sexta-feira, 11 de maio de 2012

# IDENTIDADE E NECESSIDADE EM KRIPKE

Texto extraído do livro Cartografias conceituais: uma abordagem da filosofia contemporânea (Natal: Edufrn 2008) - C.F. Costa




                                    IDENTIDADES SEM NECESSIDADE (KRIPKE)
                                                           Doutrinas inaceitáveis que iluminam são como
                                                           cruzes em mapas, que mostram onde tesouros
                                                           se encontram ocultados.
                                                           Brian Magee


A teoria filosófica resultante das aplicações da lógica modal feitas por Saul Kripke aos problemas da referência sempre me pareceu um notável costurado de confusões. Como a maioria discorda, quero justificar-me através de uma discussão crítica do seu artigo “Identity and Necessity”(1), que antecede as doutrinas do livro Naming and Necessity(2) e que contêm algumas idéias fundamentais recém-tiradas do forno. Os parágrafos resumindo o artigo de Kripke virão em itálico, para distinguir dos parágrafos contendo comentários meus.

     Kripke começa considerando um argumento modal para o caráter necessário de enunciados de identidade. Sendo N o operador de necessidade, que aqui será vista como de re (independentemente do modo de designação lingüístico), podemos considerar que, dado o princípio da substitutividade dos idênticos, segundo o qual “(x) (y) ((x = y) → (Fx → Fy))”, e dado o princípio da identidade, segundo o qual “(x) N(x = x)”, podemos concluir que se a propriedade F for a de ser necessariamente igual a x, então y também deve ter essa propriedade, ou seja, é necessário que y seja igual a x, em símbolos, “(x) (y) (x = y) → (N(x = x) → N(x = y))”, ou seja: “(x) (y) (x = y) → N(x = y)”.
    Kripke aceita esse resultado, sendo por ele levado à surpreendente conclusão de que identidades entre nomes e identidades teoréticas (essenciais) são necessárias. Assim, se a e b são realmente nomes e “a = b” é uma identidade verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Esse seria o caso de identidades como “Hesperus é (o mesmo que) Phosphorus” e “Cícero é (o mesmo que) Túlio”, que para Kripke são necessárias. Mais além, se F e G são predicados teoréticos, definidos como designadores de propriedades essenciais, e a identidade teorética (x) (Fx = Gx) é verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Por isso identidades como “Calor é movimento molecular” e “Um estado mental é um estado físico”, se verdadeiras, são necessárias.
    O próprio Kripke nota que identidades entre nomes e teoréticas têm sido geralmente consideradas contingentes, expondo as razões. Considere o enunciado “Hesperus é Phosphorus”. Sendo que Hesperus é Vênus visto ao anoitecer e Phosphorus é Vênus visto ao amanhecer, foi uma importante descoberta astronômica a de que se tratava do mesmo planeta. Assim sendo, essa parece ser uma verdade empírica contingente. O mesmo se aplica a identidades teoréticas, como “Calor é movimento molecular”. Essa identidade foi uma descoberta da ciência e poderia ser falsa, pois se a teoria do calórico fosse correta então o calor não seria movimento molecular. Este parece ser, pois, um enunciado contingente, pois o necessário é o que é verdadeiro sem que seja possível ser de outro modo.
     A tese de Kripke, porém, é a de que todas essas identidades, embora a posteriori, são necessárias, apesar de aparentarem não sê-lo. Para reforçá-la ele introduz uma distinção sua entre designador rígido, por ele definido como um termo que designa o mesmo objeto em todos os mundos possíveis nos quais esse objeto existe, e o designador não-rígido, que pode designar objetos diferentes em outros mundos possíveis. Para ele, um exemplo de designador não-rígido é uma descrição definida como “o inventor das bifocais”, que é George Washington, mas que pode em princípio ser outra pessoa qualquer. Já exemplos de designadores rígidos são descrições como “a raiz quadrada de 25”, que em qualquer mundo possível será cinco, ou nomes próprios como George Washington, que se aplica a uma mesma pessoa, em qualquer mundo no qual ela tenha vivido. Para Kripke, tanto nomes próprios quanto predicados teoréticos são designadores rígidos.

