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segunda-feira, 1 de junho de 2026

O NATURALISMO ARISTOTÉLICO (Draft para o livro Introdução histórica à filosofia, cap III)

  Draft para livro a ser publicado pela Europa Editora

 

 

III

O NATURALISMO ARISTOTÉLICO

 

Em seu melhor, o homem é o mais nobre dos animais. Fora da lei e da justiça, ele é o pior de todos.

Aristóteles

 

Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, na Macedônia, filho do médico da corte de Amintas III, avô de Alexandre o Grande. Aos 18 anos, foi para Atenas e passou os próximos vinte anos estudando junto a Platão. Com a morte do mestre, não lhe herdou o lugar na academia, o que o levou a deixar Atenas. Foi então para Assos, onde se tornou conselheiro e amigo do tirano Hérmias, casando-se com sua sobrinha Pítias. Três anos depois, passou algum tempo na ilha de Mitilene, onde fez observações sobre a vida de animais e plantas acompanhado de seu amigo Teofrasto, um botânico. Só para dar um exemplo de suas pesquisas: foi ele quem primeiro teve a ideia de perfurar o ovo fertilizado de uma galinha para observar o coração do embrião a bater, descrevendo pela primeira vez a origem de uma criatura viva. Seu conhecimento de história natural influenciou diretamente a tendência empirista de seu filosofar e o desenvolvimento de conceitos metafísicos, como os de espécie substancial, matéria e forma, potencialidade e atualidade. Depois disso, foi chamado à Pela, onde viveu por oito anos, tendo, pelo pouco que sabemos, sido preceptor de Alexandre.

   Depois vieram os anos de sorte. Com a conquista de toda a Grécia por Alexandre, ele pôde voltar a Atenas e fundar o Liceu, que se tornou o primeiro instituto científico da história, recebendo generosos fundos do governo. Chegaram mesmo a construir um zoológico. Nos treze anos seguintes, trabalhou incansavelmente, desenvolvendo a sua filosofia na forma madura pela qual hoje a conhecemos e ainda encontrando tempo para fazer dois filhos com Herphylis, após o falecimento de Pítias. Mesmo assim, as coisas não parecem ter sido sempre tão fáceis. Conta-se que, uma vez, ele escreveu a Alexandre reclamando por ter condenado à morte um filósofo inocente. A resposta teria sido “Eu também mato filósofos”. Aristóteles engoliu em seco.[1]

   Com a inesperada morte de Alexandre, vitimado pela febre aos 32 anos, o céu veio abaixo. Livres do domínio macedônio, os atenienses decidiram vingar-se de estrangeiros como Aristóteles. Como a Sócrates, acusaram-no de impiedade (desconsideração para com os deuses), o que significava pena de morte. Para salvar a vida, ele teve de exilar-se em Assos, onde adoeceu e faleceu meses depois, aos 62 anos. Platão teve mais sorte: morreu dormindo aos 80 anos.

   Aristóteles escreveu uma vasta obra opinando, certo ou errado, sobre quase tudo o que era investigado na época. Ele desenvolveu a lógica entre os gregos com a teoria do silogismo e contribuiu para a filosofia da ciência, da mente, da política e da ética. Sua contribuição para a metafísica foi imensamente influente.[2]

   Aristóteles representou um contraponto ao idealismo de Platão ao rejeitar a doutrina das ideias e promulgar uma espécie de empirismo. No Diálogo Sofista Platão dividiu as pessoas entre os “amigos das ideias” e os “gigantes da terra”. Os amigos das ideias eram pessoas razoáveis, como ele mesmo, que buscavam ascender a um mundo de coisas perfeitas e imutáveis: as ideias ou formas. Eram idealistas, geralmente inclinados às matemáticas. Já os gigantes da terra eram barulhentos e só acreditavam naquilo que podiam ver, tocar e até espremer com as próprias mãos.[3] Essa comparação se aplicava, certamente, aos Pré-Socráticos materialistas e atomistas, como Demócrito. Mas não seria justo aplicá-la a Aristóteles. Como W. K. C. Guthrie e outros notaram, apesar da tendência empirista e naturalista, que impedia Aristóteles de admitir um reino separado das ideias, ele sempre foi fascinado pela doutrina platônica da realidade transcendente das formas, da qual nunca se libertou por completo.[4]

 

1

 

Metafísica. A Metafísica é uma coleção de quatorze livros que costumam tratar do que Aristóteles chamou de filosofia primeira ou ciência buscada. Somente dois séculos e meio mais tarde, Andrônico de Rodes, que pela primeira vez publicou as obras de Aristóteles em Roma, deu aos escritos de filosofia primeira o título de Metafísica, O termo significa “depois da física”, mas também “para além da física”. É bem possível que essa escolha tenha sido feita considerando que, para Aristóteles, o objeto da filosofia primeira era superior ao de todas as outras ciências e exigia conhecimento prévio da Física.[5]

   O que chamamos de Metafísica é, na verdade, anotações de aula, uma barafunda especulativa, confusa, difícil e, ao mesmo tempo, fascinante, na qual Aristóteles introduziu uma variedade de ideias de grande interesse, esforçando-se por organizá-las na busca de uma consistência eventualmente inalcançável.

   Um fio condutor para a filosofia primeira pode ser encontrado nas caracterizações que Aristóteles lhe atribuiu. Eis as quatro mais conhecidas:

 

1.    A investigação do ser enquanto ser,

2.    A investigação da substância,

3.    A investigação das causas e princípios primeiros,

4.    A investigação de Deus e da substância suprassensível.

 

Elas se encontram interrelacionadas: a investigação do ser enquanto ser é, primariamente, a da substância (a arché aristotélica). Substâncias podem ser sensíveis ou suprassensíveis (os moventes imóveis). As últimas são investigadas pela teologia, sendo também as causas primeiras.

   Como tudo isso é apenas uma descrição de tópicos pertencentes ao estudo da metafísica, afirmar que a metafísica os investiga não constitui uma definição. O que mais se aproxima de uma definição é: (1) “A investigação do ser enquanto ser.” Mas o que Aristóteles queria dizer com isso? Eis sua resposta:

 

Há uma ciência que investiga o ser enquanto ser e os atributos que lhe pertencem em virtude de sua própria natureza. Isso não é o mesmo que qualquer uma das assim-chamadas ciências especiais; pois nenhuma delas investiga universalmente o ser enquanto ser. Elas recortam uma parte do ser e investigam seus atributos. Isso, por exemplo, é o que as matemáticas fazem.[6]

 

Em outras palavras, as ciências especiais, diversamente da metafísica, investigam classes de seres, mais precisamente, entidades,[7] além das propriedades que lhes são específicas. Assim, hoje diríamos que a física estuda a matéria e suas propriedades particulares, a biologia estuda os seres vivos e suas propriedades próprias, a matemática investiga os números e suas propriedades relacionais específicas... Mas a metafísica investiga tudo o que envolve os tipos mais gerais de entidades (seres), bem como as relações internas[8] que supostamente existem entre elas. Objetos de investigação semelhantes são, digamos assim, “tópico-neutros” no sentido de estarem presentes nos mais diversos domínios do saber.

   O ponto fica ainda mais claro ao compararmos as pesquisas de Aristóteles com as investigações da metafísica contemporânea. Considere a seguinte lista dos objetos de investigação da metafísica analítica contemporânea:

 

Propriedade, causalidade, existência, número, princípios lógicos universais, objetos materiais, espaço e tempo, o todo e a parte, necessidade e possibilidade...

