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segunda-feira, 1 de junho de 2026

HEGEL: ESPIRITUALISMO DIALÉTICO (Cap. XIV do livro Introdução histórica à filosofia)

 draft avançado do livro a ser publicado pela Europa Editora (Roma)


 

 

XIV

HEGEL: ESPIRITUALISMO DIALÉTICO

 

O homem é essa noite, esse nada vazio que, em sua simplicidade, contém tudo: a riqueza de um infinito número de representações e imagens, nenhuma das quais emerge em um momento preciso em seu espírito, ou que já não esteja sempre presente. É noite: a intimidade da natureza que existe aqui: puro eu. É noite inteira a cercar representações fantásticas; aqui emerge uma cabeça sangrenta, lá uma figura branca. E repentinamente desaparecem. É essa noite que tu vês quando olhas um homem dentro dos olhos. Tu mergulhas em uma noite que se torna terrível; é a noite do mundo que agora nos encara.

Hegel

 

 

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) foi a mais importante figura do idealismo alemão e o último dos grandes construtores de sistemas filosóficos. Foi colega e amigo pessoal de Schelling. A amizade perdeu-se depois de Hegel ter escrito que sua filosofia da identidade é como a noite em que todas as vacas são pretas[1], ou como um tiro de pistola desferido no escuro.[2]

   Sobre a vida de Hegel não há muito a dizer. Embora tenha nascido de uma família de algumas posses, ele viveu na época em que a Europa se encontrava assolada pelas guerras napoleônicas. Estudou teologia e filosofia no severo seminário de Tübingen, tendo como companheiros Schelling e o poeta Hölderlin. Os três teriam plantado juntos uma árvore da Liberdade em homenagem à Revolução Francesa de 1789. Ele era docente em Jena quando o exército de Napoleão invadiu a cidade e confiscou-lhe os bens. Mas o principal deles, a Fenomenologia do Espírito, já havia sido enviado a tempo para publicação. Nem por isso ele deixou de ficar suficientemente impressionado com a importância emancipatória dos acontecimentos. Como ele escreveu em uma carta:

 

Vi o imperador, essa alma do mundo, ao atravessar a cavalo as ruas da cidade. É um sentimento prodigioso o de ver um tal indivíduo que, de seu cavalo, concentra-se, elege um objetivo e, estendendo-se sobre o mundo, o domina. Como o fiz outrora, todos fazem votos de sucesso ao exército francês...[3]

 

Devido à invasão de Jena, Hegel passou por dificuldades financeiras e acabou por tornar-se diretor de um colégio em Nuremberg. Casou-se. Teve três filhos. Um deles havia sido fora do matrimônio e foi caridosamente adotado por sua esposa após a morte da mãe. Após um tempo como professor em Heidelberg, Hegel foi chamado para Berlim, onde passou os últimos treze anos de sua vida.

   Obtendo inigualável sucesso com seus cursos em Berlim, Hegel foi injustamente identificado por alguns de seus críticos como o filósofo oficial do Estado Prussiano, um governo autoritário e prepotente, que, para ele, seria a mais completa realização da razão na história. Essa acusação, contudo, não procede. Hegel integrava a ala progressista do governo, que defendia as reformas introduzidas por Napoleão, e acreditava em uma monarquia constitucional a serviço do povo, ainda que o governo prussiano não tenha correspondido a essas expectativas.[4]

   Em 1831, Berlim foi assolada por uma epidemia de cólera. Hegel refugiou-se no campo. Contudo, sentindo falta de seus alunos, acabou por retornar cedo demais e, fatalmente, foi vitimado pela doença aos 61 anos.

   O sistema filosófico de Hegel, omniabrangente, imaginativo e, muitas vezes, profundo, não surgiu do nada. Ele foi erguido lentamente, a partir de uma imensa quantidade de leituras. Alguns atribuíram a ele, inclusive, a frase: “Não há nada de original em mim e o que é original é falso”.

 

1

 

Idealismo. O ponto de partida de Hegel foi o mesmo de todo o idealismo alemão: a rejeição da coisa em si, entendida como uma contradição interna ao sistema kantiano. Uma vez aceito o idealismo, o problema epistemológico da percepção, que tanto ocupou os filósofos de Descartes a Locke e de Hume a Kant, desaparece. Já não é preciso explicar como somos capazes de ter acesso a um mundo exterior essencialmente heterogêneo a nós mesmos, uma vez que agora até mesmo o mundo material só encontra seu sentido no processo do desenvolvimento do espírito.

   Com isso, a investigação epistemológica que motivou grande parte da filosofia produzida de Descartes a Kant passou, em Hegel, a dar lugar a uma espécie de “metafísica do processo” que reelabora o neoplatonismo em chave moderna. Sua preocupação passou a ser com a evolução do mundo como um todo, entendida como o desdobramento de um espírito absoluto (Deus, como a totalidade racional do real), que se aliena de si mesmo para formar a natureza, só para depois reconhecer-se gradualmente através das consciências humanas. Esse reconhecimento ocorre em etapas dialéticas: primeiro, como espírito subjetivo (na antropologia, na fenomenologia e na psicologia); depois, como espírito objetivo (no direito abstrato, na moralidade e na eticidade); e, por fim, como espírito absoluto (na arte, na religião e na própria história da filosofia). A história da filosofia, por sua vez, também evolui dialeticamente até reencontrar-se em sua forma mais completa na filosofia do próprio Hegel. Nunca um sistema filosófico foi tão criativamente ambicioso.

   Ainda que implausível enquanto emoldurado e magnificado na forma de uma investigação da evolução de um espírito absoluto omniabrangente, o que Hegel fez de mais importante foi investigar, de forma especulativa, a evolução da consciência humana em suas múltiplas manifestações, sobretudo no que diz respeito à liberdade do indivíduo na sociedade. Por isso, suas contribuições mais consistentes foram para a filosofia prática: história, arte, direito, religião e a própria história da filosofia. Só essas contribuições já são suficientes para assegurar a relevância de sua obra.

 

2

 

Racionalismo. A filosofia do processo em Hegel contém dois pressupostos fundamentais. O primeiro deles é de ordem ontológica: a assunção de que o racional é real e o real é racional.[5] À primeira vista, essa proposição pode soar estranha, mas torna-se compreensível quando se considera que Hegel distinguiu entre o que é meramente existente – casual e contingente – e o que é efetivo (wirklich). O real, em sentido pleno, é aquilo que participa do processo dialético do Espírito e, por isso, pode ser compreendido racionalmente. Termos como ‘razão’, ‘espírito’, ‘ideia’, ‘mente’, ‘sujeito’, ‘Deus’ e ‘infinito’ são expressões diversas do mesmo processo total de desenvolvimento do que Hegel chamou de absoluto, cada um refletindo aspectos desse processo. O Espírito é a efetividade do real enquanto não contingente e, como pensamento, deve ser racional. Assim, o que é verdadeiramente real pode ser compreendido pela razão, e o racional encontra realização na história.

   A adoção desse princípio encoraja o filósofo a buscar explicações racionais para os fenômenos, pois a razão é o próprio princípio constitutivo da realidade. A filosofia não se limita a constatar fatos, mas procura compreender como eles se inserem no processo dialético. Mesmo instituições como a escravidão ou eventos como o Reino do Terror após a Revolução Francesa – embora injustificáveis quando tomados em si mesmos – são momentos, ainda que negativos, do processo histórico racional do desenvolvimento do Espírito. Representam contradições que, ao serem superadas, impulsionam o avanço da liberdade. Em última instância, tudo o que não é meramente casual e contingente, decorre dos desdobramentos do Espírito absoluto. Cabe à filosofia compreender racionalmente esse processo, revelando como os diferentes momentos se articulam no caminho para a realização da liberdade.

 

3

 

Dialética.  O segundo pressuposto da filosofia de Hegel é metodológico. Para ele, o método da filosofia não poderia restringir-se à silogística aristotélica, nem à lógica transcendental de Kant, incapazes de investigar os modos de transformação do espírito absoluto. A lógica adequada para compreender o devir da realidade é o que ele chamou de dialética. Essa lógica deve dar conta da fluidez dos conceitos, que (em razão da premissa idealista) contêm seus opostos e neles se revertem no vir-a-ser das coisas. Assim, o conceito de ser contém o de nada, o conceito de sujeito contém o de objeto, e assim por diante. Hegel estava interessado em uma dialética aplicável à realidade como um todo, à vida do espírito absoluto em suas inúmeras divisões.

