quarta-feira, 9 de maio de 2012

O PROBLEMA HUMIANO DA INDUÇÃO

Artigo em avaliação, revista PRINCIPIOS

O PROBLEMA HUMIANO DA INDUÇÃO
Claudio Ferreira Costa/UFRN-CNPq

Resumo:
Nesse artigo é inicialmente feita uma breve reconstrução do problema humiano da indução. Essa reconstrução é seguida de uma exposição crítica de algumas importantes tentativas de solucioná-lo. No final é sugerida, em seus traços gerais, uma nova e supostamente mais plausível solução-dissolução analítico-conceitual para o problema.
Summary
This paper begins with a short reconstruction of the humian problem of induction. This reconstruction is followed by a critical discussion of some attempts to solve the problem. In the end a new and arguably more plausible form of solution-dissolution of the problem, the so-called analytic-conceptual approach, is proposed.
Key-words: analysis, epistemology, Hume, induction.
Palavras-chave: análise, epistemologia, Hume, indução.

Gostaria de discutir aqui o aparentemente irresgatável problema da justificação da indução introduzido por David Hume. Para tal quero começar expondo a famosa crítica humiana à possibilidade de fundamentação de nossas inferências indutivas. Em seguida quero considerar algumas das mais conhecidas respostas a Hume, mostrando que nenhuma delas é suficientemente plausível. Finalmente quero propor, em traços muito gerais, o que chamo de solução (dissolução) analítico-conceitual, que me parece ser a única alternativa plausível.

O argumento de Hume
Quero começar reconstruindo rapidamente o argumento de Hume.  Ele apresentou o problema por meio de uma crítica à necessidade causal, mas na reconstrução que se segue eu desassocio o argumento dessa crítica de maneira a tornar mais claro o que é essencial. Segundo Hume, nossas inferências indutivas requerem princípios metafísicos de uniformidade da natureza que as garantam. Embora a indução possa ser não só do passado para o futuro, mas também do futuro para o passado e de uma região espacial para outra no presente ou não, por razões de simplicidade me restringirei aqui ao primeiro caso, cujo princípio de uniformidade pode ser enunciado como:

      PF: o futuro será semelhante ao passado.

 Se esse princípio for verdadeiro, ele garantirá as inferências indutivas do passado para o futuro. Considere o seguinte exemplo muito simples de justificação de um argumento indutivo pela introdução de PF como primeira premissa:

1 O futuro será semelhante ao passado (PF).
2 O sol sempre nasceu a cada dia.
3 Portanto: o sol nascerá amanhã.

     Essa parece à primeira vista uma maneira natural de justificar a inferência de que se o sol sempre nasceu a cada dia ele nascerá amanhã, uma inferência que também poderia ser estendida na forma da generalização “O sol sempre nascerá”. Aqui começa a se delinear o problema da indução. Ele se inicia com a constatação de que a primeira premissa do argumento, uma formulação de PF, não é nenhuma verdade da razão caracterizada pela inconsistência de sua negação, ou seja, não é nenhuma proposição analítica. É perfeitamente imaginável, escreve Hume, que o futuro se torne muito diverso do passado, por exemplo, que árvores floresçam no inverno e que a neve queime como fogo. Mesmo assim podemos ganhar a convicção de que o futuro será semelhante ao passado com base em nossa experiência de futuros que já passaram, os quais foram semelhantes aos seus próprios passados. Eis a inferência que parece justificar PF:

1 Os futuros já passados sempre foram semelhantes aos seus próprios passados.
2 Portanto: o futuro será semelhante ao passado.

     O problema é que essa é uma inferência indutiva. Ou seja: para justificar a indução recorremos a PF, o princípio de que o futuro será semelhante ao passado, e para justificar PF recorremos outra vez à indução. A intentada justificação da indução demonstra-se assim circular, posto que ela depende de um princípio que acaba ele próprio por depender da indução para ser firmado. A conclusão de Hume é a de que não há justificação racional possível para a indução, não havendo, portanto, justificação racional, nem para as expectativas criadas pelas leis da ciência empírica, nem sequer para as nossas próprias expectativas cotidianas de senso comum, posto que ambas baseiam-se claramente na indução. É verdade que possuímos uma disposição muito forte para crer em nossas inferências indutivas. Mas para Hume essa disposição se deve tão somente a nossa constituição psicológica. Nós somos instintivamente dispostos a adquirir certos hábitos produtores de expectativas indutivas, que uma vez formados nos fazem agir como as mariposas, que são dispostas pela sua natureza a voar sempre em direção à luz. Essa é uma conclusão extremamente cética e não é sem razão que só uns poucos filósofos acompanharam Hume nesse ponto. A maioria pensa que algo deve estar errado em algum lugar. Quero a seguir considerar algumas dessas reações.

