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segunda-feira, 1 de junho de 2026

DONALD WILLIAMS: ONTOLOGIA DOS TROPOS (cap. XIX de Introdução histórica à filosofia)

 Draft avançado do livro a ser publicado pela Editora Europa (Roma)


 

 

 

XIX

DONALD WILLIAMS: ONTOLOGIA DOS TROPOS

 

Qualquer mundo possível, e, portanto, também o nosso, é completamente constituído de seus tropos…

Donald Williams

 

 

Donald Cary Williams (1899-1983) foi um filósofo norte-americano com especial interesse pela metafísica. Ele foi um grande estilista e também um pensador obstinado, o que pode ser uma grande qualidade quando alguém percebe algo que os outros não estão muito dispostos a ver. Ele defendeu tenazmente uma proposta ontológica profundamente original, ousada e fascinante. Caso sua proposta se mostre plenamente desenvolvível, ela representará o ponto de inflexão em toda a investigação ontológica, pois permitirá que os filósofos saiam do lodaçal argumentativo em que a ontologia vem patinando desde os tempos de Platão. Trata-se da assim chamada teoria dos tropos.[1]

    No que se segue, apresento primeiro um resumo da teoria, tal como defendida por Williams. Em seguida, farei uma breve exposição sobre como creio que ela poderia ser desenvolvida de forma mais eficaz.

 

1

 

Tropos. Há um conceito que já existe, pelo menos desde os inícios da filosofia ocidental: o de propriedade localizável no espaço e no tempo. Aristóteles, por exemplo, admitia a existência de qualidades presentes nas substâncias, como a palidez de um certo homem. Mas esse conceito sempre desempenhou um papel secundário.[2] A ninguém ocorreu a ideia, tão simples quanto genial, de construir toda a realidade ontológica de baixo para cima com base em propriedades espaço-temporalmente localizáveis. Essa foi a grande originalidade de Williams. Ele chamou essas propriedades de tropos ou “particulares abstratos”, dado que as definiu como aquilo que abstraímos dos particulares concretos. Sua tese metafísica fundamental foi a de que:

 

Qualquer mundo possível e, naturalmente, também o nosso, é totalmente constituído por seus tropos, suas conexões de localização, similaridade e quaisquer outras que possam existir.[3]

 

Alguns exemplos de tropos, todos apresentados por Williams, tornarão mais compreensível a extraordinária extensão do conceito:

 

Cor, forma, superfície, odor, vermelho, tamanho, triangularidade... dor, amor, tristeza, prazer, emoção, crença, serenidade, percepção, discriminação, intenção, disposição, poder, processos mentais, sequências de pensamentos... um sorriso, um espirro... uma eleição, uma performance musical, um caso de amor, uma decisão moral, um ato de contrição, uma peça de impudência... a beleza de Maria, Maria sendo bela, a figura de uma mulher, sua compleição, sua digestão...[4]

 

Vemos por esses exemplos que as propriedades espaço-temporalmente localizáveis, ou seja, os tropos, podem ser de muitos tipos: externos (a forma, a cor, o odor, o peso), internos (uma intenção, uma crença, uma disposição mental, um pensamento), simples (o apito de uma fábrica, uma pontada de dor), complexos (um caso de amor, a digestão de uma pessoa...), homogêneos (um solo de violino...), heterogêneos (um ato de contrição...). Para Williams, os tropos devem contrastar com particulares concretos como, usando outros exemplos seus: Maria, uma igreja, uma nação, a raça humana.[5]

   Mas como, então, ele foi capaz de fundamentar a proposta de que todo o nosso mundo é completamente constituído de seus tropos? Primeiro, pela sugestão de que podemos construir universais apenas com base em tropos. Segundo, pela sugestão de que também podemos construir particulares concretos apenas com base em tropos. Trata-se de um programa ontológico empirista e radicalmente naturalista, que pode ser considerado uma tentativa de virar o platonismo de cabeça para baixo.

 

2

 

Comecemos pela maneira como Williams construiu os universais com base em tropos. O universal não é, para ele, nada além de um conjunto, classe ou mesmo grupo de tropos precisamente similares entre si.[6] Considere, por exemplo, o universal do vermelho, aquilo que Platão chamaria de “o-vermelho-em-si-mesmo”. Williams diria que o correspondente formal do universal abstrato, ou “essência”, na ontologia dos tropos, nada mais é do que um conjunto de todos os tropos precisamente similares entre si.[7] Uma frase como “O vermelho é uma cor” seria por ele analisada como: “O conjunto dos tropos precisamente similares de vermelho está contido no conjunto dos tropos precisamente similares de cor”. O mesmo se aplicaria a uma ideia universal como a de justiça: trata-se apenas do conjunto de tropos de justiça precisamente similares entre si, ao menos no que importa, e não da ideia abstrata da justiça-em-si-mesma.

   Também com base em conjuntos, Williams pretendeu construir particulares concretos. Mais exatamente, um particular concreto seria a soma de tropos concordantes (concurrent) ou compresentes (compresent) no sentido de que eles se encontram (aproximadamente) em um mesmo lugar e no mesmo tempo.[8] Assim, uma cadeira é algo constituído por tropos de cor, rigidez, maciez, dureza, formas, peso… que se encontram sistematicamente conjugados uns aos outros sempre em certas localizações espaço-temporais específicas. Os particulares concretos exemplificados por Williams, como Maria, uma certa igreja, a raça humana, uma nação… também são, minimamente, somatórios de tropos compresentes, ao que poderíamos adicionar uma organização interna maior (a raça humana, uma igreja, uma nação...) ou menor (uma pedra, uma montanha, uma nuvem).

