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segunda-feira, 1 de junho de 2026

A FILOSOFIA NA JAULA DE FERRO (INTRODUÇÃO HISTÓRICA Á FILOSOFIA, cap. XX):

 Draft avançado de um livro a ser publicado pela Europa Books


 

 

 

XX

A FILOSOFIA NA JAULA DE FERRO

 

A necessidade da filosofia só pode nascer em épocas de crise, quando o poder de unificação desaparece da vida dos homens e as oposições, perdendo a sua viva semelhança e a reação recíproca, se tornam independentes.

Hegel

 

 

Como vai a filosofia hoje? Poderíamos vê-la como um empreendimento saudável e vibrante, que avança gradualmente rumo a consensos sólidos em suas áreas centrais, como sugerido no primeiro capítulo deste livro?

   Infelizmente, minha resposta deve ser um categórico “não”. A filosofia do século XXI atravessa um momento difícil. Se excluirmos a filosofia aplicada, além de áreas novas e limítrofes, onde há vitalidade, e nos restringirmos às áreas centrais discutidas nesse livro, é inevitável a impressão de que faltam desenvolvimentos disruptivos.

   Não estou sozinho nessa avaliação. Kevin Mulligan, Peter Simons e Barry Smith observaram que os grandes filósofos da segunda metade do século XX deixaram seus lugares vagos, lamentando a ausência de um diálogo produtivo entre as tradições analíticas, continentais e históricas. Mais do que isso, criticaram o excessivo apelo a abstrações formais na filosofia analítica contemporânea, o que torna suas mensagens desproporcionalmente fracas, senão vazias. Em suas palavras:

 

A filosofia f(a)ntológica triunfa, porque mundos possíveis elegantemente estruturados são lugares muito mais agradáveis de explorar do que a realidade de carne e osso que nos cerca aqui na Terra. (…) Mas uma tradição filosófica que sofre do vício do horror mundi de forma endêmica está condenada à futilidade.[1]

 

A crítica tornou-se ainda mais aberta com Susan Haack, que ousou abrir a ferida com um bisturi crítico sem recorrer a eufemismos. Para ela, a filosofia atual atravessa um verdadeiro “desastre intelectual”[2], percepção compartilhada por Jenny Teichmann, segundo a qual o presente escolasticismo acadêmico acabará por nos levar a discutir quantos filósofos são capazes de se sentar sobre a ponta de uma agulha.[3]

   Antes que eu seja mal interpretado, é importante esclarecer o que não se encaixa nessa crítica. Refiro-me exclusivamente aos desenvolvimentos disruptivos – os que transformam o modo como as coisas são feitas – restringindo-me às áreas centrais, pois são eles os mais propriamente merecedores da venerável palavra ‘Filosofia’. Não me refiro a inovações formais de interesse filosófico, como, digamos, a lógica do grounding e suas aplicações especulativas;[4] nem a desenvolvimentos pontuais,[5] às inovações da filosofia aplicada,[6] a estudos interpretativos[7] ou mesmo reconstrutivos[8]. A Stanford Encyclopedia of Philosophy é, sem dúvida, uma fonte indispensável para compreender um pouco do imenso trabalho que o sistema acadêmico anglo-americano-australiano foi e tem sido capaz de selecionar como relevante. No entanto, quando voltamos o nosso olhar para os desenvolvimentos verdadeiramente disruptivos, os únicos nomes que ainda ocorrem pertencem à última metade do século XX, como Jürgen Habermas, Saul Kripke e John Searle.

 

1

 

Os vícios que afetam a filosofia analítica do século XXI têm sido agrupados sob as rubricas de escolasticismo, cientificismo, hiperespecialização, fragmentação e hermeticismo. A análise desses traços revela as razões pelas quais a filosofia atual se encontra presa a impasses que dificultam avanços disruptivos. Para compreender esse cenário, é necessário começar pelas causas imediatas do fenômeno.

   O primeiro deles, o escolasticismo, foi denunciado em 1983, por D. W. Hamlyn como fruto da cultura dos artigos e dos livros.[9] Mas esse argumento perde força na era da Internet, em que os diálogos podem ser instantâneos, o que parece ter contribuído até mesmo para aprofundar o reciclamento escolástico do que já existe.

    O cientifismo é, aqui, um problema fundamental. Ele foi denunciado por P. F. Strawson e antes dele por Wittgenstein, como resultado de suas discussões com os membros do Círculo de Viena:

 

Filósofos veem constantemente os métodos da ciência diante dos olhos e são irresistivelmente tentados a perguntar e a responder do modo como a ciência o faz. Essa tendência é a fonte real da metafísica e deixa o filósofo na completa escuridão.[10]

 

O cientificismo decorre, em nosso tempo, do desenvolvimento exponencial da ciência e do sucesso da tecnologia dela derivada. A cultura atual tende a substituir a reverência aos deuses pela reverência aos átomos. Assim como já se disse que a filosofia francesa foi corrompida pela literatura, pode-se afirmar que a filosofia analítica anglofônica, hoje quase hegemônica, foi corrompida pela ciência.

   Essa corrupção, denominada cientificismo, manifesta-se tanto externamente quanto internamente. No plano externo, ela se relaciona com as universidades, que há muito tempo se tornaram praticamente o único abrigo para os filósofos. Como observou Susan Haack, as universidades modernas são cada vez mais geridas por CEOs que priorizam a produtividade e exigem que todos estejam engajados na pesquisa. O paradoxo evidente é que onde todos devem ser filósofos, ninguém pode realmente sê-lo.

   Para ascender na hierarquia acadêmica, é preciso publicar sob o imperativo do publish or perish, de preferência em revistas mais prestigiadas, sob a supervisão de avaliadores especializados, atentos aos últimos modismos filosóficos. Uma tal competição selvagem pode até ser eficaz em certos campos da ciência aplicada, mas revela-se contraproducente em filosofia. Ela inviabiliza a formação de uma cultura ampla e diversificada, além de sufocar o lento e independente amadurecimento das ideias – condição essencial para um trabalho filosófico relevante.

