draft adiantado para o livro a ser publicado pela Editora Europa (Roma)
XII
KANT: IDEALISMO TRANSCENDENTAL
Duas
coisas preenchem o ânimo com admiração e reverência sempre novas e crescentes,
quanto mais frequentemente e mais intensamente o pensamento se ocupa delas: o
céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.
Kant
Um
professor alemão certa vez observou que, na filosofia moderna, há várias
grandes ilhas, mas apenas dois continentes: Kant e Hegel. Como resultado, uma
pessoa pode passar a vida inteira explorando um desses continentes sem jamais desvendá-lo
por completo.
Essa
avaliação parece-me, contudo, um tanto exagerada e sectária. É inegável que Kant
e Hegel construíram sistemas incomparavelmente ambiciosos, mas, se a
importância de suas ideias fosse tão exponencialmente superior às dos demais,
isso mereceria ser questionado. É difícil não concordar com P. F. Strawson, que
no prefácio do mais influente ensaio sobre a obra máxima de Kant, a Crítica
da Razão Pura, escreveu ter lido o livro com um “sentimento misto de grande
insight e grande mistificação”.[1] Com efeito, o sistema
arquitetônico desenvolvido por Kant e legitimado pela universidade prussiana,
apesar de permitir abrangência, cobra um alto preço em artificialidade. As
peças do quebra-cabeça, da “colcha de retalhos”, só parecem se encaixar por
meio de artificialismos argumentativos, ocultados por uma densa nuvem de
obscuridade semântica, reforçada por uma apresentação rebuscada e dogmática. O
mesmo vale ainda mais para Hegel. A regra é: se um argumento parecer pouco
convincente, complique-o e confunda-o a ponto de fazer com que o leitor se perca
nele ou, pior, que acredite ter encontrado um caminho, enquanto seus
interlocutores pensam ter encontrado outros, o que acaba por originar uma
infinidade de discussões tão tediosas quanto improfícuas.
Também
é preciso distinguir entre profundidade e amplitude. Um filósofo como Berkeley
teve intuições tão profundas e originais quanto as de Kant. Mas dedicou apenas uma
pequena parte de sua vida à reflexão filosófica. Kant dedicou toda a sua longa
vida ao aprendizado e à investigação. Em meu juízo, Kant e Hegel são ilhas
maiores. Nenhum continente.
A obscuridade acompanha a filosofia desde
seus primórdios e tem sua razão de ser. O recurso à abertura discursiva,
propiciada pela vaguidade e pela falta de clareza, é lícito quando há intuições
importantes a veicular, mas faltam recursos conceituais para formulá-las adequadamente.
Já em Heráclito e Parmênides encontramos essa condensação polissêmica de ideias.
A invenção do “ser” por Parmênides foi um recurso figurativo genialmente
explorado na sugestão de caminhos de investigação. E não há exemplo mais
flagrante de obscuridade construtiva do que a Metafísica de Aristóteles,
na qual vemos um filósofo esforçando-se honestamente para abrir trilhas no
interior de sua própria floresta argumentativa. Como observou H. H. Price, em
uma passagem que por si só é suficiente para justificar muito da obscuridade
que encontramos na filosofia tradicional:
Podem
muito bem existir algumas coisas que, na terminologia avaliável em certo tempo,
só possam ser ditas obscuramente; ou em uma metáfora ou (o que é ainda mais
perturbador) em um oxímoro ou em um paradoxo, isto é, em uma sentença que rompe
com as regras terminológicas existentes e que, em seu sentido literal, é
absurda. O homem que as diz pode, é claro, estar confundido. Mas é possível que
esteja dizendo algo importante. Nesse caso, seus sucessores podem ser capazes
de adivinhar o que ele está tentando sugerir. As regras terminológicas podem,
ao final, mudar. E a metáfora selvagem ou o paradoxo ultrajante de hoje pode
tornar-se a platitude de depois de amanhã.[2]
Não
obstante, o que foram razões plenamente justificáveis acabou por ceder lugar a
razões mais comezinhas. Dentre todos os filósofos modernos até aqui
considerados, Kant foi o primeiro grande filósofo acadêmico. Hume foi um grande
estilista que escrevia para leigos cultos. Precisava ser claro. O mesmo vale
para Descartes, Leibniz, Locke e Berkeley. Diversamente disso, Kant foi um
professor: falava do alto de uma cátedra e escrevia para colegas versados em filosofia
em um ambiente acadêmico que devia ser provinciano e pernóstico.
Há outra razão, ainda mais comezinha, para a
pretensão de profundidade obtida por meio de uma obscuridade rebuscada, mesmo
na obra de um grande filósofo como Kant. Ele servia ao reino da Prússia, um
estado autoritário e militarizado, com reis despóticos, em que a liberdade de
expressão era severamente controlada – uma situação retrógrada em comparação com
a inglesa. Certa vez, um príncipe foi visitar Kant na universidade para
conferir-lhe honrarias. Assim, a seu modo, ele também servia à glória do Estado
Prussiano, devendo, em filosofia, fazer o melhor para condizer com essa função.
Outro filósofo acadêmico que serviu ao reino da Prússia foi Hegel, que chegou a
ser professor em sua capital, Berlim. Ainda mais obscuro do que Kant, seu
sistema revelava uma ambição incomparável. O contraponto estilístico de Hegel foi
seu contemporâneo Schopenhauer, que não era acadêmico e escrevia de modo tão
claro quanto é possível em filosofia.
A escrita pedantesca e obscura, ou
simplesmente descuidada e macarrônica, mas dotada de um tom quase profético, fez
escola na Alemanha. Ela é condizente com o pendor da filosofia alemã para o
vértice místico do triângulo metafilosófico, visível quando o filósofo tende a
escrever como se fosse uma pitonisa. Husserl e seu pupilo rebelde, Martin Heidegger,
foram bons exemplos. E nem mesmo Jürgen Habermas escapou dessa tradição. Isso
não significa, necessariamente, má filosofia. O gênio de Kant e Hegel é inegável,
assim como a importância pouco reconhecida de Husserl, a relevância de
Heidegger para a antropologia filosófica e as contribuições de Jürgen Habermas
para a filosofia social. Trata-se, em geral, de uma questão de custo-benefício.
O método
de fazer poeira com palavras, de modo a dar a impressão de profundidade, foi
importado para a França por Sartre e Merleau-Ponty e, mais tarde, aprimorado por
acadêmicos pós-modernos, como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Derrida.
O problema é que aquilo que era uma mensagem filosoficamente rica e profunda, mesmo
que encoberta sob um denso nevoeiro de terminologia confusa que a deveria tornar
invulnerável, transformou-se em alguns escritos de Deleuze em mera experimentação
linguística onde quase nada havia a ser dito, e, em Derrida, em uma simulação
retórica dos procedimentos filosóficos que, quando trocada a miúdos, na melhor
das hipóteses, se demonstrava falsa e, na pior, uma algaravia estilisticamente
proficiente, mas geralmente irrelevante ou sem sentido.[3]
Se nos
lembrarmos do triângulo metafilosófico exposto no primeiro capítulo do presente
livro (sec. 9), compreenderemos melhor: a França produziu grande literatura que
empurrou sua filosofia para o vértice estético, transformando-a quase em beletrismo,
assim como os Estados Unidos, por exemplo, têm produzido boa ciência, que empurrou
sua filosofia para o vértice do cientificismo. O problema surge quando a
filosofia está muitíssimo próxima de um vértice ou de um lado do triângulo, mas
é apresentada como se estivesse próxima de seu centro.
Uma maneira de tentar salvar certos escritos
de Deleuze e Derrida é reconhecer seu valor estético; seriam como instalações nas
artes plásticas.[4]
Não obstante, quando consideramos muito do que veio a ser chamado de pensamento
pós-moderno como arte, surge um problema. É que a arte é uma ilusão que se reconhece
como tal. Por isso, cada um é livre para retirar da experiência estética o que melhor
lhe aprouver. É por isso que a grande arte, chamada por Collingwood de arte
própria, possui um potencial ampliador da consciência (ver Cap. II, sec. 8).
Mas se a filosofia se utiliza de um mecanismo de produção de ilusões sem
reconhecê-lo enquanto tal, ela desce facilmente ao nível do que Collingwood
chamava de má arte: a arte adormecedora da consciência.
Uma última observação diz respeito aos
efeitos culturais deletérios do pós-modernismo. Ele ensina as pessoas a acreditarem
que estão empenhadas em uma investigação filosófica séria, quando pouco mais fazem
do que se envolver em experimentos sofísticos.[5] Como notou Noam Chomsky, ideias
verdadeiramente originais são raras e difíceis de conceber. Como o chauvinismo intelectual
da cultura francesa a tem feito julgar-se o centro do mundo, exigindo a
constante invenção de novidades capazes de aparecer na capa do Le Monde,
intelectuais geralmente responderam com sofismas explosivos, quando não meras
trivialidades envelopadas em um discurso quase ininteligível, mas que parece
impressionante a ouvidos incautos: “não existe essência humana”, “a verdade não
existe”, “a moral é sempre relativa”, “tudo é narrativa”, etc.[6] Segundo Chomsky, essa
forma superficial de distração inibe a objetividade crítica e se torna culturalmente
contraproducente em países periféricos, sem uma tradição cultural e filosófica
forte, onde a pseudoprofundidade e o experimentalismo discursivo podem passar facilmente
por grandes aquisições culturais.[7]
1
Vida. Não há muito a dizer sobre a vida de Kant (1724-1804).
Ele nasceu em uma família de seleiros, sem recursos nem instrução. Eles eram
pietistas, um ramo radicalizado do luteranismo, cujos valores maiores eram “o
dever, o trabalho e a oração.” Aos oito anos, ele ingressou em uma escola
pietista altamente disciplinada. Mais tarde ele recordaria a infância como um
período de escravidão, embora essa experiência lhe tenha deixado marcas profundas
que se refletiram em sua filosofia. Aos poucos, ele galgou os degraus da vida
acadêmica, tornando-se um professor aclamado. A monumental Crítica da Razão
Pura[8] foi sua primeira grande
obra, publicada aos 58 anos. Só depois disso vieram outros textos importantes,
como a Crítica da Razão Prática, a Metafísica dos Costumes e a Crítica
do Juízo.
Kant
era conhecido por sua disciplina inflexível. Há muitas anedotas a seu respeito.
Conta-se, por exemplo, que jamais deixava de fazer seu passeio diário às 4
horas da tarde sob qualquer tempo. Certa vez, precisando muito terminar um
artigo, chegou o momento do passeio. Grande conflito! Felizmente, teve uma
ideia que lhe permitiu resolver o dilema. Ele postou o tinteiro a uns sete metros
da mesa onde escrevia, de modo que, a cada minuto, precisava caminhar até o
tinteiro para molhar sua pena de ganso. Esse estratagema simples lhe permitiu dar
o passeio e escrever o artigo ao mesmo tempo.
Apesar
de seu rigor e inflexibilidade prussianos, Kant era uma pessoa bastante
sociável. Costumava organizar almoços com amigos, geralmente comerciantes
locais e nunca professores universitários. Goethe o admirava e quis conhecê-lo
pessoalmente. Mas Kant fez tanta dificuldade que o poeta teve um acesso de
raiva e desistiu da ideia. Kant nunca viajou para longe de sua cidade natal, nem
se casou. Parece que preferiu seguir o conselho de um amigo inglês e investiu
seu dinheiro em um banco, o que acabou por revelar-se a escolha certa.
2
Juízos.
O mais importante em Kant é sua Crítica da razão
pura, obra só comparável em influência à Metafísica de Aristóteles.
Como Locke e Hume, Kant também quis estabelecer a natureza e os limites do
conhecimento humano, com o objetivo de criticar as pretensões da metafísica
dogmática. Esta, segundo ele, pretendia demonstrar a imortalidade da alma, o
livre-arbítrio e a existência de Deus, mas nunca conseguiu apresentar mais do
que argumentos frágeis e de valor duvidoso. Kant procurou explicar as razões
pelas quais tais argumentos eram de valor duvidoso e, ao fazê-lo, redefiniu
parte dos fundamentos da filosofia moderna.
A construção arquitetônica da Crítica
é impressionante e profundamente original. Kant concebeu-a como um ambicioso
esforço de síntese destinado a superar tanto o racionalismo continental quanto
o empirismo britânico. Do racionalismo, buscava ultrapassar a metafísica
dogmática que aprendera sob a influência de Christian Wolff, herdeiro de Leibniz.
