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segunda-feira, 1 de junho de 2026

ORIGENS DO EMPIRISMO INGLÊS (Introdução histórica à filosofia, cap. VIII)

 draft para o livro Introdução histórica à filosofia

 

 

VIII

ORIGENS DO EMPIRISMO INGLÊS

 

 

Assim como no continente os filósofos foram influenciados pelas matemáticas, produzindo sistemas especulativos racionalistas, os filósofos ingleses foram impactados pelo desenvolvimento das ciências empíricas como a física newtoniana, além de suas implicações práticas, desenvolvendo sistemas empiristas de pensamento.

 

1

 

Bacon. O primeiro grande defensor do empirismo foi Sir Francis Bacon (1561-1626).[1] Ele pode ser considerado o primeiro filósofo especializado em filosofia da ciência. Bacon desdenhava o método dedutivo da silogística aristotélica, propondo em seu lugar o método indutivo próprio das ciências empíricas. Para ele, a ciência empírica deveria se desenvolver por meio da contínua adição e seleção de observações, em busca de invariantes e de suas causas. Ele valorizava não tanto a indução enumerativa, que apenas probabiliza uma generalização científica, mas, principalmente, a indução excludente, uma vez que ela é capaz de falsear decisivamente uma generalização.

   Essa última ideia foi retomada e desenvolvida, sob outro nome, no século XX por Karl Popper. Para este, a característica fundamental da ciência é que suas teorias são suscetíveis de refutação por meio de testes empíricos.[2] Uma hipótese resultante de indução enumerativa nunca é garantida. Um exemplo é a generalização “Todos os cisnes são brancos”, que era considerada verdadeira pelos europeus antes da descoberta da Austrália. Afinal, todos os cisnes já enumerados eram brancos. Contudo, ao serem avistados cisnes negros na Austrália, a generalização antes considerada certa foi decisivamente refutada.

   Para obtermos certeza da verdade de uma generalização científica, seria necessário verificar todas as suas instâncias, o que costuma ser praticamente impossível. Como Popper notou, mesmo que alcancemos a verdade empírica última e absoluta, jamais poderemos saber se a alcançamos de fato. Mas isso não acontece quando recorremos ao falseamento, pois basta uma única instância contrária ao previsto na hipótese para refutá-la.

   O exemplo predileto de Popper foi a comprovação da teoria da relatividade geral, realizada pela expedição de Arthur Eddington em 1919. Segundo a teoria newtoniana, a gravidade é uma força que atua sobre objetos com massa. Como a luz não possui massa, ela não poderia ser atraída pela gravidade. Já segundo a teoria da relatividade, a gravidade não é mais uma força agindo à distância, mas sim um encurvamento do espaço-tempo próximo a corpos massivos. Como consequência, mesmo as ondas de luz precisam seguir uma trajetória curva, em conformidade com a curvatura do espaço-tempo. Daí que, em um eclipse solar, quando as estrelas próximas ao Sol podem ser vistas pelo observador situado na Terra, elas devem parecer mais distantes do Sol, devido ao encurvamento de seus raios de luz ao passarem próximos ao Sol. No eclipse solar de 1919, essa deflexão da luz foi comprovada por meio de fotografias. Esse foi um teste crucial para a teoria, o que a tornou mundialmente conhecida. Se nenhuma deflexão fosse encontrada, a teoria da relatividade geral teria caído por terra. Portanto, podemos não saber se a teoria relativista da gravitação é absolutamente verdadeira, ou mesmo se ela vale para todo o universo; mas sabemos que ela se demonstrou suficientemente confiável para resistir a um teste crucial de falsificação.

   A ideia de que a possibilidade de falseamento experimental estabelece um limite entre ciência e não-ciência pode valer, em boa medida, para a física. Mas ela não se aplica a muitas outras ciências, como a biologia evolutiva, a história, a antropologia e a linguística, nas quais a realização de experimentos falsificadores é geralmente impossível. Afora isso, sob a influência das ideias de Hume, Popper defendeu, ao longo de toda a sua vida, a ideia implausível de que a generalização por indução enumerativa não existe. Por isso, ele pensava que as novas teorias científicas deviam ser baseadas somente no método hipotético-dedutivo e que nossas hipóteses científicas deviam se resumir a produtos da imaginação criativa.

