sexta-feira, 11 de maio de 2012

CONHECIMENTO CONCEITUAL (texto introdutório sugerindo um retorno à velha dicotomia entre verdades da razão e verdades de fato)

Extraído do livro Uma introdução contemporânea à filosofia (São Paulo: Martins Fontes 2002) - C.F. Costa
                                          
  
            
   CONHECIMENTO CONCEITUAL: POR UMA SAUDÁVEL ORTODOXIA EMPIRISTA


Embora estejamos geralmente interessados em proposições cuja verdade ou falsidade só pode ser reconhecida com base na experiência sensorial ou empírica, elas não são as únicas. Há proposições cujo valor de verdade pode ser reconhecido independentemente da experiência. Esse é o caso de proposições lógicas, matemáticas e elucidativas da estrutura conceitual de uma linguagem. Nesse capítulo estudaremos a natureza do conhecimento que temos delas.

1. CONHECIMENTO A PRIORI E A POSTERIORI
Há proposições cuja verdade ou falsidade só pode ser conhecida por intermédio da experiência sensorial. Exemplos disso são o conhecimento expresso por proposições de observação, como “A vassoura está no canto”, ou generalizações da experiência, como “Todos os homens são mortais”. O reconhecimento da verdade ou falsidade de tais proposições depende sempre de alguma forma de esperiência empírica, razão pela qual se diz que elas são conhecidas a posteriori, isto é, após a experiência. Há proposições, entretanto, cuja verdade ou falsidade pode ser conhecida sem recurso à experiência empírica; ser capaz de estabelecer esse seu valor-de-verdade é possuir um conhecimento a priori. Eis alguns exemplos:

      (i)    A = A
      (ii)   ~ (A & ~A)
      (iii)  1 + 1 = 2
      (iv)  Triângulos têm três lados.
      (v)   Todos os corpos físicos são extensos.
      (vi)  Solteiros são não-casados.

     Os exemplos evidenciam quão amplo pode ser o domínio do conhecimento a priori. (i) e (ii) são proposições lógicas, exprimindo respectivamente o princípio da identidade (“O que é, é”) e o princípio da não contradição (“Uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto”); (iii) e (iv) são respectivamente proposições da aritmética e da geometria; (v) e (vi) são proposições que esclarecem estruturas conceptuais reguladoras de nossa linguagem empírica, a primeira relativa ao mundo físico, a segunda relativa ao domínio do social.
     Todos esses exemplos são de proposições conhecidas a priori, posto que podemos saber que são verdadeiras sem recurso à experiência. Com efeito, não é necessário observar pessoas solteiras para se entender o que é não ser casado, nem é necessário examinar triângulos para descobrir que eles têm três lados. Kant observou existirem duas marcas fundamentais, pelas quais reconhecemos o conhecimento a priori. A primeira é que a verdade da proposição é tomada por nós como sendo necessária. Sabemos, por exemplo, que solteiros são necessariamente não-casados. A segunda marca do conhecimento a priori, é que a universalidade da proposição é estrita, isto é, uma universalidade acerca da qual sabemos não ser possível encontrar exceções(1). Essas são certamente (a despeito de Kant) duas maneiras diferentes de se dizer a mesma coisa.
     Alguém poderia objetar: uma criança pode descobrir que seus tios e parentes chamados de ‘solteiros’ são todos não-casados, inferindo assim através da experiência que todos os solteiros são não-casados. Essa objeção resulta de uma compreensão inadequada da definição de conhecimento a priori. Tal definição não diz não ser possível saber a verdade de proposições a priori através da experiência, mas tão somente que a sua verdade pode ser conhecida sem recurso à experiência. Além do mais, embora a experiência possa ensinar que um proposição a priori é verdadeira, ela não pode nos ensinar que ela é a priori, uma vez que as marcas da aprioridade, a necessidade e a universalidade estrita, não são algo que possa ser inferido da experiência.
     As proposições até agora exemplificadas como conhecíveis a priori são do tipo auto-evidente: basta compreendê-las para se saber que elas são verdadeiras. Mas há muitas proposições a priori que não são auto-evidentes, cuja verdade não é imediatamente acessível a nós. Eis alguns exemplos:

     (i)   8 . 99 = 792.
     (ii)  A soma dos ângulos internos de qualquer triângulo é 180°.
     (iii) A vigésima sexta casa decimal da constante  é um número
            ímpar.
     (iv)  ((P v Q) & (P v R)) ® (~P ® (Q & R)).

     Semelhantes proposições foram chamadas por John Locke de demonstrativas, posto que geralmente só podemos saber que elas são verdadeiras por um procedimento de demonstração(2). Consideremos como isso é feito no primeiro exemplo, que é o mais simples: podemos demonstrar que “8 . 99 é igual a 792 simplesmente dando um passo após outro, primeiro multiplicando 8 . 9 para obter o resultado 72, depois multiplicando novamente 8 . 9 e finalmente somando os resultados de maneira a obter o número 792. Em cada passo da demonstração consideramos proposições a priori do tipo auto-evidente – chamadas por Locke de intuitivas – que o justificam, sendo as próprias regras de demonstração estabelecidas a priori. Um breve exame nos outros casos mostra que essa conclusão pode ser generalizada: o conhecimento a priori demonstrativo repousa no conhecimento auto-evidente, intuitivo. Pode-se objetar que podemos falhar ao aplicar as regras em um processo demonstrativo, e que portanto não podemos adquirir a idéia de que proposições demonstrativas são necessariamente verdadeiras, como deve acontecer com o conhecimento a priori; mas como podemos repetir a demonstração de maneiras diversas e tantas vezes quanto quisermos, essa objeção revela-se injustificada.
     É fundamental percebermos que a diferença entre proposições a priori auto-evidentes e demonstrativas não é referente às suas naturezas, mas depende unicamente de nós mesmos, da maneira como apreendemos a sua verdade. O que para mim é conhecimento demonstrativo, como é o caso da soma 8 . 99 = 792, pode tornar-se auto-evidente se eu adquirir um melhor treinamento matemático. Já aquilo que para mim é auto-evidente, como a soma 2 + 3 = 5, pode não parecê-lo para uma criança que começa a aprender aritmética e que precisa reduzir isso a uma soma de unidades. Para seres com capacidades mnêmicas e cognitivas imensamente superiores às nossas parece concebível que tudo o que consideramos conhecimento demonstrativo se lhes afigurasse como sendo auto-evidente.