   Hegel encontrou, inspirado em Fichte, o mecanismo de progressão do absoluto nas tríades dialéticas, aplicando-o de forma flexível em todo o seu sistema. Em sua forma mais simples, há um primeiro momento em que algo é afirmado (tese[6]) – por exemplo, o liberalismo econômico como produtor de riqueza... No que se segue, temos a negação gerada no interior do que é afirmado, que Hegel vê como sua contradição (antítese) – por exemplo, a indesejada geração de pobreza decorrente do aumento da desigualdade social. Essa contradição produz a “negação da negação”, que é um movimento de “superação conservadora” (Aufhebung), pelo qual o espírito se sublima a si mesmo (sich selbst aufhebt), incorporando em si as verdades parciais do que é afirmado e de sua negação – por exemplo, um sistema social-democrático que conserva a livre competição, mas a complementa com políticas públicas redistributivas. Esse resultado (síntese), por sua vez, torna-se uma nova afirmação (tese), gerando novas contradições (antíteses) e novas superações (sínteses) em um processo contínuo. O progresso do absoluto é, na verdade, mais complexo, uma vez que cada momento pode conter subdivisões sequenciais e o movimento não precisa ser triádico.[7]

   Alguns pensaram que, com sua dialética, Hegel teria superado o princípio da não-contradição discutido na metafísica aristotélica.[8] Mas essa foi uma pretensão vã, decorrente de uma má compreensão da relação entre a dialética e aquele princípio.[9] Segundo o princípio da não-contradição (em sua formulação ontológica), uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto (Cap. III, sec. 2). Ora, a suposta “contradição dialética” em Hegel não viola esse princípio, pois a negação da tese pela antítese não ocorre sob o mesmo aspecto: trata-se, antes, de um contrário,[10] de uma oposição dinâmica, de um conflito no interior de algo que se desenvolve e se atualiza na síntese, em um tempo geralmente posterior. Na verdade, é só pela pressuposição do princípio da não-contradição que a dialética tem como pôr-se em marcha. Se a tese pudesse ser a sua negação sob o mesmo aspecto ou ao mesmo tempo, tese e antítese não se tensionariam, mas se confundiriam, tornando impossível o movimento dialético.

   A dialética hegeliana pode ser contrastada com as dialéticas discursivas. Esse é o caso da dialética argumentativa exercida nos diálogos de Platão, em que um interlocutor defendia uma tese enquanto outro, geralmente Sócrates, argumentava contra ela. Esse embate conduzia a novas sugestões que, eventualmente, aproximavam os participantes da verdade, mesmo que os diálogos terminassem aporéticos. Outro exemplo foi o método adotado pelos filósofos céticos da Antiguidade, que, para Hegel, precedia a dialética. Eles elaboravam teses e, em seguida, antíteses de igual valor, de modo a convencerem-se de que é impossível chegar à verdade (Cap. IV, sec. 3). Contudo, ao rejeitarem a possibilidade de conhecimento, os céticos interrompiam o processo, sem avançar rumo a uma síntese. Também encontramos a dialética como exercício intelectual nas universidades medievais, nas quais o proponente deveria defender a tese, enquanto o seu oponente deveria apresentar argumentos para sustentar a antítese…

   Hegel acreditava no progresso da consciência humana, a se desenvolver historicamente de forma dialética, em seus mais variados aspectos. Uma interessante confirmação dessa ideia pode ser observada na maneira como o psicólogo Jean Piaget (que nunca leu Hegel) expôs os sucessivos estágios do desenvolvimento infantil. Em sua investigação, o desenvolvimento cognitivo da criança segue duas funções antagônicas: assimilação e acomodação, integradas por um processo geral de equilibração.

   Explicando: Na assimilação, os esquemas de interação com o objeto são preservados: e o organismo tende a submeter o meio às suas formas de organização, selecionando e integrando informações. Por exemplo, a criança aprende a palavra ‘cachorro’ e a aplica a outro animal de quatro patas, como o lobo. Já a acomodação se apresenta como uma variação no comportamento, surgindo apenas quando o processo de assimilação se mostra insuficiente. Nesse caso, os esquemas mentais precisam ser modificados para se ajustarem às singularidades do objeto, como quando a criança aprende que o lobo pertence a outra categoria de animais. A acomodação é, pois, a fonte de mudanças do organismo na criação de novas maneiras de se adaptar ao meio.

   Embora esses mecanismos sejam geralmente indissociáveis, na transição de uma fase para outra do desenvolvimento da criança, a acomodação leva vantagem, pois promove uma maior diferenciação dos esquemas e desencadeia novas e mais robustas formas de assimilação…[11] O processo todo é uma busca incessante de equilíbrio entre o organismo e o meio, chamada por Piaget de equilibração. O desenvolvimento, segundo ele, é “uma equilibração progressiva, uma passagem contínua de um estado de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior.”[12]

   Ora, parece claro que, no aprendizado, o processo de assimilação pode ser concebido como um processo dialético (tese), enquanto a acomodação constitui seu contraponto (antítese), daí emergindo um maior equilíbrio do sistema (síntese). Os esquemas aprendidos são mantidos até que, pelo acúmulo de novas experiências, se tornem insuficientes e o organismo precise passar por uma fase de acomodação a esquemas mais complexos, embora estes conservem as diferenciações feitas nas fases anteriores. O processo prossegue indefinidamente, mesmo que diversas assimilações e acomodações acabem por se sobrepor no desenvolvimento.

   A maneira como Piaget concebeu o desenvolvimento das capacidades intelectuais na criança não difere, em essência, do que Hegel concebeu como um processo dialético. Além disso, em analogia com a recapitulação da filogênese (no desenvolvimento da espécie) pela ontogênese (na embriologia), também parece que as sucessivas fases do desenvolvimento da criança recapitulam aspetos do desenvolvimento da consciência humana no processo histórico do próprio desenvolvimento. Por exemplo: Piaget notou que, quando uma criança explica o movimento de uma seta como empurrando o ar com a sua ponta, de modo que ele passe para a sua cauda e a empurre para frente, ela nos fornece uma explicação similar à de Aristóteles em uma de suas infelizes tentativas de explicar fenômenos físicos de forma especulativa. É plausível pensar que, desde Aristóteles, restringindo-nos ao raciocínio físico, a consciência humana tenha passado por um desenvolvimento histórico que recapitula o da criança, seguindo, em alguma medida, o modelo piagetiano de evolução recém-exposto. Mas isso parece conduzir-nos de novo a Hegel…

   Uma conclusão é que a “dialética” diz respeito, antes de tudo, ao modo como desenvolvemos nosso pensamento. Raciocinamos opondo teses e antíteses com base nas informações que nos são acrescentadas, visando alcançar sínteses mais abrangentes em um processo teleológico-intencional. Um processo similar era exercitado de forma dialogada nas disputas dialéticas entre os acadêmicos medievais.

   O ponto crucial é que, se o pensamento se desenvolve dialeticamente, isso pode muito bem valer para tudo o que tem a ver com a ação humana, na medida em que ela se dá no âmbito da intencionalidade. A conclusão é que a dialética deve poder estender-se aos produtos socio-histórico-culturais resultantes do que tem sido chamado de intencionalidade coletiva.[13] Múltiplas mentes podem compartilhar a mesma intenção e direcioná-la à realização de algo no mundo, seja de natureza institucional, histórica, cultural, estética, religiosa ou mesmo filosófica. Mas, se é assim, na medida em que decorrem de intenções compartilhadas que se dão segundo processos “dialéticos” de equilibração, é natural supor que esses produtos da ação humana também tendam a desenvolver-se em estágios dialéticos similares. Ou seja: eles devem tender a evoluir na criação de oposições e sínteses também intencionalmente determinadas, desenvolvendo-se em estágios dialéticos e, no caso de uma dialética como a mais tarde sugerida por Marx, por meio das consequências das intenções compartilhadas por uma classe (a dos proletários), em oposição às intenções compartilhadas por outra classe (a dos industriais), com ideias e ideais conflitantes.