   No que concerne à ciência avançada de nossa época, podemos aceitar o emprego de hipóteses imaginativas, conforme proposto por Popper. Esse foi o famoso caso da hipótese da equivalência entre a gravidade e o movimento acelerado, a partir da qual se originou a nova teoria da gravitação de Einstein: um insight genial que gerou resultados fabulosos. Mas se nos restringirmos somente a isso, estaremos esquecendo que, em suas bases, essas ciências maduras já haviam sido construídas sobre o sustentáculo de uma infinidade de inferências indutivas enumerativas originárias.

   Encontrando-se ainda em um momento inicial do desenvolvimento das ciências empíricas, Bacon estava imune ao radicalismo anti-indutivista de Popper que ele, com razão, teria considerado absurdo.

 

2

 

Hobbes. Outro filósofo que ajudou a preparar o caminho para Locke foi Thomas Hobbes (1588-1679). Ele viveu em tempos de grande convulsão social. A Europa continental estava sendo devastada pela Guerra dos Trinta Anos, que durou de 1618 a 1648 e resultou em mais de quatro milhões de mortes. Nesse período, ocorreu na Inglaterra uma guerra civil de seis anos, que terminou com a decapitação do rei Charles I em 1649. Ela foi seguida pela ditadura de Oliver Cromwell, eleito pelo parlamento, que só terminou com a morte dele. Logo após, foi coroado um novo rei, Charles II, secretamente católico, que favorecia os católicos enquanto a maioria do parlamento era protestante, o que gerou novos conflitos…

   Hobbes não viveu para assistir à Revolução Gloriosa de 1688, pela qual Mary II, protestante, destronou seu pai, James II, sucessor de Charles II. Ela tornou-se rainha ao lado de seu esposo, William de Orange, ambos cedendo poder ao parlamento – uma solução que foi sendo aperfeiçoada até adquirir sua forma democrática atual.

   Ter testemunhado tempos tão sombrios foi, certamente, a principal razão do pessimismo de Hobbes. Ele foi levado a pensar que só um governo com poderes absolutos seria capaz de manter a ordem em uma sociedade, prevenindo a anarquia. Essa é a tese de sua obra máxima, O Leviatã[3]. Já John Locke, que viveu a Revolução Gloriosa, moderou as ideias de Hobbes, dando origem ao liberalismo político.

   Como filósofo teórico, Hobbes não criou um sistema original, mas atualizou o materialismo naturalista à luz das novas ciências. Ele viajou pela Europa, foi amigo de Bacon, conheceu o físico Galileu, além de Gassendi, discípulo de Descartes, e foi influenciado pelos escritos deste último. Vou expor algumas ideias.

   Para Hobbes, quando o conceito do predicado está contido no conceito do sujeito, temos um enunciado necessário. Por exemplo: “Triângulos têm três lados.” Afinal, o triângulo é uma figura plana fechada com três lados. Mas quando o conceito do predicado não está contido no conceito do sujeito, temos um enunciado contingente. Exemplo: “O carvão tem cor preta.” Como não faz parte da definição de carvão que ele seja preto, o conceito do predicado não está contido no conceito do sujeito, e o enunciado é contingente. Já vimos algo assim em Leibniz…

   Hobbes esposava um mecanicismo materialista e um determinismo universal. Mesmo a substância deveria ser material. Como determinista, ele via o livre-arbítrio como a mera ausência de limitação ou coerção externa. Assim, o escravo liberto, o rio que rompeu a barragem e agora corre livremente, o jovem que atingiu a maioridade e agora pode fazer o que quiser: todos eles são livres porque não têm mais impedimento, e não porque deixaram de ser causalmente determinados. Com esse novo conceito de liberdade, Hobbes rompeu definitivamente com o libertarismo sustentado por filósofos atomistas como Epicuro e Lucrécio, bem como por filósofos católicos da Idade Média, segundo os quais, ao decidir livremente, precisamos ser capazes de transcender o determinismo causal presente no mundo físico (Cap. IV, sec. 1). Hobbes foi o primeiro filósofo claramente compatibilista. Para ele, o livre-arbítrio é perfeitamente compatível com o determinismo causal, tendo um sentido meramente negativo (ver Cap. XVI, sec. 9).