2. PROPOSIÇÕES ANALÍTICAS E SINTÉTICAS
Uma distinção paralela a que acabamos de considerar é a que existe entre proposições analíticas e sintéticas. Ela foi introduzida por Kant, que concebeu a proposição analítica como aquela em que o conceito do predicado vem contido (pensado) no conceito do sujeito, o que a torna necessariamente verdadeira. Em seu exemplo, “Corpos físicos são extensos” é uma proposição analítica, posto que o conceito de extensão está contido no conceito de corpo físico, sendo um corpo físico sem extensão algo impensável. Já as proposições sintéticas foram por ele definidas como aquelas nas quais o conceito do predicado não está contido no do sujeito, sendo por isso “ampliativas” do que já sabemos(3). A proposição “Todos os corpos são pesados”, por exemplo, é sintética, pois não pertence ao conceito de corpo físico ser pesado (na ausência de gravidade eles de fato não têm peso). Diversamente das proposições analíticas, as proposições sintéticas informam-nos sobre o mundo, sendo chamadas por Kant de ampliadoras de nosso conhecimento. A séria insuficiência da definição de Kant é que ela é meramente gramatical, aplicando-se somente a proposições do tipo sujeito-predicado.
     Uma definição de analiticidade suficientemente ampla e perfeitamente em ordem é a que afirma serem as proposições analítica aquelas cuja verdade pode ser conhecida somente em razão dos significados de seus termos (ou seja, em razão das convenções que os definem)(4). Proposições sintéticas, por sua vez, são aquelas cuja verdade não pode ser conhecida dessa maneira. Exemplos classicamente admitidos de proposições analíticas são:

   (i)   “Chove ou não chove.”
   (ii)  “Triângulos têm três lados.”
   (iii) “Uma rosa é uma flor”.
   (iv) “Se Carlos é pai de Cacilda, Cacilda é filha de Carlos.”

     Não é difícil mostrar que a verdade dessas proposições depende dos significados de seus termos. No caso (i) temos um proposição dita logicamente analítica, assim chamada porque a sua verdade é devida apenas aos significados dos seus termos lógicos, no caso ‘não’ e ‘ou’. Tais significados são estabelecidos pelas correspondentes tabelas de verdade desses conectivos. Aplicando-se essa tabela à proposição (i) o resultado será um valor sempre verdadeiro, independentemente do que coloquemos no lugar da palavra ‘chove’. Isso mostra que (i) é uma tautologia, uma proposição que é sempre verdadeira, sejam quais forem as circunstâncias do mundo.
     Os exemplos (ii), (iii) e (iv) são de proposições analíticas ditas não-lógicas. A verdade dessas proposições depende de relações semânticas entre termos não-lógicos, mais precisamente, de relações de sinonimidade ou de hiponimidade (pressuposição de significado) existente entre eles. Vejamos o exemplo (ii). Assumindo que o significado de uma expressão vem explicitado em sua definição, o significado de ‘triângulo’ é dado por uma certa definição de triângulo, segundo a qual chamamos de ‘triângulo’ a uma figura plana, fechada, com três lados. Ora, isso quer dizer que o predicado ‘...tem três lados’ apenas repete aquilo que já está contido no conceito de triângulo expresso pelo sujeito. Como conseqüência, sendo admitido que as palavras têm os significados que têm, (ii) é uma proposição necessariamente verdadeira. Vale aqui notar que uma característica das proposições analíticas não-lógicas é que elas podem ao que parece ser analisadas de modo a serem transformadas em verdades lógicas. Se substituírmos em (ii) ‘triângulo’ por ‘figura plana, fechada, com três lados’, que lhe é sinônima, o resultado será “Figuras planas, fechadas e com três lados, têm três lados”, o que é facilmente evidenciável como sendo uma verdade lógica. O exemplo (iii) é analisável de forma semelhante. ‘Rosa’ é um hipônimo de ‘flor’; para sabermos adequadamente o significado da palavra ‘rosa’, precisamos saber que se trata de uma flor. Assim, ‘uma rosa’ em (iii) pode ser substituída por ‘uma flor da espécie rosa’, resultando na verdade lógica “Uma flor da espécie rosa é uma rosa”. Consideremos agora o caso (iv). O termo antecedente, “Carlos é pai de Cacilda”, contêm a expressão relacional ‘...é pai de...’, que significa o mesmo que ‘...tem como filho(a)...’ Ora, se fizermos a devida substituição sinonímica, (iv) fica sendo “Se Carlos tem como filha Cacilda, Cacilda é filha de Carlos”, teremos mais uma vez uma verdade lógica.
     Essa reduzibilidade das proposições analíticas a verdades lógicas sugere que não precisa haver uma fronteira nítida ou fixa entre verdades logicamente analíticas e verdades analíticas. Isso depende do quanto decidimos que deve pertencer à lógica, podendo ser as verdades lógicas definidas como aquelas que estamos menos dispostos a revisar; aquelas que se encontram mais profundamente arraigadas, mais “entrincheiradas” (entrenched) em nosso sistema de crenças.
     Finalmente, a marca fundamental das proposições analíticas, também salientada por Kant, é que elas não podem ser negadas sem incoerência ou contradição. Com efeito, se uma proposição analítica é tal que pode ser transformada em uma verdade lógica, fica claro que a sua verdade é necessária e que negá-la é produzir uma contradição. Se a proposição “Triângulos têm três lados” pode ser analisada como “Figuras planas, fechadas e com três lados têm três lados”, fica claro que a sua negação, “Figuras planas, fechadas e com três lados não têm três lados”, é contraditória e sem sentido.