 

3

 

Há um grande número de objeções à proposta de Williams, algumas melhores, outras nem tanto.

   Quanto à ideia de que o universal é um conjunto de tropos idênticos entre si, há uma objeção que remonta a Russell. Digamos que os tropos {T1, T2, T3... Tn} sejam precisamente similares entre si. Mas afinal, o que é a similaridade precisa? Para um teorista dos tropos que acredita que tudo ou quase tudo é tropo, a similaridade não deve ser outra coisa senão um outro tropo (uma outra propriedade espaço-temporalmente localizável) que pode ser simbolizado por ‘Ts’. Mas nesse caso, considerando que T1 e T2 são precisamente similares entre si e que T2 e T3 também são precisamente similares entre si, temos dois tropos de similaridade precisa, que podem ser simbolizados como ‘Ts1’ associando T1 e T2 e ‘Ts2’, associando T2 e T3. O tropo de similaridade precisa Ts1 existe porque, embora não perceptível, parece poder ser espaço-temporalmente localizado entre T1 e T2, algo similar ocorrendo com Ts2. Considerando os outros tropos, temos uma primeira classe de tropos de similaridade entre similaridades. Contudo, tropos como Ts1 e Ts2 também precisam ser precisamente similares entre si, não? Essa similaridade também parece ser, de algum modo, espaço-temporal. Por conseguinte, precisaremos recorrer a uma segunda classe de tropos de similaridade precisa, contendo o tropo Tss1, que corresponde à similaridade entre Ts1 e Ts2, etc. Isso já basta para concluirmos que estamos sendo conduzidos a um regresso ao infinito.[9]

   Seria isso um mal? Não necessariamente, pois um regresso ao infinito pode ser vicioso ou virtuoso. Ao que parece, um regresso vicioso é aquele em que cada novo nível é insuficiente e exige continuação em um nível superior, enquanto o regresso virtuoso é aquele que pode ser sustado quando nos parecer explicativamente suficiente. Por exemplo: podemos dizer que é verdade que 2 + 2 = 4. Mas também podemos dizer que é verdade que é verdade que 2 + 2 = 4. Claro que podemos reiterar ‘é verdade que’ quantas vezes quisermos. Esse procedimento conduz a um regresso ao infinito, mas não se trata de um regresso vicioso, uma vez que, depois de dizermos “É verdade que 2 + 2 = 4”, não sentimos mais nenhuma pressão cognitiva que nos induza a continuar reiterando a atribuição de verdade. Mesmo admitindo que possa haver uma infinita regressão de atribuições de verdade, não precisamos nos preocupar com isso. Algo semelhante pode ser dito quanto à similaridade precisa entre tropos qualitativos. O tropo de similaridade precisa Ts1 pode ser explicativamente necessário para justificar a existência de similaridade precisa entre T1 e T2, o mesmo ocorrendo com todo o conjunto de tropos de similaridade de primeiro nível. Mas não precisamos, por isso, recorrer a conjuntos de tropos de similaridade de níveis superiores, na independência de eles existirem ou não.

   Há, porém, outras dificuldades que podem se tornar mais preocupantes. Qual é o status ontológico de um conjunto ou soma de tropos precisamente similares entre si? Seria ele próprio tropo? Outra objeção é a do tamanho. Universais não são maiores ou menores; universais não parecem ter tamanho, pois funcionam como conceitos e conceitos não têm tamanho. Mas conjuntos, grupos e somas, sim. Além disso, um conjunto pode aumentar ou diminuir de tamanho. Universais, como os conceitos, não. Uma alternativa seria tratar o universal como um conjunto aberto. Mas parece que conjuntos abertos são construções que existem apenas em nossas mentes, enquanto coleções de elementos no mundo real costumam ser determinadas em quantidade, mesmo quando não somos capazes de determiná-las.

   Ademais, muitos tropos existem em quantidades praticamente ilimitadas. Mas isso nos leva a concluir que, na maioria dos casos, não somos capazes de pensar os universais por razões médicas… Como seria possível, por exemplo, pensar a classe dos tropos de vermelho distribuídos por todo o universo? Mesmo que essa classe exista, qual utilidade ela poderia ter? A principal objeção que posso fazer ao universal proposto por Williams é que, em geral, ele é incognoscível. E universais incognoscíveis não servem para nada. Além disso, quando os universais ontológicos (idéai, eidê) de Platão sequestraram a função de conceitos mentais (logoi) de Sócrates, eles precisavam se manter plenamente cognoscíveis. Esse argumento contra a cognoscibilidade dos universais, entendidos como conjuntos ou somas de tropos, me parece fatal.

   Vejamos agora uma objeção ao conceito de particular concreto. Sob o suposto de que o mundo é constituído de tropos, a própria compresença deve ser também um tropo. Simbolizando o tropo de compresença com ‘Tc’ e, supostamente, os tropos constitutivos de um objeto material M como formando o conjunto {T1, T2... Tn}, deveremos dizer que a condição necessária para que haja M é que {T1, T2... Tn} sejam unidos pelo tropo Tc. Mas aí surge a questão. O que une T1, T2... Tn e Tc? Ora, para respondermos a essa questão, precisaremos recorrer a um novo tropo de compresença, que será ‘Tc1’. Contudo, também o conjunto {T1, T2... Tn, Tc, Tc1} precisarão ser unificados por um novo tropo de compresença, Tc2, de modo que também aqui parece que estamos sendo induzidos a um regresso ao infinito.[10]

 

4

 

Acredito que não seja demasiado difícil responder às objeções até aqui levantadas. Se isso se mostrar possível, a ontologia dos tropos ganhará uma perspectiva consideravelmente mais promissora do que as formas de realismo e nominalismo com as quais temos convivido desde sempre, pois terá sido capaz de reduzir toda ou quase toda a realidade ontológica a uma única categoria, simples e intuitiva. No que se segue, quero ensaiar algumas respostas.

