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segunda-feira, 1 de junho de 2026

MARX: MATERIALISMO HISTÓRICO (do livro Introdução histórica à filosofia)

 Draft avançado de livro a ser publicado pela Europa Editora (Roma)


 

 

 

XV

MARX: MATERIALISMO DIALÉTICO

 

 

Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. (…)  Ocorre, então, uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura.

 

Karl Marx

 

 

Os despojos do pensamento de Hegel foram disputados entre as assim-chamadas direita e esquerda hegelianas. A direita destacou os elementos conservadores do pensamento de Hegel, como a religiosidade e o culto ao Estado, contribuindo para o relativo esquecimento de sua obra na Alemanha da segunda metade do século XIX. Já a esquerda hegeliana, rejeitando esses elementos, foi original e encontrou seu maior expoente na figura do grande filósofo social Karl Marx (1818-1876). Marx inverteu a lógica hegeliana: em vez de colocar o espírito como o motor da dialética, colocou a matéria em primeiro plano. Dessa inversão nasceu o materialismo histórico, fundamentado em uma dialética materialista, por meio da qual se buscava explicar o progresso histórico-social.

   O pensamento de Marx foi profundamente marcado pelo que viu acontecer durante a Revolução Industrial. Essa revolução ocorreu entre 1760 e 1870. Esse período transformou radicalmente os métodos de produção, substituindo o artesanato pela produção mecanizada, introduzindo novos processos químicos e metalúrgicos, expandindo o uso do carvão e do vapor e inaugurando as redes ferroviárias e os navios a vapor. Ela começou na Inglaterra, mas logo se expandiu para os Estados Unidos e para as regiões desenvolvidas da Europa. A revolução industrial mudou por completo a forma de vida humana, podendo ser comparada à domesticação dos animais e à introdução da agricultura no final do período neolítico. Mas ela cobrou um preço altíssimo no que diz respeito às condições de vida dos trabalhadores nas fábricas e nas minas de carvão, que eram duramente explorados sob jornadas de trabalho que podiam chegar a mais de quinze horas por dia, o que se aplicava até mesmo a crianças pequenas. Essas circunstâncias não só levaram a revoltas sangrentas entre os trabalhadores, mas também provocaram indignação entre intelectuais ativistas como Marx, Mikhail Bakunin e Pierre-Joseph Proudhon.

   Marx escreveu em resposta ao momento histórico único em que viveu. Considerando as graves tensões entre a classe dirigente e a classe proletária durante a revolução industrial, parecia que a Europa se encaminhava para uma nova revolução. Intelectuais ativistas, como Marx, estavam se preparando para a possibilidade de estar à frente dela.

   Filho de um livre-pensador judeu bem-sucedido, Marx sempre foi um inconformado, o que tornou a sua vida nem um pouco fácil. Apesar de ter obtido um doutorado em filosofia, ele não poderia ser admitido a um cargo público, como o de professor, devido ao seu compromisso com ideias radicais. Acabou por ter de trabalhar para revistas e jornais. Devido ao conteúdo politicamente radical do que escrevia, ele não pôde permanecer na Alemanha conservadora de seu tempo; foi expulso de Paris e da Bélgica, acabando por ter de se estabelecer na mais liberal Inglaterra, onde viveu com a esposa e as filhas, sob condições econômicas de início muito precárias, durante os últimos trinta anos de sua vida. Ele só conseguiu se sustentar do que escrevia para os jornais, de pequenas heranças e, principalmente, da ajuda de seu grande amigo, Friedrich Engels.

   Marx foi casado a vida inteira com Jenny von Westphalen, uma mulher culta que sempre o apoiou. Eles tiveram sete filhos, mas apenas três sobreviveram até a idade adulta. O próprio Marx sempre teve má saúde. Ele se sentiu inconsolável com a morte da filha mais velha aos 38 anos, vítima de câncer. As outras duas filhas de Marx se suicidaram anos após a morte do pai. As dores e tragédias da condição humana não pouparam nem a ele nem aos seus familiares.

 

1

 

Materialismo. Marx compartilhava com Hegel a ideia de que a história possui uma finalidade: a emancipação do ser humano. Contudo, a dialética que Marx adota é materialista. Enquanto para Hegel é o espírito que produz alterações no mundo material, para Marx é o trabalho humano sobre a matéria que transforma a consciência humana. Para tornar isso mais claro, Marx distinguiu entre forças produtivas e relações de produção.

   As forças produtivas são o conjunto de elementos que nos permitem transformar a natureza e produzir bens materiais. Elas incluem os meios de produção, que são os recursos usados para produzir, como terra, a matéria-prima, artefatos que vão do arco e flecha a máquinas e tecnologias sofisticadas e, sobretudo, a força de trabalho e o conhecimento humanos.

   Já as relações de produção são, basicamente, as formas sociais pelas quais os seres humanos se relacionam entre si no processo de produção, incluindo formas de propriedade, relações entre as pessoas e os bens. Essas relações dependem das forças produtivas e variam a partir delas. Assim, em uma sociedade feudal, a força produtiva da moenda manual gerava relações de produção distintas daquelas geradas pela moenda a vapor na sociedade capitalista industrial.

   A partir dessa distinção, Marx estabeleceu uma oposição fundamental entre a base ou infraestrutura econômica e a superestrutura ideológica.

   A base econômica é o fundamento que sustenta a economia: ela corresponde ao conjunto das forças produtivas (trabalho, tecnologia, recursos) e das relações de produção (propriedade, vínculos de trabalho, classes sociais).[1]

   A superestrutura ideológica, por sua vez, é o conjunto de ideias, crenças, visões de mundo e consciência social. Ela abrange instituições e valores. Ela é formada por uma estrutura legal, política, estética, filosófica, educacional… à qual são adicionadas uma religião e uma moralidade específicas.[2]

   A ideia central de Marx é que a base econômica condiciona a estrutura ideológica, de modo que a consciência humana não é a causa, mas o efeito das condições sociais.