3. A TESE DA EQUIVALÊNCIA ENTRE O A PRIORI E O ANALÍTICO
Consideremos atentamente as distinções a priori/a posteriori e analítico/sintético. Prima facie elas podem ser consideradas extensionalmente equivalentes: parece que o conhecimento a priori é o de proposições analíticas, enquanto que o conhecimento a posteriori é o de proposições sintéticas! E isso pode ser justificado. Dizemos que o conhecimento de certas proposições é a priori porque a sua verdade pode ser estabelecida na independência da experiência empírica; e ao dizermos que elas são analíticas, mostramos como essa verdade pode ser estabelecida, a saber, com base no significado dos termos envolvidos. A definição de conhecimento a priori é negativa, ou seja, pelo que a proposição conhecida não é – ela não é uma proposição cuja verdade se deriva da experiência; a mesma espécie de proposição, quando chamada de analítica, é definida positivamente, pelo que ela é – por sua verdade decorrer do significado de seus termos constituíntes. A complementariedade das definições torna-se mais aparente quando justapomos as suas definições positivas:

   Proposições analíticas             =           são aquelas cuja verdade depende
   (são a priori, conceptuais,                    dos significados de seus termos.
   necessárias)
   Proposições conhecidas          =           são aquelas cuja verdade só pode
   a posteriori (são factuais,                    ser conhecida através da expe-
   sintéticas, contingentes)                       riência.

   Note-se que a definição da proposição analítica é essencialmente semântica, enquanto a definição de conhecimento a posteriori é essencialmente epistêmica. Isso é compreensível, pois ou a verdade de uma proposição é obtida com base na consideração (semântica) dos significados de seus termos e de suas implicações, ou essa verdade é obtida por um procedimento epistêmico de verificação empírica.
     Também a marca da aprioridade, a necessidade ou generalidade estrita das proposições a priori, parece ser complementar à marca da analiticidade, à impossibilidade de se as negar sem contradição: como a negação de proposições analíticas produz incoerência ou contradição, ficamos impossibilitados de imaginar casos de exceção, devendo por isso admitir a sua universalidade estrita, ou seja, a sua necessidade.
     A primeira vista, ao menos, parece que podemos concluir: a classe das proposições analíticas é coextensiva à classe das proposições a priori. Essa é a posição que quero tentar resgatar aqui, a dos velhos empiristas, de Hume a Wittgenstein.

4. AS FRONTEIRAS ENTRE O ANALÍTICO E O SINTÉTICO
Há proposições aparentemente intermediárias entre o analítico e o sintético; por exemplo: “Todo objeto físico não-transparente tem uma cor”. Essa parece ser um proposição analítica, mas será isso verdadeiro em todos os mundos possíveis? Suponha-se, por exemplo, um mundo no qual não existissem radiações luminosas; nesse mundo os objetos seriam apenas potencialmente coloridos.
     Parece razoável, porém, pensar que proposições como essa possam ser analizadas como sendo constituídas por outras claramente distinguíveis como analíticas ou sintéticas. Assim, se a cor for entendida como uma disposição do objeto físico de refletir radiações de certos comprimentos de onda ou de absorvê-las todas (no caso da cor preta), então a proposição “Todo objeto físico não-transparente tem uma cor” torna-se analítica, pois será verdadeira mesmo em um mundo sem radiações luminosas e contraditória quando negada; o mesmo não se dá, porém, se a cor for entendida como uma atualidade, ou seja, em termos das radiações de um certo comprimento de onda que um objeto físico presentemente reflete, pois nesse caso objetos não iluminados não terão cor. Nesse caso a proposição será obviamente sintética.
     As fronteiras entre proposições analíticas e sintéticas também não são fixas, mas mutáveis, capazes de se alterar com as variações de nossas práticas lingüísticas(5). Mas é importante considerar como essa alteração ocorre. W. V-O. Quine sugeriu, em um artigo imensamente influente, que a distinção analítico/sintético é falsa e injustificável(6), o que sugere que uma das razões disso seja que as proposições analíticas podem ser revisadas pela experiência no sentido de serem falseadas por ela. Mas essa é a maneira errada de se considerar a questão. Um exemplo pode mostrar isso. Considere-se a proposição analítica “Todos os solteiros são não-casados”. Imagine-se então que em uma certa comunidade exista uma seita fanática que assassine pessoas não casadas com mais de 18 anos; para se protegerem as pessoas se casam, mas mantém-se celibatárias, mais tarde separando-se e casando-se outra vez, mas agora de verdade. Seria possível dizer que há aqui solteiros casados e que nem todos os casados são não-solteiros. Essa situação foi apresentada por Adam Morton para exemplificar a tese de Quine de que há circunstâncias que falseiam proposições analíticas(7). O problema é que a situação não refuta realmente a afirmação de que todos os solteiros são não-casados. Isso fica claro quando vemos que embora em tais casos se possa dizer que uma pessoa na situação descrita é um casado não-casado ou um solteiro que não é solteiro, isso não é certamente dito para exemplificar o princípio da não-contradição. Ocorre que o conceito de solteiro, como muitos outros, pode receber nuances de sentido, havendo casos em que a aplicação torna-se ambígua. Casado significa

(a) pessoa casada judicialmente

     mas também

(b) pessoa que além de judicialmente casada, vive maritalmente com o seu par.

     Ao dizermos que alguns casados são solteiros, estamos aqui usando a palavra ‘casado’ no sentido (a) e a palavra solteiro no sentido da negação de casado no sentido (b), o que elimina qualquer contradição. O caso considerado não refuta, pois, a verdade necessária de “Todos os solteiros são não-casados”; ele apenas mostra que há casos nos quais o contexto determina o sentido mais específico do conceito de ser casado.
     O que o tempo, a experiência pode fazer com nossas verdades conceituais, não é refutá-las factualmente, mas substituí-las ou fazer com que as convenções lingüísticas que as determinam caiam em desuso. A nossa linguagem é constituída por uma multiplicidade de práticas lingüísticas, daquilo que Wittgenstein chamava de jogos de linguagem. As verdades conceituais são determinadas pelas convenções constitutivas dessas práticas lingüísticas. Quando essas convenções se alteram, isso significa uma alteração nas próprias práticas lingüísticas, quando não a sua substituição por outras. Mas seria um erro pensar que isso leva a alguma espécie de falseamento das convenções ou daquilo que elas implicam. Convenções não se falseiam; elas apenas podem deixar de ser aplicadas por uma razão ou por outra. Para um exemplo, considere a proposição:

   (i) “A soma dos ângulos internos de um triângulo é de 180º”.

