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segunda-feira, 1 de junho de 2026

NIETZSCHE NU E CRU (do livro Introdução histórica à filosofia, cap. XVII)

 Draft avançado do livro a ser publicado pela Europa Editora (Roma)


 

 

 

 

XVI

NIETZSCHE: CRÍTICA À CULTURA CRISTÃ

 

Eu trato de problemas profundos como quem decide nadar no frio: entro e saio rápido. Que dessa maneira não se vai ao fundo é uma superstição dos inimigos da água fria – eles falam sem experiência própria.

Friedrich Nietzsche

 

 

Entre os filósofos do século XIX, Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) tem sido, ao lado de Marx, o mais popular. Isso se deve, em boa parte, ao fato de ele ter sido um grande poeta-filósofo. Ele escreveu Assim falava Zaratustra,[1] um livro considerado por Bertolt Brecht a maior obra lírica da literatura alemã.

   Alguns detalhes biográficos merecem destaque: Nietzsche pertencia a uma família tradicional de pastores protestantes conservadores e recebeu uma educação religiosa rigorosa. Ele era considerado o melhor aluno de história e línguas que passou pelo renomado colégio de Pförta, embora fosse fraco em matemática. Aos 12 anos, ao ouvir colegas duvidarem da história de Caio Múcio Cévola, o jovem patrício romano que, não tendo conseguido matar o rei dos etruscos que sitiavam Roma, decidiu, diante dele, queimar a própria mão no fogo para castigá-la… Para provar que isso é possível, Nietzsche decidiu repetir o feito. Diante de todos colocou a mão sobre uma vela acesa e suportou a dor sem expressar o menor protesto. Ele só foi salvo de não ter se queimado mais pela intervenção de um fiscal que, percebendo a gravidade da situação, o impediu de prosseguir com a experiência.[2] Como lembrança do episódio, Nietzsche ficou com uma grande cicatriz na mão pelo resto da vida. O episódio revela o tipo de caráter ferreamente determinado e descompromissado que ele demonstrou mais tarde, na imensa coragem com que decidiu abraçar sua vocação de filósofo. Ele perdeu a fé aos 20 anos, após ter lido Feuerbach, quando se lhe tornou óbvio que a religião é uma ilusão.

   Aos 24 anos, Nietzsche tornou-se professor de filologia em Basel, na Suíça, sem sequer ter de defender uma tese de doutorado. Vivendo em Basel, ele foi pessoalmente influenciado por Richard Wagner, um crítico (um tanto imoral) da moralidade, com quem compartilhava uma visão aristocrática do mundo.

   Contudo, sua inspiração maior veio de um livro escrito pelo filósofo pessimista, Arthur Schopenhauer, que ele encontrou por acaso em uma livraria de usados: O mundo como vontade e representação.[3] Para Schopenhauer, a coisa em si kantiana deveria ser substituída pela Vontade (Wille), entendida como uma força metafísica cega, caótica e destrutiva, que rege o mundo. Em oposição a Hegel (considerado por ele um impostor), o real é irracional e o irracional é real. O ser humano, por sua vez, é um escravo da Vontade, o que torna a sua vida inevitavelmente miserável. Por não possuir nem meta nem um Deus que a direcione, a Vontade leva o homem ao ódio, à vingança, à crueldade, à destruição, às guerras e a todas as tragédias de sua desgraçada condição.

   Para Schopenhauer há só três meios de fazer frente ao domínio da Vontade: pelo consolo da arte, pelo consolo da compaixão e pelo consolo da ascese. O consolo da arte faz-nos esquecer, por algum tempo, o jugo da Vontade. O consolo da compaixão nos liberta dos efeitos do egoísmo, que nos conduz a ações que geram um sentimento de culpa persistente e autodestrutivo. E o consolo da ascese nos permite renunciar a tudo aquilo a que as paixões nos ligam. (Uma renúncia um tanto improvável, dado que, para que a vontade seja eliminada, parece ser preciso empregar a própria vontade.[4])

   Nietzsche acabou rompendo com ambos. Ele rompeu com Wagner por suas concessões oportunistas ao cristianismo. E também rompeu com a filosofia de Schopenhauer por considerá-lo um niilista que buscava um substituto à vida. Nietzsche concordava com a ideia de que a vontade rege o mundo, entendendo-a como vontade de poder (Wille zur Macht). Mas discordava da ideia de que a vontade devesse ser evitada. Seu mote era amor fati: amor ao destino. Precisamos ter a coragem de “dizer sim à vida”, defrontando-nos abertamente com sua falta de sentido, com sua natureza cega, caótica e, ao final, sempre destrutiva, afirmando o destino, qualquer que ele seja! A plenitude da vida era, para ele, o valor fundamental, maior do que o do conhecimento, o que faz sentido, dado que a função última do conhecimento é possibilitar a sobrevivência dos organismos. A degeneração de sua época decorria do fato de terem colocado o conhecimento acima da vida. Mas as forças vitais terminarão por vencer, inevitavelmente, por meio de embates cataclísmicos. Como ele escreveu ao final de Ecce Homo:

 

...se a verdade entra em luta contra a mentira milenar, haverá convulsões, terremotos, deslocamentos de montanhas e de vales, coisas que nunca se imaginaram nem mesmo em sonhos. Então, o conceito de política se absorverá por completo em uma luta de espíritos, e todas as formações potenciais da antiga sociedade irão para os ares, porque todas se assentam na mentira: haverá guerras como nunca houve na terra. Somente depois de mim começará, no mundo, a grande política.[5]

 

Já se chegou a dizer que, desse modo, Nietzsche previu as grandes catástrofes sociais do século XX, como os totalitarismos e as guerras mundiais. Um exagero! Mas não se pode negar que havia presciência em seu pessimismo.

   A vida pessoal de Nietzsche foi marcada por insucessos que o impulsionaram rumo à filosofia. Quando estudante, encontrou um colega de outro grupo e, educadamente, desafiou-o a um duelo. O outro aceitou. Eles lutaram até que Nietzsche foi ferido no nariz, decidindo ambos – para sua sorte – interromper o combate. Em 1867 foi aceito para servir na cavalaria. Num acidente de equitação, feriu-se gravemente, o que o levou a ser afastado da vida militar.

   Quando estourou a Guerra Franco-Prussiana (1870), ele alistou-se voluntariamente como enfermeiro por senso de dever e solidariedade. Ao cuidar dos soldados gravemente feridos, ele contraiu difteria e permaneceu hospitalizado por um mês, recuperando-se depois em casa. A experiência da guerra foi traumática e o inspirou a escrever seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia (1872), recebido com frieza por seus colegas filólogos, incapazes de perceber que se tratava de uma obra filosófica – um espaço de especulação no qual ideias, as mais inesperadas e insólitas, ganham o direito de ser testadas em um arriscado jogo dialético. Nesse livro Nietzsche sugeriu que a arte era o meio pelo qual os gregos se reconciliavam com a vida, introduzindo uma distinção fundamental entre duas tendências da arte grega: a apolínea e a dionisíaca.

   A arte apolínea era a que se expressava na escultura e na arquitetura, guiada pela harmonia, organização e medida. Já a arte dionisíaca era intensa, cruel e destrutiva, manifestando-se na música e na embriaguez dos festivais dionisíacos. A tragédia grega surgia da conjunção entre o apolíneo e o dionisíaco. O ser humano, como uma ponte entre os animais e os deuses, possui em si tanto o dionisíaco (animal) quanto o apolíneo (divino). É essencial à vida que ambos os aspectos de sua natureza sejam preservados. (Na linguagem freudiana, diríamos que o Ego deve intermediar entre o Id e o Superego.)

   Outro livro relevante, escrito enquanto ele ainda ensinava, foi Humano, demasiado humano (1878). Por essa época, a saúde de Nietzsche, que nunca havia sido boa, estava mais debilitada do que nunca. Sofria de crises constantes de enxaqueca, distúrbios visuais, crises digestivas e episódios de exaustão nervosa. Como consequência, e também devido à sua crescente rejeição à vida acadêmica, ele acabou por renunciar ao cargo de professor e passou a viver de uma pequena pensão (1879). Com ela, pôde dedicar-se à escrita durante os dez anos seguintes, vivendo em pensões baratas na Suíça, na Itália e na França.

