quarta-feira, 9 de maio de 2012

A LITERATURA MALDITA DE OIDUALC ATSOC

texto incompleto


OS FUNERAIS DE APOLO




                                                                     OIDUALC ATSOC
  
   Editora Scortecci
    São Paulo
   2011






    Se você se vê como um penetra no banquete da vida, achando literatura um pé-no-saco e sentindo náuseas ao entrar em livrarias... então pode ser que esse livro lhe seja indicado.
   Oidualc Atsoc é o alter-ego literário de Claudio Costa, professor universitário melhor conhecido por suas turbilhonantes contribuições para a filosofia neoclássica pós-analítica anti-contemporânea. Os Funerais de Apolo é um trabalho experimental, escrito na juventude e só agora relutantemente dado a público.








PRÓLOGO


     Oh, idólatras adoradores do sol! Vós que crédulos confiais em uma incerta miragem do além-mundo. A pura beleza, luz decantada de perfeições. Eis aí o cadáver de um deus! Uma divindade imberbe que não gostava de vinho e nem ao menos sabia dançar.
     Que está morto não tenham dúvidas. Não respira. Dentro do peito já não bate o trêmulo coração, e o corpo principia a entrar em rigor mortis. Breve será a vez dos trabalhadores da morte.
     O diagnóstico é duvidoso. Mas desconfio que tenha sido vital à sua psicologia divina, que pela relaxada indolência de seu caráter ele tenha se deixado abandonar em um circo infecto, contentando-se com as acrobacias verbais de um arlequim grotesco a tapear em farsa servil a sua pobre impotência; domando os mesmos ursos, que sempre tomaram o cuidado de vestir novas peles; fingindo voar ao cair do trapézio e depois espatifando-se no solo; enfiando a cabeça na boca babosa de velhos leões desdentados; – os coelhos eternamente os mesmos, retirados sempre da mesma cartola. Tudo para um mesmo e fiel público: abestalhados comedores de pipoca, sempre ávidos de prazeres pueris.
     Mas... what’s done cannot be undone. E que por um breve momento, ao menos, sua principal carpideira, o poeta, seja ouvida.

































A. LÍRICA


The sun is rising
If the sun rises, the flowers rise too.
I like the sun;
The sun is the hot of human bodies.
Because if the sun rises
The man awakes.
Green Leaves





























Uma Flor


Eis
Uma flor
 – Desgastada
 – Perdida
 – Sumida
 – Na insípida, úmida e fria
 – Cidade do adeus.


Que:
Corre com seus passos leves no curto espaço de seus sons imutáveis
Sem eco
Mudos e rutilantes, bem como anelantes da fala inarticulada
de uma lira inexistente que toca sem cessar ao longe em momentos de adeus.


Choras então:
O choro indolor que te puseram ao experimentar a cruel e delicada, dolorosa e fóssil, insignificante e séssil, obscena e dourada, bem como pedunculada

– Flor
– Desgastada
– Perdida
– Sumida
– Na insípida, úmida e fria
– Cidade do adeus.












À noite

Em silêncio despertáramos no vácuo
Nada sob os pés na escuridão vazia;
Nus em um gélido deserto
Flutuávamos no ignorado leito dos sonhos.
Então uma escuridão aconchegou-nos aos braços
E fez-nos dela um suspeitoso ninho
Onde a amargura alternava-se ao delírio.

(Então sentimento de pequenez e imensidão infinitas
Acercara-me o espírito
E meu corpo era carente de formas, tempo ou vida;
 – Que imaginário fosse, era necessário vê-la,
Para vendo-a refletir-me em seu olhar.)

Ah! Indecifráveis loucuras do imaginário!
Loucuras da memória que se agita entre coisas proibidas.
Pálidas canções com que nos vemos
A tão branda e tão sólida esperança.

Ah! Branca voragem de sonhar a quem amássemos
Fim de um vácuo silencioso;
Gélido deserto por onde se agita um delírio inquieto.


