Já do empirismo, pretendia superar o ceticismo de Hume, ainda que o último,
segundo suas próprias palavras, o tivesse acordado do “sono dogmático” do
racionalismo no qual fora educado. Ainda que poucos acreditem que Kant tenha alcançado
seu objetivo último, é inegável que ainda temos muito a aprender com o caminho
que ele percorreu.
O primeiro passo dado por Kant para superar
a oposição entre racionalismo e empirismo foi revisar a distinção empirista entre
associações de ideias e questões de fato (Hume), correspondente à
distinção racionalista entre as verdades da razão e as verdades de
fato (Leibniz) – uma dicotomia cujas origens retrocedem à filosofia
medieval. Kant a substituiu pela respectiva distinção entre:
(i)
juízos
analíticos (a priori) e
(ii)
juízos
sintéticos (a posteriori),
adicionando então a ela um terceiro tipo de juízo, os:
(iii)
juízos
sintéticos a priori.[9]
Vejamos
como ele os define. (i) Os juízos analíticos substituem as relações de ideia em
Hume. Mas Kant os define à maneira de Leibniz: são aqueles em que o conceito do
predicado está contido no conceito do sujeito. Eles são a priori no
sentido de que possuem absoluta independência de qualquer experiência e
apresentam as marcas do a priori, que, para ele, são a necessidade e a universalidade
estrita.[10]
O exemplo dado por Kant é: “Todos os corpos são extensos”. Simplesmente, encontra-se
na definição de um corpo que ele deve ser extenso. Não só são os juízos
analíticos necessários, mas sua negação conduz a uma contradição (incoerência
ou inconsistência). Por exemplo: “Nem todos os corpos são extensos” é um
enunciado necessariamente falso. Tais juízos não ampliam nosso conhecimento.
Eles nada nos dizem sobre o mundo; apenas reafirmam relações lógico-conceituais.
Exemplos são “Triângulos têm três lados”, “Vermelho é uma cor”, “Solteiros são
não-casados.”
Apesar de engenhosa, a definição de juízo
analítico adotada por Kant é insatisfatória, pois nem todo enunciado analítico tem
a forma sujeito-predicado. O enunciado “Se João é casado com Maria, então Maria
é casada com João” é analítico, mas não cabe na definição kantiana. Por isso,
preferimos hoje dizer que o enunciado analítico é aquele cuja verdade (ou
falsidade) depende das relações entre seus constituintes semânticos.[11] Ou então recorremos à
definição fregeana, segundo a qual um enunciado é analítico quando sua
verdade depende tão somente de definições e das leis da lógica.[12] Assim, “Todo triângulo
tem três lados” é analítico porque o conceito de triângulo se define como uma
figura plana e fechada com três lados; substituindo-se essa definição pelo
sujeito, obtém-se a tautologia “Toda figura plana e fechada com três lados tem
três lados”.
Quanto a (ii), os juízos sintéticos (a
posteriori) foram definidos por Kant como aqueles em que o conceito do
predicado não está contido no conceito do sujeito. Por isso, a descoberta de
sua verdade parece sempre demandar experiência empírica, o que os torna a
posteriori. Seu exemplo preferido era: “Todos os corpos são pesados”. Sabemos
disso por experiência, o que torna sua negação não contraditória. Afinal, é possível
que existam corpos sem peso. (Na verdade, corpos físicos que se encontram fora
da ação gravitacional não possuem peso, apesar de possuírem massa...) Os juízos
sintéticos a posteriori são ampliativos (informativos, dado que ampliam nosso
conhecimento). Eles nos dizem algo sobre o mundo e constituem a maior parte de
nossas afirmações cotidianas. Exemplos: “Estou sentado”, “O céu está azul”, “Pequim
é a capital da China”, “Sapos não comem insetos que não se movem…” Hoje nós
definiríamos o juízo sintético como aquele cuja verdade (ou falsidade) não
depende das relações entre seus constituintes semânticos, mas, ultimamente, de
sua relação com o mundo, ou seja, da experiência.
A
grande inovação de Kant, porém, foi postular a existência de um terceiro tipo
de juízo: (iii) o juízo sintético a priori. Nesse juízo, o conceito do
predicado não está contido no conceito do sujeito (é sintético), mas, ainda
assim, ele é necessário e universal (é a priori). Exemplo de Kant: “Toda
mudança tem uma causa.” Aqui o predicado não está contido no sujeito (sintético),
mas ele o considera necessário e universal (a priori). Poderíamos hoje definir
tais juízos como aqueles cuja verdade (ou falsidade) não depende das
relações entre suas unidades semânticas internas, mas de suas relações com o
mundo (são sintéticos); contudo, ainda assim são necessários e
estritamente universais (a priori).
A
origem da ideia do juízo sintético a priori encontra-se principalmente no
enorme impacto da física newtoniana da época, cujas leis eram, para Kant e seus
contemporâneos, consideradas verdades absolutas sobre a natureza.[13] Esse seria por certo o
caso das leis do movimento postuladas por Newton, como a segunda lei, segundo a
qual a força depende da massa multiplicada pela aceleração (F = ma),
assim como a impressionante lei da gravidade universal, segundo a qual dois
corpos físicos se atraem em proporção direta às suas massas e inversa ao
quadrado de suas distâncias (F = g . m1.m2/d2).
Além da física, Kant também via a aritmética
como composta por juízos sintéticos a priori. Para ele, “7 + 5 = 12” é um juízo
sintético a priori, pois o conceito do número doze não está contido no conceito
da soma de 7 e 5.[14] Mas o resultado dessa
soma é a priori, pois se aplica ao mundo de modo necessário e universal. A
sugestão de Kant parece tornar-se mais aceitável quando consideramos somas de
números maiores, como “389 + 973 = 1362”. Aqui, decididamente, não vemos o
conceito do predicado “...é igual a 1362” no conceito da soma em questão. Por
isso, esses juízos devem ser sintéticos. Mas eles também são a priori por se aplicarem
necessariamente ao mundo na independência de qualquer experiência...
Também os juízos da geometria, segundo Kant,
são sintéticos a priori. Considere o enunciado da geometria euclidiana “A reta
é a distância mais curta entre dois pontos”.[15] Para ele, podemos pensar
a linha reta como a independência de ser a distância mais curta entre dois
pontos (Euclides definiu a reta como “uma linha traçada uniformemente com os
pontos sobre si”). Assim, esse enunciado deve ser sintético a priori, visto que
o consideramos necessário e universal, por depender da intuição pura do espaço,
que, como logo veremos, é legislada pelo sujeito.
O mais importante caso de juízo sintético a
priori foi o dos juízos constitutivos do próprio sistema de filosofia teórica proposto
por Kant. Exemplos paradigmáticos do que ele admitia como sendo juízos
sintéticos a priori são enunciados supostamente metafísicos como:
Toda mudança tem uma causa.
Em todas as mudanças nas aparências, a substância permanece.
Existe um mundo objetivo independente de nós.
Quero
considerar aqui apenas o princípio “Toda mudança tem uma causa”. Não se trata
de um juízo analítico, pois o conceito de causa expresso pelo predicado não está
contido no conceito de mudança expresso pelo sujeito. Afinal, é possível
imaginar mudanças sem causa. Mas, se fosse assim, como seria possível garantir
nosso conhecimento de um mundo regido pela causalidade? Como seria possível a
necessidade causal? Não cairíamos inevitavelmente no ceticismo humeano?
A
resposta de Kant é que se trata de um juízo sintético a priori. Ele é
ampliativo porque acrescenta algo ao conceito de mudança (é sintético), mas é
necessário e universal, porque não depende da experiência (é a priori). E isso
precisa ser assim porque, na seção da Crítica intitulada ‘analogias da
experiência’, ele acreditou ter demonstrado que a natureza, tal como pode ser
conhecida por nós, precisa ser submetida ao princípio da causalidade.
3
Revolução
copernicana. A grande
dificuldade, para Kant, consistia na justificação última da verdade dos juízos
sintéticos a priori. Afinal, nada garante que o mundo deva se comportar de tal
modo que juízos ampliativos sobre ele sejam a priori no sentido de serem
necessários e universais!
Kant acreditou ter alcançado a resposta por
meio do que chamou de “a grande luz”, que o conduziu ao pensamento crítico: uma
grande descoberta, por ele denominada “revolução copernicana”.[16] Assim como após
Copérnico, em vez do Sol circular em torno da Terra, a Terra passa a circular
em torno do Sol; após Kant, é o sujeito do conhecimento que passa a circular em
torno dos objetos. Em outras palavras: o sujeito do conhecimento passa a desempenhar
um papel ativo na produção do próprio saber. E para que isso aconteça, o
mundo precisa obedecer às leis impostas pelo sujeito do conhecimento de modo a
poder ser conhecido naquilo que lhe é necessário e universal. Daí a célebre
afirmação: “Nós somos os legisladores da natureza!”[17] Somos nós que lhe damos
forma e estrutura. É somente por isso que os juízos sintéticos a priori são
necessários e estritamente universais: porque o mundo, enquanto cognoscível,
precisa seguir os princípios impostos pela nossa matemática, pela nossa geometria
e pela nossa ciência empírica. Um princípio como o de que toda mudança tem uma
causa era considerado por ele necessário e universal, ou seja, não apenas
sintético, mas também a priori, resolvendo, a fortiori (para não dizer
“a um preço abusivo”), o problema do ceticismo humeano.
Fundamental para a sua revolução copernicana
é uma espécie de, digamos assim, “sub-jetivização” do mundo da experiência, que
é proposta por Kant através da distinção entre mundo noumênico e mundo fenomênico.
O mundo noumênico é o mundo tal como ele é em si mesmo, na independência da
experiência. Esse mundo é constituído pelo que Kant chamou de coisa em si
(Dinge an sich), enquanto, subjetivamente, é constituído por um Eu transcendental
noumênico, um X distinto do eu empírico descrito por Hume como um feixe de
ideias sempre diversas. Nada podemos saber sobre esses dois polos do
impensável. Nada podemos saber sobre a coisa em si mesma, sobre o X da
subjetividade transcendental ou sobre o mundo noumênico que as encerra. Tudo o
que podemos saber é sobre o mundo tal como ele nos aparece, o mundo fenomênico
das aparências (a palavra grega ‘pheinomenon’ significa ‘aparência’),
que é o mundo submetido às nossas formas e estruturas a priori de conhecimento.
A distinção entre o mundo fenomênico e o
mundo noumênico é fundamental para a revolução copernicana. Se somos nós que
legislamos sobre o objeto do conhecimento, então esse objeto precisa ser de
algum modo “sub-jetivizado”. Afinal, se tudo o que precisamos para legislar o
universo é legislar a nós mesmos, a tarefa fica grandemente facilitada! O mundo
fenomênico passa a ser, em sua forma e estrutura, dependente do sujeito da
experiência. E a tarefa de dar conta dessa forma e estrutura será atribuída aos
juízos sintéticos a priori.
Do ponto de vista da epistemologia da
percepção, Kant tentou ancorar o mundo humeano das ideias soltas em um mundo
noumênico incognoscível. Locke tem sido geralmente considerado um realista
indireto. Berkeley orgulhava-se de seu idealismo imaterialista,
enquanto Hume era um idealista incrédulo, que tinha prazer em desafiar o
senso comum com enigmas que pareciam insolúveis. Kant foi, ao menos em uma
interpretação possível, o que poderíamos chamar de um realista indireto por
postulação. O mundo como ele é em si mesmo, o mundo noumênico, é algo sobre o
qual o entendimento humano nada é capaz de dizer. Trata-se, nesse caso, de uma forma
minimalista de realismo indireto. Outra maneira de interpretar Kant é
considerá-lo um realista direto, uma vez que o mundo externo fenomenal
é, para ele, o mundo real que nos cerca; mas, nesse caso, parece que teremos de
ignorar ou, então, deflacionar a coisa em si a ponto de lhe retirar qualquer
peso ontológico.
4
Objeções.
Quanto a tudo o que foi considerado até agora, há sérias
objeções a fazer. A primeira diz respeito à aritmética. Vejamos, por exemplo, o
enunciado “7 + 5 = 12”, que, para Kant deveria expressar um juízo sintético a
priori. À luz da nossa lógica predicativa atual, não se trata, de fato, de um enunciado
do tipo sujeito-predicado, como ele pensava. Trata-se de um enunciado com o predicado
relacional “=” ou “...é o mesmo que...”. Interpretado dessa forma, o enunciado
é analítico, mesmo que não tenhamos em mente o resultado da soma ao considerar “7
+ 5”, pois ambos os lados da igualdade têm a mesma referência, o número 12. A
analiticidade se torna mais evidente em casos mais simples, como o da soma “2 +
1 = 3”, na qual parecemos ver o 3 já no primeiro lado da identidade. Leibniz
poderia analisa-lo como (1 + 1) + 1 = ((1 + 1) + 1), admitindo que 2 (Df.)