   Sob pressão social e diante de uma concorrência esmagadora, os pesquisadores acadêmicos passaram a encarnar a metáfora de Max Weber de um mundo burocratizado, em que indivíduos se tornam pequenas peças de uma imensa engrenagem, tendo como única ambição tornar-se peças um pouco maiores. Essa lógica foi intensificada pela expansão da Internet no século XXI. O número de artigos acadêmicos cresceu de forma tão vertiginosa que avaliações abrangentes se tornaram quase impossíveis, dependendo mais da reputação das instituições e do “status” dos periódicos do que de seus méritos intrínsecos, forçosamente limitados. Nesse cenário, a “habilidade computacional” do operário acadêmico substitui a amplitude e a profundidade do pensamento, já que apenas a primeira admite formas de mensuração cada vez mais técnicas e mecânicas. Vale lembrar que Einstein aprendeu física com uma lentidão exasperante – só comparável à sua inabalável paixão intelectual.[11]

   Afora isso, o autor de um trabalho filosófico deve alinhar seus objetivos às metas vislumbradas por editores cada vez mais inexpressivos e focados em modismos, o que desestimula o desenvolvimento de ideias verdadeiramente inovadoras, pois elas terão mais dificuldade para atravessar o cerco dos burocratas da cultura. Haack acrescentou a isso sintomas de corrupção intelectual, como o carreirismo e o compadrio, somados a “incentivos perversos”, como, em filosofia, a doação de bolsas e premiações dentro de um escopo inevitavelmente restrito e previsível.[12] É fácil entender que desse angu não sairá caroço.

   É nesse ambiente filosoficamente insalubre que o cientificismo revela seu poder de sedução. Do ponto de vista externo, embora tecnicamente exigente, ele não impõe grandes exigências filosóficas – o que contribui para atrair um número significativamente maior de pesquisadores. O especialista precisa apenas dominar um nicho específico de discussão, no qual possa respirar com relativa segurança, munido de alguns dispositivos metodológicos emprestados de alguma ciência particular. Em outras palavras, o filósofo-especialista está dispensado de adquirir uma cultura geral ampla, de estudar a história da filosofia e, muitas vezes, até mesmo de conhecer a história recente do próprio nicho em que atua.

   O cientificismo pode ser entendido, de um ponto de vista interno, como uma imitação do procedimento científico por meio do recurso a desenvolvimentos científicos aplicados indebitamente a um domínio de investigação filosófica. Isso se manifesta, por exemplo, no recurso a formalismos discutíveis, como a tentativa de resolver o problema dos universais por meio de sua redução a conjuntos de indivíduos ou propriedades que são cognitivamente inalcançáveis pela mente humana.[13] Também observamos isso na apropriação de ideias oriundas da ciência empírica, como, entre muitos outros, no caso de filósofos que estudaram os experimentos de Benjamin Libet. Esses experimentos mostraram que, em situações repetitivas de laboratório, o potencial de prontidão no cérebro ocorre antes da decisão consciente de agir. A partir disso, alguns concluíram que o livre-arbítrio não existe.[14]

   É compreensível que tais reações cientificistas conduzam à fragmentação do domínio investigativo. Como reduzir o universal a conjuntos com números indeterminados de elementos, talvez em mundos possíveis inacessíveis, sem ignorar a questão epistemológica? E como tirar conclusões filosóficas dos experimentos de Libet sem pôr entre parênteses, sem excluir ou ignorar, fazendo de conta que não existe toda uma tradição muito mais complexa de questionamento filosófico?

   Sobre a fragmentação, Haack identificou um problema sério, subjacente aos demais, que ela chamou de especialização precoce. O mecanismo é o seguinte: partindo de fundamentos não garantidos, embora integrantes de uma sabedoria herdada, teoristas elaboram alguma “hipótese curiosa”, à primeira vista implausível. Qualquer observador externo, não especializado, dirá que a hipótese curiosa não poderá levar a lugar algum. Mas isso pouco importa. O que interessa é que, uma vez abraçada pelos membros da seita, essa hipótese curiosa gera uma microteoria filosófica que possibilita a todos sustentarem discussões, garantirem bolsas de pesquisa e publicarem em periódicos específicos por um certo número de anos. Eventualmente, escreve ela, o tédio se instala e os participantes abandonam o problema, procurando outra hipótese curiosa com a qual possam reiniciar o jogo.[15] A situação torna-se ainda mais preocupante quando essas hipóteses curiosas e as microteorias por elas geradas passam a se subdividir indefinidamente, sem qualquer limite à vista.[16] Nesse cenário, o que se vê não é uma evolução sustentada por fundamentos sólidos, mas uma sucessão de hipóteses curiosas que, embora sofisticadas em aparência, carecem de qualquer garantia epistemológica.

   A esse cenário de pseudoespecialização, Haack contrapõe o da especialização genuína, que emerge de um campo científico bem fundamentado. Nesse caso, a especialização é produtiva, pois se desenvolve sobre bases sólidas. Já a hiperespecialização filosófica é construída sobre bases hipotéticas instáveis e incertas, o que exigiria um rigoroso questionamento da “sabedoria herdada”, o que é proibitivo, pois poria em questão toda a base de acordo comum vigente entre os participantes das discussões em um determinado domínio filosófico.

   Haack também observou que, quando se trata dos diferentes grupos de teóricos que trabalham na mesma problemática, cada grupo se orienta segundo suas próprias hipóteses curiosas, evitando discutir uns com os outros. Isso não deveria surpreender: afinal, a comparação de duas improbabilidades leva à sua multiplicação, o que só contribui para tornar mais patentes suas fragilidades.

   Tomando como exemplo as teorias da referência na filosofia da linguagem, observamos também uma multiplicação de abordagens: há quem defenda teorias metalinguísticas, outros optam pelo predicativismo, pelas semânticas bidimensionais, pelos referencialismos, pela teoria dos arquivos mentais e até mesmo por neodescritivismos… Todos esses modismos teóricos fragmentadores dependem da formação de “panelinhas, nichos, cartéis e feudos”, como Haack, ironicamente, os chamou”[17]. Tais agrupamentos, no entanto, revelam-se mal orientados se admitirmos a possibilidade de construir uma teoria da referência realmente abrangente, que revolucione os fundamentos externalistas-causais (capitaneados por Saul Kripke) ou, mais raramente, os fundamentos internalistas-descritivistas (capitaneados por John Searle[18]) que cada grupo sustenta de forma dogmática como a sua “sabedoria herdada”.