SATÍRICA


                                              Somos unas ervitas; pequeñitas
                                              Masticadas al sabor del viento
                                              Por la grande vaca cosmica.
                                              Mario Gabaldo












Estase e êxtase

Agora o fogo é brando e a chama não queima
Ares, Cronos, Atenas e Apolo
Tomaram o lugar dos deuses brincalhões
Como Dionísio e os Sátiros.
Agora o pranto molha o rosto e o pranto
                          não tem consolo.
Periquitos depenados são cozinhados
                          em frigideiras de aço,
Uma multidão de corvos alça vôo
                          e obscuresce o sol,
E os girassóis sofrem de torcicolo
                          – de tanto procurar.
Do mágico encantador de serpentes, resta apenas
                          a ventríloqua sombra
E olhos violentadores rasgam
                          o ventre pálido das mentes.
Agora silêncio culpado borra a noite
                          em perpétua núvem.




A árvore foi tombada
E em seu lugar
Construiu-se uma estátua;
Homenagem ao soldado desconhecido,
Também chamado o soldado cagão.
Mentiroso e covarde.



Agora
Ainda
Agora
Em cálidos suspiros tudo se põe a revolutear
O ar, a água, a terra, o fogo e o ar,
Sinfonia das almas que vestem-se de ar.
Agora
Ainda
Agora
Sob líquidos e folhas dormentes, dança
                                  a dança dos signos
Não em um delírio desconexo, obsceno e louco
Mas no interior de insólitas grades
Jaulas da geometria divina
Bombas aspirante-prementes
Hemisférios de Magdemburg
Câmaras de combustão
Vasos comunicantes
Alcovas que gemem
Shopping-Centers
Prostíbulos
Estábulos
Pocílgas
Cumbucas
Caixões
Caixas
Conas
Cuias
Cuas
Cus




Caixas de Pandora
Conspícuas teias de aranha
Musgosos pântanos de lodo
Leitos imóveis por onde correm os rios.
..............................................................

O implacável relógio do mundo
A marcar
Transformações obscenas...
A dor lancinante do prisioneiro pensar
A terrível ordem sob a mais absurda loucura
E a tudo submeter sua lei.
DURA LEX,
SED LEX.







A canção das bestas



I

Imóvel sob o infinito azul de cobalto,
A besta dorme em seu leito incauto.
Eu assisti ao desmame das bestas
A besta cor de rosa
A besta amarelo limão
A besta verde esmeralda
A besta azul de cobalto
A besta dorme em seu leito incauto.
A besta amarela
A besta ocre
A besta ruiva
A besta loira
A besta negra.
Gemendo gemendo numa orgia frenética
Bestas de todas as cores e crenças.
Vejam vejam, bestinha e bestão bostão!
Eu assisti ao desmame das bestas.


II

A besta cheira mal
A besta anda gingando
A besta não escova os dentes
A besta almoça arrotando.
Besta que não sabe chorar nem rir.
A besta dança a passacáglia de Bach
Dança quando não é para dançar
A besta canta o minueto de Bach
Canta quando não é para cantar.
Besta que não sabe rir nem chorar.



III
Assim me pareceu
Toda a humanidade
Com exceção
Da minha augusta e nobre pessoa
Também considerada por muitos
– Uma besta.


IV
Amordaçado erro pelos andares da noite
Aqui a nulidade acavala-se na nulidade.
Um vento frio queima-me a face
Meus olhos vazios procuram
Os sonhos daquela
Que se desfaz na aurora.
Açoitado pelos ventos
Alvejado pelas costas
Cego na escuridão...
Eu sou o valente soldado
Que acaba de morrer
Sobre uma fonte de águas cristalinas.











Não era minha

Encontrei uma florzinha
Muitas cores ela tinha
Era bem pequenininha
Mas não era minha.
Almocei uma franguinha
Que virou uma galinha
Dos galos era a rainha
Mas não era minha.
Eu catei uma pulguinha
Que sabia dançar sambinha
Que bundinha que ela tinha
Mas não era minha.
Ela era cachorrinha
Sua dona uma gatinha
Que tinha uma escrivaninha
Que também não era minha.










Trova D’amour

Cerca-me cândido olhar
Ao tremor do vento vêm-me
A intranquila lembrança
Desesperadamente triste
Como a lágrima de esperma
No olho cego do Cíclope.
Agora ao penetrar tateante e intumescido
Em anti-platônicas cavernas do desejo,
Vermelhos labirintos de limbo contráctil,
(Selva selvaggia, áspera e forte)
Onde geme o Minotauro;
Agora o coração fremente
Lembra ainda
No leito mágico dos sonhos
Teu oferecimento de noite molhada.
Manhã congelada de enigmas.