   Por exemplo: na Alemanha, no tempo de Hegel, predominava uma religião autoritária, acompanhada de uma moral voltada à obediência aos superiores, à lealdade e ao cumprimento dos deveres para com o estado. A própria filosofia de Hegel pode ser entendida como tendo servido à superestrutura ideológica de seu tempo. Nesse sentido, as relações de produção, sustentadas pelas forças produtivas, condicionam a superestrutura ideológica. Como Marx escreveu:

 

O modo de produção da vida material condiciona o processo geral da vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sim sua existência social que determina sua consciência.[3]

 

Em outras palavras: a base econômica sustenta e condiciona a superestrutura ideológica e, por consequência, a própria forma da consciência humana.

   A questão que frequentemente se coloca é se o contrário não é possível, isto é, se a superestrutura ideológica não poderia influenciar a base econômica. Afinal, a máquina a vapor – força produtiva essencial à revolução industrial – foi inventada por alguém e essa invenção alterou profundamente a base econômica. De fato, como Engels não deixou de enfatizar, existe uma inter-relação entre superestrutura ideológica e base econômica.[4] Ainda assim, é fundamental ressaltar que a base econômica constitui o determinante primário. Afinal, se a base econômica permanece estável, dificilmente a superestrutura ideológica se altera, como ocorreu na relativa estagnação econômica da Europa medieval; mas, quando a base econômica se altera rapidamente, como na Europa dos tempos de Marx, as mudanças na superestrutura ideológica tornam-se quase inevitáveis.

   Isso revela que a relação entre base e superestrutura deve ser entendida como um todo orgânico: a base econômica superdetermina as superestruturas ideológicas, que, por sua vez, subdeterminam as bases econômicas, influenciando-as de maneira secundária em um jogo não-linear de alterações.[5] Eis um esquema:

 

SUPERESTRUTURA IDEOLÓGICA

(estrutura legal, política, estética, filosófica, religiosa, moral, educacional...)

                                                                       Subdeterminação

                  Superdeterminação

 

BASE ECONÔMICA

forças produtivas

(matérias primas, máquinas, força de trabalho)

+

relações de produção

(vínculos sociais entre indivíduos com base nas relações de propriedade e trabalho)

 

2

 

Alienação. Para explicar o que acontecia com o trabalhador submetido às ingerências da superestrutura ideológica, Marx usou o conceito de alienação de modo inovador, aplicando-o sobretudo à relação do ser humano com o trabalho. Para ele, a alienação é o estranhamento do homem de sua própria essência, decorrente da ruptura de sua relação natural com o trabalho, com os outros seres humanos e com as coisas. Esse afastamento faz com que ele perca sua humanidade essencial.[6]

   A revolução industrial foi, para Marx, alienadora tanto da classe burguesa quanto da classe proletária, pois cada qual é desumanizada à sua maneira. A alienação da burguesia manifesta-se na competição, na ganância e no fetichismo em relação ao dinheiro, ao poder e à posse de bens – o assim chamado fetichismo da mercadoria. Para essa classe, as coisas deixam de ser valorizadas pelo que realmente são, pelo seu valor de uso, e passam a ser apreciadas pelo que custam, pelo seu valor de troca.

   Para ilustrar o fetichismo da mercadoria, lembro aqui a história de um pensador medieval chamado Mullah Nasreddin, que ninguém sabia se era um sábio ou um tonto. Um dia Nasreddin entrou num mercado e saiu de lá com um saco de pimenta malagueta. Sentou-se em um banco e começou a comê-las. Sofria muito, sua boca ardia, seu rosto ficou vermelho, ele suava frio. Um passante lhe perguntou: “Por que fazes isso, Nasreddin? Não vês que estás comendo pimenta?” Ao que ele respondeu: “Mas não estou comendo pimenta; o que estou comendo é todo o dinheiro que gastei para comprá-la.” Essa resposta ilustra, de modo hilário, o fetichismo da mercadoria: Nasreddin confundia o valor de troca da pimenta com o seu valor de uso.

   Passo agora a um caso real: as pessoas não estão muito longe de Nasreddin quando lotam a sala onde se encontra o original da Mona Lisa em visita ao museu do Louvre. Poucos ficariam satisfeitos em ver apenas uma cópia perfeita dessa tediosa pintura. Mesmo que a cópia seja perfeita, o valor de troca do original é imensamente superior. O preço exorbitante das obras de arte à venda em grandes galerias exemplifica a força do fetichismo da mercadoria em nossa sociedade de consumo. Em seu estudo sobre a alienação, Marx antecipou um fenômeno tão presente em nosso quotidiano que tende a passar despercebido.

   O que realmente interessava a Marx, porém, era a alienação da classe proletária. A superestrutura ideológica é alienadora ao incutir no trabalhador ideias que o levam a aceitar sua condição. Daí decorrem a crença na legitimidade das leis que a classe superior sutilmente impõe para proteger-se, a aceitação dos valores morais vindos de cima, a fé em uma religião que defende a legalidade do status quo, prometendo uma recompensa pela miséria da vida presente por meio de uma existência abençoada após a morte… Como Marx famosamente observou: “a religião é o ópio do povo”.[7]

   Além disso, a Revolução Industrial alienava o trabalhador de outras maneiras. Ele se tornava separado do produto de seu trabalho, já que não podia completá-lo como o artesão. O artesão produzia um objeto do início ao fim e se identificava com ele como o produto integral de seu esforço, vendia em um meio social conhecido, no qual era valorizado e onde se sentia em casa. Já o operário, confinado a uma tarefa repetitiva e monótona, tornava-se apenas uma peça em um sistema produtivo, sem relação com o produto final – o que era intelectualmente debilitante. Por esses meios, o trabalhador é alienado de sua própria natureza, perdendo a capacidade de reconhecer-se como integrante consciente da espécie humana.

   Enquanto Ludwig Feuerbach via o homem como um reflexo imperfeito de uma divindade ideologicamente produzida por ele mesmo, Marx foi além. Ele interpretou a alienação religiosa como uma forma ideológica adicional de justificar a exploração da classe trabalhadora, oferecendo-lhe uma compensação ilusória para sua miséria.