   Como notei acima, tais disputas poderiam ser resolvidas de forma definitiva, caso dispuséssemos de uma teoria da referência abrangente, capaz de solapar os fundamentos que cada grupo aceita de forma dogmática. No entanto, empreender uma iniciativa com essa amplitude seria embarcar numa aventura difícil, perigosa e prolongada, além de ser uma empreitada inevitavelmente destrutiva para o mainstream, ao chocar-se com os interesses estabelecidos, pois desfaria anos de trabalhos especializados nos múltiplos subdomínios de hiperespecializações microteóricas mal-fundamentadas já abertos. Por isso, é improvável que alguém inserido no meio acadêmico se atreva a realizá-la em plena consciência. Paradoxalmente, é justamente esse tipo de aventura que seria capaz de viabilizar um verdadeiro progresso do pensamento.[19]

   Cientificismo, hiperespecialização e fragmentação estão interligados. São sintomas de uma mesma síndrome reducionista, responsável pela multiplicação de becos sem saída filosóficos, perfeitamente inúteis, a menos que sirvam para dar o que fazer aos seus praticantes. Esses impasses se multiplicam porque seus fundamentos – tênues e vacilantes – são assumidos dogmaticamente. Como resultado, tornam-se obstáculos à formulação de soluções reais, suficientemente abrangentes para os problemas que se propõem a enfrentar.

   O resultado final de todo esse movimento tem sido o declínio da filosofia analítica em suas áreas mais centrais e exigentes. A situação lembra a descrição da decadência da filosofia durante os tempos finais do Império Romano feita por Edward Gibbon:

 

A autoridade de Platão e Aristóteles, de Zenão e Epicuro, reinava ainda nas escolas; e seus sistemas, transmitidos com cega deferência de uma geração de discípulos a outra, frustravam qualquer tentativa generosa de exercer os poderes ou ampliar os limites da mente humana. Os primores dos poetas e oradores, em vez de se inflamarem por si mesmos, inspiravam apenas frias e servis imitações… O nome de “poeta” fora quase esquecido; aquele de “orador” foi usurpado pelos sofistas. Uma nuvem de críticos, compiladores e comentadores obscurecia a face do saber, e, em breve, seguiu-se ao declínio do gênio a corrupção do gosto.[20]

 

Parece que nos encontramos hoje em um período histórico que, culturalmente, apresenta semelhanças com o que foi descrito por Gibbon, embora suas causas sejam muito diversas. Trata-se, ao que parece, do que o historiador Jacques Barzun descreveu como o final do grande arco civilizatório da cultura ocidental, que começou com o Renascimento e a Reforma e se encerra agora, em nosso tempo, como o fim de uma era histórica – sem pretender negar que o futuro se encontra aberto e que novas formas de pensamento são possíveis.[21]

   O declínio da filosofia analítica em suas áreas centrais tem ocorrido de forma um tanto diversa do que foi descrito na passagem acima, embora com causas semelhantes. Eis como creio ser capaz de descrever seu mecanismo limitando-me ao que chamo de um sucessivo rebaixamento de nível[22] – uma noção intuitiva que remete à profundidade, escopo e abstração:

Estágio 1: os pais fundadores. Aqui apareceram filósofos de primeira linha, os fundadores da filosofia analítica: Frege e Wittgenstein, os dois únicos gênios, no topo, seguidos por Russell – pessoas tão inteligentes que poderiam dialogar com Leibniz. Eles pertenciam a um mundo à parte, ainda extremamente hierárquico e elitista (no melhor e, certamente, também no pior sentido). Revoluções culturais geralmente surgiram do vazio produzido por grandes conflitos sociais que exigiam a renovação de valores. O mundo marcado pelos abismos socioculturais que levaram às Guerras Mundiais forneceu o fermento necessário aos grandes feitos culturais da primeira metade do século XX;

Estágio 2: segunda posição. Depois deles vieram os filósofos de segunda linha, cientificistas do positivismo vienense, como Rudolf Carnap e, na Inglaterra, A. J. Ayer. Sem negar seus grandes aportes positivos, eles contribuíram para desvirtuar a “sabedoria herdada” dos primeiros. O caso mais sério foi a rejeição do princípio da verificação proposto por Wittgenstein, que eles não souberam compreender, mas que legaram aos tempos atuais como parte de uma nova “sabedoria herdada”. (Cap. XVIII, sec. 4)

Estágio 3: a revolta americana. Então, vieram os filósofos analíticos norte-americanos, com uma vocação mais pragmática. Não tendo mais a adicionar e fortemente influenciados pelos positivistas imigrados, como o próprio Carnap, decidiram viver de desafios à la Hume, ainda que muito inferiores. Eram gente como W. V. O. Quine (a distinção analítico/sintético não se justifica), seguida por gente como Saul Kripke (o nome próprio se refere quando vem no final de uma cadeia causal externa resultante de um batismo) e Hilary Putnam (o significado está fora da cabeça), todos eles também filósofos de segunda linha, não por falta de intelecto (Kripke foi genial), mas pelo simples fato de que seu brilhantismo intelectual era comprometido por limitações metodológicas. Esses filósofos desenvolveram estratégias inteligentes e imaginativas para afrontar a sabedoria herdada dos já desaparecidos filósofos de primeiro e segundo nível, propondo suas próprias teorias formalmente inspiradas, reducionistas e em sua essência equivocadas – a marca patognomônica do erro consistindo aqui no caráter demasiado anti-intuitivo de seus desafios – razão pela qual nenhum deles queria mais ouvir falar do segundo Wittgenstein, com sua terapia baseada no apelo a intuições da linguagem natural, cuja finalidade era desfazer os equívocos de filosofias cuja orientação formalista e cientificista era reducionista ao excluir o que parecesse lhes contradizer. Eram, apesar disso, brilhantes. Mesmo John Searle e Ernst Tugendhat – isolados defensores das velhas ideias – não estavam preparados para refutá-las com eficácia.