 

No âmbito das ciências especiais, falamos constantemente de propriedades, existências, relações causais, números, etc. Consideremos o caso das propriedades: tudo o que existe possui propriedades. Existem propriedades lógicas, matemáticas, físicas, químicas, biológicas, psicológicas, sociais... mas não há nenhuma ciência especial que objetive explicar o que é, em si mesma, uma propriedade. Considere o caso das relações causais: todas as ciências particulares empíricas consideram, em seu vocabulário, relações causais entre os fenômenos por elas estudados, sem jamais tematizar o que seja a causalidade. Tais fenômenos ocorrem sempre no espaço e no tempo, mas só a metafísica os investiga. Finalmente, todas as ciências consideram números de entidades, sejam elas matemáticas, físicas, químicas, biológicas ou sociais… e também consideram a existência ou inexistência das entidades pertencentes aos seus domínios…

   Fica claro que, embora todas essas ciências apliquem conceitos como indivíduo, propriedade, causalidade, número e existência – conceitos investigados pela metafísica – nenhuma delas se ocupa da investigação de sua natureza ou das relações que possam ter entre si. Esses objetos de investigação são pressupostos pelas ciências especiais, aparecendo em suas terminologias sem serem questionados por elas. Eles atravessam quase despercebidos as mais variadas ciências particulares, razão pela qual concernem à própria moldura por meio da qual pensamos o universo. Como, há mais de um século, bem definiu A. E. Taylor, a metafísica investiga os “princípios estruturantes universais sem os quais não poderia existir nenhum sistema ordenado de objetos conhecíveis”.[9]

   Aristóteles merece o crédito de ter sido a primeira pessoa a perceber que certos conceitos objetivos, pertencentes a âmbitos de aplicação os mais diversos, demandam uma investigação própria: a de sua filosofia primeira. Como e em que medida ele a desenvolveu é outra questão.

 

2

 

Princípios da lógica. Para Aristóteles, os princípios lógicos fundamentais também pertencem à metafísica, dada a sua ubiquidade. Na Metafísica, ele defendeu famosamente o princípio da não-contradição como o mais fundamental.[10] Esse princípio afirma que “o mesmo atributo não pode, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, pertencer e não pertencer ao mesmo objeto.”[11] Quem quiser negá-lo, escreveu ele, deverá ficar mudo como uma planta, pois não poderá dizer coisa alguma, posto que afirmar algo será o mesmo que assentir o princípio. Essa pessoa não conseguirá sequer negar o princípio, pois ao rejeitá-lo, estará assumindo sua verdade no que diz. Formalmente, ele pode ser expresso como ~(A & ~A).

   O princípio da não-contradição é complementado por outros dois: o da identidade e o do meio excluído. O princípio da identidade, já divisado por Parmênides e repetido por Platão, nos diz que “uma coisa é ela mesma”. Formalmente, ele tem sido apresentado como A → A.

   O princípio do meio excluído, por sua vez, nos diz que “não pode haver intermediário entre enunciados contraditórios, mas, de um mesmo objeto, precisamos sempre afirmar ou negar qualquer predicado.”[12] Ele pode ser formalmente apresentado como A ˅ ~A.

   Os três princípios são logicamente equivalentes, pois se uma coisa é ela mesma, ou seja, se A → A, então não é o caso de ela ser qualquer outra coisa senão ela mesma, ou seja: A ˅ ~A, o que implica que não é possível que ela seja e não seja ela mesma (ao mesmo tempo e sob a mesma perspectiva), ou seja: ~(A & ~A).[13]

   Esses princípios são verdades lógicas (tautologias) que atuam como verdadeiros axiomas semânticos da lógica sentencial, uma vez que precisam ser pressupostos na construção das tabelas de verdade que definem os conectivos, que, por sua vez, se combinam na formação das regras que fundamentam todo o cálculo sentencial. Contra a objeção de que existem, afinal, inúmeras verdades lógicas, é possível responder que esses princípios têm a prerrogativa de serem os mais simples e os mais prolíficos e, por isso, os que mais merecem ser chamados de axiomas.

   Bem entendidos, esses princípios são irrecusáveis. Quero defender aqui apenas o mais disputado dentre eles: o do terceiro excluído: “A ˅ ~A”. Pode-se argumentar que deve haver algo que não é nem A nem não-A. Por exemplo, considere a frase “Está chovendo”. Pode ser que seja noite e que exista algo como um sereno, com minúsculas gotículas de água no ar que parecem descer lentamente... mas não será apenas uma névoa? Simplesmente não há como decidir! Nesse caso, se alguém disser “Está chovendo”, não haverá como saber se a frase é verdadeira ou falsa. Estamos diante de uma fronteira indefinida (blurred boundary). Afinal, nem está chovendo nem não está chovendo. Não parece, então, que, nesse caso limítrofe, o princípio do terceiro excluído deva ser rejeitado?

   O problema desaparece quando o princípio é ontologicamente definido como o de que, se uma coisa é ela mesma, não pode ser o caso de ela ser outra coisa senão ela mesma. Uma consideração mais cuidadosa da versão linguística e formal do princípio mostra que a objeção acima se apoia em uma confusão, pois no contexto considerado, afirmações como “Está chovendo” ou “Não está chovendo” deixam de fazer sentido, pois se tornam proferimentos inverificáveis, incapazes de nos dizer qualquer coisa além de seu mero entendimento gramatical. Se alguém os proferisse, diríamos: “Essa sua afirmação não faz sentido!” Por isso, na lógica clássica, pressupõe-se sempre que as sentenças possuem valor-verdade, o que pode gerar confusão, pois, em lógica, sempre abstraímos dos procedimentos epistêmicos pelos quais reconhecemos esses valores.[14]

   A constatação acima não precisa ser vista como limitadora. Se um enunciado como “Está chovendo” for feito em uma fronteira indefinida, bastará precisarmos mais o critério de identificação de chuva (por exemplo, pela invenção de um “detector de chuva”...), que nos tornaremos capazes de atribuir um valor-verdade ao pretenso enunciado.[15]

 

3

 

Substância. Na obra de Aristóteles, o desenvolvimento do conceito de substância passa por duas formulações claramente distintas: a das Categorias e a da Metafísica. Quero começar pelo texto inicial das Categorias. Aqui ele distinguiu dois sentidos da palavra ‘substância’:

 

(i)               O sentido próprio, que ele chamou de substância primeira.[16] Trata-se do indivíduo concreto, espaço-temporalmente localizável, como este homem (Sócrates) ou aquele cavalo (Bucéfalo). O indivíduo pode ser repositório de muitos predicados, mas não pode ser ele próprio predicado de algo. Assim, quando digo “Sócrates é sábio”, estou me referindo ao indivíduo de nome Sócrates, do qual predico sapiência.

 

(ii)             Há também um segundo sentido do termo substância, chamado por Aristóteles de substância segunda. Trata-se, em primeiro lugar, da espécie à qual o indivíduo referido pertence e, em segundo lugar, do gênero ao qual esse indivíduo pertence.[17] No caso da substância primeira, digamos, o indivíduo Sócrates, ele pertence à espécie humana e ao gênero animal. Assim, se digo “Sócrates é homem”, estou com o predicado ‘...é homem’ me referindo à substância segunda. Aristóteles observa que as atribuições de espécie e gênero são predicadas “de um sujeito”, enquanto as atribuições meramente acidentais, como ‘...é branco’ ou ‘...é corajoso’, são predicadas “em um sujeito”.[18] “Se a substância primária não existisse”, escreveu ele, “seria impossível que qualquer das outras coisas existisse”.[19] Nas Categorias a substância segunda cumpre a função de um universal.[20]

 

No texto muito posterior da Metafísica, Aristóteles propôs uma definição de substância consideravelmente diferente daquela apresentada nas Categorias.[21] A razão é que já em sua Física ele passara a considerar as coisas perceptíveis como compostas de forma (eîdos ou morphê) e matéria (hylê).[22] Podemos aqui entender a forma como o princípio organizador que possibilita a especificação geral de uma coisa como um todo independente e a matéria como aquilo que a constitui.[23] Com base nessa distinção, a pergunta que ele se fez é se a substância é:

 

 (a): a matéria do indivíduo (hylê),

 (b): a sua forma (eîdos),

 (c): a combinação de ambos (o sýnolon).