   Em Roma, ele foi apresentado por Paul Rée a Lou Andreas Salomé, uma jovem de 21 anos, bela, culta, independente e de notável inteligência, por quem se apaixonou. Ela rejeitou duas propostas de casamento de Nietzsche e, para livrar-se de sua insistência, foi viver em Berlim com o amigo Paul Rée, o que o deixou devastado. Como ele escreveu ao seu amigo Franz Overbeck:

 

O último naco da vida foi o mais difícil que já tive de mastigar, e ainda é possível que eu engasgue com ele… A menos que descubra o truque alquímico para transformar essa imundície em ouro, estarei perdido.[6]

 

De fato, ele encontrou o truque alquímico ao escrever a extraordinária poesia filosófica intitulada Assim falava Zaratustra (1883-1885). Nos anos que se seguiram, ele escreveu um bom número de livros, publicados por conta própria e praticamente sem qualquer recepção. Em ordem cronológica, os outros livros principais foram: Gaya Scientia (1882), Além do bem e do mal (1886), A genealogia da moral (1887) e O crepúsculo dos ídolos (1888). Em seu último livro, uma curta e brilhante autobiografia intelectual intitulada Ecce Homo (1888), ele já dava mostras de delírio de grandeza. Em 1889, aos 45 anos, Nietzsche enlouqueceu, abraçando em lágrimas um cavalo que era vergastado numa rua de Gênova. Ele viveu os próximos dez anos junto à sua mãe e irmã, sem recuperar a razão e com paralisia cerebral progressiva, supostamente causada por sífilis.

   É importante perceber que a transformação de Nietzsche em filósofo ocorreu gradualmente, impulsionada por seus infortúnios pessoais. A experiência da guerra, a má saúde, a incompreensão dos colegas, a decepção com Wagner, a infelicidade no amor, incompatibilidades familiares... Tudo convergiu para o amadurecimento pessoal e para a sublimação de suas energias na produção intelectual.

   Como Heráclito e Wittgenstein, Nietzsche escreveu em forma de aforismos. Neles encontramos um pensador violentamente crítico e quase assistemático. Além disso, ele foi um pensador dialético no sentido mais extremo da expressão. Em uma página, ele argumentava veementemente a favor de uma ideia e, algumas páginas depois, defendia o que parecia ser o oposto. Era uma pessoa de temperamento oscilante que radicalizava suas ideias até o limite como método investigativo, por mais inaceitáveis que parecessem, sem compromisso com nada além de sua consciência intelectual. Além da profundidade crítica, essa honestidade radical foi uma de suas maiores qualidades. A outra foi o estilo incomparável.

   Apesar da dificuldade de se retirar uma filosofia coerente dos escritos de Nietzsche, é possível dizer que ele foi acima de tudo um filósofo da vida e um maximamente importante crítico da moral, da visão de mundo e da espécie de filosofia por ele denominada “cristã.” No que se segue, quero expor o que me parecem as vertentes principais de seu pensamento, tentando apontar seus pontos mais altos e também suas sérias e inevitáveis deficiências, uma vez que me parece ser pela consideração de ambas que nos tornamos capazes de chegar a uma avaliação crítica minimamente equilibrada.[7]

 

1

 

Freud. Vale a pena abrir aqui um parêntese para notar o paralelo entre as formas de arte apolínea e dionisíaca, de um lado, e os mecanismos de deslocamento (Verschiebung) e de condensação (Verdichtung), de outro. Esses mecanismos foram esclarecidos por Sigmund Freud[8] como os dois mecanismos fundamentais do processo primário (Primärvorgang). Quero explicá-los de modo a mostrar como podem ajudar a esclarecer a distinção traçada por Nietzsche.

   Para Freud, os processos de pensamento na vida prática, especialmente no pensamento científico, ocorrem por meio do que ele chamava de processo secundário de pensamento (Sekundärvorgang). Neles, as cargas afetivas (Besetzungen) se ligam firmemente às suas representações (Vorstellungen) próprias. É pela pressão dessas cargas afetivas ou emocionais que as representações se tornam processos de pensamento conscientes.

   Mas o mesmo não acontece na produção de sintomas neuróticos, de sonhos, de chistes, de obras de arte e até da própria filosofia. Aqui vige o processo primário de pensamento. Nele, as cargas afetivas passam livremente de uma representação para outra que lhe esteja de algum modo associada. É por meio disso que, durante o sono, com o afrouxamento da censura, as cargas associadas a representações reprimidas no inconsciente passam à consciência. Elas se ligam a outras representações, similares ou associadas, capazes de burlar a censura e de tornar-se conscientes, do que resulta no sonho. Essa passagem só é possível por meio de mecanismos de deslocamento ou de condensação. Pelo deslocamento, essa transferência ocorre quando a carga de uma representação inconsciente é transferida para outra representação associada, capaz de tornar-se consciente (em um exemplo de Freud, uma paciente judia sonha em entregar seu pente a um jovem não judeu que ela ama, em vez de entregar-se amorosamente a ele). Já a passagem para a consciência se dá pela condensação quando mais de uma representação interligada cede sua carga a uma delas, que, por sua vez, alcança a consciência (esse seria o caso se a paciente sonhasse ter o jovem esquecido seu chapéu na casa dela, o chapéu estando no lugar da pessoa inteira).

   Freud notou que, enquanto o deslocamento ocorre com representações verdadeiramente inconscientes, que não podem passar à consciência devido à censura, a condensação ocorre com representações pré-conscientes, que são facilmente capazes de tornar-se conscientes. Ora, aqui se encontra a chave para a diferença psicológica entre o apolíneo e o dionisíaco na arte. O apolíneo depende do deslocamento. Daí que o conteúdo representacional final se apresenta limpo, puro, sublime, sem traços aparentes de material proibido, como costuma ser o caso quando esse material é inconsciente. Exemplos seriam esculturas gregas como a Vitória de Samotrácia.  Na arte dionisíaca, é diferente: aqui o inconsciente pode fluir livremente para a consciência por meio de condensações, resultando no caos, no êxtase, na violência crua que experienciamos, por exemplo, em uma tragédia como a de Medéia – a feiticeira que mata os filhos para vingar-se do marido. Pode parecer que não seja sempre assim, mas a razão é que, na obra de arte, os processos são complexos e costumam ocorrer em uma diversidade de camadas e sobre os mais diversos materiais.[9]

   Esse entendimento nos permite exemplificar para além de Nietzsche. Por exemplo, se compararmos as tragédias Hamlet e Macbeth, parece que na primeira predomina o apolíneo (deslocamento: conflitos inconscientes inibem as ações de Hamlet), enquanto na segunda predomina o dionisíaco (condensação: Macbeth tem plena consciência de seu crime). Na pintura medieval, Giotto parece apolíneo se comparado a Hieronymus Bosch, que é claramente dionisíaco. No Renascimento as pinturas de Rafael Sanzio parecem ser as mais apolíneas (deslocamento), enquanto as de Caravaggio não cessam de mostrar algum elemento inevitavelmente dionisíaco (condensação). O movimento impressionista (vide Renoir e Claude Monet) tem muito de apolíneo (deslocamento), enquanto o expressionismo (de Van Gogh a Kokoschka, culminando em Francis Bacon) está muito mais voltado para o conflito dionisíaco (condensação). Uma obra de Flaubert (predomínio do deslocamento) parece apolínea em comparação com a de Baudelaire, enquanto as obras de Scott Fitzgerald e John Steinbeck (deslocamento) parecem apolíneas quando contrapostas às obras claramente dionisíacas de Henry Miller e Charles Bukowski (condensação). Uma investigação detalhada da questão demandaria um estudo à parte.

 

2

 

A gênese dos valores morais. Para compreendermos Nietzsche, a primeira coisa a notar é que se trata de um filósofo elitista. Ele acreditava, senão em uma aristocracia de sangue, ao menos em tipos humanos superiores. Por isso, ele rejeitava com veemência tanto a democracia quanto o socialismo. Ele distinguia entre “homens superiores” (como Goethe, Beethoven e Napoleão) e “homens inferiores”, a grande maioria, os “plebeus”, o “populacho”, as “moscas da praça pública.” Como notou Russell, a distinção entre homens superiores e inferiores era, para ele, de cunho biológico, o que significa que seu elitismo tinha algo de racial, ainda que ele acreditasse que as raças se tivessem misturado muito, que certas misturas pudessem ser fortalecedoras, que rejeitasse duramente o antissemitismo e que considerasse os judeus superiores aos alemães, embora nem tanto... Sob a inelutável influência de seu tempo, ele chegou mesmo a imaginar a existência passada de uma originária raça ariana constituída de homens superiores:

 

O latim malus (que eu relaciono a mélas [negro] poderia designar o homem plebeu de cor morena e de cabelos pretos (hic niger est), especialmente o autóctone pré-ariano do solo itálico que se distinguia muito, pela sua cor, da raça dominadora e conquistadora dos ruivos arianos (...) “o bom”, “o nobre”, “o puro”, significava antigamente “o de cabelos ruivos” em oposição ao nativo de cabelos negros (...) [Na Europa em geral] no essencial a raça [superior] submetida [pela inferior] terminou por adquirir predomínio na sua cor, na forma curta do crânio, talvez até mesmo nos instintos sociais e intelectuais (...).[10]

 

Na Alemanha do século XIX, o racismo não poupava sequer os filósofos. Mas também nisso Nietzsche foi original: ele esposou ideias raciais ao seu próprio modo. A ideia de um prolongado processo de mistura racial o levou a enfatizar fatores culturais. Assim, pessoalmente, ele se considerava um europeu cosmopolita que odiava o antissemitismo, rejeitava a guerra e ironizava o nacionalismo racista alemão como fruto do ressentimento. Como escreveu em Além do bem e do mal: “Os alemães têm hoje a presunção de serem a raça pura – essa é a mais ridícula falsificação histórica” (sec. 251)

   Não obstante, a admissão da existência dessas duas estirpes (para não dizer “raças”) humanas originárias (que, para ele, incluíam guerreiros japoneses, árabes e vikings…) nos ajuda a entender melhor a tese central de Nietzsche acerca da genealogia daquilo que ele via como uma perversa invenção humana.