   Entre os dois casos de alienação recém-descritos há, contudo, uma diferença decisiva. A classe burguesa se sente confortável em sua autoalienação, satisfeita por ostentar a aparência de uma existência humana. Já a classe proletária “sente-se devastada em sua alienação, vislumbrando nela sua impotência e a realidade de uma existência desumana.”[8] Por essa razão, para Marx apenas a classe proletária possui condições de libertar-se da alienação e alcançar a consciência plena de sua condição: a percepção de que o capitalismo é um sistema em que uma classe social, a dos proprietários dos meios de produção, oprime e explora a outra, a dos proletários.

 

3

 

Teoria da história.  Como vimos, a base econômica é aquilo que primariamente determina a superestrutura ideológica. Ora, segundo a dialética materialista, a própria história é a história da exploração social de uma classe por outra. “A história da humanidade”, escreveram Marx e Engels, “é a história da luta de classes”.[9]

   Eles viam isso como uma constatação factual: em determinado estágio do desenvolvimento de uma sociedade, as forças de produção material se alteram de tal maneira que entram em conflito aberto com a estrutura ideológica vigente. Esse choque acaba por conduzir a uma transformação social, seja por meio de uma revolução ou pela ruína comum das velhas oposições sociais. Eis um esquema da sequência histórica dessas transformações:

(1) Comunismo primitivo: no início da história, predominava um modo patriarcal de produção em que a propriedade pertencia ao grupo tribal como um todo.

(2) Sociedade escravista da Antiguidade: o senhor detinha a posse do escravo como instrumento de trabalho. A luta se dava entre a classe dos escravos e a dos homens livres. A função e a propriedade dos senhores eram transmitidas por herança, não por mérito.  (Na Roma antiga os plebeus também se opunham aos patrícios, oposição que se dissolveu com a ascensão do cristianismo.)

(3) Economia feudal medieval: Na Idade Média surgiu o sistema feudal. A oposição de classes estabeleceu-se entre os servos da gleba e os senhores feudais. Os servos, oprimidos, trabalhavam para sustentar a nobreza que detinha a terra e, indiretamente, os possuía.

(4) Ascensão da burguesia: Com a modernidade e o desenvolvimento manufatureiro, dissolveu-se grande parte da oposição típica do feudalismo, ao menos nos países mais desenvolvidos da Europa. Contudo, persistiram profundas desigualdades sociais.

(5) Revolução industrial capitalista: Nos tempos de Marx, a revolução industrial consolidou o capitalismo, igualmente baseado na exploração. O trabalhador recebia do capitalista apenas o suficiente para sobreviver e se reproduzir, de modo a lhe proporcionar mais mão de obra.

Como Marx e Engels resumiram:

 

Ao longo da história humana, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido em luta ininterrupta, ora dissimulada, ora declarada; uma luta que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das classes em conflito.[10]

 

4

 

Escatologia. A partir de seu entendimento da história das relações entre as classes, aliado a especulações econômicas e à crença hegeliana na evolução histórica, Marx elaborou sua própria escatologia.

   Para ele, assim como as relações sociais do feudalismo desapareceram com o capitalismo, também as relações sociais capitalistas não precisam perdurar indefinidamente. As razões por ele aduzidas para o fim do capitalismo, contudo, nunca foram expostas de forma plenamente clara e convincente. Eis como posso tentar resumi-las. Marx achava que a exploração poderia ser medida por meio do que chamou de mais-valia (Mehrwert), que seria o ganho final obtido pelo capitalista para além do valor do trabalho empregado na produção da mercadoria.

   Com o avanço da automatização nas fábricas, a mais-valia tenderia a diminuir e, com ela, os ganhos dos trabalhadores. Além disso, a competição entre os capitalistas os obrigaria a investir constantemente em novas tecnologias para evitar falência. Esse processo tornaria os trabalhadores cada vez mais mal remunerados e dispensáveis, gerando uma multidão de desempregados. Além disso, nem eles nem os que deles dependem poderiam comprar as mercadorias produzidas pelos capitalistas, o que provocaria uma situação de imensa instabilidade social que culminaria na inevitável tomada de poder pela classe trabalhadora – provavelmente por meio de uma revolução.

   Elemento essencial a essa revolução seria o que Marx chamou de consciência de classe. Com o auxílio de intelectuais engajados, os proletários perceberiam que estavam sendo explorados e manipulados pela superestrutura ideológica, sustentada pelo sistema jurídico, pela religião e por uma moral de renúncia e submissão.

   Marx não via essa revolução apenas como mais uma dentre tantas. Ele a via como a última e a maior de todas, após a qual a história, tal como a conhecemos, chegaria ao fim. Ela começaria nos países mais desenvolvidos, como a Inglaterra, e se expandiria pelo mundo inteiro. Após ela não haveria mais luta de classes, pois não haveria mais classes. Depois dela, todos se tornariam iguais, sem mais exploradores nem explorados. O estado, tal como o conhecemos, seria abolido, a propriedade privada seria abolida e os meios de produção passariam a pertencer a todos. A economia passaria a ser racionalmente planejada, em contraste com as teorias econômicas ideologicamente comprometidas com o capitalismo.

   Essa revolução ocorreria em duas etapas. A primeira seria inevitavelmente totalitária: a assim chamada “ditadura do proletariado”. Nela, os proletários, libertos de suas amarras, tomariam o poder e destituiriam os opressores capitalistas. Como só os proletários têm consciência do que é a exploração, só eles seriam capazes de produzir a sociedade ideal. Uma vez arrumada a casa, seria possível instaurar a segunda etapa, a do comunismo, que seria uma sociedade finalmente justa, sem classes, sem opressão, verdadeiramente democrática, em que os seres humanos, emancipados de suas ilusões ideológicas, se tornariam livres para desenvolver plenamente suas potencialidades.