   Primeiro, precisamos nos lembrar de que o problema dos universais foi introduzido por Platão basicamente para resolver o problema da predicação, ou seja, saber como é possível dizer o mesmo de muitos[11] (Cap. II, sec. 2). A resposta se torna mais simples se nos lembrarmos de como nominalistas como Berkeley (Cap. X, sec. 1) e Hume (Cap. XI, sec. 4) enfrentaram o problema das ideias gerais (universais) sem admiti-las como ideias abstratas no sentido realista platônico ou aristotélico. Para eles, basta que tenhamos ideias-modelo que, por convenção, associamos a um termo geral, bem como a habilidade de identificar quaisquer ideias semelhantes a essas ideias-modelo. O que proponho é aplicar o mesmo esquema, substituindo a problemática palavra ‘ideia’ pela palavra ‘tropo’.

   Consideremos um caso simples. Digamos que Maria tenha feito um curso de pintura no qual tenha adquirido familiaridade com a cor de terra de Siena queimada. Ela aprendeu a associar o nome à tonalidade. Mais tarde, ela visita a Itália, onde identifica um bom número de edificações pintadas com essa mesma cor. Certamente, isso bastará para que concordemos que Maria adquiriu o conceito geral da cor chamada ‘terra de Siena queimada’. Mas o que queremos dizer com isso? Certamente, não que ela tenha tido acesso ao vasto conjunto de tropos precisamente similares de terra de Siena queimada existentes no mundo. Esse foi o caminho seguido por Williams. Tudo o que queremos dizer, na verdade, é que Maria possui a memória do modelo de terra de Siena queimada, que ela associa ao termo geral ‘terra de Siena queimada’, uma memória resultante de seus múltiplos contatos com essa cor em associação com a palavra que a nomeia quando fez seu curso de pintura, e que agora ela é capaz de identificar esses tropos quando lhe são apresentados. Chamando um tropo imagético simples como o de terra de Siena queimada de Ts, e um tropo qualquer de terra de Siena do qual Maria se recorda de tropo modelar Tsm, podemos dizer que:

 

Regra conceitual (1): Um sujeito S pode aplicar o termo geral ‘terra de Siena’ a um dado tropo T see ele puder ser considerado por S como precisamente similar a um tropo modelar de terra de Siena Tms* associado por S ao termo geral ‘terra de Siena’.

 

Em geral, as coisas não são tão simples quanto no caso de Maria, que aprendeu a associar diretamente a cor a um modelo associado ao termo geral ‘terra de Siena queimada’. Essa é uma regra muito simples. Em geral, as regras conceituais são mais complexas, permitindo-nos derivar uma variedade de modelos secundários que servem à identificação dos tropos.

   Considere, por exemplo, a palavra ‘triângulo’, nomeada por Williams. Sua definição aqui pode ser: “Triângulo (Df.) = “figura geométrica plana formada por três segmentos de reta que ligam três pontos que não pertencem a uma mesma linha reta (não colineares)”. Mas há vários tipos de triângulo: equilátero, isósceles, escaleno (pelos lados), acutângulo, obtusângulo, retângulo (pelos ângulos)… Aqui é fácil entender a definição como a expressão de um tropo complexo que nos permite derivar diferentes modelos criteriais e, então, compará-los com o que nos é dado na realidade. Por exemplo, se estamos diante do tropo de um triângulo escaleno obtusângulo, podemos derivar da regra a imagem de um modelo criterial, ou seja, imaginar a formação de um triângulo escaleno obtusângulo, compará-lo ao que nos é dado na realidade e, percebendo a similaridade precisa entre a imagem criterial do triângulo e o triângulo dado, aplicar ao último o termo geral ‘triângulo’. Afora isso, a própria regra conceitual deve ser considerada um tropo complexo que contém o tropo interno de triangularidade a ela (ou seja, a definição de triângulo, ela própria exprimindo uma regra-tropo), que, uma vez demonstrada aplicável com base na satisfação de critérios que dela decorrem, autoriza a aplicação do termo geral.

   Generalizando para conceitos similares ao de triângulo, podemos dizer que uma regra-tropo Tgm* do conceito deve ser tal que dela possamos derivar critérios perceptuais imagéticos que garantam a identificação. Daí podermos estabelecer a:

 

Regra conceitual (2): Um sujeito S pode aplicar o termo geral ‘triângulo’ a um dado tropo T see ele puder ser considerado por S precisamente similar a um tropo derivado imagético Rgi, derivado do tropo modelar Tmg* (de figura geométrica constituída por três segmentos de reta ligando três pontos não colineares) associada por S ao termo geral ‘triângulo’.

 

Certamente, outros conceitos terão outras regras conceituais tropicais não muito diversas. Quero considerar aqui apenas mais dois casos.

   O primeiro é um tropo de artefato. O tropo de cadeira, diferentemente da ideia platônica da cadeira em si mesma, é um tropo de “cadeiridade”, possuído por qualquer cadeira tomada ao acaso, podendo ser designado pelo termo geral ‘cadeira’ na predicação ‘...é uma cadeira’. Aprendemos a regra para a identificação de cadeiras quando crianças, tacitamente, por meio de exemplos interpessoais positivos e negativos, de modo que não temos consciência clara de sua definição. Contudo, uma definição razoável do tropo de “cadeiridade” pode ser a seguinte:

 

Uma cadeira (Df) é um assento não-veicular com encosto feito para uma só pessoa sentar de cada vez.