Rejeição da indução
A reação mais radical consiste em aceitar a conclusão cética de Hume. Karl Popper esteve entre os poucos que o fizeram. Para ele a indução não existe. Mesmo assim a ciência continua de pé, pois ela não se baseia na indução. De acordo com Popper, a ciência se baseia na criação de novas teorias, tão imaginativas quanto ousadas, que são admitidas como verdadeiras na medida em que resistem aos testes empíricos potencialmente capazes de falseá-las
     Essa resposta contém uma dificuldade que foi notada por muitos críticos de Popper, nomeadamente, a de que ela recorre sub-repticiamente à indução . Afinal, que razão se tem, por exemplo, para acreditar que uma teoria que tem resistido a testes refutadores no passado é mais confiável do que outra teoria qualquer, entre o ilimitado número de teorias competitivas que podem ser criadas e que ainda não passaram por testes refutadores, se não com base na indução? Mesmo que se encontre uma estratégia para contornar essa objeção, há outra ainda pior: como podemos saber que uma teoria que resistiu a testes refutadores no passado continuará resistindo a exatamente os mesmos testes no futuro? Parece que sem admitirmos um princípio da indução não temos razão alguma para confiar mais em nossas teorias bem sucedidas do que em quaisquer outras, inclusive as que já foram refutadas no passado!

Vindicação pragmática
Uma tentativa talvez mais promissora de lidar com o problema da indução seria a justificação pragmática. Ela segue o argumento humiano até o ponto onde fica estabelecido que não há meio de justificar dedutivamente ou indutivamente a indução. Mas sugere uma resposta pragmática.
     Hans Reichenbach foi quem desenvolveu uma vindicação pragmática particularmente engenhosa. Ele parte da idéia de que devemos tratar a indução, não como uma inferência visando o estabelecimento de crenças, mas como uma aposta feita em uma situação na qual não temos outra opção senão apostar. Sua justificação da indução lembra a aposta de Pascal na existência de Deus: “a razão não vos pode ajudar, mas vale apostar; pois vencendo, ganhareis tudo, e perdendo, nada mais tereis a perder”. De uma forma simplificada, eis o raciocínio de Reichenbach.  A natureza é uniforme ou não é. Suponhamos que ela seja uniforme. Nesse caso, o procedimento indutivo terá êxito. Já outro procedimento qualquer, por exemplo, o de consulta à bola de cristal, poderá ter ou não ter êxito. Assim sendo, um ponto para o procedimento indutivo. Imagine-se agora que a natureza não seja uniforme. Nesse caso, procedimento algum poderá ter êxito. Logo, vale mais a pena apostarmos no procedimento indutivo.
     O raciocínio foi resumido por Brian Skyrms no seguinte um silogismo :

1 Ou a natureza é uniforme, ou não é.
2 Se a natureza é uniforme, o procedimento indutivo terá êxito.
3 Se a natureza não é uniforme, nenhum procedimento terá êxito.
4 Logo: se algum procedimento pode ter êxito, o procedimento indutivo terá êxito.
              
     Embora esse argumento seja dedutivamente válido, podemos questionar se a terceira premissa é verdadeira. Além da indução há outros procedimentos de previsão que podem ser alternativamente aventados, como a sugestão de que aquilo que se mostrou provável no passado passará a ser no futuro improvável e vice-versa (lógica contra-indutiva), o método de se prever o futuro consultando a bola de cristal ou lendo as folhas de chá. Argumentando a favor da verdade da terceira premissa, Reichenbach imagina que na tentativa de se orientar em um mundo completamente caótico um procedimento qualquer, digamos, o método de consulta à bola de cristal, se demonstre bem sucedido. Ora, se esse método se revela satisfatório e a partir de premissas verdadeiras probabiliza as conclusões, acabaremos por concluir que se ele mereceu crédito no passado, ele deve merecer crédito também no futuro, o que é uma inferência tipicamente indutiva. Assim, o sucesso do método da bola de cristal vindica o método indutivo, mostrando que existe realmente uma uniformidade importante na natureza. Generalizando: se algum outro procedimento der certo, o procedimento indutivo será corroborado; logo, se não temos outra opção senão apostar, é racional apostarmos no procedimento indutivo. 
     A objeção fundamental à justificação pragmática da indução é externa: ela parece fazer concessões demasiadas ao ceticismo. Segundo a justificação de Reichenbach, não podemos realmente saber coisa alguma através da indução; o que chamamos de crenças indutivas são na verdade meras apostas, ainda mais arriscadas que as feitas em uma mesa de jogo, que ao menos tem a sua probabilidade garantida. Somos, no dizer do próprio Reichenbach, como cegos perdidos em uma floresta, tateando o que parece ser um caminho, na esperança de sermos por ele conduzidos para fora dela... É difícil imaginar uma situação cética mais desesperançada.

Justificações indutivistas
Passemos agora as assim chamadas tentativas indutivistas de justificar a indução. Uma resposta natural, quando nos perguntam como justificar que os argumentos indutivos que foram até agora bem sucedidos continuarão a ser bem sucedidos no futuro, parece ser: “Porque eles sempre foram bem sucedidos no passado”. Justificações indutivistas da indução, como a proposta por Max Black  e por F.L. Will , tentaram mostrar que semelhante resposta não constitui uma petição de princípio. Para introduzi-las comecemos formulando como princípio da indução a seguinte versão epistêmica (ao invés de metafísica) subjetiva de PF:

     PI: As regularidades observadas no passado tenderão a se repetir no futuro.