   Para ele, existem dois tipos originários de moral: a dos senhores ou nobres e a dos escravos ou servil.[11] Essas duas formas de moral se distinguem claramente uma da outra, embora sejam capazes de conviver simultaneamente em um mesmo grupo humano e até em uma mesma pessoa, posto que as duas estirpes têm se misturado há mais de dois mil anos… Para ele, a moral ativa dos senhores só era claramente distinguível nas tribos guerreiras da Grécia dos tempos homéricos.[12] Segundo ele:

 

Para a moral dos senhores ser bom é ter coisas associadas à felicidade, como nobreza, honestidade, bravura, autodomínio, coragem, força física, crueldade para com os inimigos, beleza, saúde, apego à verdade, lealdade para com os semelhantes, riqueza e poder. Já ser mau é ser covarde, medroso, humilde, mesquinho, vingativo, inconfiável, pobre, fraco e doente, objeto de aversão mais do que de ódio.

 

Essa moral dos senhores tem pouco a ver com o que hoje costumamos chamar de moralidade, o que justifica o epíteto de imoralista que Nietzsche se deu. Ele chegou a sugerir que uma oposição entre o bom (= nobre) e o mau (= desprezível), típica da antiga nobreza grega, é anterior à nossa oposição moral decadente entre o bem e o mal.

   Para Nietzsche, a moral, no sentido em que geralmente usamos a palavra – nossa moral cristã ocidental – é a dos escravos ou plebeus. Essa moral é reativa em vez de ativa. Através dela, aquilo que, na moralidade dos senhores, seria um defeito humano, como a debilidade e a fraqueza de espírito, passa a ser considerado um valor positivo. O orgulho, que era uma qualidade da nobreza da antiga Grécia e não dos escravos, passou a ser um defeito. E a piedade, que antes era uma fraqueza, passou a ser vista como de grande valor, o mesmo acontecendo com a humildade, a simpatia, a benevolência, a renúncia, a abnegação, a obediência e até mesmo a estupidez.[13]

   Nietzsche ofereceu uma explicação psicológica para a emergência e o atual predomínio da moralidade dos escravos. Para ele, o que aconteceu historicamente foi que, na Judéia dominada pelos romanos, o povo dominado, sendo inferior e oprimido, precisava inventar uma moral degenerada – a assim chamada moral cristã – por meio da qual justificava seu lugar subalterno como uma forma de compensação emocional que tornasse a vida suportável. Eles defendiam que aquilo que caracterizava seu comportamento – renúncia, humildade, fraqueza de espírito, obediência, amor ao próximo – eram as verdadeiras virtudes, enquanto aquilo que se mostrava no comportamento dos seus algozes, a coragem, o autodomínio, a bravura, o orgulho, a saúde, a riqueza, o poder… eram defeitos. A isso, o judaísmo cristão acrescentou uma mitologia poderosa, segundo a qual os escravos seriam recompensados após a morte com a entrada no reino dos céus, enquanto seus senhores seriam punidos com o fogo eterno…

   Nietzsche considerou o cristianismo uma ideia genial dos judeus. Através dela, os escravos, com sua moral degenerada, venceram, pois acabaram por impor sua moral servil aos próprios senhores. Com a ascensão do cristianismo, tal como professado por Paulo de Tarso, foi dada voz social à moralidade reativa dos escravos e plebeus, à moralidade cristã, à moralidade do rebanho, de tal maneira que ela se universalizou impondo ao mundo sua mentira. Como ele escreveu:

 

Inclinemo-nos ante o fato consumado: o povo venceu, “os escravos”, “o populacho”, “o rebanho”, chamai-o como quiserdes. (...) Foram abolidos os amos, triunfou a moral do povo. Se disseres que foi um veneno (porque misturou as raças entre si), não digo o contrário, sem dúvida, eles conseguiram esse envenenamento.[14]

 

Desse modo, Nietzsche viu a ascensão da moralidade cristã como um sintoma da decadência, um adoecimento da cultura que cobriu os últimos dois mil anos da civilização ocidental. A moral dos escravos renegou os valores nobres dos homens superiores, de modo a dominá-los e domesticá-los. Através dela buscou-se transformar o lobo em cordeiro, quando é bem sabido que o ser humano não degenerado é um predador.

   Segundo Nietzsche, os senhores só precisavam ser civilizados entre si: em suas relações eles se mostravam engenhosos, senhoris, delicados, fiéis, cavalheirescos e bons amigos, apesar de suspeitosos. Sentiam obrigações entre si, mas não com a plebe. Por isso, fora de seu meio, eles eram aptos a se tornarem animais selvagens:

 

...monstros alegres que saem de uma horrível série de assassinatos, incêndios e violações, com tanto orgulho e serenidade de alma como se tratasse de uma brincadeira de estudantes, e persuadidos de que deram aos poetas matéria para celebrar e cantar. No fundo dessas raças aristocráticas é impossível não reconhecer a besta-fera; a magnífica besta loira lubricamente errante em ávida busca de espólios e vitórias; este fundo de bestialidade mostra-se de quando em quando; necessita de descargas; o animal tem de surgir novamente; tem de voltar ao seu ambiente – nobreza germânica, japonesa, heróis homéricos, vikings escandinavos… Todas as raças nobres deixam vestígios de barbárie à sua passagem…[15]

Essa “audácia” das raças nobres, audácia louca, absurda, espontânea; a própria natureza de suas empresas imprevistas e inverossímeis; a sua indiferença e o seu desprezo da comodidade de seu corpo, do bem estar, da vida; a alegria terrível e profunda em toda a destruição; os prazeres excessivos da vitória e da crueldade; tudo isso, na imaginação das vítimas, se resumia na ideia de “bárbaro”, “maligno”, “godos”, “vândalos”.[16]

 

Seria um mal-entendido crer que Nietzsche pretendia defender a barbárie. Ao contrário, ele valorizava sobretudo a ideia de satisfação da vontade de poder por meio da auto-superação, espiritualização e sublimação. A figura da chamada “besta loira” representava, para ele, o homem saudável em seu estado natural — ainda não sublimado pela civilização. No entanto, isso não altera sua visão da natureza humana como intrinsecamente egoísta e orientada por impulsos de dominação.

   A estirpe superior era por ele concebida como sobretudo ativa, lutadora e trabalhadora, aí encontrando sua felicidade. Essa felicidade, notou ele, está em profunda contradição com a felicidade das estirpes inferiores:

 

...aos impotentes, aos obstruídos, aos de sentimentos hostis e venenosos, a felicidade aparece sob a forma de estupefação, de sonho, de repouso, de paz, de sábado, de descanso do espírito, de estender dos ossos, de passividade.[17]

 

Contra isso, deve-se notar que parece plenamente possível conceber coisas como sonho, repouso, paz de sábado e descanso do espírito sem associá-las à impotência, à humildade servil, nem a sentimentos hostis e venenosos. Isso nos faz perguntar até que ponto Nietzsche permaneceu motivado pelas aleatoriedades espartanas de sua própria educação.

 

3

 

Crítica. As citações acima são importantes porque expõem claramente a combinação conflituosa de ideias que fundamenta a crítica de Nietzsche à moralidade cristã. Parece haver algo de certo em sua análise, mas também é evidente que há algo de errado! A seguir, apresento uma explicação sobre o que deu errado.

   O primeiro ponto é que as suas supostas diferenças categoriais originárias entre diferentes raças ou estirpes são improváveis. Virtudes como orgulho, coragem, autodomínio… parecem perfeitamente compatíveis com humildade, simpatia, benevolência e até mesmo com abnegação e renúncia. Para reforçar essa ideia, recorro aos dicionários que associam os seguintes conceitos ao de nobreza moral, colocando em itálico os que pertencem ao que Nietzsche chamou de moral dos escravos:

 

Elevação moral, honra, orgulho, coragem, dignidade, integridade, retidão, grandeza de alma… altruísmo, tolerância, compaixão, gentileza, bondade, generosidade, magnanimidade, agir ou pensar desinteressado...

 

A caracterização sugere que aquilo que geralmente entendemos como “nobreza moral” reúne um conjunto híbrido de qualidades – algumas que Nietzsche imputou aos senhores, outras aos escravos. Isso faz parecer que ele não conseguiu conferir um sentido suficientemente distinto ao seu conceito de nobreza moral como atributo de uma estirpe superior, de maneira a estabelecer a existência de duas moralidades essencialmente e originariamente separadas.

   A consideração anterior se fortalece quando analisamos a provável genealogia do erro cometido por Nietzsche. Há dois aspectos principais a serem destacados: um sociobiológico e outro histórico.