O velho e a cítara



Não pleno é o riso que a tristeza infinda.
No obscuro bosque dos escaravelhos vermelhos,
Entranhas amolecidas, borram em gotas
                             Orvalho sanguinolento
Fetos anencefálicos gemem baixinho
                             Sob escombros
Sombras exalam vapor úmido de cadáveres
                             Putrefeitos
E abrindo serenos à suavidade singela de uma
                             Clareira
Penetram suaves, enverdecidos raios de um sol
                             Crepuscular.

Imerso em bruma adolescente ancião nu e calvo
Sobre toco oco morto de abeto cinzento acomodado
E de singulares orquídeas arborescentes
                             Em guarnição cercado
Ao odor nauseante que enche o ar
Despreocupadamente entre as feridas
Belas moscas azuis passeiam
(Na natureza há lugar e tempo para todos)
E o sangue escorre rubro à santa sombra.



Trás no ânus enfiada culposa adaga
Lâmina ponteaguda que o dilacera internamente:
                           – Incicatrizável ferida indissolúvel
                           – Necrose indissolúvel
                           – Fibrose indissolúvel
                           – Adenocarcinoma indissolúvel
                           – Deliciosa neoplasia em couve-flor
Tudo isso acabando por despertar-lhe sutil prazer
Branco e obsoleto
Pois que lenta e ritmadamente
Eterno, eternamente se regenerando,
Na lâmina ponteaguda o ânus
Se abrindo e fechando.
E o sangue escorre rubro à santa sombra.

Nina ternamente
Irônico em sofrimento
Discreto
À sombra,
Pois que ela se ronca pesadamente
Dentro do
Toco
Oco
Morto
Imenso
De abeto
Cinzento.


Que se próximo ao nariz cítara marrom ergue
Que se da qual elaborar-se faz
Que se pleno
Que se plenamente se fazendo e desfazendo
                                (andante con sustenuto)
Nas diacronias involuntárias do fantasmático tempo
Entre folhagens e trevas crescendo simbólicas
Sutilmente evanescentes à santa sombra
De uma lira inexistente que toca sem cessar
A lembrar remotamente
Em momentos de adeus
Voz distante
Triste canto
Inexistente
Ao longe
Singelo
BELO
BELO
BELO.




Que amarelecida pelas pressas da milenia
E desconexões do inalterável
À sua frente
De tépida luz rósea banhada
Bela escultura de mármore iluminada
Tronco de uma mulher nua
Em que se nota
A falta de corpo
A falta de membros
E principalmente
A falta
Absoluta
Da cabeça.



Imóvel olhar sorridente
Atento à dispersa canção
Enigmática estátua muda
Puro reflexo de ser
Em obsequioso estupor.
Isso era o que bastava
Para que porco lúbrico
Fiel e libidinoso
Ele se entregasse
À melancólica canção
Cerebral masturbação
Inconseqüente
Incongruente
incoerente
Inquietante
Incessante
Infinda
FINDA
FINDA
FINDA.













RIDICULÍSTICA


                                           O ideal da arte ridícula seria reinventar,
                                           não  aquela  que  satirizasse  as  coisas
                                           mesmas,  mas que por elas reconheça e
                                           destine a sátira  do  próprio  meio  pelo
                                           qual opera.
                                           Alexeno de Óspota












ODES AO ÓPIO




Enunciamento

As poesias aqui apresentadas são cinco prelúdios ao nada
Que compõem as odes ao ópio.
Mas que se entenda o mencionado ópio
Não no sentido literal e vulgar do termo
Mas num sentido transcendente, burlesco e metafórico
Como homenagem a Baudelaire, o poeta hiperbólico
Ou então
Como consolo último a neoplásicos estropiados e caquéticos.
A seqüência começa como uma mera evocação
Passando por uma homenagem a Dionisius
Deus do prazer e da criação.
E numa abstração crescente
Revelando-se sempre mais e mais mordaz e descrente
Termina enfim numa assaz enigmática
Veneração ao nada, que tenta explicitar
O canto que uma bolha faz ao arrebentar!
Vamos então a elas:






1. Evocação

Ó aurora! Aurora que já tão cedo
                             Me anuncias o teu crepúsculo.
Sim! São teus seios que derramam o leite
                             De meus receptáculos.
Ó estígmas! Frios estigmas de um desastre
                              Obscuro.
Sim! São tuas marcas que me escandem
                              Tua luminosidade.
Ó divina e graciosa poesia
Musa opiácea da pressão paradigmática.
Por sobre essa orgia de luminescência
Fala-me de teus mais profundos anseios
Enquanto dura a imensidão do dia
E não se rende à noite
Até que ela o extermine.