     Podemos justificar PI pelo seguinte argumento:

1 No passado as regularidades já observadas sempre tenderam a se repetir.
2 Logo PI: as regularidades observadas no passado tenderão a se repetir no futuro.  (PI1, 1)

     Note-se que para passarmos da premissa para conclusão nós precisamos aplicar PI, na forma da regra de inferência indutiva PI1, à premissa, o que parece fazer a inferência circular. Contudo, o defensor da solução indutivista poderá aqui responder que na função de PI1, PI funciona como um princípio de inferência de segundo nível, o que lhe dá um diferente status justificacional. Ele reconhece que PI1 ainda carece de justificação; mas esse princípio ainda poderá ser justificado por meio de um argumento idêntico em um terceiro nível, PI2, e assim sucessivamente. Como não há um limite superior nessa hierarquia de níveis, a justificação não é circular; e como para cada nível há uma justificação, o defensor da justificação indutivista é capaz de concluir que ela existe para todos os níveis.
     Não obstante, tem sido apontadas razões aparentemente decisivas para a rejeição da solução indutivista do problema humiano.  Uma primeira delas é que outros sistemas, diversos do sistema da lógica indutiva, e mesmo opostos a ele, podem ser justificados de maneira similar. Esse é o caso de uma suposta lógica contra-indutiva: uma lógica que afirma que as regularidades não observadas do futuro serão diferentes das regularidades já observadas no passado, de modo que cada sucesso da lógica indutiva seria assegurado por um princípio da lógica contra-indutiva em nível superior. Uma outra razão para se rejeitar a solução indutivista é que requerendo um número infinito de níveis de inferência, torna-se impossível de ser completada, de nada valendo na prática. Finalmente, a razão para a distinção epistêmica entre os diversos níveis é obscura: não parece lícito justificarmos um argumento através de uma mera repetição desse mesmo argumento em um nível superior. Parece que a pretensa justificação indutiva da indução lança mão de uma forma artificiosa de raciocínio, que se fosse admitida nos permitiria justificar praticamente qualquer coisa.
     A verdade sobre a justificação indutiva da indução parece resumir-se no seguinte. Nós por vezes realmente realizamos justificações indutivas de procedimentos indutivos. Alguém pode dizer que certo método indutivo para a previsão do tempo será bem sucedido no futuro porque no passado ele sempre foi bem sucedido. Esse procedimento serve para calibrar o método indutivo proposto, ou seja, para determinar a base indutiva adequada. Mas essa calibragem só é possível se for ultimamente baseada em algum princípio da indução mais fundamental, que como tal não pode ser indutivamente fundamentado.

Justificações dedutivistas
Outra maneira de se tentar justificar a indução consiste um tanto paradoxalmente em conceber a inferência indutiva como possuindo a forma de um raciocínio dedutivo cuja conclusão é probabilística, como fizemos ao expor o dilema humiano.  Para tal será mister utilizarmos como premissa um princípio indutivista como, digamos, a seguinte variante mais técnica de PI:

     PI*: Se o fenômeno X tem sido sempre observado em certa associação com o fenômeno Y
             na proporção n%, se X for observado no futuro ele tenderá a preservar a mesma asso-
             ciação com Y em proporção similar.

Mas, como vimos, parece que em qualquer de suas formulações esse princípio pode ser negado sem contradição, o que faz com que ele não possa ser considerado uma verdade analítica ou conceitual. E se ele não é uma verdade analítica, ele é um princípio sintético. Ora, ele não pode ser um princípio sintético a posteriori, pois nesse caso nos defrontaremos com os problemas da justificação indutivista já considerados. É aqui que surge o espaço para a proposta de uma terceira via, que é a de se admitir princípios indutivistas entendidos como postulações sintéticas a priori, ou seja, como proposições informativas que não se originam da experiência.
     O problema em torno dessa espécie de solução é bem conhecido. É que se demandarmos que ela se torne inteiramente racional parece que acabaremos inevitavelmente sendo forçados a aceitar que princípios da indução devem ser tais que o mundo externo deva se conformar sempre ao que eles dizem, de modo a torná-los garantidos. Mas essa exigência kantiana de que o mundo externo deve se comportar tal como nossa razão ordena sempre pareceu de uma arbitrariedade inaceitável e de fundo ultimamente místico, pois parece demandar que Alguém deva ordenar que o mundo se ordene de acordo com a nossa razão.