     Parece claro que uma expressão matemática é um designador rígido, pois essa designação não depende de como o mundo é. Mas será que nomes próprios são realmente designadores rígidos? Imagine um mundo possível quase idêntico ao nosso, no qual, logo após o nascimento de George Bush um marciano tenha se apossado do seu corpo e desde então o tenha usado como uma camuflagem, tornando-se presidente dos Estados Unidos e realizado as mesmas ações. Não seria o caso então que nesse outro mundo o nome ‘Bush’ estaria sendo usado para identificar uma outra pessoa, diferente daquela que ele é em nosso mundo? Parece que não. Pois em defesa de Kripke podemos dizer que se trata de uma falsa identificação de Bush no mundo quase idêntico ao nosso, a qual pode ser corrigida, não impedindo que o nome seja um designador rígido. Nesse mundo o verdadeiro George Bush teria morrido logo após o nascimento. O caso é, portanto, muito diferente daquele que encontramos na descrição ‘o inventor das bifocais’, pois pode ser facilmente imaginado um mundo no qual o inventor das bifocais não tenha sido George Washington, sendo ainda assim George Washington essencialmente o mesmo lá e aqui. A conclusão é a de que nomes próprios verdadeiros de fato funcionam como designadores rígidos: eles designam necessariamente uma mesma coisa em qualquer circunstância de mundo na qual ela exista.
     Uma coisa bem diversa, porém, é saber se o conceito de designador rígido tem as conseqüências que Kripke dele espera, de garantir a necessidade de re de identidades. Penso que a assunção dessa necessidade seria desnecessária no caso em que a teoria descritivista dos nomes próprios – segundo a qual eles estão no lugar de feixes de descrições definidas – for capaz de explicar de que maneira o recurso a descrições poderia tornar o nome um designador rígido. Kripke parece, em Naming and Necessity, ter mostrado que isso é impossível. Quero, no excurso que se segue, mostrar que uma forma descritivista de teoria dos nomes próprios pode em princípio ser desenvolvida de maneira a dar conta da propriedade da rigidez.
     Aqui vai o argumento. Descrições são expressões de regras de conexão com o objeto. Algumas descrições, como ‘o estagirita’, exprimem regras identificadoras do objeto. Afinal, é importante a informação de que Aristóteles nasceu em Estagira, que é grego. Mas a maioria das descrições definidas são enganadoras, pois exprimem apenas regras de conexão com o objeto que são meramente auxiliares. Esse é o caso, por exemplo, de ‘a cidade luz’, ‘o preceptor de Alexandre’, ‘O inventor das bifocais’, ou ainda, de ‘o filósofo referido pelo professor’. Minha sugestão é a de que as regras-descrições fundamentais de identificação para um nome próprio sejam as que o conectam com:

     (A) as características do objeto que para nós são mais relevantes.
     (B) a região e percurso espaço-temporal do objeto.

      Esses dois tipos de regras de identificação fundamentais não são por si mesmos suficientes. A suas instanciações deve ser aplicada a seguinte regra de ordem superior:

Regra meta-identificadora para nomes próprios:
O referente de um nome próprio N identifica-se por ser o objeto que satisfaz as condições estabelecidas pelas regras de tipo (A) e/ou (B) para N de maneira unívoca e suficiente.