 

Com efeito, um banco sem encosto não é uma cadeira. Veículos como carros e aviões não possuem cadeiras, mas assentos. Se o banco com encosto for acolchoado e projetado para mais de uma pessoa sentar, será um sofá. Se uma cadeira for teletransportada para um planeta onde as pessoas sejam extremamente magras e duas pessoas possam sentar confortavelmente nela, ela continua sendo uma cadeira, pois foi feita para uma só pessoa sentar de cada vez. Se uma rocha foi esculpida pelo vento de modo a parecer uma cadeira, ela não será um artefato (a menos que Deus seja o artífice). Afora isso, a definição abrange cadeiras de mesa, cadeiras de roda, cadeiras de praia, cadeiras elétricas, tronos... A definição nos mostra o que é um tropo de cadeira. A regra que precisamos dominar para identificar cadeiras é:

 

Regra conceitual (3): um sujeito S pode aplicar o termo geral ‘cadeira’ a um tropo qualquer T see ele puder ser considerado por S precisamente similar ao tropo modelar Tmc* (de assento não-veicular com encosto feito para uma só pessoas se sentar) associado por S ao termo geral ‘cadeira’.

 

A pessoa poderá examinar um artefato com todo o cuidado até concluir que ele é precisamente similar ao tropo modelar Tmc*. Certamente, ela precisará derivar imagens mentais de Tmc*

   Quero agora, como último exemplo, considerar um tropo do conceito geral contável de espécie natural: o tropo de ser humano, ou de humanidade, não a ideia platônica do ser humano em si mesmo, mas aquilo que certos particulares concretos possuem. Procurando em dicionários, podemos definir o tropo de ser humano como “um primata bipedal possuidor de razão, cultura e linguagem elaborada.” Do mesmo modo que o tropo de “cadeiridade”, o tropo de humanidade, expresso pelo termo geral ‘homem’, é aprendido tacitamente. Eis a explicitação de sua regra conceitual:

 

Regra conceitual (4): Um sujeito S pode aplicar o termo geral ‘homem’ a um tropo qualquer T see ele puder ser considerado por S precisamente similar ao tropo modelar Tmh* (de primata bipedal possuidor de razão, cultura e linguagem elaborada) associado por S ao termo geral ‘homem’.

 

A proposta substitui a ‘ideia’ do particularismo empirista de filósofos como Berkeley e Hume (caps. IX e X) pelo conceito de ‘tropo’, mas com a vantagem de que, com ele, não precisamos nos restringir a imagens mentais – objeção clássica aos empiristas. Os tropos conceituais podem ser entendidos como regras disposicionais. Aquilo que Berkeley chamou de um conceito geral reduz-se, então, à nossa capacidade de realizar uma operação mental pela qual identificamos tropos como precisamente similares a tropos já familiares ou que derivamos da aplicação de uma regra geral, ela mesma devendo ser considerada um tropo.[12]

   Em qualquer dos casos, o que temos é uma regra conceitual que pode ser conhecida com base em definições e exemplos. E conhecer a regra conceitual é o mesmo que possuir a habilidade de aplicá-la.

   Note-se que a regra-tropo que chamamos de conceito pode ser muito mais complexa, caso em que a experiência sensível não será dada da mesma forma direta que uma cor ou mesmo com os exemplos acima. Mas isso pouco importa, pois, na prática, não precisamos identificar um tropo experiencial como precisamente similar à regra-tropo modelar em sua totalidade. Geralmente basta recorrer a algum elemento criterial identificador. Pense, para usar uma analogia, na prova de que você não é um robô do Google, que lhe pede para identificar motocicletas, bolsas, sunais de trânsito e pontes apenas com base em partes desses objetos...

   Muitos tropos de conceitos empíricos possuem associações imagético-sensoriais secundárias, como, por exemplo, o tropo de governo, negociação e conquista (cf. Hume). Isso sem falar de tropos filosóficos (como o de conhecimento proposicional ou o de ação intencional). Eles podem, à primeira vista, parecer requerer abstração em um universo platônico. Contudo, se quisermos manter uma ontologia dos tropos, precisamos decompor tais casos em termos particularistas complexos, seguindo um caminho não muito distante do que foi adotado por Locke (ideias) e Hume (percepções). (Caps. VII e IX)

   Em lógica, pelo menos desde Stuart Mill, atribuímos uma importância desmedida ao conceito de extensão. A exigência de que o conceito de universal seja assimilado ao da extensão de um conjunto decorre de um preconceito formalista e reducionista. Ao rejeitarmos essa necessidade, libertamo-nos dos problemas enfrentados pela solução de Williams. Tudo o que precisamos é possuir uma “habilidade de universalizar”: perceber a similaridade precisa entre tropos modelares ou derivados usados como critérios e quaisquer outros tropos que viermos a considerar como precisamente similares a eles.

   Desaparecem, assim, as objeções de tamanho, uma vez que tudo o que se exige é a habilidade de distinguir tropos precisamente similares a modelos direta ou indiretamente associados a signos linguísticos convencionais. Também desaparece a objeção de que não somos capazes de ter acesso cognitivo aos universais, uma vez que eles sequer mais existem.

   Finalmente, o status ontológico daquilo que naturalmente chamamos de conceito passa a ser o de uma regra, não no sentido de uma entidade abstrata, mas no sentido de uma disposição que nos leva a valer-nos de critérios para, dado certo input criterial, produzir um output cognitivo ou procedimental. Essa regra conceitual não é outra coisa senão uma ideia no sentido psicológico. Curiosamente, ela não é autopredicável: não podemos dizer que a regra-tropo conceitual para a palavra ‘vermelho’ é vermelha, nem que o conceito de vermelho é vermelho, nem que a ideia (psicológica) do vermelho é vermelha (ver Cap. II, sec. 4), embora possamos dizer que o tropo de vermelho é vermelho (“esse vermelho é vermelho”) e que o vermelho do qual me recordo e que uso como modelo era vermelho.