Estágio 4: escalação contrária. Com a aceitação desses relevantes desafios, e a produção de outros muito menores, lançados por gente como Timothy Williamson (Gettier estava certo, logo o conhecimento é simples) (Cap. II, sec. 5), John McDowell (se o significado está fora da cabeça é porque a mente, seu locus, também está), Francisco Varela (um budista praticante que achava que o corpo é parte de nosso aparato cognitivo e não apenas sua condição) e David Chalmers (defesa do dualismo e de que os computadores são extensões de nossas mentes), uma nova “sabedoria herdada” se instalou, em que tudo poderia ser questionado, abrindo o campo para qualquer nova hipótese curiosa com múltiplas ramificações microteóricas. O resultado desse acúmulo de erros, considerado parte da sabedoria herdada, foi a perda da força integradora gerada pela consiliência (Cap. I. sec. 9). Como a partir do erro tudo pode seguir, abriu-se um imenso espaço para a especulação infundada e superficial, cada vez mais distante de qualquer coisa que possa ser chamada de plausível.

Estágio 5: proliferação democrática. O resultado esperado, com os filósofos de terceira, quarta e até de qualquer linha despontando em multidões, deverá ser que qualquer microteoria, por mais rasa que seja, será prontamente aceita, desde que siga os padrões estabelecidos pela mais recente “sabedoria herdada”, se encaixe em algum nicho de “hipóteses curiosas” e empregue o vocabulário técnico apropriado. Com isso, a filosofia tornar-se-á, enfim, plenamente “democrática”: “cada cabeça, um filósofo” – um brinquedo acessível a qualquer número de praticantes suficientemente inconscientes e descompromissados; uma Torre de Babel de inúmeras línguas; multidões de perus sem cabeça a rodopiar sem qualquer direção…

   Não estou querendo sugerir, com essa provocação, que estamos destinados à decadência, mas sim que uma completa reconfiguração do pensamento pode estar sendo exigida.

   Finalmente, Haack não escreveu sobre o que poderíamos chamar de “filosofia popular” – a contraparte continental da filosofia analítica anglo-americana, que resistiu à tentação da fragmentação cientificista, mas, em compensação, cedeu espaço à retórica filosófica e à pseudoprofundidade, o requerendo uma terapia wittgensteiniana urgente. Trata-se, em ponto menor, do desacerto do ampliacionismo ilusionista (inaugurado por Kant e Hegel) em lugar do desacerto do reducionismo cientificista (idealmente exemplificado pelo Wittgenstein do Tractatus e pela obra de Saul Kripke). Exemplos são, hoje, Slavoj Žižek, Markus Gabriel e Quentin Meillassoux.

   Žižek, inspirado em Hegel, Marx e Jacques Lacan, é um intelectual público que tem promovido uma crítica social imaginativa e de maior relevância.[23] No entanto, sua abordagem teórica torna-se “lacaniana” no sentido de permanecer enredada em imbróglios conceituais expressivos, sem conseguir superá-los. (Como um crítico observou, ele é suficientemente inteligente para elaborar boas críticas, mas não o bastante para construir uma teoria consistente.)

   Markus Gabriel, por sua vez, alia imaginação à superficialidade. Ele remasteriza a herança cultural na produção de “pseudo-thaumas” – efeitos de maravilhamento – destinados a um público despreparado e pueril. Sua tese de que o mundo como a totalidade das coisas não existe, pois nesse caso não teríamos nada com o que compará-lo, apoia-se na ideia de que a existência de algo só pode ser atestada em relação a um sistema de coisas existentes (Carnap). Contudo, usamos a palavra ‘mundo’ para indicar o somatório daquilo que sabemos existir e do que ainda não sabemos que existe, o que não exige comparação com coisa alguma (cf. Cap. XI, sec. 15).

   Já Meillassoux constrói fantasias intelectuais sofisticadas que, no fundo, permanecem presas à tradição escapista do pós-modernismo. Sua tese de que a ciência lida com “eventos ancestrais” – acontecimentos anteriores ao surgimento da vida e do pensamento – pretende abalar o correlacionismo, segundo o qual o ser é sempre “ser-para-um-sujeito”.[24] Mas mesmo essa formulação já é problemática: não há razão convincente para que o existente (o ser) deva ser reduzido a essa dependência estrita. O conhecimento, mesmo que indireto, de realidades passadas é também conhecimento de “seres-para-sujeitos”. Podemos conceber, sem dificuldade, que, se jamais houvesse surgido um sujeito cognitivo, o universo continuaria a existir. Mas sabemos que se tais sujeitos viessem a existir, eles poderiam ter a experiência desse universo. Isso basta para mostrar que tais possibilidades não escapam ao horizonte do “seres-para-sujeitos”. As provocações de Meillassoux, apoiadas em ambiguidades linguísticas, não resistem a uma crítica modesta. Contrastam com a originalidade genuína de Hume, o filósofo profundo em que se escora. A originalidade filosófica só é verdadeiramente explosiva quando combinada à relevância.

 

2

 

Fatores remotos. Com as observações feitas até aqui, procurei considerar as causas imediatas das dificuldades enfrentadas pela filosofia contemporânea. Mas não basta apontar os vícios internos da filosofia acadêmica. É preciso entender por que a sociedade como um todo não reagiu à sua burocratização nem ao seu empobrecimento cultural. Há fatores mais remotos e complexos que merecem atenção. Após a Segunda Grande Guerra, o mundo entrou em um período de relativa estabilidade, e a filosofia foi domesticada por um sistema universitário muito mais extenso, que cada vez mais exigia conformidade com padrões mais comportados de fabricação do conhecimento.

 

O que se segue é uma tentativa de lançar alguma luz sobre essa questão, sem pretender chegar a conclusões definitivas.