2. Epístola a Dionisius

Lírica epístola
Triste canto
Etimbotúlico estribo
INSPIRADO E PIRAMBÓLICO.
Dos descrédulos vôos dos loucos
Da loucura dilacerada
Da loucura iluminada
Da loucura infinita
Da loucura bendita de um mercenário deus
INSPIRADO E PIRAMBOBÉLICO
Que
CATASTRÓFILO
CATASTRÓFILICAMENTE
CATASTRÓFILOSIFILITICAMENTE
CATASTRÓFILOSÓFICOSIFILITICAMENTE
(Evidente alusão a Nietzsche)
Anuncia o fim dos humanos sonhos
E o começo dos divinos.
Esta é a lírica epístola a Dionisius
Triste canto
Etimbotúlico estribo
INSPIRADO E PIRAMBOBÓLICO.






3. O mijo dos sapos

Os sapos mijam
Na madrugada cinzenta
Pobres escrementos esquecidos
No amor do pudor do sapo.
Duvidosamente violáceos!
Bem como arborescentes e descrentes.
É assim que o jardim
Acorda de seus sonhos,
Isto é:
Pelo mijo dos sapos
Na madrugada  cinzenta.






4. Ruvstoff

RUVSTOFF! Ó pássaro do amanhã!
Tremblor for mon cour.
(Iliadilicamente falando:
ARE YOU A THUNDER BIRD?
– No... No...
   Cou... Cou...)
RUVSTOFF! Ó pássaro do amanhã!
Fecha as tuas pequeninas asinhas
E repousa silencioso em teu ninho
Para que os outros pássaros não te descubram.






5. Burlupt: o que uma bolha diz

Falando a um lêmure hipo-ortodoxo
Penso na tumba bumba pra penso falando.
BURLUPT... BURLUPT...
Umba Bumba Tumba Retumba pra penso falando
Assim como
Pra falando penso Retumba Tumba Bumba Umba
Porque
Se o puro delírio toma os sentidos
Se a carne freme ao impacto colinérgico
Então
Umba Bumba Tumba Retumba na falando penso
Porque
BURLUPT... BURLUPT...
Pra penso falando Umba Bumba Retumba
Porque pra falando penso Retumba Bumba Umba.










CANÇÕES DO LOUCO ALEGRE

Mental sanity is a form of imperfection.
                             Charles Bukowski







1. Formas hipotéticas

                        Formas hipotéticas
                        Das iris dos teus olhos
Nada certo, nada seguro
Pois as lápides cinzentas do futuro
                        As formas hipotéticas
                        Das íris dos teus olhos prenunciam.






2. O pato hermenêutico

“Quá-Quá” tentou grasnar o pato-prato Sadia
Mas mais não fez que grunhir seu “Huga-Huga”
Pois não era pato nem prato nem paca ou cutia.
Não tem Quá-Quá.
Não tem rosto nem personalidade
O pato monárquico!
Pato esquálido e pálido
Embrulhado em elástico plástico.









4. Cantata de Vogel

VOGEL
VOGEL
Libelo nascente
Perpétua bruma insurgente
Que em teu repouso de verde relva florescente
Acalentando o vaguear de pássaros
Despede-se insubmissa
Despe-se submissa
Emerge distante
E a eles se abandona...
VOGEL
VOGEL
 – Teu cérebro mastiga insólitos miriápodos
 – Frias râs coaxam por tua boca
 – Lobos ouvem por teus gélidos ouvidos
Chama que eternal se partira,
Tu me esperas sob a relva adormecida.


A um lamento surdo em entrecenas doiradas
Em YAKASSULKA o espetáculo recomeça.
Teatro de insanos
Que alegres enxameiam o paraíso
Ou tristes encerram-se em seus círculos mágicos
Que saltam precipícios
Que correm alucinados
Que morrem grudados
                             – lama doirada
                                de
                                YAKASSULKA
                                YAKASSULKA.



Lá fora a voejar como mosca
Sobre a carne verde dos mortos
A água que goteja do seu mijo
De seu cérebro sendo decantada,
Lá fora a voejar como mosca
Sobre a carne verde dos mortos
PROSEMBEMBÓLICO E ROTUNDO
o homo sapiens, sapiens, sapiens.