   Não pretendo afirmar que tais processos sócio-históricos-culturais dialéticos devam ser lineares, uma vez que há no mundo concreto inúmeros fatores casuais que intervêm de forma contingente e independente deles (Hegel tinha plena consciência disso). Contudo, se meu raciocínio é correto, então ao menos bosquejos dialéticos podem ser identificados nas ações humanas e em seus produtos sócio-histórico-culturais. Sob essa perspectiva, parece que somos capazes de validar, em alguma medida, as ambições científicas de Hegel em sua filosofia do espírito, sem, para isso, precisar recorrer ao tipo de misticismo teleológico envolvido no desenvolvimento da autoconsciência de um espírito absoluto. Nesse caso haveria em Hegel uma antecipação especulativa, mesmo que romanticamente magnificada, de processos naturais que podem ser resgatados pela ciência. Isso, por si só, já constitui um feito significativo, que mais tarde foi reinterpretado de forma materialista por Marx.

   Explica-se, assim, o fracasso da tentativa de Hegel de desenvolver uma dialética da natureza puramente biológica e inorgânica, geralmente considerada o ponto mais fraco de seu pensamento. A razão é que os processos dialéticos não valem onde não há lugar para processos teleológicos, nem para a intencionalidade, nem para o que dela possa derivar; ou seja, não valem no mundo da natureza inorgânica. Hegel não poderia saber disso na época em que viveu. Mas nos tempos mais bem esclarecidos pelas ciências naturais e pela teoria da evolução, a crença em uma dialética da natureza tornou-se uma projeção indébita da racionalidade para onde ela já não é capaz de atuar.

 

4

 

A lógica. Em todo o sistema filosófico de Hegel, a mais abrangente das tríades dialéticas constitui-se no movimento do espírito, que se inicia em sua constituição lógico-metafísica (tese), segue pela autoalienação no mundo da natureza (antítese) e culmina na autoidentificação do real e no autorreconhecimento do racional como espírito absoluto (síntese). Daí a divisão de seu sistema filosófico em lógica, seguida da filosofia da natureza e da filosofia do espírito.[14]

   O primeiro momento da tríade originária é o da lógica hegeliana. Trata-se da ciência da ideia em si, do espírito absoluto: “a investigação da estrutura da mente de Deus antes da criação do mundo”, por assim dizer.[15] A lógica de Hegel deve investigar a constituição do absoluto primordial em sua essência eterna, antes de sua alienação de si mesmo como natureza. Ela examina Deus, a ideia, o pensamento, em sua essência absoluta e necessária. Hegel quis que a sua lógica fosse também metafísica, uma vez que nela são investigados conceitos puramente abstratos cuja aplicação se estende por toda a realidade, como é o caso das categorias investigadas por Aristóteles e Kant.

   A lógica divide-se em três partes: a doutrina do Ser, a doutrina da essência e a doutrina do conceito. Começando pelo Ser, Hegel apresenta a famosa tríade primordial que envolve a passagem do Ser para o Não-Ser, que, por sua vez, passa ao Devir (vir-a-ser). Ou, como ele escreveu:

 

(i)               O puro Ser (Seyn) é o começo: porque ele é, de um lado, o puro pensamento e, de outro, a imediatez em si mesma, simples e indeterminada, pois o primeiro começo não pode ser mediado por coisa alguma nem ser mais além determinado. (...) Mas o mero Ser, sendo mera abstração, é, portanto, o absolutamente negativo, o qual, em seu aspecto igualmente imediato, é apenas um puro Nada (Nichts). (...) O Nada, se é para ser imediato e igual a si mesmo, é também, de modo inverso, o mesmo que o Ser. A verdade do Ser e do Nada é, dessa maneira, a unidade dos dois, e essa unidade é o Tornar-se (Werden).[16]

 

Paráfrases existem inúmeras. Aqui vai uma: o Ser puro (a tese) é o pensar absolutamente imediato e completamente indeterminado. Mas, por isso mesmo, ele é totalmente vazio de conteúdo. Mas então ele é nada. Ou seja, dele se deriva diretamente o Nada (a antítese), que, por sua vez, é algo (o “não ser nada”). Ora, dessa oscilação do Ser para o Nada e do Nada para o Ser resulta a superação (Aufhebung) da oposição pelo Tornar-se (Werden) (“síntese”), que incorpora em si mesmo tanto o Ser que não é, ou seja, o Nada, quanto o ser que é, ou seja, o próprio Ser.[17]

   Após essa impressionante primeira tríade, Hegel prosseguiu mostrando que o Devir infinito se opõe ao ser determinado, que é o ser finito... O ser finito, por sua vez, opõe-se às categorias da qualidade, quantidade e medida. Da reflexão do ser infinito no finito vêm a ser as relações da doutrina da essência… A essência em si mesma desdobra-se em aparência, juntas constituindo a categoria de realidade... Após um longo e pedregoso caminho, no qual uma variedade de conceitos metafísicos é explicada, Hegel chega à doutrina do conceito, na qual a subjetividade se desdobra na objetividade que, por fim, se supera na ideia.

  Não pretendo considerar nada disso. A falta de clareza e a mesmerizante confusão conceitual da lógica de Hegel parecem-me tão imensas que uma pessoa suficientemente hábil e imaginativa seria capaz de conceber outra série de determinações dialéticas com o mesmo poder de convencimento. E uma pessoa com consciência semântica e capacidade de análise perceberá os pequenos (e grandes) deslizes argumentativos, o que arruinará grande parte do prazer estético.

   Nem por isso a lógica de Hegel se reduz a uma simples impostura intelectual. Mais generoso é considerá-la um extraordinário conto de fadas filosófico: uma mitologia racional capaz de orientar algumas mentes, à semelhança da religião, ainda que comece a se desfazer sempre que a submetemos a um escrutínio crítico rigoroso.

   Um exemplo é sua pretensão de ter resolvido o grande problema humeano da ausência de necessitação do efeito pela causa. Hegel acreditou ter superado o problema ao negar que a causalidade implique em dois eventos distintos. Se causa e efeito são um único acontecimento, então a necessidade causal desaparece, pois não há mais um processo temporal que conduza da causa ao efeito. Como ele escreveu:

 

O efeito não contém, em geral, nada que a causa não contenha. Inversamente, a causa não contém nada que não se encontre em seu efeito. A causa só é causa porque produz um efeito, e o efeito não é outra coisa senão ter uma causa. Na causa encontra-se seu efeito, e o efeito encontra-se na causa. Na medida em que a causa ainda não agiu, ou cessou de agir, ela não é causa; e o efeito, enquanto sua causa desapareceu, não é mais efeito, mas atualidade indiferente.[18]

 

Um exemplo seria girar o botão para acender a luz do quarto. No instante em que o girar do botão acende a luz, ele deixa de ser causa; e no momento em que a luz se acende, ela deixa de ser efeito.

   A falácia quase evidente consiste em supor que causa e efeito estão completamente presentes no momento da interseção, esquecendo-se de que a descrição da causa sempre envolve elementos anteriores a essa interseção, assim como a descrição do efeito envolve elementos posteriores. São essas descrições que definem o que é a causa e o que é o efeito. Para contrastar melhor, considere casos em que causa e efeito se prolongam mais no tempo. Imagine uma chuva torrencial que dura uma semana e faz o rio transbordar, ou a aprovação em um concurso após anos de estudo. Esses exemplos tornam claro que as causas se prolongam para além da interseção com seus efeitos, que também se prolongam para além dela. O mesmo ocorre com o botão e a luz: a diferença é que esses dois eventos se sucedem quase instantaneamente.

   O ponto crucial é que, embora a causa e o efeito realmente se encontrem, distinguem-se por se prolongarem de forma diversa e independentemente, em tempos distintos. Um defensor de Hume diria que não há qualquer razão para colapsar causa e efeito de modo a rejeitar a ausência de necessitação. Talvez uma leitura in negativo da lógica de Hegel possa ter algum proveito, mas até isso é questionável.

   O próximo momento do absoluto é o investigado pela filosofia da natureza. Trata-se da ideia que se opõe a si mesma, pondo-se como o outro, sem, contudo, reconhecer-se nesse outro. Torna-se, por isso, ideia adormecida, inteligência petrificada. Hegel apresenta aqui uma progressão dialética que vai da mecânica à física e, por fim, ao mundo da natureza geológica, vegetal e animal. O indivíduo animal perece por não se adequar à ideia; resta-lhe a mente humana, que é reabsorvida na ideia eterna, marcando a transição da natureza para o espírito…

   Como a natureza resistente à teleologia na qual a dialética é verdadeiramente capaz de se enraizar, ela aparece como a parte mais claramente artificial do sistema, dispensando considerações.

