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segunda-feira, 1 de junho de 2026

BERKELEY: IMATERIALISMO (Draft do livro Introdução histórica à filosofia cap. X)

 

draft para o livro Introdução histórica à filosofia a ser publicado pela editora Europa


 

 

X

BERKELEY: IMATERIALISMO

 

A mesa na qual escrevo, digo que existe, isto é, eu a vejo e sinto. E se, estando fora do meu estúdio, eu dissesse que ela existe, o que eu estaria querendo dizer com isso é que, se estivesse em meu estúdio, eu poderia percebê-la.

Berkeley

 

George Berkeley (1685-1753) foi um bispo anglicano nascido na Irlanda que defendeu um idealismo imaterialista segundo o qual tudo o que existe são ideias, almas e Deus. Seus conhecidos em Londres acharam o livro tão constrangedoramente absurdo que preferiam não mencioná-lo diante do autor. Só mais tarde se reconheceu a coerência e a profundidade filosófica de seus argumentos.

   Os dois livros que o tornaram conhecido foram escritos antes de ele completar 28 anos: o Tratado concernente aos princípios do conhecimento humano, seguido de uma bela peça literária intitulada Os três diálogos entre Hylas e Philonous. Berkeley leu com admiração o Ensaio de Locke, mas concluiu que aquela forma de empirismo só poderia conduzir ao ceticismo e ao ateísmo, já que Deus desempenhava um papel meramente decorativo na obra de Locke.

   Depois desses escritos, Berkeley desinteressou-se da filosofia e concentrou-se em sua atividade pastoral. Casou-se, teve sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Morreu aos 78 anos enquanto sua esposa lia a Bíblia para ele.

 

1

 

Ideias gerais. A obra filosófica de Berkeley partiu de uma crítica a pontos frágeis da filosofia de Locke, como a aceitação da existência de um mundo material independente da mente. Para Berkeley, essa crença conduz ao ateísmo; por isso, em sua filosofia, ele argumentou a favor de um idealismo imaterialista.

   Há duas objeções fundamentais feitas por Berkeley contra Locke. A primeira delas diz respeito às ideias gerais e abstratas.[1] Para Berkeley, existem ideias gerais no sentido de que podem se aplicar a um número indefinido de coisas, mas não existem ideias gerais que também sejam abstratas, como pensava Locke. Não é possível, por exemplo, imaginar a ideia do movimento em geral sem ser a de algo que se movimenta. Ele citou textualmente uma tentativa de Locke de demonstrar possível a ideia geral e abstrata de um triângulo:

 

…não requer muita dor nem habilidade para formar a ideia [geral e abstrata] de um triângulo, pois ele nem deve ser oblíquo, nem retângulo, nem isósceles, nem equilátero, nem escaleno; mas tudo e nada disso de uma vez.[2]

 

Para Berkeley, a construção desse triângulo só não requer dor nem habilidade na mente fantasiosa de Locke, posto que é inimaginável e impossível. Ideias têm caráter imagético e não podem ser abstratas.[3]

   Segundo Berkeley, a maneira como representamos a generalidade consiste em separar ideias de indivíduos – digamos, a de um triângulo equilátero, a de um movimento particular, a de um homem particular – e tratando-as como modelos comparativos para a identificação de quaisquer indivíduos das classes correspondentes. Como ele escreveu:

 

Acredito que devemos reconhecer que uma ideia, que, considerada em si mesma, é particular, torna-se geral por ser feita para representar ou ser posta no lugar de todas as outras ideias particulares da mesma espécie.[4]

 

Essa capacidade de generalização aparece, por exemplo, quando decidimos provar um teorema usando linhas em um quadro. Usamos um triângulo específico como modelo para demonstrar que a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180°. Logo percebemos que esse resultado vale não só para o triângulo desenhado, mas para todo e qualquer triângulo da geometria euclidiana. Berkeley é um particularista acerca das ideias, melhor dizendo, um nominalista radical.