   Após a grande revolução socialista, o ser humano não precisaria mais buscar o paraíso fora da Terra, pois a própria Terra se tornaria o paraíso. Como escreveu Marx em uma descrição cuja força é essencialmente metafórica:

 

Ninguém seria limitado a uma esfera de atividade. Todo indivíduo poderia se aperfeiçoar no que quisesse. A própria sociedade poderia regular sua produção e seria possível lidar com uma coisa hoje e com outra amanhã. Posso caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado ao anoitecer e apresentar minhas próprias opiniões críticas após o jantar. Posso fazer tudo isso dependendo de como me sinta, sem jamais ter de me tornar um caçador, um pescador, um criador de gado ou um crítico.[11]

 

Nessa sociedade utópica, aquilo que move o mundo capitalista – ambição, egoísmo e inveja – seria varrido da vida humana. A competição daria lugar à colaboração. As pessoas trabalhariam naquilo que melhor lhes aprouvesse, podendo florescer como seres humanos em atividades intelectuais ou estéticas… (Um milênio de marxismo e teríamos uma sociedade de Shakespeares!) Não haveria mais distinção entre os interesses do indivíduo e os do estado. E a moralidade deixaria de servir aos interesses dominantes para se tornar verdadeiramente humana.

 

5

 

Problemas. A implausibilidade das previsões de Marx foi notada desde cedo. Mikhail Bakunin, ao refletir sobre a consciência de classe dos líderes revolucionários, escreveu:

 

(...) Tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, eles cessarão de ser operários e, pondo-se a observar o mundo proletário dos pináculos do estado, não mais representarão o povo, mas a si mesmos e as suas próprias ambições de governar. Quem duvida disso não entende nada da natureza humana.[12]

 

Muitos anos mais tarde, Sigmund Freud fez uma observação semelhante. Para o criador da psicanálise, Marx tinha uma visão demasiado otimista da natureza humana.

   Outro crítico, Bertrand Russell, sugeriu que a escatologia revolucionária de Marx foi “plagiada” da Bíblia. Bastaria trocar os nomes: no lugar da Bíblia, a obra-prima de Marx, O Capital; no lugar de Jesus, o próprio Marx; no lugar do Juízo Final, a Revolução; no lugar dos bons, que seriam salvos, a classe trabalhadora; e, no lugar dos maus, a serem condenados, os burgueses capitalistas. Finalmente, no lugar do paraíso celeste, o paraíso terrestre: o comunismo.

   Contudo, mesmo que Russell esteja certo, isso não significa que Marx esteja errado. Afinal, a ideia veiculada pela Bíblia e retomada por Marx pode ter algo de verdadeiro, uma vez que o ser humano sempre sonhou com o paraíso, seja ele terrestre ou não.

    Há ainda outro ponto a favor da escatologia marxista. Marx inspirou-se na noção de uma essência humana formulada por Feuerbach, que a caracterizou como uma constituição inalienável de razão, vontade e coração – algo que permaneceria imutável até mesmo em seres pensantes porventura encontrados em outros corpos celestes.[13] Sob uma perspectiva antropológica, essa essência humana buscada por Marx no rastro de Feuerbach poderia ser mais claramente identificada nas sociedades pré-históricas sobreviventes, nas quais não existem classes sociais, mas apenas diversidades de funções, pois essas sociedades seriam capazes de espelhar mais fielmente a natureza humana.

   Não é difícil, aliás, encontrar culturas primitivas anteriores à civilização que parecem realizar certos ideais marxistas. O exemplo que encontro é o da tribo Zoé. Ela habita a Floresta Amazônica no norte do Brasil. Os Zoé são pacíficos e poderiam se candidatar ao protótipo do “bom selvagem.” Eles formam hoje um grupo de cerca de 250 pessoas. São conhecidos por serem doces e gentis, não batem nos filhos, não brigam entre si. Não têm nenhum deus, mas consideram muitas coisas sagradas. Não possuem hierarquia de poder, chefes ou guerreiros. Tudo é dividido igualmente. Gostam de nadar nos rios e brincar nas cachoeiras. Cuidam dos mais velhos, aos quais oferecem animais de estimação. Um homem pode ter várias esposas, mas, em compensação, uma mulher também pode ter vários maridos…[14] É curiosa a semelhança entre seu sistema e o ideal comunista concebido por Marx. Os Zoé são felizes. São marxistas pré-históricos que, por sua relação privilegiada com a essência não alienada da natureza humana, vivem em harmonia com a sabedoria da espécie. Nós, há tanto tempo e de tal modo alienados de nossa própria natureza, nada temos a lhes ensinar.

   Ao considerar o modo de vida dos Zoé sem preconceitos etnocêntricos, somos tomados por uma certa nostalgia de algo que nossa civilização parece ter perdido. Surge então a pergunta: em uma sociedade livre, igualitária, sem escassez, na qual as pessoas teriam diferentes funções, mas sem uma hierarquia alienadora de classes, não poderia existir algo equivalente ao que é exemplificado por um povo pré-histórico como o Zoé? Nesse caso, mesmo que Marx tenha situado o seu paraíso terrestre de forma inadequada no final de uma revolução improvável, podemos nos perguntar se não haveria uma verdade oculta refletida em sua escatologia. Afinal, parece razoável pensar que o ser humano tenha perdido algo com a civilização – como sugerem as qualidades da tribo Zoé – algo que poderia ser recuperado ao término de um processo civilizatório, tal como antevisto na visão naturalista de Marx sobre como deveriam ser um mundo e uma humanidade ideais.

 

6

 

Revoluções anticolonialistas/anti-imperialistas. Na última tese sobre Feuerbach, Marx escreveu que tudo o que os filósofos fizeram foi interpretar o mundo de diversas maneiras, quando o que lhes cabe é transformá-lo. Aqui, ele pareceu ter esquecido o quão inevitavelmente especulativo tem sido o trabalho filosófico ao longo de toda a sua história.

   Após a morte de Marx, a revolta dos trabalhadores em países industrializados, como a Inglaterra e a França, perdeu força devido à melhoria das condições de trabalho e ao surgimento de sindicatos e à criação de leis protetivas. Contudo, o século XX assistiu a uma onda de revoluções, muitas delas inspiradas por ideais marxistas. Curiosamente, elas não se deram na Inglaterra, nem mesmo nos países mais desenvolvidos, como Marx previra, mas sim em sociedades periféricas e agrárias. Mais ainda: na prática, essas revoluções não superaram o capitalismo, tampouco promoveram a liberdade e a emancipação humana. Seria mais correto dizer que seus mentores se apropriaram das ideias de Marx, com o intuito de oferecer uma justificativa teórica para seus projetos políticos. Vejamos alguns casos.