Tentativas de dissolução do problema
Ainda uma alternativa foram as tentativas de dissolução do problema da indução por apelo ao senso comum. Filósofos como A.J. Ayer, Paul Edwards e, mais influentemente, P.F. Strawson, rejeitaram o problema da indução apresentando o que é chamado de soluções (dissoluções) de senso comum do problema. Para Strawson o problema da indução é um pseudoproblema resultante de um uso equívoco de conceitos como o de racionalidade e justificação.  Se perguntarmos a uma pessoa por que ela se sente justificada em acreditar que o sol nascerá amanhã, ela poderá responder simplesmente que é porque o sol sempre nasceu a cada 24 horas, e nenhum de nós deixará de considerar tal justificação perfeitamente racional. Assim, é parte do que entendemos por racionalidade a aceitação dos procedimentos da lógica indutiva. Por conseguinte, não faz sentido querer justificar a própria lógica indutiva, pois não se pode justificar a própria fonte de nossas decisões racionais, não se pode encontrar razões para aquilo que exerce um papel fundamentador de nossa racionalidade. Rejeitar a lógica indutiva seria intuitivamente percebido como irracional. Qualquer método de inferência, nota Strawson, apóia-se no método indutivo. Mesmo uma lógica contra-indutiva, se aplicável, só se confirmaria em um nível superior indutivamente, na medida em que seus resultados fossem opostos aos que a indução prevê.
     O problema se assemelha à questão: como justificar racionalmente a lógica dedutiva? Não há resposta geral para essa pergunta, posto que a lógica dedutiva exerce um papel fundamentador em nossa racionalidade. Rejeitá-la seria irracional. Mas por que os filósofos geralmente não exigem uma justificação para a lógica dedutiva, mas exigem-na para a lógica indutiva? A resposta seria que eles estão na verdade procurando uma justificação dedutiva para a indução. Quando o filósofo se pergunta pela justificação da indução, ele está pensando em uma justificação dedutivamente conclusiva; e quando ele busca uma razão para a indução, ele está pensando em uma razão logicamente conclusiva. Mas a indução não pode satisfazer tais parâmetros, simplesmente porque não é dedução: não se pode censurar um gato por não se comportar direito em uma festa de cães.
     Segundo Strawson, a confusão resulta de assimilarmos a racionalidade ao sucesso. O procedimento indutivo é racional, mas isso não significa que só por isso ele nos deva oferecer uma garantia de sucesso; é perfeitamente possível que o mundo se torne de repente caótico e que nossos procedimentos indutivos deixem de ser bem sucedidos. Mas como racionalidade não implica em sucesso, o procedimento indutivo não deixa por isso de ser racional, inclusive porque concluir que em um universo caótico nossos procedimentos indutivos não devem funcionar é lançar mão de um raciocínio indutivo de nível superior.
     Um problema geralmente apontado nessa tentativa de dissolver o problema da indução é que ela, supostamente recorrendo ao senso comum e ao conceito de racionalidade por ele instituido, estabelece de maneira a priori que é razoável crer em uma conclusão para a qual há evidência indutiva. Mas se assim o fizermos, parece que recaímos na justificação apriorista da indução, tendo de admitir algum princípio da indução que funcione como uma espécie de juízo sintético a priori a garantir a indução. Strawson tentou evadir-se dessa espécie de dificuldade ao propor a dissociação entre racionalidade e sucesso. Mas isso expõe sua solução a uma objeção ainda mais destrutiva. Eis como podemos formulá-la: se o conceito de racionalidade do senso comum não exige que a indução, para ser racional, seja em alguma medida bem sucedida (o que é discutível), então tanto pior para o conceito de racionalidade do senso comum. Afinal, desde Hume o que tem interessado aos filósofos é uma justificação para o sucesso de nossas inferências indutivas e é precisamente isso o que Strawson não nos consegue oferecer.

Proposta de uma solução analítico-conceitual
Embora as tentativas aqui consideradas de solucionar o problema da indução contenham insights parciais e úteis, elas estão longe de ser bem sucedidas. Em contraposição, a estratégia que pretendo seguir me parece ter ao menos a virtude de conduzir-nos ao fundo do problema. Ela se aproxima da estratégia dedutivista por admitir princípios indutivistas a priori, embora não-sintéticos; mas ela também retém algo da concepção de senso comum, posto que também pretende demonstrar que o paradoxo humiano tem características de um pseudoproblema. Quero primeiro explicar minha tese geral e depois mostrar como ela se aplicaria a um princípio indutivista escolhido.