 

2

 

Idealismo. A segunda objeção de Berkeley a Locke é central e de considerável importância filosófica, pois teve repercussão na filosofia de Hume, que influenciou Kant e, por meio de Kant, o próprio idealismo alemão. Ela diz respeito ao que hoje chamamos de problema da percepção: como a mente pode ter acesso a um mundo externo que lhe é essencialmente heterogêneo?

   Ele tomou como ponto de partida a teoria de Locke, segundo a qual o que percebemos diretamente são as ideias. Como Locke demonstrara, tudo o que percebemos são ideias que só existem nas mentes dos sujeitos percipientes. As ideias, por sua vez, devem ser capazes de representar qualidades ou poderes constitutivos de entidades materiais que existiriam na independência de qualquer mente. Isso fez de Locke um realista indireto, um representacionalista.

   A pergunta de Berkeley foi incisiva: que sentido há em falar de um mundo material externo, independente das ideias, se tudo o que percebemos – pela visão, pelo tato, pela audição, pelo olfato, pelo paladar – não passa de ideias presentes em nossas mentes? Afinal, só podemos comparar aquilo que percebemos. Como só percebemos ideias, só podemos comparar ideias com ideias. Mas então, como seria possível “saltar” fora de nossos cinco sentidos para perceber um mundo material tal como ele é, para além do véu das sensações? Com que autoridade Locke poderia afirmar que as ideias das qualidades primárias são semelhantes às próprias qualidades primárias? Para Berkeley trata-se de uma hipótese despropositada, inútil e vazia de sentido, posto que completamente inverificável.

   Berkeley pôs em jogo o argumento da ilusão para trabalhar a seu favor. Ele considerou o caso de algumas ideias de qualidades secundárias, como calor, frio e som. A ideia do calor não é diferente da ideia do calor intenso, que arde e queima. Mas, se o calor intenso também é uma ideia, o mesmo vale também para qualquer grau de calor, assim como para as ideias de arder e queimar. No caso do frio: se eu colocar meu indicador da mão direita dentro de um copo de água com gelo e, depois, ambos os indicadores em água à temperatura ambiente, a sensação será de quente para o indicador da mão direita e de frio para o outro. Isso mostra, segundo Berkeley, que as ideias percebidas não têm existência senão nas mentes.

   O mesmo vale para o som. Como no caso do calor, o som é uma ideia subjetiva. Sabemos, pela física, que o som é constituído por ondas sonoras no ar. Mas essas ondas são medidas por meio de vibrações, movimentos dos quais não possuímos mais do que ideias. Logo, o som, mesmo considerado uma onda, é uma ideia: uma ideia secundária que se exprime por meio de uma ideia primária de movimento.

   O mesmo relativismo se aplica às qualidades primárias: um mesmo objeto pode parecer pequeno ou grande, de acordo com a distância a partir da qual o vemos. Mas coisas assim também acontecem em sonhos, o que, uma vez mais, indica que os objetos imediatos de nossa percepção, as ideias, não podem ser mais do que criaturas da mente.

   Como vimos, Locke sustentava que as ideias de qualidades primárias se assemelham às qualidades primárias dos objetos materiais, enquanto as ideias de qualidades secundárias seriam efeitos de qualidades primárias imperceptíveis da matéria, sem qualquer semelhança com as qualidades secundárias que as produziram. Mas Berkeley observou que as qualidades primárias existem sempre em conjunção com as qualidades secundárias. Um triângulo tem sempre uma cor, mesmo que seja branca ou cinzenta. É verdade que objetos coloridos deixam de ser percebidos como tais no escuro, como observou Locke. Mas as qualidades primárias também são sujeitas a mudanças circunstanciais: um bloco de gelo pode se liquefazer e, mais tarde, transformar-se em vapor d’água, perdendo a qualidade primária da dureza e, depois, a da extensão. Ou seja, para Berkeley, as ideias das qualidades secundárias estão de par em par com as ideias das qualidades primárias. Logo, não há razão para privilegiarmos as primeiras como semelhantes a supostas qualidades primárias externas ao sujeito percipiente.