 

5

 

Crítica da linguagem. A lógica de Hegel nos lembra a abertura de certas obras sinfônicas, cujos efeitos iniciais são impressionantes, mas logo se tornam melodicamente maçantes. Após Wittgenstein (Cap. XVIII, sec. 3) tornamo-nos predispostos a ver em textos dessa espécie um engalfinhado de confusões lógico-conceituais magnificando alguns parcos insights. Vale, portanto, uma pausa para analisar criticamente a ofuscante primeira tríade da lógica hegeliana. Mesmo que, tal como ele literalmente se nos apresenta, o texto citado acima possa não fazer sentido, ele parece fazê-lo e seu efeito costuma ser mesmerizante. A questão é: o que o faz parecer fazer sentido? Qual é a fonte do seu fascínio inicial?

   Para encontrar uma resposta, vale a pena voltarmos à sugestão feita pelo filósofo analítico Paul Edwards no que diz respeito a Heidegger, um filósofo que recorria a estratégias discursivas semelhantes. Em um conhecido artigo,[19] Edwards cita trechos em que Heidegger se impressiona com o fato de que o Ser se encontra para além dos entes. Por exemplo:

 

A sala de leitura é. Ela é iluminada. Nós reconhecemos a sala de leitura iluminada toda de uma vez… como algo que é. Mas onde está, em toda a sala de leitura, o ‘é’? Em nenhum lugar entre as coisas encontramos o Ser.

Onde está o Ser dessa escola superior? Afinal, ela é. O edifício é. Se qualquer coisa pertence a esse ser, é seu Ser; mas não encontramos o Ser dentro dela.

Nós corremos (ou ficamos) ao redor do mundo com todas as nossas tolas sutilezas e conceitos. Mas onde, em tudo isso, está o Ser? [20]

 

Edwards nos lembra de que há três sentidos fundamentais do verbo ser: como cópula (“Sócrates é sábio”), como identidade (“Uma rosa é uma rosa”) e como existência (“Nos altos cumes é serenidade”). A isso se somam múltiplas tonalidades conotativas que podem ser encontradas em dicionários.

   Heidegger, nas passagens citadas, privilegia o sentido de existência. E o que ele está fazendo é apontar para o fato de que a existência não é uma propriedade das coisas, apresentando-a como algo misterioso, superior, impressionante, indizível. Recorde-se da análise do conceito de existência feita no capítulo XII (seção 13): para Frege, a existência é a propriedade de um conceito de que sob ele cai ao menos um objeto e, em um sentido menos metafórico, que também procurei demonstrar, a existência pode ser considerada a propriedade da garantida aplicabilidade de uma regra conceitual (conceito) a seu objeto – o que torna esse objeto não ficcional. Para Edwards, ao dizer que o Ser das coisas não se encontra nelas, Heidegger apenas redescobre, de forma magnificada, algo já bem sabido por filósofos, sobretudo os analíticos. Como ele escreveu:

 

Umas poucas palavras estão em ordem no que concerne à ‘descoberta’ de Heidegger da “paradoxal natureza do ser”, sua “tendência misteriosa” de revelar-se tanto quanto de ocultar-se a si mesmo em uma espécie de eterno strip-tease cósmico. Esse tema é infinitamente repetido nos trabalhos de Heidegger. Podemos agora ver que não há nenhum “mistério” aqui e que Heidegger não descobriu coisa alguma. O “ocultamento” do Ser é um modo de se referir ao fato de que, quando procuramos a existência nas coisas, não podemos encontrá-la; a “revelação” do Ser é uma maneira desnecessariamente mística de dizer que, apesar disso, as coisas existem. Nós podemos, honestamente, caracterizar a descoberta de Heidegger da “paradoxal natureza do ser” como uma redescrição bombástica desses fatos; e, diferentemente da análise dos enunciados existenciais esboçada acima, não faz nada para explicá-los.[21]  

 

Ou seja: o que Heidegger fez não foi nada mais do que redescobrir o fato de que a existência não é uma propriedade das coisas, como se isso fosse a porta para uma dimensão superior da realidade, a do Ser (que, no contexto de muitas de suas passagens, pode ser substituído pela palavra ‘Deus’).

   Meu ponto é que um argumento como o de Edwards contra Heidegger também pode ser aplicado à primeira tríade da doutrina do ser na lógica de Hegel. Também aqui o verbo ser é usado primariamente no sentido de existência, ainda que carregue consigo outras conotações. Assim, se nos recordarmos que a existência foi analisada por Frege como significando o mesmo que a propriedade de um conceito de sob ele cair pelo menos um objeto, podemos parafrasear a tríade Ser-Nada-Devir apresentada em (i), excluindo colorações polissêmicas secundárias, como se segue:

 

(ii)             A propriedade conceitual da existência enquanto tal (o puro Ser) é o começo: ela pode ser considerada de forma pura, separada de qualquer conceito particular a que se possa aplicar (...) Mas a mera propriedade conceitual da existência como o cair sob algum conceito, quando abstraída de qualquer conceito específico sob o qual possa cair um objeto, não resulta em objeto algum que possa cair sob um conceito (é apenas um puro Nada). A existência, como propriedade abstraída de conceitos sob os quais possam cair objetos, não conduz à existência de coisa alguma, nem a existência de coisa alguma conduz à sua ligação com conceitos determinados. E, no perceber dessa alternância, há um movimento da mente para lá e para cá e de cá para lá (o Devir).

 

Vemos que a paráfrase fez com que a passagem de Hegel perdesse toda a sua graça metafísica, sua pseudoprofundidade, seu colorido polissêmico, tornando-se uma complicada trivialidade.

   Mas podemos ir além, parafraseando a passagem (i) do Ser-Nada-Devir usando a noção de efetiva ou garantida aplicabilidade da regra conceitual (conceito), mas agora abstraída de qualquer conceito ao qual ela possa se aplicar. Nesse caso, temos a noção de existência tout court, ou seja, do “Ser.” O resultado fica ainda mais estranho:

 

(iii)          A garantida aplicabilidade conceitual, tomada como a mera efetiva aplicabilidade na ausência de qualquer regra conceitual específica (o puro Ser) é o começo: ela pode ser concebida enquanto tal, separada de qualquer regra conceitual particular (...) Mas a simples garantida aplicabilidade conceitual, tomada como a existência abstraída de qualquer regra conceitual específica, não resulta em objeto algum ao qual quaisquer regras conceituais possam se aplicar, não resultando, pois, em coisa alguma (é apenas um puro Nada). Ora, essa existência, como mera propriedade de garantida aplicabilidade, não ligada a nenhum conceito específico, conduz à consideração da inexistência de qualquer coisa, enquanto a inexistência de qualquer coisa conduz à consideração da existência sem sua ligação com qualquer regra conceitual particular, de modo que, na percepção dessa alternância, encontra-se um movimento da mente de lá para cá e vice-versa (o Devir).

 

Essas paráfrases destituem o texto de Hegel de qualquer colorido metafórico resultante da substantivação do verbo ser, do Nada e do Devir. Aqui a aura metafísica se dissolve. Deixou de ser o relato de algo misterioso e extraordinário.

   Afora isso, ao me concentrar no ser-existência semanticamente fundamental, estou excluindo a polissemia enriquecedora dessa palavra, como a do Ser-Deus-Absoluto, que aparece na Lógica como o pensamento do absoluto como nada e que contribui para o mistério poético do texto… É triste reconhecer, mas o que temos aqui é um exemplo concreto de como, no dizer de Wittgenstein, toda uma nuvem metafísica se condensa em uma gota de gramática.[22]

   Também é importante relembrar que é parte da gramática conceitual do verbo ‘existir’ que de tudo podemos dizer que, de algum modo, existe. Até da própria existência podemos dizer que ela existe, que ela é. Assim, o Ser substantivado pode ser facilmente empregado no lugar de qualquer coisa, como uma espécie de metáfora universal. Esse foi o genial estratagema filosófico inventado por Parmênides para exprimir o que, para ele, ainda era indizível, um estratagema que continuou a ser usado e abusado em toda a filosofia ocidental, de Platão a Heidegger, passando por Hegel.

   Jean-Paul Sartre usou essa metáfora universal em sentido psicológico, mas de modo a magnificá-la como ontologia existencial. Suas duas principais metáforas eram as do ser-em-si (l’être en-soi), o ser das coisas, e do ser-para-si (l’être pour-soi), o ser propriamente humano. Para ele, o ser-para-si age sobre o ser em si como um abismo nadificador, consumando-se na angústia da negatividade (“a náusea”).