     Quero exemplificar minha sugestão com o nome ‘Aristóteles’. A condição (A) para Aristóteles é a de que ele tenha sido um dos grandes filósofos da humanidade, mais precisamente, ‘o autor das grandes idéias do opus aristotélico’. A condição (B) é a de que ele seja ‘a pessoa nascida em Estagira em 384 a.C. que viveu a parte mais importante de sua vida em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C.’. Isso é o mais relevante, como qualquer enciclopédia pode testemunhar.
     As descrições auxiliares podem todas falhar. Pouco importa, por exemplo, que Aristóteles não tenha sido o preceptor de Alexandre, nem o maior discípulo de Platão, nem o fundador do Liceu. Mas as descrições dos tipos (A) e (B) são fundamentais e não podem ambas falhar de todo, pois nesse caso o nome não mais se aplica.
     Alguns exemplos evidenciam esse ponto. Pode ser que em um mundo possível semelhante ao nosso haja a seguinte diferença: o Aristóteles grego nunca existiu e o opus aristotélico foi escrito por um filósofo árabe medieval com o pseudônimo ‘Aristóteles’... Nesse caso tenderemos a dizer que a regra (B) para Aristóteles deixou de se aplicar, mas que Aristóteles é o filósofo árabe, pois (A) ainda se aplica. E pode ser ainda que exista um mundo possível no qual os dados biográficos de Aristóteles estejam corretos, mas que ninguém tenha escrito o opus aristotélico. Nesse caso ainda admitiremos, pela satisfação de (B), que ele existiu. Mas não é possível conceber um caso no qual nem a condição (A) nem a condição (B) estejam sendo minimamente satisfeitas! Não pode ser, por exemplo, que em um mundo possível Aristóteles tenha nascido no século XX e que nunca tenha sido filósofo, mas sim um grande armador grego que namorou Callas e se casou com Jackeline... Pois nesse caso o nome do filósofo perderia todo o seu sentido para roubá-lo indebitamente de um homônimo.
     Ora, pode bem ser que a regra meta-identificadora, exigindo uma satisfação suficiente de condições de identificação estabelecidas por uma disjunção de regras identificadoras de primeira ordem, seja aquilo que dá a um nome a estabilidade que regras de conexão com objeto expressas por descrições definidas carecem.
     Contra tal sugestão poderia ser objetado que os limites de aplicação estabelecidos pela regra meta-identificadora são inevitavelmente vagos. Mas isso não significa, como o sorites comprova, que tais limites não existam. Afinal, é bem concebível um mundo possível no qual Aristóteles nem existiu nem não existiu. Esse seria o caso, por exemplo, de um mundo possível no qual a filosofia aristotélica nunca tenha surgido, pois embora em 384 a.C. tenha nascido em Estagira um bebê de nome ‘Aristóteles’, ele morreu ainda muito jovem. Teria sido ele o nosso Aristóteles em potência?
     A solução para essa dificuldade é simples: basta redefinir o designador rígido como sendo aquele que se aplica a todos os mundos possíveis nos quais o objeto inequivocamente e definidamente existe. É pelo fato de que a regra meta-identificadora se aplica em qualquer mundo possível no qual o objeto existe univocamente e suficientemente que um nome próprio como ‘Aristóteles’ é um designador rígido.
     Temos aqui também uma explicação para o fato de a maioria das descrições definidas (ex: ‘o inventor das bifocais’) não serem designadores rígidos. Ao se aplicarem elas se subordinam semanticamente à regra de identificação de algum nome próprio (como George Washinghton). Por isso há mundos possíveis nos quais os objetos referidos pelos nomes que as correspondem não as satisfazem, posto que, ou elas não se aplicam, ou elas se aplicam a outros objetos que não aqueles a que elas usualmente, por sua subordinação semântica ao nome próprio, se referem (por exemplo, no mundo no qual foi João da Silva quem inventou as bifocais). Isso é comprovado pelo fato de descrições definidas que não se vinculam semanticamente a nomes próprios (como, por exemplo, ‘o terceiro regimento de cavalaria’) serem designadores rígidos.
     Se admitirmos semelhante versão revisada da teoria descritivista dos nomes próprios, podemos sugerir que a regra meta-identificadora é constitutiva do núcleo de significação de um nome próprio, tornando-o um designador rígido cuja necessidade é apenas de dicto, ou seja, convencionalmente estabelecida. Essa versão revisada da teoria descritivista aqui toscamente esboçada demanda, obviamente, uma elaboração que não posso oferecer aqui.