     Essa é uma proposição analítica da geometria euclideana. Como há dois séculos atrás a geometria euclideana era a única existente, pensava-se que essa proposição fosse aplicável a todos os domínios concebíveis. Não obstante, com a descoberta de geometrias não-euclideanas construiram-se triângulos cuja soma dos ângulos internos passou a ser maior ou menor do que 180º. Além disso, a física moderna demonstrou que o próprio espaço físico em torno de nós não é realmente euclideano: quando as distâncias consideradas são suficientemente grandes, a soma dos ângulos de um triângulo deve mostrar-se menor do que 180º.
     Pode-se pensar que a proposição (i) foi ela própria revisada, que ela deixou de ser analítica, tornando-se obviamente falsa. Mas essa seria outra vez a maneira errônea de se considerar a questão. O que foi revisado foi o domínio de aplicação da proposição (i). Antes ela se aplicava tanto ao que concebemos como sendo o espaço de uma forma mais ou menos intuitiva, quanto também ao espaço físico. Com o advento de geometrias não-euclideanas, ficou claro que nem todo o espaço concebível é euclideano. E o advento da física relativista demonstrou que mesmo o espaço físico ao nosso redor não é de fato euclidiano, tornando a aplicação da geometria euclideana, e portanto de (i), mais limitada do que parecia. A proposição (i) teve portanto seu domínio de aplicação restringido. Isso não significa, obviamente, que a proposição (i) foi falseada ou deixou de ser analítica, pois bem explicitada ela sempre significou: “A soma dos ângulos de um triângulo na geometria euclideana é de 180º”. Restringindo-se, pois, a palavra 'triângulo' ao significado que ela recebe na geometria euclideana, a proposição (i) permanece sendo uma verdade analítica.
     O que casos como os considerados tornam patente é que proposições são analiticamente verdadeiras sempre relativamente às convenções estabelecidas em um certo sistema de linguagem, à uma prática lingüística aceita e estabelecida por uma certa comunidade de falantes durante um certo tempo. Eles não podem deixar de ser verdadeiros ou necessários, mas podem perder a sua utilidade e relevância, se novas convenções as substituírem, se a prática lingüística à qual pertencem for modificada ou substituída por outra. É um erro, pois, acreditarmos que a experiência possa revisar as proposições analíticas no sentido de que elas se tornem sintéticas, que sejam falseadas, que percam o seu caráter a priori, a sua marca de necessidade. Não: o que a experiência revisa é o domínio de aplicabilidade das proposições analíticas. Essa conclusão mostra-se coerente quando nos lembrarmos que se trata de verdades estabelecidas por convenção; isso terá, como veremos, implicações favorecedoras dos pontos de vista do empirismo tradicional.

5. OBJEÇÕES METAFÍSICAS: PROPOSIÇÕES SINTÉTICAS A PRIORI
Seria mais simples se todos os problemas se encerrassem aqui. A questão é que existem exemplos de proposições cuja verdade conhecemos sem recurso à experiência, mas que mesmo assim não parecem ser verdadeiras apenas devido aos significados ou implicações semânticas de seus constituíntes. Trata-se do que Kant chamou de juízos sintéticos a priori. Eis alguns exemplos:

(i) Um gato não é um rato.
(ii) Não pode ser que uma mesma superfície seja inteiramente  verme-
          e verde ao mesmo tempo e sob as mesmas circunstâncias.
(iii) O sentido descritivo de uma sentença está no modo como a expe-
          riência permite estabelecer o seu valor-de-verdade.
(iv) O futuro será semelhante ao passado.

     As alegações dos defensores da existência dessa modalidade de conhecimento são as seguintes. Primeiro, não precisamos da experiência para saber que proposições como essas são verdadeiras e que elas são necessariamente verdadeiras, logo, elas são a priori. Mas elas não parecem ser verdades analíticas! Considere a proposição (ii), afirmando que uma mesma superfície não pode ser vermelha e verde. Parece que a sua verdade não depende apenas do significado dos termos. Afinal, ‘vermelho’ não contém ‘não-verde’ em seu significado. Parece também possível negar tais proposições sem se incorrer em contradição: faz sentido negar (iv), dizendo “O futuro não será semelhante ao passado”. Também parece que tais proposições são informativas, dizendo algo substancial acerca do mundo. Que os triângulos têm três ângulos nada diz sobre o mundo, mas saber (i), ou seja, saber que um gato não é um rato, é algo informativo e, em alguns casos, útil.
     A conclusão que o filósofo racionalista tira desses exemplos é que eles são casos de proposições sintéticas a priori. Tais proposições são informativas, dizem algo acerca do mundo, mas não são estabelecidas com base na experiência e, o que é mais importante, não podem ser verificadas ou falseadas pela experiência, posto que o conhecimento a priori é necessário; nossa razão possibilita sabermos coisas acerca do mundo que nenhuma experiência poderá refutar. Isso traz consigo implicações metafísicas exploradas pelo idealismo transcendental de Kant, implicações sem dúvida enaltecedoras do poder da mente sobre o mundo da experiência, consoladoras, também, de sua impotência efetiva.