   Ele entendia as sensações como movimentos no cérebro e a percepção do mundo a partir de dados sensíveis, como resultado de uma tendência natural da mente a projetar para fora o que lhe é dado, na independência da vontade. A imaginação é resultado da combinação de imagens já vivenciadas (como o centauro, formado pela junção da figura humana à do cavalo). E a memória seria uma imagem adicionada à consciência de que ela foi percebida anteriormente.

   Acusaram Hobbes de ser ateu, mas injustamente. Ele foi educado por um pastor calvinista após a perda dos pais, o que o tornou uma pessoa de fé religiosa. Ele acreditava que o próprio Deus também era constituído de matéria. Deus seria o espírito corpóreo mais puro, simples e invisível. (Esse entendimento materialista da divindade é, no mínimo, tão problemático quanto seu paralelo idealista.)

   Quanto ao problema dos universais, Hobbes defendeu o nominalismo seguindo William Ockham. Para ele, um termo geral não é mais do que um nome que se aplica a todo um grupo de objetos individuais, sem discriminação adicional.

   O importante em Hobbes é a sua filosofia social e política, exposta no Leviatã. O contraste mais marcante seria com Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que idealizou o ser humano natural como um “nobre selvagem”: bom por natureza e tornado mau pela sociedade.[4] Para Hobbes, era o oposto: o ser humano é mau por natureza. Mesmo quando faz algo de bom, ele o faz por egoísmo. Se faz caridade, é para demonstrar seu poder. Se sente piedade, é por temer um desastre similar consigo mesmo. Se busca o poder é para desfrutar da glória de dominar outras pessoas… “Os homens”, escreveu ele, “são tomados de um perpétuo e incansável desejo de poder sobre poder, que só cessa com a morte”.[5]

   Devido ao egoísmo humano e à inevitável escassez de recursos, os homens estariam sempre em competição. O resultado disso é a guerra, a luta de todos contra todos, pois só a morte de uns tornará possível a sobrevivência de outros: “homo homini lupus”. Disso, Hobbes concluiu que a condição natural da humanidade é a da guerra. E o destino do ser humano, em sua condição natural, é ter uma vida “solitária, pobre, suja, bruta e curta”. Para eles, só a sociedade poderia educar o egoísmo humano, fazendo do homem um ser civilizado. Não é de admirar que, com uma concepção tão pessimista da natureza humana, ele tenha chegado a conclusões um tanto insólitas. (Não parece que Hobbes tenha sido um ser humano adorável.)

   A solução proposta no Leviatã foi que a única maneira de evitar a guerra de todos contra todos era o povo ceder o poder a uma autoridade absoluta. Para ele, um governo precisa ser formado por meio de um pacto (covenant), que é uma espécie de contrato pelo qual os indivíduos transferem seus direitos naturais de fazer o que quiserem para sobreviver, inclusive matar seus semelhantes… a um poder soberano, em troca de paz e segurança.[6]

   Esse pacto seria sustentado por certas leis da natureza (divinas ou morais), que fazem com que os indivíduos sintam a obrigação de buscar a paz, dispor de seus direitos naturais e manter-se no acordo, conquanto os outros também o façam. Essas leis asseguram o cumprimento do pacto, cuja existência se deve aos interesses individuais na realização dos direitos naturais. Com isso, cria-se uma sociedade civil, por meio da qual se estabelecem leis que nos dizem quais ações humanas são justas ou injustas. E, por meio dele, são garantidos os direitos individuais dos cidadãos, que se tornam livres na medida em que sua liberdade não é transgressora da liberdade alheia.

   Ainda que o soberano esteja acima das leis e que seus poderes de vida e morte sobre os cidadãos sejam absolutos, uma vez que foi agraciado com a soberania, ele tem o dever de não decepcionar aqueles que lhe cederam tais poderes. Fica claro que se o soberano agir de modo a tornar a vida das pessoas insuportável, elas terão pleno direito de destituí-lo do poder. E a razão disso é que foi o desejo de autopreservação que levou as pessoas a firmar o pacto, de modo que, se o soberano não souber zelar por essa autopreservação, as pessoas terão pleno direito de dissolvê-lo.

   Contra Hobbes, devemos notar que, geralmente, quando o pacto sugerido por ele é celebrado sem que reste qualquer controle por parte das pessoas que lhe deram o poder de vida e morte sobre elas, o resultado depende das circunstâncias e dos humores do soberano. Em tal contexto, ele pode facilmente degenerar em um tirano que, com seu poder absoluto, escraviza seu povo, sem que este possa fazer nada para impedi-lo. Hobbes não tinha remédio algum para esse tipo de problema.