 

Sua resposta foi conciliatória:

 

… o substrato primeiro é o que parece ser a substância. E chama-se substrato primeiro, em certo sentido, a matéria, noutro sentido, a forma e num terceiro sentido, a combinação da matéria e da forma.[24]

 

Há, porém, uma hierarquia. Como veremos, para ele o sentido (a) de substância como matéria é o mais fraco de todos. O sentido (c), de combinação, é mais forte e corresponde ao indivíduo das Categorias. Mas o sentido que ele termina por privilegiar como o mais forte de todos é (b), o da substância como a forma essencial, que é a forma como espécie e gênero, muito diversa da forma como mero acidente.

   Assim, a forma essencial do indivíduo Sócrates seria a de pertencer à espécie dos seres racionais e ao gênero dos animais. Afora isso, a maior proximidade que a espécie tem com o indivíduo faz com que ela possua uma realidade mais concreta (mais substancial) do que a do gênero. Já que Sócrates era branco, usava barba e era sábio… são formas meramente acidentais, pois não pertencem à sua substância, não alteram sua essência. Vejamos os argumentos.

  Consideremos, primeiro, (a) a substância como matéria. Seguindo a linguagem ordinária, Aristóteles notou que podemos entender a substância como a matéria, como um substrato (hupokeimenon), uma vez que o substrato não é inerente a algo e sequer se deixa predicar. Como ele escreveu: “Claramente, também a matéria é substância, pois em todas as mudanças entre opostos há algo que lhes serve de substrato.”[25]

   Com relação a (a) deve ser feita uma importante consideração. Sempre que falamos da matéria, temos de nos referir a alguma forma. Ou seja: ao se fazer cognoscível, a matéria só pode ser apreendida como forma. Alguns exemplos tornam isso claro. No caso de uma esfera de cobre, a esfera é a forma e o cobre é a matéria. Mas o cobre é também uma forma, um metal cuja matéria é o elemento de número atômico 29, que também só se torna cognoscível enquanto apresentado como forma. Uma casa é uma forma cuja matéria é o tijolo, que é uma forma cuja matéria é o barro de que é feito. Um estado tem a sua constituição como forma, sendo sua matéria a população de que é composto, embora esta também seja constituída de formas.

   Aristóteles percebeu isso. Em uma passagem da Metafísica, ele fez uma interessante experiência em pensamento, retirando, uma a uma, as propriedades de um indivíduo particular, de modo a tentar fazer restar apenas a pura matéria. O resultado é que simplesmente nada de dizível ou cognoscível restou! Como ele mesmo concluiu: “A pura matéria, destituída de qualquer forma, é incognoscível”[26], não passando de um conceito limite. Se a substância material fosse apenas a matéria pura ou última (chamada pelos medievais de ‘matéria prima’), ela seria incognoscível.[27]

   Para exemplificarmos melhor, considere o caso de um corpo humano: é uma forma constituída por músculos, ossos, gordura, nervuras... Mas tudo isso são formas. Os músculos são constituídos por um material chamado de miofibrilas proteicas, que são também formas, as quais são constituídas por compostos de carbono, que são constituídos por átomos, que são constituídos por partículas subatômicas, cujos núcleos se dividem em quarks… Assim, o que temos são formas “all the way down”. Dessa maneira, a forma acaba sendo responsável pela diversidade de tudo o que existe, pela heterogeneidade das determinações específicas, que, quanto mais elementares, menos heterogêneas se tornam.

   Contudo, como a matéria compõe os constituintes de um todo, um indivíduo, ela pode ser chamada de substância num sentido mais fraco, certamente não como “matéria pura”, mas como o constituinte interno que nos permite localizar um indivíduo no espaço e no tempo. O indivíduo, por sua vez, é o que somos capazes de especificar pelo princípio organizador que é sua forma essencial.

   No sentido (c) a substância é a combinação de forma e matéria. Esta combinação (synolon) parece estar no lugar do que, nas Categorias, foi chamado de ‘indivíduo’. Em uma famosa passagem, Aristóteles escreveu que a substância pode ser entendida como “um esse tal-e-tal (tode ti) separável”.[28] Não é difícil perceber o que ele devia ter em mente. Digamos que alguém aponte para Sócrates e diga: “Esse homem é corajoso”. O pronome demonstrativo ‘este’ (um indexical) indica alguma coisa espaço-temporalmente localizada, ou seja, a matéria de que Sócrates é constituído, enquanto o complemento ‘homem’ (um sortal) indica o tal-e-tal, que é a forma essencial, o princípio organizador do tipo de coisa indicada. Aqui, a substância é capturada pela linguagem como matéria localizada, com uma forma que é sua essência, entendida por Aristóteles como “aquilo pelo que uma coisa é” (tò tí ên eînai).[29] Já a coragem de Sócrates é uma propriedade acidental.

   O importante acerca da essência é que ela deve ser entendida como algo suscetível de definição.[30] Assim, Aristóteles definiu a forma essencial do ser humano como a de um “animal racional”. Sob tal suposição, se digo “Isso é um homem”, estou dizendo o mesmo que “Isso... é um animal racional”, ou seja, estou oferecendo uma definição real (horismos) da espécie natural de indivíduo designado pelo demonstrativo ‘isso’ como sendo, por essência, por sua forma substancial, um animal racional.

   Como é bem sabido, para Aristóteles, uma definição real seria aquela pela qual distinguimos a diferença específica de seu gênero próximo – a diferença específica devendo ser um subconjunto do conjunto mais geral seguinte, que é o do gênero próximo.[31] No caso em pauta, o gênero próximo é a animalidade, enquanto a diferença específica, distintiva do ser humano, é a racionalidade. A espécie natural, à qual pertence o que é indicado pelo ‘isso’, é aqui a dos animais racionais. Trata-se, para Aristóteles, da indicação da forma substancial como uma essência definível – algo que para ele (como um bom biólogo) era paradigmaticamente a predicação de uma espécie (e gênero) da zoologia ou botânica. Exemplos: “esse homem”, “aquela rosa”. Essa forma substancial pode ser estendida a indivíduos físicos, como Marte (um planeta), o Sol (uma estrela), uma massa de ar, o mar e até mesmo artefatos, como uma casa.[32]

   Para Aristóteles, a combinação (c) é o “isso” (o substrato material) junto ao “tal-e-tal” (a forma substancial constituída pela espécie e pelo gênero). Trata-se de uma redescrição da substância primeira das Categorias no contexto de seu hilemorfismo (hyle = matéria + morphē = forma), o que parece tornar essa combinação a melhor candidata ao papel de substância. Afinal, através dela o indivíduo é visto como uma combinação da matéria constituinte espaço-temporalmente localizada com a sua forma estruturante, uma unidade a servir de repositório de predicações quaisquer. A combinação parece, pois, satisfazer plenamente os critérios de substância como o indivíduo entendido como uma combinação localizada da matéria com sua forma essencial.

   Contudo, não foi assim que Aristóteles pensou. Ele reservou o lugar privilegiado à interpretação (b) da substância como forma. Ele acreditava, tal como Platão, que a forma substancial ou essencial (como espécie e gênero) possui mais ser ou realidade do que a matéria. De acordo com ele, “se a forma é anterior e possui mais ser do que a matéria, pela mesma razão ela será anterior ao composto.”[33]

   Mesmo assim, a pergunta que muitos se fazem é sobre a razão pela qual Aristóteles pareceu privilegiar a forma como substância, em detrimento da combinação. Afinal, a combinação também possui forma, além de resultar no indivíduo como um todo.