   Max Weber apontou para um fenômeno sociocultural profundo e pervasivo no curso do desenvolvimento da civilização, que denominou de desencantamento do mundo (die Entzauberung der Welt)[25]. Embora Weber tenha se concentrado no exame de processos sociais decorrentes da Reforma Protestante e do desenvolvimento das economias capitalistas, sua origem é mais remota. No início do processo civilizatório, o mundo era visto como algo vivo, capaz de possuir entendimento e paixão e responder aos apelos humanos. As práticas culturais que presidiam as comunidades humanas eram organicamente construídas com base nas interações sociais do assim-chamado mundo da vida (Lebenswelt) – o espaço do agir quotidiano. Mesmo após a emergência do monoteísmo judaico-cristão-muçulmano, quando as comunidades eram administradas em associação com lideranças religiosas, ainda havia santos e milagres e uma vida social profundamente regulada pela religião; o mundo ainda era repleto de magia.

   Contudo, especialmente com o avanço da economia capitalista no final do século XIX e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia que a sustentaram, instaurou-se uma ruptura muito mais profunda em relação à visão religiosa anteriormente dominante. Ainda que as religiões continuem exercendo influência, hoje elas acompanham mais do que presidem a vida humana. O que se observa é uma substituição gradual – e atualmente acelerada – do mundo animista por um mundo cada vez mais secular, cada vez mais “mundanizado”. O progresso científico e técnico contribuiu decisivamente para o enfraquecimento da magia e da força institucional do universo místico. No plano da organização social, essa transformação foi impulsionada por processos que Max Weber denominou de racionalização (em que tudo deve ser esclarecido, calculado e controlado), burocratização (quando os processos sociais passam a ser regidos por regras, números e critérios de eficiência, em detrimento da tradição) e secularização (que desloca a religião para o âmbito da crença privada).

   Esses processos tornam a produção de bens mais eficaz, mas frequentemente se estabelecem a custo da desconsideração daquilo que Weber chamou de ação valorativa (wertrationales Handeln). Sob tais condições, a alienação torna-se inevitável, no sentido de que o indivíduo perde sua autonomia, transformando-se em peça de um mecanismo que não domina e se desvincula do enraizamento natural no mundo da vida. Hoje, quando a ciência, em suas aplicações técnicas, conquista cada vez mais a vida humana, vivemos sob a égide dessa forma intensificada de desencantamento. Como sintetizou Jürgen Habermas, a patologia do mundo contemporâneo consiste na colonização do mundo da vida pelo sistema, entendendo-se por sistema as instituições de poder econômico e político.[26] Uma razão para ser assim é que os sistemas são “autopoiéticos”: uma vez estabelecidos, organizam-se e desenvolvem-se de modo autônomo, sobretudo quando deixados à revelia de um controle social suficientemente crítico, capaz de garantir que continuem a servir aos interesses da sociedade que os criou. Mas isso não é tudo.

   Weber introduziu o conceito de desencantamento sob a influência de Nietzsche, o que nos remete à questão do niilismo. Uma consequência da perda do papel fundacional da crença religiosa na sociedade pode ser o niilismo, entendido como a dissolução dos valores morais e o esvaziamento dos sentidos compartilhados. Esse vazio pode ceder lugar a seitas místicas degeneradas e, na filosofia, a patologias escapistas como o pós-modernismo.[27]

   Embora Weber reconhecesse a importância dos processos de racionalização, burocratização e secularização para o aprimoramento do desempenho social, ele também foi um crítico enérgico de suas limitações e dos riscos de produzirem efeitos colaterais, culturalmente e socialmente patológicos. É emblemática, nesse sentido, sua célebre metáfora da “jaula de ferro”, que ilustra a perda da autenticidade da vida interior em um mundo progressivamente desumanizado por um aumento sem limites da racionalização/burocracia/secularização:

 

Ninguém sabe quem irá viver nessa jaula no futuro, ou se, no final desse tremendo desenvolvimento, profetas inteiramente novos surgirão, ou se haverá um grande renascimento de velhas ideias e ideais, ou se nada disso, apenas petrificação mecanizada, adornada por uma,espécie convulsiva de auto-importância. Para o “último homem” desse desenvolvimento cultural poder-se-á dizer com amarga precisão: “Especialista sem espírito, sensualista sem coração; essa nulidade imagina que conquistou um nível de humanidade nunca antes alcançado”.[28]

 

O sistema econômico-institucional orientado para fins (Zwecksorientiert) dissolveu os modos míticos de apreensão e de domínio da realidade, organicamente gestados no interior de formas de vida pretéritas. Em seu lugar, instauraram-se instituições burocráticas que moldam, de forma empobrecida e alienadora, os interesses humanos.

   Na contemporaneidade, esse sistema revela-se ainda mais proeminente, marcado pela forma atual do que Herbert Marcuse chamava de capitalismo tardio. Os efeitos são manifestamente alienadores: os indivíduos passam a operar como pequenas peças cuja única ambição é tornar-se peças maiores no interior de um imenso maquinismo, no qual, sem perceberem, trilham um caminho que, no dizer de Weber, só poderá conduzi-los à “noite polar da mais gélida escuridão”[29]. Esse diagnóstico só não é mais pessimista porque, como notei, ele acreditava que a mesma sociedade que forja as jaulas de ferro também carrega em si o potencial para reabri-las.