No branco teatro de YAKASSULKA
Vogel despede-se de mim:
Vogel de Vogel-Vogel despede-se.











                          



CONTO INFANTIL


                                                                        I
                                                                                                      L’amour est un caillou
                                                                                                      Riant dans le soleil.
                                                                                                      Jacques Lacan
             
Foi uma vez, há muitos e muitos anos, nas longínquas terras do reino encantado da Gatolândia, mais distante do que a perdida Cochinchina, a fantástica Passárgada e mesmo a incrível e perfeitamente inacreditável Momolândia. Rosmildo, chamava-se ele; um pobre e solitário ratinho sofredor, que de há muito vivia refugiado em sua humilde toquinha. Quase não ousava sair, pois lá fora rondava furioso o guardião da gatocracia do castelo; um enorme gato com unhas e dentes afiados chamado Gam-Gão. Terrível, ele era temido por todos os animais pequenos da redondeza.
     Mas nem só de medo vivia o ratinho. Também de respeito e consideração. E presumivelmente de amor, pois no fundo mais recôndito de sua terna alma feminina ardia o fogo de uma paixão que era só febre e delírio. E a mais evidente prova disso era que, por estranho que possa parecer, o único retrato que adornava a sua pobre alcova era uma fotografia em preto e branco que pertencera aos donos da casa, e que Rosmildo havia roubado da cesta de lixo, na calada da noite, enquanto Gamgão roncava. Nela aparecia, levantado sobre as patas traseiras e ostentando um sorriso bossal, nada mais nada menos do que o próprio gatão!
     Para afugentar a sua solidão, Mildinho cantava alto: “Bandeira branca amor, eu peço paz...” e a sua voz se perdia pelos corredores, pelas frestas, pelos esgotos, pelos espaços vazios de sua própria alma. Quando não cantava era possível que estivesse abocanhando torrões de farinha que a muito custo afanava da dispensa, ou então masturbando-se ferozmente em algum oculto cano de esgoto, ou ainda a chorar baixinho a desdita de sua absurda paixão.
     À noite, recolhido em seu leito de insônia, permanecia ele até altas horas mergulhado em suas leituras favoritas, que iam de Emily Brönte a Gustave Flaubert, passando por Baudelaire; ou mesmo a sonhar com aventuras deliciosamente degradantes, cuja inspiração ele hauria do anarquismo dionisíaco-lírico de Rimbaud, cuja Saison ele cognominava “a sonata dos lunáticos que se seviciavam mutuamente ao luar”. E embevecido dizia de si para consigo: “Je suis la Vierge Folle!”, “Je suis le naufragé de L’abisme!” – pois tratava-se de um ratinho erudito e não de uma bicha porca e analfabeta.
     Quanto ao gatão Gamgão pesadão, quando este se aproximava em sua ronda noturna, ocorria-lhe por vezes ouvir aquela cantoria que mais lhe parecia um interminável suceder de grunhidos, gemidos e guinchos, não lhe ocorrendo em nenhum momento que tudo aquilo pudesse ter a mais remota relação com a sua pessoa. É que o seu coração era insensível e vazio, não lhe permitindo desfrutar do sentido profundo, cheio de meiguice, ternura e carinho, oculto sob aquelas dóceis palavras.
     Certa noite afinal, o rato tomou uma decisão que lhe haveria de mudar o curso da existência. Pôs-se diante do espelho, olhou-se furibundo e declarou para si mesmo, alto e de bom som: “Allea jacta est: abravessarei o Rubicão ou meu nome já não é mais Rosmildão! Digam-me, seus lacaios da burguesia hipócrita, pérfidos anões capitalistas, porcos facistas, míseros proletários, insignificantes servos da Gleba, abomináveis metecos, fariseus e saduceus...  todos, todos, espíritos servis! Digam-me: haverá alguma impropriedade, vergonha, mácula ou perfídia, em uma pobre alminha solitária como a minha trazer no peito, silencioso batendo calado, descompassado de amor, um coraçãozinho apaixonado?” Cumprido esse ritual de encorajamento, Mildinho, de natural um rato tímido e medroso, saiu de seu buraco com cautela, mas firmeza de decisão, correu na ponta dos pés e aproximou-se, passo a passo, sem o menor ruído, até junto a uma velha árvore de Natal próxima à lareira, sob a qual, emplachado em um tapete oriental, ressonava enroscado o gordo gatão. Foi com enorme cuidado que Mildinho levantou a orelha do gato e sussurou-lhe ternamente: “Gatão Gamgão, ó luz da minha vida, suspiro do meu coração; eu, Mimildo, te acho um machão!”. Gamgão arregalou o olho malvado, levantou a pata esquerda (ah se fosse a direita!) e deu um pulo em direção a Rosmildo. Teria sido mesmo o fim do rato se o gato não tivesse tropeçado desastradamente no fio do abat-jour, o que apagou a luz e facilitou a fuga de Mildinho que, coitado, só teve mesmo tempo de sumir de volta no mesmo buraquinho de onde saiu, enquanto lá fora enfurecido rosnava e rosnava o imenso gatão. Então, como que para aquietá-lo, Mildinho juntou sofregamente as mãos sobre o peito e cantou na escuridão:

Se il mio nome saper voi bramate
Dal mio labbro il mio nome ascoltate
Io son Rosmildo / che fido v’adoro,
Che sposo vi bramo
Che o nome vi chiamo,
Di voi sempre parlando così
Dall’aurora al tramonto de dì.

     Gatão Gamgão escutou tudo aquilo meio perplexo, a mente entorpecida diante do inesperado. Mas uma vez recobrado do espanto inicial, arrefeceu um sorrizo diante daquela voz sibilina. “Sopranino”, pensou. “Os antípodas se encontram. Nunca pensei que algum dia pudesse vir a admirar o canto lírico, mas sou testemunha de que mesmo aqui há um certo encanto, diria mesmo, uma certa espiritualidade. Ora: afinal também eu sou um ser gatano! E se o rato porventura fala a verdade, é possível que a partir de agora estejam findados os dias de abstinência desse velho e austero celibatário aqui.” Gamgão aproximou-se do buraco no qual se ocultara Rosmildo e, embora sempre dissesse repudiar a sensualidade impudica, licenciosa e afeminada das óperas italianas, dando preferência aos “poderosos e viris constructos melódicos da pesada orquestração wagneriana”, encheu os peitos e berrou:

Celeste Rosmildo, forma divina,
Mistico serto di luce e fior
Del mio pensiero, tu sei regina
Tu di mia vita sei lo splendor
Il tuo bel cieolo vorrei ridarti,
Le dolci brezze del patrio sol,
Un regal serto sul crin possarti,
Erguer-te um trono, vicino al sol.





                                                                  II


                                    Oh, how this spring of love resembleth
                                    the uncertain glory of an April day;
                                    Which now shows all the beauthy of
                                                                                  the sun/
                                    And by and by a cloud takes all the
                                                                                    away.
                                                                         Shakespeare

Era uma bela manhã de sábado. O céu estava límpido e tinha o aspecto promissor de um dia de outono, no país dos gatos. Pouca gente havia na igreja. Para dizer a verdade ela estava mesmo vazia. Pois o resto da gataria decidira não comparecer, em protesto contra uma união que parecia violentar as mais primárias convenções do reino animal. E quanto aos ratos, esses também não vieram, pois temiam que tudo terminasse em um massacre. O sacerdote, um gato velho, alto, magro, de jeito compenetrado, tinha olhos pequeninos escondidos atrás dos óculos de aros grossos, bigodinho retorcido para cima e lábios finos, em cujos cantos pareciam se esboçar alguns traços contidos de sarcasmo felino. Ele justificava a sua presença lendo as escrituras, rezando, arengando cantilenas ininteligíveis, gesticulando e benzendo o casal.  Gamgão, empertigado em um terno azul marinho que ele havia alugado especialmente para a ocasião, olhava para o velho sacerdote com um jeito abstraído. Rosmildo, mais tenso, cobria-se apenas com uma grinalda de flores que sustentava um pequeno véu branco que lhe caia sobre os ombros e levava à boca um sorriso medroso, ingênuo e puro.
     Terminada a cerimônia, os dois saíram lentamente de mãos dadas, ambos ainda com um certo acanhamento, parcialmente desfeito quando, já na rua, Gamgão beijou ternamente a fronte do esposo. E assim foram os dois pelos jardins do castelo, em direção à alcova de Gamgão. Tudo eram flores. Riam sem motivo e acarinhavam-se já próximo aos pudendos. Ao subirem as escadas, Gamgão cantava alto, acompanhado por Rosmildo:

    – Lá ci darem la mano, / lá mi dirai di si.
       vedi, non è lontano: / partiam, ben mio, da qui.
    – Vorrei, e non vorrei... /  mi trema un poco il cor...
       Felice, è ver, sarei; ma può burlarmi ancor.
    – Vieni, mio bel diletto.
    – Io Cangerò tua sorte.
    – Presto non son piú forte, non son piú forte.
    – Andiam, andiam!
    – Andiam.