   Vejamos agora a objeção feita à construção de particulares concretos, segundo a qual a adição do tropo de compresença produz um novo conjunto de tropos que demanda outro tropo de compresença e, assim, indefinidamente. A objeção nos faz recordar o argumento do terceiro homem aplicado às ideias platônicas, que já vimos no Capítulo II (sec. 4). É o tropo de compresença compresente? Parece que sim. Então, ele é autopredicativo, e isso parece nos levar a uma redução ao infinito.

   Contudo, pode-se argumentar tratar-se de uma redução virtuosa, já que a adição de novas compresenças, embora possível, não é necessária. Do mesmo modo que os tropos de similaridade precisa não requerem a consideração de tropos de similaridade precisa entre eles para que possamos usar a noção, o tropo Tc é tudo o que precisamos para enlaçar o conjunto de tropos em uma unidade. Como consequência, podemos ficar satisfeitos com o conjunto {T1, T2... Tn}, parando aí mesmo sem que isso nos cause maiores aflições. Afinal, até um tropo tão vulgar como o do vermelho fisicamente dado é suscetível de um redutio autopredicativo: “Isso é vermelho”, “Isso que é vermelho é vermelho”, “Isso que é vermelho que é vermelho é vermelho”… Mas ninguém ousaria dizer que, só por causa dessa peculiaridade, nós não podemos mais identificar algo como sendo vermelho.

 

5

 

Há muitas outras objeções e questionamentos possíveis. Pode parecer difícil encontrar o critério de identificação de um tropo. Afinal, quantos tropos de branco existem na parede branca à minha frente? Quanto aos objetos materiais, a compresença é uma condição necessária, mas nada indica que seja suficiente. Por exemplo, a cor amarela da chama de um fósforo aceso vem junto com o calor, mas essas duas qualidades compresentes não constituem um objeto material. Como classificar objetos da microfísica como os elétrons? O que dizer das forças da natureza? O que dizer do espaço e do tempo? Seriam eles tropos constituídos por tropos? E o que dizer de entidades abstratas, como a existência, ou ainda de entidades matemáticas, como números ou, quem sabe, partículas lógicas?

   Comecemos pela questão do critério de identidade dos tropos. Não parece que exista um único. Parece que convencionamos, para diferentes espécies de tropo, critérios de identidade distintos, dado que o que distingue uma espécie de tropo é o seu próprio critério de individuação.

   Uma pergunta insidiosa é: quantos tropos? Quantos tropos de branco existem na parede branca à minha frente? O critério parece ser, aqui, a homogeneidade, pois, se ela for homogeneamente branca, seremos tentados a dizer que se trata apenas de um grande tropo (propriedade) de brancura. Se, porém, a parede branca tiver manchas acinzentadas, tenderemos a falar de uma variedade de tropos. O ponto em questão é aceitavelmente vago e convencional.

   Que dizer do critério de identidade para os particulares concretos? A mera compresença não é suficiente. Já vimos o caso do calor e da chama. Considere agora o caso de uma síndrome. Segundo a propedêutica médica ela se define como “um conjunto de sinais e sintomas que ocorrem simultaneamente.” Ora, isso nada mais é do que um conjunto de tropos atuais ou disposicionais compresentes. Mas ninguém confundirá uma síndrome com um particular concreto. A condição de compresença é necessária, mas não é suficiente para a identificação de um indivíduo.

   Podemos aqui testar uma resposta aristotélica (Cap. III, sec. 3): quando temos de tratar um conjunto de tropos compresentes como existindo de maneira independente e como objeto, e nunca como predicações, sem que ele possa ser predicado de coisa alguma, então estamos diante de um particular concreto. Suponha, então, que João sofre de uma síndrome de insuficiência cardíaca direita. Podemos identificar nele o complexo tropo caracterizador dessa síndrome, que pode ser decomposto em um conjunto de tropos disposicionais e não-disposicionais. Contudo, esse tropo não é um particular concreto porque sua existência depende do particular concreto que é João, do qual ele é predicado. Isso significa que, para a identificação de particulares concretos, critérios derivados do aristotelismo podem ser adicionados ao critério de compresença. Isso também vale para particulares concretos “espalhados”, como uma nação ou a raça humana. Uma nação é independente de sua propriedade de ser democrática; a raça humana é independente de sua propriedade de ser inventiva.

   Infelizmente, nem mesmo o critério aristotélico é suficiente. Suponha que José tenha um grande tumor hepático. Ora, o tumor hepático depende de um indivíduo, um particular concreto, José, o portador desse tumor. O tumor é uma propriedade da pessoa que o possui, podendo ser predicado dela: “José é o portador desse tumor hepático.” (como: “Isso é José” em que José parece ser predicado de ‘isso’.) Então, segundo o critério Aristotélico, o tumor retirado de deve ser um tropo. Embora, para o biólogo Aristóteles, ele não seja um indivíduo substantivo, mas apenas parte dele, para nós – intuitivamente – ele é, com certeza, um particular concreto com propriedades compresentes. Afora isso, o tumor tem propriedades tropicais que não lhe são compresentes, como a de causar dor abdominal, que é um tropo dependente do próprio tumor. Para um teorista dos tropos, o tumor deve ser considerado um particular concreto que não satisfaz a condição aristotélica de independência.