   Convém notar que os processos de burocratização, racionalização e secularização engendram outro elemento ideológico indispensável ao esclarecimento da problemática aqui abordada: o fenômeno de massificação da cultura, frequentemente denominado indústria cultural. A alta cultura do passado já não atende aos propósitos ideológicos da sociedade tecnológica em que vivemos, cada vez mais intoxicada pelo hedonismo materialista. A cultura de massa suspende o elemento reflexivo e, possivelmente, conflitante que emerge sempre que se confronta uma vida dominada pela ação voltada à consecução de fins materiais (zweckrationales Handeln) com a ação valorativa (wertrationales Handeln). Isso implica o rebaixamento do potencial crítico da arte e da religião, que devem ser tornadas banais o suficiente para paralisar qualquer potencial de formação de conteúdos críticos capazes de perturbar a organização social. Tal dinâmica manifesta-se, por exemplo, na regressão da qualidade do gosto musical – fenômeno que Theodor Adorno denominou “regressão da audição” – e na simplificação e popularização dos rituais religiosos. Traduzindo para os dias atuais, a conclusão é que o ser humano se encontra tão profundamente mergulhado na cultura de massa produzida pela assim chamada indústria cultural que, por mais que se esforce, tornou-se incapaz de perceber o grau de sua própria alienação. Mais do que isso, junto com a burocratização, a indústria cultural tem se infiltrado profundamente na própria instituição universitária, o que se manifesta de forma evidente na prática filosófica. A universidade, cada vez mais orientada pelo imperativo do progresso científico-tecnológico, passou a restringir o florescimento da filosofia enquanto expressão de uma cultura superior, dotada de suficiente amplitude reflexiva e crítica.

   A questão que importa é a seguinte. Por que a sociedade, que tem o poder de questionar e neutralizar o processo de burocratização quando ele se revela distorcedor e massificador da cultura, ainda não o fez? Como Jürgen Habermas demonstrou, por meio do discurso dialógico (Diskurs) é possível instaurar situações ideais de fala (ideale Sprachsituationen) nas quais coerções externas se tornem (minimamente) presentes, o acesso à informação se torne (quase) irrestrito e os interlocutores estejam (suficientemente) comprometidos com a busca da verdade. (ver Cap. I, sec. 9) Em tais situações, a atividade valorativa torna-se possível e a atividade voltada para os fins pode ser reavaliada.

   Uma maneira de responder à questão poderia vir de Freud.[30] Para ele, o ser humano é, por natureza, inimigo da cultura. A civilização – incluindo-se nela a alta cultura – representa uma arma de dois gumes: se de um lado facilita a vida, de outro demanda repressão pulsional, oprimindo o indivíduo. Na modernidade europeia (de Descartes a Kant e Hegel), havia espaço para a alta cultura na música, na literatura e na filosofia, justamente em função das exigências restritivas impostas pela civilização. A elas impõem-se tensões sociais na Grécia Antiga, no Renascimento, na Europa da primeira metade do século XX. Note-se, por exemplo, que na época de Bach, uma cidade alemã como Leipzig, com 30 mil habitantes, tinha quatro ou cinco locais de concerto. E a Königsberg de Kant tinha cerca de 65 mil habitantes, um número equivalente ao da cidade de Felgueiras, no norte de Portugal. A Revolução Industrial parece ter reduzido significativamente a pressão repressiva necessária à sustentação da alta cultura, um fenômeno já percebido por Nietzsche. E o mundo tecnológico contemporâneo ofereceu alívio ainda maior dessa pressão, compatível com um modus vivendi que lhes custa o trabalho em troca do prazer material. Essa seria, sob o ponto de vista freudiano, a razão profunda da rejeição que a alta cultura vem sofrendo: o ser humano não parece mais precisar dela. Bach, Goethe e Leibniz tornaram-se, aparentemente, supérfluos.

   Não obstante, muitos argumentarão que a explicação freudiana, embora possa conter elementos de verdade, é insuficiente, pois o fenômeno em questão reflete as distorções geradas pela superestrutura ideológica do sistema capitalista. Filósofos influenciados por Marx, como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse, atribuíram ao capitalismo tardio a responsabilidade pela alienação cultural do homem contemporâneo, vítima do que denominaram “indústria cultural”[31]. Freud estaria, pois, tratando da natureza humana sem considerar que o sistema capitalista a tem modelado ideologicamente, e não como ela teria o potencial de se tornar, fora das camisas de força impostas por esse sistema.

   Herbert Marcuse, ao combinar Freud e Marx, introduziu o conceito de dessublimação repressiva[32]: a repressão é necessária à civilização capitalista, conquanto seja dessublimada. Nossos desejos só podem ser satisfeitos se não ameaçarem as estruturas sociais e econômicas vigentes. Nesse contexto, a superestrutura ideológica de nosso capitalismo tardio tecnocrático fomenta uma forma de filistinismo cultural que torna os indivíduos mais úteis à produção tecnológica e ao consumo de seus produtos, num ciclo vicioso de trabalho e consumo que, se deixado à revelia, acaba por se tornar destrutivo. A negligência em relação à natureza é um exemplo emblemático desse processo.

   Sob essa perspectiva, a prática filosófica tampouco escapa às vicissitudes impostas pela dessublimação repressiva. Historicamente ela tem servido – e continua a servir – à superestrutura ideológica, apesar dos esforços críticos de gente como Marx, Nietzsche e Wittgenstein. Mas agora ela o faz em um nível inferior, pois a fragmentação cientificista limita os horizontes do filósofo culturalmente alienado, transformando-o, ou em analítico reducionista, comprometido com o cientificismo da sociedade tecnocrática, ou, no caso da filosofia continental, em um ampliacionismo ilusionista, em maior ou menor medida comprometido com a produção dos imbróglios conceptuais do pós-modernismo.

 

 

3

 

Consiliência como caminho. Existe uma saída para essas atribulações? Também aqui Haack apontou para o caminho certo, tomando como modelo o gênio filosófico de C. S. Peirce. O que está faltando é uma filosofia mais propriamente abrangente – o que também equivale a dizer mais profunda. Trata-se de seguir o conselho que Wittgenstein deu a si próprio em um de seus diários:

 

Não se envolva em problemas parciais, mas sempre alce voo para onde há visão livre do todo, o grande único problema, mesmo que essa visão ainda não seja clara.[33]

 

Como ele também notou, cabe à filosofia buscar abrangência por meio de representações panorâmicas ou sinópticas (übersichtliche Darstellungen) de nossa gramática conceitual.[34] Ernst Tugendhat, em sintonia com essa perspectiva, definiu a filosofia como um esforço de elucidação da rede formada por nossas estruturas conceituais centrais, constitutivas de nosso entendimento do mundo como um todo.[35] Nada muito distante das questões do tipo “O que é X?” que já havíamos encontrado nos diálogos socráticos.