   O primeiro é que as diferenças “de estirpe” por ele identificadas parecem ser muito mais intra-raciais do que inter-raciais. Ou seja, elas existem, mas encontram uma explicação sociobiológica mais plausível. Por razões evolutivas, os membros de um mesmo grupo social precisam apresentar neurodiversidade, isto é, variações naturais que habilitem a cada indivíduo realizar melhor uma função específica. Complementando-se mutuamente, essas diferenças maximizam o rendimento coletivo (Cap. VIII, sec. 3 e 4). É assim que, por exemplo, entre os membros de uma tribo indígena há o cacique, mas também o caçador, o guerreiro, o feiticeiro e as mulheres, cada qual exercendo a sua melhor vocação. O cacique necessita de autodomínio e capacidade decisória; o guerreiro de força e coragem; o caçador de destreza; o feiticeiro de inteligência e astúcia; as mulheres de habilidades sociais e compaixão... A distribuição genética aleatória também gera extremos patológicos, inúteis ou mesmo nocivos ao grupo social, como nos casos de autismo severo ou psicopatia. É claro que, sob determinadas pressões históricas e ambientais, um desses tipos pode passar a exercer um papel dominante, levando suas características ao extremo. (Como notou Ernst Kretschmer: “Em tempos normais, estudamos os psicopatas; em tempos de guerra somos dominados por eles.”)

   O segundo ponto refere-se ao elemento sócio-histórico que produz a espécie de violência e crueldade que Nietzsche acreditava constituir uma forma originária de nobreza. Uma consideração cuidadosa e hoje bastante incontroversa da história mostrará que a diferença mais relevante não estava entre raças ou estirpes nobres e plebeias, mas principalmente entre povos “amaciados” pela vida sedentária e civilizada e povos guerreiros, “endurecidos” por situações de grande escassez ou conflito.[18] Isso ajuda a explicar as invasões bárbaras contra um império romano enfraquecido que adotou o cristianismo como forma de suportar suas crescentes contradições internas.[19]

   O ponto pode ser ilustrado pelas invasões dos Vikings na Idade Média. Eles conseguiram chegar a Paris porque as privações de suas vidas os tornaram muito mais endurecidos e belicosos do que os povos sedentários que ali habitavam. Fatores raciais significaram pouco mais do que um acidente histórico. Outro caso foi o da invasão do Ocidente pelos mongóis no século XIII. Gengis Khan conseguiu unificar tribos nômades guerreiras, que normalmente lutavam entre si, formando exércitos capazes de conquistar grande parte do mundo, da Sibéria ao sul da China, da Coreia à Ucrânia, chegando até a Polônia. Nem ele nem seus generais pertenciam às supostas “raças nobres” romantizadas por Nietzsche. Eram líderes agressivos, dominadores e hábeis, que, por razões específicas, foram requisitados para desempenhar papéis extremos.

   Se for retirado o elemento inter-racial e forem considerados exemplos reais, o que Nietzsche descreveu como homem nobre, superior, violento, destrutivo, não passava de um guerreiro selvagem e desprezível, amargado e endurecido pela escassez, em vez de “adoçado” pela civilização. Eram tribos guerreiras dispostas a tudo. Mas isso nos faz questionar: o que intitulava Nietzsche a considerá-los representantes da forma originária e insublimada de superioridade e nobreza? O simples fato de os guerreiros da antiga Grécia terem sido romanticamente exaltados nos poemas de Homero é insuficiente. Se eles eram superiores apenas na força, na brutalidade e na estratégia, então não parece restar nada digno do nome. (Henry Miller não estava errado ao denunciar a Ilíada como uma “carnificina”.)

   Afora isso, Nietzsche nunca se perguntou sobre os valores de culturas não ocidentais, nem se a generalização do altruísmo cristão não teria uma base oculta na própria natureza humana, reprimida até o ponto de ruptura nas civilizações do mundo antigo, mas já existente mesmo nos seres humanos anteriores a essas civilizações.

   Minha conclusão é que Nietzsche só conseguiu sustentar sua dicotomia por ter ignorado as distinções sociobiológicas e sócio-históricas recém-consideradas. Adicionando a isso os preconceitos aristocráticos, o racismo e os valores militaristas agressivos e altamente repressivos de sua própria cultura, ele acabou por criar uma distinção simplificada entre espíritos nobres e servis, a partir da qual originou o que acreditava serem duas moralidades essencialmente distintas.

   A melhor solução, se quisermos preservar o que resta de verdadeiro, é considerar as duas morais nietzscheanas como aspectos de uma mesma moralidade que sempre existiu, mas que, nos grandes impérios da Antiguidade, como no Império Romano, no que diz respeito a elementos altruístas, foram depreciados e que, com o cristianismo, foram revigorados e enfatizados.

   Sob essa perspectiva, o que o cristianismo realmente conseguiu com sua doutrina do pecado original, do castigo e da redenção ultramundanos foi enfatizar os aspectos altruístas – e não apenas reativos – inerentes ao comportamento humano. Essa ênfase deve ter sido útil à manutenção do equilíbrio social durante o entardecer do Império Romano, acabando por se tornar o meio de sobrevivência da civilização ocidental no mundo medieval. Mesmo contendo uma mitologia simplificadora e repressiva, o cristianismo contribuiu para sublimar o comportamento humano ao introjetar nele valores que, se não eram inéditos, haviam sido esquecidos e deturpados no mundo romano.

   Para melhor justificar esse ponto, é preciso retomar a distinção entre as disposições pulsionais de sobrevivência do indivíduo e aquelas voltadas à sobrevivência da espécie, um ponto de maior importância se quisermos entender a diferença entre egoísmo e altruísmo humanos (Cap. VIII, sec. 3). As disposições pulsionais de sobrevivência da espécie se tornam claramente visíveis no caso do pai que morre tentando salvar os filhos, entre inúmeros outros casos que dispensam enumeração. Por definição, elas são altruístas, enquanto as disposições pulsionais voltadas à sobrevivência do indivíduo são egoístas. A distinção pode ser mantida, mesmo que nossas ações sejam geralmente movidas pela combinação de ambas. O problema com Nietzsche é que, no afã de se opor ao altruísmo cristão e motivado por uma hipervalorização “adleriana” do poder, ele exagerou seu caso a ponto de se transformar em uma espécie de defensor do egoísmo ético.

   Para ele, o que nos move é a vontade de poder (Wille zur Macht). Em seu originário estado bruto, isso se manifesta nos monstros alegres da passagem citada e nos heróis de Homero admirados por Nietzsche. É verdade que sua atenção estava muito mais voltada para a forma espiritualizada e sublimada dessa vontade, entendida como uma força criativa que impulsiona o ser humano a superar-se a si mesmo na busca de autoaperfeiçoamento – dimensão na qual ele próprio se via como exemplo. Ainda assim, a vontade de poder continua tendo seu lugar inexplicado como motivação única e originária. Por que não vontade de se aperfeiçoar, de beneficiar, de viver? Ora, porque, para ele, o poder tinha a ver com a dominação, o que remetia à ideia de que o ser humano é, por natureza, um animal predador. O resultado é que, com a redução de todos os nossos impulsos a uma única e originária vontade de poder, ele não tinha como dar conta do elemento altruísta contido nas disposições pulsionais ligadas à sobrevivência da espécie, que se via forçado a considerar “reativas”. Não lhe ocorria que seres humanos pudessem sentir compaixão por tragédias humanas ocorridas do outro lado do mundo, ou que, como notou Russell, fossem capazes de sentir “amor universal.”[20]

 

4

 

História. O quadro anterior se completa quando distinguimos entre diferenças de moralidade intrassociais e intersociais. A relação intersocial sempre foi egoísta e amoral, envolvendo agressividade, desde a defesa de território por grupos de animais até as tribos paleolíticas, passando pelos conflitos entre os grandes impérios da Antiguidade e chegando mesmo aos dias de hoje. Já a moralidade intrassocial tende a ser altruísta, como demonstram exemplos de comunismo primitivo. Contudo, ela se tornou egoísta e agressiva com o surgimento dos grandes impérios escravistas da Antiguidade, a exemplo do Império Romano, marcado por divisões de classe.

   Isso nos leva a pensar que o cristianismo, com sua “moral de escravos”, não surgiu como algo inteiramente novo, nem apenas como resultado do ressentimento das estirpes inferiores, mas também como forma de restauração da humanidade primitiva. Ou seja, como uma correção que se fazia necessária nas circunstâncias de perversa e brutal estratificação social característica da ordem forçada do colonialismo romano. Parece haver, nesse ponto, uma generalização indébita por parte de Nietzsche, que vai da constatação de uma amoralidade intersocial “egoísta”, ainda hoje comum, à amoralidade intrassocial exemplificada por Roma. Isso contribui para a impressão de que o egoísmo e o que ele chamou de vontade de poder, mesmo que sublimada, fossem as únicas forças que regem a natureza humana.