   Minha solução, tão inevitável quanto óbvia, consiste em conectar, de forma naturalista, a ontologia dos tropos à física moderna, recorrendo ao conceito físico de massa de repouso, definido como a medida da inércia de um corpo em repouso em relação a um observador.[13] A massa de repouso é intrínseca ao objeto; ela pode ser interpretada como um tropo disposicional complexo, dado que é espaço-temporalmente localizável. Assim, particulares concretos, além de serem constituídos por tropos compresentes, devem possuir massa de repouso. Essa é, proponho, uma condição suficiente para a identificação de um particular concreto.

   Uma síndrome, por exemplo, definida como um conjunto articulado de sinais e sintomas, não possui massa de repouso, não passando de um tropo complexo. Como a luz amarela e o calor da chama de um fósforo, ou um círculo branco projetado em uma tela, constituem conjuntos duais de tropos compresentes, mas não possuem massa de repouso, não se trata de dois corpos físicos concretos. Além disso, a dor é um tropo, posto que não possui massa de repouso, enquanto a pessoa e o tumor são particulares concretos, pois, além de serem constituídos por complexos de tropos geralmente compresentes, possuem massa de repouso. Nem a dor, nem as cores, nem as formas, nem um espirro, nem a digestão de Maria, nem um ato de contrição ou uma peça de impudência, possuem massa de repouso. Por isso são tropos. O mesmo podemos dizer de forças físicas como ondas eletromagnéticas ou a gravitação. Daí a distinção: particulares concretos se distinguem dos tropos essencialmente por possuírem massa de repouso, o que vale tanto para uma partícula subatômica quanto para uma estrela.[14]

   Quanto às forças da natureza, é fácil explicá-las em termos de tropos. Elas são todas espaço-temporalmente localizáveis, mesmo que invisíveis, logo são tropos. O que as distingue é que elas se encontram por vezes muito vagamente dispersas no espaço, senão muito concentradas nele. Considere o caso das forças eletromagnéticas. Elas são dependentes de particulares concretos como objetos magnetizados ou fios elétricos, Mesmo as forças fortes e fracas, dependentes de partículas subatômicas, são tropos localizáveis, pois não possuem massa de repouso. A força forte mantém os quarks unidos por meio dos gluóns (que não possuem massa de repouso e, portanto, não são particulares concretos), enquanto a força fraca atua em processos de transformação de partículas, mediada pelos bósons W e Z, que possuem massa de repouso e, portanto, são particulares concretos. E como a gravidade, considerada um encurvamento do espaço-tempo na proximidade de corpos massivos, também não possui massa de repouso, ela deve ser entendida em termos de tropos espaço-temporalmente dispersos, mas ainda assim localizáveis e dependentes de particulares concretos, corpos dotados de massa de repouso.[15]

   Alguns (como D. M. Armstrong) poderiam objetar que fótons e campos gravitacionais possuem poderes causais, logo são particulares concretos ou quasi-tropos (Keith Campbell).[16] Mas isso é insuficiente, pois tropos usuais também podem ter poderes causais: se ponho a mão em uma chapa quente a mão se queima ou fica avermelhada. Digo que o calor, que é um tropo, queimou a minha mão... Logo, é mais parcimonioso prescindir de entidades intermediárias como quasi-tropos.

   Em suma: para o teorista dos tropos, o mundo é unicategorial: ele essencialmente se divide entre tropos e particulares concretos: os tropos são entidades espaço-temporalmente localizáveis sem massa de repouso; os particulares concretos são entidades espaço-temporalmente localizáveis constituídas por tropos compresentes como condição necessária para a localização,  e o tropo da massa de repouso como sua condição suficiente.

   E o que dizer do espaço e do tempo? Como hipótese, podemos identificar as localizações espaciais e durações temporais à nossa volta em termos de relações de distâncias e intervalos localizáveis entre objetos e eventos. (cf. Cap. VII, 5, IX, sec 5). Nesse caso, parece que distâncias e durações são tropos! Por exemplo: o tampo dessa mesa está a um metro e vinte centímetros do solo. Essa relação espacial se encontra no espaço e possui uma duração no tempo, logo é espaço-temporal, logo é um tropo. Também posso dizer que essa mesa foi colocada aqui há duas semanas. Ora, o período de tempo decorrido desde que a mesa foi colocada na sala se encontra no tempo, e como esse período é considerado com relação ao local em que a mesa foi colocada, outra vez temos, por definição, um tropo espaço-temporal. Se adotarmos uma concepção relacional do espaço e do tempo, parece possível concebê-los como um todo, como um somatório de relações que compreende todo o universo. Mas como esse somatório não é localizável no espaço-tempo, ele não poderá mais ser concebido como um tropo.

   Que dizer de coisas geralmente consideradas abstratas, como um pensamento? Para Williams, o pensamento, como um evento ou processo mental, é um tropo. Assim, quando penso que Schliemann descobriu Troia, esse ato de pensar é um tropo. Mas que dizer do pensamento abstrato de que Schliemann descobriu Troia, acessível a qualquer um de nós e sempre verdadeiro (se for verdadeiro) e que, aparentemente, não está em nossas cabeças? (Frege)[17] A resposta de Williams seria: o pensamento abstrato de que Schliemann descobriu Troia, ou seja, a proposição expressa por “Schliemann descobriu Troia” tomada como universal, nada mais é do que o conjunto de todos os pensamentos de que Schliemann descobriu Troia. Ou, segundo a reformulação que propus acima: o pensamento verdadeiro de que Schliemann descobriu Troia é um tropo e, como tal, nada mais é do que nossa capacidade de pensar isso e de reconhecer qualquer outro pensamento de que Schliemann descobriu Tróia como sendo precisamente similar a ele, nada mais sendo necessário.