     Kripke também considera a noção de aprioridade. A verdade a priori é aquela que pode ser conhecida sem recurso à experiência. Muitos consideram o necessário e o a priori equivalentes. Mas a noção de necessidade é metafísica – sobre o modo como o mundo poderia ser – enquanto a noção de a priori é epistemológica – sobre como conhecemos o mundo atual. Kripke pensa que as duas classes não se equivalem. Considere, escreve ele, a conjectura de Goldbach, segundo a qual qualquer número natural é a soma de dois primos. Ela pode ser uma verdade necessária sem que saibamos disso a priori.

     A sugestão de que a necessidade é metafísica e a aprioridade é epistemológica pode ser questionada. Ela só vale se a necessidade for entendida como de re, como Kripke pretende. Mas se existem necessidades de re é algo que não podemos saber. Elas seriam necessidades das coisas mesmas como, supostamente, a de uma lei natural. Contudo, como podemos saber que uma lei natural é necessária? Ora, nossa falibilidade epistêmica no que diz respeito ao conhecimento empírico nos impede de adquirirmos conhecimento certo acerca disso. Por isso, a espécie de necessidade das leis naturais só parece poder ser de dicto, ou seja, resultado de convenções pragmático-lingüísticas que nos dizem que elas devem ser tratadas como se fossem necessárias. Trata-se, pois, de uma necessidade hipotética, postulada com base na experiência e aceita como regra no sistema de linguagem – no que Wittgenstein chamou de jogo de conhecimento da física(3). Eis a sua sugestão, na qual lemos a palavra ‘regra’ como envolvendo proposições a priori:

Toda proposição empírica pode servir como uma regra se ela for fixada como peça imóvel de um mecanismo, de tal forma que a totalidade da representação gira ao seu redor tornando-a parte de um sistema de coordenadas independente dos fatos(4).

     Para exemplificar o que Wittgenstein quer dizer, consideremos uma lei física qualquer, digamos, “e = mc2”. Ela pode ser duplamente compreendida:

(a) Como componente da teoria da relatividade generalizada, pressupondo a verdade dessa teoria. Nesse caso ela será vista como necessária e a priori, ou seja, como um postulado independente da experiência, sendo a sua necessidade de dicto (convencional).
(b) Com relação ao nosso sistema total de crenças, a mesma lei física deve ser considerada como um enunciado a posteriori e contingente. Afinal, nesse caso ela pode em princípio ser falseada pela observação, posto que a falibilidade é um traço pervasivo de nosso conhecimento empírico(5).

     Isso explica porque enunciados como “Hespherus é Phosphorus” e “Calor é movimento molecular” podem ser considerado a posteriori e contingentes (com relação ao nosso sistema total de crenças) e também a priori e necessários de dicto (como componentes de subsistemas de crenças, respectivamente, a astronomia e a termologia).
     Quanto à conjectura de Goldbach, se ela for verdadeira, será necessária, e se for uma verdade necessária é porque potencialmente sabemos disso a priori.