   Tudo isso nos conduz novamente à já notada sugestão de que a ascensão do cristianismo pode bem ter ocorrido mais como um pacto regenerador, capaz de diminuir o ritmo da decadência das instituições que constituíam o império. Com a queda de Roma no século V e a divisão da Europa ocidental entre tribos bárbaras, o cristianismo teria ganhado força como intermediário capaz de viabilizar um melhor equacionamento das relações de poder. Afinal, as tribos bárbaras tanto sabiam conquistar quanto não sabiam governar e lutavam entre si. A nova moral monoteísta deontológica, apoiada em uma mitologia que estimulava mais o altruísmo do que o egoísmo, era oportuna. Ela beneficiava o servo, que acreditava que Deus lhe daria compensação por meio de uma justiça póstuma; ademais, ele tinha um senhor que, uma vez convertido, também era temente ao mesmo Deus, tendo, por isso, o dever de tratá-lo com alguma humanidade.

   Aí estava o princípio de um acordo pacificador, que acabou por se fazer entre os nobres e os servos da gleba, um acordo moralmente muito superior ao jugo forçado que existira antes entre os senhores romanos e os escravos, que não possuíam direito algum. Assim, mesmo repousando em uma ilusória mitologia do além-mundo, o cristianismo certamente contribuiu decisivamente para a produção de um historicamente imenso progresso moral entre os povos ocidentais, ao alimentar o altruísmo social ao irmanar todos os seres humanos diante de um mesmo pai celestial. A Europa medieval era pobre e fragmentada em pequenos burgos. Mas era mais civilizada do que a Europa do mundo antigo, aos poucos deixando para trás a marca silenciosa e terrível da escravidão, comum às civilizações pré-cristãs.[21]

   Nietzsche percebeu claramente que, em sua época, o cristianismo estava chegando ao fim como influência intelectual predominante. Ele também notou que o progresso moral do cristianismo cobrava seu preço por meio de uma forma rudimentar de repressão pulsional. As pessoas precisavam se conformar a regras deontológicas simplistas, como os Dez Mandamentos, que deveriam valer para todos em situações as mais diversas. Por sua inflexibilidade, essas regras, em casos específicos, aviltavam o ser humano, exigindo formas irracionais de repressão pulsional e uma aceitação passiva do destino.

   A transvaloração (e suposta anulação) dos valores, preconizada por Nietzsche, tem-se mostrado improvável e desnecessária. Afinal, existem hoje inúmeros ateus-agnósticos cujas atitudes preservam o que há de melhor na ética cristã. Ao que parece, a mitologia cristã, aliada ao progresso material, cultural, científico e técnico, acabou por criar as condições para a emergência de uma moralidade superior, que se tornou, ela mesma, independente de suas origens religiosas. Ou seja, não é verdade que “se Deus não existe, tudo é permitido”, como acreditava Dostoievski. Seres morais não religiosos não precisam ser super-homens ou discípulos do Zaratustra nietzscheano, e menos ainda saudar a moralidade violenta da nobreza grega que lutou em Troia.

   Em meu juízo, o principal problema com Nietzsche é que ele era ignorante em ética filosófica e estava muito longe de articular uma filosofia moral capaz de substituir a deontologia e a ética da virtude cristãs, exceto pela tentativa anacrônica de ressuscitar os valores homéricos. Uma ética filosófica mais refinada seria, creio, um utilitarismo de dois níveis, fundado em disposições próprias à natureza humana e que ainda hoje carece de um desenvolvimento detalhado (ver Cap. VI, sec. 6; Cap. IX, sec. 2). Adotá-la poderia ser uma alternativa válida para leitores de Nietzsche que pretendam libertar-se da deontologia cristã sem o risco de cair em um niilismo relativista. Ela seria capaz de explicar por que o criador de novos valores não precisa se tornar um imoralista.[22]

    Resumindo: valores como o orgulho e a honra, devidamente limitados, não precisam ser separados de valores cristãos como os de humildade e piedade, razoavelmente considerados. Ou seja, uma moralidade pós-cristã pode bem incorporar, em si, aspectos aceitáveis tanto da “moral do rebanho” quanto da “moral dos senhores”, desfazendo a irreconciliável oposição nietzscheana, com suas consequências desagradáveis, conflitantes e potencialmente trágicas.[23]

 

5

 

Ascetismo e nihilismo. O que Nietzsche tinha de mais importante a dizer foi a sua crítica aos excessos da moral cristã, sobretudo em seu traço mais marcante, que ele chamou de ideal ascético.[24] Esse ideal produz a repressão dos desejos instintivos naturais em nome de sua ilusória realização sublimada, geralmente projetada em um além-mundo sobrenatural. Para o cristão, a vida é purgação do pecado original. “Estamos aqui para sofrer” (Tolstoy). Por isso ele deve seguir um ideal ascético, aliando-se de forma masoquista à pobreza, à humildade, à castidade e a outras formas de autonegação, chegando, em alguns casos, à autoflagelação e ao auto-sacrifício – práticas que visam obter um prazer doentio e pervertido. A função do ideal ascético é dar sentido ao sofrimento humano, tornando-o suportável, pois o sofrimento sem sentido é insuportável. Essa seria a explicação para atitudes aparentemente suicidas, que, na verdade, são formas veladas de preservar a vida.[25]

   Devemos distinguir entre o ascetismo imposto e o ascetismo escolhido.[26] Uma pessoa que acredita no que os religiosos ascéticos lhe aconselham e, por isso, inflige a si mesma sofrimento, é vítima de um ascetismo imposto. Mas o ideal ascético também possui formas mais refinadas e positivas. Um cientista que dedica seus esforços à investigação – e mesmo um filósofo como o próprio Nietzsche – precisa investir-se de ascetismo, de modo a realizar seu propósito, podendo fazê-lo racionalmente.

   Na Alemanha de Nietzsche, o cristianismo já se encontrava em crise nos meios intelectuais. Daí seu diagnóstico da “morte de Deus”. Quando o cristão perde a fé em um mundo transcendente, ele passa a sofrer daquilo que escolheu chamar de niilismo: a perda dos valores, uma anomia moral que pode se manifestar de diversas formas, inclusive pela invenção de valores substitutivos frágeis e deturpados.[27] Um exemplo da última forma de niilismo pode ser encontrado em um personagem do romance Ponto e contraponto de Aldous Huxley: [28] um nobre inglês do início do século XX que, tendo perdido a fé, tornou-se um “cristão às avessas”, encontrando prazer em seduzir mulheres jovens e depois abandoná-las, fazendo questão de mostrar-se publicamente como uma pessoa imoral, mas  que terminou por se suicidar.

   Também Nietzsche, quisesse ou não, tornou-se um niilista, uma vez que, tendo abandonado a moral cristã, jamais conseguiu realizar plenamente sua “transvaloração de todos os valores”. Em suas ideias, acabou por tornar-se aquilo que ele mesmo chamou de “imoralista”, apostando em um arremedo de moralidade que denominou “moral dos senhores”.

 

6

 

Sobre-homem. Testemunhos de amigos e conhecidos relatam que Nietzsche era uma pessoa delicada, sensível e até mesmo afetuosa, em contraste com os ideais morais de sua filosofia. Talvez por isso, para ter a força necessária para superar as fraquezas que acabavam por subjugar os homens superiores – inclusive ele mesmo – ele inventou o mito do sobre-homem. (Übermensh). Eis como o descreveu:

 

Homem forte de elevada cultura, hábil em todas as realizações corporais, capaz de estar sempre em guarda, pleno de respeito por si mesmo e constituído de tal maneira a ser capaz de sacrificar todo o gozo de suas tendências naturais em sua rica profusão e ser suficientemente forte para tal isenção. Um homem de tolerância, não por fraqueza, mas por força, visto que sabe tirar proveito de tudo o que arruinaria uma natureza medíocre, um homem para quem nada é proibido, a não ser a fraqueza, quer como defeito, quer como virtude.[29]

 

Para Nietzsche, o sobre-homem seria aquele forte o bastante para abandonar o cristianismo sem cair no niilismo, exemplificando a mais alta integração das faculdades intelectuais e volitivas. Ele reuniria elevada cultura com habilidade na ação, liberdade absoluta, energia, tolerância e completa afirmação da vida. Ele seria a união do César Romano com a alma de Cristo, de Napoleão com Goethe.

   Um problema para nós, hoje, mais aparente é a implausibilidade sociobiológica da existência da espécie de Frankenstein que Nietzsche chamou de “sobre-homem”. Como já notei, a antropologia social tem nos demonstrado que uma sociedade plenamente funcional deve se apoiar em sua neurodiversidade. Ela deve ser constituída por tipos humanos diferentes, com qualidades complementares – uma qualidade geralmente demandando, como compensação, alguma espécie de limitação de outra.