   Consideremos agora o conceito de existência. Como já vimos (Cap. XII, sec. 13), dizemos que um objeto existe quando a sua regra de identificação se mostra garantidamente aplicável a ele. Dito de outra forma, ele existe quando é tal que possui a disposição de ter sua regra de identificação garantidamente aplicável a si mesmo, não sendo, por isso, um mero objeto ficcional… Em qualquer dos dois últimos casos, a propriedade de garantida aplicabilidade da regra de identificação também é localizável lá onde a regra for aplicada, sendo, por isso, um tropo. Assim, quando afirmo que a nossa Lua existe, é porque sei que sua regra de identificação é garantidamente aplicável e que essa aplicabilidade não é uma propriedade (tropo) que existe em alguma outra galáxia, mas em algum lugar por aqui mesmo, entre nós, a Terra e a Lua. A existência é, portanto, um tropo. Um tropo de ordem superior, mas nem por isso menos que um tropo.

   Que dizer dos números? Segundo uma história antiga, o homem das cavernas francês só era capaz de contar até dois. Afinal, ele chamava os números de une, due, trop (o número 3, ‘trois’, teria vindo de trop, que significa muitos). Já o homem das cavernas alemão era mais esperto. Ele era capaz de contar até três: Eins, Zwei, Drei, Vielles (o número 4, Vier, teria vindo de Vielles, que também significa muitos). Embora essa história deva ser espúria, há realmente tribos nas quais os números são 1, 2 e muitos (Papua-Nova Guiné) e coisas do gênero. O importante é que tais considerações nos reconduzem ao que deveria ser o ponto de partida: a filosofia da matemática dos homens primitivos, que só conheciam alguns poucos números naturais e mal sabiam contar.

   É fácil identificar números aplicados a tropos. Os três patetas, os três blue-caps, as três Marias… tudo isso são tropos de trios, uma vez que são espaço-temporalmente identificáveis. O mesmo podemos dizer de uma soma aplicada, como a soma das três peras e das duas maçãs que se encontram dentro da cesta. Números aplicados podem até mesmo se mover junto aos seus portadores: as 26 pedras que constituem o Stonehenge foram, em tempos remotos, transportadas de Wiltshire para Wales.

   Mas o que dizer da simples soma “3 + 2 = 5” ou do número 3 considerado in abstracto? Essas entidades não parecem estar situadas em lugar algum. Contudo, uma breve reflexão mostra que podemos aplicar aqui o mesmo procedimento que já havíamos utilizado na identificação de universais.

   Consideremos, para exemplificar, três objetos: as Três Marias, podemos perfeitamente perceber, mesmo que indiretamente, que são três, que há lá no céu um tropo de tríade. Ora, podemos então usar essa tríade como um tropo modelar numérico Tmn3 chamando-o pelo termo geral ‘três’. Com base nisso, podemos formular a seguinte regra:

 

Regra conceitual (5): um sujeito S pode aplicar o termo geral ‘3’ a um tropo qualquer T see T puder ser considerado por S precisamente similar ao tropo modelar Tmn3* (uma tríade) associado por S ao termo geral ‘3’. (em termos fregeanos: se as entidades em questão foram equinumerosas).

 

Não estou dizendo que, para conceber o número três in abstracto, eu precise me recordar de algo como as Três Marias (quando uso o número 3 em um cálculo, eu o trato como um mero sinal…). Mas, em algum momento pregresso de minha vida, devo ter estado na situação semelhante à do homem das cavernas e ter precisado ter contato com tríades espaço-temporalmente localizáveis que eu mesmo contei, associando-as ao nome de um número. Qualquer nova tríade que me seja dada deverá ser também espaço-temporalmente localizável.

   Mesmo que a definição do número 3 aqui proposta me permita derivar um conjunto ilimitado de tríades, isso é secundário, pois o que importa é apenas a minha capacidade cognitiva de universalização, a capacidade de dizer o mesmo de muitos, de produzir sínteses conceituais, e não um incognoscível universal extensional ao modo de Williams.

   Uma questão importante seria como aplicar definições como a apresentada acima a grandes números, aqueles que vão muito além da capacidade humana de contar. Nesse ponto podemos recorrer a um artifício, como o do construtor ideal (ideal agent), proposto por Philip Kitcher.[18] Esse agente seria capaz de realizar, por nós, qualquer cálculo que ultrapassasse nossas limitações cognitivas. (Computadores, obviamente, já fazem isso.) Daí que o tratamento da matemática como um mero jogo simbólico, tal como concebido por filósofos formalistas como David Hilbert, torna-se legítimo quando ela escapa a nossas possibilidades de manipulação direta.

   Adequadamente desenvolvido, um procedimento semelhante teria a grande vantagem de nos oferecer uma solução de princípio para o grande mistério que é o problema da aplicação da matemática abstrata ao mundo empírico sensivelmente acessível e espaço-temporal. É que a matemática (por vezes só em nossas mentes ou mesmo em computadores) também pertence ao mundo empírico. Os tropos numéricos, mesmo sendo de ordem superior, são discretos e espaço-temporalmente localizáveis, por mais dispersos que sejam, encontrando-se no mundo real, tanto quanto nas linhas dessa página.

   Outra questão é a da geometria. Trata-se, aqui, do que gostaria de chamar de “o problema do anel de Aristóteles”. O anel tem a forma de um círculo. Mas, por ser um círculo empírico, ele não pode ser perfeito. Nem todos os pontos de sua circunferência se encontram à mesma distância do centro. O círculo perfeito, portanto, só pode existir como uma forma platônica, que nos dá a impressão de existir para além do anel de Aristóteles… Ao contrário do círculo formado pelo anel, essa forma perfeita não pode ser um tropo, o que gera o problema.

