrito sem o apoio de Rita Cristina Fressa, a quem ele é dedicado.

   Rifaina, 2026

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Este livro foi escrito tendo em vista uma leitura linear: conceitos, ideias e teorias novas foram introduzidos em cada capítulo, sendo posteriormente pressupostas.

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