6. RESPOSTAS EMPIRISTAS
Quero defender aqui a convicção cética dos velhos e conservadores empiristas, para os quais as proposições ditas sintéticas a priori revelam-se, quando devidamente interpretadas, ou analíticas ou sintéticas a posteriori, ou então que elas são analisáveis em termos de outras proposições, que se mostram ou analíticas ou sintéticas a posteriori. Essa foi a posição dos positivistas lógicos e da tradição empirista de Locke a Hume, mas era também, não devemos esquecer, a posição de racionalistas pré-kantianos, particularmente de Leibniz, que foi quem mais fez para esclarecer a distinção entre o que ele chamava de verdades da razão e verdades de fato.
     Como a tese de que não existem proposições sintéticas a priori não é ela própria a priori, ela só pode ser tornada plausível através de uma análise dos exemplos individuais de proposições sintéticas a priori que demonstre seu caráter analítico ou sintético. Ora, como esses exemplos podem ser multiplicados a vontade, ela não pode ser decisiva, deixando sempre um espaço livre para o defensor da existência de juízos sintéticos a priori. Por isso, o que farei aqui será analisar a lista de exemplos expostos na última seção com o intuito de evidenciar a fragilidade da posição do filósofo racionalista.
     Comecemos com a proposição (i): “Um gato não é um rato”. Se conhecemos suficientemente (e não apenas ostensivamente) o significado da palavra ‘gato’, sabemos que um gato é um exemplar de uma espécie animal com tais e tais características próprias. Ora, faz parte do conceito de espécie animal que um exemplar de uma certa espécie animal não possa ser também um exemplar de uma outra espécie animal. Se sabemos suficientemente o que é um rato, sabemos que se trata de um exemplar de uma espécie animal com outras características, diferentes das de um gato; ora, considerando que o exemplar de uma espécie animal não pode ser exemplar de uma outra, e que dizer que um gato é um rato traz isso implícito, conclui-se por considerações puramente lógico-semânticas – pelas definições dos conceitos relevantes – que esses dois conceitos se excluem. O seguinte raciocínio põe isso à mostra:

     1  Um gato é um exemplar de uma espécie animal definida pelas
         características A, B, C...
     2  Um rato é um exemplar de uma espécie animal definida pelas
          características  F, G, H...
     3   (de 1 e 2) Um gato é um exemplar de uma espécie animal
         diferente da espécie animal de um rato.
     4  Uma espécie animal define-se como uma classe de animais
         capazes de se reproduzir entre si; por força dessa definição,
         exemplares de uma espécie animal não podem pertencer a
         outra espécie.
     5  (3 e 4) Um gato não pode ser um rato.

     As proposições 1, 2 e 3 são claramente analíticas, seguindo-se que 4 e 5 também o são. Com esse raciocínio é feita uma explicitação dos pressupostos semânticos da proposição (i), mostrando que ela nada mais é que uma versão contraída de uma verdade analítica. (Também podem ser consideradas como sendo a priori as afirmações de que um gato não é uma cesta de lixo, ou uma pia. Para mostrar que tais proposições também seriam analíticas, bastaria recorrer a uma classe mais geral de coisas materiais, à qual pertence o princípio de que exemplares de tipos diversos nela incluídos se excluem entre si.)
     A espécie de raciocínio acima apresentada é estensível ao exemplo (ii), da exclusão de cores. É verdade que não pertence ao elemento ostensivo essencial do significado de ‘vermelho’ não ser verde. Mas o que queremos dizer com a palavra ‘vermelho’ também inclui propriedades relacionais que essa cor possui, especialmente as relativas às outras cores do espectro. Assim, se sabemos suficientemente o que é o vermelho, sabemos que é uma cor, que pertence à classe das cores; ora, se sabemos em que se constitui a classe das cores, sabemos que ela contém um princípio constitutivo segundo o qual uma área que tem uma cor não poderá (ao mesmo tempo e sob idêntica perspectiva) ter outra cor. Podemos explicitar os pressupostos semânticos da proposição (ii) fazendo-a conclusão do seguinte argumento:

1  Vermelho é uma cor com as propriedades A, B, C...
2  Verde é uma cor com as propriedades F, G, H...
3 Cores com propriedades diferentes são cores diferentes.
4 (de 1, 2 e 3) Vermelho e verde são cores diferentes.
5 Por definição, uma cor não pode (simultaneamente) ocupar
uma superfície ocupada por uma outra cor.
6 (de 1 e 5) O vermelho não pode ocupar uma superfície
ocupada por uma outra cor.
7 (de 4 e 6) O vermelho não pode ocupar a mesma superfície
ocupada pela cor verde.