= 1 + 1 e que 3 (Df.) = 2 + 1. (Ver Cap. VII, sec. 1) Quanto à soma “389
+ 973 é o mesmo que 1362”, o fato de não percebermos a identidade de imediato pode
ser visto como uma limitação nossa; um ser com poderes cognitivos muito
superiores a veria tão claramente como “2 + 1 = 3” (alguns savants são
capazes disso.)
Consideremos agora um enunciado como “A menor
distância entre dois pontos é uma linha reta (na geometria euclidiana).” Nada
nos impede de definir uma semirreta no plano euclidiano como a linha mais curta
entre dois pontos. Nesse caso, o predicado é um desdobramento do sujeito, e o
enunciado poderá ser considerado analítico. Outros enunciados da geometria
euclidiana, como “A soma dos ângulos internos de um triângulo euclidiano é 180°”,
exigem demonstração. Mas, como a demonstração parte de axiomas que não podem
ser negados sem contradição, os enunciados deduzidos deles tornam-se,
indiretamente, analíticos.
Dois pontos hoje bem conhecidos devem ser
considerados aqui. Primeiro: os enunciados da geometria podem ser considerados tanto
analíticos e a priori quanto sintéticos a posteriori, dependendo de como os consideramos.
Enquanto os consideramos parte do sistema da geometria euclidiana, eles são
necessariamente verdadeiros, pois decorrem logicamente de axiomas e postulados
aceitos; são analíticos e a priori. Porém, quando os aplicamos ao mundo real, suas
verdades passam a depender de medições empíricas, o que os torna sintéticos a
posteriori.
O
ponto torna-se evidente quando consideramos os desenvolvimentos da ciência após
Kant. Em seu tempo, a geometria euclidiana era a única existente, o que lhe
permitia considerá-la a única aplicável ao mundo externo. Contudo, cerca de
trinta anos após sua morte, N. I. Lobachevsky desenvolveu a geometria hiperbólica,
rejeitando o quinto postulado de Euclides. Nela, a soma dos ângulos de um
triângulo é menor que 1800. Pouco depois, Bernhard Riemann elaborou
uma geometria elíptica, também rejeitando o quinto postulado, mas obtendo
triângulos cujos ângulos somam mais de 180°. O resultado disso é que não existe
uma única geometria, como Kant pensava.
De um
ponto de vista interno a elas, qualquer uma dessas geometrias é verdadeira, e
seus enunciados podem ser considerados analíticos ou derivados analiticamente a
partir de seus axiomas. São, no sentido de Hume, relações de ideias. Seus
enunciados serão necessariamente verdadeiros, pois decorrem de axiomas aceitos,
de modo que suas negações serão contraditórias. Não há, pois, razões
intrínsecas para escolhermos um sistema geométrico em detrimento de outro.
Contudo, a situação tornou-se ainda pior
para os kantianos quando se demonstrou que a geometria que descreve com mais precisão
o espaço físico real não é necessariamente euclidiana. Em 1915, com sua teoria
da relatividade geral, Einstein demonstrou que, na proximidade de corpos
massivos, a gravidade encurva o espaço-tempo, o que o torna mais precisamente
descrito por uma geometria riemanniana.[18] Assim, se traçarmos um
triângulo entre a Terra, Vênus e Marte, a soma dos ângulos internos será maior
que 180°.
Para uma avaliação adequada da questão, basta
distinguir entre geometria pura e aplicada. A validade da
geometria aplicada depende da experiência. A geometria euclidiana parece
perfeitamente aplicável ao espaço físico imediato, já que nos basta para medir
o espaço ao nosso redor. A evolução natural nos dotou da capacidade de aplicar
essa geometria em nossas ações no mundo e de compreendê-la com muito mais
facilidade do que as geometrias alternativas. No entanto, a física moderna
demonstrou que, quando consideramos grandes distâncias entre corpos massivos, a
aplicação da geometria elíptica nos traz resultados mais precisos (a geometria
euclidiana voltará a valer em um espaço sem gravidade). Assim, deixa de haver
razão para que a geometria euclidiana seja considerada sintética a priori. Como
geometria pura, ela pode ser considerada analítica, ou seja, um sistema
axiomático em que os enunciados se deduzem dos axiomas. Mas como geometria aplicada,
ela será sintética e a posteriori, posto que será considerada do ponto de vista
de sua aplicação ao mundo físico externo, ou seja, como parte de nossa
descrição física do mundo. A insistência no sintético a priori resulta apenas
de uma confusão entre o caráter sintético (mas a posteriori) da geometria
aplicada ao mundo físico e o caráter analítico (mas a priori) da geometria
axiomática.
Um destino semelhante teve a física
newtoniana, com suas leis que, para Kant, eram verdades absolutas. A
relatividade geral nos mostrou que a lei da gravitação de Newton é apenas uma
aproximação. O que melhor se aplica é uma lei muito mais complexa, resultante
da teoria da relatividade geral, que possui maior poder explicativo no mesmo
domínio. Não podemos sequer saber se essas últimas leis são necessárias e
estritamente universais, a não ser por postulação. Como observou Karl Popper,
mesmo que alcançássemos a verdade absoluta, jamais saberíamos se a alcançamos
de fato. Isso vale para a física, mas, supostamente, também para tudo o que
julgamos conhecer. Não é logicamente impossível que um dia acordemos em um
mundo encantado, descobrindo que as estrelas não passam de pirilampos colocados
pelos deuses no céu da noite para enfeitar a abóbada celeste, o que evidencia
que nossa concepção atual do cosmos nada mais é do que uma fabulosa ilusão. A
conclusão é que as leis da física não são juízos sintéticos a priori. Elas são
juízos sintéticos a posteriori, sempre passíveis de refutação.
No que diz respeito à matemática, à
geometria e à física, a suposta revolução copernicana de Kant chegou a um
triste fim e temos boas razões para descartá-la antes mesmo de considerar seu
sistema. Identificamos os princípios da geometria euclidiana devido às
capacidades adquiridas por meio da evolução natural. Mas eles não são
universais, pois somos capazes de alterá-los, como ocorreu com o surgimento de
novas geometrias.
Hume e Kant abordaram o problema de maneiras
distintas. Hume entendeu as matemáticas (aritmética e geometria) como
constituídas por enunciados que são relações de ideias (ou seja, analíticas),
pois as concebia como aritmética e geometria abstratas. Nesse sentido, ele
estava certo. E, se fosse o caso, ele poderia ter considerado a geometria
aplicada como constituída por verdades de fato resultantes de inferências
indutivas meramente prováveis, ou seja, juízos sintéticos a posteriori. Kant,
por sua vez, tinha preocupação com a aplicação da aritmética e da geometria, acreditando
que as verdades da geometria euclidiana fossem absolutas, já que eram
conhecidas há mais de dois mil anos. Quanto às leis da física newtoniana, não parecia
haver, na época de Kant, boas razões para que não fossem consideradas
verdades absolutas. Para ele, Euclides na geometria e Newton na física haviam
decifrado o alfabeto com que Deus escrevera o livro da natureza. Assim, a primeira
questão que Kant se colocava era: como justificar a verdade absoluta dos juízos
da matemática e da geometria? A única resposta que encontrou foi que seus
juízos são sintéticos a priori. Eles são necessários e universais (a priori),
ao mesmo tempo em que são capazes de nos dizer algo sobre o mundo (sintéticos).
Só por meio de uma quase mística revolução copernicana seríamos capazes de dar
conta disso. Para nós é diferente. Ao menos desde C. S. Peirce (1839-1914), a
maioria dos filósofos da ciência tornou-se falibilista quanto à aplicação
de nossos juízos científicos ao mundo empírico.[19]
A conclusão a que chegamos é que a revolução
copernicana, tal como foi concebida por Kant, fracassou pouco tempo após o seu
início. Ainda se usa dizer que ele percebeu que a estrutura do mundo, tal como
somos capazes de conhecê-lo, depende dos filtros inerentes ao nosso aparato
cognitivo. A ideia faz sentido quando comparamos as várias maneiras de
apreender o mundo. Outros seres vivos terão outros filtros, outros pontos de
vista, outras formas de apreensão perceptual, que podem ser demonstradas como complementares
às nossas. Mas não precisamos de Kant para sabermos disso. O fato de um objeto
poder ser apreendido de maneiras complementares A, B, C… e ainda de inúmeras
outras maneiras desconhecidas não quer dizer que, para além disso, deva existir
algo que suporte as múltiplas apreensões cognitivas. Por exemplo. Um corpo
humano pode ser investigado por meio de:
(i)
exame físico,
(ii)
radiologia,
(iii)
ultrassonografia,
(iv)
tomografia computadorizada,
(v)
ressonância magnética, etc.
Mas
esse corpo não é mais do que aquilo que se apresenta e se pode apresentar
dessas e de outras maneiras que desconhecemos e que sabemos serem da mesma
coisa por se complementarem. A consciência de uma variedade irresgatável de
acessos deve ter persuadido Kant de que existe um “algo” incognoscível por trás
do que pode ser registrado pelos diversos métodos de observação, que determina
a completude de seus resultados: a coisa em si transcendental. Mas o termo
‘coisa em si’ apenas parece fazer sentido pelo fato de que ao
considerarmos os inúmeros modos ainda desconhecidos pelos quais uma mesma coisa
pode ser experienciada, somos levados a acreditar na existência de “um algo”
que não é experienciado e que é determinante do caráter inesgotável da experiência.
Se quisermos falar da coisa em si com sentido, ela se resumirá ao conjunto
daquilo que é possivelmente observável, mesmo que isso seja para nós
inesgotável.
A
improvável revolução copernicana persegue o kantismo como uma assombração; veremos
que há um elemento de misticismo que impulsionou Kant à postulação do mundo
noumênico, o que se tornará claro ao considerarmos seus postulados da razão
prática.
Na Crítica
Kant quis investigar as condições necessárias à experiência, ou seja, aquilo
por meio do qual damos à experiência forma e estrutura, de modo a possibilitar sua
revolução copernicana. Para tal, ele dividiu nosso aparato cognitivo em três
níveis transcendentais que se pressupõem sequencialmente: o primeiro deles é
tratado na estética transcendental, na qual examinou as formas da
intuição sensível pelas quais experienciamos os objetos, que, para ele, são o
espaço e o tempo. O segundo nível é tratado na analítica transcendental,
na qual examinou os juízos do entendimento e seus conceitos fundamentais: as
categorias. O terceiro nível é o da dialética transcendental, no qual
examinou os encadeamentos de juízos na formação do raciocínio, criticando seu uso
inadequado na metafísica dogmática de Wolff. Eis o esquema geral de nosso “aparato
cognitivo”, tal como ele teria sido divisado por Kant:
MUNDO NOUMÊNICO
APARATO COGNITIVO
autoconsciência da categoriais e
Razão fundamentais tempo
A
coisa em si e talvez mesmo o Eu transcendental pertencem ao mundo noumênico,
que está para além do cognoscível. Mais tarde, veremos como funcionam as peças
do que chamei de aparato cognitivo, mostrando como as categorias do
entendimento (como unidade, universalidade, causalidade, existência, substância,
necessidade…) se deduzem dos juízos do entendimento de modo a estruturar as
intuições espaço-temporais. Finalmente, veremos como as ideias da razão (Mundo,
Alma e Deus) funcionam para direcionar o raciocínio rumo a generalizações cada
vez maiores.
5
Percepção.