   A primeira e mais significativa dessas revoluções foi a de Outubro de 1917, na Rússia. A teoria que a sustentava era a do marxismo-leninismo, uma forma de marxismo adaptada por Lenin a um país essencialmente agrário, que mal havia saído do modelo medieval de servidão! Uma vez no poder, sob a liderança de Lenin e Trotsky, os bolcheviques trataram de eliminar a oposição menos radical (os mencheviques[15]) e de estabelecer um governo totalitário em substituição ao dos czares.

   O resultado teve mais a ver com a Revolução Francesa dos sans-culottes do que com os ideais marxistas. Lenin logo percebeu que, para manter a ordem, precisava instaurar, não uma ditadura do proletariado, mas uma ditadura do partido que eliminasse qualquer oposição. Em 1923, sua polícia secreta (a CHEKA) já havia executado cerca de duzentas mil pessoas. Seu indesejado sucessor, Stalin, um gângster que assaltara bancos, foi muito além.

   Entre 1927 e sua morte em 1953, Stalin consolidou um regime que filósofos da Escola de Frankfurt identificaram como capitalismo de Estado: o governo monopolizava os meios de produção, explorava os trabalhadores e redistribuía os ganhos entre uma elite burocrática privilegiada (cerca de 5% da população). Assim, a antiga classe opressora foi apenas substituída por outra dentro de um sistema muito mais brutal do que o dos capitalistas ingleses. O “czar vermelho” instaurou um inaudito reino de terror, sacrificando milhões em nome da industrialização forçada e da coletivização agrária, por meio de planos quinquenais. Estima-se que mais de 20 milhões de pessoas tenham perdido a vida sob seu sistema. Apesar do preço exorbitante, a industrialização foi alcançada.

   O comunismo soviético entrou em colapso em 1991, sob a liderança de Michail Gorbachev, um dirigente pós-stalinista que tentou abrir o país à democracia sem abandonar os ideais socialistas. Como o povo russo nunca teve a experiência de democracia, o resultado final foi o surgimento de uma forma extemporânea de czarismo em pleno século XXI, nas mãos de Wladimir Putin. Em vez de emancipação marxista, o comunismo soviético gerou uma forma corrupta de capitalismo industrial oligárquico.

   Para críticos como Karl Popper, o desastre do comunismo soviético foi a prova de que Marx estava errado.[16] Mas essa leitura é inadequada, uma vez que a experiência soviética cedo deixou de ter qualquer relação com o pensamento de Marx.[17] Na opinião de um especialista como Allen Wood,[18] a dissolução do comunismo soviético foi apenas mais uma prova de que Marx estava certo. Afinal, se essa forma de comunismo tivesse sido bem-sucedida – a instauração do comunismo em um país semifeudal – isso teria provado que Marx estava errado. A verdade é que tanto Popper quanto Wood estavam equivocados. As previsões de Marx estavam erradas, mas a verdadeira prova disso é o simples fato histórico de que desde que foram feitas, tornaram-se cada vez mais distantes e improváveis – o que não significa, naturalmente, que o capitalismo não possa nem deva ser superado pela mudança nas bases econômicas. A presente automatização industrial aponta nessa direção.

   Não só a Revolução Russa, como todos os demais casos de revoluções com bandeira marxista foram claramente contra a exploração colonial imperialista por parte de países já industrializados, cujo monopólio econômico impede ou dificulta em muito o desenvolvimento independente dos países periféricos.[19] Em geral, essas revoluções resultaram em estados fracassados, quase sempre devido aos embargos econômicos e às inúmeras intervenções norte-americanas militares e propagandísticas. Esse foi o caso de Cuba, do Vietnã, da Venezuela e do sistema comunista implantado na Coreia do Norte.

   O exemplo cubano é emblemático. Antes de 1959, Cuba era um país ditatorial, marcado por disparidades econômicas extremas e pela dependência dos Estados Unidos. Ao chegar ao poder, Fidel Castro estabeleceu um sistema comunista totalitário, abolindo a propriedade privada e privatizando indústrias norte-americanas. O resultado foi um embargo econômico severo, que isolou o país do sistema financeiro internacional e asfixiou seu desenvolvimento. Embora Cuba tenha alcançado conquistas notáveis em educação e saúde, elevando a expectativa de vida para 78 anos, continua sendo um país pobre, limitado pela dependência externa e pela rigidez de seu sistema político.[20]

   Um último exemplo de revolução anticolonialista com bandeira marxista foi o da China. No século XVIII, a China era a maior economia do mundo, responsável por cerca de 1/3 do PIB global. Mas após as guerras do ópio (1839-1860) a China foi saqueada pela Inglaterra, pela França, pelos Estados Unidos e até mesmo pela Rússia, mergulhando no assim-chamado “século da humilhação” em que foi tornada um dos países mais miseráveis do mundo. Mao Zedong liderou uma revolução camponesa em 1949, sob bandeira marxista, mas em continuidade às muitas insurreições populares que marcaram a história chinesa. Embora fosse um estrategista brilhante, no poder revelou-se um ditador tirânico. Seu esforço de industrialização e coletivização agrícola resultou em uma fome devastadora que ceifou a vida de cerca de 20 milhões de pessoas por volta de 1960.[21] Ele não parou aí: instaurou um novo reino do terror com sua “revolução cultural” entre 1966 e 1976. Ainda assim, acredita-se que a China tenha registrado um crescimento de cerca de 5% ao ano entre 1949 e 1976.

   O grande salto para frente só ocorreu de fato a partir de 1978, quando Deng Xiaoping, um líder esclarecido que havia escapado das mãos de Mao, conseguiu implementar a ideia que realmente transformou o país: reintroduziu mecanismos de economia de mercado, permitindo que agricultores arrendassem terras, incentivando a escolaridade e enviando milhares de estudantes ao exterior. Ao mesmo tempo, manteve o Partido Comunista no poder. Essa abertura parcial ao capitalismo, que facilitou a instalação de empresas ocidentais em um país com população gigantesca, exigindo, em contrapartida, a transferência de tecnologia (além de práticas ilegais), permitiu o milagre de libertar a China do colonialismo, tornando-a hoje, outra vez, a maior economia do planeta.