     “Já chega”, interrompeu Gamgão ao entrarem no quarto: “Luzes, câmeras, ação. Há coisas mais importantes a fazer. A revolução não precisa de cientistas, nem a alcova de Mozarts. E vós, meu querido amigo. Vós que me olhais com tamanho embevecimento, tamanha ternura, tamanha compreensão sempre disposta a perdoar; vós, abençoada criatura, sois mais belo e digno do meu amor do que todas as Zerlinas que possais imaginar; mais puro do que a limpidez rarefeita do céu outonal; mais suave que os outeiros selvagens, quando deslizam o fru-fru de suas folhas esbeltas acariciando levemente os rotundo plátamos”. Dito isso, ordenou ao outro que se enfiasse na cama enquanto ele iria tomar um banho, aliás, somente banho de asseio, pois afinal tratava-se de um gato.
     Mildinho desfez-se do véu que o cobria, acomodou-se desnudo sob os lençóis frios, fechou os olhos e pôs-se a sonhar com a felicidade mútua que o futuro parecia prometer. Mas mal havia começado esse devaneio e lá estava de volta o gatão, agora completamente nu, com o grosso pênis ereto pingando água, vindo com um sorrizo meio abobalhado em direção a Rosmildo. Mildinho estremeceu-se todo. Sim, mil vezes sim, era isso o que ele queria! Gamgão contemplou-o sério, retirou o lençol e mandou-o virar-se. Obediente, Mildinho ajoelhou-se de bunda pro alto, abrindo um pouco as perninhas e levantando o trêmulo rabinho. Gamgão passou levemente a pata naquela bundinha pentelhuda, abriu as nádegas molhadas, e examinou tudo por um breve momento, com um olhar circunspecto. Ao encostar o pênis naquele pequeno ânus pensou que era estreito demais. Tanto melhor: gostava de orifícios apertados. E enfiou-o todo de uma só vez.
     Mildinho gemia mais de dor do que de prazer, mesmo assim abrindo-lhe sempre mais a bunda, enquanto o outro trabalhava violentamente com a sua caralha enorme naquele pequeno cagador. Gamgão esporrou com força, miando e ganindo que nem cachorro, enquanto um pequeno filete de sangue escorria por entre as pernas de Mimildo, chegando a manchar os lençóis. Satisfeito, o gato desenrijeceu o corpo e fechou os olhos para melhor saborear aquele odor acre de sangue mesclado a fezes que se dissipava no ar. Havia algo de perversamente delicioso naquilo, que lhe lembrava chouriço e lhe enchia o estômago de cócegas. Não havia almoçado. Em silêncio, retirou cuidadosamente o pênis amolecido, lambeu aquele líquido precioso, mordiscou levemente e, para completar, cravou profundamente os dentes naquela coxinha carnuda. Mildinho lançou um grito de dor, olhando aterrorizado para o esposo. Gamgão fixou-o também, mas seus olhos estavam turvos e seu focinho inexpressivo. Lançando uma gargalhada estúpida, ele deu-lhe uma violentíssima patada na fuça, que a deixou uma posta de sangue. Não tinha mais sobre si o menor domínio. Segurou a cabeça do outro contra a cabeceira da cama, impedindo-a de se soltar, enquanto com a outra garra e os dentes dilacerava a carne do pobre animal, que a princípio se debatia inutilmente, mas logo, já condenado, estertorava.
     Gamgão comeu a maior parte, deixando apenas a carcaça, os ossos e a cabeça que, movido por um impulso atávico, levou para enterrar lá fora, como prevenção contra uma improvável necessidade futura.
     Era, como já foi dito, uma fria manhã outonal, e uma brisa purificadora parecia vir do norte. Gamgão escolheu enterrar os restos do seu esposo na colina de um bosque próximo, ao lado de uma grande pedra. Não havia em sua alma qualquer resquício de temor ou arrependimento pelo que fizera, assim como não houvera antes premeditação. Sabia que aquelas testemunhas mudas, a pedra fria, o sol que já ia alto, as plantas úmidas que ainda não se haviam de todo despojado do orvalho matinal – aquela natureza imobilizada e eterna que parecia sorrir-lhe sem memória – eram seus cúmplices. Refletiu sobre a inexorabilidade trágica do destino, por vezes irônico, por vezes cruel. Compreendeu então como era estúpido e arrogante ambicionar mais do que aquele pequenino quinhão de existência que a cada espécie animal a natureza tão sábia e gentilmente houvera doado.
     E concluiu afinal, recordando-se de um velho provérbio de sua própria autoria: “Dai aos gatos o que é dos ratos e ao gato o que é dos gatos”. Sua lua-de-mel houvera sido deveras satisfatória. Verdadeiramente completa.
             