   Não obstante, se analisada de forma não metafórica, essa progressão expressiva torna-se trivial. Ela nada mais é do que uma maneira magnificada, altamente literária e profundamente pessimista de dizer que as coisas, pessoas inclusive, nos chamam a atenção até que as conheçamos bem, momento em que nossa curiosidade se satisfaz, o que as torna tediosas e vazias.[23]

 

6

 

O espírito. Para Hegel, o espírito é o movimento pelo qual a ideia se reconhece a si mesma por meio da alteridade. Foi em sua filosofia do espírito que Hegel apresentou o que tinha de mais importante a dizer. O espírito é o autorreconhecimento da ideia, por meio da alteridade por ela mesma, inconscientemente, posta. Ele concebeu o espírito como se desdobrando em um processo dialético que possui três momentos: o do espírito subjetivo (individual), ao qual se opõe o espírito objetivo (social), culminando no espírito absoluto (universal).

   Comecemos com o espírito subjetivo. Ele é o indivíduo humano, que também se subdivide em três momentos dialéticos. O primeiro é o da antropologia, que tem por objeto a alma sensível na qual o espírito é o indivíduo organicamente unido a um corpo. Para Hegel, a alma e o corpo não podem se opor, pois, nesse caso, não haveria comunhão entre ambos. O segundo momento é o da fenomenologia. Aqui o espírito se torna consciência. Ele reflete sobre si mesmo na forma de autoconsciência, pondo-se como um eu. Contudo, esse eu só se torna capaz de alcançar a autoconsciência se for mediado pelo reconhecimento recíproco entre a sua pretensa autoconsciência e a de outros, como é mostrado na famosa dialética do senhor e do escravo da Fenomenologia.[24] O terceiro momento é o da psicologia. Aqui o espírito torna-se capaz de pensar e agir segundo princípios universais. Ele torna-se possuidor de uma vontade livre e capaz de submeter-se ao escrutínio racional.

   Ao espírito subjetivo, Hegel opõe, dialeticamente, o espírito objetivo. O espírito objetivo é o momento em que o indivíduo deixa de ser apenas subjetivo e passa a viver a vida da humanidade, objetivando-se nas formas de interação social e cultural. Ele se desdobra em três momentos dialéticos: direito, moralidade e eticidade.

   Com relação ao direito, Hegel atribui grande importância ao direito de propriedade, que não se confunde com mera posse, pois depende do reconhecimento recíproco entre os indivíduos. É nesse reconhecimento que a liberdade se realiza. A lei, expressão da vontade comum, estabelece o que é válido para todos. Quem a viola perde seus direitos, recuperando-os apenas pela punição, que restaura a ordem jurídica. Aceitar o castigo como justo significa reconhecer que a mesma medida valeria contra si, caso cometesse a mesma infração.

   O direito, porém, limita-se ao comportamento externo. Para alcançar a interioridade, surge a moralidade, que considera a intenção da ação. Quando a intenção se universaliza como boa vontade, gera o bem; quando se desvia, resulta em má vontade e no mal. A moralidade amplia o horizonte do direito, mas ainda corre o risco de cair no subjetivismo.

   A síntese entre direito e moralidade é a eticidade (Sittlichkeit), em que o bem se concretiza em uma comunidade histórica. Essa forma mais alta de moralidade é algo concreto, vale dizer, a que se constitui no espírito de um povo determinado, sob a perspectiva de sua realização histórica. A eticidade, por sua vez, também segue um devir dialético. Hegel a divide em três momentos: o da família, que é a unidade imediata baseada no amor, o da sociedade civil, que é o dos interesses privados, dos mercados, das corporações, e o estado, que é a síntese superior resultante da oposição entre família e sociedade civil.

   O estado é a unidade universal na qual se resolvem as vontades individuais. Para Hegel, o estado encontra-se acima dos cidadãos por ser a realização da liberdade objetiva, pois é nele que ela deixa de ser abstrata e se concretiza, unindo a vontade subjetiva dos indivíduos à ordem objetiva do direito. Sem o estado, a liberdade seria meramente formal e ilusória. Um cidadão aumenta a sua liberdade concreta na medida em que consegue conformar as suas ações com as instituições do estado. É nesse sentido que o estado é considerado por Hegel o “a marcha de Deus na terra”: como a manifestação histórica da racionalidade e da liberdade objetiva, de cuja dependência, ultimamente, decorrem a prática da religião e da moralidade.

   Para Hegel, o direito internacional é frágil e depende da vontade dos estados. Como consequência, quando os interesses vitais dos estados entram em conflito, a guerra se torna, muitas vezes, a única maneira de alcançar acordos.[25] Ele não glorificava a guerra, mas a via como um instrumento histórico inevitável, sem o qual o progresso da humanidade não seria possível. A guerra possui, ademais, a função de guardar nas mentes das pessoas a consciência da finitude humana. Não há em Hegel a ideia do mundo presidido por um estado mundial ou por uma confederação de estados com interesses comuns, como Kant sugeriu em À paz perpétua.[26]

   Os estados representavam, para Hegel, os diversos povos. Esses povos progridem e conflitam entre si como partes do espírito do mundo (Weltgeist), que se serve deles para realizar-se. Quando um povo acaba de exercer sua função, entra em decadência, dando lugar a outro. O espírito do mundo também pode se servir de indivíduos capazes de encarnar o espírito do tempo (Zeitgeist), como nos casos de Alexandre, César e Napoleão. Enquanto general, Napoleão foi um indivíduo histórico universal, encarnando o espírito de seu tempo, levando a exigência de ascensão da classe burguesa a vários outros povos. Ele esteve a serviço da astúcia da razão (list der Vernunft) para depois ser descartado. A forma mais elevada de estado era, para Hegel, uma monarquia constitucional, pois combina a unidade (representada pelo monarca) com o respeito aos direitos individuais, dentro de instituições racionais.

 

7

 

A história. Adentramo-nos aqui na mais importante filosofia da história de Hegel.[27] A vida do espírito objetivo revela-se temporalmente na historicidade, que também deve desdobrar-se em movimentos dialéticos de superação conservadora (Aufhebung), cujo objetivo final é alcançar a consciência da liberdade. O desenvolvimento do espírito absoluto manifesta-se na história por meio de quatro momentos em que a liberdade humana se desenvolveu.

   O primeiro é o da infância da humanidade no Oriente (China, Índia, Egito Antigo e Pérsia). Nessas civilizações estacionárias só um era livre: o déspota, com poderes absolutos. Os indivíduos não possuíam uma moral própria nem leis que deles emanassem.

  A juventude do espírito foi representada pela Grécia antiga, onde podia existir uma consciência feliz advinda da consonância entre a vontade dos cidadãos e o ideal representado pela cidade-estado. Aqui, alguns eram livres: os cidadãos. Eles eram livres por constituírem uma “bela totalidade” em cidades-estado nas quais o público e o privado podiam harmonizar-se. Mas, embora os cidadãos já fossem livres, tratava-se de uma liberdade limitada pelo fato de ser social e não propriamente individual. A liberdade dos cidadãos devia conformar-se aos hábitos morais estabelecidos pela cidade-estado e nunca às consciências morais reflexivas pessoais. Devia ser assim porque os cidadãos viam-se tão absolutamente ligados à cidade-estado que não se sabiam capazes de distinguir seus interesses próprios dos interesses do estado. A maior glória de um cidadão grego, por exemplo, era morrer em combate. Tratava-se da liberdade do hábito ou costume e não do uso da razão.

   O conflito entre a liberdade reflexiva individual e a liberdade cívica do cidadão, enquanto membro da pólis, é demonstrado na tragédia Antígona, de Eurípides. O novo rei da cidade, Creonte, decide que um irmão de Antígona, morto na batalha, não poderá ser enterrado, devendo servir de repasto para abutres e animais selvagens, o que significa que seu espírito terá de vaguear pela terra sem descanso. Contrariando a decisão do rei, Antígona decide enterrar o irmão e, por isso, é punida com a morte. Outro exemplo é o de Sócrates, cujo delito foi opor aos valores da cidade-estado uma liberdade originada de sua própria consciência crítica. Com isso, ele se tornou o inimigo mortal da liberdade do costume, sendo essa a razão última de sua condenação.