1. Minha tese geral possui um leve sabor kantiano, embora sem o indigesto condimento do sintético a priori. Trata-se da idéia de que faz parte de nosso próprio conceito de um mundo (natureza, realidade) qualquer, e mesmo do conceito da experiência de um mundo qualquer, que o mundo ao qual esses conceitos venham a se aplicar seja aberto à indução. Essa é uma verdade conceitual, do mesmo modo que é uma verdade pertencente ao nosso conceito de mundo externo que qualquer mundo externo ao qual esse conceito se aplique possa ser de algum modo apresentado à percepção sensível. Definindo um mundo como um conjunto maximamente extenso de entidades compatíveis entre si, o argumento é o seguinte. Para nós um mundo empírico só pode existir se ele for ao menos concebível. Mas não podemos conceber um mundo sem nenhum grau de uniformidade, ou seja, de regularidade. Ora, como só podemos experienciar o que podemos conceber, então não podemos experienciar nenhum mundo completamente destituído de regularidade. Mas como a existência de regularidade ou uniformidade é o que basta para que algum procedimento indutivo seja aplicável, então não há para nós nenhum mundo concebível nem experienciável que não seja aberto à indução. É, pois, uma verdade conceitual que se um mundo nos for dado então procedimentos indutivos serão aplicáveis a ele.
     A objeção a essa tese é esperada: o que nos autoriza a supor que não possa existir um mundo caótico, um mundo destituído de qualquer regularidade e, portanto, fechado à indução? A generalizada crença nessa possibilidade tem sido a meu ver um grande erro, cuja responsabilidade deve ser atribuída a David Hume. Esse erro foi logo de início introduzido pelo fato de Hume ter elegido a regularidade causal como foco de sua discussão e mesmo pelos exemplos por ele escolhidos. No que se segue quero justificar esse ponto.
     A regularidade causal é o que eu gostaria de chamar de uma regularidade diacrônica, qual seja, aquela na qual um fenômeno dado vem regularmente seguido por outro no tempo. Tais regularidades constituem aquilo que poderíamos chamar de o devir do mundo. Mas podemos conceber um mundo sem um devir, sem regularidades diacrônicas, incluindo entre elas a regularidade causal. Esse seria o caso de um mundo sem mudança, estático, congelado. Ainda assim parece que ele poderia ser corretamente chamado de mundo. Talvez seja mesmo concebível um mundo possuidor de devir que seja suficientemente caótico para que nele não encontremos regularidades diacrônicas capazes de funcionar como leis científicas que nos permitam prever acontecimentos futuros. Seja como for, se nos concentramos nas regularidades diacrônicas e pensamos nelas como se fossem todas as regularidades existentes em um mundo, não parece impossível a existência de mundos que não possuam tais regularidades. Afinal, esses mundos sem regularidades diacrônicas são concebíveis e mesmo em princípio cognoscíveis, embora fechados à indução no que concerne a elas. O problema com esse foco argumentativo humiano é que ele nos desvia a atenção do fato de que um mundo empírico é igualmente constituído de regularidades sincrônicas, as quais, tanto quanto as regularidades diacrônicas, só podem ser conhecidas através de procedimentos indutivos. Mas o que são as regularidades sincrônicas? Eu as defino como sendo as relações simultaneamente vigentes entre os fenômenos, na medida em que elas perduram no tempo. Esse é o caso das relações que existem entre as faces de um cristal, para tomarmos um exemplo distintivo. É a indução que deve justificar a persistência das relações sincrônicas, fazendo-nos saber, por exemplo, que o cristal permanecerá reconhecível como sendo o mesmo quando observado outras vezes no futuro. O domínio das regularidades sincrônicas é extremamente amplo, dado que não só qualquer objeto, mas qualquer propriedade complexa e qualquer estado de coisas reconhecível possuem relações constitutivas entre suas partes, relações essas que devem perdurar enquanto o objeto, a propriedade ou o estado de coisas existirem. Outro nome para as relações sincrônicas é estrutura. Regularidades sincrônicas são estruturas que perduram no tempo. Assim como um mundo congelado, sem regularidades diacrônicas, se apresenta como algo idealmente concebível, o mesmo se dá com um mundo sem regularidades. Esse mundo minimalista pode ser ao menos ilustrado quando pensamos nele como sendo constituído de repetições, regulares ou irregulares, de um único ponto luminoso, ou de um único som.  Mas o que dizer de um mundo sem ambas as espécies de regularidade, sem estrutura nem devir – é ele concebível? A resposta é clara: um mundo sem regularidade alguma não é de modo algum concebível, não sendo, portanto, acessível à experiência. Não podemos pensar nenhum conjunto de elementos empíricos compatíveis sem lhe dar alguma estrutura ou devir. Mas se é assim, se um mundo sem regularidades é algo inconcebível, considerando que a existência de regularidades é condição necessária e suficiente para a inferência indutiva, então não é possível que exista um mundo que não seja aberto à indução. Onde há mundo precisa haver alguma regularidade, e onde há alguma regularidade algum acesso indutivo é logicamente possível. Conceber um mundo ao qual a indução não se aplica redundaria, pois, em conceber um mundo sem regularidade de nenhuma espécie, o que contradiz nosso próprio conceito de mundo.
     Resumindo o argumento: o argumento de Hume nos ignora que o mundo seja também constituído de regularidades sincrônicas, o que nos induz a crer que possamos conceber a existência de um mundo inteiramente caótico, destituído de qualquer regularidade. Quando levamos em consideração ambas as espécies de regularidade, percebemos que um mundo inteiramente caótico, sem qualquer regularidade, é impossível, pois qualquer mundo possível é feito de suas regularidades, sendo por isso intrinsecamente aberto à indução.
     Uma constatação que corrobora essas considerações foi feita por Keith Campbell.  Como ele nota, para que possamos experienciar cognitivamente um mundo – uma realidade objetivamente estruturada – é preciso que estejamos continuamente reaplicando conceitos empíricos, os quais, por sua vez, para serem fixados, aprendidos e usados, exigem uma reidentificação dos designata de suas aplicações como sendo idênticos; ora, isso só é possível se houver certo grau de uniformidade no mundo, que seja suficiente para permitir a reidentificação. Com efeito, se o mundo pudesse perder totalmente as suas regularidades – não só as diacrônicas, mas também as sincrônicas – então nenhum conceito mais se reaplicaria, a experiência do mundo cessaria e ele deixaria, para nós, de existir.
     Mas não poderia existir um mundo parcialmente caótico, com um mínimo de estrutura ou uniformidade, a qual mesmo assim fosse insuficiente para a aplicação de procedimentos indutivos? Parece que não, pois a indução tem uma natureza auto-ajustável, ou seja, a aplicação de seus princípios deve ser sempre calibrável em conformidade com aquilo a que eles se aplicam. A exigência de base indutiva, de uma repetida e variada experimentação indutiva, pode ser tornada sempre maior, quanto mais improvável for a uniformidade esperada; por conseguinte, mesmo um sistema com uniformidade mínima, exigindo uma máxima busca indutiva, sempre acabaria possibilitando o sucesso indutivo.  Ou seja: basta haver alguma uniformidade para que alguma exigência de base indutiva nos permita idealmente encontrá-la.
    Essas considerações gerais sugerem um entremeado de inferências conceituais, pois a aplicabilidade de conceitos empíricos, a efetiva experiência cognitivo-conceitual do mundo, a aplicabilidade de procedimentos indutivos e a existência de regularidades no mundo (existência do próprio mundo) se deixam inferir entre si. 
     A meu ver tais conceitos são internamente relacionados entre si no sentido de se derivarem extensionalmente uns dos outros, do mesmo modo que o conceito de percepção sensível se deriva extensionalmente do conceito de experiência e vice-versa (onde houver percepção sensível haverá experiência e vice-versa, embora os sentidos e as entidades referidas por esses termos sejam diferentes). Por esse meio, ao contrário do que Hume acreditava, quando adequadamente entendidos os princípios da uniformidade deverão revelar-se verdades analítico-conceituais, ou seja, verdades da razão aplicáveis a qualquer mundo possível. O objetivo passa agora a ser o de estabelecer esses princípios de maneira mais adequada, como verdades conceituais.