     O exemplo mais famoso de enunciado necessário a posteriori introduzido por Kripke é o da mesa de madeira a sua frente. Ele começa com a pergunta: poderia ela ter sido feita, desde o início de sua existência, da água congelada do Tâmisa? Certamente que não.  Ela seria um objeto diferente. Assim, o enunciado “Essa mesa, se ela existe realmente, não pode ser feita de gelo” mostra-se uma verdade necessária conhecida a posteriori. Mesas, diz ele, geralmente não são feitas de gelo, essa parece ser de madeira, não está fria, portanto provavelmente não é feita de gelo. Claro, pode ser um truque, sendo ela na verdade de gelo. Mas não é isso, diz Kripke, o que ele pretende. O que ele pretende é que dado o fato de ela não ser feita de gelo, mas de madeira, não se pode imaginar que ela poderia ser feita de gelo. Dado que ela não é feita de gelo, conclui ele, é necessário que ela não seja feita de gelo. Em outras palavras: sendo P = “Essa mesa não é de gelo”, sabemos a priori da verdade de “Se P então NP”. Ademais, sabemos por investigação empírica que P é verdadeiro. Juntando esses dois enunciados ele constrói o seguinte argumento usando o modus ponens:

     1  P → NP
     2  P                  
     3 
Logo: NP

     É, pois, necessário que a mesa não seja de gelo, embora isso só seja conhecido a posteriori, pela investigação empírica.

     Minha dificuldade com este argumento diz respeito ao status epistemológico de P. A lógica trata da verdade de P abstraindo do fato de que P, como qualquer enunciado empírico, só pode ser conhecido e avaliado em seu valor-verdade quando considerado por sujeitos epistêmicos inevitavelmente falíveis. Mas esse não é o caso de nenhum enunciado de nossa vida real! Considerado em seu significado, naquilo que entendemos com ele, o enunciado P da segunda premissa poderia ser reescrito como (2’): “É praticamente certo (extremamente provável) que P”. Com efeito, tem de ser assim, pois só Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente, poderia ter como absolutamente certa a verdade do enunciado P (atribuindo-lhe probabilidade 1). Deus poderia saber da existência factual de P, que é o mesmo que saber da verdade absolutamente certa de P, que seria então uma necessidade de re. Já quanto a nós, tudo o que podemos saber é que P é um enunciado praticamente certo, a dizer, extremamente provável (ou seja, com uma probabilidade muito próxima de 1), posto que nosso conhecimento empírico nunca é certo (é possível, por exemplo, que algum demônio enganador me faça crer que estou diante de uma mesa de madeira quando ela na verdade é de gelo, como o próprio Kripke admite). Consideremos agora a primeira premissa. Com ela o mesmo não pode ser feito. É compreensível a idéia de que, dado o fato de que P, daí se segue NP. Assim, o que P → NP diz é (1’) “Se é o caso que P, então é necessário que P”. Mais além, a apreensão epistêmica de que P é um fato dado só será possível para um sujeito epistêmico que tenha absoluta certeza de P. Assim, a primeira premissa poderia ser ainda reescrita como (1’’) “Se é absolutamente certo que P então é necessário que P”, mas não como (1’’’) “Se é praticamente certo (extremamente provável) que P então é necessário que P”, pois a mera probabilidade de P, não importa quão alta seja, não garante a necessidade de P. Admitindo, pois, substituir a premissa (1) por (1’) e (2) por (2’), o argumento de Kripke se torna:

1  Se (é absolutamente certo que) P, então é necessário que P.
2  É praticamente certo que P.
3  Logo: É necessário que P.

    Qual o status lógico desse argumento? Ora, ele é obviamente inválido, posto que o modus ponens não pode ser aplicado a 1 e 2. E ele continuará inválido mesmo se revertermos a primeira premissa a (1’) como “Se é o caso que P, então é necessário que P”, pois o antecedente não está dizendo o mesmo que (2’). O argumento de Kripke nada faz, portanto, para convencer-nos de que o enunciado “Essa mesa não é de gelo”, embora a posteriori, seja necessário. Ele é a posteriori e portanto contingente como era esperado. A impressão de que ele possa ser necessário advém do fato de que o enunciado “Se essa mesa é de madeira então ela não é de gelo”, que é necessário e conhecido a priori, costuma entrar no raciocínio que conduz à conclusão de que a mesa não é de gelo. Eis o raciocínio implícito na afirmação de que a mesa não é de gelo:

1  Se essa mesa é de madeira então ela não é de gelo.
2  Essa mesa é de madeira.
3  Logo: Essa mesa não é de gelo.

     Como a primeira premissa é um enunciado necessário e a priori, enquanto a segunda premissa é um enunciado contingente a posteriori (pois só pode ser praticamente certo que a mesa é de madeira), a sugestão enganosa de que a conclusão é necessária e a posteriori torna-se disponível. Contudo, conclusões de argumentos que misturam a priori com a posteriori e necessidade com contingência herdam sempre a última propriedade dessas distinções sendo, pois, a posteriori e contingentes, como ocorre com P.

     Outro caso de enunciado necessário e a posteriori é, segundo Kripke, o das identidades entre nomes, como “Hesperus é Phosphorus” e “Cícero é Túlio”. Estas são identidades empíricas, geralmente consideradas contingentes. Para Kripke elas são identidades entre designadores rígidos, o que as torna necessárias, posto que em qualquer mundo possível esses nomes irão se referir ao mesmo objeto, não sendo pois possível uma situação na qual Hesperus não seja Phosphorus ou em que Cícero não seja Túlio. Poderíamos, diz ele, ter identificado Hesperus e Phosphorus com dois corpos celestes distintos, mas nesse caso a frase “Hesperus é Phosphorus” teria um outro significado. Este seria o caso, por exemplo, se marcianos tivessem habitado a terra e tivessem identificado Hesperus com Vênus e Phosphorus com marte. De modo similar, 2 + 2 = 4 seria falso se por 4 entendêssemos a raiz quadrada de -1. O mesmo se dá com a identidade “Cícero é Túlio”. Parece que esse enunciado é contingente porque por vezes aprendemos esses nomes com o auxílio de descrições como “o maior orador romano”, achando que identificamos o objeto por meio de propriedades contingentes quando na verdade tais nomes não são sinônimos de descrições, mas designadores rígidos.

     Também das supostas necessidades de identidades empíricas podemos discordar. Mudanças no valor-verdade de uma identidade como “Hesperus é Phosphorus” não se devem somente a confusões quanto a convenções para a aplicação dos nomes. Podemos convencionar a necessidade de dicto de Hesperus ser idêntico a Phosphorus com base em teorias hoje universalmente aceitas pelos astrônomos, admitindo tal necessidade sob o pressuposto da verdade dessas teorias. Mas com relação à totalidade potencialmente mutável de nossas crenças, essa é uma identidade contingente. Como é bem sabido, foi uma descoberta astronômica que Hesperus – o corpo celeste visto ao anoitecer – é o mesmo que Phosphorus – o corpo celeste visto ao alvorecer. Contudo, esses nomes não tinham significados diferentes antes dessa descoberta. É verdade que hoje sabemos que esses nomes se referem a um mesmo planeta, Vênus. Mas, embora seja extremamente improvável, é possível que se descubra que Hesperus não é Phosphorus, e que Phosphorus, o corpo celeste mais brilhante visto ao alvorescer, é na verdade um outro astro. Pode ser, por exemplo, que os Deuses tenham produzido uma grande ilusão de conhecimento nas mentes humanas e que os planetas na verdade não passem de um enxame de pequenos vagalumes que a cada noite se reúnem para decorar a abóboda celeste... Nesse contexto, Hesperus tem localização diversa de Phosphorus quando visto olho nu, mas parece idêntico a Phosphorus quando visto pelo telescópio, não por ser um mesmo planeta, mas como resultado de enfeitiçamento.
     Poderíamos também aqui aplicar o mesmo argumento do início, chamando h de Hesperus e p de Phosphorus:

     1  (h = p) → N(h = p)
     2  h = p                     .
     3  Logo: N(h = p)