Após a introdução da Crítica, Kant passou à sua
estética transcendental. A palavra ‘estética’ vem do grego ‘aísthesis’,
que significa sensação ou percepção sensível. Esse sentido era comum no tempo
de Kant e não deve ser confundido com o estudo do belo. Já o termo
‘transcendental’ refere-se às condições supremas às quais deve ser submetido
qualquer objeto do conhecimento.[20]
Como já vimos, para Kant nós não conhecemos
os objetos em si mesmos, ou seja, como o que ele chamou de ‘coisa em si’ do
mundo noumênico. O que conhecemos são as modificações que eles produzem na intuição
sensível, a dizer, no domínio das aparências (Erscheinungen) ou
fenômenos (phainómena). Essas modificações possuem matéria
e forma. A matéria é o que é impresso nos sentidos pela coisa em si, o
material sensível. É tentador identificá-la com sensações como cores, dureza,
calor e frio, gosto, som. Mas isso seria enganoso, pois para reconhecer
sensações precisamos aplicar conceitos, os quais já pertencem ao domínio superior
do entendimento. O melhor que podemos dizer é que a matéria é aquilo que é
impresso nos sentidos pela coisa em si, sendo a posteriori. Já a forma é aquilo
que o sujeito imprime no material sensível, organizando-o. Quando
consideramos a forma da intuição sensível, abstraindo dela o material, temos o
que Kant chama de forma da intuição pura, constituída pelo espaço
e pelo tempo. Espaço e tempo vêm do sujeito, sendo, portanto, a priori,
ou seja, intuições puras necessárias e universais.
Para Kant, espaço e tempo são únicos e
infinitos, o que aproxima sua concepção da de Newton,[21] embora pertençam ao
sujeito da experiência. Espaço e tempo são intuições (Anschauungen) não
conceituais, subjacentes aos objetos dos quais temos conceitos. O espaço é a
forma da intuição externa: ele é subjacente aos objetos externos porque,
segundo Kant, podemos imaginar que todos esses objetos desapareçam e, mesmo
assim, a intuição do espaço permanecerá.[22] E o mesmo acontece com o
tempo como forma da intuição interna. Com isso, ele rejeitou a concepção
relacional de espaço e tempo, segundo a qual esses entes existem como entidades
objetivas e dependem da existência das coisas. Como vimos, para Leibniz, se todos
os objetos desaparecessem, o espaço e o tempo também desapareceriam.
O espaço é o que Kant chamou de forma da
intuição externa, de modo que todas as sensações nos parecem extensas. Como as
formas geométricas se dão no espaço, isso justifica o caráter sintético a
priori da geometria. Quanto ao tempo, ele é a forma da intuição interna, de
modo que todas as sensações ocorrem no tempo. Como ao contarmos séries
numéricas precisamos de tempo, é a intuição do tempo que, para ele, justifica o
caráter sintético a priori da aritmética e, em geral, da matemática. A
necessidade e a universalidade da geometria e da matemática decorrem, para ele,
do fato de que espaço e tempo são intuições puras pertencentes ao sujeito do conhecimento.
6
Crítica.
Em sua História da Filosofia Ocidental, Bertrand
Russell apresentou algumas objeções convincentes aos argumentos de Kant em
defesa da transcendentalidade do espaço e do tempo. Ele observou que não temos
nenhuma ideia do que sejam as intuições do espaço e do tempo infinitos ou
subjacentes aos objetos: não somos capazes, após retirarmos todos (realmente todos)
os objetos, de conceber um espaço como Kant pretendeu. Kant também deixa
inexplicada a razão pela qual organizamos as intuições do espaço de uma
maneira e não de outra. Como Russell observou:
O que me induz a arranjar os objetos da percepção como
faço e não de outra maneira? Por que, por exemplo, eu sempre vejo as pessoas
com os olhos sobre as suas bocas e não debaixo delas? De acordo com Kant (...),
nada nas coisas corresponde aos arranjos presentes em nossa percepção.[23]
Note-se
que isso vale para todo o material sensível conceptualizado pelo entendimento: nossa
escolha comum desses mesmos arranjos de objetos fica inexplicada. A
mesma coisa podemos dizer do tempo. Vemos o raio e, depois de alguns segundos,
ouvimos o trovão; mas sabemos que o raio e o trovão ocorrem quase
simultaneamente. Como explicar essa sequência se ordenamos as intuições
temporais internamente como aparências sensíveis conceptualizadas? Se
considerarmos esses dois exemplos, parece que a organização espacial e a ordem
temporal dos fenômenos não dependem do sujeito. Dependem, então, da coisa em si,
pertencendo a ela? Mas se pertencessem a ela, ela já se tornaria
espaço-temporal.
Considerando,
com poucas alterações, outro exemplo de Russell, imagine que alguém ouve uma
pessoa fazer uma pergunta e, em seguida, lhe responde. A fala da primeira
pessoa é anterior à sua audição, da qual se segue a réplica no mundo objetivo
da física. Essa ordem temporal não é determinada por esta ou aquela pessoa, o
que parece demonstrar a objetividade e independência do tempo físico. Esse
exemplo também ilustra a impossibilidade kantiana de trazer o mundo público,
no qual as pessoas interagem entre si, para dentro de seu espaço e tempo. A
intersubjetividade da experiência é um problema para Kant. Como John Searle notou
ao ler a Crítica: “Como é possível a publicidade? Como é possível que eu
e você tenhamos acesso visual à mesma aparência? Ou talvez não possamos?[24]
Apesar de todo o maquinário conceitual construído
por Kant, a estética transcendental nada tem de convincente. Como pode o
sujeito da experiência determinar o espaço e o tempo físicos, se essas entidades
claramente não dependem dele? A física moderna jamais teria descoberto que,
onde há gravitação, o espaço físico segue uma geometria elíptica, se o espaço fosse
imposto pelo sujeito como a forma da intuição sensível tal como pretendido por
Kant.
Há,
sem dúvida, um espaço dependente da mente, constituído por imagens mentais dadas
à percepção ou produzidas pela imaginação, bem como por uma consciência
psicológica do passar do tempo. Mas esses não são nem o espaço medido com fitas
métricas, nem o tempo contado pelos relógios, e sim fenômenos psicológicos
secundários, reflexos dependentes e nem sempre confiáveis de espaços e tempos
físicos reais. Em meu juízo, a exígua força da argumentação kantiana apoia-se
em uma confusão entre o espaço e o tempo psicológicos secundários e o espaço e
o tempo reais dos quais dependem.
7
Analítica
transcendental. Assim como a
estética transcendental tratava das intuições sensíveis, a analítica
transcendental ocupa-se dos conceitos do entendimento. Para Kant, intuições e
conceitos são complementares: as intuições só se tornam cognitivamente
acessíveis quando conceptualizáveis, e conceitos não ancorados em intuições
nada nos dizem. Como ele com razão escreveu:
As intuições sem os conceitos e os conceitos sem as
intuições não produzem conhecimento. Os conceitos sem as intuições são vazios e
as intuições sem os conceitos são cegas.[25]
O
objetivo original da analítica transcendental foi, por meio da revolução
copernicana, demonstrar a validade necessária e universal das leis da natureza,
como as grandes descobertas da física newtoniana. Para ele, isso só é possível
se o intelecto puder impor suas leis ao mundo, tal como ele nos aparece (como
fenômeno), e não tal como ele é em si mesmo (como noumenon). Assim, o entendimento
precisa impor suas leis à experiência. Contudo, o caminho que deve conduzir a
isso é, na argumentação de Kant, muito mais encarpado do que um leitor desprevenido
seria capaz de imaginar.
A atividade do entendimento não é mais a de
intuir, mas a de formar juízos sobre o que é dado à sensibilidade. O trabalho
dos juízos é unificar a experiência, formando sínteses a partir do
múltiplo das intuições sensíveis. As
classes mais gerais de predicados através das quais o entendimento sintetiza a
experiência são formadas por “superconceitos puros”, as categorias
kantianas, com as quais ele pretendeu substituir as de Aristóteles (Cap. III,
sec. 4). Uma diferença é que, enquanto para Aristóteles as categorias
pertenciam ao domínio do ser, ou seja, da realidade objetiva (legis entis),
as categorias kantianas pertencem ao domínio do sujeito (legis mentis),
dado que é o sujeito quem às impõe ao mundo da aparência fenomênica. Outra
diferença é que, enquanto em Aristóteles as categorias parecem ter sido estabelecidas
de maneira meramente rapsódica, Kant pretende fazê-las derivar de uma tábua dos
juízos inspirada na lógica clássica, seguindo o que chamou de dedução
metafísica das categorias.
As categorias ocupam, na analítica, um lugar
correspondente ao do espaço e do tempo na estética. A estética tratava das formas
a priori de toda a sensibilidade. A analítica trata das leis a priori que estruturam
todo o pensamento. Para serem intuídas, as coisas precisam ser submetidas às duas
formas da intuição sensível; mas para serem pensadas, elas também precisam ser
submetidas às leis do entendimento. No que se segue, apresento a tábua dos
juízos tal como ela foi proposta por Kant, seguida das doze categorias que eles
incorporam:
ESQUEMAS: JUÍZOS: CATEGORIAS:
universal totalidade
Quantidade particular pluralidade
singular unidade
afirmativo realidade
Qualidade
negativo negação
Infinito limitação
categórico
substância/acidente
Relação hipotético causa/efeito
disjuntivo ação recíproca
problemático possibilidade/impossibilidade
modalidade assertórico existência/inexistência
apodítico necessidade/contingência
As categorias são conceitos gerais implícitos em tudo
o que pensamos. A ideia de extrair conceitos fundamentais das formas dos juízos
é engenhosa, ainda que seu desenvolvimento seja discutível. Eis um exemplo
didático para ilustrar: “Essa rosa é vermelha”. Ele é singular, afirmativo,
categórico e assertórico. De modo correspondente, as categorias aplicadas são, respectivamente,
unidade (trata-se de uma coisa única), realidade (o referente é real),
substância (a rosa), acidente (é vermelha) e existência (a rosa existe).
Não
satisfeito com a dedução metafísica (quid factum) da tábua das categorias,
Kant decidiu apresentar uma dedução transcendental (quid juris) capaz de
demonstrar que as categorias são condição necessária para a possibilidade da
experiência. Essa dedução é a parte mais indevassável da Crítica e seu estudo
já foi comparado à travessia do grande deserto árabe... Vou resumir o que me pareceu o mais interessante.
Tudo começa com a observação de que nosso
entendimento opera sempre por meio de sínteses, ou seja, pela união de
elementos diversos. Primeiro, percebemos o múltiplo dado na intuição sensível;
depois, a imaginação retém ou reproduz esse conteúdo; por fim, reconhecemos que
se trata do mesmo objeto (recognição).[26] Esse
processo de síntese já envolve a aplicação dos juízos e, portanto, das
categorias.
O conhecimento, porém, não é feito de
pedaços soltos. Ele forma um conjunto integrado. Eu tenho consciência dessa
unidade graças ao que Kant chamou de unidade sintética da apercepção,
ou seja, a consciência de mim mesmo como sujeito que pensa. Essa consciência
não é empírica, não depende da experiência, mas é transcendental: é a condição
que torna possível reconhecer todas as minhas representações como minhas. Sem
ela, minha mente seria fragmentada, como um mosaico sem ligação entre as
partes. Kant expressa isso escrevendo:
O eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações
(...) uma vez que as múltiplas representações presentes em determinada intuição
não seriam minhas se não pertencessem todas à minha autoconsciência. De outro
modo, o meu eu seria tão vário e colorido quanto são as representações que
formo.[27]
Esse
“eu penso” não é o eu empírico descrito por Hume, que se reduz a um feixe de
percepções passageiras. Para Kant, o eu pensante deve ser único e constante,
situado acima da experiência, pois nada do que é dado empiricamente pode
constituí-lo. Ele é o que Kant também chama de apercepção
transcendental e que se convencionou chamar de “Eu
transcendental”.
Esse eu transcendental não é uma entidade
misteriosa, mas uma exigência necessária: é a condição formal para que eu possa
reconhecer minhas sínteses como pertencentes a um único sujeito, além de ser a atividade
que organiza o múltiplo da intuição sensível e que, junto com a aplicação das
categorias, torna possíveis a objetividade e a ordem da natureza.[28]
Em outras palavras, sem essa unidade da consciência, não haveria como aplicar
as categorias, e sem as categorias não haveria conhecimento humano.
8
A ilusão do grande Eu. Quero agora fazer uma paráfrase do que considero resgatável no insight
kantiano do “Eu transcendental”, expondo uma maneira de naturalizá-lo.
Quando Kant criticou as limitações do eu
empírico, tinha em mente o “feixe de percepções que se sucedem com rapidez
vertiginosa” descrito por Hume. Contudo, já vimos que há outra espécie de eu
empírico humeano, pouco lembrada, que chamei de eu-comunitário: uma
comunidade organizada de estados mentais (perceptos para Hume) da qual entram e
saem membros, mas que, nem por isso, deixa de ser a mesma (Cap. XI, sec. 16).