   A grande conclusão de Berkeley foi resumida na fórmula: ser é ser percebido (esse est percipi). Não é possível encontrar nenhuma evidência de que exista um mundo material inerte, independente do mundo das ideias. A sugestão de Locke de que existe uma substância material incognoscível, um suporte subjacente ao feixe de qualidades externas, apenas complica inutilmente as coisas: trata-se de outra hipótese vazia, visto que é inverificável pelos sentidos. Se quisermos torná-la inteligível, teremos de tratar a substância como extensa e, nesse caso, não seria mais do que uma ideia de extensão.

   Há várias objeções, mais ou menos óbvias, a essa primeira carga argumentativa. A primeira é que as coisas continuam a existir, mesmo quando não as estamos percebendo. A árvore que cai na floresta faz barulho, mesmo que não haja ninguém por perto para observá-la. Aqui Berkeley recorreu a uma solução original e em perfeita concordância com seus objetivos. Como todas as ideias precisam ser percebidas por algum espírito e Deus se encontra em todo lugar, é Ele quem sustenta as ideias constitutivas do mundo externo.[5] Assim, quando não percebidas por nós, elas estão sendo percebidas por outros espíritos ou, em última instância, por Deus, que as sustenta. Assim, se é noite e o escritório de Berkeley está fechado, ele sabe que lá se encontra sua escrivaninha cheia de livros, uma vez que Deus contém e sustenta essa ideia por todo esse tempo.[6] Por isso, Berkeley sabe que pode percebê-la (esse est percipi possi). O mesmo acontece com o fato de que sabemos que a Terra se move ao redor do Sol, embora não sejamos capazes de perceber isso. Berkeley responde que Deus faz com que, se estivéssemos postados nas circunstâncias adequadas, seríamos capazes de perceber a Terra girando ao redor do Sol.[7] Para ele, todas essas coisas existem e são reais na mente de Deus,[8] o que nos leva à conclusão de que ao aprendermos sobre o mundo, quer pela experiência comum, quer pela ciência, estamos tendo acesso à mente divina.

   Mas então, como distinguimos as ideias da imaginação das ideias que dizemos perceber? A resposta de Berkeley consistiu no apelo a certos critérios pelos quais distinguimos as ideias constitutivas do que chamamos de mundo externo das ideias da imaginação. Ele fez um razoável catálogo desses critérios no parágrafo 30 do Tratado:

 

As ideias dos sentidos são mais fortes, vívidas e distintas do que as da imaginação; têm estabilidade, ordem e coerência, e não são aleatoriamente produzidas, como em geral ocorre com as que são efeitos da vontade humana, mas em cadeias e séries de admirável conexão, como testemunhas suficientes da sabedoria e benevolência de seu autor [Deus]. Ora, o conjunto de regras ou métodos estabelecidos pelos quais a Mente da qual dependemos excita em nós as ideias do sentido são chamadas leis da natureza. E isso nós aprendemos pela experiência, que nos ensina que tais e tais ideias são acompanhadas por tais e tais outras ideias no curso ordinário das coisas.

 

Devido às propriedades das ideias sustentadas por Deus, podemos, ao conhecê-las, fazer previsões e sustentar a vida. É pela bondade do espírito divino que as ideias constitutivas do mundo são conformes ao que chamamos de leis naturais, permitindo-nos conhecê-las e usá-las em nosso proveito. A inesperada conclusão de Berkeley é que seu imaterialismo, além de estar em conformidade com o teísmo, também se encontra em plena consonância com o senso comum e que sua filosofia é apenas uma maneira mais elevada de interpretá-lo.