 

                                                        4        

 

Categorias. Aristóteles estabeleceu uma classificação dos gêneros supremos de predicação, que ele chamou de categorias (katêgoria = predicado). As categorias são as classes fundamentais do que pode ser predicado da substância primeira (indivíduo), tornando-se mais abrangentes do que quaisquer outras classes de predicados. Por isso, quando predicamos, nossa predicação precisa pertencer a alguma categoria. Considere, por exemplo, a categoria aristotélica de qualidade: a cor vermelha é uma qualidade de cor, um círculo é uma qualidade de forma; mas tanto a cor quanto a forma pertencem à mesma categoria de qualidade. As categorias aristotélicas podem ser dispostas na seguinte tábua, tendo como exemplo Sócrates (como substância primeira):[34]

 

          CATEGORIA      EXEMPLO:

Substância            é um homem (substância segunda; essência).

Quantidade           tem 1,60 m de altura,

Qualidade             é sábio,

Relação                 é casado com Xantipa,

Lugar                    está na Ágora,

Tempo                  pelo meio-dia,

Posição                 de pé,

Posse                     um manto,

Ação                      está falando,

Ser afetado            está sendo inquirido.

 

Para Aristóteles, tudo o que podemos dizer sobre a substância primeira se deixa classificar sob esses predicados categoriais. Assim, apontando para Sócrates (o indivíduo, a substância primeira das Categorias), eu posso proferir uma frase do tipo “Este tal-e-tal”. No caso, o proferimento será “Isto é um homem”, indicando a substância segunda, que é a substância como forma essencial do indivíduo, a qual também é uma essência definível (homemdf = animal racional).

   Além disso, posso dizer que esse homem (Sócrates) é sábio (predicando-lhe uma qualidade), que ele tem 1,60 m de altura ou que pesa 68 kg. (quantidade), que é marido de Xantipa (relação), que se encontra na Ágora (lugar) ao meio-dia (tempo), que está de pé (posição), que possui um manto (posse), que está falando (ação) e que está sendo inquirido (está sendo afetado). Mesmo que essa lista de categorias seja assistemática e sobreponha predicados (ter, fazer e ser afetado são predicados relacionais), ela é profundamente sugestiva.

   Podemos agora considerar uma propriedade da substância que terá grande importância no sistema de Aristóteles. Trata-se do fato de que, em geral, é a substância que serve de substrato para a mudança. Como suporte às outras categorias, ela deve permanecer inalterada ao longo do tempo, enquanto as demais se modificam. Por exemplo: esse ser humano, Sócrates, é o mesmo, e dele predicamos a sapiência. Mas não predicávamos a sapiência dele quando era criança, nem que, enquanto criança, ele tinha 1,60 m de altura ou que era casado com Xantipa. Além disso, quando era bebê, ele não ficava de pé e sequer sabia falar. Mesmo assim, o Sócrates criança é certamente o mesmo Sócrates que foi condenado a beber cicuta aos 70 anos. Em todos esses momentos, porém, podemos dizer que ele havia sido um ser humano (um animal racional), predicando dele a mesma forma específica, a mesma essência substancial. A substância, portanto, garante a identidade do indivíduo ao longo do tempo, enquanto os demais predicados variam.

 

5

 

Universais. O problema dos universais em Aristóteles é um dos mais controversos de sua filosofia. O termo ‘universal’ (to katholou) foi cunhado por Aristóteles para significar “aquilo que, por natureza, é predicado de muitos.” [35] É por meio do universal ‘humanidade’ que podemos afirmar que Sócrates, Platão e Cálias são homens. Platão responderia a esse problema recorrendo à ideia ou forma real e transcendente, participada ou copiada pelos diferentes seres humanos. Em algumas passagens da Metafísica, Aristóteles pareceu concordar com isso:

 

Quando consideramos o todo, tal e tal forma realizada nessas carnes e nesses ossos, de modo que esse é Cálias ou Sócrates, eles são diferentes em virtude de sua matéria (pois ela é diversa em indivíduos diversos), mas são o mesmo na forma; pois a forma é indivisível.[36]

(...) com efeito, a definição é do universal e da forma.[37]

 

Parece, então, que a forma aristotélica precisa ser universal, algo comum a um número maior ou menor de indivíduos. É como se a forma fosse um lençol transparente e único, firmemente colado a todos os objetos sensíveis que dela participam, cumprindo, dessa maneira, sua função universalizante. Isso justificaria que pensássemos em formas aristotélicas como algo dependente da existência das coisas sensíveis para existir: retiram-se as coisas, o lençol se desfaz... Isso também justificaria a ideia, cara a Aristóteles, de que só existe a ciência do universal e nunca a do indivíduo.

   O problema é que essa sugestão interpretativa conduz a uma dificuldade ainda bem pior do que a criada pelo problema da divisão na metáfora da participação das coisas nas ideias platônicas. Como pode, afinal, uma forma universal colada aos objetos manter a sua unidade se tem de se dividir entre os muitos objetos aos quais se aplica? A metáfora platônica da ideia como o sol que ilumina os objetos é apenas misteriosa. Já a metáfora da forma como um lençol elástico que se estende ao mesmo nível de qualquer objeto que dele compartilhe é simplesmente tosca. Como poderia, afinal, um filósofo tão perspicaz quanto Aristóteles não ter percebido uma dificuldade tão óbvia?

   Em aparente contradição com esse resultado, Aristóteles também tornou claro que o universal não pode ser substância, “pois a substância é peculiar ao indivíduo, a nada mais pertencendo, ao passo que o universal é comum a muitos.[38] Assim, se a forma, como espécie ou gênero, é substância e realidade individual no sentido privilegiado, então ela não pode mais funcionar como universal. A forma, seja ela propriedade, atributo ou acidente, precisa estar inteira em cada indivíduo que a possua, de modo que outros indivíduos possam ter formas qualitativamente idênticas, mas cada um tenha a sua. Assim, Sócrates tem uma forma substancial de humanidade e Cálias, outra. Como Aristóteles escreveu: “cada coisa individual é uma e a mesma, tal como sua essência [forma]”.[39] Ou ainda, para não deixar dúvida:

 

A substância é a forma imanente, cuja união com a matéria constitui a substância como combinação (a concavidade, por exemplo, é uma forma desse tipo; de sua união com o nariz derivam o nariz achatado e o ser achatado).[40]

Mas então deve-se admitir uma esfera além das sensíveis? Ou uma casa além das de tijolos? Não, porque se fosse assim, essas formas nunca teriam formado algo determinado.[41]

Por que esses materiais formam uma casa? Porque a essência [forma] da casa está presente. E por que essa coisa individual, assim determinada, é um homem? Portanto, buscamos a causa, ou seja, a forma que faz da matéria algo definido. E isso é a substância da coisa.[42]

A figura esférica de bronze só existe unida à esfera de bronze.[43]

 

Ao que parece, Aristóteles estava tateando entre dois caminhos especulativos incompatíveis entre si. Mas isso não o protegia contra uma grave inconsistência.

   Em meu juízo, há apenas uma maneira de preservar a descoberta aristotélica da arché como forma substancial individual, sem cair em contradição. Ela consiste em sugerir de modo reconstrutivo que ele deveria ter usado a palavra ‘forma’ em dois sentidos diversos, que podemos chamar de:[44]

 

(i)               forma singularizante;

(ii)             forma pluralizante.