Por que então, o que Kant identificou como “apercepção transcendental” – o
chamado “Eu transcendental” – não poderia ser parafraseado como uma versão
mistificada do eu-comunitário sugerido por Hume?
Vejamos. Uma
pessoa deve possuir seu eu-comunitário, mesmo sem ter consciência explícita
dele; esse eu, por certo, acompanha todos os seus pensamentos. Como sabemos que
ele existe? Ora, podemos aprender a reconhecê-lo, aos poucos, como constituído
por traços mentais em geral disposicionais, que se reiteram sob certas condições.
O acesso a esse eu é forçosamente segmentado: só temos a experiência de nós
mesmos como portadores de certos traços mentais (por exemplo, coragem) em
contextos em que se manifestam, sobretudo quando outros atestam ou corrigem
nossa consciência desses traços. Só assim tomamos consciência gradativa de
nosso complexo eu-comunitário, o que explica seu caráter elusivo.
Aqui, o
defensor de Kant poderia objetar: “A consciência de um Eu transcendental não é uma
experiência de traços mentais egóicos. Afinal, tudo o que preciso saber é que sou
um algo unitário, com a função lógica de sintetizar o múltiplo, sem nada
de substantivo…”
Mas podemos responder: uma pessoa pode ter
consciência de seu eu-comunitário como aquilo que unifica e acompanha suas
representações, sem precisar atualizar nenhum traço específico. Basta já ter
construído alguma autoimagem de si mesma. Uma vez que essa autoimagem esteja
formada, não é necessário evocá-la a cada momento para saber que o
eu-comunitário existe. Basta a consciência de estar pensando para reconhecer
que há um algo – um repositório de estados mentais – que pode ser identificado
como esse eu-comunitário.
Isso não é
excepcional: temos consciência de muitas coisas sem precisar atualizá-las. Sei
que é noite porque o sol estava se pondo há algumas horas. Sei que há objetos
ao meu redor mesmo de olhos fechados. Sei que convidei seis pessoas para o
jantar, ainda que não me recorde de quem foi a sexta.
Uma consequência
é que seres incapazes de introspecção – bebês, animais – não podem ter a
consciência de si como o “eu penso” exigida por Kant, embora já possuam traços
de um eu-comunitário como repositório de estados mentais próprios. Para que eu
me pense como um eu presente é preciso antes ter desenvolvido uma auto-imagem,
isto é, algum conhecimento de mim mesmo como um conjunto de traços psicológicos
reiteráveis que me caracterizam.
Chegamos aqui
a um duplo conceito de eu empírico:
(i)
O eu
humano fugaz: entendido como um feixe de percepções que se sucedem rapidamente.
(ii)
O
eu-comunitário: entendido como um conjunto organizado de traços mentais
reiteráveis, dos quais não precisamos ter consciência contínua, mas cujo
conhecimento permite formar uma autoimagem e sustentar a autoidentificação.
Minha tese é que o sentido (ii) é uma versão naturalista do que Kant
chamou de “unidade transcendental da autoconsciência” – o Eu transcendental que
acompanha todas as representações, o mesmo eu que Descartes tinha em mente com
o cogito. Podemos ganhar consciência de sua existência à medida que
desenvolvemos uma autoimagem, sem precisar atualizá-la a cada momento. Kant,
porém, equivocadamente, e movido por motivações místicas que se tornarão claras
em sua filosofia prática, tomou essa autoconsciência sem representação da
autoimagem como indicação de um Eu transcendental dotado de poder sintetizador
do múltiplo da intuição sensível e condição última da objetividade da natureza.
Assim, temos uma explicação
naturalista para a suposta diferença entre o eu empírico e o Eu transcendental.
O eu fugaz é (i). O “Eu” do “eu penso” responsável pela unidade da
autoconsciência não é mais do que (ii): um eu comunitário relativamente
permanente, cuja existência somos capazes de reconhecer sem precisar
objetivá-lo, ainda que possamos fazê-lo parcialmente na formação de nossa
autoimagem. Como o Eu transcendental, ele acompanha nossos pensamentos, não só
ativamente, como pensava Kant, mas também passivamente, quando os pensamentos
se impõem a ele.
Dessa forma, o suposto Eu transcendental,
incognoscível e dotado de poder sintetizador, não passa de uma ilusão
filosófica. O que realmente sustenta a unidade da consciência é o
eu-comunitário empírico, razoavelmente permanente, que nos permite reconhecer
nossas experiências como pertencentes ao mesmo sujeito. Voltarei a esse ponto
ao discutir Fichte, filósofo que se comprometeu até o pescoço com a ideia de um
eu transcendental.
9
Causalidade. Em uma parte
posterior da Crítica, em suas analogias da experiência, Kant buscou
explicitar os princípios reguladores que sustentam a descoberta das leis
empíricas da física newtoniana.
Contudo, seus argumentos também são aqui
contestáveis. Esse é bem o caso da segunda analogia da experiência, na qual ele
tentou demonstrar seu princípio sintético a priori de que toda mudança é causada
com base no fato de que a ordem subjetiva das percepções é reversível, enquanto
a ordem objetiva é irreversível. Para ilustrar, ele comparou a ordem
subjetiva reversível pela qual identificamos uma casa, olhando primeiro para o
teto, depois para as janelas, ou olhando primeiro para as janelas e depois para
o teto, com a ordem irreversível de nossa identificação de um barco descendo
rio abaixo do ponto A para o ponto B. Essa irreversibilidade da ordem das
sucessões objetiva para ele de algum modo confirma que a necessidade
transcendental da causalidade universal.
De minha parte, tudo o que vejo por trás do
argumento é uma falácia da afirmação do consequente: “Se A implica B, então,
dado B, temos A”. Se toda mudança fosse necessariamente causada, então a
relação de anterioridade da causa com o efeito seria, de fato, irreversível.
Mas o que Kant pretende é propor o caminho inverso: dada a irreversibilidade
dos fenômenos causais, concluir que toda mudança é necessariamente causada. Na
verdade, a irreversibilidade da experiência sequer precisa ser causal. Um dia sucede,
irreversivelmente, à noite, mas essa irreversibilidade nem é causal nem é necessária.
É difícil acreditar que um argumento por essência tão frágil tenha dado lugar a
tanta discussão.[29]
Uma
alternativa mais promissora para salvar o princípio da causalidade seria recorrer
a um artifício semelhante ao que empregamos ao considerarmos o princípio de que
“o futuro será como o passado” (Cap. XI, sec. 9), qual seja, enfraquecer o
princípio da causalidade de modo a torná-lo analítico, como parte da rede de
relações conceituais internas que constituem a experiência possível. Suponhamos
que o princípio:
PC:
Toda mudança é causada.
Seja
substituído pelo princípio minimalista:
PC1: Alguma mudança é causada.
Não
há dúvida de que, para que possamos ter algum conhecimento do mundo, essa versão
minimalista precisa ser aceita. Sem causação não há experiência possível. Afinal,
até mesmo nossa atividade perceptual, ao que consta, demanda explicação causal.
Disso se segue que a segunda formulação é analítica, pois sua negação, “Não é o
caso que alguma mudança é causada”, é inconsistente, uma vez que, sem causação,
não teríamos experiência de mudança alguma e sequer teríamos a noção de mudança.
Agora, sem abandonar a assunção da
analiticidade podemos tornar a segunda versão do princípio algo mais forte como,
digamos:
PC*: Para que possamos obter conhecimento do mundo
empírico, ao menos um número suficiente de mudanças precisa ser causado.
Admitindo
que, de fato, possuímos algum conhecimento sobre nosso mundo, esse princípio também
parece ser analítico. Afinal, negá-lo, afirmando que podemos obter conhecimento
do mundo empírico sem admitir um número suficiente de mudanças causais que o
permitam, parece inconsistente. Embora o conceito de ‘suficiência’ demande
elaboração, PC* ao menos aponta um caminho viável.
10
Contra o noumenon. Há maneiras
mais fortes e mais fracas de interpretar a Crítica. Segundo uma
interpretação mais robusta, a unidade transcendental da consciência deve ser
entendida como um Eu transcendental, pura atividade sintetizadora que, conforme
a revolução copernicana, serve de fonte da ordem objetiva da natureza. Espaço,
tempo e categorias seriam, então, puramente subjetivos. O domínio noumênico –
incluindo a coisa em si e o Eu transcendental – mesmo sendo incognoscível, seria
real e existente, de modo que o domínio do conhecível poderia não passar de “uma
ilha no oceano noumênico”, como corolário dos postulados da razão prática. De
acordo com essa interpretação tradicional, nós somos literalmente os
legisladores da natureza.[30]
Essa maneira
de ver torna o sistema da Crítica incoerente: a coisa em si passa a ser
tratada como objeto de aplicação da categoria da causalidade e até das
categorias de realidade e de existência. Ela é concebida como algo que realmente
existe como causa dos estados fenomenais. Todavia, a coisa em si não é
espaço-temporal, enquanto as categorias de existência e causalidade foram concebidas
para serem aplicadas apenas ao mundo fenomênico espaço-temporal, de modo a assegurar
a aplicabilidade de nossos juízos.
Para evitar
tais inconsistências, a maneira mais atual de tentar salvar o sistema da Crítica
é optar por interpretações mais fracas. Assim, uma alternativa seria reinterpretar
o texto de Kant como uma análise detalhada do conceito de experiência e dos
conceitos nela envolvidos. Sob essa perspectiva mais epistêmica, o conceito de
unidade transcendental da consciência passa a referir-se à condição lógica de
possibilidade do trabalho de síntese, e o conceito de coisa em si, por sua vez,
torna-se um mero conceito limitador. As dificuldades textuais, contudo, permanecem.
Kant escreve que os nossos sentidos são afetados pelos objetos... Isso
parece envolver a ideia de que objetos noumênicos seriam capazes de causar
sensações.
Por certo, o intérprete é livre para expurgar
da crítica elementos secundários e problemáticos. Ele poderá afinar o conceito
sugerindo, por exemplo, que a coisa em si é “o inseparável correlato do
fenômeno, à semelhança do outro lado que não podemos ver da mesma folha de
papel!” O noumenon é “a coisa que aparece sem o seu aparecer.” O
problema é que essas metáforas não parecem resgatáveis: o outro lado da folha
de papel pode ser visto e descrito; a coisa em si, não. Como notou
Wittgenstein, o conceito de fronteira exige que possamos pensar o que está do
outro lado dela. O conceito de um limite que contém apenas o lado de cá é incoerente.
E falar da coisa que aparece sem o seu aparecer é pura retórica. Conclusão: se,
em uma interpretação forte, o conceito de coisa em si mesma é incoerente, em
uma interpretação fraca ele perde sua inteligibilidade, merecendo ser expurgado
(ver sec. 4).[31]
11
Regras conceituais. Na seção
da Crítica intitulada ‘analítica dos conceitos’, Kant deu uma contribuição
significativa, sobre a qual vale a pena chamar a atenção. Para ele, os
conceitos são habilidades governadas por regras que nos permitem
classificar e ajuizar.
Como o leitor deve estar lembrado, os
empiristas tendiam a interpretar conceitos como imagens mentais que se
reproduziam a partir de impressões sensíveis. Essa maneira de ver sempre pareceu
problemática. Afinal, para identificar uma imagem parece que precisamos subsumir
seu conceito. Além disso, há conceitos que não parecem exigir imagens… Com a
noção de conceito como regra, esse problema desaparece. As regras conceituais
possuem critérios de aplicação que podem, evidentemente, demandar a construção
de imagens, mas desta vez de forma inteiramente flexível.
Por exemplo:
se defino o conceito de triângulo como “uma figura plana fechada formada por
três semirretas que se tocam em suas extremidades”, tenho uma regra cujos
critérios de aplicação me permitem formar imagens de triângulos retângulos, ocutângulos
e obtusângulos, variando os ângulos internos, ou equiláteros, isósceles e
escalenos, variando os comprimentos dos lados… Não caio assim no problema,
supostamente criado por Locke, de imaginar um triângulo que é tudo isso e nada
disso ao mesmo tempo.