   O conflito entre a consciência individual e o estado emergiu com toda a sua força no Império Romano, que constituiu, para Hegel, a virilidade do espírito. O Império Romano foi a negação dialética do mundo grego. Diversamente de outros, ele era formado por uma coleção de povos os mais diversos, que precisavam ser unidos pela mais severa disciplina através do uso da força. Disso resultou que, embora os cidadãos já dispusessem de uma consciência reflexiva da liberdade individual, eles não eram capazes de realizá-la na prática. Tratava-se de uma liberdade meramente formal, posto que as liberdades concretas eram esmagadas pelo poder de Roma e o indivíduo já não tinha como se identificar com o Estado. No mundo romano, o espírito grego espontaneamente livre havia sido destruído. Isso explica o proliferar de filosofias consoladoras, como as do estoicismo, do epicurismo e do ceticismo, que negavam a importância dos afazeres do mundo. Hegel via essas filosofias como expressões da impotência do indivíduo. Elas refletiam o desespero dos que, mesmo se vendo livres, eram incapazes de influenciar os poderes que regiam o próprio destino. Afora isso, Roma precisava de escravos para nutrir seu sistema, os quais não possuíam liberdade alguma.

   Como superação dessa situação, o cristianismo entrou em cena representando a fase adulta do espírito. Ele se distinguia por sua doutrina moralizante, segundo a qual vivemos nesse mundo para purgar-nos do pecado original, e a verdadeira vida começa no além-mundo. Precisamos, para isso, quebrar o domínio de nossos desejos naturais, de modo a fazermo-nos merecedores da vida eterna, o que é possível, dado que fomos feitos à imagem de Deus e que, por isso, nosso valor é infinito.

   Para Hegel, o cristianismo representou um grande progresso na consciência humana, que se revelou essencialmente espiritual. Sendo seres essencialmente espirituais, devemos ser capazes de transcender a hostilidade do mundo natural de forma positiva. Para Hegel, o cristianismo substitui a moralidade do costume grego pela moralidade do amor. Ele acabou por dominar o mundo europeu depois de tornar-se a religião oficial de Roma, tendo permanecido por ter cristianizado os bárbaros, como aconteceu no Ocidente, ou mesmo por ter resistido a eles, como aconteceu no decadente Império Bizantino. Só essa concepção igualitária do homem, defendida pelo cristianismo, permitiu o desaparecimento da escravidão na Europa, pois deu a todos a perspectiva da liberdade ao considerar cada indivíduo humano como possuidor de valor infinito e candidato à vida eterna.

   Em compensação, o cristianismo produziu um imenso peso na consciência humana, representado pela figura hegeliana da consciência infeliz, que se produz quando a distância entre o indivíduo concreto e o Deus cristão passa a ser sentida como infinita e intransponível.[28] Contudo, a consciência infeliz não é inteiramente negativa, uma vez que é uma etapa dialeticamente necessária à reconciliação futura entre o finito e o infinito.

   Quanto à Idade Média, Hegel viu nela uma longa e terrível noite na qual a igreja deformou o verdadeiro espírito cristão, ainda que mantivesse viva a ideia da dignidade espiritual. Só com o renascimento e, mais tarde, com a Revolução Francesa, houve um progresso real. E foi apenas com o florescimento do mundo germânico que o espírito entrou em sua fase de ancianidade construtiva.

   Para Hegel, o alvorecer do mundo germânico teve início com Lutero. A Igreja Católica havia sido corrompida, tratando a divindade como se ela estivesse incorporada ao mundo real por meio de rituais, cerimônias e a venda de indulgências. O protestantismo permitiu que cada ser humano encontrasse a salvação por si mesmo, como indivíduo. A consciência individual de cada ser humano passou a ser o árbitro último do que é bom e verdadeiro. Assim, só após a reforma luterana, que demandou uma fé abstrata, e após a revolução francesa, que naufragou devido ao despreparo das pessoas em lidar com as demandas concretas da racionalidade – mas que foi um momento necessário por permitir o estabelecimento de leis capazes de tornar o estado racional – fez-se possível a criação de um estado racional no mundo germânico, possibilitando ao indivíduo realizar-se de modo verdadeiramente livre em sua racionalidade reflexiva.

   É por isso que, no mundo germânico, as liberdades individuais se tornaram capazes de se encontrar, em uma síntese final, com a liberdade do absoluto. Pois quando o estado é racional, ser livre é ser capaz de adequar-se a ele! No dizer de Hegel, foi na sociedade racionalmente organizada do mundo germânico de seu tempo que a ideia da liberdade alcançou a sua consumação. Pois em um estado racionalmente organizado, a liberdade subjetiva da racionalidade individual passa a coincidir com a liberdade objetiva da racionalidade do estado, fazendo com que todos sejam livres.

 

8

  

Espírito absoluto. Passados pelo espírito subjetivo (tese) e por sua oposição no espírito objetivo (antítese), chegamos agora à sua superação conservadora: o espírito absoluto (síntese). Trata-se do espírito que se considera em si e por si mesmo, superando tudo, sem deixar nada fora de si. Ele é a síntese do temporal com o eterno, do finito com o infinito, do particular com o universal. A realização do espírito absoluto também se dá por meio de três momentos dialéticos: arte, religião e filosofia.

   Para Hegel, é por meio da arte (tese) que a consciência do absoluto, ou ideia, toma sua primeira forma. A arte é a revelação do divino na intuição sensível: ela é a manifestação sensível do absoluto. Quanto mais perfeita for a intermediação entre ideia e forma, mais elevada será a arte. Ao fazê-lo, a arte dilata nossa experiência pessoal, tornando-a coextensiva com a experiência de toda a humanidade. E como a natureza é espírito adormecido e a arte é produto direto do espírito, o belo da arte é sempre superior ao belo da natureza.[29]

   A arte também se manifesta em três formas dialéticas: a arte simbólica, a arte clássica e a arte romântica.

   A arte simbólica, própria do Oriente, foi cultuada na Pérsia, Índia e Egito, tendo na arquitetura sua principal forma de expressão. Ela se utilizava de elementos naturais como símbolos: o leão para a coragem, o pássaro para a alma, a luz para o divino. Exemplos são arquiteturas gigantes como a Esfinge e as pirâmides egípcias, nas quais o sensível excede em muito o espiritual. Contudo, esses produtos da natureza ainda estão muito distantes da ideia. A arquitetura não conseguiu fundi-los em uma totalidade orgânica, mas apenas justapô-los em uma apresentação misteriosa, bizarra e até grotesca,[30] ainda que pudesse conter algo de sublime.

   A superação antitética da arte simbólica só se deu pela objetivação da ideia na arte clássica nascida na Grécia Antiga. Mais própria dessa forma de arte foi a representação do absoluto na escultura de formas humanas idealizadas, como a estátua do deus Apolo, ou ainda as estátuas de heróis destinadas a representar as mais elevadas virtudes do povo. Pela perfeita compenetração entre forma e conteúdo, Hegel a considerou a mais bela. Contudo, por mais idealizada que fosse, não era possível libertar essa forma de arte da finitude sensível do mundo fenomenal.

   Essas duas formas de arte, a simbólica e a clássica, só foram dialeticamente superadas pela arte romântica. Essa última só emerge com o cristianismo, fruto da dilaceração, dos tormentos e lutas do indivíduo em um mundo em que ele já não tem mais valores objetivos aos quais possa dar vida, buscando então guarida nos valores mais altos da interioridade da consciência. A arte cristã liberta-se do elemento sensual para adquirir tons religiosos, concentrando-se na expressão da interioridade dos sentimentos. As principais formas de arte romântica são, para Hegel, a pintura, a música e a poesia. Há, nessa sequência, um movimento de desmaterialização e interiorização. Na música não há mais representação, mas expressão dos movimentos da alma. Na poesia, o visível e o audível reduzem-se a simples sinais do espírito, que já se concebe como infinito e é mais complexo e sofisticado do que em suas expressões nas formas anteriores de arte. Através da arte romântica, a arte começa a superar a própria natureza, tornando-se arte-religião e quase abandonando o elemento sensível.

   A arte encontra o seu oposto (antítese) como manifestação do espírito absoluto na religião, que é o momento da pura objetividade. A religião é superior à arte por ter se libertado do elemento sensível. Nela, a intuição se espiritualiza na forma de representação do absoluto por meio de imagens, alegorias, parábolas e mitos. Para Hegel, a religião é o conhecimento que o espírito divino obtém de si mesmo pela mediação do espírito humano. Como a natureza divina é a mesma que a humana, desaparecem as noções de transcendência e criação.[31] Deus só se torna ele mesmo por meio do conhecimento de si próprio, que só alcança por meio da consciência humana. Trata-se, pois, de um Deus imanente, que aproxima o idealismo hegeliano do panteísmo spinozista.