 

A forma singularizante é aquela que existe em sua inteireza em cada indivíduo. É a forma da casa que está na casa de tijolos e a da esfera que está na esfera de bronze. Só ela é substância no sentido privilegiado, possuindo realidade própria – sobretudo enquanto espécie e gênero – e podendo até mesmo ser apontada: aquela casa, aquele homem, aquela forma esférica constitutiva da combinação ‘esfera de cobre’. Essa forma singularizante não é, obviamente, um universal.[45]

   Já a forma pluralizante corresponde ao universal. Ela não está nas coisas como algo real e substancial. Ela não é como um lençol único, cobrindo as diferentes coisas que dela participam e aberta à vexatória contradição de ser simultaneamente única e múltipla. Tal como alguns aristotélicos medievais moderados sugeriram, essa forma universalizante não existe nas coisas (in re), mas apenas depois delas (post rem), em nossas mentes, como resultado de um processo de abstração. É ela que nos permite predicar – dizer o mesmo de muitos – possibilitando a generalização própria da ciência, pois se aplica a quaisquer formas singulares substanciais presentes nas coisas (in re), desde que apresentem o mesmo padrão de similaridade.

   Essa admissão não nos obriga a pensar a forma pluralizante como uma ideia platônica, transcendente e substantiva. Nesse sentido, quando Aristóteles nos diz que a forma de Sócrates e Cálias é a mesma, ele só pode estar se referindo (mesmo que não o saiba) à forma pluralizante, ou seja, à forma como universal em nossas mentes, que, embora definível, não possui realidade substantiva.

   Curiosamente, sob esse entendimento, a análise aristotélica da substância sensível torna-se praticamente indistinguível do que foi sugerido por Donald Williams em sua ontologia dos tropos, no artigo clássico de 1953[46] (ver Cap. XIX). Para essa ontologia radicalmente naturalista, nosso universo é geralmente constituído por tropos (particulares abstratos), que nada mais são do que propriedades espaço-temporalmente localizáveis, mesmo que de forma indiretamente acessível ou difusa, inexistindo propriedades realmente abstratas. Para Williams, os objetos materiais são, no mínimo, agrupamentos mais ou menos organizados de tropos concorrentes ou compresentes, no sentido de possuírem similar localização espaço-temporal, enquanto os universais, não passam de conjuntos ou somas de tropos precisamente similares entre si.

   Ora, admitindo a reconstrução proposta, as formas aristotélicas também podem ser entendidas como tropos, por serem espaço-temporalmente localizáveis. Isso vale para formas acidentais, como a palidez de Sócrates, para as formas singularizantes essenciais (espécie e gênero) e para as categorias, pois tudo isso seriam tropos. A própria matéria constituinte dos indivíduos, enquanto tornada cognoscível, só poderá ser expressa em termos de tropos. E até mesmo a forma post rem resultante da abstração não precisa ser realmente um universal transcendente, único e capaz de cobrir todos os casos, mas apenas um tropo modelar mental particular repetível, funcionando como uma regra organizadora que nos permite identificar padrões formais que se demonstrem precisamente similares (qualitativamente idênticos) em muitos e diversos indivíduos. Com isso, abre-se espaço para o que mais tarde examinaremos como o nominalismo dos tropos.

 

6

 

A mudança. Desde Heráclito, tornou-se amplamente aceito que o mundo sensível é caracterizado pelo movimento, pela mudança e pela passagem de um estado a outro. Para explicar o que é a mudança, Aristóteles recorreu a uma nova dualidade conceitual: a distinção entre potência (dunamis) e ato (energeia). A potência é a capacidade de vir a ser, enquanto o ato é a realização dessa capacidade, o ser em sua efetividade.

   O exemplo mais simples é o da semente. Ela pode dar origem a uma laranjeira. Outra semente, muito semelhante, pode originar um limoeiro. Cada semente tem o potencial de se transformar em algo distinto. A semente da laranjeira é a laranjeira em potência, que se transformará em laranjeira em ato quando se desenvolver. Para Aristóteles, as substâncias sensíveis são constituídas não apenas de matéria e forma, mas também de potência e ato, pois há sempre uma correlação entre matéria e potência, de um lado, e forma e atualidade, de outro. A substância é ato na forma que possui no presente. Mas ela também é potência em sua capacidade de se atualizar em outra forma. Assim, a semente tem a potencialidade de se transformar em uma árvore, mas não é árvore em ato, mas apenas em potência. Já a árvore foi semente em potência, mas agora é árvore em ato, pois adquiriu essa nova forma. Nesse sentido, matéria e forma podem ser vistas como aspectos de uma mesma realidade: a matéria é forma em potência, enquanto a forma é a matéria atualizada.

   Essa distinção entre ato e potência permitiu a Aristóteles responder ao desafio de Parmênides, segundo o qual o ser é imutável, já que do não-ser não pode advir o ser, pois, nesse caso, o não-ser seria; enquanto do ser não pode advir o não-ser, a menos que o ser não seja. Aristóteles discordava. Sua resposta foi hábil: O ser pode advir do não-ser, pois o não-ser já é ser em potência, enquanto o não-ser pode advir do ser, pois o ser já é não-ser em potência. Por isso, pensava ele, a mudança é a passagem do ser para o ser: a passagem do ser em potência para o ser em ato.[47]

   À explicação da mudança, Aristóteles acrescentou sua famosa teoria das quatro causas, que pode ser facilmente tomada como um arcaísmo filosófico. Contudo, essa atitude advém de uma confusão entre o que Aristóteles tinha em mente como causa e nosso conceito atual, mais restrito, de causa eficiente. Em Aristóteles, trata-se de uma teoria dos elementos envolvidos na explicação da mudança, na medida em que esta tenha caráter finalista ou teleológico. Esses elementos são chamados de causa material, causa formal, causa eficiente e causa final.[48]

   A ilustração mais usual é a de um artífice que pretende esculpir uma estátua. É preciso que ele tenha, primeiro, uma pedra de mármore. Essa é a causa material. Além disso, ele precisa ter uma ideia do que pretende fazer, por exemplo, uma estátua do deus Apolo; essa é a causa formal: a forma almejada, ainda não atualizada. Em seguida, ele precisará trabalhar no bloco de mármore para esculpir a estátua de Apolo. Essa é a causa eficiente, que corresponde ao que hoje entendemos por causa no sentido próprio. Por fim, a estátua do deus Apolo deverá ser colocada no templo, de modo a servir como objeto de culto: essa é a chamada causa final, o propósito último da ação.

   A teoria das quatro causas não se limita a explicar as ações humanas intencionais. Ela também serve à biologia de Aristóteles. Assim, um pequeno arbusto, para crescer e se transformar em uma árvore, precisa de matéria: a madeira de que é constituído. Mas ele também precisa de uma forma que o defina: o arbusto tem a finalidade, inscrita em seu material genético, de se transformar em árvore. Para que isso aconteça, também são envolvidos os elementos constitutivos da causa eficiente: é preciso haver luz, água e nutrientes adequados. Há, finalmente, a causa final: a árvore dará frutos, assegurando a continuidade da espécie.

   A teoria das quatro causas não serve, obviamente, à explicação de eventos causais não teleológicos. Se um asteroide por acaso cai sobre o planeta Júpiter, ele não tem a ideia de cair em Júpiter, nem é o caso de, dessa maneira, atingir alguma finalidade, digamos, aumentar minimamente a massa desse planeta gigante.

 

7

 

Teologia. Uma última questão metafísica diz respeito à definição de metafísica como teologia e como investigação das causas últimas. O argumento começa com uma questão sobre o tempo.[49] Teve o tempo um início? Se admitíssemos que sim, poderíamos indagar sobre o que havia antes do tempo. Mas ao usarmos a palavra ‘antes’, já estamos pressupondo o tempo. O mesmo ocorre quando nos perguntamos se o tempo teria um fim. Nesse caso seria possível perguntar o que acontecerá depois do tempo. Mas ao usar a palavra ‘depois’, nós também recorremos a uma noção temporal. A conclusão é que o tempo não tem início nem fim: o tempo é eterno.