     O problema é que também aqui o modus ponens não se aplica, pois a identidade h = p expressa no antecedente da primeira premissa só implica em N(h = p) se ela for pensada como uma identidade certa, como objeto de certeza absoluta. Contudo, para tal ela precisaria ser descoberta, não pelo sujeito epistêmico humano, que por sua inevitável falibilidade é incapaz disso, mas por Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente (o que certamente de nada nos adianta). Quanto à “h = p”, a segunda premissa, ela só pode ser, como vimos, uma hipótese empírica dizendo algo como “É praticamente certo (extremamente provável) que “h = p”, o que mesmo assim não é absolutamente certo. A formulação seguinte demonstra o equívoco do argumento segundo o mesmo modelo:

       1  Se (é absolutamente certo que) h = p, então N(h = p).
       2  É praticamente certo que h = p.
       3  N(h = p)

     Note-se que a expressão ‘é absolutamente certo que’, com o seu elemento epistêmico, não é necessária, podendo ser substituída por ‘é o caso que’. Mesmo que a espécie de certeza absoluta requerida pela identidade da primeira premissa não seja acessível, é evidente que de “(h = p) → N(h = p)” e “É praticamente certo que h = p”, não podemos usar o modus ponens para derivar N(h = p).
     O próximo exemplo de Kripke diz respeito à identidade entre tipos de coisas. Considere o enunciado “Calor é movimento molecular”. Muitos pensam que essa é uma verdade a posteriori, pois é resultado de investigação científica empírica. Mas para ele essa é uma identidade necessária a posteriori, pois o calor (nos gazes) não pode ser outra coisa senão a energia cinética molecular média. Pode ser, diz ele, que a terra viesse a ser habitada por seres que sentissem frio quando sentimos calor e vice-versa, de modo que calor não seria para eles idêntico a movimento molecular. Mas nem por isso calor significaria frio, pois o calor é entendido como o movimento molecular, tal como ele é sentido por nós. Para Kripke os termos ‘calor’ e ‘movimento molecular’ são designadores rígidos, o que torna a identidade entre eles necessária. Para ele o fato de o movimento molecular produzir a sensação de calor é usado para fixar a referência, tornando a identidade necessária; a ilusão de contingência se deve ao fato de que confundimos isso com o fato contingente de identificarmos o movimento molecular pela sensação de calor.

     A situação imaginada por Kripke da terra sendo habitada por seres que sentem frio no lugar de calor apenas nos desvia do ponto essencial, que é a falibilidade de nossas constatações de identidade entre tipos de coisas. Imagine que por razões totalmente inesperadas quase toda a nossa química tenha de ser revisada e que se venha a descobrir que a melhor explicação para o calor é, com efeito, a de que se trata de um flúido inflamável semelhante ao calórico. Nesse caso será simplesmente falsa a identificação do calor nos gazes com o movimento molecular. Claro que a possibilidade dessa revisão é extremamente remota, mas não se trata de algo logicamente impossível. E se é logicamente possível que o calor seja idêntico a quantidades de calórico, então não é logicamente necessário que o calor seja movimento molecular e não o calórico. O erro cometido por Kripke consiste em confundir a necessidade empírica de identidade do calor com o movimento molecular com a necessidade que nela vemos sob o pressuposto da verdade da teoria termodinâmica, esquecendo-nos que essa teoria faz parte de nosso sistema total de crenças, o qual pode evoluir de modo a falseá-la, falseando com isso a identidade. Como já notamos, tal necessidade só pode ser de dicto, pois depende da postulação de alguma teoria para se afirmar. 
     Como para Kripke calor e movimento molecular, sendo designadores rígidos, designam necessariamente a mesma essência, o seu argumento, chamando calor de C e movimento molecular de M, poderia ser construído como:

     1  ((Cx = Mx) → N(Cx = Mx))
     2  (Cx = Mx)
     3  Logo: N(Cx = Mx)