   Mas que dizer de nós mesmos e de Deus? O “ser é ser percebido” não se aplica a tais casos. Percipi conduz ao percipere, que conduz ao percipiens. Ao percebermos as ideias, notamos que existe um sujeito da percepção, um eu, que não pode ser reduzido a elas. O eu (percipiens) é um espírito, uma alma dotada de vontade, totalmente diferente do que percebe. Ele é uno, indiviso e ativo, enquanto as ideias são passivas. Por não ser o eu como as ideias, não podemos ter ideia do eu, mas apenas uma noção. O mesmo se aplica a Deus. As ideias que se impõem a nós e que existem mesmo em nossa ausência apenas demonstram a existência de um Deus invisível e onipresente, mas não nos permitem perscrutar sua natureza. De maneira semelhante, concluímos pela existência de outras almas que, por obra de Deus, são capazes de compartilhar ideias de sensação idênticas.

   Ainda uma questão diz respeito à diferença real entre as ideias em Berkeley e a matéria ou substância material dos filósofos como Locke. Para o último, a matéria deveria existir sem um espírito para percebê-la. E a noção de um substrato substancial indizível, aventada por Locke, nada faz para justificar sua existência. Berkeley substituiu a matéria por ideias dependentes de um espírito que as produz e sustenta, um espírito que ele chama Deus e que contém todo o universo em sua mente. O imaterialismo cumpre assim o objetivo apologético de Berkeley, de harmonizar a filosofia com a fé religiosa em geral.

 

3

 

Crítica. Para uma pessoa de fé religiosa, a filosofia de Berkeley pode parecer defensável. Seja como for, há problemas que merecem consideração. Vejamos alguns. O seu “ser é ser percebido” é um lema arbitrário: nada sugere que, ao percebermos algo, lhe outorguemos automaticamente qualquer espécie de existência ou ser, por mais tênue que seja.

   A insistência de Berkeley em afirmar que sua filosofia é plenamente confirmada pelo senso comum também soa exagerada: ninguém diz que as propriedades que encontramos no mundo ao nosso redor são ideias. Thomas Reid (1710-1796) foi um crítico persistente e rigoroso da filosofia da percepção de Locke, Berkeley e Hume. Ele notou que nós jamais dizemos que percebemos ideias, a não ser quando elas nos aparecem sob formas enganosas, como nos sonhos e nas alucinações. E chamar as ideias de “percepções”, como mais tarde Hume o fez, é um brutal abuso da linguagem. Para Reid as ideias fazem parte do modo como a mente opera: o esquema correto para ele não é: “o sujeito percebe a ideia como coisa externa”, mas “o sujeito, através da ideia, percebe uma coisa externa.”

   Essas considerações nos levam à interpretação alternativa de Berkeley proposta por J. P. Urmson. Segundo ele, existem dois Berkeleys: o oficial, que acabei de expor, e o Berkeley oculto, que seguia uma linha de raciocínio não apologética. Para este último, ser não é ser percebido, mas poder ser percebido. Ele já podia ser encontrado nos Cadernos de notas,[9] onde lemos frases como “[Objetos existem quando não são presentemente percebidos] porque eles são relacionados à percepção possível” (sec. 580; ver sec. 582), “A mesa continua na sala quando ninguém a percebe [querendo dizer que se alguém estivesse lá, ele a perceberia]” (sec. 429) “O cavalo está na estrebaria [ilustrando a afirmação de sua existência baseada na expectativa de vê-lo outra vez]”, (sec. 585). Essa formulação parece mais plausível, pois sugere que nossa certeza da existência permanente das coisas pertencentes ao mundo externo consiste em tê-las percebido, quer pessoalmente, quer por inferência a partir de outras percepções, quer por testemunho.[10] John Stuart Mill, mais tarde, defendeu algo semelhante, mas a favor da existência da matéria. Para este último, a matéria é a permanente ou garantida possibilidade de sensações.[11]

 

4

 

Alternativa realista. Em oposição a Berkeley e seguindo uma sugestão de Bertrand Russell, quero agora considerar a possibilidade de que os conteúdos de sensação (sense-data), por ele chamados de ideias, possuam uma face de Janus, podendo ser ora interpretados como (a) propriedades e configurações de propriedades no mundo externo, ora entendidos como (b) ideias mentais internas dessas mesmas propriedades e configurações. A escolha entre (a) e (b) dependerá do contexto em que as situamos.[12]