   A favor de Hobbes, é preciso notar que, embora preferisse que o poder soberano fosse exercido por um monarca absolutista, admitia que esse poder também pudesse ser exercido por um corpo ou por uma assembleia de pessoas. Ele provavelmente teria aceito o modelo parlamentarista resultante da Revolução Gloriosa se tivesse vivido o suficiente para vê-lo surgir. Mas como filósofo, ele foi refém de seu tempo. O grande mérito do Leviatã foi ter, pela força de seus argumentos, construído o palco sobre o qual seriam encenadas as discussões da filosofia política nos séculos seguintes.

 

3

 

O fator social. Nos dias de hoje, há boas razões para rejeitar tanto a tese de Rousseau, segundo a qual o homem é naturalmente bom, quanto a de Hobbes, segundo a qual o homem é naturalmente mau. Espero mostrar isso a seguir, começando por considerações sobre a teoria freudiana das pulsões.

   Antes de dar vazão ao seu pessimismo postulando uma biologicamente implausível pulsão de morte (Thanatos),[7] Freud fez, em sua primeira tópica, uma importante distinção entre duas espécies gerais de instintos ou pulsões (Triebe): a de autoconservação e a erótica, que foram de modo mais geral, ser correspondentemente entendidas como:

 

 (a) disposições pulsionais de conservação e sobrevivência do indivíduo e

 (b) disposições pulsionais de conservação da espécie (Eros)[8]

 

Considerando (a), é fácil perceber que se trata de disposições de caráter egoísta. Mas quanto a (b), as disposições pulsionais de sobrevivência da espécie devem ser, ao menos enquanto tomadas isoladamente, disposições de fundo altruísta, dado que sua satisfação deve servir a outros membros da espécie, muitas vezes em detrimento do indivíduo.

   Se ignorarmos a excessiva ênfase na sexualidade na compreensão do que prefiro chamar de disposições pulsionais de sobrevivência da espécie – como muitos críticos de Freud o fizeram – a distinção entre essas duas espécies de disposições instintivas básicas se torna por demais bem fundamentada na psicologia evolutiva e na biologia para ser desconsiderada. Entre os animais, isso é amplamente documentado, como no caso da capivara que, ao perceber que a onça está atacando seus filhotes, se interpõe entre eles, só para ser devorada. Mas também é fácil encontrar exemplos entre os seres humanos, como o caso de um pai que morreu tentando salvar seus filhos pequenos do afogamento, em uma situação em que as chances de sobrevivência eram mínimas. Seria ridiculamente falacioso dizer que o pai que se afogou tentando salvar os filhos o fez por qualquer razão que não fosse o desespero de vê-los se afogando…

   Daí resulta que ambos, egoísmo e altruísmo, passam a ser considerados intrínsecos à natureza humana, ainda que isso possa não parecer claro, dado que nossas ações geralmente resultam de combinações das pulsões de sobrevivência do indivíduo com as de sobrevivência da espécie. Nosso comportamento social é biologicamente motivado por essa natureza bipolar e amiúde conflituosa. E a ele devem ser acrescentadas variáveis individuais e socioambientais.

   Ao que foi dito acima, devemos acrescentar que a natureza humana é individualmente variável e, com isso, também as medidas de egoísmo e altruísmo que dela dependem. Psiquiatras que estudaram psicopatias desenvolveram métodos confiáveis e sofisticados para diagnosticá-la. Embora menos de 1% sejam psicopatas graves – facilmente identificáveis, pois muitos acabam cometendo homicídios e sendo presos – há psicopatas leves, que representam 3-4% da população. Esses sentem prazer em fazer o mal, conquanto não sejam descobertos. Se o escore do teste, em um extremo, identifica psicopatas, é porque existe o extremo oposto, digamos, o das “criaturas angelicais” – os antipsicopatas –, pessoas naturalmente altruístas e inclinadas ao bem. Combinações genéticas aleatórias devem originar ambas as tendências e também os extremos, posto que a sociedade humana precisa de uma diversidade de tipos como meio de produzir uma divisão do trabalho que organize e coordene as ações humanas, facilitando a sobrevivência da comunidade como um todo.