2. Para mostrar como a sugestão recém-apresentada poderia ser aplicada à reformulação dos princípios da uniformidade ou indução, gostaria de reconsiderar PF em algum detalhe. Seria possível transformá-lo em uma verdade conceitual? Entendo uma proposição analítico-conceitual como sendo aquela cuja verdade depende apenas da combinação de seus constituintes semânticos. Essa verdade caracteriza-se por não ser ampliadora de nosso conhecimento (opostamente às proposições sintéticas), possuindo como critério de identificação a característica de sua negação implicar contradição ou incoerência ou impossibilidade de ser concebida.
     A questão que se coloca é se PF, afirmando que o futuro será semelhante ao passado, é capaz de satisfazer essa caracterização usual de analiticidade. Parece que não. Hume disse que não. Como já vimos, ele considera que podemos conceber que a neve passe a queimar como fogo e que as árvores passem a florescer no inverno... Mas esses exemplos de Hume são tão sugestivos quanto ilusórios, pois como uma enorme multidão de outras regularidades, principalmente as sincrônicas, permanece, eles estão longe de tornar o futuro tão dessemelhante do passado a ponto de invalidar procedimentos indutivos. Contudo, ainda assim parece concebível que algum cataclismo cósmico imprevisível, modifique profundamente o futuro, de modo que ele se torne diferente do passado, o que tornaria PF concebivelmente negável. Contudo, considere a seguinte formulação enfraquecida de PF:

PF1: O futuro deverá ter certa semelhança com o seu passado.