   Aristóteles também observou que a passagem do tempo é intrinsecamente ligada à mudança, ao movimento. De fato, nós marcamos o tempo por meio de relógios que se valem de mudanças cíclicas de igual duração. Era assim nos tempos primevos, quando os homens contavam os dias pela passagem do Sol e os anos pelas estações. E continua sendo assim até hoje, quando fazemos uso de relógios atômicos. Até mesmo nossa percepção subjetiva do passar do tempo depende de “relógios biológicos” internos. Assim, se o tempo é eterno, também o é a mudança, posto que o tempo depende dela. Em um mundo sem mudança, o tempo também não poderia existir.

   Opondo-se a essa conclusão, alguém poderia tentar conceber um tempo sem mudança, imaginando que o mundo inteiro se congelasse por um ano, permanecendo sem qualquer alteração durante todo esse período.[50] À primeira vista, isso parece possível. Mas, ao imaginar tal cenário, já nos colocamos fora do mundo, numa perspectiva externa, da qual seríamos plenamente capazes de verificar a passagem do tempo, por possuirmos relógios capazes de medir um ano. Ora, nesse caso não estamos mais considerando o mundo como um todo, pois nós e nossos relógios, que supostamente estamos “de fora”, também devemos pertencer a ele. A conclusão é que não faz sentido afirmar que o mundo, agora entendido como absolutamente tudo o que existe, possa ficar congelado por um ano, pois não poderia incluir qualquer meio capaz de marcar esse tempo. Parece, pois, que nesse ponto Aristóteles tinha razão.

   Tendo estabelecido que o tempo e a mudança são eternos, Aristóteles se perguntou sobre a causa final de todas as mudanças, de todos os movimentos. Para ele, essa causa não poderia ser mera causa eficiente, mas causa final, um telos. Se o tempo-mudança é eterno, também sua causa final deve sê-lo. Contudo, aquilo que dá origem às sequências causais não pode ser temporal, pois admiti-lo implicaria uma causa dessa causa e uma progressão infinita de causas finais. Ora, para os gregos, a ideia de uma progressão realmente infinita era absurda. Daí a necessidade de uma causa incausada, um movente imóvel, que Aristóteles chamou de Deus (theos). Se tempo e mudança se encontram intrinsecamente ligados, essa causa incausada é a própria causa do tempo. Ela deve possuir três atributos: ser eterna, imóvel e ato puro. Se não fosse eterna, o tempo-mudança que ela causa não seria eterno; se fosse móvel, ela teria causa e não seria mais a causa primeira, o primo motor; se contivesse matéria, ela possuiria potência e seria capaz de mudança. Logo, ela precisa ser ato puro, o motor imóvel do universo, a razão última do mundo sensível.[51]

   Mas então, como é possível que o Deus aristotélico movimente algo sem se mover? Ora, justamente porque ele não é causa eficiente, mas causa final. Assim como somos atraídos pelo bem e pelo belo, também somos atraídos por Deus. O primeiro motor move o mundo como o objeto amado atrai o amante. O “amor” é o que impele o universo rumo à perfeição. Esse Deus imaterial, que orienta o cosmos, Aristóteles concebia como puro pensamento. Como esse pensamento deve ser perfeito, ele não pode pensar em nada que seja inferior a si mesmo, pois fazê-lo seria degradar-se. Por isso, ele só pode ser o pensamento que se pensa a si mesmo: o pensamento do próprio pensamento.

   Estamos, pois, muito longe do Deus pessoal da cristandade, que criou o mundo e responde aos clamores humanos, e mesmo das deidades mitológicas, que intermediavam as ações humanas nos poemas épicos que os gregos tanto prezavam. O Deus aristotélico não se preocupa com o mundo nem interage com ele. Somos nós que, em nossa busca pela perfeição, nos movemos em direção a ele.

   Aristóteles, biólogo atento, acrescentou ainda que, se Deus é pensamento, então ele deve ser vivo, pois o pensamento e a inteligência são inerentes à vida. Como ele escreveu:

 

Se, nessa feliz condição em que às vezes nos encontramos, Deus se encontra perenemente, isso nos enche de maravilha. E se ele se encontra numa condição superior, é ainda mais maravilhoso. E ele se encontra efetivamente nessa condição. E ele também é vida porque a atividade da inteligência é vida. E ele é precisamente essa atividade. E essa atividade, subsistente por si, é vida ótima e eterna.[52]

 

Diversamente do Deus cristão, o movente último aristotélico não pode ser onisciente nem onipotente, posto que ele nem pensa o mundo nem opera sobre ele. Mas ele é eterno e onipresente: permeia todo o universo e tudo faz mover. Sendo assim, ele também está dentro de nós, conduzindo-nos à busca da perfeição. Esse “narciso teológico”, divisado por Aristóteles como o pensamento do que há de mais excelente – ele mesmo – é pura felicidade e, em sua contemplação, também consiste nossa maior felicidade.

   Aristóteles queria saber quantas substâncias imóveis havia na esfera celeste. Por entender pouco de astronomia, atrapalhou-se nos cálculos. Primeiro, acreditou que o número de movimentos rotatórios celestes dos planetas fosse 55, o que implicava que o número de substâncias puras e imóveis subjacentes a esses movimentos fosse igual. Depois baixou para 47, mas esqueceu-se dos movimentos da lua.[53] Como acreditava haver, para além das estrelas fixas, ainda uma causa incausada superior às outras e capaz de ordená-las, ele sugeriu a existência de um movente último, o primo motor, terminando sua Metafísica com uma citação de Homero: “A lei de muitos não é boa; deixem que exista um só legislador”.[54] Indiferente a semelhantes hesitações, o cristianismo inverteu a lógica aristotélica, transformando a causa última em causa primeira, o Deus criador do mundo e as outras substâncias puras em inteligências angélicas.

   Einstein dizia que as ideias vêm de Deus, que se manifesta nas leis eternas que regem o universo. Ingmar Bergman observou que Deus habita no coração dos homens. C. S. Peirce postulou uma evolução cósmica, movida pelo amor criativo, a operar no cosmos (o agapismo). Já os teóricos do caos falam de organização espontânea e de atratores estranhos, sendo aparentemente perceptível uma tendência universal à ordem. Apesar de a terceira lei da termodinâmica prever a morte do universo pelo aumento constante e inevitável da entropia (a dissipação da energia), há princípios de organização, como o da criação da vida, que concentram energia e geram estruturas complexas, ainda que com a função última de aumentar a entropia do universo como um todo. Não é de todo indiscutível que algo não assim tão distante do conceito aristotélico de Deus seja pura metáfora poética, inteiramente irresgatável. E também não é impossível que existam mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã ciência nos permite imaginar.

 

8

 

Ética. Nos tempos de Aristóteles, não havia distinção clara entre ciência e filosofia, e as ciências existiam, em geral, de forma embrionária. Por isso, não importa considerar aqui a sua divisão detalhada das ciências. Hoje, é mais comum que nos apropriemos dessa divisão, distinguindo dois domínios gerais da filosofia: o teórico e o prático. Podemos caracterizar a filosofia teórica como concernente ao mundo e ao nosso acesso a ele (ao input do mundo sobre nós), enquanto a filosofia prática pode ser caracterizada como concernente à nossa resposta a esse acesso, bem como aos produtos dessa resposta (ao nosso output sobre o mundo).

   Tradicionalmente, a filosofia teórica tem como ramos principais a metafísica e a epistemologia, além de áreas mais específicas, como a filosofia da ciência e a filosofia da mente. A metafísica investiga os constituintes últimos da realidade, enquanto a epistemologia investiga nosso acesso cognitivo a esses constituintes e ao mundo em geral. A filosofia prática, por sua vez, tem a ver com a investigação da ação humana e de seus produtos. Nesse campo, a ética sempre foi central, mas também se inclui, certamente, a teoria da ação humana. Já no que diz respeito aos produtos da ação humana, podemos incluir as filosofias da cultura, da política, da história, do direito e da arte, entre outras. Depois da metafísica, a contribuição mais influente de Aristóteles foi a ética.