Na
continuação da analítica, Kant pensou que os conceitos puros do entendimento e
as intuições sensíveis deveriam ser completamente heterogêneos. Faz-se
necessária uma ponte que ligue as categorias às intuições fenomênicas,
permitindo sua aplicação. Essa ponte precisa ser homogênea tanto às categorias
quanto à intuição fenomênica, que, para ele, é o tempo. Trata-se aqui do que
Kant chamou de esquematismo. Para cada categorias deve haver um esquema
temporal próprio, Assim, para a categoria de substância temos a permanência no
tempo (substância é o que permanece o mesmo); para a categoria de causa e
efeito temos a sucessão temporal do múltiplo segundo uma regra; para a
categoria de ação recíproca temos a simultaneidade temporal; para a categoria
de realidade temos a existência de um objeto no tempo; para a categoria de
necessidade temos a existência de um objeto em todos os tempos. É difícil,
porém, conceber as categorias como algo puro, independente desses esquemas
temporais. O que mais parece é que esses esquemas deveriam ser incluídos em
suas definições.
12
Ideias da razão. Chegamos,
por fim, à dialética transcendental. Seu objeto de estudo é uma atividade superior:
a da razão. Diversamente do entendimento, a razão não produz juízos; ela é a
faculdade de relacioná-los em inferências. O objetivo de Kant é duplo:
investigar a razão em si mesma e analisar seus usos ilusórios.
Em si
mesma, a razão pura constitui-se, para Kant, no esforço de unificar o
conhecimento, associando sequências de juízos introduzidas em raciocínios
silogísticos, na busca de sínteses cada vez mais amplas, com o objetivo último
– reconhecidamente inatingível – de unificar toda a experiência. A razão
procura uma explicação última de tudo e o faz guiada por suas ideias
transcendentais, como as chamou Kant. Essas ideias da razão são conceitos
diretivos, ou seja, conceitos que não possuem objeto que possa ser dado à
intuição sensível, alcançam apenas o nível do entendimento, mas que têm a imprescindível
função de orientar o raciocínio.
As ideias da
razão se organizam em três classes:
A primeira contendo a unidade absoluta (não condicionada) do sujeito
pensante; a segunda, a unidade absoluta da série das condições da aparência;
a terceira, a unidade absoluta da condição de todos os pensamentos em geral.[32]
Em sentido técnico, essas ideias da razão são,
respectivamente, chamadas de ideias de Alma, Mundo e Deus. A ideia de alma orienta
o raciocínio em direção a uma unidade absoluta que só poderia ser preenchida
por um incondicionado noumênico subjetivo, que está além da esfera da experiência
possível. Seu modelo de raciocínio (imaginou Kant) seria o do silogismo
categórico: “Todo M é P, todo S é M; logo, todo S é P”. A ideia do mundo
orienta o raciocínio em direção à unidade formada por um incondicionado
noumênico objetivo, igualmente situado além da experiência possível. Seu modelo
de raciocínio seria o do silogismo hipotético: “Se A então B, A é dado; logo:
B”. E a ideia de Deus orienta os raciocínios em direção a uma unidade absoluta,
um incondicionado noumênico determinante tanto do mundo quanto da alma. Ela
dependeria do silogismo disjuntivo: “A ou B, não-A; logo: B”.
Como chegamos
a essas ideias da razão? A resposta é: pela tentativa de tornar as premissas
absolutas. Sempre que raciocinamos, precisamos de premissas. Contudo, as
conclusões só serão verdadeiras se as premissas também o forem. Mas isso nos
leva a novos raciocínios, novas inferências para justificar essas premissas e
assim por diante… A razão procura uma base absoluta para as premissas, o incondicionado,
mesmo que jamais possa encontrá-lo. Eis um exemplo exposto por Kant em um
silogismo:
Todos os homens são mortais.
Todos os scholars são homens.
Logo: todos os scholars são mortais.
A conclusão segue da premissa maior e da menor. Mas
podemos nos perguntar pela razão da premissa maior, considerando-a como a
conclusão de um pró-silogismo:
Todos os animais são mortais.
Todos os homens são animais.
Logo: todos os homens são mortais.
Com isso, unificamos os juízos “Todos os scholars são
mortais” e “Todos os homens são mortais”. Contudo, podemos prosseguir
submetendo a premissa “Todos os animais são mortais” a um processo similar,
exibindo-a como a conclusão de um pró-silogismo cuja premissa maior seja “Todos
os seres vivos (animais e vegetais) são mortais”, com o que unificaremos uma
gama ainda maior de juízos.
A razão, diferentemente
do entendimento, não produz juízos. Mas ela conecta os juízos uns aos
outros em um processo de justificação que não tem fim. A máxima lógica da razão
é proceder “sempre mais para cima” em busca de unificações cada vez maiores,
progredindo sempre em direção a uma suposta premissa que não esteja mais
condicionada por nenhuma outra. A razão busca sempre o incondicionado, mas tudo
o que ela encontra é o condicionado, uma vez que o incondicionado jamais poderá
ser dado à experiência. Daí o lamento de Novalis: “Buscamos por toda parte o
incondicionado e encontramos somente coisas”.[33]
Considero a
ideia kantiana de que há conceitos cuja função é diretiva um insight
importante. Karl Popper aplicou-o ao conceito de verdade. Para ele, teorias
científicas com o mesmo escopo podem ter maior ou menor verossimilhança em relação
a um ideal inalcançável de verdade absoluta.[34] Assim, a teoria da
gravitação na relatividade geral apresenta maior verossimilhança em relação ao
ideal de verdade absoluta do que a teoria newtoniana da gravitação. Afinal,
apesar de possuírem o mesmo escopo, a primeira explica a deflexão da luz pelos
campos gravitacionais, a precessão exata de Mercúrio e o atraso maior em
relógios atômicos em órbitas mais próximas, etc., o que a teoria newtoniana não
é capaz de explicar. Mas, repetindo Popper, mesmo que chegássemos, pela
ciência, à verdade absoluta, não seríamos capazes de identificá-la como tal,
uma vez que não poderíamos saber se novas experiências não nos forçariam, de
novo, a questioná-la.
13
Existência. Chegamos agora à parte
negativa da dialética: à crítica das ilusões da razão, constitutivas do que
Kant considerava metafísica dogmática. Para ele, as ideias da razão não são nem
derivadas da experiência, como pensaria um empirista, nem representações da
coisa em si, como poderia ter pensado um racionalista. No âmbito da razão pura,
as ideias de alma, mundo e Deus têm como única função unificar juízos, sem poderem
se referir a absolutamente nada. É nesse ponto que surgem as ilusões da razão.
Por não atentar para sua função meramente diretiva, tratando as ideias da razão
como se fossem conceitos ordinários – referindo-se a fenômenos ou mesmo ao
mundo noumênico – filósofos foram induzidos a realizar investigações
equivocadas sobre a existência da alma, a origem do mundo e a existência e a
natureza de Deus.
Para Kant, a psicologia
especulativa produz ilusões em torno da ideia de alma, como se fosse
possível conhecer um eu absoluto como objeto noumênico. No tocante à alma, a
razão comete um paralogismo ao considerar o “eu penso” como unificador da
consciência, como se fosse um substrato substancial acessível à experiência. Contudo,
a categoria de substância só pode ser aplicada aos dados sensíveis e nunca ao
sujeito de todo o pensamento.
A cosmologia
especulativa produz ilusões sobre a ideia do mundo, como se fosse possível
conhecer a coisa em si como fenômeno.
E a teologia especulativa produz
ilusões sobre a ideia de Deus, como se fosse possível conhecer a causa
noumênica, tanto do sujeito quanto do objeto fenomenal.
Não pretendo
discutir aqui, em detalhes, os argumentos de Kant sobre as ilusões da razão.
Quero considerar apenas a famosa crítica que ele fez ao argumento ontológico
de Sto. Anselmo, para provar a existência de Deus, uma vez que ela está na origem
da linha de pensamento historicamente mais influente sobre o conceito de
existência. Segundo esse argumento, Deus, por ser aquilo que de maior pode ser
pensado, precisa ter a propriedade de existir; caso contrário, entraríamos em
contradição ao nos acreditarmos capazes de pensar algo maior do que o que de
maior pode ser pensado (Cap. IV, sec. 6).
Para Kant, esse argumento é falho porque trata
a existência como um predicado, quando, na verdade, não é um predicado.
Por ser assim, a atribuição de existência não acrescenta nada ao conceito: a
existência de uma nota de 100 táleres, escreveu ele, nada acrescenta ao
conceito de 100 táleres.[35]
Não é suficientemente acertado afirmar que a
existência não é um predicado. Mais apropriado seria dizer que a existência é um
predicado de ordem superior, como sustentou Gottlob Frege. Para este
último, a existência é a propriedade de uma função conceitual (um conceito)
de que sob ela cai ao menos um objeto. Por exemplo, quando digo que a Lua
da Terra existe, estou dizendo que ao menos um objeto cai sob o conceito de Lua
da Terra.[36]
Como a função conceitual ou conceito já é uma propriedade, a existência passa a
ser, aqui, uma propriedade de segunda ordem, uma propriedade-propriedade.
Melhor dizendo: ela é uma propriedade de certas propriedades que atribuímos predicativamente
ao objeto.
Podemos
pontuar melhor essa ideia recorrendo a um mínimo de lógica predicativa.[37] Considere o enunciado: “Gatos
existem”. Esse enunciado pode ser lido como “Existe ao menos um x, tal
que x é um gato”, ou ainda: “∃x (Gx)”, onde ‘∃’ = existe, ‘G’ = gato e ‘x’ = algo. Aqui o ‘G’
entre parênteses é o predicado que designa a propriedade de x ser um gato.
Logo, G expressa uma propriedade de algo concreto. Mas o quantificador
existencial ‘∃’ tem como designatum a propriedade G de x, sendo, por
isso mesmo, uma propriedade de segunda ordem de algo, ou seja, uma propriedade-propriedade.
Penso ser possível corrigir e aprofundar
essa análise com base em Michael Dummett, Ernst Tugendhat e até mesmo em um
insight de John Stuart Mill. Frege acreditava que as nossas expressões (frases,
nomes, predicados) exprimem sentidos (Sinne) que, por sua vez, se
referem às coisas (Bedeutungen). Inspirado por Wittgenstein, Dummett interpretou
os sentidos fregeanos dos predicados (que, na linguagem corrente, deveriam ser
chamados de conceitos) como regras criteriais.[38] Tugendhat deu nome aos
bois: na frase predicativa singular do tipo Fa, o sentido do termo
nominal a é sua regra de identificação, enquanto o sentido do
predicado F é sua regra de aplicação. (ver Cap. XI, sec. 5) Para
simplificar, chamarei ambas de regras conceituais.
Para Frege, um predicado exprime um sentido
que, por sua vez, deve ter como referência o conceito sob o qual os objetos
podem cair. Frege nunca explicou o que seria o sentido de um predicado, que,
intuitivamente, parece ser precisamente o conceito que ele expressa, deslocando
o conceito de um modo que me parece desnecessariamente artificial para o nível
da referência. Por isso, desvio-me aqui de Frege, seguindo o entendimento mais
natural, segundo o qual o sentido do predicado é o próprio conceito por ele
expresso, ou seja, a própria função conceitual, melhor dizendo, a regra
conceitual do predicado, sendo a sua referência um particular, em geral entendido
como uma propriedade espaço-temporalmente localizável (um tropo[39]) do objeto referido pelo
termo conceitual, no caso de enunciados do tipo Fa.
Esse entendimento nos sugere que a existência
nada mais é do que uma propriedade da regra conceitual expressa por um
predicado, qual seja, a de sua efetiva ou garantida aplicabilidade.
Essa sugestão encontra inspiração na definição de matéria, tão curiosa quanto
obscura, como “garantida ou permanente possibilidade de sensações”, proposta
por J. S. Mill.[40]
Ao que me parece, ele simplesmente confundiu o que chamou de ‘matéria’ com a
existência das coisas. Seja como for, se uma regra conceitual for garantida e
permanentemente aplicável a seu objeto, é , por certo, porque esse objeto
existe. Afinal, saber que algo existe é saber que o termo pelo qual o
reconhecemos é, de fato, aplicável a esse algo.