Diversamente de PF, PF1 pode ser claramente entendido como expressando uma verdade analítico-conceitual. Primeiro porque PF1 pode ser visto como satisfazendo a caracterização de analiticidade acima apresentada. Sem dúvida, pertence ao conceito de futuro que ele seja futuro de seu próprio passado. Ele não pode ser o futuro de outro passado qualquer. Mas se um futuro não tivesse nada a ver com o seu passado, não poderíamos sequer reconhecê-lo como sendo o futuro de seu próprio passado, pois ele poderia ser então o futuro de outro passado qualquer. Em outras palavras: o futuro F do mundo atual m só pode ser o futuro de m, ou seja, Fm, que só pode ser o futuro do passado de m, ou seja, Pm; ele não pode ser o futuro dos outros inúmeros mundos possíveis m1, m2, m3... que tiveram como passados Pm1, Pm2, Pm3... É preciso, pois, que haja algo que identifique Fm como sendo o futuro de Pm. E esse algo só pode ser uma margem de semelhança. Ou seja: a noção de futuro deve se encontrar de alguma forma conceitualmente ligada à noção de seu passado como lhe sendo em alguma medida semelhante. Assim, PF1 satisfaz a nossa caracterização de analiticidade. Mais além, PF1 não amplia nosso conhecimento e satisfaz o critério de identificação de proposições analíticas, pois não parece que sejamos capazes de pensar que o futuro não possua qualquer semelhança com o seu passado sem inconsistência.
     Com efeito, parece que toda vez que, na tentativa de rejeitar PF1, concebemos uma dessemelhança tão grande entre futuro e passado que invalide todos os procedimentos indutivos, falhamos em conceber uma natureza, um mundo objetivo minimamente estruturado. Esse ponto pode ser facilmente ilustrado através de exemplos. Imagine, em uma tentativa de imaginar um futuro completamente diverso de seu passado, uma “completa transformação do mundo” como a narrada no livro bíblico do Apocalipse. É difícil imaginar alterações mais drásticas do que as que foram aí descritas. Afinal, trata-se da narração do próprio fim do mundo por nós conhecido! Mas é um erro pensar que a destruição de nosso mundo descrita no Apocalipse implicaria em uma negação de PF1, posto que a idéia de uma “completa transformação” não é aqui entendida em um sentido literal. Se examinarmos o texto mais de perto veremos que a grande maioria das coisas com as quais estamos familiarizados – ou seja, as regularidades sincrônicas básicas e mesmo a maioria das regularidades diacrônicas – continua inalterada após a transformação, embora elas tenham sido bizarramente combinadas, como na passagem bíblica descrevendo os gafanhotos enviados pelo quinto anjo:
O aspecto desses gafanhotos era o de cavalos aparelhados para a guerra. Nas suas cabeças havia uma espécie de coroa com reflexos dourados. Seus rostos eram como os de homem. Seus cabelos como os de mulher e seus dentes como os dentes de leão. Seus tórax pareciam envoltos em ferro e o ruído de suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos correndo para a guerra. Tinham caudas semelhantes à do escorpião, com ferrões e o poder de afligir os homens por cinco meses.
     Ora, nada há nesse relato que ponha PF1 em questão. Aliás, um exame acurado do exemplo demonstra que ele sequer põe PF em questão! Pois embora esses gafanhotos bíblicos se nos afigurem delirantemente estranhos, eles são constituídos por combinações de partes com as quais estamos muito bem familiarizados – como cabelos, mulheres, homens, dentes, escorpiões, ferrões – as quais incluem internamente e externamente uma vasta soma de regularidades, de associações estruturais (como rostos de pessoas) e seqüenciais (como a relação causal entre a ferroada do escorpião e os efeitos do seu veneno nos seres humanos por certo tempo, além de inúmeras outras menos aparentes), que permanecem preservadas e indutivamente acessíveis, a despeito das alterações. Com efeito, se não fosse assim o Apocalipse não seria compreensível, pensável, concebível, nem passível de descrição lingüística, e o que não é nada disso é também impossível de ser experienciado. O relato ilustra a idéia já mencionada de que o mundo futuro precisa, ao menos na medida em que ele se encontre suficientemente próximo do presente, continuar suficientemente semelhante ao seu passado para que se deixe conceber como o futuro desse mesmo passado, ou seja, ele deve continuar suficientemente semelhante ao seu passado para caucionar a aplicação de procedimentos indutivos no reconhecimento de sua continuidade como mundo.
     Mas o que dizer de um futuro imensamente posterior ao presente? Ele não poderia ser totalmente diferente do passado? Parece que sim. Se interpretássemos PF1 como podendo se referir a um futuro remotamente distante, destacado de todos aqueles que lhe antecederam, então parece claro que PF1 poderia ser falseado, pois não é inconcebível que uma seqüência contínua de pequenas alterações possa no curso de um tempo muito longo dar lugar a alguma coisa completamente diversa. Mas não é nesse sentido que eu pretendi entender PF1, pois quando o apresentei já estava implícito que ele dizia respeito ao futuro que vem imediatamente após o presente.
     Essa última consideração nos conduz a outra verdade conceitual, constatável na relação considerada por PF1. É que quanto mais nos aproximamos do ponto de junção entre o futuro e o passado, ou seja, do presente, maior deve ser a semelhança entre ambos. Esse ponto é evidenciável com base na análise aristotélica da mudança como pressupondo a permanência de um algo que continua idêntico e que sob forma contínua ganha ou perde.  A sugestão é a de que toda mudança pressupõe alguma base de permanência, ou seja, alguma regularidade sincrônica (estrutural), o que não só permite a inferência indutiva, mas a requer para ser conhecida.
     Mas isso não é tudo. Uma importante constatação que ainda precisa ser feita, agora sobre a medida da permanência do que é pressuposto. É que enquanto se dá a mudança, a medida da permanência precisa ser de algum modo inversamente proporcional ao período de tempo em que a mudança se dá. Mais precisamente: se nos é dada uma sequência de mudanças que fazem parte de uma mudança mais completa, as mudanças que fazem parte da sequência pressupõem mais permanência do que a mudança mais completa.
     Esse princípio pode ser ilustrado através de um exemplo: considere as mudanças resultantes do aquecimento de um pedaço de cera. A mudança do estado sólido para o estado líquido pressupõe a mesma cera como material. Mas a mudança seguinte, da cera líquida para a cinza de carbono, pressupõe apenas a permanência da matéria (átomos de carbono). Eis um esquema mostrando como as mudanças pressupõem maior permanência quanto mais parciais e mais breves elas forem:

    Entidades físicas:            Curso do tempo:
                                             Momento 1:        Momento 2:        Momento 3:
     Cera sólida:                     ============
     Cera líquida:                                           ==============
     Cinza:                                                                                  ==============    
     Cera:                                 ========================
     Átomos de carbono          =====================================

Do momento 1 ao momento 2 pressupõe-se como permanente a cera e os seus constituintes atômicos, que são átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio. Já do momento 1 ao momento 3 pressupõe-se como permanente apenas os átomos de carbono. Note-se que esse modelo não se restringe a mudanças no mundo físico-material. Em alterações psicológicas, sociais, econômicas, enfim, em qualquer outro domínio que venhamos a imaginar, o mesmo modelo se repete, o que demonstra pertencer à própria estrutura do mundo da experiência possível que as mudanças que se dão em um período de tempo mais curto pressuponham mais permanências do que as mudanças mais completas em que elas tomam parte. Uma conseqüência disso é que o futuro mais próximo de nós deve, por necessidade, ser mais semelhante ao seu passado que os futuros mais distantes (os quais, como vimos, podem se tornar irreconhecivelmente diversos do presente). No que concerne à indução, esse princípio garante que as previsões indutivas se tornem tanto mais prováveis quanto mais próximo for o futuro ao qual elas concernem.  Com base nisso o princípio PF1 pode ser aqui precisado como:

 PF2:
Quanto mais próximo o futuro estiver do ponto de junção com o seu próprio passado, mais ele precisará se assemelhar a este seu passado.