   Antes de dizer algo sobre a ética aristotélica, convém fazer um mapeamento geral das concepções morais. Existem três momentos da ação moral. O primeiro deles é o da intenção: uma pessoa pode desejar fazer o bem ou o mal. O segundo é o da ação: a pessoa realiza uma ação boa ou má. O terceiro é o da consequência da ação, que também pode ser boa ou má. Geralmente, a boa intenção conduz a uma boa ação, que, por sua vez, conduz a uma boa consequência. Mas nem sempre é assim.

   As éticas que atribuem a origem dos valores morais à intenção do agente são chamadas éticas da virtude. Esse foi o caso das éticas gregas em geral, que não eram individualistas e tinham como objetivo mostrar como o cidadão poderia servir melhor à pólis, em benefício da coletividade. As éticas que atribuem a origem do valor moral à própria ação são ditas deontológicas. Elas procuram estabelecer regras que distinguem a boa (ou má) ação, a exemplo dos Dez Mandamentos do Antigo Testamento. Finalmente, há as éticas que atribuem a origem do valor moral à consequência da ação. Essas são as éticas ditas consequencialistas. Há também três tipos de consequencialismo: o egoísmo ético, defendendo que o bem deriva de cada um procurar obter o melhor para si mesmo (ex.: uma sociedade de celerados); o altruísmo ético, defendendo que o bem deriva de cada um procurar fazer o melhor para os outros membros da comunidade (ex.: os Amishes); e o utilitarismo, defendendo que cada um deve procurar fazer bem a todos, incluindo a si mesmo (ex.: os Tikunas). Eis o esquema geral:

 

                      ÉTICA DA VIRTUDE

                      (fundada na intenção)

 

ÉTICA          DEONTOLOGIA

                      (fundada na ação)                            Egoísmo ético

 

                      CONSEQUENCIALISMO             Altruísmo ético

                      (fundada nos efeitos)

                                                                               Utilitarismo

                                                                               (utilitarismo hedonista)

 

Certamente, tanto a intenção quanto a ação e a consequência possuem relevância moral. Além disso, é claro que quando julgamos uma ação isolada, o que mais nos importa avaliar é a intenção do agente. Uma pessoa pode, com a melhor das boas intenções, realizar uma ação que, contra todas as expectativas, se revela funesta! Nesse caso, ela não poderá ser considerada culpada. No caso individual, a direção do valor moral tende a ser da intenção à ação e da ação ao efeito.

   Não obstante, muito diferente é o que ocorre quando consideramos a fixação dos valores ao longo do tempo em uma sociedade. Do ponto de vista do que, em uma sociedade, ao longo do tempo, acaba por ser estabelecido como possuindo maior valor moral, aquilo que realmente importa são as consequências. Geralmente, quando as consequências de certos tipos de ações humanas em uma sociedade se mostram sempre boas, isso acaba por levar à formação de regras que, uma vez seguidas, trazem boas consequências, tornando boas as ações dos que as seguem. Por exemplo: imagine uma sociedade na qual os porcos estejam infestados de cisticercos, causadores de teníase, e em que os líderes religiosos, percebendo a relação entre o alimento e a doença, decidam instaurar a regra segundo a qual Deus proibiu o povo de se alimentar de carne de porco... A atitude resultante torna-se boa pelo seu bom efeito. Sendo assim, é a permanência de consequências geralmente boas resultantes de um prolongado seguimento das regras que as produzem, aquilo que passamos a chamar de virtude...

   Isso é evidenciado pelo fato de que as regras que levam a boas ações podem mudar conforme as novas realidades socioculturais. Alasdair MacIntyre mostrou que essas regras podem, de fato, sofrer alterações ao longo da história: nos tempos homéricos, a força física era considerada uma virtude, pois, por meio dela, a sociedade era protegida… Nos romances de Jane Austen, a constância torna-se uma virtude maior, pois é um ingrediente indispensável para assegurar um casamento bem-sucedido…[55] Vê-se que, na formação das regras e dos valores morais de uma sociedade, a direção é do efeito para a regra e da regra para a intenção.

   A conclusão desse raciocínio é que o centro irradiador último do valor moral é para ser encontrado nas éticas consequencialistas. Mas qual delas?

   O egoísmo ético tem poucas chances. Ele tem a limitação de restringir a felicidade social: quando cada qual age apenas pensando em seu próprio bem, resta pouco espaço para o amor, para a amizade, para o exercício do que há de socialmente agradável na natureza humana. Esse seria o caso de uma sociedade de celerados, cada qual preparado para subjugar ou matar o próximo. Uma dificuldade encontrada em certas sociedades economicamente muito desenvolvidas é que as pessoas “vivem para si mesmas”, com o bem comum mediado por leis impessoais, o que restringe o espaço para o desenvolvimento de formas naturais de interação altruísta.

   O altruísmo ético também possui suas limitações. Ele tem a desvantagem de limitar a liberdade individual. Esse é o caso de sociedades como a dos Amishes, nas quais se vive um altruísmo coletivo capaz de fazer bem a todos, mas a um preço: a imposição de um forte compartilhamento de gostos e valores, pelo qual a liberdade de desenvolvimento pessoal de seus membros fica comprometida.

   Isso nos leva a pensar que o melhor dos consequencialismos deve ser aquele que propõe um equilíbrio entre egoísmo e altruísmo: o utilitarismo. Segundo o utilitarismo, a boa ação é aquela que resulta em um bem maior para todos, inclusive para o próprio agente. Uma forma adequada de utilitarismo poderia determinar as melhores regras e virtudes para uma determinada sociedade.[56] Desenvolver uma forma adequada de utilitarismo é, contudo, uma tarefa espinhosa, muito mais complexa do que possa parecer à primeira vista (ver Cap. VI, sec. 6).

   Aristóteles, como outros filósofos gregos, estava mais interessado na ética da virtude e via a função da moralidade como maximizar a felicidade da vida coletiva, possibilitando a plenitude (eudaimonia) da vida social por meio de valores gerados no interior da pólis. Em vista disso, ele formulou a moralidade do justo meio.[57] A ação moralmente correta é aquela realizada por um agente que sabe escolher o justo meio entre o excesso e a falta. Assim, uma pessoa corajosa é aquela que sabe escolher o justo meio entre a temeridade e a covardia. Uma pessoa generosa é aquela que sabe se situar entre a avareza e a prodigalidade. Uma pessoa justa é a que é capaz de escolher o meio caminho entre os ganhos e as perdas em geral. Certamente, não se trata de um cálculo aritmético, de uma “ética do medíocre”, como ironizou Bertrand Russell.

   Além disso, as medidas precisam ser calibradas de acordo com a natureza dos agentes e das circunstâncias envolvidas. David não seria corajoso, mas temerário, se decidisse enfrentar Golias em combate corpo a corpo. O cangaceiro Lampião adotava a tática de recuar sempre que se via em desvantagem. Mas ele não fazia isso por covardia, e sim por bom senso.

  Outro aspecto interessante é que, para Aristóteles, o comportamento virtuoso pode ser socialmente aprendido: é como aprender a acertar os dardos no centro do alvo. É preciso exercício e experiência junto às pessoas certas, em uma comunidade suficientemente bem ordenada, para que a pessoa se torne hábil a escolher melhor o justo meio. O velho bordão “junta-te aos bons e serás um deles” encontra aqui sua justificação teórica.

   Surge aqui uma questão: quem decide qual é o justo meio? Um senhor de escravos pode acreditar que age conforme o justo meio da sociedade em que vive. Ele será considerado virtuoso pelos seus pares e, em alguns casos, até mesmo pelos seus escravos, mas suas ações poderão não ser consideradas virtuosas por quem vive em uma sociedade não escravagista. A aplicação da ética do justo meio exige considerações adicionais sobre as condições do mundo social que produziu os valores morais nele vigentes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] A carta certamente nunca existiu, mas segundo A. E. Taylor, Aristóteles só escapou com vida porque Alexandre acabou sendo distraído por outros problemas. Ver A. C. Grayling, A History of Philosophy (Penguin 2020), p. 82.