   De minha parte, creio que a diferença reside no caráter discreto dos tropos numéricos, o que os torna perfeitamente individuáveis, em contraste com os tropos contínuos das formas geométricas. Não preciso recorrer ao número um perfeito quando percebo tratar-se apenas de um objeto visível, um anel empírico. Contudo, há uma solução possível: transformar a forma espacial do círculo em sua fórmula numérica que, no caso, é:

 

(x - a)2 + (y - b)2 = r2

 

Assumindo que, com números, estamos tratando de entidades discretas e que eles podem ser reduzidos a tropos, podemos, em princípio, referir-nos ao anel de Aristóteles com base em tropos sem o risco de ter de recorrer a universais platônicos.  

 

6

 

O peso da tradição. A última sugestão pode parecer simples demais para a sofisticada filosofia da matemática contemporânea. Que dizer, por exemplo, dos números transfinitos, que certamente não podem ser reduzidos a tropos? Talvez devêssemos lhes dar o status de artificialidades úteis, como o zero e o conjunto vazio. Não sei ao certo! Afora isso, o peso da tradição pode parecer esmagador…

   Admitindo que os caminhos acima esboçados sejam viáveis, resta agora uma pergunta: como é possível que a teoria dos tropos tenha levado mais de dois milênios para ser inventada? Não poderia já ter sido inventada no final do século XIX, quando a teoria dos conjuntos já havia sido desenvolvida? Ou, assumindo a minha versão, não poderia ela ter sido concebida ainda no final da Idade Média, quando já se tinha uma noção bem definida do que é um ato mental?

   A única resposta plausível que consigo vislumbrar é de inspiração nietzscheana: a proposta de Williams não foi antecipada devido à persistência do ideal ascético no seio do pensamento judaico-cristão-mohamedano. A ontologia, nesse contexto, era concebida de forma ascética de cima para baixo, a começar pelo idealismo platônico ou, diante de sua implausibilidade, era negada de maneira insuficiente nas diversas variantes do nominalismo.

    É por isso que, mesmo no interior do escolasticismo que permeia o debate filosófico contemporâneo, a ontologia dos tropos começa gradualmente a ganhar força entre as diferentes formas de nominalismo. Só no ambiente pós-metafísico do século XX, quando o desenvolvimento científico, econômico e técnico permitiu à mente humana libertar-se das motivações teístas figurativas e transcendentes, o ambiente filosófico perdeu o suficiente de sua vinculação com formas motivacionais de evasão herdadas de tradições religiosas – do orfismo platônico ao protestantismo hegeliano – para que nele se admitisse a abertura a uma ontologia passível de ser construída de baixo para cima.

 



[1] D. C. Williams, Donald. The Elements and Patterns of Being. Ed. A. Fisher (Oxford University Press 2018). Ignoro aqui a discussão posterior, cada vez mais escolástica.

[2] A lista de filósofos tradicionais que admitiram a existência de propriedades localizáveis no espaço-tempo é, na verdade, muito extensa, embora inversamente proporcional à importância que eles deram a essa noção. Ver Anna-Sofia Maurin: Tropes. In Stanford Encyclopedia of Philosophy (2023, Internet).

[3] D. C. Williams, The Elements and Patterns of Being, p. 28.

[4] D. C. Williams, Ibid., p. 33-37.

[5] D. C. Williams, Ibid., p. 38.

[6] O conceito de similaridade precisa ou exata pode ser aqui considerado o mesmo que o de identidade qualitativa, que é a identidade (em grau aproximativo) entre duas coisas situadas em lugares diferentes (ex.: “O meu e o seu carro são idênticos”). Ele deve ser distinguido do conceito de identidade numérica, que é a da coisa consigo mesma.

[7] D. C. Williams, The Elements and Patterns of Being, p. 29.

[8] D. C. Williams, Ibid., p. 29.

[9] Ver discussão em Keith Campbell, Abstract Particulars (Basil Blackwell 1990), cap. 2.

[10] Christopher Daily, “Tropes,” in D. H. Mellor & A. Oliver, Properties (Oxford University Press 1997), pp. 140- 159.

[11] Note que isso não é exatamente o mesmo que a questão platônica de saber como dizemos o mesmo sobre muitos (one over many), que, implicitamente, já introduz o universal como ideia platônica transcendente que está “para além” dos muitos. Ver Parmênides 132a.

[12] A própria regra, expressa em definições como “o triângulo é um polígono de três lados”, precisa ser um tropo que se atualiza em sua aplicação. Mas isso não exige uma contraparte objetiva?

[13] Ver apêndice do cap. III de Claudio Costa, Philosophical Semantics (CSP 2018).

[14] A massa de repouso é considerada em relação ao observador e não varia com a velocidade. Medir a massa de repouso de objetos visíveis é fácil: basta colocá-los em uma balança. Podemos fazer isso com Maria, com um tumor, mas não com tropos, como a cor vermelha, a digestão, o espirro, o ato de contrição, uma síndrome. Mesmo não sendo diretamente observável, a massa de repouso, por ser espaço-temporalmente localizável, também é um tropo.

[15] Essa proposta não encontra paralelo na literatura sobre tropos, conectando diretamente a metafísica analítica à física contemporânea. Ver Claudio Costa, Philosophical Semantics (CSP: 2018) cap. 3

[16] Abstract Particulars (Basil-Blackwell 1990).

[17] Gottlob Frege, „Der Gedanke. Eine logische Untersuchung“. In: Beiträge zur Philosophie des deutschen Idealismus. Band I, 1918–1919, S, 58-77n. Trad Port. in Investigações Lógicas, Cadernos de Tradução, df/usp 2001.

[18] The Nature of Mathematical Knowledge (Oxford University Press 1983), caps. 6 e 7.

 

 



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