  À abrangência, Haack acrescentou um elemento heurístico, por ela denominado “busca por aproximações sucessivas”, a partir de uma concepção inicial suficientemente vaga e genérica. Podemos comparar esse procedimento à arte de pintar: começa-se pela concepção como um todo, uma vaga exibição de formas, cores, luzes e sombras… Gradualmente, as formas são delineadas com mais precisão, erros são detectados e corrigidos, detalhes e tonalidades são adicionados e aquilo que, a princípio, parecia borrões incompreensíveis acaba sendo transformado em imagens claras, convincentes e belas. Podem ser pinturas a óleo, colagens, afrescos… A obra de Habermas, por exemplo, me parece comparável a uma série de grandes painéis com alguns momentos de notável densidade, como o de sua pragmática universal.

   Para justificar esse método, Haack recorreu à noção de consiliência, já mencionada no primeiro capítulo deste livro (sec. 9). A consiliência é um pressuposto heurístico indispensável ao progresso da ciência.[36] Embora o conceito tenha sido historicamente explorado de maneiras diversas, eu prefiro entendê-lo aqui como expressando a ideia de que as teorias de diferentes disciplinas científicas, na medida em que se aproximam, tendem a se reforçar mutuamente sob a assunção de que o mundo possui uma estrutura unitária.[37] É fácil ver como a consiliência funciona na ciência. Entre os muitos exemplos, considere como a genética molecular, a genética mendeliana, a teoria da evolução e teorias histórico-geológicas, se interconectam, reforçando-se, por coerência, umas às outras em suas verdades.  A originalidade de Haack reside em aplicar essa noção de consiliência às teorias filosóficas. Como ela escreveu:

 

O que eu quero dizer é que existe um mundo real, um “universo pluralista”, para tomar de empréstimo a frase de James, e que todas as verdades sobre esse mundo complexo e variado, de algum modo, se combinam.[38]

 

Assim como teorias científicas se reforçam umas às outras quando são verdadeiras, também as ideias, teorias e concepções filosóficas, na medida em que contiverem verdade, tenderão a se reforçar umas às outras por consiliência. Além disso, essa consiliência deve estender-se para além dessas ideias e teorias, abrangendo as diferentes subáreas da filosofia, e deve também demandar consonância com nossa atual visão científica do mundo, bem como com o nosso conhecimento do mundo por meio do que gostaria de chamar de senso comum humilde (‘moorean’, na palavra de D. E. Armstrong).[39]

     Isso implica que o filósofo deve possuir uma sólida formação científica, filosófica e humanista. A ciência pode ser convocada para auxiliar em certos casos, mas não para dirigir a reflexão filosófica. A adoção da consiliência, nesse contexto, exige um procedimento por aproximações sucessivas, buscando integrar as ideias filosóficas à medida que se mostram coerentes entre si e com o restante de nosso conhecimento. A admissão disso opõe-se frontalmente ao reducionismo escapista das microfilosofias que se acumulam diante de nós e que só servem para manter as pobres almas filosofantes conversando de forma edificante umas com as outras, parafraseando Richard Rorty.[40]

   É evidente que não podemos abordar as questões hoje da mesma maneira que Kant ou Hegel. Tampouco é possível fazê-lo sem uma reconsideração profunda das contribuições dos filósofos tradicionais e plena consciência dos indiscutíveis progressos obtidos pela filosofia do século XX e pela ciência contemporânea – sem, para tal, tentar absorver indebitamente a filosofia na ciência. No entanto, parece perfeitamente viável enfrentar esse desafio ainda hoje, do interior dos mais rigorosos espaços de investigação de que dispomos.[41]



[1] Kevin Mulligan et al., “What is Wrong with Contemporary Philosophy?” Topoi, 2006, 63-67.

[2] Susan Haack: “The Fragmentation of Philosophy, The Road to Reintegration,” in Reintegrating Philosophy. Ed. J. F. Göhner, Eva-Maria Junger (Springer Verlag 2016), p. 5.

[3] Jenny Teichmann: “Don’t be Cruel or Reasonable”, in Polemical Papers (Ashgate 1997), p. 134. cf. também Harry Frankfurt, On Bullshit (Princeton University Press 2005).

[4] Fabrice Correa, Logic of Grounding (Cambridge University Press, 2025).

[5] Maurin, A-S. “Infinite Regress – Virtue or Vice?” In Philosophical Papers: Hommage à Wlodek, 2007.

[6] Por exemplo, L. Anderson & E. Lepore (eds.), The Oxford Handbook of Applied Philosophy of Language (OUP 2024).

[7] Como nos excelentes textos interpretativos sobre filósofos tradicionais publicados pela Routledge.

[8] Katrin Koslicki, Form, Matter, Substance (Oxford University Press 2018).

[9] D. W. Hamlyn, Uma história da filosofia ocidental (Zahar 1990), p. 398. O original foi publicado em 1987.

[10] The Blue and the Brown Books (Basil Blackwell 1958), p. 18.

[11] Isso não acontece só na filosofia. Já há muitos anos, D. G. MacRae queixou-se de que não é mais possível produzir um Max Weber, uma vez que ninguém mais dispõe do tempo e da liberdade quase ilimitados na aquisição de conhecimento que eram dadas aos professores da universidade alemã do início do século XX.

[12] “Scientistic philosophy, No; scientific philosophy, Yes.” In Philosophical Investigations, vol. 15, 2021, pp. 4-35, 26.

[13] Keith Campbell, Abstract Particulars (Oxford: Blackwell, 1990). O problema é que essa espécie de solução separa a ontologia da epistemologia, tornando-a cognitivamente vazia. A classe dos tropos (ou objetos) vermelhos é imensa e, portanto, não passível de acesso cognitivo; logo, o universal ‘vermelho’ é incognoscível.

[14] Harris, S., Free Will (Free Press 2012).

[15] Susan Haack, “The Fragmentation of Philosophy, The Road to Reintegration,” a.a.O., p. 24.

[16] cf. Scott Soames, Philosophical Analysis in the Twentieth Century (Princeton University Press 2003) vol. II, Epílogo. Opostamente a Haack, Soames viu essa multiplicação de subespecializações de forma positiva como a marca da filosofia atual.