     Aqui 1, 2, 3 e 5 são proposições claramente analíticas, seguindo-se disso que 4, 6 e 7 também o são. O desdobramento do que está implícito na proposição sugere que ela não é sintética a priori, mas analítica.
     Poder-se-á talvez objetar que nos exemplos (i) e (ii) não nos restringimos a dizer algo sobre os conceitos, mas dizemos algo sobre o mundo mesmo, sobre a natureza dos animais e das cores; que há, portanto, informação. Mas isso seria o resultado de uma confusão. De fato, tanto na proposição (i) quanto em (ii) há algo de empírico sendo considerado, mas isso decorre, não das proposições, mas apenas do fato dos conceitos neles envolvidos serem empíricos. Se sei o que é vermelho, o que é verde, sei algo sobre a natureza dessas cores e, ipso facto, que elas se excluem. Se possuo os conceitos de gato e de rato, sei também que são duas espécies animais que, como tais, se excluem. O que há de empiricamente informativo nessas proposições já estava implicado pelos conceitos envolvidos; ao juntar esses conceitos em proposições, não informo nada que não seja sabido, a não ser para quem ainda não conhece esses conceitos.
     Poder-se-á também objetar que há nesses casos uma necessidade que é proveniente da natureza das coisas, não da linguagem. Mas isso é confundir a necessidade lógica, inerente às próprias proposições analíticas, inclusive (i) e (ii), com uma suposta necessidade natural, a ser refletida nas definições dos conceitos empíricos nelas contidos, os quais apesar de convencionais, têm um fundamento pragmático na maneira como as coisas são. O que origina a aprioridade e a analiticidade é a necessidade lógico-gramatical das proposições, que é convencionalmente estabelecida pela linguagem, e não a suposta necessidade natural, advinda do modo como as coisas são, ainda que essa última possa ter tido sua parte na determinação de nossas convenções lingüísticas.
     O enunciado (iii) “O sentido descritivo de uma sentença está no(s) modos(s) como a experiência permite estabelecer o seu valor-de-verdade”, é uma formulação do famoso princípio da verificabilidade, que foi utilizado pelos filósofos do positivismo lógico como arma em sua tentativa de desmascarar proposições de filósofos especulativos particularmente vaporosos, como Heidegger ou Hegel, como sendo carentes de sentido descritivo, ou seja, incapazes de dizer algo acerca do mundo. Uma sentença hegeliana como “O absoluto desdobra-se em um movimento dialético triádico” ou a sentença heideggeriana “O nada nadifica”, seriam sem sentido, posto que inverificáveis; seu significado seria apenas o de um apelo emocional. Pois bem; sugiro que (iii) exprime uma proposição analítica. Na verdade, trata-se de uma tentativa de estabelecer uma definição não-estipulativa do que podemos entender com a expressão ‘sentido descritivo de uma sentença’, entendendo-se por definição não-estipulativa a simples elucidação de uma regra, que é um constituínte implícito da gramática conceitual de nossa linguagem natural.
     Como a verdade de (iii) tem sido disputada, quero fazer duas observações em sua defesa. Primeiro: a proposição (iii) é aqui formulada de modo a servir tanto como princípio de verificabilidade quanto como princípio da falseabilidade, de acordo com aquilo que vem a determinar o valor-de-verdade da proposição; isso anula objeções tradicionais, como a de que o princípio da verificabilidade não se aplica a proposições universais (ex: “Todos os corvos são pretos”), que não são decisivamente verificáveis, mas que podem ser decisivamente falseáveis (basta que se encontre um único corvo albino para que ela seja falseada)(8). Segundo: (iii) não é obviamente um princípio aplicável a proposições analíticas, pois o significado dessas últimas é, digamos assim, autocontido, tanto quanto a sua própria verdade. O princípio da verificabilidade seria menos equivocamente formulado como: “O significado de sentenças sintéticas é...” Por essa mesma razão não faz sentido se perguntar, como alguns críticos o fizeram, pela verificabilidade do próprio princípio da verificabilidade, concluíndo da impossibilidade disso que ele é autodestrutivo, posto que não sendo verificável ele é por ele mesmo classificado como uma proposição metafísica e sem sentido. Não há por que se perguntar pela verificabilidade do princípio da verificabilidade quando nos apercebemos de que a sua natureza é analítica e que sendo assim ele se exclui das proposições às quais se deve aplicar.
     Quanto à proposição (iv), defenderei no capítulo 9 a idéia de que se ela for suficientemente enfraquecida de modo a tornar-se um adequado princípio da indução, ela torna-se analítica.
     A análise desses poucos exemplos não demonstra, mas sugere fortemente a inexistência de juízos sintéticos a priori. Isso também é sugerido pela distinção feita na seção 1 entre conhecimento intuitivo e demonstrativo. Muitos exemplos tradicionais de juízos sintéticos a priori são de conhecimento demonstrativo. Mas se o conhecimento demonstrativo não se distingue essencialmente do conhecimento intuitivo, que em geral é claramente analítico, isso parece uma indicação adicional de que é ilusório supor que existe uma classe radicalmente diversa de juízos sintéticos e a priori.

7. NECESSIDADE E APRIORIDADE
Como vimos, a necessidade é uma característica das proposições a priori ou analíticas, enquanto a contingência é característica dos proposições a posteriori. Os velhos empiristas de cabeça dura considerariam válidas as seguintes equivalências:

     Distinção:          epistêmica        semântica         lógica
     ________________________________________________
  
                               a priori            analíticas          necessários
     Proposições:           X           ≡        X          ≡           X
                               a posteriori      sintéticas          contingentes

Até agora procurei evidenciar que os velhos empiristas tinham razão quanto à primeira equivalência. Quero agora argumentar no sentido de mostrar que eles ao que parece também tinham razão quanto à segunda.
     Uma consideração preliminar deve ser feita a respeito do conceito de necessidade. Usa-se a palavra ‘necessidade’ em ao menos dois sentidos, para se falar de coisas muito diversas. Há, primeiro, a necessidade lógica, decorrente de leis lógicas e da aceitação de convenções. Quando dizemos que ~(A & ~A) ou que triângulos têm três lados, estamos considerando uma necessidade dessa espécie. Dizer que uma proposição é necessária nesse sentido é dizer que ela é verdadeira em todas as circunstâncias (alguns chamam de “mundos”) concebíveis, sendo pois impossível se pensar que possa ser de outra maneira. Mas podemos aplicar o termo ‘necessidade’ diversamente, sugerindo ser necessário que certos fenômenos naturais sigam certas leis da ciência. A necessidade aqui é meramente hipotética, e a isso chamamos de necessidade natural. Ela é diferente da necessidade lógica, pois sendo hipotética ela pode ser sempre contraditada pelos fatos. Ora, quando consideramos a necessidade de que proposições a priori ou analíticas sejam verdadeiras, o que temos em mente é apenas uma necessidade lógica, decorrente dos significados por nós aceitos para os seus componentes. Assim, podemos dizer que uma generalização científica a posteriori, como “Todos os corpos físicos têm força gravitacional”, reflete nossa suposição de como as coisas necessariamente são, mas isso nada tem a ver com a necessidade própria das proposições a priori. Sugerir que a natureza possui necessidade no sentido de que suas leis não podem ser (ou vir a ser) de outra forma é fazer uma suposição logicamente inverificável e por conseguinte carente de sentido. Se não tivermos isso em mente, poderemos ser levados a rejeitar a equivalência entre aprioridade e necessidade como resultado de uma confusão entre as necessidades envolvidas. Sugiro que essa confusão esteja na raiz de objeções como as que serão consideradas a seguir.