   Considere, por exemplo, a oposição entre consciência e ação, ilustrada na tragédia de Hamlet. A consciência amplia a percepção das consequências, mas quando excessiva, tende a paralisar a ação. É importante que existam pessoas dedicadas à reflexão – como pode ser o caso do filósofo. Mas a ação exige uma suspensão parcial da reflexão. Por isso é essencial a existência daqueles capazes de agir no momento oportuno, mesmo sob o risco de errar. Essas duas dimensões são intensamente conflituosas e não podem coexistir em grau máximo na mesma pessoa.

   Em suma: o que sabemos hoje sobre o comportamento humano desmente a visão nietzscheana do homem como o boxeador do universo. Marx, com a sua ideia de um mundo ideal exemplificado em sociedades primitivas sem razões externas para se tornarem agressivas, apontava para um ideal mais razoável.

 

7

 

Metafilosofia. A crítica à moral cristã feita por Nietzsche tem consequências metafilosóficas assaz interessantes. Para ele, os filósofos tenderam a se tornar prisioneiros de uma pérfida ética do ressentimento (Kant), da má consciência (Pascal) e, principalmente, do ideal ascético (Platão). Esse aprisionamento antecedeu o próprio cristianismo. Em contraste com Heráclito, Demócrito e Protágoras, que Nietzsche ainda levava a sério[30], Parmênides foi a primeira vítima do ideal ascético ao defender que toda a mudança é ilusória.[31] Mas onde Nietzsche esgrime a sua mais formidável retórica é na crítica à distinção platônica entre o Ser verdadeiro das ideias platônicas e o mundo das aparências. Aqui começou a cisão metafísica que desvalorizava a vida concreta e preparava o terreno para a moral cristã. A filosofia ocidental, ao privilegiar o “além” em detrimento do “aqui”, converteu-se em guardiã de um ideal ascético que nega o corpo, o instinto e o devir. Como ele escreveu:

 

Tudo o que os filósofos se ocupam há milhares de anos são ideias – múmias. Nada de real saiu vivo de suas mãos. Esses senhores idólatras das ideias, quando adoram, matam e empalham; tudo é posto em perigo de morte. (...) Todos acreditam desesperadamente no Ser. Porém, como não podem apoderar-se dele, buscam as razões pelas quais ele lhes escapa: “É forçoso que haja aí uma aparência, um engano através do qual não podemos perceber o Ser – onde está o impostor? Já o apanhamos – gritam alegremente – são os sentidos! Os sentidos que, por outro lado, são tão imorais. São os sentidos que nos enganam acerca do mundo verdadeiro![32]

 

Pouco adiante ele denuncia o Deus dos filósofos como resultante de uma confusão de um apelo psicológico último com uma causa primeira:

 

Outra coisa peculiar nos filósofos não é menos perigosa: consiste em confundir as coisas últimas com as primeiras. Põem no princípio o que é para vir no final (...) O mais elevado não pode proceder do mais baixo (...) A conclusão é que tudo o que é de primeira ordem deve ser causa sui. Essa é a maneira pela qual chegamos ao conceito de Deus. A coisa última, a mais tênue, a mais vazia, ocupa o primeiro lugar como coisa em si, como ens realissimum. Que a humanidade tenha sido induzida a levar a sério as dores de cabeça desses enfermos urdidores de teias de aranha! E que tenha pago tão caro![33]

 

É possível, sob a perspectiva nietzscheana, delinear uma história da filosofia fortemente influenciada pelo ideal ascético. Para ele, Sócrates levou adiante a disposição ascética prenunciada por Parmênides, na forma de uma corrupção moral, infectando a filosofia de Platão.[34] Este último, influenciado pelo orfismo, chegou a comparar a alma humana a um caramujo que precisa carregar a sua casa – o corpo – para onde quer que vá, só conseguindo libertar-se dele com a morte. Platão produziu a grande inversão escapista do senso comum ao defender que o mundo real não é o mundo visível, mas sim um mundo inteligível, sobrenatural.[35]

   Também as doutrinas helenistas – epicurismo, ceticismo e estoicismo – estavam para ele carregadas de ascetismo reativo. Os grandes filósofos cristãos, de Sto. Agostinho a Hegel, foram inevitavelmente afetados pelo ideal ascético, defendendo uma ética cristã centrada na moral do rebanho, além de uma metafísica e ontologia que visavam complementar intelectualmente a religiosidade cristã.

   Um exemplo particularmente marcante foi o de Plotino, um neoplatônico que entendia a vida em nosso mundo como uma degeneração e um fracasso. Para ele, o mal está na existência nesse mundo das aparências, e todo o mal que a alma possui provém de seu mesclar-se ao mundo sensível,[36] Como a alma foi feita para escapar do mal, nossa missão é evadir-nos desse mundo. Como ele escreveu:

 

A alma, em sua natureza, ama a Deus e deseja unir-se a ele no nobre amor de uma filha por seu nobre pai. Contudo, ao nascer humana, seduzida pela corte da última esfera, ela escolhe outro amor, o mortal, abandona o pai e se deixa violentar. Todavia, um dia ela passa a odiar sua vergonha, purifica-se dos males da terra e, mais uma vez, busca o pai, reencontrando sua paz.[37]

 

A vida devia ser suficientemente difícil e incerta para que pessoas honestas, conscientes e inspiradas fossem capazes de negá-la a tal extremo. Segundo consta, Plotino sofria de hanseníase, o que lhe teria dado razões adicionais para evadir-se do mundo corpóreo. A lista dos negadores do mundo tornou-se imensa durante a Idade Média, e seria repetitivo expô-la aqui em detalhes.

   As condenações morais do ateísmo foram sancionadas por filósofos de diversas épocas. Para Platão, o ateu merecia prisão perpétua e pena capital para os impenitentes, o que foi reafirmado por filósofos medievais como Sto. Tomás de Aquino, que via o suicídio como uma ameaça à ordem moral e social.[38] E um filósofo como Kant (para Nietzsche “um pérfido”) condenava o suicídio, outro anátema da igreja, por contradizer o imperativo categórico ao não tratar a vida como um fim em si mesmo.[39]

   Na metafísica, o ascetismo influenciou o dualismo cartesiano, o paralelismo de Leibniz e até mesmo (segundo Nietzsche) o ascetismo de Spinoza, que substituiu o amor fati pelo amor intellectualis dei. Do mesmo modo, Nietzsche rejeitaria a necessidade da postulação de uma substância incognoscível em Locke, sem falar no imaterialismo de Berkeley, e, explicitamente, na “circularmente fundada” revolução copernicana.[40] Para Nietzsche, ideias como a da coisa-em-si, assim como o juízo sintético a priori, são invenções fúteis, tanto quanto a doutrina do dever pelo dever de Kant e o imperativo categórico, que é impossível de generalizar e não passa de uma formulação disfarçada da moralidade cristã.[41] Quanto a Hegel, Nietzsche via nele uma “mumificação conceitual” que visava sufocar a contingência da vida em um sistema de abstrações históricas.[42]

   Em verdade, só a partir de Hume, seguido mais tarde na Alemanha por intelectuais como Ludwig Feuerbach, Max Stirner, Marx e Schopenhauer, o ateísmo intelectualmente justificado passou a ganhar espaço na filosofia. Ainda assim, o ideal ascético permaneceu influente em filosofias importantes, como demonstraram a fenomenologia de Edmund Husserl e até mesmo o irracionalismo antropológico de Heidegger, que Nietzsche, sem dúvida, veria como uma conversão escapista do cristianismo ao culto do Ser. A maioria dos cientistas e filósofos contemporâneos, porém, não professa fé religiosa.

   Que dizer de tudo isso? Há uma verdade a ser considerada na concepção nietzscheana da história da filosofia. Um crítico de Parmênides poderia ver na apologia do “ser” eterno e indestrutível uma forma de evasão. Mas a metáfora universal do Ser serviu muito mais para introduzir o princípio da não-contradição, para sugerir a imprescindível atemporalidade do portador da verdade, para apontar para a diferença essencial entre conhecimento e mera opinião…

   Além disso, nem tudo na filosofia foi distorcido pelo ascetismo cristão. As importantes definições de conhecimento e de justiça social sugeridas por Platão, por exemplo, nada têm a ver com o alimento de disposições evasivas. Mesmo sob distorção ideológica, ideias filosóficas podem preservar um valor intrínseco importante. Um exemplo foi a própria contribuição de Platão à ontologia. O reino das ideias pode ter servido como forma de evasão, mas também como um esforço para explicar a unidade na diversidade, a predicação, a síntese e a própria possibilidade de conhecimento. Além disso, o platonismo teve o mérito, não só de sustentar o questionamento intelectual ontológico, mas também de instigar seus contrapontos realistas e nominalistas.

   Não obstante, como veremos no último capítulo, existe hoje uma teoria ontológica que possui, ao menos, o potencial de tornar obsoleta a opção platonista. Trata-se, como veremos, da teoria radicalmente naturalista proposta por Donald Williams sob o nome de ontologia dos tropos. Se de um lado o platonismo e as várias formas de realismo apoiadas no ideal ascético parecem ter sob a guarda do cristianismo retardado imensamente o aparecimento da teoria dos tropos, de outro essas ontologias forneceram o campo de discussão, além de problemas e fórmulas argumentativas a serem encontradas, mesmo no interior da discussão ontológica levantada pelas ideias de Williams.