   Uma analogia torna essa distinção plausível. Considere a imagem virtual formada pela lente ocular de uma luneta. Ao postar o olho na imagem virtual, vemos um corpo celeste – digamos, a Lua. Mas a imagem virtual é apenas uma projeção que reproduz o disco lunar. É fácil demonstrar isso colocando um sensor, uma câmera ou mesmo uma tela em seu lugar: nela encontraremos a reprodução ampliada do disco lunar como imagem virtual. Ora, ninguém dirá que o objeto de nossa visão da Lua é sua imagem virtual formada pela lente ocular e projetada na retina, na tela ou registrada pelo sensor. O que dizemos é que vemos a Lua diretamente por intermédio dessa imagem. Ora, o mesmo podemos dizer de nossas ideias ou sense-data: elas não são os objetos da percepção, mas sim o meio pelo qual os percebemos. E, assim como a imagem virtual projetada, são, em forma e conteúdo, idênticas ao objeto percebido.

   Do mesmo modo como temos critérios físicos contextuais para distinguir a imagem virtual projetada pela lente ocular das configurações de propriedades que constituem o que vemos como a Lua, mesmo sendo ambas similares, também dispomos de critérios para distinguirmos a ideia ou sense-data que temos de uma configuração de propriedades que constitui o próprio objeto percebido.

   Incidentalmente, o próprio Berkeley catalogou, no parágrafo 30 do Tratado, os principais critérios de realidade externa como:

 

(i)               as ideias que se apresentam como as mais intensas e distintas,

(ii)             as mais estáveis, organizadas e coerentes,

(iii)          as que não dependem de nossa vontade e, ainda,

(iv)           as que seguem as leis da natureza.

 

Como já notei (Cap. V, sec. 5), a satisfação conjunta de todas essas condições simplesmente define aquilo que chamamos de existência externa (no sentido inerente) de uma configuração de propriedades como a do disco lunar visto a olho nu. Mais ainda: quando, sob tais condições, atribuímos uma combinação de propriedades, como forma e cor, às quais adicionamos dureza, massa e peso, diremos tratar-se de um corpo ou substância material. Isso é o que o senso comum realmente nos diz.

   Mas então, o que permite a Berkeley insistir que configurações de propriedades visíveis não sejam, na verdade, propriedades de corpos materiais, mas ideias mentais? A resposta está na face de Janus do conteúdo da percepção e no apelo a Deus.

   Quanto à face de Janus, trata-se do fato de que as propriedades espaço-temporais atribuídas à percepção costumam ser fenomenalmente idênticas às ideias mentais. Elas são idênticas, assim como a projeção da imagem da Lua apresenta a mesma configuração do disco lunar que vemos no céu. Há, porém, critérios para distingui-los. No caso da luneta, a localização da imagem é completamente diferente da localização do disco lunar real visto por meio dela, além de seguir regras distintas. No caso da visão direta da Lua a olho nu, temos a localização de uma ideia (sense-data) no interior de nosso cérebro, o que me parece hoje suficientemente comprovado[13], que é muito diversa da localização de sua propriedade lá fora, considerando ainda que só a última satisfaz os critérios de realidade listados acima.

   O segundo ponto é o apelo a Deus como aquele que possui as ideias que consideramos propriedades reais externas. O Deus de Berkeley está no lugar da substância de Locke e, por isso mesmo, sujeito ao mesmo tipo de objeção que ele dirigiu à substância: uma hipótese sem fundamento experiencial. Tendo em mente esses dois pontos, o argumento de Berkeley perde muito de sua força persuasiva.