8. OBJEÇÕES KRIPKIANAS
As equivalências apresentadas entre o a priori e o necessário e a posteriori e empírico foram contestadas por Saul Kripke, que sugeriu existirem proposições necessárias a posteriori e contingentes a priori. Quero mostrar que em um exame dos imaginativos exemplos por ele apresentados há muito que sugere a interpretação tradicional e nada que sugere a própria.
     Comecemos com um exemplo do que Kripke considera uma verdade necessária a posteriori. Imagine-se que alguém bata com o punho sobre a mesa e afirme(9):
     K-i  “Essa mesa, sendo de madeira, não pode ser feita de gelo”,
     Sabemos que a mesa necessariamente não é feita de gelo, se ela é feita de madeira. Essa seria, segundo o raciocínio de Kripke, uma verdade necessária inferida a posteriori, a partir da consideração dessa mesa em particular.
     Para mostrar que esse entendimento é incorreto, quero começar mostrando que a proposição “Se uma mesa for de madeira, então ela não pode ser de gelo” é analítica. Com alguma simplificação (ver exemplos da seção 6), eis como a análise procede:

     1  Madeira é um material com as propriedades A, B, C...
     2  Gelo é um material com as propriedades F, G, H...
     3  Um material é definido por sua propriedades.
     4  (de 1 a 3) Madeira é um material diferente do gelo.
     5  Uma mesa é um objeto feito de um material.
     6 O que é feito de um material não pode ser feito de outro.
     7 (de 4 a 6) Se uma mesa for feita de madeira então ela não pode
     ser feita de gelo.

     A proposição 7 é analítica, posto que é logicamente derivada das proposições 1 a 6, que são analíticas. Sob a consideração disso, a proposição K-i, “Essa mesa, sendo de madeira, não pode ser feita de gelo” pode ser devidamente analisada como uma apresentação entimemática (abreviada) do seguinte argumento

     1  Se uma mesa for feita de madeira então ela não pode ser feita  
         de gelo (premissa analítica).
     2  Aqui está uma mesa feita de madeira (premissa a posteriori).
     3  (de 1 e 2) Essa mesa não pode ser feita de gelo.

     A segunda premissa é uma proposição obviamente a posteriori e contingente, enquanto a primeira é uma proposição analítica, como ficou claro pelo raciocínio anterior. Na formulação K-i a primeira premissa está totalmente oculta. Assim, se K-i é uma apresentação abreviada do silogismo acima, então podemos concluir que K-i é uma proposição decomponível em uma proposição sintética a posteriori e contingente (premissa 2) e em uma proposição analítica a priori e necessária (premissa 1), o que no final das contas dela faz uma proposição sintética a posteriori, posto que a sua verdade não depende somente do significado de seus termos. De modo algum, porém, diremos que K-i é uma proposição a posteriori e necessária. Pois ela é necessária apenas naquilo que ela tem de a priori (premissa 1) e a posteriori naquilo que ela tem de contingente (premissa 2). Parece, pois, que é apenas quando confundimos a necessidade lógica da proposição analítica com necessidades naturais supostamente envolvidas, mas que não desempenham qualquer papel, que cometemos o equívoco de supor que uma proposição necessária possa ter algo a ver com a experiência.(10)
     Um exemplo aparentemente mais convincente de juízo necessariamente verdadeiro e a posteriori foi sugerido por Harry Frankfurt(11) com relação ao “Eu sou, eu existo” de Descartes (Meditações,  livro 2, sec. 4). Com efeito, o juízo “Eu existo” não pode ser falso, pois para realizá-lo preciso existir; não faz sentido dizer: “Eu não existo”. Podemos imaginar alguém que antes de se suicidar grava uma fita na qual diz “Agora eu não sou, não existo mais...”. Mas o que ele quer dizer é “No futuro, quando vocês estiverem me ouvindo, eu não estarei mais existindo...” Contudo, a necessidade do juízo “Eu existo” só vale quando ele é pensado no presente. Além disso o juízo “Eu existo” é sintético a posteriori: a predicação de existência não está internamente relacionada ao conceito do sujeito, pois o conceito de eu parece pensável independentemente do eu em questão existir. Trata-se, pois, de uma proposição experiencial que não pode ser falsa, cuja verdade é necessária. Não obstante, ela é a posteriori, ou seja, proveniente da experiência que o sujeito tem de existir.
     Mesmo essa conclusão pode ser criticada. A proposição “Eu existo” significa aqui “Eu existo agora”, podendo ser ainda parafraseada como “a existe no momento t”. Mas não é necessário que eu exista agora ou no momento t. Sob essa perspectiva, “Eu existo” revela-se uma proposição a posteriori e contingente. Essa perspectiva parece-me a mais correta, pois nela “Eu existo” não é visto como dependente de um ato mental de ajuizar, o qual, sendo psicológico, não deve ser objeto das distinções semântico-epistemológicas aqui enfocadas.
     Kripke também sugeriu um exemplo de proposição a priori que ele pretende que seja contingente. Trata-se da proposição relativa ao estabelecimento do metro padrão de Paris(12):