   Casos mais próximos da psicopatia leve, quando submetidos a uma educação rigorosa, podem se tornar bons líderes (vide o caso do general George Patton ou mesmo de Winston Churchill, particularmente úteis durante a Segunda Guerra Mundial, mas depois não mais). Já os mais próximos do extremo do altruísmo também podem se mostrar úteis (talvez Martin Luther King e Mahatma Gandhi, que acabaram sendo assassinados pela ofensa que representavam ao amor-próprio dos mais beligerantes).

   Além dos fatores genéticos, há também os fatores socioambientais que moldam o comportamento. O cão preso a uma corrente tende a tornar-se agressivo, o cão tratado com mimos tende a se tornar dócil e confiante. Ora, assim também é com os seres humanos. Os rigores da educação espartana produziram seres humanos desmedidamente propensos à agressão. Isso era necessário, já que os hilotas (os habitantes originários do Peloponeso), reduzidos à condição de escravos, compunham a vasta maioria da população e precisavam ser subjugados. Os homens das civilizações pré-cristãs eram geralmente capazes de cometer atos de coragem e brutalidade impensáveis para nós. A educação e a cultura são, pois, fatores tão fundamentais quanto os genéticos no equilíbrio entre o comportamento egoísta e o altruísta.

   Tudo considerado, tanto o mito do altruísmo quanto o do egoísmo inatos se desfazem. O ser humano não nasce bom ou mau por definição, sendo apenas geneticamente predisposto, como indivíduo, mais para um ou outro extremo. Além disso, o meio (a educação, a sociedade) é capaz de moldar o comportamento humano tanto mais em uma direção quanto em outra.

 

4

 

A escassez. Voltemos agora a Hobbes. Vimos que, no que concerne ao egoísmo inato, ele estava simplesmente errado. Mas no que concerne à escassez de provimentos e recursos, somos forçados a lhe dar razão, dado que, na história da espécie humana, a guerra e a violência sempre foram uma constante. A principal causa, reproduzindo o que ocorre em populações animais, é a conjunção do aumento populacional com a escassez de alimentos e, particularmente no caso humano, a falta de recursos que facilitem a vida.

   O paralelo com os animais é esclarecedor. As espécies tendem a se reproduzir sempre mais do que seus meios de subsistência lhes permitem, sendo o limite geralmente imposto por outras espécies concorrentes no ecossistema. Considere o caso dos guanacos na Patagônia. Existem ainda muitos milhares desses simpáticos herbívoros, que, depois de se tornarem uma espécie protegida, tendem a se reproduzir como coelhos. Entre seus predadores naturais estavam os povos indígenas e o puma. Eles limitavam o número de guanacos. Os condores, por sua vez, se alimentavam das carcaças de guanacos mortos. Com a limitação do número de guanacos, o capim dos desertos da Patagônia podia crescer outra vez… Um ecossistema funciona por meio de limitações mútuas entre as espécies. A isso é preciso acrescentar a competição intraespecífica. Os guanacos são territorialistas, reunindo-se em grupos de fêmeas liderados por um macho, responsável pela segurança do grupo, pela manutenção do território e pela perseguição dos oponentes.

   Ora, algo semelhante aconteceu com os agrupamentos humanos ao longo da história. Relatos de grupos humanos de caçadores-coletores que viveram em um estado comparável ao do Paleolítico, como os Onas/Selk’nam na Terra do Fogo, mostram seres humanos geralmente capazes de profunda empatia, que cuidavam de seus doentes e recebiam bem os estrangeiros. Antes da chegada dos europeus, as pequenas tribos Onas lutavam umas contra as outras em uma competição intraespecífica pela sobrevivência em territórios cuja principal fonte de alimento – os guanacos – era limitada.[9]

   A condição humana, por muito tempo, não foi muito diferente. A melhor explicação que conheço encontra-se na filosofia do humanitismo de Quincas Borba, personagem do romance homônimo de Machado de Assis. Eis como ele explica o mote “ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”:

 

Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações, as recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.[10]

 

Historicamente, entre os humanos também foi sempre assim. Era inevitável que as tribos indígenas guerreassem entre si na disputa territorial por alimentos. Para perceber a diferença entre os modos geralmente corteses e amenos do homem contemporâneo e a por vezes inacreditável violência, crueldade, coragem e resiliência física do homem pré-cristão, basta ler os historiadores antigos. Eis dois breves trechos de Plutarco em seu livro sobre a vida de César:

 

Acílio, na batalha naval contra Massala, ao subir num barco inimigo, teve a mão direita arrancada por um golpe de espada. Ele não largou o escudo que segurava na mão esquerda, acertando os inimigos na cara, pondo todos em fuga e tomando o barco.[11]

Na África, Cipião escravizou todos os passageiros do barco que havia tomado, mas ofereceu-se a poupar a vida do questor Petro. Este declarou que os soldados de César não tinham o costume de receber o perdão, mas sim de concedê-lo, matando-se com um golpe de espada.[12]

 

Hoje, entre as pessoas civilizadas, o comportamento humano costuma ser muito mais brando. Mas esse verniz de civilização não chega a ser mérito nosso. A civilização foi, acima de tudo, o resultado do desenvolvimento da ciência e da técnica, que tornaram a vida humana muito mais fácil e, em muitos casos, acabaram com a escassez de recursos, principalmente de alimentos. Isso significa que, se ocorresse algo como uma guerra atômica, perderíamos rapidamente nossos valores humanos. No filme The Day After, que retrata uma guerra nuclear entre as grandes potências, em uma cena final, aparecem na escuridão cinzenta grupos de pessoas armadas, invasores prontos a se defender e a se apossar de tudo o que puderem encontrar.

   Usando conceitos freudianos, costumamos caracterizar a civilização como proporcional ao nível de repressão pulsional, geralmente expresso na capacidade de postergar racionalmente sua satisfação por meio de mecanismos como a sublimação. Se, em vez disso, nosso comportamento civilizado só é possível graças às facilidades de um mundo tecnológico, então estamos longe de sermos tão civilizados quanto gostaríamos de supor.

 

 



[1] Francis Bacon: Novo Organon [instauratio magna] (Edipro 2014).

[2] Karl Popper: A Lógica da Pesquisa Científica (Cultrix 2013).

 

[3] Thomas Hobbes: Leviathan, or The Matter, Forme, and Power of a Common-Wealth Ecclesiasticall and Civil (1651). Trad. port. Leviatã: Matéria, palavra e poder de uma República eclesiástica e civil (Vozes 2020)

[4] Jean-Jacques Rousseau: O contrato social (Edipro: 2017).

[5] Leviatã parte I, cap. 11.

[6] Leviatã, parte II, cap. XVII.

[7] Após 1920 Freud postulou uma pulsão de morte (Thanatos) versus uma pulsão erótica (Eros), a primeira sendo capaz de explicar o elemento destrutivo presente na natureza humana e fundado em uma suposta tendência à desagregação da matéria orgânica. Contudo, é mais fácil pensar que o pessimismo de Freud, marcado pelas vicissitudes de sua época (Primeira Guerra Mundial, Gripe Espanhola, colapso dos valores europeus...) o tenha levado a hipertrofiar o aspecto destrutivo da natureza humana, mais facilmente explicável sem essa alternativa metafísica. cf. Jenseits des Lustprinzips (1920). Trad. port. Além do Princípio do Prazer (L&PM 2022).

[8] Sigmund Freud: Três estudos sobre a teoria sexual (1905), Pulsões e seus destinos (1915). Freud não parece ter percebido que aquilo que, para ele, resulta da pulsão de morte, como, por exemplo, a autodestruição do organismo, pode ser explicado como decorrente da disposição pulsional de sobrevivência da espécie, voltada contra o organismo individual. Assim, quando, em algum lugar da Ásia, um ancião se retirava para as montanhas, de modo a morrer sem dar trabalho aos membros de seu grupo, ou quando índios de certa tribo amazônica desenvolvem o hábito de se suicidarem antes de chegarem à velhice, de maneira a se juntarem aos seus antepassados, a origem do comportamento pode bem encontrar-se em disposições pulsionais de sobrevivência da espécie.

[9] Menos civilizados parecem ter sido os europeus, que acharam por bem exterminar os Onas (ver o documentário: “Los Onas”, por Anne Chapman, 1967).

[10] Machado de Assis, Quincas Borba (Companhia das Letras 2002), cap. VI.

[11] Plutarco: Vidas Paralelas: Alexandre e Cesar (L&PM 2006), p. 127.

[12] Plutarco, Ibid, 128. 

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