     Presenciamos aqui o retorno sistemático da mesma dificuldade. A primeira premissa diz apenas que se é um fato que (Cx = Mx) então isso é necessário, ou então, de um ponto de vista epistêmico, que se for absolutamente certo que todo calor é movimento molecular, então é necessário que todo calor seja movimento molecular. Mas em qualquer dos casos, a identidade expressa na segunda premissa é alcançada por sujeitos epistêmicos falíveis com base em dois aspectos diferentes de uma essência a que temos todas as razões para crer que é a mesma, tratando-se outra vez de certeza prática. Ora, com base nas premissas “Se (é absolutamente certo que) Cx = Mx, então é necessário que Cx = Mx” e “É praticamente certo (extremamente provável) que Cx = Mx”, não podemos usar o modus ponens para concluir “É necessário que Cx = Mx”. A formulação que evidencia o equívoco é:

    1  Se (é absolutamente certo que) (Cx = Mx) então N(Cx = Mx).
    2  É praticamente certo que (Cx = Mx).
    3  Logo: N(Cx = Mx)

    O último exemplo de Kripke concerne à teoria da identidade de tipos na relação mente-corpo, segundo a qual enunciados como “Dor é um estado cerebral tal e tal”, seriam descobertas científicas contingentes e a posteriori ainda por serem feitas. Mas, escreve Kripke, ‘dor’ e ‘estado cerebral tal e tal’ são aqui designadores rígidos, pois designam propriedades essenciais. Contudo, se é assim, o teórico da identidade está em papos de aranha, pois a identidade precisa ser necessária, o que se choca frontalmente contra o fato de que ninguém há de negar que é possível conceber que tenhamos dores sem termos os correspondentes estados cerebrais (podemos imaginar que ao abrirmos o crânio de uma pessoa nele encontremos apenas um punhado de palha). O teórico materialista, escreve Kripke, precisa defender que coisas que podemos imaginar na verdade não podemos imaginar, o que torna a teoria da identidade improvável.     
     Esse argumento parece-me claramente inconsistente. Se fosse assim teríamos de rejeitar também a identificação entre calor e movimento molecular, posto que podemos perfeitamente imaginar o calor na independência, por exemplo, da vibração molecular (calor nos sólidos), no caso em que a neve do pólo sul fosse mais quente do que as areias do Sahara.
     Afora isso, a objeção aqui é a mesma que no caso anterior: do ponto de vista ontológico pode ser absolutamente certo e conseqüentemente necessário que a dor seja o mesmo que certo estado cerebral. Mas só Deus pode saber disso com absoluta certeza. Para nós, sujeitos epistemológicos falíveis, essa identidade, ou é necessária e de dicto e, portanto, a priori, ou é contingente e a posteriori, posto que a sua constatação é capaz de espelhar apenas provavelmente a sua realização ontológica. Crer no contrário, como Kripke inadvertidamente faz, é atribuir à identidade epistemicamente suposta o mesmo status de uma identidade ontologicamente realizada que enquanto tal é incognoscível.


Notas:
1 Saul Kripke: “Identity and necessity”, publicado em Identity and Individuation, ed. M. K. Muniz (New York University Press: New York 1971).
2 Saul Kripke: Naming and Necessity (Blackwell: Oxford 1980).
3 Ludwig Wittgenstein: Über Gewissheit (Sobre a certeza) (Suhrkamp: Frankfurt 1984), Werkausgabe vol. 8.
4 Ludwig Wittgenstein: Bemerkungen über die Grundlage der Mathematik (Observações sobre os fundamentos da matemática) (Suhrkampf : Frankfurt 1984) Werkausgabe vol. 6, parte VII, p. 437.
5 Um ponto central da filosofia de Karl Popper foi o de que não pode haver leis irrefutáveis na ciência empírica, posto que aquilo que a torna científica é o próprio fato de ela ser aberta à refutação empírica. Ver Logik der Forschung (A Lógica da Investigação) (Mohr Siebeck: Tübingen 2005(1935)).




 
                              

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