   O mais importante para se compreender o fenômeno chinês não foi sua adesão formal ao marxismo, mas o fato de ele ter se erguido sobre uma tradição milenar de gestão pública que acabou prevalecendo. O Partido Comunista tem hoje quase 100 milhões de membros. O povo participa da eleição de líderes locais do partido em um sistema em que centenas de milhões de pessoas são convocadas a votar. A partir dessa base são eleitos líderes regionais em um sistema hierárquico meritocrático que exige concursos públicos, diplomas pelas melhores universidades e sucesso na gestão, para que os mandatários possam progredir na carreira. O modelo reflete a tradição milenar chinesa dos mandarins e os valores morais do confucionismo. O essencial para o governo chinês é manter a satisfação popular, que, no momento em que escrevo, é muito alta.

   Ainda que não seja propriamente democrático, o sistema atende muito melhor às necessidades básicas do povo do que a espécie de oligarquia disfarçada de democracia vigente na maioria dos países ocidentais (EUA e Brasil, inclusive). Nesses países, os eleitores são facilmente manipulados por políticos populistas que servem às elites capitalistas que controlam os meios de comunicação – o que não é difícil, considerando que as decisões de governo dependem de variáveis excessivamente complexas para serem compreendidas pelo cidadão comum.

   Um exemplo que ilustra a vantagem do sistema chinês foi o lockdown extremo imposto pelo governo durante o surto de Covid-19. Embora os dados sejam incertos, acredita-se que, devido a essa reação extrema e imediata do governo, tenha havido cerca de 121.000 mortes até 2025 em uma população de 1,4 bilhões de habitantes. Já nos EUA, o número de mortes chegou a 1,4 milhão até 2025, em uma população de 348 milhões de habitantes. Pergunta: qual governo melhor protegeu os interesses de seus cidadãos?

   O sistema chinês atual é marxista apenas na intenção. Uma comparação mais adequada seria com a República de Platão, discutida no capítulo II (sec. 8) deste livro. Embora o mandatário supremo não seja um rei-filósofo, trata-se de alguém que demonstrou extraordinária capacidade administrativa. Como na República, há um sistema meritocrático de exames extremamente exigente, que seleciona os melhores estudantes para servir ao Estado. E também, como na República, há uma separação entre o poder político e a possibilidade de acumular fortuna pessoal no sistema capitalista – o que ajuda a inibir a corrupção. O resultado de um sistema no qual o Estado planeja o desenvolvimento com inteligência e anos de antecedência, mantendo sob seu controle a “mão invisível” da livre competição proposta por Adam Smith[22], é um desenvolvimento explosivo e sem precedentes.

   Considere, para fins de comparação, o caso de Xi Jinping. Aos 15 anos, foi enviado a viver com os camponeses durante seis anos, como forma de reeducação. Teve dificuldades para ser aceito como membro do partido. Uma vez aceito, passou a ser secretário do partido na vila onde havia trabalhado como camponês. Depois estudou engenharia química em Pequim. Demonstrou suas habilidades ao governar três importantes regiões provinciais, o que foi decisivo para sua entrada no Politburo, onde ascendeu e só foi eleito presidente em 2013, aos 59 anos. Compare esse desenvolvimento pessoal com as exigências feitas na República de Platão ou, para contrastar, com as carreiras de nossos políticos!

   A grande questão a ser considerada agora é: o que Marx tem a ver com todas essas revoluções anticolonialistas e anti-imperialistas e até com o inacreditável sucesso chinês? Em meu juízo, muito pouco. A ideologia marxista serviu, em geral (URSS, China de Mao), mais para manter as tensões externas altas, de modo a melhor justificar a repressão interna, além de servir como justificação ideológica legitimadora aos olhos dos mais crédulos – intelectuais inclusive.

   Considere a insistência de Marx na abolição da propriedade privada. Se Marx não tivesse existido, os revolucionários poderiam ter se inspirado em outros teóricos do século XIX que, antes dele, já defendiam essa ideia. Mesmo o fascismo (que funcionou como uma forma semelhante de tentar alcançar o desenvolvimento industrial à força, mas submissa aos valores do imperialismo), embora não tenha abolido a propriedade privada, a mantinha sob rígido controle.

   O importante a notar é que, em essência, essas revoluções não tiveram nada a ver com a grande revolução pós-capitalista imaginada por Marx. Foram, na verdade, revoluções pré-capitalistas em países marginalizados, em oposição ao monopólio econômico exclusivista e explorador estabelecido pelos países já industrializados, na tentativa de se opor a ele e, ao final, alcançá-los por meio de autocracias tirânicas sob a bandeira propagandística do idealismo comunista – um movimento descolonizador e emancipador que, em alguns casos, como os da China e da Rússia, acabou sendo bem-sucedido, ainda que a um preço altíssimo.

   Qual a conclusão disso tudo? Uma delas é que Popper responsabilizou Marx em vão por tudo o que aconteceu sob a bandeira marxista.[23] Para os líderes dessas revoluções, se Marx não tivesse existido, teria sido preciso inventá-lo. Minha suspeita é que, ainda que o humanismo marxista tenha tido um papel motivador, se Marx não tivesse existido, as revoluções pré-capitalistas e anti-imperialistas teriam ocorrido de qualquer maneira, inspiradas por outros teóricos que defenderam ideias semelhantes às de Marx, mesmo que sem sua originalidade. Lenin, por exemplo, poderia ter defendido uma ideologia própria, o mesmo acontecendo com Mao. Teorizações ideológicas podem nascer e crescer tão facilmente quanto o capim do mato.[24]

 

7

 

Acordos. Quero fazer aqui uma breve correção que me parece indispensável à interpretação que Marx e Engels fizeram da história. Para eles, os diferentes períodos da história foram resultados dialéticos da luta de classes: “a história da humanidade é a história da luta de classes”.[25]

   Embora poderosa, a afirmação contém certo exagero. Apesar das oposições, grande parte da história tem sido marcada mais por acordos, implícitos ou mesmo explícitos, entre as classes sociais. Esses acordos podem perdurar por séculos, como no caso do feudalismo medieval. Eles não anulam a dialética materialista proposta por Marx: com o desenvolvimento e a alteração das bases econômicas, os acordos podem se revelar demasiado onerosos, conduzindo a conflitos que resultam na sua superação e substituição por novos arranjos, mais satisfatórios e justos.