   Resta ainda explicar o que faz com que a ideia mental possa ser considerada fenomenalmente idêntica à qualidade física externa (também uma “ideia” para Berkeley).  A resposta se assemelha, aqui, ao que já consideramos ao comentar a objetividade das qualidades em Locke: a ideia (o sense-datum) repete as propriedades da aparência física. O vermelho é uma cor oposta ao verde, quente, agressiva, sensual. Não podemos saber com certeza se outra pessoa tem exatamente a mesma experiência fenomenal do vermelho – provavelmente não. Outro ser vivo, ou mesmo outra pessoa, poderá ter acesso a qualidades fenomenais distintas. Uma pessoa com daltonismo vê menos cores; uma águia adiciona novas propriedades ao fenômeno, pois tem visão tetracromática: além do vermelho, do verde e do azul, ela vê o ultravioleta. Contudo, o essencial é que as estruturas comuns aos perceptos dessas mesmas coisas por esses diferentes seres vivos permaneçam as mesmas, o que basta para confirmar sua intersubjetividade e, com isso, muito de sua objetividade. Essas relações estruturais internas ao fenômeno – digamos, entre os mares lunares, as regiões claras e as crateras da Lua – são compartilháveis interpessoalmente, tanto no que diz respeito aos sense-data internos quanto à sua projeção no mundo externo, diferenciada pela satisfação dos critérios de realidade externa resumidos pelo próprio Berkeley. Isso garante o que o poderíamos chamar de “materialidade” dos objetos do mundo externo.

   Por fim, não é impossível que Berkeley esteja essencialmente certo. Basta que alguma hipótese cética radical seja verdadeira. Basta imaginar que podemos ser prisioneiros do programa de um supercomputador que produz em nós a ilusão holográfica sistemática de um universo inteiro ou de alguma outra hipótese cética, inclusive a de que sejamos partícipes da mente divina. A hipótese de Berkeley, ao substituir a ilusão holográfica pelas ideias no interior da mente divina, pode ser mais agradável e auspiciosa. Mas ela esbarra no problema de transgredir o princípio da parcimônia, que justifica a pressuposição realista (PR) apresentada no capítulo V (sec. 5).



[1] A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge (1740) (Oxford University Press 1998). Trad. port. Tratado sobre os princípios do conhecimento humano. In Berkeley: obras filosóficas (Unesp 2010), Intr. sec. 6-16.

[2] John Locke, Ensaio sobre o entendimento humano IV, 7, 9.

[3] Um defensor de Locke poderia responder que ele estava apenas sendo retórico: ele estava se referindo à ideia abstrata do triângulo, a dizer, ao conceito não imagético de triângulo, o qual é realmente capaz de conduzir à formação de ideias-imagens de formas triangulares incongruentes umas com as outras. cf. J. O. Urmson, Berkeley (Oxford University Press 1982), p. 28.  

[4] Tratado, Intr. sec. 12.

[5] Three Dialogues Between Hylas and Philonous (1713) (Open Court 1906), p. 65. A palavra ‘perceive’ usada aqui por Berkeley não tem o sentido usual, uma vez que ele concordaria que Deus não possui órgãos sensíveis (p. 106).

[6] Tratado, sec. 3.

[7] Tratado, sec. 58.

[8] “Mas então para um cristão não pode seguramente ser chocante dizer que a árvore real, existindo sem a sua mente, é verdadeiramente conhecida e compreendida (isto é, existe na) pela infinita mente de Deus.” Three Dialogues Between Hylas and Philonous, p. 97.

[9] Commonplace Book (Routledge 2010). Esse caderno de notas escrito antes do Treatise, só foi publicado por E. E, Luce, em 1944.

[10] J. O. Urmson, Berkeley (Oxford University Press 1982), cap. 3.

[11] Ver Examination of Sir William Hamilton’s Philosophy (Forgotten Books 2018), cap. IX.

[12] Ver “The Relation of Sense-Data to Physics” (1914). O artigo foi republicado em Mysticism and Logic (George Allen & Unwin 1917). Nele, Russell tentou mostrar como sense-data podem ser entendidos ora como propriedades, ora como conteúdos mentais, dependendo do contexto.

[13] Como já notei (cap. IX, sec. 7), a existência dos sense-data, tanto visuais quanto auditivos, tem sido comprovada pela tradução da atividade cerebral em imagens visuais através de fMRI scanner. 

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