     K-ii  “Essa barra tem no tempo t um metro de comprimento”,

     A verdade dessa proposição é estabelecida a priori, posto que ela é usada para definir a medida de um metro. Para mostrar que essa não é uma verdade necessária, Kripke supõe circunstâncias em que a proposição não fosse verdadeira; pode ser que em um outro mundo possível (isto é, em circunstâncias concebivelmente diversas das atuais) essa barra sofresse dilatação em t, passando a medir mais de um metro, ou que ela medisse menos de um metro. Assim, que o metro padrão tenha em t um metro de comprimento é uma verdade contingente, apesar de a priori.
     Esse argumento de Kripke é mais facilmente refutável. Enquanto a barra em questão for tomada como o metro padrão, não há por que considerar K-ii uma proposição contingente, pois nesse caso ela será algo usado para estabelecer o que é a medida de um metro em qualquer circunstância, não fazendo sentido falar-se em medi-la. Sob esse ponto de vista o proferimento K-ii implica em dizer: “Sendo essa barra usada no tempo t como o metro padrão, ela é concebida a priori como medindo necessariamente um metro, não fazendo sentido falar aqui de uma eventual alteração em seu comprimento”. Para evidenciar esse ponto, imagine que o metro padrão fosse uma barra elástica que variasse o seu comprimento a cada momento. Nesse caso, um mesmo objeto medido com base nela em tempos diversos teria diferentes comprimentos. Ainda assim, qualquer comprimento que essa barra viesse a ter em tempos diferentes no mundo atual ou no mesmo tempo em mundos possíveis, esse comprimento seria sempre de um metro, posto que é assim que decidimos entender o que seja o metro.
     Por outro lado, sempre que nos permitimos conceber o padrão do metro como alterando o seu comprimento, isso será por referência a algum outro padrão, real ou imaginário, com o qual poderíamos medir a sua dilatação. Em tal caso, contudo, o metro padrão deixa de ser concebido como padrão, por isso mesmo podendo ter mais ou menos de um metro de comprimento. Nesse último caso, K-ii será vista como uma proposição contingente mas a posteriori. Nada nos tenta a supor que deva ser de outra maneira.


Notas:
1  E. Kant: Crítica da Razão Pura (Kritik der Reinen Vernunft), ed. Calouste Gulbenkian, Lisboa 1989 (1787), B5.
2  J. Locke: An Essay Concerning Human Understanding, Oxford 1979 (1689), livro IV, cap. II, sec. 2 e ss.
3  E. Kant: Crítica da Razão Pura, A7/B10-12.
4  R. Swinburne defende convincentemente a adequação dessa definição em seu artigo: “Analyticity, Necessity and Apriority”, em P. K. Moser (ed.): A Priori Knowledge, Oxford 1987.
5  A tese da vaguidade e variabilidade do que consideramos proposições gramaticais (a priori) encontra-se presente em Wittgenstein, por exemplo, em sua metáfora da areia no fundo do rio em Über Gewissheit (Sobre a Certeza), seções 96-99.
6  A tese de W. V-O. Quine, segundo a qual a distinção analítico/sintético é injustificada é certamente um elaborado sofisma ao qual sempre se deu uma importância exagerada. Para Quine só definimos analiticidade através de conceitos como o de sinonímia cognitiva e necessidade; mas tais conceitos requerem-se uns aos outros para serem definidos, disso resultando uma “quase-circularidade” que torna impossível precisar o que é analiticidade (ver W. V-O. Quine, “Two Dogmas of Empiricism”, em From a Logical Point of View, Cambridge MA, 1953). A resposta a Quine tem sido que ele impõe ao conceito de analiticidade uma exigência desarrazoada de precisão. (H. P. Grice e P. F. Strawson: “In Defense of a Dogma”, Philosophical Review, vol. 65, 1956, pp. 141-58) Na verdade, é até mesmo necessário que os conceitos que aparecem em uma definição pertençam a um mesmo campo semântico do conceito a ser definido. Não oferecemos, por exemplo, uma definição em bioquímica usando conceitos provenientes da sociologia. Assim, a estratégia de Quine, se coerentemente empregada, deveria levar-nos a concluir que definir expressões conceituais é geralmente uma tarefa impossível. Também a tese de que as proposições ditas analíticas são revisáveis é equívoca. Elas não são revisáveis no sentido que deve importar ao combate de Quine à distinção analítico/sintético, que deveria ser o de serem falseáveis; elas são revisáveis apenas no sentido de perderem a sua aplicabilidade em certas práticas lingüísticas, como pretendo mostrar nessa seção. Essa é a posição de sugerida pelos textos de Wittgenstein (ver nota 3), e não me parece que Quine tenha acrescentado nada a ela, à parte uma certa dose de confusão.
7  Cf A. Morton: A Guide Through the Theory of Knowledge, Oxford 1997, pp. 57-8.
8  Essa idéia, desenvolvida por M. Martin (em seu Atheism, Temple 1990, cap. 2), foi inicialmente proposta por Kai Nielsen. Para uma breve defesa dessa espécie de verificacionaismo, ver C. F. Costa: Estudos Filosóficos (ed. Tempo Brasileiro), Rio de Janeiro 1999, p. 62 ss.
9  Ver S. Kripke: “Identity and Necessity”, em M. K. Munitz (ed.): Identity and Individuation, New York 1971, pp. 151-153. Não discutirei aqui a engenhosa mas implausível teoria kripkeana dos nomes próprios como designadores rígidos, sobre a qual se apoia o seu argumento. (Para uma crítica a essa teria, ver J. R. Searle: Intentionality, Cambridge 1983, cap. 9.)
10 Kripke também veicula o seu argumento de um modo mais explícito. Ele considera que se P é a proposição de que a mesa não é feita de gelo, sabemos por análise filosófica a priori que P → NP; se a mesa é feita de gelo, então ela é necessariamente feita de gelo. Como sabemos por investigação empírica que P é verdadeira, nota Kripke, podemos por um modus ponens concluir:
     1  P → NP
     2  P_____         
     3  NP
     “A conclusão NP”, escreve ele, “é que é necessário que a mesa não seja de gelo, e a conclusão é conhecida a posteriori, posto que uma de suas premissas é a posteriori” (S. Kripke: “Identity and Necessity”, ibid. p. 152).
     Que esse é um número de ilusionismo lógico creio que pode ser mostrado quando consideramos que “P → NP” da primeira premissa quer dizer que se P efetivamente é o caso então se torna necessário que P. Ora, a proposição P da segunda premissa nos diz que a verdade de P é altamente provável, mas não que essa verdade é certa, já que nós somos falíveis. Como resultado, não é possível aplicar o modus ponens para concluir que é necessário que P. (Kripke fornece outros exemplos como “Nixon é um homem”, “Hesperus é Fosforus” e a  conjectura de Goldbach, que são menos satisfatórios.)
11  H. Frankfurt: Demons, Dreamers and Madmen, Indianapolis 1970, p.27.
12  S. Kripke: Naming and Necessity, Cambridge 1980, pp. 53-58.

Nenhum comentário:

Postar um comentário