   A religião encontra um desenvolvimento histórico coincidente com o desenvolvimento da ideia de Deus na consciência humana. Esse desenvolvimento também ocorre por meio de momentos dialéticos. O primeiro foi o da religião natural, marcado pela magia, fetichismo e simbolismo. Ele foi, para Hegel, o momento das religiões orientais na China e na Índia. No segundo momento, a ideia de Deus passou às religiões da liberdade, deslocando-se da substancialidade para a individualidade espiritual. Nós o encontramos nas religiões persas e egípcias. Mais tarde encontramos as religiões da individualidade espiritual: o culto do sublime entre os judeus, do belo entre os gregos e dos fins entre os romanos. Finalmente chegamos ao cristianismo, a religião mais alta, a religião absoluta. O cristianismo é a única religião capaz de unir plenamente o homem ao divino. Contudo, também no interior do cristianismo encontramos uma evolução. Ele passou por um momento imagístico na Idade Média, chegando ao seu apogeu no momento conceptual do protestantismo, quando imagens humanas de objetos de culto passaram a ser banidas.

   A síntese superadora do momento subjetivo da arte com o momento objetivo da religião só pode ser encontrada na filosofia. Para Hegel, a filosofia é a ciência que as unifica, na medida em que transcreve as representações religiosas em conceitos, preservando seu conteúdo, assim como a emoção própria da arte romântica. Por isso, ela é também um culto a Deus, uma teologia racional e uma arte da razão. É só na transparência da razão filosófica que o espírito absoluto se explicita plenamente, de modo a alcançar sua inteira autoconsciência e liberdade. Em seu âmbito, o absoluto não é mais nem intuído nem representado, mas diretamente expresso no conceito. A filosofia é, assim, a culminação racional na qual o absoluto se reconhece como conceito.

   A filosofia, contudo, não nasce pronta. Ela também evolui dialeticamente, em um processo necessário, no qual cada nova etapa é preservada até a síntese final. Na sucessão dos diversos sistemas filosóficos, a ideia conquista um conhecimento cada vez maior de si mesma. A história da filosofia torna-se, assim, o movimento de auto-explicitação do absoluto.

   Para Hegel, cada filosofia pressupõe necessariamente as que a precederam, como na demonstração de um teorema. O primeiro momento desse percurso encontra-se nos pré-socráticos. Tales, ao considerar a água como princípio, inaugurou o uso desse conceito em sentido abstrato. Sócrates foi decisivo por ter acrescentado à moralidade grega convencional um princípio de reflexão da consciência sobre si mesma, instaurando a moralidade reflexiva. Por isso mesmo, tal como Antígona, ele não encontrou respaldo na moralidade comunitária da pólis. Mesmo Platão e Aristóteles permaneceram presos, em certa medida, à moralidade comunitária. Somente a filosofia cristã universalizou a espécie de subjetividade representada por Sócrates no mundo grego e por Cristo no mundo romano. Mas a filosofia só atinge sua completude quando a procissão das filosofias cristãs e modernas desemboca no próprio Hegel, refletindo as condições de um verdadeiro “estar em casa no mundo”, aproximadas pela sociedade de língua alemã de sua época. É só nessa última filosofia que o espírito alcança a sua maturidade plena: é quando o espírito absoluto toma consciência livre e completa de si mesmo.

   Eis como Hegel descreve, em um gesto de incomparável ousadia, a posição de sua própria filosofia como a culminação última do pensamento ocidental:

 

Até aqui chegou o espírito do mundo. E cada estágio assume sua própria forma no verdadeiro sistema da filosofia. Nada se perdeu; todos os princípios foram preservados, dado que, em seu aspecto final, a filosofia é a totalidade de suas formas. Essa ideia concreta é o resultado dos esforços do espírito durante quase vinte e cinco séculos de trabalho honesto no sentido de tornar-se objetivo para si mesmo, de conhecer-se a si mesmo: tantae molis erat, se ipsam cognoscere mentem. [32]

 

A filosofia de Hegel explicita o absoluto na consciência plena de tê-lo recuperado em sua totalidade. “Depois de mim,” teria dito ele, “não haverá mais a necessidade de ser original.”

 

9

 

Crítica. Hegel foi um filósofo de imaginação prodigiosa. Sua investigação dialética de produtos da ação humana – como a história, o direito, a arte, a religião e a própria história da filosofia – merece ser levada a sério, nem que seja apenas por fornecer um rico material de reflexão. Não obstante, sua tentativa de construir um sistema capaz de tudo abranger através da dialética é artificial e, ao menos em sua lógica e em sua filosofia da natureza, deriva no que críticos impiedosos consideraram um trabalho de mistificação intelectual, ainda que muito engenhosamente articulado.

   A argumentação de Hegel segue o estilo kantiano do construtor de sistemas, valendo-se de esquemas argumentativos vagos, amiúde distorcidos, forçados, equívocos, artificiais e fantasiosos. Afinal, a “virtude epistêmica” não era o ponto forte do idealismo alemão. E o método expositivo de fazer poeira retórica do tipo religioso-oracular serviu bem aos seus crédulos discípulos como meio de produzir a impressão de profundidade abissal e de encobrir fragilidades argumentativas. Um só exemplo: arte, religião e filosofia não se sucederam uma à outra como seria de esperar se sua relação fosse realmente o produto de um desenvolvimento dialético. Sabemos apenas que a filosofia surgiu posteriormente, coexistindo com a arte e a religião, o que, em meu juízo, só pode ser justificado por sua natureza derivada (Cap. I, sec. 6-10).

   Para avaliarmos melhor o que Hegel pretendeu fazer como filosofia, precisamos recorrer ao triângulo metafilosófico apresentado no primeiro capítulo desse livro (sec. 10). Segundo aquele esquema, a filosofia é uma prática cultural derivada da prática científica (veritativa), da prática artística (metafórica) e da prática religiosa (holística). A filosofia de Hegel possui alguma ambição veritativa, mas sempre subordinada às demais. Sua motivação pendia para os vértices estético e místico, de modo que ele estava sempre disposto a sacrificar a verdade factual pelos efeitos metafóricos-estéticos e pela ambição totalizadora de um sistema omniabrangente. Por isso, sua filosofia impressiona mais pela configuração sistematizadora imaginativa e pela tonalidade religiosa-oracular de sua retórica argumentativa, confirmando uma ambição que, como a de Schelling, era produzir uma mitologia racional – uma visão de mundo (Weltanschauung) que fosse capaz de servir de esteio e guia para seus contemporâneos. Essa ambição fica clara no seguinte trecho de uma carta de Schelling a Hegel:

 

Necessitamos de uma nova mitologia, mas ela deverá estar a serviço da razão. Por isso, enquanto não tivermos transformado as ideias em obras de arte, isto é, em mitos, elas não terão qualquer interesse para o povo (…) A mitologia deverá tornar-se filosofia e o povo racional (…) Um espírito superior enviado pelo céu fará reinar entre nós a nova religião, derradeira obra da humanidade.[33]

 

Essa disposição esteticista com apelo místico, ainda que contenha insights verdadeiros, torna-se mais evidente quando comparamos Hegel a Hume, tendo, outra vez, em mente nosso triângulo metafilosófico. Hume se aproxima da arte e da ciência, mas quase nada das ambições da religião, da qual é crítico, o que praticamente extingue explicações holísticas. Daí, ter ele desenvolvido argumentos céticos, feitos para impressionar seus leitores com conclusões tanto inaceitáveis quanto irrecusáveis, em apelo ao choque imaginativo. Esses argumentos são particularmente proveitosos pelo desafio que impõem a quem busca a verdade científica. Embora o modelo de Hume possua forte apelo estético pelo estilo e na produção do “espanto” (thauma), ele não precisa “nos levar pelo nariz”, pois, como na arte, produz uma ilusão capaz de, em princípio, ser admitida como tal. Afinal, ele apresenta argumentos claros que o conduzem ao paradoxo, deixando para o leitor a escolha de aceitá-los ou não, além do trabalho de justificar essa escolha. Os objetivos eram diversos: Hume queria desmontar certezas terminando em conclusões absurdas; já Hegel queria construir uma visão de mundo, o que o levou a tentar justificar tudo, mesmo que a um preço por vezes alto demais.