[17] Susan Haack, “Scientistic Philosophy, No; Scientific Philosophy, Yes”, p. 24.

[18] John Searle, “Proper Names”, Mind 1958, vol 67(n. 266), pp. 166-173.

[19] Digo isso por experiência própria, uma vez que eu mesmo me considero uma inesperada exceção, como autor do livro How do Proper Names Really Work? (De Gruyter 2023). O livro desafia a sabedoria herdada ao propor uma teoria abrangente que confronta a fragmentação teórica responsável pelas inúmeras microteorias da referência, resolvendo de vez os problemas. Como não vi até agora nenhuma recepção entre especialistas, concluo que a principal razão é que, se levado a sério, o livro desmontaria a indústria dos microproblemas da referência da qual tantos se alimentam.

[20] The History of the Decline and Fall of the Roman Empire (Penguin Books 2001), cap. 2 (On genius).

[21] Jacques Barzun, From Dawn to Decadence: 500 Years of Western Cultural Life, 1500 to the Present (Harper Collins 2000).

[22] A palavra ‘nível’ designa aqui profundidade, escopo e abstração, geralmente capaz de reformular um arcabouço teórico. Nesse sentido, A. J. Ayer considerava-se, com orgulho, um filósofo de segundo nível se comparado a Russell e Wittgenstein.

[23] Less than Nothing. Trad. port. Menos do que nada (Boitempo 2012).

[24] Aprés la Finitude. Trad. Port. Após a finitude (ed. 7Letras 2021), cap. 1.

[25] Ver Max Weber, „Wissenschaft als Beruf“. Trad. port. “Ciência como vocação”, in Ensaios de sociologia (LTC 1982), pp. 97-107.

[26] Jürgen Habermas, „Entgegnung.“ In A. Honnett, Joas H. (1986) Kommunikatives Handeln (Suhrkamp, 1986), pp. 327-417.

[27] Note-se, por exemplo, que não temos sequer uma ciência da moralidade capaz de substituir suficientemente a moral teológica, apesar de mais de dois milênios de reflexão filosófica sobre o tema. Essa lacuna permite o surgimento de seitas como as do reencantamento místico e de ideologias escapistas como o pós-modernismo. Ambos oferecem respostas vazias a uma demanda por fundamentos éticos mais sólidos que são insuficientes para suprir.

[28] Max Weber, Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus (1905). Trad. port. A ética protestante e o espírito do capitalismo. In coleção Os Pensadores n. 37 (Abril Cultural 1974) p. 236.

[29] Max Weber, Political Writings. Ed. Peter Lassman (Cambridge University Press 1994), xvi.

 

[30] Sigmund Freud, Das Unbehagen in der Kultur. Trad. port. O mal-estar na civilização (Imago 1997).

[31] Theodor Adorno & Max Horkheimer, Dialektik der Aufklärung (philosophische Fragmente) (Fisher Verlag 1969). Trad. port. Dialética do esclarecimento (Zahar 1985). Uma antecipação de teses da teoria crítica da sociedade já se encontrava em Thorstein Veblen, com sua Teoria da classe ociosa (1899). Outros autores de importância foram Antonio Gramci, (Cadernos do cárcere) e Louis Althusser (“Ideologia e aparelhos ideológicos de estado”). Ideias como a de hegemonia cultural (Gramsci) podem ser vistas como complementares, mais do que substitutivas, à prioridade da base econômica defendida por Marx.

[32] One-Dimensional Man: Studies in the Ideology of Advanced Industrial Societies (Beacon Press 1964), cap. 3.

[33] Personal notebooks, 1931.

[34] Wittgenstein, Philosophische Untersuchungen (Blackwell 2009), I, sec. 122.

[35] Ernst Tugendhat, „Die Philosophie unter dem Sprachanalytischen Sicht“, in Philosophische Aufätze 1967-1990, p. 268 (Suhrkamp 1991).

[36] O conceito de consiliência (com = juntos, siliens = salto, “salto conjunto”) foi criado por William Whewell em 1840 para indicar a convergência de induções provenientes de diversas classes de fatos. Esse conceito foi revivido no século XX por E. O. Wilson, que o entendeu como a síntese dos fatos e das teorias de diferentes disciplinas visando a formação de um entendimento unificado da realidade. Ver E. O. Wilson, Consilience: The Unity of Knowledge (Alfred Knopf 1998).

[37] A última assunção é metafísica e não parece em si mesma justificável. Ela pode ser considerada um ideal normativo semelhante às ideias da razão de Kant.

[38] Susan Haack, “The Fragmentation of Philosophy: The Road to its Reintegration”, in The Fragmentation of Philosophy, a.a.O., p. 15.

[39] Por senso comum, humilde ou mooreano, entendo conhecimentos como o de que eu sou um ser humano e de que a Terra existe há muitos anos... Sem o pressuposto dessa espécie de conhecimento de senso comum, a própria ciência seria impossível. Muito diverso é o senso comum ambicioso que nos diz, por exemplo, que o Sol gira em torno da Terra ou que o tempo corre igual para todos os observadores, independentemente de suas velocidades relativas.

[40] “keeping a conversation going as a sufficient aim of philosophy...” Só que Rorty acreditava que a filosofia se reduz a algo tão trivial quanto conversações socialmente edificantes realizadas por gente capaz de sustentá-las, incentivando assim os caminhos fáceis rumo a uma “filosofia motivacional” que transforma o filósofo, na melhor das hipóteses, no ajudante de obras do cientista. Ver seu Philosophy and the Mirror of Nature (Princeton University Press 2017), cap. VIII.

[41] Na presente introdução procurei demonstrar essa possibilidade ao explorar algumas relações entre as filosofias da tradição e, entre elas e a filosofia e a ciência contemporâneas. Um exemplo: a ponte lançada entre a ontologia platônico-aristotélica (caps. II e III), a crítica nietzschiana da filosofia cristã (cap. XVI) e a metafísica naturalista de Donald Williams (cap. XIX).


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