[2] Sua vocação científica não era ilimitada. Como notou A. E. Taylor, embora ele conhecesse história natural, para outras ciências empíricas ele era mal preparado. Diversamente de Platão, ele não acreditava no movimento da terra, rejeitava o atomismo e a posição de médicos como Hipócrates, segundo a qual o cérebro e não o coração é o centro do sistema nervoso. A. E. Taylor, Aristotle (Dover 1955), pp. 61-62.

[3] Platão: Sofista 246 a-e.

[4] W. K. C. Guthrie, A History of Greek Philosophy (Cambridge University Press 1981), Vol. VI, p. 221. Ver também A. E. Taylor, Aristotle (Dover 1955), pp. 61-62.

[5] Para mais detalhes, ver Giovanni Reale, Aristóteles: Metafísica – Ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale (Loyola 2001), volume I, pp. 27-32.

 

[6] Metaphysics, in The Complete Works of Aristotle, ed. Jonathan Barnes, vol. II. (Princeton University Press 1984), livro III, 1003a 20-26. Ver também Giovanni Reale: Aristóteles: Metafísica – Ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale (Loyola 2001), vol. 2.

[7] Para uma justificação do uso da palavra ‘entidade’ no lugar de ‘ser’, ver o ensaio de Jonathan Barnes, “Metaphysics”, in ed. Jonathan Barnes, Aristóteles (Ideias & Letras 2009), p. 107.

[8] Duas propriedades possuem relação interna quando uma implica necessariamente a outra. Por exemplo: a propriedade de alguém ser pai implica necessariamente a propriedade de outro alguém ser seu filho.

[9] A. E. Taylor, Aristotle (Dover 1956 (1916)), p. 42.

[10] Aristóteles, Metafísica Livro IV, caps. 3-8.

[11] Metafísica, 1005b 19-20.

[12] Metafísica 1011b 23.

[13] A tabela-verdade demonstra esse ponto:

 A   (A → A) → ( A ˅ ~A) → ~(A & ~A)

v         v        v         v         v          v

f          v        v         v         v          v

[14] Alguém poderia observar que o proferimento “Nem está chovendo nem não está chovendo” é aqui verdadeiro. Mas sua forma não pode ser “~P & ~ ~P”, que se reduz à contradição “~P & P”. Por isso, ele deve ser analisado como uma forma elíptica de dizer “Não posso saber se P ou se não-P”, que é um proferimento de atitude proposicional perfeitamente verificável.

[15]  Essa admissão não nos força, por exemplo, a rejeitar lógicas multivaloradas, uma vez que uma sentença considerada mais ou menos verdadeira pode ser analisada em termos de conjuntos contendo um número maior ou menor de sentenças verdadeiras.

[16] Aristóteles, Categorias 2a 11-13.

[17] Categorias 2a 13-17.

[18] “...chamamos de acidente o que não existe nem sempre nem na maioria das vezes”. Metafísica 1026b 30.

[19] Categorias 2b 5-6.

[20] Categorias 3b 18-19. 

[21] Para um estudo atual sobre a teoria aristotélica da substância, ver Kathrin Koslicki, Form, Matter, and Substance (Oxford University Press 2018).

[22] Metafísica  1036ª 1-13. Aristóteles também relaciona a matéria à potencialidade e a forma à atualidade. Mas isso só se torna relevante na medida em que a matéria tem a função teleológica por ele privilegiada: a matéria dos cromossomos tem a potencialidade de produzir a forma de um ser humano. Mas a forma de uma esfera de cobre, quando aquecida, também tem a potencialidade de não passar pelo anel de Gravesande, a menos que essa mesma forma seja alterada. cf. Física I, 192a.

[23] A matéria é aqui vista como “aquilo que em si mesmo nem é uma coisa particular, nem certa quantidade, nem pertence a qualquer categoria pela qual o ser é determinado.” Metafísica 1029a 20-21.

[24] Metafísica 1029a 1-4 (meus itálicos).

[25] Metafísica 1042a 32-34.

[26] Metafísica 1036a 8.

[27] Metafísica, 1044a 23. Da generação e corrupção 329a 30.

[28] Metafísica 1017b 23-25.

[29] Metafísica 1029b3 14-15.

[30] Metafísica 1031a 12-13.

[31] Aristóteles Tópicos Livro IV, 1.

[32] Metafísica 1043a 15-26. Aristóteles define uma casa como “um abrigo para proteger mercadorias e animais”. cf. Jonathan Barnes, Aristotle (Oxford University Press 1996), p. 46. Aristóteles não admitiria uma casa como possuindo uma forma substancial intrínseca, uma vez que é um artefato, mas poderia ter uma forma substancial extrínseca, imposta pelo artífice.

[33] Metafísica 1029a 5.

[34] Categorias 1b 25-27. Tópicos I, 9, 103b 21-24.

[35] Da Interpretação, 17a 38.

[36] Metafísica 1034a 5-8 (meus itálicos).

[37] Metafísica 1036a 28 (meus itálicos).

[38] Metafísica 1038b 10.

[39] Metafísica 1032a 4-6;

[40] Metafísica 1037a 29-32 (meus itálicos).

[41] Metafísica 1033b 20-23 (meus itálicos).

[42] Metafísica 1041b 5-9 (meus itálicos).

[43] Metafísica 1070 a 23 (meus itálicos).

[44] Desde Wilfrid Sellars em “Substance and Form in Aristotle”, Journal of Philosophy, vol. 54, 1957, pp. 688-99, publicado junto ao comentário de Rogers Albritton, “Forms of Particular Substances in Aristotle’s Metaphysics”, Journal of Philosophy 54 (1957) pp. 699-707, distinções tais como a exposta acima têm sido propostas e discutidas. Em meu juízo, sua importância é sistemática e não interpretativa.

[45] Mesmo no caso das formas transcendentes nas quais Aristóteles acreditava – atualidades sem matéria, como o caso do Deus aristotélico, dos motores imóveis das esferas celestes e da razão humana – trata-se também de formas singularizantes, entendidas como atualidades substanciais, puras e únicas.

[46] D. C. Williams, 1953a, “On the Elements of Being I,” Review of Metaphysics, 7(1), pp. 3–18. “On the Elements of Being II,” Review of Metaphysics, 7(2), pp. 171–192.

 

[47] Aristóteles: Física I, sec. 8.

[48] Aristóteles, Física 194b 23-195a-i.

[49] Metafísica 1071b 7-12

[50] cf. o imaginativo artigo de Sydney Shoemaker, em que ele tentou demonstrar que o tempo sem mudança é logicamente possível: “Time Without Change”, in The Journal of Philosophy. 1969, vol. 66 (7), pp. 363-381.

[51] Convém notar que a admissão de que Deus seja ato puro e de que existam substâncias imateriais (Deus, as inteligências celestes, a razão humana) é inconsistente com o insight original do hilemorfismo aristotélico. Essas substâncias deveriam ser formas sem matéria, em outras palavras, formas ou ideias universais supostamente imutáveis, tais como as ideias platônicas. Mas Aristóteles não primava pela consistência ao introduzir elementos platônicos em seu empirismo.

[52] Aristóteles: Metafísica 1072b 24-28.

[53] John Ferguson, Aristotle (Twaine Publishers 1972), pp.124-125.

[54] Metafísica 1076a 4.

[55] Alasdair MacIntyre: Depois da virtude (EDUSC 2001).

[56] Ver “Razões para o utilitarismo (uma introdução utilitarista à ética)”, in Claudio Costa,  Arquiteturas Conceituais (Dialética 2022).

[57] Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro II, sec. 6.

 

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