   A questão da plausibilidade importa, mesmo que não seja o único elemento relevante na avaliação das ideias filosóficas. Não há por que duvidarmos do progresso da ciência. Hegel viveu antes da descoberta da evolução natural por Darwin, que se dá por tentativa e erro e não é teleológica nem dialética. Ele viveu também antes da formulação dos princípios da termodinâmica e da cosmologia contemporânea, que mostraram que a mente consciente é um acaso ínfimo dentro da imensidão do universo. Mesmo que essa mente consciente seja produto do universo e, nesse sentido, a sua própria consciência (segundo Cézanne, “somos a consciência do universo que se pensa em nós”), nada sugere que seja um produto teleológico desse universo – o que já basta para a rejeição do idealismo absoluto como uma posição especulativa plausível.

   Finalmente, é preciso lembrar da mais séria objeção contra a eliminação do objeto independente da mente no idealismo.[34] A principal razão pela qual admitimos a existência de um mundo material independente do sujeito da experiência é que tanto o aparecimento quanto a intensidade, a combinação e a ordem de aparecimento das representações sensíveis independem da mente ou do espírito. Como notamos já no capítulo V (sec. 5), na ausência de evidências indicadoras de qualquer cenário cético radical, nós nos servimos desses critérios de realidade para mantermos PR, a pressuposição da realidade tanto inerente quanto aderente do mundo externo, no sentido de não ser um mundo de propriedades mentais, porque satisfaz a inferência à melhor explicação como a hipótese mais parcimoniosa. Assim, na ausência de um cenário cético, não há razão para levantar a hipótese cética. Parece, pois, que possuímos razões suficientes para admitir a existência de um mundo externo, independente e fora da mente, que deve ser a fonte de nossas representações – o que demonstra ser ociosa a hipótese de que a ordem e independência das coisas sejam o resultado da imaginação produtiva inconsciente de um suposto espírito absoluto…

   Os filósofos que veremos a seguir, Marx e Nietzsche, poderiam, com boas razões, acrescentar que foi a crença religiosa em uma realidade extramundana o que mais instigou a filosofia a ignorar PR e a confundir nossas intuições.[35]

   Usando a palavra ‘metafísica’ no sentido crítico popularizado por Kant, podemos dizer que o pensamento dos filósofos a serem discutidos nos próximos capítulos já pertence ao que Jürgen Habermas chamou de era pós-metafísica, na qual a filosofia se torna progressivamente secularizada.

 

 

 

 

 

 



[1] G. W. F. Hegel, Phenomenologie des Geistes (1807). (Ullstein Materialien 1973), Vorrede, p. 20. Trad. port. Fenomenologia do espírito (Vozes 2014), Prefácio, p. 31.

[2] Fenomenologia do Espírito, trad. port. p. 38.

[3]  Carta a Nithammer 13/10/1806.

[4] cf. Elie Kedourie, Hegel &Marx: Introductory Lectures (Blackwell 1995), pp. 6-7. Não custa notar que partes da obra de Hegel foram censuradas ou tiveram sua circulação restringida pelo governo prussiano após a morte do autor.

[5] “Was vernünftig ist, das ist wirklich; und was wirklich ist, das ist vernünftig”. G. W. F. Hegel, Philosophie des Rechts (1820), prefácio. Trad. port. Filosofia do Direito (ed. 34 2019).

[6] Os termos ‘tese’, ‘antítese’ e ‘síntese’ não são de Hegel e podem confundir, uma vez que, em Hegel, a “antítese” não é algo independente da “tese”, mas algo nascido de uma contradição gerada por ela mesma.

[7] Para se ter uma ideia dos desgastantes problemas interpretativos internos da dialética hegeliana ver o artigo “Hegel’s dialectic” na Stanford Encyclopedia of Philosophy (Internet 2019).

[8] Ver, por exemplo, Graham Priest: “The Logical Structure of Dialectic”, in History and Philosophy of Logic 44 (2), 2023, pp. 200-208.

[9] cf. Wissenschaft der Logik livro II, sec. 1, cap. 2, C. Trad. port. A ciência da lógica (Vozes 2016), 3 vols.

[10] Em Aristóteles a contradição (ex: solteiro versus casado) não admite intermediários, enquanto o contrário admite (ex: branco versus preto, admite tons de cinza)...

[11] A construção do real na criança (Zahar 1970), p. 329.

[12] Jean Piaget, A equilibração das estruturas cognitivas (Zahar 1976), p. 123.

[13]  Sobre o conceito de intencionalidade coletiva, ver John Searle, Making the Social World: The Structure of Human Civilization (Oxford University Press 2010).

[14] Daí que Hegel chegou a dizer, em um de seus momentos mais delirantes, que a lógica investiga Deus como o pai, a filosofia da natureza investiga Deus encarnado, ou seja, como o Filho, e a filosofia do espírito investiga Deus como o Espírito Santo, o que resolveria filosoficamente o mistério da Santíssima Trindade! Vorlesungen über die Philosophie der Religion II (1832), Parte 3, I, 3.

[15] Isso não deve ser entendido literalmente, pois como o mundo é para Hegel parte de Deus, ele não poderia tê-lo criado.

[16] Wissenschaft der Logik (versão da Enciclopédia publicada em 1830), parágrafos iniciais das seções 86, 87, 88. Trad. port. Enciclopedia das ciências filosóficas em compêndio: A ciência da lógica, vol. 1 (Ed. Loyola 1995).

[17] Um primeiro problema (entre os inúmeros) é que, da relação Ser-Nada-Ser, não parece advir algo como o Tornar-se, que precisa ser um Devir temporal de algo empírico, o que foi percebido pelos críticos, de Schelling a Trendelenburg e Kierkegaard. Uma solução é entender o Tornar-se como ‘derivação’ ou ‘implicação’ (melhor dizendo, biimplicação), mas isso faz com que a força evocativa do Werden hegeliano se perca.

[18] Wissenschaft der Logic Livro II, B, a) Die Formale Causalität.

[19] Paul Edwards, “Heidegger Quest for Being”, in Philosophy 1989, vol. 64, n. 250, pp. 437-470.

[20] Ibid. p. 443.

[21] Ibid., p. 464.

[22] Ludwig Wittgenstein, Investigações filosóficas (Vozes 2014), parte II.

[23] Para Freud, assim como o esquizofrênico trata o abstrato como se fosse concreto, o filósofo trata o concreto (no caso, o psicológico) como se fosse abstrato (o ontológico-existencial).

[24] Embora esse momento seja lembrado na Enciclopédia, vol. III, seção I, B, ele só foi desenvolvido sob forma dramática na Fenomenologia do Espírito, uma obra complexa e de maior importância, que mereceria um comentário à parte.

[25] Enciclopedia vol. III, sec. 547-548. Ver também G. W. F. Hegel, „Die Verfassung Deutschlands“ (Reclam 1923).

[26] Immanuel Kant, Zum ewigen Frieden: einer philosophischen Entwurf (1795). Trad. Port. À paz perpétua: um esboço filosófico (Vozes 2020).

[27] Para um comentário, ver Jean Hyppolite, Introdução à filosofia da história de Hegel (Civilização Brasileira 1968).

[28] Fenomenologia do espírito, cap. IV, sec. B.

[29] G. W. F. Hegel, Vorlesungen über die Äesthetik (1835). Curso de estética: o belo na arte (Martins Fontes 1996), I, Definições Gerais, 1.

[30] G. W. F. Hegel, Curso de estética: o belo na arte. Ibid., Parte II, seção 1 (a forma simbólica de arte).

[31] G. W. F. Hegel, Prefácio à filosofia da religião de Hinrichs (UBI 2011), pp. 11-15.

[32] “Tão difícil era para a mente conhecer-se a si mesma”, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie (1833) sec. III: Filosofia Alemã Recente, E. Resultado final.

[33] A carta mostra bem o pathos poético-místico do interior do qual ambos buscavam ser compreendidos. Op. cit. Kostas Papaioannou, Hegel (Presença 1964), pp. 7-8.

[34] cf. Peter Singer: Hegel: A Very Short Introduction (OUP 2001), p. 132.

[35] Procurei ignorar objeções de caráter moral, como as imprecações de Schopenhauer contra Hegel, as objeções exageradas de Karl Popper e até mesmo as de Bertrand Russell, para quem Hegel é a prova de que um gênio também pode ser intelectualmente desonesto (o que soa como dizer que os profetas bíblicos eram desonestos, o que só faz sentido se considerarmos desonesto o próprio sistema social que os produziu). Também quis ignorar a atitude dos cultores de Hegel, que o interpretam como os teólogos interpretam as escrituras sagradas, às vezes para o entretenimento de delírios filosóficos próprios, calçados nas mensagens do “profeta”.

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