   Assumindo que a luta de classes decorre da injustiça social, precisamos distinguir entre:

 

(i)               O conceito ideal de justiça social (absoluta):

Trata-se do modelo que só poderia ser realizado em uma sociedade perfeita, como o paraíso marxista.

(ii)             O conceito objetivo (circunstancial, factual) de justiça social:

Esse conceito varia conforme as condições concretas de cada sociedade, como Hegel já havia observado.

 

O marxismo tende a colapsar o conceito objetivo no ideal, projetando sobre todas as épocas uma luta de classes permanente. Isso conduz à ilusão de que as classes não privilegiadas sempre tiveram o “direito” à emancipação, ainda que lhes faltasse a consciência desse direito, sempre negada pela força das superestruturas ideológicas. Essa leitura, porém, ignora a relatividade histórica da justiça social: há injustiças objetivas, corrigíveis, e injustiças ideais, irremissíveis em contextos históricos em que sua realização é impossível, encontrando-se, por isso, além do horizonte de discussão. A justiça social ideal traduz um conceito diretivo, merecedor de ser sempre buscado, mas que, dadas as circunstâncias históricas, pode ser apenas parcialmente concretizado (daí ser a política “a arte do possível”).

   A distinção recém-apresentada pode ser melhor esclarecida com exemplos. Considere o caso da escravidão. Em termos ideais, qualquer forma de escravidão é injusta, pois decorre de fatores altamente arbitrários, como a força física, a violência ou a pura sorte. Mas, sob a perspectiva de uma sociedade específica, em certa época e região, a escravidão pode ser justificada, pois sua ausência nessa sociedade torna-se incompatível com sua própria sobrevivência. Esse foi, em geral, o caso das civilizações europeias pré-cristãs. Um estado sem escravos seria, no mundo antigo, algo impensável, pois não sobreviveria por muito tempo sem ser dominado por outros.

    Considere, para ilustrar o que quero dizer com “acordo” e “justiça circunstancial”, a revolta de escravos liderada por Spartacus contra o governo romano (73-71 a.C.). Eles se revoltaram contra os maus-tratos e as condições desumanas impostas a gladiadore e escravos. O curioso é que nunca lhes passou pela cabeça a ideia de abolir a escravidão como instituição. O que eles queriam era alcançar a liberdade, fugindo das garras do império, para a Gália ou, como tentaram fazer no final, para a Sicília. Acabaram encurralados, sem poderem cruzar o estreito. Depois de os vencerem, os romanos crucificaram 6.000 revoltosos ao longo da Via Ápia, para aterrorizar qualquer um que pensasse em fazer o mesmo. Os escravos agiram por puro desespero. Em outras circunstâncias, se tivessem poder para tal, teriam escravizado os romanos.

   Isso revela que, na época, havia um acordo implícito entre as classes: a escravidão era aceita como parte de um justo jogo de forças no qual alguns ganhavam e outros perdiam, cabendo ao destino determinar a quem caberia o papel de senhor e a quem o de escravo. Não faz sentido falar de “luta de classes” nesse contexto, a menos que projete, retroativamente, padrões morais modernos, incompatíveis com as vicissitudes históricas.

   Alguém poderia objetar que os escravos não percebiam seus direitos devido à alienação. Mas essa não seria uma boa réplica. Considerando as estruturas socioeconômicas e culturais dos povos europeus da época, bem como as relações que vigoravam entre eles, não havia outra opção senão aceitar a escravidão. E a dura consciência dessa falta de opção não tinha nada a ver com alienação.

   Essa constatação invalida ilusões como a de uma injustiça “milenar”, mas não invalida a necessidade de reparações históricas[26] nem o essencial da dialética materialista. Se as novas bases econômicas tornam possíveis acordos mais civilizados, menos determinados por fatores irrelevantes ou arbitrários, então a recomposição das relações de produção e a superação de superestruturas ideológicas tornam-se um imperativo moral objetivo. Nesse caso, a luta de classes pode tornar-se justificada e até exigir ações violentas.

   Um segundo exemplo ilustra o caso oposto: uma sociedade em que acordos não devem ser mantidos, pois a possibilidade de mudança objetiva é real. Trata-se da comparação das oposições entre as classes antes e após a Revolução Industrial. Com o objetivo de refutar Marx, Ludwig von Mises observou que a situação dos camponeses antes da Revolução Industrial não era melhor do que aquilo que eles se tornaram: operários nas fábricas. Mises a descreveu de forma impressiva:

 

A verdade é que as condições no período que antecedeu à Revolução Industrial eram bastante insatisfatórias.  O sistema social tradicional não era suficientemente elástico para atender às necessidades de uma população em crescimento contínuo. (...) O número de pessoas à margem do rígido sistema paternalista de tutela governamental cresceu rapidamente; eram virtualmente párias.  A maior parte delas vivia, apática e miseravelmente, das migalhas que caíam das mesas das castas privilegiadas. (...) Milhares dos mais vigorosos jovens desse estrato social alistavam-se no exército ou na marinha de Sua Majestade; muitos deles morriam ou voltavam mutilados dos combates; muitos mais morriam, sem glória, em virtude da dureza de uma disciplina bárbara, de doenças tropicais e de sífilis.[27]

 

Mesmo sendo verdadeiro o que Mises descreveu, seu argumento falha, pois ele confundiu a injustiça social objetiva e corrigível – a do capitalismo – com uma injustiça social ideal, que na prática era (supostamente) incorrigível – a da modernidade manufatureira, tratando o primeiro tipo como se fosse o segundo.