       É preciso notar que PF2 requer uma cláusula complementar. É preciso adicionar que com esse princípio nos referimos sempre a um futuro que se prolongue a partir do presente e que esteja suficientemente próximo deste, uma vez que é necessário que se trate de um período futuro que contenha a continuação de mudanças iniciadas no passado. Se essa cláusula adicional não for mantida fica aberta a possibilidade de que o futuro a ser considerado na aplicação de PF2 seja um futuro destacado do presente e distante demais, de modo que para ele a exigência de permanência não mais valeria, ou então que se trate de um período de tempo futuro que embora realmente unido ao nosso presente, é demasiado longo para que em toda a sua extensão seja demandada alguma permanência do que se passou até o presente.
     Pode ser que PF2 demande aperfeiçoamentos. Mas ainda assim parece-me que se bem compreendido ele já satisfaz claramente a caracterização de analiticidade aqui admitida, pois ele demonstra pertencer ao próprio conceito de futuro que vem logo após o presente que ele se assemelhe exponencialmente mais ao seu passado, quanto mais próximo ele estiver de seu ponto de junção com o seu passado, convergindo para uma identidade no próprio ponto de junção. Além disso, PF2 satisfaz a condição de identificação da proposição analítica: não se pode negá-lo sem incoerência.
     Por ser assim parece-nos natural pensar que quanto mais distante do ponto de junção com o seu passado um período de tempo futuro estiver, menos prováveis serão as previsões indutivas a ele concernentes. Isso ajuda a explicar porque as nossas generalizações indutivas sobre o futuro nunca chegam a ser sobre um futuro indefinidamente remoto, como pode parecer a um primeiro exame. Quando dizemos, por exemplo, que a indução nos permite inferir que o Sol sempre nascerá, ‘sempre’ é uma palavra que deveria ser colocada entre aspas. Faz sentido afirmar, tendo como base indutiva o fato de o Sol sempre ter nascido, que ele nascerá amanhã e mesmo daqui a mil anos. Mas não faz sentido algum (e na verdade a astronomia sugere ser preditivamente falso) usar a mesma base indutiva para dizer que o Sol nascerá daqui a 17 bilhões de anos.
     Finalmente, PF2 pode garantir aplicações restringidas de PF, tornando PF analítico no domínio dessas aplicações: se o futuro em questão estiver suficientemente próximo de seu ponto de junção com o passado, então este futuro será necessariamente semelhante ao passado. O problema, naturalmente, é que nos falta estabelecer critérios para sabermos o quão próximo precisa estar um futuro do seu passado para que PF a ele necessariamente se aplique. Podemos especular se a resposta não depende do domínio de regularidades (de um "submundo") ao qual pertence a mudança que está sendo considerada, um domínio de regularidades sendo aquele ao qual se aplica todo um sistema de crenças bem entrincheiradas umas nas outras. Assim, a conclusão indutiva de que sol nascerá amanhã pertence ao domínio de regularidades implicadas nas mudanças investigadas pela astronomia, o que inclui um futuro muito distante para que as mudanças mais amplas aconteçam, como, por exemplo, a morte do sol. É possível, embora muito improvável, que o sol não nasça amanhã, como o próprio procedimento indutivo prevê. Mas isso só será concebível ao preço de uma imensa perda de outras regularidades e, subseqüentemente, de nossa inteligibilidade de grande parte da natureza que nos cerca.
     Ainda assim, o que nos faz considerar altamente provável a permanência futura de regularidades particulares, como a de que o sol nasce a cada dia? A resposta parece partir da admissão inevitável do fato bruto de que o mundo existe como um sistema de regularidades, posto que podemos concebê-lo e dele ter experiência. Junto a isso assumimos (e o fazemos como uma verdadeira e inevitável aposta!) que esse sistema de regularidades que é o mundo permanecerá existindo.  Mas uma vez admitido isso, parece que somos mais facilmente induzidos a admitir como provável a existência de certos domínios coesos de regularidades (os "submundos") e das regularidades particulares implicadas nesses domínios como sendo de permanência provável. A conseqüência desse modo de conceber as coisas é que se rejeitarmos a permanência futura de uma regularidade – como a de que o sol deve nascer a cada dia – precisaremos rejeitar a permanência futura de todo o domínio de regularidades no qual ela se inclui. Mas como a própria probabilidade da regularidade em questão é medida com base na admissão da permanência futura desse domínio de regularidades, deixa de ser racional que nós a coloquemos em questão.
     Os argumentos que acabo de expor são certamente esquemáticos e inconclusivos, encontrando-se ainda longe de configurar uma resposta adequada ao problema da indução. Mas eles indicam uma direção que parece certa, o que já pode ser de alguma ajuda para um problema que de outro modo tem se afigurado desorientador e intangível. Afinal, o que mais se pode esperar da filosofia?

Bibliografia:
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Teichman, J. & C.C. Evans: Philosophers: A Beginners Guide (Oxford: Blackwell Publishers 1991).
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