   Concluímos que, tanto quanto sua dicotomia moral, a metafilosofia de Nietzsche é unilateral. Embora ele tenha apontado para um elemento de distorção ideológica que marcou a filosofia de Platão a Hegel, isso não basta para anatematizá-la. Ainda assim, tanto pelos acertos quanto pelos erros, a crítica de Nietzsche inflamou as mentes, prestando um serviço considerável à cultura.

 

8

 

Compatibilismo. Como era de se esperar, Nietzsche também objetou contra o livre-arbítrio, tendo em mente a concepção libertarista adotada pelo cristianismo. Segundo essa visão, por sermos capazes de transcender o determinismo causal, somos absolutamente livres. Para ele, o livre-arbítrio era mais uma maneira de domesticar os espíritos livres que ousassem desafiar os valores do status-quo estabelecidos pela moral dos escravos.[43]

   A reflexão sobre a forma libertarista de livre-arbítrio nos oferece um caso de estudo sobre a contaminação da filosofia pelo ideal ascético, de Sto. Agostinho a Kant. Todavia, como logo veremos, há uma concepção de livre-arbítrio imune a objeções como a de Nietzsche e contra a qual ele certamente não teria nada a objetar.

   Há três concepções clássicas acerca do livre-arbítrio: o determinismo, o libertarismo e o compatibilismo. Segundo o determinismo ou ceticismo, o livre-arbítrio não existe. Ele é uma ilusão decorrente da nossa falta de conhecimento sobre as causas de nossas decisões e ações. Um filósofo atomista como Demócrito, por exemplo, caso se manifestasse a respeito, seria determinista, pois ele via o acaso como uma simples ilusão decorrente da falta de conhecimento das causas.[44]

   Historicamente, poucos foram os filósofos que defenderam essa posição. Esse foi o caso de um ateísta como o barão d’Holbach, durante o Iluminismo francês. Esse também foi o caso de psicólogos como Sigmund Freud, B. F. Skinner e muitos neurocientistas atuais. Se a consciência de nossas decisões depende de metacognições controladoras de nossos processos decisórios[45], considerando que não podemos tomar consciência dessas metacognições, parece que por razões estruturais é impossível tomarmos consciência de todos os fatores envolvidos em uma decisão.[46] Consequentemente, temos a impressão de que existe um elemento de indeterminação originador de um “sentimento de liberdade” que acompanha nossas decisões. Mas esse sentimento mesmo, em última análise, é ilusório.

   A posição oposta a essa é a do libertarismo, segundo a qual somos livres porque somos capazes de transcender o determinismo causal em nossas decisões. Vimos (Cap. IV, sec. 1) que Epicuro acreditava que os átomos de nossas mentes são capazes de realizar desvios arbitrários (clínamen) responsáveis pela liberdade de nossas decisões.

   Os medievais, de Sto. Agostinho a Sto. Tomás de Aquino, refinaram essa ideia sugerindo que, tendo sido feitos à imagem e semelhança de Deus, nós somos como que primeiros motores, causas incausadas.[47] Essa maneira de ver tem sérias consequências morais já antecipadas por Nietzsche: como determinantes últimos de nossas ações, nós nos tornamos absolutamente responsáveis por elas. Essa doutrina foi usada para justificar a justiça retributiva, sem os matizes impostos pelo cristianismo, segundo a qual o pecado mortal condena o pecador ao fogo eterno.

   Essa forma primitiva de responsabilização moral legitimou as penas impostas pela Inquisição, bem como os direitos especiais de quem detinha poder decisório, como intérpretes dos preceitos religiosos. Kant, um libertarista retributivista, levou essa lógica ao extremo ao apresentar, como exemplo, uma ilha a ser abandonada pelos seus habitantes; para que a justiça seja feita, pensou ele, será necessário que, antes de abandonarem a ilha, os habitantes enforquem todos os assassinos condenados à morte, mesmo que isso não lhes trouxesse nenhum benefício.[48]

   Felizmente, há uma terceira posição sobre o livre-arbítrio: o compatibilismo, ou determinismo suave. O compatibilismo foi prenunciado por Spinoza e explicitamente anunciado por Thomas Hobbes, ainda que em uma versão rudimentar, sendo posteriormente adotado por Hume e outros filósofos ingleses.

   Para o compatibilista, o livre-arbítrio não tem nada a ver com o determinismo e, por isso, é compatível com ele. Para o compatibilista, ser livre é simplesmente não ser restringido na decisão e na ação. Valendo-me da teoria causal da ação, segundo a qual razões (crenças + desejos) causam decisões que, por sua vez, causam ações, posso refinar essa ideia na seguinte fórmula:

 

Um agente é livre (Df.) = quando, tendo em vista um razoável leque de alternativas, ele não é restringido nem por limitação nem por coerção, nem externamente nem internamente, nem ao nível físico, nem ao nível volitivo e nem mesmo ao nível das razões. [49]

 

Essa definição explica-se como segue. As pessoas sempre dispõem de um leque de alternativas razoáveis para suas decisões e ações. Assim, é razoável que eu decida ir à praia nesse domingo, pois moro perto de uma. Mas não é razoável que eu queira ir à Lua nesse domingo, pois isso está fora de meu leque de alternativas razoáveis.

   Afora isso, o leque de alternativas pode ser restringido de duas maneiras. Uma delas é por limitação, que é quando as alternativas são diminuídas: Se eu estiver com febre alta, por exemplo, não terei como ir à praia nesse domingo, o que limitará minha liberdade de decisão. A outra maneira pela qual minhas alternativas são restringidas é a coerção. Se, ao sair na rua nesse domingo, eu for sequestrado, a restrição do meu leque de alternativas decorrerá de coerção: terei de fazer o que meus sequestradores decidirem. A coerção não limita, mas força o agente a seguir uma alternativa definida.

    As restrições também podem ser externas ou internas. E isso pode acontecer nos três níveis: físico, volitivo e racional.

   Ao nível físico, um paraplégico tem suas possibilidades de movimento internamente limitadas. Mas uma pessoa amarrada a um poste é externamente limitada a uma posição específica. Essas são restrições físicas por limitação. Não é difícil imaginar casos em que uma pessoa possa ser externamente ou internamente coagida, por causas puramente físicas, a realizar certos movimentos; no caso externo, quando alguém é forçado a saltar de um precipício, no segundo, quando ela sofre de dança de São Guido. (Em inglês, a palavra usada é liberty.)

   Ao nível volitivo, uma pessoa também pode ser psicologicamente limitada em sua vontade por fatores externos, como no caso da criança que, por medo de castigo, não vai além do portão de sua casa, ou externamente coagida, no caso de uma pessoa que, no ambiente de trabalho, é pressionada a fazer algo que não considera correto. Já uma pessoa que sofre de depressão pode não querer sair da cama, sendo assim limitada por fatores psicológicos internos, enquanto um alcoólatra que se vê forçado a beber contra a sua vontade é coagido ao nível volitivo pela intermediação de fatores internos (o termo inglês free will conota a liberdade da vontade).

   Particularmente relevante é a restrição externa ou interna ao nível das razões. Aqui temos o caso de uma pessoa que não come carne de porco por razões religiosas, o que é uma limitação racional de origem externa, ou de um criminoso racista que procura fazer mal a pessoas de outra cor, o que é uma coerção racional interna. Se, por outro lado, um homem bomba decide se explodir em meio à multidão, trata-se de coerção (ou indução) racional externa, pois foi seu meio social que o induziu a isso. Se um psicótico decide não se alimentar porque, em seu delírio, acredita que o alimento está envenenado, trata-se de uma razão limitadora interna. Em todos esses casos poderemos falar de restrição da liberdade de decisão racional (a expressão ‘livre-arbítrio’ conota a arbitragem racional do agir).

   A restrição ao nível racional é particularmente importante devido ao que Robert Kane chamou de controle encoberto não-restritivo (covert non-constraining control)[50]: a pessoa cuja liberdade é diminuída ou obliterada geralmente não tem consciência disso por ser restringida de maneira encoberta. Um psicótico que se recusa a comer por acreditar que seu alimento está envenenado não se considera limitado em suas decisões. Um homem-bomba que comete um atentado não acredita estar sendo coagido por razões externas a realizar tal ação.

   Nos casos de controle encoberto não-restritivo, a instância neutra para o julgamento deve ser externa: em algo como uma situação ideal de fala, um grupo de avaliadores que possui as informações da pessoa que age, acrescidas de outras informações que ela desconhece, pode nos levar a concluir que a liberdade dessa pessoa está sendo prejudicada por intermédio de razões equivocadas.