   Assim, se considerarmos o que foi sustentado acima sobre acordos e crises, o que Mises escreveu não serve como crítica à afirmação de Marx de que os trabalhadores das fábricas estavam sendo duramente explorados. É que, antes da Revolução Industrial, a situação de carência não permitia grandes mudanças, de modo que os camponeses eram mais idealmente do que objetivamente explorados. Contudo, com a mudança da estrutura econômica, essas mesmas pessoas, na condição de trabalhadores, passaram também a ser exploradas de forma corrigível, dado que condições concretas para uma melhoria substantiva de suas vidas passaram a ser oferecidas.

   As considerações acima acerca de uma variação entre tempos de acordo e tempos de conflito entre as classes, levam-nos a considerar uma simplificação intrínseca à tese de Marx e Engels de que a história foi uma contínua luta de classes, pois ela deixa de distinguir entre o conceito ideal e o conceito objetivo ou circunstancial de justiça social. Esse erro não foi sem consequências, na medida em que encorajou aplicações irrefletidas dessa ideia por parte de ideólogos marxistas na tentativa de explicar as revoluções anticolonialistas do século XX como se fossem marxistas. Corrigir esse erro enriquece o marxismo ao evitar simplificações em nossos julgamentos historiográficos.

 

 

 

 

 



[1] Vale notar que a base econômica (ou infraestrutura) não deve ser confundida com a estrutura econômica, que é a organização concreta da base econômica em determinado modo de produção, como no sistema feudal.

[2] Karl Marx, Zur Kritik der politischen Ökonomie (1859), Vorwort (Reclam Verlag 2024). Ver J. Edwards e Brian Leiter, Marx (Routledge 2025), p. 151.

[3] Karl Marx, Para a crítica da economia política, prefácio (1859).

[4] Friedrich Engels, “Carta a Joseph Bloch” (21-22 setembro 1890).

[5] cf. Louis Althusser, Ideologia e aparelhos ideológicos de estado. (Martins Fontes 1970).

[6] Karl Marx, Manuscritos econômico-filosóficos (1844), Trabalho alienado (Boitempo 2004).

[7] “A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espírito. A religião é o ópio do povo.” Crítica da filosofia do direito de Hegel - Introdução (Boitempo 1982 (1844)), Introdução, p. 151.

[8] Karl Marx e Friedrich Engels, A sagrada família (1845) (Boitempo 2003), p. 48.

[9] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifest der komunistichen Partei (1848). Manifesto do partido comunista (Boitempo 2010), sec. 1, p. 40.

[10] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do partido comunista, sec. 1, p. 40.

[11] Karl Marx: Die deutsche Ideologie (1846). Trad. port. A ideologia alemã (Grijalbo 1977), p. 46.

[12] Mikhail Bakunin: Estatismo e anarquia (Ícone 2003), p 18. Note-se que nem por isso a ideia de uma consciência de classe deixa de fazer sentido.

[13] Ludwig Feuerbach, Das Wesen des Christentums (1841). Trad. port. A essência do cristianismo (Vozes 2007), Introdução, Capítulo I, pp. 43, 52.

[14] O ser humano tende a ser naturalmente polígamo (Quinsey). A moralidade de nossa civilização mudou essa condição, mas parece que ao preço de distorções como a infidelidade, a pornografia, etc.

[15] Os mencheviques estavam mais próximos de Marx, uma vez que acreditavam que, sendo a Rússia um país ainda semifeudal, ela deveria passar primeiro por um período relativamente longo de desenvolvimento capitalista democrático, para só então adotar um modelo de socialismo marxista.

[16] Karl Popper, The Open Society and its Enemies (Princeton University Press 2013), vol. II, 343-402 (Marx’s Prophecy).

[17] Jaime Edwards & Brian Latter, Marx (Routledge 2025), pp. 226-229.

[18] Allen Wood, Karl Marx (Routledge 2004).

[19] A menos que haja interesse envolvido. Por meio do Plano Marshall, os Estados Unidos ajudaram o Japão e a Alemanha: o primeiro para deter o comunismo chinês, e o segundo para deter o comunismo soviético. Aceitaram o desenvolvimento da Coreia do Sul para deter a Coreia do Norte. Mas, quando o Japão se tornou competitivo, exigiu-se a valorização da moeda japonesa (1985), o que foi a principal causa da estagnação da economia japonesa. Outros países mais pobres passaram a pagar tributos ao império americano por meio do “privilégio exorbitante do dólar”, que faz outros países pagarem por seus gastos.

[20] Ao longo de mais de seis décadas, os prejuízos acumulados são estimados por economistas cubanos em cerca de 1,4 trilhões de dólares, sem falar na dificuldade de importar produtos essenciais.

[21] Há relatos brutais, como o de camponeses desesperados trocando seus filhos moribundos pelos dos vizinhos para que pudessem ser comidos sem tanta culpa. Stéphane Courtois et all: O livro negro do comunismo: crimes, terror e repressão (Bertrand Brasil 2019), p. 58.

[22] Para Smith, a mão invisível do mercado faz com que as nações enriqueçam, na medida em que os agentes econômicos, buscando satisfazer seus próprios interesses, competem entre si, produzindo bens melhores e mais baratos. Adam Smith, A riqueza das nações (Companhia das Letras 2013), p. 423.

[23] Ver The Open Society and its Enemies, a.a.O., parte II.

[24] Curiosamente, ideias marxistas já haviam sido vislumbradas por chineses no contexto da Grande Rebelião do Reino Celestial Taiping de 1851, que, de início, visava ao desaparecimento da propriedade privada, das classes sociais e da desigualdade entre mulheres e homens.

[25] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto comunista (Boitempo 2010), p. 40.

[26] As reparações de injustiças históricas parecem justificadas, na medida em que houver continuidade suficiente entre o sistema que a produziu e o que atualmente é capaz de repará-la. Ver os exemplos convincentes de Thomas Piketty sobre reparação histórica em Uma breve história da desigualdade (Intrínseca 2022), cap. 4.

[27] Ludwig Von Mises: “Fatos e mitos sobre a revolução industrial”. Mises Brasil 2013 (https://mises.org.br//article/1056/fatos-e-mitos-sobre-a-revolucao-industrial).

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