                                               ‘Wie ein Hund’ sagte er, es war, als
                                                 sollte die Scham ihn überleben.
                                                                              Franz Kafka          










MEU AMIGO ALCEU E EU


                                                                               Para saber qual é a do rato você tem de
                                                                               transar com ele.
                                                                                Alceu Valença

Já era noite. Eu estava na cozinha fritando um ovo quando bateu à porta o meu amigo Alceu. Ao entrar ele me olhou com um olhar preocupado e foi logo dizendo que precisava da minha ajuda para matar um rato que lhe andava perturbando o juízo e não lhe deixava mais dormir sossegado.
    Disse-lhe para não se preocupar, pois tenho medo de animais maiores, mas não de um simples roedor qualquer. Subi a escada até o oitavo andar do velho edifício onde morava, entrando no apartamento do Alceu, que é logo acima do meu. Alceu pegou uma vassoura para si e deu um pequeno rodo para mim, dizendo que era para dar com ele na cabeça do rato, caso o avistasse. Fomos até a dispensa, pois ele me disse que o rato deveria estar ali e que ali mesmo é que seria posto um fim na vida do desgraçado. Buscamos lá e em todos os cantos e nada de encontrar o infeliz.
     Fomos então para a varanda. Quando me recostei na murada, ele apontou para fora, um pouco acima do peitoril, e disse nervoso: “Olha, olha que rato, olha!” Eu olhei para fora e, é claro, não vi nada. Foi aí que levei uma vassourada na cabeça seguida de um violento pontapé no traseiro, o que me fez perder o equilíbrio e despencar lá de cima. Foi ao cair, um segundo antes de espatifar-me no solo, que eu entendi tudo. Era eu o rato que perturbava a vida do meu amigo Alceu.









POSFÁCIO (2011)


Estes experimentos juvenis de mérito discutível foram compostos no final da década de 1970. Eles pertencem a assim chamada literatura noir, cujos expoentes máximos foram escritores como François Villon, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Céline, Henry Miller e Bukowski. Ela foi parte significativa da literatura e também da pintura e da música de vanguarda do século XX.
     Como arte do feio e do grotesco, a literatura noir só é possível porque, pela tematização estética da negatividade, é capaz de promover contrastivamente a eventual abertura para um melhor entendimento da condição humana na verdadeira amplitude e multiplicidade de suas dimensões. Ela ambiciona realizar esse intento de um modo essencialmente crítico, o que a distancia do ideal de equilíbrio dos grandes clássicos, exemplificado talvez de forma insuperável pela obra de um dramaturgo como Shakespeare. Mas essa arte, que refletia uma visão ainda equilibrada do homem em sua integridade, só foi possível do interior da cosmovisão organizada que o renascimento herdou da cultura cristã, em uma Londres cosmopolita que florescia no epicentro de um império emergente.
     Nós, que vivemos nossas vidas em um mundo humano fragmentado por arregimentações e compartimentações, um mundo que há muito deixou de existir como um todo único, não tivemos tal sorte. Talvez por isso a literatura noir, que está muito longe de ser a mais comum, se tenha tornado tão significativa. Falta-lhe tanto a moldura para as respostas prontas quanto um oráculo a quem recorrer. Assim, ao invés de propor direções que rapidamente se desgastam em truísmos, ao invés de retrair-se à condição de arte menor, ela coloca-nos frente à frente com as degradações denunciadoras dos embustes ocultos no mundo apolíneo fabricador da consciência feliz.


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