   A aceitação do compatibilismo traz consequências importantes para a questão da responsabilidade moral. Para o compatibilista, uma pessoa pode decidir livremente mesmo tendo sido causalmente determinada. Assim, quem pratica o mal não o faz por uma vontade absolutamente livre, mas em razão de contingências deterministas circunstanciais a serem encontradas em sua natureza, no meio social em que vive, em sua história, em sua educação… Isso não significa, evidentemente, que não deva haver punição quando alguém comete um ato penal, mas sim que a justiça retributiva deve ceder lugar à justiça restaurativa.

   Segundo esta última, a punição cumpre duas funções principais. A primeira é impedir que o indivíduo reincida, seja pela privação da liberdade, seja pela remodelação de seus valores e comportamentos que a sanção possa estimular. A segunda razão é dissuasão: a punição desencoraja que outros, com disposições semelhantes, pratiquem atos equivalentes.

   O compatibilismo, portanto, conduz a uma concepção de responsabilidade moral mais refinada e humana do que a resultante do libertarismo.

 



[1] Also Sprach Zaratustra: Ein Buch für Alle und Keinen (1883-1885). Trad. Port. Assim falava Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém (Vozes 2014).

[2] Dorian Astor, Nietzsche (LPM: 2013), p. 23. Julian Young, Friedrich Nietzsche: Uma biografia filosófica (Forense Universitária 2014), p. 25.

[3] Arthur Schopenhauer, Die Welt als Wille und Vorstellung (1819). Trad. port. O mundo como vontade e representação (Contraponto 2007).

[4] Na verdade, Schopenhauer evadiu-se dessa objeção ao argumentar que o asceta, tendo percebido que todo o querer gera dor, é levado a um enfraquecimento progressivo de seus desejos até o seu desaparecimento (Sec. 68-70). Mas essa admissão parece contradizer a ideia de que a Vontade deve ser mais forte que o conhecimento.

[5] Ecce Homo, Trad port. (Universidade da Beira Interior, 2008), IV, sec. 2.

[6] Nice, 7/3/1884.

[7] Os intérpretes de Nietzsche são via de regra apologéticos, a exemplo do clássico de Walter Kaufmann, Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist (Princeton University Press 1950), que legitimou Nietzsche perante a academia norte-americana, o que também vale para intérpretes que se apropriaram de Nietzsche como Michel Foucault ou Gilles Deleuze. Mas a unilateralidade pode nos impedir de decifrar o enigma nietzscheano. Espero, nessa breve reconstrução, ter me aproximado mais disso precisamente por ter buscado separar o joio do trigo.

[8] Sigmund Freud, Die Traumdeutung (1900). Trad. port. A interpretação dos sonhos (Imago 1996), cap. 6.

[9] Claudio Costa, “Processo primário e emoção estética”, in Arquiteturas Conceituais (Dialética 2022).

[10] Die Genealogie der Moral (1887), Dissertação Primeira, seção 5. Trad. port. A genealogia da Moral (Companhia de Bolso 2009).

[11] A genealogia da moral, cap. 2. Além do bem e do mal, sec. 260.

[12] A civilização grega não era propriamente autóctone e Nietzsche sabia disso. Ela resultou de levas migratórias – jônios, aqueus, eólios e dórios – que se estabeleceram na região e dominaram populações autóctones pré-helênicas, cada leva buscando impor-se à anterior, o que gerou uma complexa fusão cultural.

[13] Apesar de tudo, Friedrich Copleston estava certo ao notar que a verdadeira moralidade cristã nunca foi tão reativa e oposta aos valores nobres como Nietzsche a descreveu. cf. Copleston, Nietzsche: filósofo da cultura (Livraria Tavares Martins 1979). 

[14] Nietzsche, A genealogia da moral (L&PM 2018), Dissertação Primeira, sec. 9.

[15] A genealogia da moral, Dissertação Primeira, sec. 11.

[16] Ibid., 11.

[17] A genealogia da moral, Dissertação Primeira, sec. 10.

[18] Arnold Toynbee, Um estudo da história (edição condensada e revisada por Arnold Toynbee e Jane Caplan). (Martins Fontes-Universidade e Brasília 1982)

[19] Nietzsche pode bem ter sido influenciado, mesmo que indiretamente, por Edward Gibbon, que, em sua monumental e muitíssimo influente história do declínio e queda do Império Romano (1776-1789), popularizou a ideia de que foi o cristianismo que enfraqueceu o Império Romano e apressou a sua queda. Todavia, parece razoável, hoje, pensar que a ascensão do cristianismo possa ter sido mais efeito do que causa.

[20] Bertrand Russell: a.a.O., p. 767.

[21] As mudanças foram lentas e variadamente causadas, de modo que a escravidão na Europa só acabou por volta do século XI. Por longo tempo a igreja justificou a obediência do escravizado como uma obrigação perante Deus, embora incentivasse um tratamento humano. Ver Pierre Bonnassie, From Slavery to Feudalism in South-Western Europe (Cambridge University Press 1991).

[22] A criação do inteiramente novo, tomando como exemplo Beethoven, fez com que ele pusesse, a um custo elevado, os que o cercavam e a si mesmo a serviço de um bem comum que se estendia universalmente. O utilitarismo de dois níveis justificaria isso pelo apelo à passagem do nível das regras utilitárias para o nível do utilitarismo de ação, quando derrotadas por um benefício social muito superior. Há quem leve um raciocínio similar à justificação dos atos de um artista como Picasso, que usou o sofrimento das pessoas ao seu redor como fonte de inspiração (Norman Mailer), ou de políticos como Stalin e Mao Zedong, que desenvolveram seus países pela força (Deng Xiaoping).

[23] Esse é um ponto certamente percebido pelos defensores do chamado cristianismo ateu. Ver Slavoj Zizek, Christian Atheism: How to be a Real Materialist (Blomsbury Academic 2024).

[24] A genealogia da moral, Dissertação segunda, sec. 11-12; Dissertação terceira, sec. 11

[25] Ver comentário de Brian Leiter em Nietzsche on Morality (Routledge 2002), caps. 6, 7 e 8.

[26] Crepúsculo dos ídolos 5, sec. 5. A genealogia da moral, Dissertação terceira, sec. 13.

[27] Crepúsculo dos ídolos 9, sec. 34.

[28] Aldous Huxley, Point Counter Point (1928).

[29] Friedrich Nietzsche, O crepúsculo dos ídolos, p 125.

[30] Wille zur Macht (1901). Trad. port. Vontade de Poder (Vozes 2011) sec. 233.

[31] Filosofia na época trágica dos gregos, sec. 9.

[32] O crepúsculo dos ídolos ou: como filosofar com um martelo. (Edipro 2020) A razão na filosofia, sec. 1

[33] O crepúsculo dos ídolos, A razão da filosofia, sec. 4

[34] Gaia ciência, sec. 372.

[35] O crepúsculo dos ídolos. A razão na filosofia, sec. 6

[36] Plotino, Enéiades I, 2, 3.

[37] Plotinus, The Six Eneads (Encyclopaedia Britannica 1952), VI, 9, 9. cf. Trad. Port. Tratado das enéadas (Polar 2025), p. 132.

[38] George Minois, História do ateísmo (Unesp 2023), pp. 51-52.

[39]  Sociólogos como Émile Durkheim tentaram explicar essa proibição como um meio de garantir a coesão social. Meu palpite é que os senhores precisavam manter os servos vivos e atuantes, mesmo em situações de extrema dificuldade.

[40] Para Nietzsche, a revolução copernicana faz tanto sentido quanto a afirmação de que o ópio faz dormir por causa de sua virtude dormitiva, só que por meio de muita “pompa, solenidade e bizarros floreados.” Além do bem e do mal, sec. 11.

[41] Além do bem e do mal, sec. 11.

[42] Meditações Intempestivas, Segundo Ensaio.

[43] Ver Além do bem e do mal, cap. I.

[44] W. K. C. Guthrie, A History of Greek Philosophy II: The Presocratic Tradition from Parmenides to Democritus (Cambridge: Cambridge University Press 1965), pp. 418-19

[45] Ver, por exemplo, D. M. Armstrong: The Mind-Body Problem: An Opinionated Introduction (Westview Press 1999), cap. 10 (10.3).

[46] Como escreveu D. C. Dennett, “qualquer tentativa de acompanhar o próprio processo de deliberação tendo em vista uma projeção acurada de sua trajetória deve ser autodestrutiva, ameaçando um infinito regresso de auto-monitorização.” Elbow Room: The Varieties of Free Will Worth Wanting (MIT-Press 1984), p. 112.

[47] Ver R. M. Chisholm: “Human Freedom and the Self” (The Lindley Lecture, University of Kansas 1964).

[48] Kant: A metafísica dos costumes (Calouste Goulbenkian 2011), p. 211.

[49] Uma definição pretensamente positiva dependeria da autonomia, um conceito kantiano nunca satisfatoriamente definido. Para uma defesa sistemática da versão mais refinada do compatibilismo tradicional aqui resumida, ver meu artigo, Free Will and the Soft Constraints of Reason. Ratio, 2006, 19(1), pp. 1- 23.

[50] Robert Kane, The Significance of Free Will (Oxford University Press 1988), p. 64 ss.

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