Exemplificando: se eu sei que a
Torre Eiffel existe, é porque a regra conceitual de identificação associada ao
termo nominal ‘Torre Eiffel’ se aplica com certeza ao objeto por ela nomeado;
ou seja, essa regra possui aplicabilidade efetiva ou garantida, que permanecerá
enquanto a Torre Eiffel existir. O mesmo vale para a regra conceitual de
aplicação da palavra ‘vermelho’. Se digo que meu sofá é vermelho, é porque sei
que a regra de aplicação da palavra ‘vermelho’ é garantidamente aplicável ao
meu sofá. E se digo que existem gatos, é porque a regra conceitual de aplicação
do termo geral ‘gato’ garantidamente se aplica a pelo menos um animal por ele
designado. Essa garantia não precisa ser direta, como no caso da Torre Eiffel,
que já vi, ou do vermelho do meu sofá. Também a regra de identificação de
Sócrates, ainda que seja muito indireta e complexa (só realmente conhecida por
historiadores), é garantidamente aplicável, mesmo que ele não seja mais um
objeto sensível, o que vale para qualquer entidade dita existente, de quarks a
campos gravitacionais. Além de poder ser garantida por verificação direta (ex.:
“Há um gato nessa casa porque nós o vimos”), a aplicabilidade também pode ser
garantida por sua coerência com outros enunciados (“Como há rações para gato
espalhadas por aqui, deve haver um gato nessa casa”) ou por testemunho (alguém
me disse que há gatos na casa)…
Mas por que falar de ‘garantida aplicabilidade’
e não de ‘aplicabilidade’ tout court? A resposta é que precisamos
excluir o sentido de aplicabilidade como mera possibilidade de aplicação;
o nome ‘Curupira’ expressa uma regra de identificação: um pequeno guardião da
floresta em forma humana, de cabelos vermelhos, pés virados para trás e
extremamente forte e ágil. Essa regra parece aplicável, embora certamente nunca
tenha sido efetivamente aplicada, não sendo nem garantidamente nem
continuamente aplicável. Por contraste, a regra de identificação do nome ‘Xi Jinping’
não só é aplicável, como também é garantidamente aplicável ao mundo real, razão
pela qual podemos dizer que Xi Jinping existe nesse mundo. Dizer que uma regra
conceitual é garantidamente aplicável é, pois, um modo de desambiguizar, pois
exclui a ideia de que sua aplicabilidade seja meramente hipotética. Ou
seja: se forem dadas as condições adequadas e o agente quiser aplicá-la,
inevitavelmente a aplicará. Dizer que Xi Jinping existe é afirmar que a regra
de identificação para esse nome é efetivamente aplicável a um indivíduo
específico e a esse único. Podemos formalizar isso usando J para Xi-Jinping, de
modo que “∃x (Jx) & (y) (Jy → y = x)”.
Dizer que gatos existem é dizer que a regra de aplicação constitutiva do
conceito expresso pelo termo geral ‘gato’ tem a propriedade de ser garantidamente
aplicável a pelo menos um gato. Formalmente: ∃x (Gx). Essa me parece uma paráfrase mais adequada da sugestão
fregeana de que a existência é a propriedade de um conceito de que ao menos um
objeto cai sob ele.
Note-se que, para a efetivação de um juízo de
existência, é necessário que haja sujeitos epistêmicos capazes de aplicar a
regra quando postos em situações adequadas. Contudo, a existência enquanto tal (a
possibilidade garantida de aplicação da regra) não se confunde com o juízo de
existência. Por isso, mesmo que o juízo de existência não seja realizado por
ninguém, as coisas não deixam de existir. Daí que a existência não é um
conceito antropomórfico. Não é sequer necessário que as regras conceituais em
questão existam. O importante é que, caso elas existam, existam agentes
cognitivos que queiram aplicá-las e que eles estejam em situações adequadas
para sua aplicação, elas se revelam efetivamente ou garantidamente aplicáveis.
Uma objeção importante à
sugestão acima reside na ideia de que, se considerarmos a existência como
propriedade de uma regra conceitual, ela parece tornar-se algo que flutua “acima
e além” do objeto de que afirmamos a existência. A resposta consiste em
inverter o modo de exposição. Afinal, também podemos considerar a existência
como uma propriedade disposicional do objeto, qual seja, a metapropriedade
de um objeto de ter a sua regra conceptual de identificação efetivamente aplicável
a si mesmo, dadas as condições adequadas. Há objetos que não possuem essa metapropriedade
disposicional. Eles são objetos meramente concebidos ou imaginados. Por
exemplo, a Torre de Babel, os unicórnios, os Sucupiras. Mas há outros objetos,
como Xi Jinping, a pirâmide de Quéops e o vermelho de meu sofá, que possuem a
metapropriedade de existência, ou seja, a propriedade de ter suas regras conceptuais
de identificação garantidamente aplicáveis a si mesmos.
Esse também é o caso quando dizemos que gatos
existem: sabemos que ao menos um gato possui a metapropriedade de ter sua regra
conceitual de aplicação efetivamente aplicável a si mesmo, ou seja, que ao
menos um gato existe. É por isso que dizemos que a Torre de Babel não existe e
que unicórnios não existem, enquanto afirmamos que a pirâmide de Quéops existe
e que gatos existem.
A definição sugerida explica
por que o conceito de existência pode ser aplicado secundariamente a domínios
de objetos ficcionais. Em um contexto ficcional, a Torre de Babel é considerada
um objeto existente, pois possui a disposição de que sua regra de identificação
seja efetivamente aplicável à própria Torre no domínio ficcional, tal como descrito
no contexto bíblico (considerando a Bíblia como um texto ficcional). Com isso,
explicamos também por que podemos dizer que tudo existe, uma vez que
qualquer coisa concebível pode, enquanto tal, possuir a disposição de ter sua
regra conceitual em algum domínio garantidamente aplicável. E, com isso,
explicamos até mesmo por que podemos dizer que a própria existência existe. É
que a disposição de efetiva aplicabilidade das regras pode ser objeto de uma
regra de identificação garantidamente aplicável. Considero essa a maneira mais
adequada de tratar o conceito de existência, mas não é aqui o lugar de
desenvolvê-la em detalhes.[41]
14
Ética kantiana. A presente
exposição do pensamento kantiano restará incompleta se não considerarmos as ideias
e as conclusões de sua crítica da razão prática. Para Kant, assim como existe
uma razão pura teórica, também existe uma razão pura prática, cujo objetivo é investigar
o que há de sintético a priori na determinação das decisões e ações humanas.
Tudo o que Kant rejeitou como ilusão
metafísica em sua Crítica da razão pura teórica passou a admitir em sua Crítica
da razão pura prática, como se fosse vítima de um palimpsesto. O objeto de crítica
torna-se aqui a razão prática “impura”, isto é, as éticas que situam as origens
do comportamento moral na experiência empírica. Esse é o caso das éticas que
colocam o bem nas ações em que deve prevalecer o bem maior para todos (o
utilitarismo), em que o bem se confunde com alguma forma de prazer (hedonismo),
ou na felicidade humana enquanto tal (eudemonismo). (Ver Cap. III, sec. 8)
Para ele,
essas concepções obedecem ao que Kant chamou de imperativo hipotético,
que tem a forma: “Se queres obter Y, deves fazer X”. O imperativo hipotético é
teleológico, imiscuindo questões empíricas na teoria moral, o que a faz deixar
de ser necessária e universal. Em sua visão, para que a ação moral possua o
valor absoluto que lhe é próprio, ela deve seguir a lei moral por si mesma, sem
outro motivo. O imperativo categórico último era, para ele, o do dever pelo
dever segundo as máximas da moralidade. A forma do imperativo categórico é:
“Devemos fazer X pelo simples dever de fazer X”.
Para que o imperativo categórico se torne
factível, Kant apresentou três formulações explicativas interligadas, que
servem como meta-regras a serem aplicadas às máximas que encontramos embutidas
nas ações, de modo a estabelecê-las como moralmente corretas. Elas são:
1)
Age de modo
que a máxima embutida em sua ação possa ser sempre universalizada para todos os
agentes.
2)
Age como
se a máxima embutida em tua ação devesse, pela tua vontade, tornar-se uma lei
da natureza.
3)
Age de
forma que possas tratar a humanidade, tanto a sua quanto a de outros, sempre
como um fim e nunca como um meio.[42]
Considere, por exemplo, ações como mentir ou roubar. Elas contêm,
embutidas, as máximas de que a pessoa pode mentir e roubar. Mas essas máximas violam
o imperativo categórico. Não devemos infringir a regra (1) para que todos mintam
ou roubem, pois logo seremos ludibriados e roubados. Também não podemos infringir
(2), querendo que nossa vontade de mentir ou roubar seja instituída como a
vontade que qualquer ser humano desejaria aprovar em uma legislação universal. E
também parece claro que não devemos infringir (3) tratando os outros como meio,
mentindo ou roubando. À primeira vista, tudo isso é correto.
Para que o imperativo
categórico seja justificado e torne a moral possível, Kant considera
necessárias a satisfação de três condições que ele denominou postulados da
razão pura prática. Esses postulados são:
1)
A liberdade: para que o homem possa satisfazer o
imperativo categórico, ele precisa ter a liberdade de agir em conformidade com
a razão prática, o que significa ser capaz, em suas decisões e ações, de
transcender o determinismo universal do mundo fenomênico.
2)
A
imortalidade: o ser humano
deve ser capaz de progredir em direção à completa adequação de sua vontade à
lei moral. Como esse progresso é infinito, devemos postular que somos dotados
de duração indefinida, ou seja, de alma imortal.
3)
A
existência de Deus. Não há, na
lei moral, nenhum fundamento para uma ligação necessária entre ela e uma
felicidade que lhe seja proporcional. Por conseguinte, é preciso que essa
desproporção entre virtude e felicidade seja ajustada pela postulação da existência
de Deus como o elemento causal necessário à existência do “sumo bem”. (A ideia
por trás disso é que, como não somos devidamente recompensados ou punidos pelo
que fazemos nesse mundo, é necessário que exista um Deus para promover a justiça
no outro mundo.)
Juntando a epistemologia crítica a essa teoria moral, chegamos a um breve
resumo geral da concepção de mundo epistemológica, metafísica e moral de Kant.
15
Crítica. Um dos primeiros críticos da ética kantiana foi Hegel.
Ele a viu como um subproduto do pessimismo antropológico luterano. Para ele, Kant
teria, em sua ética, desnecessariamente separado a sensibilidade da razão,
transformando o ser humano em uma espécie de mártir do dever. Mas o ser humano,
pensava Hegel, é um universal concreto que deve ser capaz de harmonizar a
sensibilidade particular com a razão universal, em vez de ser submetido
opressivamente a ela.[43] Além disso, a ética
kantiana é conformista, justificando os valores e crenças herdados de seu meio
e da educação da qual Kant nunca parece ter se distanciado o suficiente. Apesar
de sua originalidade, sua ética confirma a mordaz observação de Bertrand
Russell, segundo a qual Kant exemplifica o fato de que a maioria das pessoas
jamais consegue se libertar das verdades auridas quando junto ao ventre materno...
razão pela qual, depois de ter sido acordado de seu sonho dogmático por Hume,
ele logo tratou de inventar um sonífero que lhe permitisse dormir outra vez.[44] A esses julgamentos
externos quero adicionar algumas observações críticas internas.
Uma primeira observação é que sempre
temos o direito de nos perguntar para que serve um dever quando nos vemos
na obrigação de cumpri-lo. O mero sentimento do dever não possui, em si, nada
de moralmente justificável. Afinal, a ideia de que temos intuição sobre o que
devemos ou não fazer, sobre o que é certo e o que é errado, pode ser
profundamente enganosa. Mahatma Gandhi sentia que era seu dever fazer uma greve
de fome visando à libertação da Índia. Mas também Adolf Eichmann sentia que era
seu dever obedecer aos seus superiores e organizar a deportação dos judeus para
os campos de extermínio da maneira mais eficiente possível, mesmo sem ter nada
pessoal contra eles. A intuição do que é certo fazer pode ser produto de uma
herança cultural de séculos, cuja origem escapa por completo à consciência do
agente. Nada indica que tenhamos uma capacidade incondicionada de distinguir o
que é “fazer X pelo puro dever de fazer X” em um sentido moral. Algo está
faltando! E a resposta natural é que esse algo só pode ser a finalidade
do dever.
As deficiências da deontologia forçam a
perguntar sobre as razões para seguirmos a lei, reconduzindo-nos a uma
normatividade justificada pelo valor beneficial de suas consequências
concretas. Nesse ponto, o defensor do imperativo categórico poderá apelar às
três meta-regras já apresentadas. O problema é que essas meta-regras são insuficientes.
Contra a meta-regra (1) da universalização há um bom número de contraexemplos,
como o das mentiras benignas. Assim, imagine que, durante a Segunda Guerra
Mundial, um cidadão alemão consciente escondesse um ex-empregado judeu em sua
fábrica. Quando um oficial nazista bate à porta para saber se ele sabe algo
sobre o paradeiro de seu ex-empregado judeu. É óbvio que ele deve mentir. Mas
Kant foi explícito ao afirmar que, em tal situação, a pessoa deveria dizer a
verdade, pois, se mentisse, infringiria o princípio da universalização.[45] Também podem ser
facilmente encontrados contraexemplos às outras duas formulações. Quanto à
meta-regra (2), a generalização da vontade moral das pessoas é muito variável
para servir de parâmetro; um sadomasoquista terá vontades que para a maioria
não são morais. Uma vontade comum a todas as pessoas ou é impossível de ser
encontrada ou é trivial. Além disso, quanto à meta-regra (3), podemos pensar em
contraexemplos como o de um perseguido político que usou um passaporte falso
para poder escapar da Lituânia ocupada pelos nazistas. O oficial da alfândega
lhe pergunta se ele tem certeza de que não há nada de errado com seu
passaporte. Parece óbvio que ele deveria tratar o oficial da alfândega como um
meio, mentindo. Mas, para Kant, parece que ele deveria tratar o guarda como um
fim em si mesmo, confessando que se trata de um passaporte falso. Ou será que ele
deve tratar-se a si mesmo como um fim e mentir? A regra é insuficiente para uma
resposta.
A conclusão é que os princípios
do imperativo categórico de Kant pouco contribuem para determinar o
comportamento moral. O que eles fazem não parece ser mais do que servir como
regras auxiliares, simples regras de polegar, tais como: “Não faças aos outros
o que não queres que te façam” (o que pressupõe que os desejos dos outros sejam
os mesmos que os teus).
Diante de semelhantes arbítrios, ao voltarmos ao
imperativo categórico do fazer X pelo dever de fazer X, surge uma pergunta
ainda mais insidiosa: quem estabelece o que é o dever? Na falta de algo mais, a
resposta é: quem detém o poder – na época de Kant, as autoridades de um
sistema totalitário... Aqui se dá o que, em geral, acaba por acontecer com as concepções
propriamente deontológicas. Não se tem como fundamentar as regras, senão
recorrendo a intuições questionáveis ou a autoridades, divinas ou não. No caso
de Kant, os dez mandamentos são reduzidos a três meta-regras. Se forem interpretadas
literalmente, elas se tornam excessivamente rígidas, o que inevitavelmente
resulta em um número elevado de avaliações morais injustas. Mas se formos mais
flexíveis, elas se tornam arbitrariamente abertas a inúmeras exceções, só não
prejudicando quem detém o poder de decisão.
Algo assim acontece com outros sistemas
deontológicos. Se estritamente seguidos, eles servirão para impor ordem à tribo,
mesmo que ao custo de injustiças. Mas, se forem interpretados de forma frouxa, cederão
lugar ao arbítrio. Sistemas deontológicos cujas raízes consequencialistas se
perderam acabam por servir a sistemas éticos de fundamentação autoritária, seja
ela divina ou secular.[46] Por tudo isso, me inclino
a pensar que John Searle não exagerou muito ao dizer (em aula) que “o
imperativo categórico é como um hipopótamo, morto há muito tempo, mas cercado
por pessoas muito inteligentes que tentam ressuscitá-lo por meio de respiração
boca a boca.”
Uma razão pela qual dou
preferência ao utilitarismo de dois níveis, brevemente esboçado no capítulo VI
(seção 6), é que ele oferece uma alternativa mais dinâmica. Por meio dele, uma
sociedade se tornaria capaz de alterar e aprimorar suas regras morais, na
medida em que elas promovem o bem geral, e não a partir de algum dever fundado
em intuições possivelmente arbitrárias e, com frequência, servindo aos
interesses de alguma autoridade, humana ou divina. O utilitarismo de dois
níveis transforma os princípios absolutos sugeridos por Kant em meta-regras auxiliares,
válidas apenas enquanto satisfizerem a função de licitar o cumprimento dos
princípios utilitários mais fundamentais, capazes de produzir o bem comum.
[1] P. F. Strawson, The
Bounds of Sense (Methuen 1966), p. 11
[2]
“Clarity is not Enough” in H. D. Lewis (ed.), Clarity is not Enough: Essays
in Criticism of Linguistic Philosophy (Routledge 1963), p. 40.
[3] Anthony Kenny observou que Derrida foi aceito nos
departamentos de arte nos Estados Unidos, mas não em departamentos de filosofia,
“onde as pessoas têm mais experiência em distinguir filosofia autêntica de suas
falsificações.” Ver A New History of Western Philosophy (Clarendon Press 2007)
vol. IV, p. 96.
[4] Pouco antes de
falecer, Derrida justificadamente escreveu que seu sonho mais profundo era “deixar
rastros na história da língua francesa.” Cit. in Benoît Peters, Derrida
(Civilização Brasileira 2011), p. 647.
[5] Como Brian Magee escreveu: “como forma de
treinamento mental a filosofia continental é contraprodutiva: ela ensina os
estudantes (…) a abandonar o argumento racional pela retórica. Ela ativamente
treina-os a não pensar e a serem falsos; e ao fazer essas coisas ela corrompe
as suas mentes.” Brian Magee, Confessions of a Philosopher (Modern Library Paperbacks
1999), p. 429.
[6] Mesmo quando acertam, por exemplo, negando a possibilidade
de verdades absolutas (Lyotard, Derrida…), ou investigando a fabricação da
sexualidade (Foucault), estão recauchutando ideias já conhecidas. Ao menos
desde C. S. Peirce, a crença em verdades absolutas já havia sido banida da
filosofia, e ao menos desde Herbert Marcuse, a promoção da sexualidade
não-sublimada tem sido apontada como produto da indústria cultural.
[7] Ver entrevista no vídeo, “Noam
Chomsky: The Strange Bubble of French Intellectuals.” Philosophyinsights
on YouTube. Ver também Alan Sokal, Imposturas Intelectuais (Bestbolso
2014).
[8] Kritik der reinen Vernunft (1781, 1787) (F. Meiner
Verlag 1998). A primeira edição apareceu em 1781; a segunda edição, fortemente
revisada, apareceu em 1787. Trad. port. Crítica da razão pura (Calouste
Gulbenkian 1989).
[9] Crítica, Introdução.
[10] Crítica, Intr. B 3, B 4.
[11] cf. Ernst Tugendhat, Propedêutica Lógico-Semântica (Vozes
1997), p. 35.
[12] Os Fundamentos da Aritmética. (LF
Editorial 2021 (1884)) § 3.
[13] Kant acreditava na necessidade e universalidade das
leis da física. Isso fica claro em Os primeiros princípios metafísicos da
ciência da natureza (Edições 70: 2019 (1786)).
[14] Crítica, B 15-17.
[15] Crítica, B 16.
[16] Crítica B XVI-XVII.
[17] O original não deixa dúvidas: “O entendimento
é o legislador da natureza, isto é, ele é o princípio da produção de conexões
unitárias e regulares dos fenômenos, cujo conjunto constitui aquilo que
chamamos de ‘natureza’.” B 163 - A 127.
[18] A matemática é difícil. Mas no lugar de “F = g . m1.m2/d2”
(Newton), as equações podem ser comprimidas na simplicidade de “Rab -
½ Rgab = Tab” (Einstein). Carlo Rovelli, Sette brevi
lezioni di fisica (Adelphi 2014), p. 21.
[19]
Um empirista posterior, J. S. Mill, foi além de Hume,
chegando a considerar os princípios da geometria e mesmo os da matemática como
juízos empíricos (sintéticos e a posteriori), dependentes da experiência e,
portanto, ao menos em princípio passíveis de serem falseados. Ver seu A
System of Logic (Generic 2018) Livro II, caps. V e VI.
[20] Kant distingue o ‘transcendental’, que é tudo o que é
condição de possibilidade do conhecimento, do ‘transcendente’, que é tudo o que
vai além da experiência possível, transgredindo os limites do pensamento.
[21] Ver o capítulo sobre Leibniz,
sec. 4.
[22] Como Kant escreveu: “Se abstrairmos de todas
as condições da intuição empírica, o espaço não desaparece, mas permanece como
condição da possibilidade dos fenômenos.” A 23-24; B 38-39.
[23] Russell, A
History of Western Philosophy (Touchstone 1972), pp. 714-715.
[24] John Searle: resumo não publicado da Crítica.
[25] Crítica B
74-75.
[26] Crítica A 98-110
[27] Crítica B 131-132-134.
[28] Kant não queria que a unidade transcendental
da consciência ou apercepção transcendental (Eu transcendental) pertencesse ao
noumenon, para não cair em uma metafísica dogmática. Ele queria que fosse uma função
lógica e, ao mesmo tempo, uma atividade de síntese. Mas uma função lógica é
incompatível com uma atividade. O resultado parece-me inevitavelmente inconsistente.
[29] O argumento (Crítica A 191-2011; B
233-256) é formulado de maneira tão desproporcionalmente complicada que o
leitor fica tentado a se perguntar se não há um diamante escondido sob a pedreira
terminológica.
[30] As primeiras interpretações de Kant foram robustas
e literais. Como notou Jakobi, “sem a coisa em si não é possível penetrar no
sistema de Kant; mas com a coisa-em-si não é possível permanecer nele”. F. H. Jacobi: “David Hume on Faith
or Idealism and Realism: A Dialogue,” in G. di Giovanni (ed.), The Main
Philosophical Writings and the Novel Allwill (McGill-Queen’s University
Press 1994 (1787)), p. 336.
[31] O exemplo mais influente de interpretação fraca é P. F.
Strawson, The Bounds of Sense: An Essay on Kant’s Critique of Pure Reason (Methuen
& Co 1985), que rejeita o transcendentalismo, a coisa em si e a distinção phenomena-noumena.
Henry E. Allison tentou defender Kant sugerindo que phenomena e noumena
são dois modos de considerar os mesmos objetos: um do ponto de vista de nosso
acesso cognitivo (phenomena), outro na independência dele (noumena).
A questão, porém, persiste: faz sentido falar de objetos epistemicamente
inacessíveis? A coisa em si não seria, como já notei, uma ilusão decorrente da
descoberta de que novos acessos cognitivos complementares podem sempre ser
adicionados? cf. Kant’s Transcendental Idealism (Yale University
Press 2004).
[32] Crítica B 391.
[33] „Wir suchen überall das Unbedingte und finden immer nur Dinge“.
[34] Karl Popper: Conjectures
and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge (Routledge 1989), cap.
10.
[35] Crítica: A 599 - B 627. A 596 - B 630
[36] Frege: Die Grundlagen
der Arithmetik: Eine Logish Mathematische Untersuchung Über den Begriff der
Zahl (Legare Street Press 2022), sec. 59.
[37] John Searle: “The
Unity of the Proposition”, in Philosophy
in a New Century (Cambridge University Press 2008), p. 176.
[38] Frege complicou desnecessariamente as coisas, chamando
o conceito (função conceitual) de referente do predicado, sob o qual poderiam
cair objetos referidos, o que o deixou sem saber como explicar os sentidos dos
predicados, já que eles não podem mais ser o mesmo que conceitos. cf. Nachgelassene
Schriften (Felix Meiner Verlag, 1969).
[39] Para uma explicação do que são
tropos, ver cap. XIX.
[40] Essa sugestão
inspira-se na definição de matéria como “garantida ou permanente possibilidade
de sensações”, proposta por J. S. Mill, que, em meu juízo, confundiu existência
com a matéria. Ver An Examination of Sir William Hamilton’s Philosophy (Forgotten
Books 2018), caps. X-XII.
[41] Claudio Costa, Philosophical Semantics:
Reintegrating Theoretical Philosophy (CSP 2016), Ch. IV, sec. 12. Para uma análise
concreta e detalhada das regras hipoteticamente propostas por Tugendhat, ver
Claudio Ferreira-Costa, How Do Proper Names Really Work? (De Gruyter
2023), cap. III e segs.
[42] Fundamentação da metafísica dos costumes
(Edições 70), pp. 59, 69.
[43] G. W. F. Hegel, Vorlesungen
über die Philosophie der Religion (Suhrkamp Werkausgabe 1970), Bd. 16, pp.
302-305.
[44] Bertrand Russell: A History of
Western Philosophy, Parte II, cap. XX.
[45] Kant apresentou
um exemplo similar no breve artigo traduzido com o título de “Sobre um pretenso
direito de mentir por amor aos homens” (Editora UFMG 2002).
[46] Devido à inflexibilidade e ao relativismo circunstancial das regras das
éticas deontológicas, estas facilmente entram em conflito quando diferentes
sistemas deontológicos se chocam, como ainda hoje vemos ocorrer em casos de
conflitos religiosos e culturais.

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